ANGOLA


Diário de Amor e Guerra




Lisboa, 1989




Para Angola, com a ternura dum imenso amor desperdiçado.


Nada sendo ficção, o que adiante narramos é, todavia, uma recriação da vida (ou da morte?).





I Parte


St.ª Eulália

De 31 de Março a 15 de Abril de 1970




St.ª Eulália, 31 de Março


Ocupei, finalmente, os meus aposentos, acabados depois de mais duma semana de obras de recuperação dum antro abandonado, na ponta do pavilhão da messe de oficiais.


- Isto era usado como arrecadação e a maior parte do tempo ficou aí às moscas – explicou o capelão que é o mestre-de-obras do aquartelamento. - Mas a gente dá um jeito e há-de ficar habitável. Temos cá uns rapazes que se desenvencilham mais ou menos, vamos roubar os materiais lá em baixo às casernas e pronto.

- Roubar?! Então e os soldados? Não faz lá falta?! - estranhei.


- Ah, não! Eles ali não querem janelas nem redes mosquiteiras, rebentam com tudo. Faz muito calor, gostam mais daquilo aberto – retrucou, convicto. - O brigadeiro é que não autoriza.


- Mas temos de lhe pedir, não?


- Nem pensar! Se ele adivinha, não deixa bulir em nada. Era uma carga de trabalhos. Fica por minha conta. Descanse que vai bater direito e não é preciso contar nada a ninguém.


Combinámos que me poriam um tecto de barrotes, coberto com placas de conglomerado de madeira para eu não assar aqui dentro, que me abririam uma janela vedada com uma rede mosquiteira e com portadas interiores e que me improvisariam, com um bidão grande de óleo, um depósito de água ligado à canalização da casa de banho privada, de modo a ficar autónomo perante a rede de abastecimento comum, muito irregular, mas recolhendo a água dela.


Hoje sinto-me grato. Um apartamento privativo, fora do mundo. Um recanto meu, isolamento para sonhar, finalmente alguma privacidade desde que tranquei a porta atrás de mim. O trabalho dos soldados e do capelão atingiu tal qualidade que é de profissionais: acabamentos perfeitos, muito confortável e tão funcional quanto era desejável. Tenho a cama, a mesa, a cadeira, o candeeiro de braço para escrever, água com fartura a qualquer hora e uma temperatura amena que nunca julguei atingível com o sistema original de tecto que aqui me acabaram por inventar. É deveras eficiente, contudo. Jamais tal cuidaria quando pela primeira vez o capelão me abriu a porta deste braseiro: uma fornalha sem janelas nem respiradoiros, onde não vingava ponta de luz. Suspeito que entre eles devem ter comentado a minha bizarra situação e então esmeraram-se. Doutro modo não entendo como criaram este oásis no meio do deserto: o quarto é agora francamente melhor que o dos demais oficiais onde me aboletei, até hoje, em comodidades, em autonomia, em espaços, em temperatura. Quando esta rapaziada quer, faz milagres!


Hoje à tarde o capelão chamou-me para eu ver o resultado e me entregar a chave. Ao meu espanto pela transmutação, ele comentou:


- Fizemos o que pudemos. Não diga a ninguém, para não haver problemas, mas olhe que aposentos como estes só os do brigadeiro e, mesmo assim, a escolher um deles eu preferia até ficar aqui, que isto resulta francamente melhor, mais fresco e tudo. Os moços apuraram-se e trabalharam para si com entusiasmo, é verdade.


Na tropa é a primeira vez que deparo com tal atitude. Então agora não é tudo “para se ir fazendo, não para se fazer”, como eles ainda anteontem me comentavam, a rir, aquando do meu primeiro serviço de oficial de dia?


Encontro-me finalemente só e não me sinto nada sozinho. Este apartamento é a solidariedade. Inesperada, reconfortante. Nunca imaginei descobrir-me tão acompanhado na solidão completa.


Vou começar já a escrever Angola, a guerra e o País. Estes primeiros dias à espera do quarto permitiram-me desabafar em poemas. Doravante já terei, creio, serenidade para retomar os factos e registá-los a cru, sem me enfuriar nem perder pelo caminho. Estas memórias de St.ª Eulália completarão um tríptico – com o quotidiano. Irá resultar no clima duma Nação e duma revolta? Para além disto, aqui pulsará o coração do Homem? De tal o juiz derradeiro terá de ser, obviamente, outrem.




St.ª Eulália, 1 de Abril


O Brigadeiro Pedro Serrano, comandante do Sector, é um homem curioso. Universalmente detestado, aqui ou em Luanda (a única vez em que não ouvi propriamente maldizê-lo foi o ano passado durante a Operação Robusta, em que respondi pelo serviço de justiça), quem diria que é um indivíduo sensível?


Há pouco desenhou-se um poente multicolorido sobre as copas da floresta, com transparências irisadas de nuvens esparsas. Dei comigo a passear distraído ao correr do arame farpado, ao lado da pista de aviação, maravilhado com a explosão das cores e dos contrastes. É incrível a rapidez das variações, o alongar das sombras dos morros, a neblina dos vales a cambiar do branco translúcido ao azulíneo, o braseiro do sol em cascatas de oiro a espargir-se pelas folhagens, reflectindo e tremeluzindo em miríades de gotas, como um mar de luz a banhar-nos de arco-íris. Um deslumbramento.


Inesperadamente senti passos atrás de mim, lentos, compenetrados. Quando me voltei, esbarrei com ele. Viera atraído pelo mesmo, com a cara chupada pela primeira vez serena. Abriu-se surpreendentemente num sorriso franco, em busca de empatia:


- Então, alferes Costa, - e eu continuo a sentir-me desconfortável com o trato que me dão em meio militar – Que me diz ao espectáculo? A Metrópole não tem nada que se lhe compare, não acha? Nem Luanda. É preciso vir até aqui para descobrir esta maravilha. Nem tudo é mau em St.ª Eulália, hã?


- Isto – concordei – é duma grandiosidade que esmaga e arrebata ao mesmo tempo. Uma explosão de energia, de vida e simultaneamente uma infinita paz. Para quem vive no coração da guerra, é esttranho e divertido. Mas reconforta e tonifica. Apetece respirar fundo... E repousar, sem pensar em mais nada...


Confabulámos assim, lado a lado, companheiros, até escurecer. Surpreendi olhares inquiridores de outros oficiais, traídos pelo inesperado duma parelha tão desencontrada como nós devanear, afinal, ali despudoradamente em amena cavaqueira. Quem diria?! Eu próprio ainda agora não quero acreditar na revelação. Aquele homem inflexível, gélido, fanático, condenado a um isolamento impenetrável por escolha própria, vive no imo um recanto de poeta ignorado! De repente precisou de conviver, procurou-me com aquele desajeitamento simpático e comoveu-se com o poente, num passeio a mergulhar saboroso pela floresta, pelo Universo além. De quantos rostos somos talhados?


Já num serão, há dias, numa troca de impressões com o major do Estado-Maior (que ainda não compreendi porque veio aqui parar, a não ser em funções de camuflada espionagem sobre nós), quando generalizei um juízo de oportunismo ganancioso a oficiais generais e outros quadros superiores civis, nesta guerra e na situação económica, social e política do País, ele atalhou-me, deixando-me na dúvida, ante a confirmação dos demais presentes:


- Não, aqui o Serrano é diferente. Concordo consigo quanto lá aos tubarões, de estrelas ou sem elas, isso é tudo a mesma corja. Os ideais que pregam é só para os outros, para os que vêm malhar com os osssos na mata, a suar o pó das picadas. Agora o Serrano, não. Pode confirmar à vontade. Este gajo é mesmo por convicção. E não há aí um palmo de terra que ele obrigue um tarata a percorrer em que primeiro não tenha dado o coiro. Vai a todas, não se corta. Nisto temos de fazer-lhe justiça. O homem é coerente. Não há de certeza em todo o Sector ninguém que conheça melhor cada palmo do terreno, ponho as mãos no fogo.


- Claro, mas ele faz o reconhecimento de helicóptero enquanto o resto anda a pisar minas nas picadas – retorqui, renitente, uma vez que acabara de o ver levantar voo a meio da tarde.


- Não, não, está enganado – insistiu o major. - Agora ele vai assim e acompanha tudo desta maneira, mas primeiro correu a pé, um a um, os trilhos todos, ali no meio das colunas, como qualquer soldado raso. Pergunte aos que andam cá desde o princípio que vai ver. É de maluco, evidentemente, isto só dele, mas é a verdade. É intragável, eu também não suporto um sujeito assim, mas quanto aos factos não há nada a apontar-lhe. É por isso que ninguém do topo lhe pega e todos o vão suportando, embora ele chateie tanto os de cima como os de baixo. Senão acha que em Luandda ainda não lhe tinham dado um pontapé? Eles bem sabem que no campo operacional não têm por onde lhe toquem e depois qual deles era capaz de semelhante coisa? Ficavam com a careca à mostra se lhe mexessem, portanto deixam correr. E tipos destes convêm-lhes muito, dão uma capa de coerência ou de moralidade, sei lá, a tudo isto.


O Magalhães confirmar-mo-ia logo a seguir, no quarto dele que transitoriamente eu vinha compartilhando:


- O gajo é mesmo assim, vive para isto. Sente-se realizado quando põe aí a malta toda à fogachada. Para o gosto dele tinha o efectivo inteiro na mata, em operações, a comissão completa, vinte e quatro horas por dia. Depois também fica desvairado quando há uma emboscada ou um ataque a qualquer aquartelamento. Acorre logo e quer levar tudo raso. Fica histérico, fora de si, é uma barata. O tipo é doido, já não tem recuperação – rematou, irónico, enquanto desenhava num papel um pornográfico pénis a que apôs umas asas, transformando-o num anjinho. - Olha o brigas, estás a ver? É ele.




St.ª Eulália, 5 de Abril


O Homem é mesmo esquisito! Os factos, afinal, significarão por eles alguma coisa? É estranho como podemos reagir e valorar de modo contraditório cada evento.


O Magalhães é um apaixonado de Sartre e trouxe dezenas de volumes dele para sublimar o tédio neste acampamento perdido que lá fora é proibido sequer referir, como em Mafra nos haviam segredado. De facto, como aqui gostam de ironizar, nesta zona a gente só domina as picadas e mesmo assim apenas quando as minas não rebentam. O mais é deles: tudo, portanto. Estamos rodeados de quase centena e meia de acampamentos guerrilheiros identificados, fora o que ainda não foi descoberto. É um cerco permanente, com saída apenas pelo ar.


Há bocado fui-lhe restituir alguns volumes que acabei de ler e ele aproveitou para conversarmos numa pequena tertúlia: vieram também o Marques e o Henrique. Era este último o verdadeiro motivo do conciliábulo. Eu já sabia que ele era um alferes artilheiro operacional que, por razões ignoradas, viera parar à cabeça da Zona e à Companhia de Comandos e Serviços, em vez de ir, por exemplo, para a unidade de defesa do acampamento, sediada lá em baixo, ao fundo da pista de aviação. Informaram-me agora, com algum pormenor, de que ele veio para cá transferido por razões obscuramente disciplinares, porque perdera a cabeça quando montava segurança a uma fazenda e atrevera-se a pôr na ordem o tubarão dela, para grande fúria da chefia militar.


O que lhes importava, porém, era o meu relato, com calma, pelo serão adiante, do que ocorrera à volta do meu insólito destacamento do Quartel General para este fojo ignorado na selva, por alegadas razões de serviço. Falei longamente dos meus palpites, em função das actividades, grupos, iniciativas no ensino, animação cultural, comunitária e de apoio pessoal em que me envolvi em Luanda, desde que pus pé em terra, como fora meu intuito ao requerer mobilização para Angola. Mostraram-se particularmente empenhados em levar-me a pormenorizar as últimas iniciativas que tomei antes da ordem de me transferirem.


- Os meus alunos do curso de Assistentes Sociais tinham-me pedido há meses para debater problemas da actualidade. Depois de várias diligências, arranjaram um programa e um espaço: fazíamos um debate quinzenal numa das salas dum colégio particular que funciona numa vivenda, no meio do Bairro do Café. Pretendiam trazer amigos universitários e abrir a participação a quem quisesse. Aquilo era muito central, na alta, ficava-me a cinco minutos de casa e do Instituto de Educação e Serviço Social. Dava jeito a todos.


- Meteram-se na boca do lobo, estou mesmo a ver – murmurou o Marques. - Que diabo de tema é que foram debater?


- Não, não tem nada a ver com os temas. De propósito fugimos dos intocáveis. Nunca falámos, por exemplo, nem sequer de teoria política, quanto mais agora debater a guerra colonial ou o fascismo! Não. Isto é muito mais esquisito. Em fevereiro, os donos do colégio chamaram-me aparte para me dizerem que andavam preocupados com aquela nossa iniciativa, não que tivesse qualquer mal, mas, enfim, tinham os seus interesses, o negócio e o alvará e a boa vontade dos responsáveis da educação, “ o Snr. Dr. compreende”. Acabaram por me confessar que para ficarem inteiramente descansados tinham decidido também convidar um amigo deles para assistir aos debates porque assim é que do lado do colégio ficavam sem mais preocupações e tal. Eu respondi-lhes que sim senhor e lá passámos a ter o informador-polícia em cada quinta-feira.


A conversa prolongou-se pelas aulas que dei e o teor delas (“Snr. Dr., cuidado, tem aqui o filho do Governador-Geral e tudo isto anda a ser transcrito para lá dia a dia” - garantira-me um outro aluno, cuja família tinha ligação estreita com o palácio), pelo acompanhamento e apoio a monografias de curso, a estágios e trabalhos de campo nos musseques, pela animação de tempos livres de esttudantes, com a programação de idas colectivas a filmes escolhidos, seguidas de debates informais, à mesa do café – enfim, um pouco de tudo o que estava ocorrendo e foi abruptamente interrompido sem explicação há semanas para me obrigarem a ficar quieto, em completa inutilidade, neste aquartelamento onde nem sequer tenho trabalho.


- Devo ser doravante quem melhor ganha no País. Pagam-me sete contos e quinhentos para me obrigarem a não fazer nada! - concluí, meio irónico, meio furibundo.


- Ena, pá! Mas que vitória! Uma vitória do caraças! - explodiu, desconcettante, o Magalhães, deixando-me incrédulo e confundido. - Que vitória! - repetia, convicto, e só então compreendi, ao reparar no olhar brilhante e no rosto iluminado dos outros dois.


A minha reclusão no recanto mais ignoto da selva, se é para mim um absurdo intolerável, um abuso criminoso do poder contra a cultura, a comunidade, cada indivíduo a quem pretendi dedicar gratuitamente dois anos de vida, dando o melhor que podia, tal reclusão para eles é a confirmação de que o sonho não morrera, de que mexeram valores com sentido e de que eles tinham tomado corpo e força tais que fizeram tremer o pântano do poder. Obrigar o soberano a sair da casca e a praticar uma ignomínia destas era o desmascaramento, era a vitalidade a desabrochar mais forte que ele, era vencer, afinal! A minha derrota é a nossa vitória! Reencontraram, estranhamente, uma vida que criam perdida.




St.ª Eulália, 6 de Abril


Foi um dia laborioso. Acabei agora mesmo de rever o rascunho duma carta a remeter ao pai do Henrique. Quem diria que em St.ªEulália ocorrem tais inesperados, no aquartelamento mais isolado e impenetrável de Angola?


Quando ontem vim do quarto do Magalhães, o Henrique despediu-se também e, mal a porta foi trancada, perguntou-me, conspirador, se não me importava que ele me acompanhasse até ao meu pavilhão, que tinha uma coisa particular a comunicar-me, mas não queria entrar nos meus aposentos nem que nos vissem juntos.


Era quase meia-noite e o quartel estava silente, a dormir. A única luz descortinável no breu nocturno era a das lâmpadas que rodeiam a cerca de arame farpado e a dos parcos candeeiros entre pavilhões: a dez metros, vislumbramos apenas vultos inidentificáveis. Podíamos confabular à vontade, sob o deslumbramento das estrelas, que ninguém daria por nada.


- É isto. O meu pai é juiz - confidenciou-me ele – e amigo íntimo do Marcello Caetano. Almoçam juntos sempre uma vez por semana. Colegas de especialidade, compreendes? Ninguém sabe disto aqui, só tu é que ficas agora inteirado. Manténs o segredo, que eu faço questão de nunca descobrirem nada, não quero merdas nem dever favores a ninguém.


- Compreendo. E daí?


- E daí o teu caso é diferente. Tu és jurista, és capaz de colocar a questão em termos que o meu pai possa usar. Se queres, escreve tudo aquilo que nos contaste, os factos ali bem clarinhos, hã, que eu junto a tua carta quando escrever para casa. Vai ser o tema do próximo almoço dos dois. Não te posso prometer nada, tás a entender? Mas uma coisa bem feita pode mudar muito. Nunca se perde por tentar, não é?


Fiquei surpreendido, meio incrédulo. Fui sincero, mesmo correndo o risco de chocá-lo:


- Não estou a perceber. Então como é que andas tu por aqui? Com uma cunha dessas nem sequer eras atirador, quanto mais vir agora parar a St.ª Eulália! E depois, que diabo, o Marcello Caetano vir preocupar-se comigo, um reles alferes de justiça, este ilustre desconhecido?! Aliás, nem acredito que ele seja assim tão diferente do resto...


- Tudo bem, pá, faz como quiseres. Só estou a pôr-te uma via de contacto ao dispor. Tu é que tens de escolher. Agora quanto às minhas relações com o meu velho, isso é comigo, ele ignora tudo sobre o meu caso, nem quero que sonhe. Não deixo que meta prego nem estopa em nada, absolutamente nada. É assim que decidi e vai ser assim até ao fim. Mas para não achares isto tão estranho, olha, só te digo que sou da tua opinião quanto ao Marcello e não engulo muito bem aquelas amizades e pronto. Já estás a entender, não e´? Por isso é que, para evitar encrencas, não há misturas entre a minha vida aqui e a do meu pai. Desta maneira corre tudo sobre esferas e eu não quero chatear o velho, a gente entende-se, percebes?


- Isto é um mundo de doidos! - murmurei comigo.


- E depois há outro aspecto que julgo que tens de ponderar. Eu safava-me com uma cunha como qualquer dos filhos da puta que um gajo vê aí por todo o lado. Só que não estou interessado em ser mais um filho da puta. Mas tu, não é uma questão de cunhas, é muito diferente. É dar uma patada nesta corja toda, é obrigá-los a afocinhar. E aí, co'os diabos, aí eu vou! Tás a topar?


- Também te apetecia ferrar uns tiros nuns tantos que andam por aqui muito enfatuados, é? O pior é que o meu caso não atinge nada nem ninguém em particular. E é uma lixeira descomunal tudo isto. Bem precisava de ser varrido!


- Pensa lá e depois diz-me, tá? Para uma guerra destas não tenho qualquer escrúpulo em mobilizar o velhote. E faço força. A sério. Se lhes deres uma bofetada sou também eu que a dou, somos todos, tu entendes isto melhor que eu, ora! Era mesmo porreiro que acontecesse! Nunca se sabe... Mas pronto, não quero influenciar-te, o problema é teu, tu é que tens de...


- Já decidi. A ser como tu pintas, vou escrever a carta. Atacamos por todos os lados.


- Fixe! Entregas-ma quando estiver pronta. Vai logo para Lisboa. Agora bico calado. É melhor a gente nem se encontrar, não vá levantar suspeitas e haver algum estupor que me abra a correspondência e a desvie. Doravante nem nos conhecemos nem falámos de nada, OK?


E eu que palmilhei ceca e meca, todas as capelinhas luandenses, à procura duma ponte que me permitisse furar o irrespirável cerco da podridão! Todas as portas na cara! Agora, inesperado, um salto das profundas do inferno ao pináculo do poder e sem mexer uma palha! A vida joga de improviso às escondidas connosco, metendo-nos sustos à esquina, como a crianças que inelutavelmente somos ante o inviolável ignoto do mundo, da sociedade, da vida, do tempo... Como uma mera carta, provavelmente inócua, é tão capaz de me reconfortar! Desoprimido, sinto-me outra vez a respirar. Um nada de esperança e já ando, impenitente, a sonhar de novo. Mesmo não crendo muito nela, já desponta uma hipotetica frestazinha de porvir. E já não asfixio.






St.ª Eulália, 10 de Abril


Oficial de dia outra vez. Aqui é quase semanalmente. De manhã, uma longa conversa com o sargento da Intendência, grande contador de histórias verdadeiras, um homem farto de comissões que não encontra maneira de o passarem à civil, onde até tem trabalho a aguardá-lo, uma carreira que decerto jamais passará de miragem. Hoje estava um bocado hesitante. Estranhei-o, tão comunicativo é sempre.


- Meu alferes, já sabe que temos visitas? - interrogou, a sondar.


- Visitas?! Não sei de nada. Que é que houve?


- Não. É uma maneira de falar. Vem aí uma coluna da mata reabastecer-se. Ficam lá em baixo na Companhia. Regressam de tarde.


- Ah, tá bem. Mas isso é habitual ou não? Qual é o problema?


- Então fazemos como de costume, meu alferes? - agora é que medrosamente erguia o véu.


- E qual é o costume?


- Olhe, sabe, eles só têm ração de combate. Chegam aí esbodegados de pó e suor, mal dormidos, que tiveram de arrancar de madrugada, e com uma fome de cão. A gente não lhes pode dar nada, que é da lei, para isso é que trouxeram as rações. Mas isto não tem jeito nenhum. Que diabo! Ao menos uma sopa e o pão fresco que a padaria acabou de cozer agora sempre se lhes pode oferecer, não acha?


- Claro, mas conseguem que não venha a causar problemas? O brigadeiro alinha no esquema?


- Não, a gente não diz nada. Depois estica-se um bocaado de cada lado e ninguém dá por ela.


- Mas os géneros e o dinheiro vão-lhe faltar aqui para o acampamento, homem. A rapaziada não vai protestar?


- Não, meu alferes, eles são os primeiros a alinhar. Com este grupo, então, até eram capazes de lhes dar a camisa. É sempre uma festa quando aí chegam. Ainda não ouviu falar? É o sargento Bacalhau. Põe tudo à gargalhada em três tempos. Quando sabem que é ele que vem com o pelotão, repare bem que nota logo: não vai ver aí pela parada nem nas casernas nenhum pronto. Corre tudo lá para baixo. O Bacalhau consegue manter um moral na malta que é falado em toda a parte. É um gajo mesmo fixe. Nunca conheci ninguém como ele. Nem sei como consegue. Aquele homem anda sempre bem disposto, é uma alegria a coluna dele.


- Então, tudo bem. Não vamos estragar a romaria. Isso também dá saúde aos de cá, fechados aqui dentro da cerca onde nunca acontece nada.


- Ah, o Bacalhau traz logo um rosário de novidades. Fica tudo com a escrita em dia. Quer dizer, quanto ao que vai aí pelas picadas, nos reconhecimentos da floresta, nas machambas, nas operações, pelas fazendas... Que lá o que houver fora dos Dembos, em Luanda ou no mundo civil onde a guerra não chega, disso nenhum de nós sabe de nada. Claro.


- Não há problema, portanto.


- Bem, meu alferes, é que hoje, logo por azar, há um pequeno problema. Nós não estávamos a contar com eles, vieram de improviso. Quando avisaram já não havia maneira de arranjar pão que chegasse. Eu fiz as contas e, dando a cada soldado metade do pão habitual, podemos fazer como é costume. Não queria era dar ordens nesse sentido sem ter o aval do meu alferes, porque depois, ao provar o rancho, podia-mo recusar.


- Por mim, tudo bem, mas os soldados? Estão informados disto? Senão ainda vão achar que eu é que lhes ando a cortar na comida.


- Isso é outra coisa. Claro que eu vou dizer o que aconteceu mas não consigo falar com todos. Agora não há problema nenhum desde que eles saibam a razão. E depois, fica sempre tanto pão que se estraga, que é até uma dor de alma. Mesmo no dia a dia eles não comem mais do que o que lhes vai ser distribuído hoje, meu alferes.


- Então eu explico-lhes a situação.


Na formatura mandei dar ordem de descansar antes de entrarem no refeitório, o que intrigou a Companhia. A rotina é tal que uma insignificância destas espevita e atemoriza toda a gente. Ficaram logo de orelha alçada, à espera do pior.


- Queria informar-vos – comuniquei-lhes – de que hoje tivemos de repartir o pão disponível pela coluna que veio cá reabastecer-se. Por isso não vai ser possível dar a cada um de vocês a quantidade do costume. Como os militates que vieram da mata estavam em piores condições que nós, parece-me justo, e decerto todos concordareis comigo, que lhes facilitemos a vida, tanto quanto estiver ao nosso alcance. Hoje foi o nosso pão que lhes demos. Para ninguém poder achar que vos peço um sacrifício e me ponho aparte, vou comer convosco do rancho e hoje não me servirei de nenhum pão.


Os da cozinha, perante isto, puseram-me à frente uma sêmea inteira, apesar de eu não lhe tocar e protestar que a distribuíssem. Que não era preciso, que já todos estavam servidos, que ninguém queria mais pão nenhum. No fim, todas as mesas ostentavam praticamente a totalidade dos pedaços distribuídos, sem ninguém lhes ter tocado. E todos saíram sorridentes, com discretos acenos de despedida para a minha banda. Que fazemos nós da grandeza desta gente?






St.ª Eulália, 11 de Abril, 3h e 30m da noite


Eram cerca de duas da madrugada, rebenta o tiroteio, na zona da Companhia de defesa. Após uns segundos de hesitação, abrem fogo as sentinelas aqui do Comando. Corri em direcção à mais próxima, enquanto da caserna ao lado se esgueiravam, agachados, em silêncio, os soldadoss estremunhados, com as metralhadoras G-3 aperradas, tomando posições de combate. O fogo atroador não parava, proveniente de todos os postos elevados de sentinela que acompanham à roda a cerca de arame farpado do acampamento. Na corrida, à esquina do pavilhão onde já se acobertava meia secção em posição de fogo, gritei-lhes:


- Algum de vocês descobriu o que é que aconteceu?


- Não, meu alferes, quando cá chegámos já andava tudo aos tiros – respondeu o da frente.


- Viram alguma anomalia fora da vedação?


- Não – confirmaram todos.


- Mantenham as posições mas não abram fogo sem ordem para isso.


Corri à torre quadrangular da guarita, meia dúzia de metros abaixo. Tendo-me ouvido, o vigia deixara de disparar.


- Sentinela, donde partiu o fogo?


- Lá de baixo. Não sei de que posto, mas foi da Companhia.


- Alguma anormalidade aqui?


- Não.


- Então mantém-te atento mas nada de tiros sem eles atacarem primeiro. Deixa-os aproximar-se, entendido? Se é que se trata disso.


- Certo, meu alferes.


A conversa quebrara imediatamente o fogo em toda a zona do Comando e, entretanto, os outros oficiais haviam já tomado as respectivas posições junto das tropas. Atravessei o acampamento a correr, rumo à Companhia onde se ouviam ainda alguns disparos isolados. Localizei o posto que mantinha o fogo: era a guarita mais encravada para dentro da cerca, no topo interior da pista de aviação, entre a área do hangar e a das casernas dos atiradores.


- Sentinela, foi daqui que tudo partiu?


- Foi.


- Conta lá.


- Acho que era uma pacaça. Enorme! Atravessou o acampamento pela pista. Veio lá do fundo, da mata, com grandes berros, direita aqui ao posto, passou-me mesmo ao lado, a menos de três metros.


- Porque não a abateste, homem? Tínhamos bife à borla por uma temporada!


- É que ela pareceu-me ferida, com os urros que dava, e mancava duma pata traseira. Se eu lhe atirasse e não conseguisse abatê-la à primeira, ela ia investir e ainda nos matava para aqui a todos. Fazia aí uma razia...


- E então?


- Disparei para assustá-la, a ver se ela se não metia cá para dentro. Fugiu pelo topo da pista, por trás do hangar, direita à floresta ao fundo do morro.


Aproveitei, já que estava dentro da Companhia de atiradores, para fazer a ronda do meio da noite com a secção de prevenção. Saltámos para o Jeep e arrancámos pela picada exterior da cerca, convictos de que tudo retornara à normalidade e o mais que poderia surpreender-nos seria a fera de volta e então deveria mesmo ser abatida. Esta, porém, era a noite dos sustos. Mal virámos a esquina do primeiro lado, o condutor resmunga e, depois de algumas hesitações, trava a fundo e regouga-me, assarapantado:


- Ali ao fundo alguma coisa brilhou. Que fazemos?


- Alguém identificou o que era? - perguntei.


- Foi muito rápido, não deu tempo – respondeu ainda o condutor.


- A mim pareceram-me dois olhos – contrapôs o que ia ao lado.


- Alguém mais viu? - insisti, dado que, da parte de trás onde seguia, para mim era impossível ter captado o que quer que fosse.


- Não, nada – confirmaram os demais.


- Então ponham as armas em posição de meter rapidamente bala na câmara e saltar, caso sejamos atacados. Arranca e aproxima-te lentamente. Todos bem atentos! - rematei.


- Mas o meu alferes está desarmado! Tome lá a minha G-3 – sussurrou-me de repente um dos soldados.


- Não! Não preciso de arma nenhuma. Se alguém ficar fora de combate, sirvo-me da arma dele. P'rà frente!


Avançámos prudentes, perscrutando a escuridão. Inesperados, reapareceram os olhos, agora bem visíveis para todos, a meio do capim, à direita da picada. Um vulto esguio inidentificável esgueirou-se como sombra através do emaranhado inextricável da vegetação, esfumando-se como um fantasma no silêncio da noite imensa. Depois, mais nada. Apenas o ronronar abafado do motor e a nossa expectativa atenta.


Quando a viatura me deixou à porta de armas, todo o aquartelamento novamente calmo, aguardava-me o Magalhães. Fitou-me, espantado, a pistola Walther ao cinturão, e fez-me sinal para acompanhá-lo ao quarto.


- Ó pá, então há uma sarrafusca destas – atirou-me – e tu, ainda por cima como oficial de dia, vais meter-te ali pelo meio desarmado?


- Que queres? Não tenho arma. Como é que havia de ir?


- Então! Requisitas uma no armeiro.


- Requisitaste a tua lá?


- Não. Distribuíram-nos a Walther quando viemos para aqui.


- Estás a ver? Eu também vim para cá e não me distribuíram arma nenhuma. Não achas esquisito? Todos os oficiais têm uma arma de defesa pessoal excepto eu.


- Mas não ta vão recusar se a fores lá levantar, que diabo! Ao menos quando estás de serviço.


- Evidentemente. Mas se eles julgam que não podem confiar em mim a ponto de me entregarem uma arma, não sou eu que lha vou requisitar. Se acham que todos têm direito a defender-se e eu não, tudo bem. Farei o serviço desarmado. Não me mete medo nenhum, nem me preocupa, se é isso que eles julgam.Fui para o meio do tiroteio a peito descoberto e irei sempre.


- Mas para quê, pá? É muito arriscado, raio!


- Se me fazem isto na expectativa de que uma bala com endereço algum dia me atinja, já agora desafio-lhes o gosto. Aposto que hão-de ficar frustrados até ao fim. É a minha vingançazinha. Se alguém cair, ainda vão ser eles antes de mim, a ver vamos.






St.ª Eulália, 15 de Abril


Dia aziago o de hoje. Quando aqui cheguei indicaram-me que o horário de entrada nos gabinetes é à volta das nove, mas, como o serviço caíra na rotina, ninguém era muito rigoroso. Todos entravam nas respectivas secções dentro da primeira meia hora e não havia problema. A princípio, à cautela, tratei de me epresentar rigorosamente ao primeiro minuto. Os escriturários e o serviço de faxina já estavam arrumados. Não estranhei porque os milicianos já me haviam dito que com aqueles era à hora exacta e entravam um bocado antes de nós. A princípio, algumas vezes, também o chefe da repartição, o Capitão Romano, às nove horas entrava e começava a dar andamento à papelada. Durante vários dias não encontraram trabalho nenhum para me dar, até me atribuírem a revisão dos capítulos disciplinares das ordens de Serviço das unidades de toda a Zona. Trata-se apenas de discriminar o que será de ir a despacho superior e o que deverá arquivar-se, por não implicar sanções mais pesadas do que as aplicadas pela hierarquia de cada aquartelamento de origem. Ao todo, são uns vinte a trinta minutos de leitura e sublinhados por dia e, mesmo assim, apenas quando o correio nos traz alguma coisa.


Habituei-me a levar comigo um livro. Venho lendo ao correr das semanas, para não rebentar de tédio. Com o tempo, confirmei que praticamente ninguém entra a horas, há de facto aquele período de tolerância de trinta minutos, findos os quais se encontram todos os oficiais nos respectivos lugares. Mera situação de facto, que de direito a hora de entrar mantém-se inalterada. Passei a apontar à volta de quinze minutos de margem para a minha ida, até por não ter trabalho nenhum que justifique pressas nem rigor particular.


Hoje estoirou a bomba, inesperadamente. Entrei um pouco antes das nove e vinte. O Capitão Romano, já na secretária, increpou-me, autoritário, cara de poucos amigos:


- Nosso alferes, isto são horas de chegar?


- Creio que sim, meu capitão. Todos entram entre as nove e as nove e meia.


- O horário é às nove, nosso alferes. Não lhe permito que entre a horas destas.


- Às nove horas também o meu capitão não entra no serviço, habitualmente.


- Ai não? Quando é que me viu chegar aqui fora do horário? Eu já cá estava quando o nosso alferes agora acabou de...


- Hoje, evidentemente. Mas lembro-lhe que ontem mesmo o meu capitão entrou às nove e dez e eu já cá estava e posso recordar-lhe mais dias. Aliás, são a norma.


- O nosso alferes veja lá como fala! Que isto pode não ficar por aqui...


- São factos, meu capitão. Não têm nada de ofensivo, aliás, uma vez que é a prática de todos os oficiais aqui do Comando. Tive o cuidado de o verificar antes de usar do mesmo privilégio.


- Pois doravante não lho admito. Entra aqui às nove, está a ouvir?


- Perfeitamente. Desde que o meu capitão também o cumpra. A lei é igual para todos.


O Major Frias, impávido, parara à porta a ouvir o final da reprimenda, cachimbo ao canto da boca, o pingalim debaixo do braço. Ia de passagem para a repartição dele, ao lado da nossa. Ainda depois de mim, portanto. Deixou-me sentar e abrir o livro (logo por azar hoje eu não tinha mesmo qualquer despacho a aviar!) e chamou o Capitão Romano para o gabinete dele. Falaram não sei de quê meia manhã. Todo o tempo para ali estive na minha secretária a tentar ler e com a fúria a desconcentrar-me. Como é que um homem novo, pouco mais velho que eu, já tem aquela mentalidade? Palas de quem toda a vida sulcou o mesmo trilho e agora já não logra dele desviar-se, mesmo (e não é o caso) quando o pretenda. Como é possível este totalitarismo arbitrário, a esmagar a gente pelo mero gozo de mostrar quem manda, mesmo em inutilidade completa, por nada senão pelo próprio prazer de humilhar outrem? Sádicos, estes indivíduos são doentes, deviam internar-se num hospital psiquiátrico em lugar de comandarem. O contágio comportamental ameaça-nos colectivamente, Portugal pode transformar-se rapidamente num interminável manicómio. Sadomasoquistas somo-lo em grande parte. Isto nem é uma questão política, é sanidade mental. Um grupo de anormais ocupou maioritariamente o poder, andamos governados por psicopatas!


Depois do almoço o Major Frias abordou-me. Doravante iria apresentar-me no gabinette dele, onde passaria a prestar serviço. Há males que vêm por bem. Abriram-me lugar no canto do fundo, junto à janela, de frente para a porta. Curiosamente, parece-me que fui promovido: tenho dois milicianos ali, o ambiente é descontraído e o major, dizem eles, não chateia ninguém desde que o não chateiem. É, de facto, um homem apagado, de quem não esperava esta atitude. Sorriu-me, prazenteiro, sempre que nos olhámos. Propositadamente apagado? Curioso...






II Parte


Vida e Poesia


De Coimbra ao Cais de Lisboa



Raízes


Timorato, pezinhos de lã, penetrei na Universidade, em Coimbra, em 62. Dezanove anos de olhos estremunhados. Havia guerra, a gente sabia que havia guerra. Mais em África e na Índia, mas também por ali. Tinham corrido rumores lá no Porto, pelo Liceu Alexandre Herculano, durante todo o ano lectivo anterior, e nós, os setimanistas, segredáramos retalhos de luta que o vento soava, em conciliábulos discretos. Pressenti destroços no ar enervado e no silêncio granítico das caras. Pesavam trovoadas contidas nos corações, encanecendo aterredoramente toda aquela juventude estropiada. Não fôramos nós, os caloiros, e as aventuras duma praxe então vivida mais por vezo e desfastio que por irreverência académica, e o ano de 62/63, em Coimbra, era apenas romagem a um campo de batalha ou, pior ainda, a um cemitério. Se não mesmo um enterro: uma juventude afundando-se mai-lo seu projecto, prematuramente velha.


Reparei depois que todos jogavam às escondidas, espreitando pelas esquinas, em rumorejos mal articulados. Vigiavam o papão, bando de crianças enjeitadas. E o papão, para cada grupo, eram todos os outros... Tal infantilismo picou um pequeno resto, um dia de Novembro, a dar nas vistas, a ver em que pararia. Uma festa de caloiros, depois um movimento organizado dentro da JUC (Juventude Universitária Católica). Muitos outros seguiram isto. A temperatura ambiente baixou entre nós e o convívio leal e descontraído tornava-se hábito. Um caloiro também podia ajudar, ou talvez o pudesse por ser caloiro, virgem dum massacre despersonalizador que até as paredes acabrunhara – a grande crise académica de 62.


A guerra, porém, era tabu. Até mesmo a de Coimbra, quanto mais a do País! Pela boca de ninguém consegui ouvir o que por ali decorrera. Apenas um ar magoado, uma lamúria fugidia e aquela tristeza infinita afogando cada interlocutor. E retalhos soltos: “Não, não era política...”, “fazíamos um esforço louco e nada, nada...”, soluços dum pesadelo que tocara fundo demais para o defrontarem a frio.


Então e a outra guerra? De duas, uma: ou os situacionistas apregoavam a patriótica frase publicitária ouvida no último programa da Emissora Nacional e lida no cabeçalho do “Popular” e do “Calino” (“Diário de Coimbra”), ou, pela oposição, num primeiro momento, falava apenas o silêncio. Aquele silêncio que grita.


Mais tarde, a pouco e pouco, uniformizou-se o pregão do lugar-comum, furtado às discursatas patrioticamente pagas, ao arroto bem jantado e avinhado, vomitando destinos da Pátria a torto e a direito. Lado a lado, as mesmas proclamações; intuitos, porém, contraditórios: aqui a seriedade conservadoramente ridícula da frase feita; além, esquerdista, a nu, o vazio tolo mas convicto da boca que a proclama. E venceria, a prazo, a força da ironia – o descrédito acabou por elidir toda e qualquer proclamação oficial do ambiente académico. Por isso, ia meu curso em meio, voltou a ironia da força, com o exército a ocupar o espaço universitário. E a procissão dos mutilados. E o silêncio...


Fui reparando em duas coisas: que era muito mais bem compensado quem fosse inconsciente e que germinava flora nova por via dos primeiros milicianos regressados de além-mar. Em desespero de causa, os detentores da ordem não ignoravam já quem vivia alheio ao traumatismo comum – cumulavam-no de elogios e prémios, negaceavam-lhe lugares chorudos.Evidentemente que o oportunismo fez carreira. Era ver o interminável rebanho de estudantes bem comportadinhos, às 8h e 30m da manhã, a subir os Arcos, ou a colmeia múrmura de alunas obreiras, volitando ao meio dia nos degraus das Letras e disparando aos quatro ventos, ordenadinhas, florindo ilusões pelas desiludidas ruas da alta.


O problema é que havia um espinho no ar e às vezes picava. E do meio da maior futilidade explodia inesperada uma praga de revolta ou um subtil franzir de lábios que nem era bem sarcasmo. Apenas um vago rastilho. Tudo o mais era a grande multidão obediente e cheia de Pátria! Bastaria, porém, o mais desprezível percutor e tudo pegaria fogo. E quanto mais tarde, mais pólvora.


Entretanto, uma inesperada curiosidade rebentou do marasmo pelo guerreiro queimado nas lides tropicais. Todos éramos sofreguidão. Afinal, como era aquilo por lá? Ignorávamos radicalmente tudo acerca do mundo além-mar: a informação pública era, indubitaveelmente, para nós, deformação. Apenas um camarada isento poderia eliminar o problema. Eles, porém, também calavam. Dava a ideia de que não atinavam em como explicar e não acreditavam bem no que haviam visto. Um abismo separava a análise esperada da podridão do real. Convertemo-nos, espontaneamente, à confidência, dois a dois, três a três. E íamos ouvindo.


Reparei mais tarde que não encontrara um único deles concordante com a linha publicamente seguida tanto na guerrilha como na orgânica sociopolítica ultramarina. O porquê disto era perturbador e claramente estranho a meu mundo universitário. Eram casos: corrupção de chefes, colaboracionistas de turras, venalidade, desvio de fundos públicos – e, uniformemente, o testemunho de que a guerra continuaria indefinidamente porque convinha a grandes tubarões. Altos quadros choravam sempre, em termo de comissão, a fonte de receita estancada. Vinha a depravação da mulher (e da família) aborígene pela prostituição militar. Vinha a exploração do negro pelo branco. Vinha o primitivismo actual dos povos. Vinha, no fundo, uma enorme angústia, calando por fim a fala. Logo camuflada pelo indiferentismo de gestos fúteis:


- Ó pá, vem daí tomar uma bica. Não ligues. Ainda ando cacimbado...


Tudo era incrivelmente complexo. Alguns alegavam que era uma causa perdida. De qualquer modo, não atingiríamos nunca a alma negra, indefinidamente continuaríamos a planear e a reflectir em termos brancos e, pior ainda, metropolitanos. E, além do mais, ignoraríamos eternamente o fulcro do problema.


Neste entremeio, meu irmão Antonino dera um salto até Angola. Retornou um ano depois, ao fim dum rosário de frustrações: em lado algum encontrara respeito bastante pelos homens para o estômago lhe aguentar. Até fora capataz de fazenda em Bula-Atumba. E sempre os negros:


- Patrão gente não pode trabalhar mesmo, só comer farinha, gente não pode mesmo, patrão...


E o gerente:


- Vá, aumente o peixe esta semana.


E, daí a dias, calmos os ânimos:


- O quê?! Então continua a dar-lhes a dose aumentada?! O senhor julga que eu ando a roubar ou quê? Ponha-se a pau comigo que ainda vai para a rua! Ora esta! Vá, diminua, diminua o peixe!


Eram trinta quilos de peixe para cinquenta homens – por mês! Meu irmão veio para a rua.


Formei-me em Julho de 67 em Direito. A meio de Janeiro de 68, num encontro fortuito na Universidade, em Lisboa, um conterrâneo avisa-me ocasionalmente duma incorporação militar daí a dias. Dei uma corrida a Oliveira de Azeméis, levantei as guias, arrumei as malas num resto de manhã e, ao crepúsculo, estava já em Coimbra. Às cinco da madrugada despedia-me, lento, da Estação Nova, a caminho de Mafra.


Finalmente iria ver como é que era.






Eu Canto


Não canto a saudade,

Dor bafienta,

Balão de névoa que rebenta

Nos cardos de arame farpado.


Canto o soldado,

Arsenal desmantelado

Nos fantasmas da jovem relva

De traídos sonhos

Raivosamente.


Canto os cães escorraçados

De fiéis

A rosnar intransigentes

Ao calcanhar

Dos potentados:

- Vossa hora há-de chegar!


Canto os dentes

Estraçalhados na arbitrariedade dos reis.


Canto o falcão

De asas cortadas,

Presas quebradas,

Prisioneiro nas militares

Reservas humanas de caça,

- Cidades, países, continentes-prisão -

Seguindo imenso nos ares

O proibido avião,

- Espanto que passa,

Brecha de porvir e de ameaça.






Sumário


Primeiro foi a invernia de Mafra, num pelotão de velhinhos: éramos formados – juristas, engenheiros, sociólogos, administrativistas. Logo no primeiro dia fui identificado por um velho camarada, então Delegado do Procurador da República na Ponta do Sol, Madeira: o Dinis. Por ele encontrei o Tadeu e mais um grupo de colegas. A eles me liguei e juntos elaborávamos as fugas de Mafra. Com o Lima, ex-seminarista, intelectualmente honesto e de rara exigência, chegadinho de Itália, o Roncon, engenheiro criador, reflectindo por números e letras, o mais divertido dos cadetes e, mais tarde, também com o Nina, amante de boa poesia, eram os intérminos bate-papos, descontracção da inteligência.


Mafra – o gelo da manhã, a lama quotidiana, os saraiveiros, as lorpas botas interminavelmente engraxadas, o isolamento, os testes abrindo um fim de semana para o mundo. Do velho convento malfadado me despedi ao lamento do Roncon:


- Aqui o que é pior é que a gente cria amizades e depois não há maneira de as podermos continuar... Cada qual para seu lado...


Veio depois o Lumiar, ia o ano a meio. Especialidade: Licenciado em Direito. Programa: aproveitar a oportunidade para mergulhar em Lisboa e palpar-lhe a vida. Pouco a pouco o meu grupo preferido permeou-se de camaradas universitários fronteiros ao aquartelamento. Cerrada participação em grupos de todo o teor que me rebentaram ao caminho, Lisboa além e fora dela. A incrível vitalidade encontrada levou-me a concorrerr a colocação ali. Perdi, porém.


Fui parar a Évora. Frescas instalações, com família amiga, a reatar-me laços de Coimbra. Coordenámo-nos eu e o Esteves e organizámos a guerra em conjunto. Mas Évora, vistos os monumentos, nada mais me prometia. Requeri transferência para Lisboa e, concomitantemente, mobilização para Angola. Informara-me. O quadro em Luanda acabara de preencher-se, mas eu pretendia, de qualquer modo, ir até lá ver a guerra por dentro. Atenderam-me de ambos os lados.


Entrei no Governo Militar de Lisboa três dias antes da nota de mobilização. Ficaram tão aborrecidos na secretaria com o facto que me não comunicaram a novidade. Foi preciso vir de Évora o Esteves para me inteirar. Depois foi uma correria até ao embarque. Mal sobrou tempo para despedir-me. E com o Esteves e o apagado Freitas que nos acompanhara, aliás, desde Mafra, nos embarcámos no Vera Cruz, rumo às Canárias. Eram 6 de Dezembro de 68. E da Metrópole nos alongámos com enorme enjoo... tal que apenas ao terceiro dia me permitiu arrancar do beliche para respirar a maresia!


Na manhã do dia 15 acordei ao sol da baía de Luanda. Tínhamos acostado e uma colmeia de gente fervilhava, curiosa, nos varandins de além do cais, remirando-nos. Logo descobri conterrâneos de minha aldeia: o mundo é de facto pequeno.


Feita reunião de oficiais e sumária apresentação aos delegados do Quartel General, resolvidos problemas inadiáveis de alojamento e serviço, malas em punho, entrámos por África dentro!


Esperavam-me. Fora, minha cunhada e meus sobrinhos. Meu irmão David iria saltar de pára-quedas no Mussulo. Se fôramos ligeiros, ainda apanharíamos o espectáculo. E corremos ao pequeno paraíso de Luanda, ainda eu não pudera respirar ou olhar à volta.


Principiei por gostar. Muito sol, frescura de água, horizonte profundo, deserto e cosmopolitismo lado a lado, irmanados.


Dias após, entrámos os três novos alferes na Chefia do Serviço de Justiça, onde já nos esperava o Dinis, desembarcado dois meses antes. Abertura dum novo período. Longo? Prevíamos todos que duraria dois anos de convívio em conjunto e enganámo-nos.


Eu tinha vindo para tentar compreender e trabalhar por Angola. Afastaram-me anonimamente e de modo disfarçado, com uma simulada transferência para o mato em trabalho. Pouco após sofrer ameaça de morte à mão armada por um desconhecido, gritada à anciã aterrorizada em cuja casa alugara um quarto, um rádio urgente do Comando-Chefe expulsou-me de Luanda. Levava então quinze meses de comissão.


Fui para St.ª Eulália, coração da floresta dos Dembos, cabeça da região de mais violento terrorismo angolano. Ali fiquei, coagido a regime prisional larvaado, cortado do mundo e da vida. Em inutilidade, por “conveniência de serviço”.






A Evolução das Espécies Humanas


Nem razão nem coração – homem mineral.

Coração sem razão – homem vegetal.

Razão sem coração – homem animal


Razão do coração

Coração da razão – desafio total!






Metrópole 1

Mafra


Ao fim de quinze dias de Mafra ocorreu uma novidade. Houve troca de instrutores: chegara uma leva de alferes que haviam permanecido todo um ano em Angola, a palpar a luta por dentro. Iríamos aprender, de firme origem, finalmente, a guerra concreta em que nos embrenharíamos. Daí para a frente, de facto, tudo mudaria – vivemos Mafra, claro, mas esperta, variada e, portanto, incomparavelmente mais suportável. Anteriormente, porém, não sofrêramos qualquer mau trato, entendêramo-nos equilibradamente com o esporádico primeiro instrutor. Não nos partilhava, porém, do mundo. E não era, todavia, muito mais velho que nós... Ora, o alferes Cardoso, pelo contrário, era mais novo. Foi nele, porém, que nos encontrámos. Por ele não exigir? Antes por conseguir fazê-lo connosco e através das nossas motivações. Porque, creio, aprendemos com ele mais em tudo e nenhum de nós reparou em tal.


Era cada dia mais largo o abismo aberto entre este comandante de pelotão e também o ajudante, sargento Santos, sacrificado para todos, e o comandante de Companhia, prenhe de militança e sabença.


Pouco a pouco reparámos, porém, que era regra. O universo dos alferes, em geral, tendia a divergir radicalmente do dos capitães de então. Claro, havia, dum lado e doutro, excepções. O comandante do segundo pelotão da minha Companhia era mais ignorante e canalha que qualquer do outro grupo. O capitão Inácio, ao invés, era sensível. Viria a morrer pouco depois, em Évora, por deflagração dum dilagrama.


Donde derivaria a divergência entre os blocos? Reparando no martírio do segundo pelotão, ouvi uma aula teórica do alferes comandante deles. Aprendi:


1.º – Qualquer arma é formada de pinchavelhos e merdas;


2.º – O ignorante aumenta em violência o que lhe falta à inteligência:


- Rasteje até mim! - era o mote obsessivo dele, de manhã à noite, a pretexto de tudo e de nada.


O Cardoso logo terminou, por exemplo, com a ginástica de modelo único para todos: cada qual ia até onde podia e queria, todos eram maiores e vacinados. O capitão chamou-o à pedra.


- Como quer que de cadetes entre os 25 e os 30 anos que nunca na vida fizeram ginástica retire o rendimento dos de 20 e 21 anos? - retorquiu. E persistiu no método.

- Aliás, o verdadeiro problema era outro. Um dia revelou-nos que aquele género de ginástica não tinha qualquer utilidade para a guerrilha moderna. Educativa? Tudo bem, mas então o programa teria de alterar-se. Portanto, inventara outro caminho. Tinham, aliás, rebentado desinteligências entre os dois grupos na orientação do curso: a guerrilha ainda fresca nos nervos, queriam aulas para responder-lhe; os mais graduados querê-las-iam para responder a livros. Melhor, o programa era superiormente ratificado, não dependia deles, etc.... Ganharam os donos do poder até porque o mais graduado é oficialmente o inteligente. Continuámos a aprender como orientar guerras de alecrim e mangerona.


Por compreenderem o ridículo em que caíam, medíocres para o aceitarem, os velhinhos mostraram a virilidade, em vindicta, carregando em provas duras.


- Aparatos e aparências! - rosnava o Dinis, ferrando o cigarro.


Sadismo de impotentes, à falta de cabedal à altura para responderem ao que lhes era pedido.


Várias vezes os engenheiros de máquinas interrogaram o Cardoso acerca de mecânica e forças coordenadas, durante o estudo de armas, e encurralaram-no:


- Ignoro como é. Alguém sabe explicar? Pronto, eu vou estudar e amanhã digo-lhe. Se cá não encontrar resposta, prrocurarei em Lisboa e dir-lho-ei depois. Lembre-mo.


O Cardoso era, com toda a naturalidade (não vem nos livros), humilde perante nós e honesto com os próprios limites. O grupo dos capitães de então nunca atingiria tal alvo.


E a autoridade? Respeitávamos o Cardoso e injuriávamos o capitão mai-los congéneres. Como respeitar quem não tem coragem de reconhecer o que é? A autoridade conquista corações; dominar pela força é autoritarismo – degrada quem o usa e quem é usado. Havia por ali muito perito de embrulhar uma no outro.


Adorei a mata de Mafra no alvor da primavera. Preferíamos locais estratégicos para dominar a área e prevenir algum vigia inesperado. Em meia hora, atentos, digeríamos a matéria inteira da manhã ou da tarde. Depois tagarelávamos de tudo, dormíamos a sesta, entretínhamos projectos... Até a carreira de tiro algo tinha de fagueiro quando a quentura abria. À noite, quando o frio moderou e as estrelas brotaram do ar inebriar-nos-íamos de floresta e de astros. Uma vez, eu e o Roncon, furtivos, durante uma progressão nocturna, trocámos trilhos e grupo e alongámos tempo bebendo luar, conversando constelações, debruando lendas moiras, sentados no alto duma colina, O Universo diante, silente e colossal. Quando voltámos, ligeiros, boquiabrimo-nos: éramos os primeiros, os outros andaram ainda mais perdidos pelo sortilégio da noite.


Conto maravilhas porque o programa militar era traído? Creio que o cumpríamos: o meu pelotão era o melhor em aproveitamento e apenas a contraprova física nos não permitia bater-nos com os mais novos. E, contudo, ainda demos um brinde aqui ou além, nas provas finais. Também não era planeado: ninguém se lembrara de tal, ocorreu naturalmente. Outro regime, aliás, e o pelotão não atingiria o melhor. Quase todos nos copiaram, entretanto, o lema. Os alferes eram de mentalidade paralela. O respeito das sensibilidades concretas levava-os a atingir os fins propostos por trilhos inesperados.


Os mais graduados redobraram, com o tempo, de desnorteamento. A partir do meio do ciclo, o capitão tentaria recuperar o prestígio perdido. Veio-nos ao encontro, falinhas meigas, náufrago a pretender ainda nadar. Divertimo-nos.


Para revelar valor intelectual, uma noite em que, no escuro, pretendíamos entrever um morteiro, em rebelde galhofa pela estupidez da aula, investiu ele erguendo problemas ao redor do cano mai-los gases e ali mesmo os resolvia, embandeirado em catedrático. Brotaram borborinhos de todos os lados, assobiando a farsa, e em plena pateada geral se evolou o génio.


Uma tarde, na mata, abordou um pelotão diverso. Teoria da emboscada. Arengou, perguntou, lidou molinetes e reboleras. Inflamado, retornou ao quartel.


- Esqueçam tudo o que ouviram, que é mentira! - aparou logo o alferes instrutor. - Este gajo nunca teve de gramar uma emboscada, imagina lá o que é! Asneiras, um chorrilho de asneiras! É tudo lá dos livros, não admira...


Após várias sortidas falhadas, recolheu ao casulo, como bom ignorante que se preza. Nunca foi capaz, porém, nem os da igualha, de se reconhecerem como tais. O grande problema de Mafra não era Mafra mas a ignorância doutoral do poder.


Dentre as várias festas promovidas durante o primeiro ciclo do COM (Curso de Oficiais Milicianos), obrigaram-nos a ir a uma: tivemos as dispensas de fim de semana cortadas e tudo. Boicotámo-la, vaiámos o pobre do ilusionista, entaramelámos-lhe a língua inúmeras vezes – uma vergonha! Ergueu-se um alferes vendido a impor a ordem: choveu-lhe uma saraivada de injúrias, ironias, palmas, roncos – uma barulheira de estoirar com o planeta! Na manhã imediata, formatura geral e parlenga túmida de virtudes ancestrais, aperaltadas, claro, de “civilização cristã e ocidental”. O pobre do coronel comandante já devia falar mal o português, mas como tinha que respirar tiradas luminosas dos luminares da Pátria e a leitura preferida dele devia ser “A Bola” (que por artes do diabo traz aquelas tiradas aplicadas ao futebol), fabricou tantas e tais asneiras em tão pouco tempo que por unanimidade o elegemos Ministro da Indústria! Ainda gargalhávamos meses depois.


Durante uma aula da tarde alguém perguntou ao Cardoso:


- Afinal, que quer dizer voluntário? É que o Comandante barafustou: éramos incorrectos porque tínhamos ido à festa voluntariamente. Lembro-me de que na vida civil voluntário não quer dizer obrigado.


- Desde que entrei no Exército – comentou ele – a única atitude voluntária que tive foi a de entrar. Daí para a frente, para eles, é voluntário tudo o que me obrigaram a fazer – e encolheu os ombros, rindo.


A prova de que o rigorismo não é coluna de autoridade e de que a insensatez da força apenas revela a insensatez de quem a aplica, deu-a o comandante do terceiro pelotão de minha Companhia. Foi numa aula teórica e ele explicava, no quadro, com figuras. Pedira várias vezes silêncio. Continuava um rumorejar, algures, na sala. Virou-se, brusco, e, paara o primeiro que julgou apanhado em flagrante:


- Paga vinte – eram flexões de braços, o corpo em prancha.


- Ó meu alferes, eu não estava a falar.


- Não?! O senhor ao lado: era ele ou não era?


- Não.


- O outro.


- Não.


- Não estava, não, meu alferes. Mas se quiser, eu pago.


- Bom, então, se não estava, desculpe. Como fui eu que fiz asneira, pago eu – atirou-se ao chão e cumpriu a penalidade, calmo.


Continuou a aula, agora toda em silêncio. Não perdera autoridade: desprezara o autoritarismo e , por aí, conquistara-a.


Era uma presença a cada um, uma solidariedade radical connosco em concreto que nos reconciliava com a generalidade dos alferes instrutores. Libertos de formalismos, direitos ao fim, cultivavam relações humanas sérias fora da disciplina e das regras convencionais, rindo da mediocridade doirada dos quadros, caindo em desagrado porventura. E por aqui entrevíamos o terror duma escola de morte: como recolher nas mãos a vida quando tudo é apenas arte científica de matar?


Então compreendíamos a estranheza de algumas atitudes. Por exemplo, que o Cardoso nos tenha libertado para o meio das colinas arrabaldinas e entregue horas perdidas de anedotas. Ou deixado tagarelar livremente de qualquer temática que vinha à flor das tardes. Ou a alacridade daquele alferes que, indo casar, comunicou ao pelotão a nova e o período de férias que lhe fora atribuído.


- O meu alferes é que tem sorte! A gente anda para aqui, não nos dão folga nenhuma... Deviam deixar-nos, ao menos, ir ao casamento, nós até ajudávamos – comentaram.


- Ó pá, bolas, para aquilo ainda não preciso de ajuda! - lapidou.


A uma pessoa distraída no mundo da morte a vida escorre-lhe por entre os dedos – e nunca mais a agarra. Então é um País inteiro afivelado em palavras de gabinete, em letra de lei. O rio da vida marulha perdido na lonjura.






Orgulho Sedento


Da altaneira penedia o leão reina,

Orgulho solitário.


Por isso as águas se escapuliram

A gerar ternura

Para o sexo recôndito dos vales,

No púbis da floresta.


O leão pena,

Poderoso e vário.

Nunca, porém, os fraguedos o viram

Regar de vítimas a tortura,

Salmodiando rituais timbales,

Quando a sede o cresta:


- Bebe simples a fartura

De água que resta.


Na mal-assombrada gesta

Do planetário inçar da frígida corriola

Do fanatismo, porém,

O leão finca em gargarejo patriótico a testa

E à sede imola

No discricionário da metralha

Todo o mundo e ninguém.


...Só para não ir beber à calha

Onde a terra inteira vai ter de ir também!






Metrópole II

Lumiar


Três meses endiabrados: um pé no quartel, outro na babel. E, até na Escola Prática de Administração Militar, dois mundos: os oficiais da Escola, por um lado, e os da Repartição de Justiça e Disciplina do Ministério do Exército, por outro. Daqueles tivéramos amostra nos velhos de Mafra: tudo tirado na mesma forma! Estes eram colegas milicianos que acompanháramos na Universidade. Éramos nós. Também destes havia, porém, um degenerado: um aspirante, gordo em disciplina, que, por ironia, nos daria “Condecorações e Louvores”! Foi o bobo do curso inteiro. Um dia, o Dinis alinhavou no quadro o emblema do Belenenses que vira pendurado ao peito dum militar e, mui convictamente, perguntou:


- Vi aquela condecoração. Não é capaz de me explicar o que é?


E o inchado aspirante a oficial miliciano gaguejou, encabulou e foi para casa estudar. Na manhã imediata o Dinis voltou à carga. E o rapaz teve de confessar, humilhado:


- Não, não encontrei aquela condecoração em lado nenhum. Ignoro o que é.


Alinhara com os promotores da estupidez, aplicámos-lhe igual tratamento. De tal maneira o ludibriámos que, no fim do curso, confiaria aos demais instrutores, glorioso, após o termos andado a gozar durante três meses:


- Vêem como não era por minha culpa a desinteligência com os cursos anteriores? Neste entendemo-nos todos lindamente!


E cada dia dera, sem saber, um espectáculo de variedades.


Era, no conjunto dos colegas instrutores de Direito, exemplar único.


Pouco contacto tínhamos com o quadro da EPAM: formaturas e aulas de ginástica e de algumas matérias laterais. Tudo gente de pouco proveito. Nunca deparei, em qualquer estrato da colectividade, com tanto alienado. Mal de estrutura? A imbecilidade generalizada é norma? Portugal – um manicómio? A podridão vem de algum lado, não há bruxas. Havia uma cadeira qualquer de “Províncias Ultramarinas”. Ora, o grande mestre era um capitão roceiro, pleno de subversões e palavrões. É curioso: um homem que sofrera anos de luta noutros continentes, vivera noutros povos, mastigara outras línguas – nada tinha para dizer-nos. Lugares-comuns, mais publicidade, mais pátria e cabrões e multirracialidade e filhos da puta e sagrados destinos da pátria... Valha-nos Deus! Ai, mas uma tarde vinha todo gaiteiro! A acção psicológica era uma coisa bestial: dava moral ao preto e à malta! Arregalámos a orelha. Eis, mais ou menos, o teor:


- Eu nunca permito que vá um tarata às pretas sem pagar. Dá sempre encrenca. Não se deixem levar por cantigas: não há cá amor nem meio amor! Paga e cala! Para o amor cá o espera a da Metrópole. É claro que a rapaziada precisa delas para não perder o moral. Mas lembrem-lhes as desinfecções, nunca os deixem ao deus-dará: eles não vão ao médico e depois é um sarilho. E com as pretas, o mesmo. É por isso que se reordenam as sanzalas perto dos aquartelamentos. Elas ficam mais protegidas e a gente tem sempre com quem se entreter... Dá vida. E também controlamos melhor os povos, vai-se deitando o olho. É de grande utilidade que a malta se ponha nelas para verem que a gente não as despreza, que o português gosta dos outros povos. E depois, com os filhos, não há problema, o Estado toma conta deles e entrega-os a educar às missões. A pretalhada também fica favorecida por este lado e entâo ninguém levanta qualquer problema. É preciso é pagar às pretas, dinheirinho logo.


Em resumo: a grande maravilha do Ultramar é que é um imenso lupanar sob tutela estadual!


Ouvira já contar a um velho amigo de colégio que no norte de Moçambique andavam a casar a prazo. Ele vivia com uma preta que pagava por uns tanttos quilos de feijão, arroz, peixe e panos. Aquilo era comum: chegavam e escolhiam mulher para dois anos, pagavam o alambamento e pronto. Daí a dois anos terminava a comissão e o casamento. A mulher estava livre para o próximo. A tribo (muçulmana, ao que parece) não estranhava, era habitual entre eles e, portanto, a apregoada multirracialidade permitia-nos usufruir daquelas pretensas vantagens.


Multirracialidade, a lírica do mulato! Recordo a ironia de alguém à mistura portuguesa de etnias:


- Enxamearam tudo com mestiços? O português é tão atrasado que nem conhece os contraceptivos!


Numa boleia, encontrei um dia um velho missionário do sul de Angola, corrido pelo terrorismo. Perguntei-lhe como andaria por lá aquilo.


- Há muita culpa a pagar, compreende? Há muito ressentimento a gritar justiça. Há muito crime impune. E é proibido falar. Depois, é claro, a não sermos nós a impor uma lei justa, alguém o fará. Repare: em Angola há 300.000 mulatos e cabritos (filho de branco e mulata) que ignoram o pai. Alguém virá a pagar por isto. Alguém terá de pagar. É muito grave! Calar-nos à força não adianta.


Mas voltemos à magistral aula de pornografia. Como era hábito, nós, os juristas, ficámos nas últimas carteiras, cochichando e cochilando. Diante de mim estavam alguns cadetes negros e mulatos, ouvindo, marmóreos, as tiradas sublimes.


- A gente arrebanha-os nas sanzalas, que eles vivem para lá, um em cada canto, em cubatas perdidas. Vamos-lhes dizendo que é para poderem defender-se e para os podermos proteger, mas é claro que o que nos importa é poder vigiá-los melhor. Mas isto não se lhes pode dizer, temos que os levar sem que eles percebam...


Eu respirava o mais infinitesimal pormenor de cada um dos camaradas de cor: rígidos, olhar cravado, de pedra! Não moveriam um músculo, não sugeririam um gesto. Aberto o debate, permaneceram pregados no chão: cada um era um alerta! Do que lhes iria dentro – nada.


Vi, pela primeira vez, o silêncio negro! Gritava e doía.


Lá dentro havia, porém, o outro mundo: as aulas de Direito Militar, pelos referidos colegas juristas que primeiro que nós foram incorporados e agora eram instrutores. Ali era o tribunal de tudo o que ocorria, dentro e fora do quartel, dentro e fora do Exército. Mais uma vez o tempo dava para tudo: aulas e debate da vida. Também lá, fechada a porta, não havia mais formalismo, apenas ordem; não mais aparato, mas trabalho.


Aprendemos muita verdade. Que, por exemplo, não há justiça militar porque o quadro permanente tem complexos de inferioridade perante os licenciados e não os deixa fazer nada senão com lutas sobre-humanas (confirmámo-lo todo o dia, aliás, com os enxovalhos a que éramos submetidos: “Têm a mania que são doutores...”). Que permanentemente se cometem inumeráveis ilegalidades flagrantes, em descarado abuso arbitrário do Direito e do poder. Há uma total ignorância dos mais elementares princípios jurídicos e os detentores do poder prezam tanto o culto da personalidade que não admitem errar e não ouvem ninguém. Grandes senhores inspirados do Alto e, portanto, absolutos, com um tique de infalibilidade papal! Não há qualquer consciência, por parte dos quadros, desta podridão particular – praticam-na como a gesta mais equilibrada do mundo. Até não estranham aplicar um código disciplinar derivado, com remendos, do Conde de Lipp – já lá vai um bom século – e, portanto, repudiaram terminantemente o projecto contemporâneo elaborado na Repartição de Justiça e Disciplina do Ministério. Está tudo tão bem, porque haveria de mudar?


Aqui prospera o absurdo. Descobriram um major que já estava preso preventivamente há dezoito anos – ninguém sabia por quê, por quem, não havia qualquer auto nem documento algum, nem ele próprio nunca fora capaz de aclarar a razão daquilo! Uma história de Kafka ao vivo. Pois o major tratara, entrementes, através dum modus vivendi com o carcereiro, de montar casa e loja frente à prisão, chamara a família e vivia ora num lado, ora no outro da rua, conforme era conveniente para todos conviverem em paz. Dezoito anos! E agora os juristas haviam estragado tudo: condenaram às fileiras, afinal, quem vivia feliz fora do mundo


É um exemplo de inúmeros afloramentos dum estado de coisas de tal modo corrupto que ninguém acreditará por lho contarem. Todo o País vive tão longe do que anda pelas Forças Armadas que ainda não desesperei de ver algum general fardado – oficialmente – de tanga, banqueteando-se com mãozinhas de criança à jardineira – e ninguém reparar! E ainda lhe dará para umas tiradas patrióticas de tolerância multirracial e de assimilação doutras culturas pelo português.


Respirávamos mal no ar degradado. Aguentaríamos para depois esquecer, como os demais. Eis porque ninguém repara naquilo: é demasiado horrível para recordar; a liberdade viva é tão saborosa que ninguém jamais acredita na verdade do que viu.


Foi neste clima que, certa manhã, com importantes personalidades visitando a EPAM, fomos à hora de ginástica. Veio um aspirante dar-no-la. Tudo normal até ao quarto de hora derradeiro. Veio então o instrutor habitual e, sem mais tir-te nem guar-te, obriga-nos a intermináveis violências, aos gritos, insultos, sarcasmos. Cumprimos. Quando farto, berrou:


- A ginástica militar é linda?


Esperou o brado em coro, como é de regra:


- É!


Mas nem um pio. Olhámo-lo todos: palhaço! Desnorteado, redobrou de furor. Voltámos a cumprir, sem um comentário. Entrámos pela aula seguinte além e a ginástica não parava nunca mais.


- A g. m. é linda?


Nada. Voltava à carga; cumpríamos igualmente... As visitas olhavam, alheias.


- A g. m. é linda?


Risos de toda a malta e nada! Tínhamo-lo encurralado, finalmente. Mudara de cor, era agora um tomate esborrachado. Formávamos roda, saboreando, calmos, o espectáculo. Não aguentou, deitou a fugir à procura do Comandante de Companhia para vir educar aqueles meninos maus. E ele veio, muito enfiado, medroso. Já tínhamos deliberado, porém, acabar a faena.


- Então o que é? Vá, vamos lá a acabar com isto. Respondam a mim: a g. m. é linda?


O Comandante de Companhia sempre fora suficientemente equilibrado connosco. Respondemos, naturais.


- É...


Dentro do curso de cadetes também tivemos um exemplar curioso. Não era um grande rapaz, apenas um rapazz grande. Pouco inteligente. Trabalhador. Não tinha o pior aproveitamento mas andava muito longe dos melhores. Lá para o fim do ciclo largou a lamuriar que era malquisto por um instrutor e que ia ficar prejudicado e que não iria cruzar os braços...


- Quando o meu pai vier ele vai ver!


E quem viu fomos nós: a cunha valeu-lhe o primeiro lugar – e uma entrada na Repartição de Justiça e Disciplina do Ministério do Exército! Preteriu os indubitavelmente melhores. Nem vale argumentar com o aleatório dos índices: inventaram-nos para cobrir a arbitrariedade – eu também viria a ser instrutor e também daria notas; fiquei a conhecer bem o jogo.


Alguns dias depois encontrei, no claustro à entrada do Ministério, um dos colegas instrutores: informei-o da deslealdade.


- De admirar seria o contrário. Aqui é sempre isto...


- Não, o que me admira é tê-lo ele feito, um colega. Lá os outros...


- Há sempre uma ovelha ronhosa... O pai dele é coronel!


O comportamento não é hereditário. Mas um clima familiar entranha-se, uma escala de valores embebe-nos e corre-nos depois pelas artérias.






É o Vento que Fala


Quando os cadáveres o homem calam

É no vento que falam.

No vento.


Fronte carregada,

Rubro de ira o rosto das nuvens,

Resfolega, tentacular e ameaçador.

Ferve o calor

De cósmico suor

No ar sangrento.


De repente estala

Com sabor de bala,

A paciência perdida,

Tudo em fogaréus ao redor

Nos músculos tensos do acampamento.

Furiosas as garras, desgrenha

Florestas e montanha.

Sonhos incendeia,

Bosques despenteia.

Revoluteia um telhado

No ar desvairado.

Trovejam coriscos

Tactuando riscos

De dragões na mata.


Agora que a vida

Despida

Se encolheu,

Incontestados reinam os cabelos violentos

Dos elementos.



Apenas então no morro e na mata

Riscada a alvaiade

Ninguém morre nem mata:

- A paz da tempestade!


Bramindo, árvores eternas,

Afogadas em mar bravio,

Tentam gigantescas soltar os pés

E restaurar as pegadas da paz

No quebrado fio

Que a lei dominante desata

E joga no vazio

Das mortes que fez

E faz.


Uiva o vento de ameaça.

Quando o homem cala

É o vento que fala

Do crime de haver gente feita caça.






Metrópole III

Évora


Concorrera a um lugar em Lisboa mas fui para Évora. Não gostei. Medievalismo nas frontarias, moirismo nas mentalidades. Aliás, nos primeiros dias, tudo eram flores: Évora é um presépio de curiosidades arquitectónicas onde os séculos se espreguiçam. E eu arranjara casa mesmo defronte às ossadas do Templo de Diana. Romântico... As pedras, porém, enfartam logo.


No Quartel General não havia trabalho! Logo no primeiro dia requeri a transferência para Lisboa e a mobilização para Angola. Matriculara-me em Filosofia, em Coimbra. Tinha feito uma cadeira antes de vir apresentar-me e resolvi aproveitar o meu tempo preparando matérias. Nos intervalos iria um ou outro fim de semana a Lisboa.


Cumpri o programa por extrema simpatia do reformado Major Vidal que não tinha vestígios de militarismo. Quando ouviu que eu iria requerer a transferência, atalhou logo:


- Então venha, venha para aqui que não tem nada que fazer.


Na realidade, ele e um antigo camarada de Coimbra, já alferes em fim de tempo militar, resolviam tudo e deixaram-me o tempo livre para estudar. E aproveitei-o.


O Major Vidal entrava afadigado, sorrindo, uma piada engatilhada, rabiscava tudo o que era papel pendente e desaparecia porta fora:


- Deixa-me ir, que a minha vida não é esta.


E realmente era lufada de outra vidda, a que eu encontrava pelas ruas e moradias lá fora. O Major Vidal era um vivo, fiel à romagem periódica a um necrotério. Nem quando o meu colega entrou na disponibilidade e o trabalho inteiro lhe caiu nos ombros foi duro. Apenas, com ar infeliz, esperou até eu resolver libertá-lo de parte das papeladas.


Informara-me dos quadros das Chefias de Justiça no Ultramar. Tudo acabado de preencher pelo curso anterior, nenhuma hipótese de mobilização. Tentei, com o Esteves, o requerimento. Pretendia captar a realidade humana e comunitária do teatro da guerra. Tinha até falado ao P. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula, em ir trabalhar com ele. Angola, porém, atraía-me de modo particular por ter família em Luanda.


Évora é uma arqueológica instância de turismo: todos veraneavam lá pelo Quartel General, durante o dia e, ao fim da tarde, pela piscina. Ninguém tinha nada em particular a fazer: uma cura de repouso. Uma guerra de férias! Linguarejavam por todo o lado, na calma dormência do verão. O palavreado pendulava entre dois temas: coração e estômago, na deles putas e farras! O português “sadio” quando não fala dum é porque o está a praticar ou então vai a caminho do outro. Condenados a apodrecer entre esperma e vinho verde.


A inutilidade respirávamo-la no ar, nem vislumbre de ideal na amálgama de galões e grosseria. Todo o frustrado é um masturbador – imita a glória que lhe foge, frui prazeres do alto e baixo ventre à falta de alegria. Todos alardeavam, porém, boa apaarência, felizes no esterqueiro, perfeitamentem conformados com o destino de bácoros. Nisto alinhavam em conjunto, não havia frentes, irmanados na baixeza, cartaz da excelente super-ética militar! Quadro e milicianos deram as mãos. Estranho é que a atitude não germine apenas nestes: ali presos, fora do mundo deles, é natural que o frustramento os fira. Agora, para os demais, é a carreira eleita, a vida preferida...


Por aqueles dias Salazar enfermou. Uma correria, nem comemos nem nada. Tudo de permanência, aos montes pelo chão. Grupos da LUAR na fronteira. Haverá levantamento? Noites e noites dormi na carpete do gabinete do Chefe do Estado Maior, os telefones atentos a Lisboa, um de cada lado das orelhas. Apenas então os diálogos mudariam lá dentro: política.


Original, entretanto: era tudo uma troca de nomes ilustres, com frondosos rapa-pés. Ah! Todos muito amigos deles e então espertos...! Quando Marcello Caetano ocupou a Presidência do Conselho redobraram de respeitos comigo. Eu era o homem do Direito e ele era meu mestre, embora o não conhecesse de parte nenhuma. Nunca fui tão importante! Aproveitei a onda para me divertir: declarei um dia, peremptoriamente, que, mal fora ministro, a primeira lei que publicaria era varrer o Exército de alto a baixo e acabar com toda aquela pouca vergonha! Fui ouvido solenemente e, no fim:


- Não me importo. Desde que me arranje outro trabalho onde vá ganhando a vida... - concordou alguém, com o ar mais compenetrado do mundo.


Um total alheamento dos problemas do País. Várias vezes abri debate descarado em problemas candentes. De duas, uma: ou repetiam respigos de jornal, ou, clandestinamente, murmuravam que já em nada acreditavam. Nomes e mais nomes, sim, a realidade ignoravam-na. Habituados a curvar a espinha, treinavam preventivamente: jogavam um nome à berlinda e era logo uma turbamulta em esforçadas vénias ao eleito. Para além do mais, tudo boa gente, desperdiçada, à míngua dum ideal comunitário para lhe canalizar energias. Adormentados no morno artificialismo em que apodrece a vida que preferiram. De qualquer modo, a minha primeira experiência como oficial não foi dolorosa, apenas fútil. Como reanimar tanto cadáver ambulante?


O tempo correu brusco. A minha família de Luanda viera de férias e conversáramos de Angola. Antegosto apenas, algumas coordenadas de sectores intervenientes e de grupos. Familiarizei-me com personalidades influentes, empreendimentos-tipo e actividades onde poderia vir a enquadrar-me. Ainda demos uma volta pela Espanha. Depois foram-se embora. Despedimo-nos por uns meses.


Fartei-me de Évora. Entretanto embarcava, rumo a Luanda, o primeiro do meu curso, o Dinis. Escrevemos-lhe e ele respondeu, eufórico, com um grande rol de vitórias dos primeiros quinze dias. E até a Clara, a mulher, já iria pôr-se a caminho: trabalho não rareava! E o meu requerimento que nunca mais era deferido! Primeiro ainda viria a transferência para Lisboa. Mal por mal, prevenira-me: a ter de cumprir o resto do tempo na Metrópole, ficaria, portanto, na capital. Colocado na Chefia de Justiça do Governo Militar. E era outro mundo.






Esmoler


Arriba o homem de milenares caminhos,

Mão estendida,

Esmolando primavera em teu sorriso.


Ai teus campos como estão maninhos

E rebentos de aurora em tua vida

Queimados do granizo!


Recusas a novidade cultivar-te.

Como o frustrado é um ameaço,

Prevines tua parte

Ao colo do peregrino pendurando-lhe um baraço.


Franzes, porém, subterrâneo, os sobrolhos.

Teu filho de colo

Abre a mão tenra às estrelas:

- Dá!


Para nunca mais vê-las

Emparedas-lhe as janelas,

Arrancas-lhe os olhos!


Fingirás mais tarde: “Fidelidade ao solo,

Do papá!”


- Mas do ninho podre do consolo

Nenhum pássaro voará!







Metrópole IV

Governo Militar de Lisboa


Éramos metade apenas do quadro normal do serviço. Rebentávamos de trabalho. Os autos pendentes eram montanha, na prateleira da chaminé. O Esteves não requerera transferência: preferira a letargia de Évora à trabalheira de Lisboa! A mim, porém, não importava o trabalho. Pretendia desvendar a capital à procura de oiro escondido, que podridão já eu vira bastante. Atraíra-me o pulular de grupos vivos, flores no pântano. Criei duradoiras amizades. Respirei momentos de angústia e de alerta. Fervilhava então o caso “P. Felicidade Alves”. Cada hora, porém, um novo explodia, afinal. Quotidianos encontros, debates, reuniões: juventude à procura, solidariedade arriscada.


Não sobrou tempo para me inteirar do clima do Quartel General. Três dias após a entrada nele viera-me a nota de mobilização para Angola. O embarque demoraria um mês: por meados de Dezembro. Teria o Natal em Luanda.


Uma noite, porém, em que estive de piquete, tive, por oficial de dia, um capitão detestado e ríspido que, de entrada, logo escorneou contra o meu cinturão. As primeiras horas demoraram muito, largou bílis a torto e a direito. Como eu não reagira, acalmou. Ligámos a televisão. Critiquei um filme qualquer que deram, a convidá-lo, e falámos então muito longamente. Informei-o de que ele ignorava por completo o que era a nova geração. Retorquiu com os lugares-comuns do deboche universitário e da má-criação de toda aquela malta arruaceira que não havia maneira de fazer algo de válido. Expliquei-lhe que o deboche e a arruaça eram o mais notório, por vezes a única linguagem notada, mas não eram, de modo algum, norma. Nomeei-lhe grupos, projectos, empreendimentos, organizações, frentes em debate. Arregalou os olhos: acreditara que a Universidade era um prostíbulo, escola de irresponsabilidade, por inteiro desnorteada pela demagogia juvenil. Desdobrei-lhe, a cru, o livro negro: tipo de ensino, de mestres, alunos e sectores de origem, falhas do País, a percentagem de privilegiados, as reformas urgentes, até o género e estado das instalações. Um mundo novo na cara do capitão. Ficara enleado, nunca previra como poderia ser aquilo. Então foi franco. Falou-me do medo pelas duas filhas que teriam de ir lá parar. Como é que poderia ajudá-las? Andava tão longe do que elas teriam de viver!


Chegara de Angola há poucos meses. Comandara uma Companhia no mato. A propósito das dificuldades dele, indiquei-lhe a mentalidade política do universitário e o porquê maior dos atritos: o paternalismo e a violência do poder. Apontei-lhe caminhos eliminados pelo voto académico e perspectivas eleitas. E mergulhámos no sertão africano.


- É verdade. Isto anda mal. Eu também tenho falado muito. O que é, a gente anda cá na mó de baixo e os galões, aqui dentro, não é?... Mas olhe que há muitos agora ao barulho. Já estoirou até no Estado Maior. Também ali debatem duas frentes. Esta guerra não é ganha pelas armas, claro. Mas há aqueles velhinhos retrógrados que o que querem é morrer em paz... E olhe que há luta dura entre os maiorais, uns por uma profunda viragem de tudo isto, outros por que nada mude. Repare que em Angola não pactuei. Nada de meias medidas. Instalámo-nos e reparei logo que tudo ali era uma bandalheira. Ninguém trabalhava nada. O furriel da Intendência veio cumprimentar-me com umas grandes barbas. Aquilo impressionava e atraía as mulheres. Berrei-lhe que tinha de apresentar-se de tarde com a barba feita logo. Resmungou e tal mas cumpriu. Depois tentou arranjar-me problemas. Deixei de fornecer-me no pelotão de Intendência. Comprados no local, muitos géneros eram melhores e mais baratos que os de Luanda. Descobri que afinal não havia peixe fresco na terra. Arranjei uma encomenda habitual de peixe e vinha de avião para nós e para os civis. Todos ficaram beneficiados. Um dia reuni os oficiais, sargentos e demais graduados e perguntei-lhes se julgavam bem andarem para ali de mãos caídas, sem aproveitar o tempo, quando tínhamos à volta sanzalas completamente ignorantes e afinal todos nós havíamos feito um 5.º ou 7.º ano ou mais ainda. Obriguei-os a dar aulas, arranjámos livros e material didáctico. Cada um ensinava o que sabia. Até agricultura. Tudo. Pôr a render tudo o que havia. E olhe que acharam que eu era mau e afinal, depois, ficámos todos verdadeiramente amigos. Vivemos horas em cheio durante aqueles dois anos. E, se não fosse termos organizado um trabalho daqueles, ter ido a Angola ou não, era o mesmo, não adiantaria nada. Ao menos agora abrimos alicerces que podem prolongar-se e dar alguma coisa.


- O pior é que, justamente, ninguém lhes dará continuidade.


- Aí é que eu não perdoo. Pode perfeitamente garantir-se a defesa e combiná-la com um trabalho em profundidade pelas populações. Mais: conquistamo-los e é a melhor defesa. Porque eles são traidores e não admira, que diabo! Eu faria o mesmo, não iria entregar um irmão meu fugido na mata. Mas eles descobrem quando andamos lá para iludir ou para os promover de verdade. Eles prendem-se-nos. E quando isto acontece não há mais problemas. Agora é urgente é levar as coisas a peito. Enquanto andarmos a brincar não adianta.


- E como é que se pode mudar de rumo?


Encolheu os ombros, ponderoso:


- Anda para aqui muita gente a mais. Nos altos comandos é tudo ignorante. Nunca tiveram uma guerra, nada. E muito menos no género desta. De modo que todos correm a apanhar uns louros tardios. A guerrilha deles é de avião ou de helicóptero, lá pelo alto. Não imaginam o que a gente aguenta cá em baixo. Uma vez, durante uma operação, já andávamos há dias na mata, veio o comandante ver-nos. Contactámos pelo rádio, andávamos atrapalhados, falta de água, exaustos. Vai ele e ordena uma marcha lá para um ponto determinado. Que deveríamos alcançá-lo em perto de duas horas. Vi no mapa: levar-nos-ia aí uns dois dias a chegar lá. Comuniquei-lho. “Não pode ser! Então eu estou a ver o local, é mesmo aí pertinho de vocês!...” Então berrei-lhe, fulo: “Venha cá o meu comandante fazê-lo em duas horas!” Está a ver o desaforo! O maior erro de tudo é o poder andar em mãos de incompetentes. Agora há toda uma frente de novos, a aumentar dia a dia com alguns dos outros, mais espertos. O que dará, ignoro. E já reparou na loucura de condecorações e louvores? Os velhinhos entretêm o tempo a dependurar penduricalhos uns nos outros! Ainda aos novos, vá lá! Agora aquilo é uma vergonha! O futuro de tudo nas unhas duma velharia caquética! Faltam tipos duros, tesos, para cortar a direito. Reformar esta corja toda!...


- E valeria a pena?


- Bem, repare. Angola e o Ultramar inteiro têm de caminhar para a independêencia. Agora pode ir é de muitas maneiras. E não lucramos nada em cortar de raiz com eles. Nós precisamos daquilo, deixemo-nos de tretas. O futuro está ali se nós quisermos aproveitá-lo. E eu acredito que poderíamos levar as coisas a contento de todos. Como agora marcham é que não levarão a nada. Iremos corridos e é uma sorte! Porque há para ali tanta bordoada a dar! Muita asneira por ali houve! E continua a haver... E olhe que não custaria muito a mudar. Aliás, é enorme o caminho andado a partir de 61. Aquilo era ainda muito pior. O terrorismo não veio por acaso, não acredite...


Apenas o tardio da noite nos quebraria o fôlego.


Quem aproveitava a guerra para engordar eram as altas cúpulas. Aquele que calcorreia a picada não irá tão escorreito de encontro à bala que o liquide. A Academia Militar procurrava alunos. Queda alarmante de frequência. Todo o princípio é na mó de baixo, quem pretende concorrer a herói? Para quem de tudo e todos dispõe, porém, o Ultramar implica nutrida vantagem: oficiais generais, primeiros escalões de oficiais superiores e... os embalados em cunhas! Escolhem bem onde poisar e ali armam o ninho. Os outros garantem-lhes a oportunidade: aguentam à frente, a matar e morrrer, perdidos pela África dentro. Enquanto estes sangrarem, fruirão aqueles e outros mais lautos proventos, intransigentemente fiéis à luta “imposta do estrangeiro”, comendo Pátria às talhadas.


Recordo os largos colóquios, quatro anos antes, na Universidade da Paz, na Bélgica, com um Padre Branco, colega de curso, e que visitara Moçambique. No primeiro dia, peremptoriamente, defendera:


- É preciso que vocês lhes dêem a independência.


Argumentei com o enquadramento real, segundo a propaganda do regime, ainda ingénuo: lei, convívio de etnias, projectos, economia. Quotidianamente caminhávamos horas, desmontando os dados. Laborioso, mas eu pretendia confirmar se o estrangeiro é assim tão impermeável.


- “Moçambique: um lago de sangue!” É o que li num jornal quando regressei. É o futuro que vos espera!


Falámos da guerrilha, da mentalidade aborígene, da arrancada do terceiro mundo. Lembrei-lhe que Portugal não era privilegiado como os colonizadores em debandada: não explorara, se calhar, colónias, era tão pobre como elas. Porque não, em vez de retalhar-se pondo cada migalha à mercê do neo-capitalismo e socialismo internacional, arrancarem todos os terrirórios em frente comum? União é força. Claro que teriam de ficar em pé de igualdade. Nada de privilégios de etnias ou regiões geográficas. Aqui é que estaria a pedra de toque.


Correram dias. Uma tarde ele retirou-me dum grupo.


- Preciso de lhe dizer algumas coisas. Depois destes dias, ouvidas as lições, meditei muito. Não acreditaria nunca dantes no que me aconteceu entretanto. E é isto: agora eu compreendo a sua posição.


- Meu caro, porque não, na Europa, um Presidente da República negro? Portugal parece que decidiu consegui-lo. Por mim, estou disposto a isso.


- Sim, sim, tem razão. Mas é urgente fazer alguma coisa rapidamente. Ou perderão o comboio. É preciso, é preciso, rapidamente, alguma coisa! É terrível!


Li-lhe na angústia o rosto trágico dum Moçambique que lhe maltratara a carne. Eu, porém, ignorava o que poderia doer-lhe tanto, ébrio de utopia juvenil; teria depois meu banho de realidade...


Os últimos dias foram uma corrida. Visitei o P. Santos Neves, expulso de Angola recentemente. Desaparecera. Para onde? Falara com ele um pouco antes: Angola vista por um desterrado. Tinha-lhe bebido cada palavra:


- Não me querem lá, não me querem cá... Que hei-de fazer?


Quiseram-no em Paris, informar-me-iam logo em Luanda. Pouco depois era director da revista “Spiritus”. Entre nós não prestava, em França dirigia. Recordo o acabrunhamento dele:


- Queria tanto poder voltar a Angola consigo! A alma ficou-me em Nova Lisboa. Um trabalho tão prometedor! Agora destruíram o Instituto... Por motivos políticos. Nunca fizemos política, empenhámo-nos num renovo religioso radical. Quando algo não agrada a qualquer bispo, carimbam-no de político e o resto é com a PIDE. Até as cartas me apreendem. Para escrever a alguém tenho de mandar em mão. Ainda esperei a liberalização prometida para me abrir alguma porta. Até agora, nada. Tudo o que for promover vida, exigir autenticidade é proibido. A melhor propaganda e justificação do terrorismo é deixar na mão dele o calor humano, o poder criador, a liberdade... Rotular isto de subversivo! Onde iremos parar?


- Mas expulsaram-no?


- Não, dito dessa maneira. Foi tudo muito discreto. Subtileza. Oprimem, oprimem... picuinhas de nada... e esmigalham a gente aos bocadinhos... Depois, oficialmente, eu venho porque quero... ou porque a Congregação ordena, evidentemente... Nem ao menos é de homem para homem, às claras!


Durou algumas horas. O mistério de Angola atraía-me.


Ligeiras despedidas, malas atulhadas, embarquei na tarde tempestuosa, a 6 de Dezembro. Proibi a toda a gente de ir à partida. A Milé, porém, acompanhou-me, firme, até ao fim: era o olhar dos grupos vivos de Lisboa ali no cais, a despedir-se.






Cavaleiro Andante


Cavalgando um navio, pombas nos olhos,

Cavaleiro andante vim

Dos longes do tempo e do sonho.

Ancorei no país dos viúvos pálidos,

Um luto inumerável de órfãos

Pretos de angústia e desistência.


Ao sol equatorial

Todos tiritavam de frio!


Soltando ao vento branco asas de raiva,

Mergulhei-os na espuma das águas virgens.

Germinaram fuba de batuques

Afiados de estupor

E criação. Finalmente,

Grávidos dos gelos do calor,

Inventaram o banquete de ser irmãos.


Eis, porém, que o rei decreta:

A alegria é um crime intolerável!

Capturem o sol,

Desterrem as madrugadas!

Cavaleiros andantes? Passá-los a fio!”


A S.ª Ex.ª que lhe importa o frio,

Que fria a terra a arder convém

A quem a quer manter refém.


Irmãos,

Cavalgando um navio,

Pombas nas mãos,

Cavaleiro andante vim,


- Desafio

Até ao fim!






III Parte


St.ª Eulália

De 20 de Abril a 27 de Maio de 1970






St.ª Eulália, 20 de Abril


- Anda completamente cacimbado – comentava-me o Magalhães, ao serão, no quarto dele. - Mas o gajo grama-te.


- Depois da trela toda que lhe deste sobre Timor, conquistaste-o – rematou o Marques.


Conversávamos acerca do Segundo Comandante, o Tenente-Coronel Bizarro. Foi uma cena divertida à mesa, durante o jantar na messe de oficiais. Ele é um palrador inveterado, sempre em busca de auditório, mas, como os temas variam pouco, não o logra com facilidade. A coroa de glória da carreira dele foi ser nomeado Governador-Comandante de Timor quando principiaram as incursões militares do lado indonésio. Ora, como eu nunca ouvira nada acerca disto e ele estava prenhe de histórias e aventuras, foi com prazer e curiosidade que o acolhi durante as primeiras semanas, ao jantar, e muitas vezes pelo serão fora. Reparei, de facto, que o tema não importava grandemente a ninguém mas não me preocupei. Nem sequer quando o Brigadeiro Serrano, uma noite, já quando estávamos beberricando no bar, comentou, irónico, que o tenente-coronel conseguira, finalmente, um ouvido à altura. Tudo o que ocorrera em Timor me importava de facto, não era favor nem esforço nenhum. Como quer que fora e sem que de facto me apercebesse efectivamente, criámos uma boa relação entre nós que nos permite trocar impressões com toda a franqueza relativamente a tudo. De facto, quase o não vejo durante o dia, mas, pouco a pouco, até as minhas discordâncias relativamente ao que vai ocorrendo no aquartelamento bem como à guerra em geral e à situação do País vem sendo viável pôr na mesa e, curiosamente, o homem expõe-se, sem papas na língua. Já me confidenciou que para cá viera por escolha pessoal porque estava disposto a ir com o Serrano nem que fosse até ao inferno, mas agora já não acreditava, o ídolo caíra, há muita coisa com que não concorda.


- Aquilo é demais. Assim também não – remata, referindo-se à obsessão de combater, de forçar até ao esgotamento os homens, de rebentar com todas as reservas anímicas das Unidades, que hoje reconhece no Comandante. - Isto não adianta nada no terreno. Os turras é que ficam a rir. Ainda se valesse a pena, mas não. É uma cegueira do Serrano e até aí já não vou eu. Mas pronto, vim para aqui, a culpa é minha, agora tenho de aguentar. Mas a gente por cá tem de tornar a vida o mais suportável possível, podem contar comigo até onde depender de mim.


Tínhamos ficado por isto até hoje. Perguntei ao Magalhães e ao Marques se ele era homem de duas caras, se os chagava no serviço ou aos soldados.


- Não, o gajo é estarola mas um tipo franco. Aquilo que é salta logo. Mesmo que o quisesse não conseguia esconder – retorquiram. - Mas está ao lado do brigadeiro, não te esqueças, é o braço direito dele.


O caso, porém, é que durante o jantar o Tenente-Coronal Bizarro pôs-se a comentar a evolução dos acontecimentos político-militares no País e conseguiu deixar lívido o comandante:


- Isto qualquer dia dá para aí um estoiro que eu nem quero ver! É uma barrica de pólvora e vai explodir, mais tarde ou mais ceedo. Cá por mim já tenho para onde me safar. O meu genro é oficial da marinha mercante, enfio-me no navio dele e fujo daqui! - declarou, altissonante.


- Cala-te, homem! - acudiu, atrapalhado, o Brigadeiro Serrano. - Não é coisa que se diga, ainda por cima na messe de oficiais.


- Não me venhas cá com patriotismos, que essa já não pega – desferiu-lhe o tenente-coronel. - Comigo, não. Tretas, tudo tretas. Eu fujo num barco para o Brasil e quem cá quiser ficar que se amanhe. Qual patriotismo, qual carapuça! Se queres apanhar um tiro nos miolos, vai lá tu. Eu não. Comigo não contem para isso. Vai ser para aí um sarrabulho dos diabos! Eu cá não sou herói para coisas destas. Quem as armou que as amargue.


Foi a primeira vez que desatámos à gargalhada, convictamente, na messe de oficiais. Pedro Serrano sorria amarelo, encabulado, sem atinar com que atalhar ao inesperado discurso do próprio delfim.


Que alívio! Aquele homem mudara mesmo? Encontrará a vida lugar, algum dia, nesta terra cronicamente fossilizada?


- Não há dúvida. O homem anda completamente cacimbado e a verdade escapou-lhe – rematei, à despedida para uma noite reconfortante. Finalmente!






St.ª Eulália, 21 de Abril


No princípio da tarde, uma inesperada prenda de anos: um soldado bate-me à porta e entrega-me um volumoso rolo.


- Correio para si, meu alferes.


- Correio?! - estranhei, uma vez que já me fora entregue, à hora de almoço, um aerograma da minha família em Luanda.


- Sim, meu alferes, porquê? Ah, este é especial, mandaram-lho da Companhia.


- Essa agora! Da Companhia?! Quem é que te enviou cá?


- Foi o nosso alferes. Isto não veio no avião de Luanda. Foi um fazendeiro que o trouxe em mão, no teco que esteve aí a meio da manhã, o meu alferes não viu?


Agradeci-lhe e não quis levantarr mais lebres. Já compreendera o bastante. Cerrei a porta e corri a abrir a surpresa. Jornais e revistas em francês e inglês, alguns exemplares escolhidos a dedo, vários quilos de informações e actualizações, dezenas de janelaas abertas para o mundo. Era o planeta inteiro a entrar-me clandestino pela porta dentro, a violar o isolamento de St.ª Eulália, a rasgar a mordaça do silêncio e da ignorância a que me encontro discretamente condenado.


Passei a tarde inteira a actualizar-me e a distribuir novidades. Foi uma delícia, tanto quanto isto pode ter sentido num degredo. Felizmente, ninguém estranhou nem fez perguntas sobre a origem da inesperada primavera. Crêem normal, no meu caso, que o correio me traga documentação desta. O que mais me maravilha, porém, é este aspecto do ocorrido.


Efectivamente, estamos no local mais laboriosamente mantido em segredo, em toda a Região Militar de Angola. Quando tentei, em Luanda, que mo localizassem, nenhum oficial foi capaz. A maioria jamais ouvira, aliás, nomeá-lo sequer, desconhecia-lhe até a existência. E é o comando da zona militarmente mais activa de todo este imenso território. A segurança tem compreensivelmente destas exigências.


O mais bizarro é que, justamente, alguém conseguiu furar o bloqueio tanto do secretismo como do isolamento militarmente imposto e, com um golpe de mestre, através dum insuspeito fazendeiro da região, consegue fazer-me chegar uma tal quantidade de material de qualidade que, mesmo que vivesse em Lisboa ou Coimbra, o mero facto de o procurar e reter seria o bastante para me tornar suspeito à PIDE/DGS e ao poder. Esta situação é verdadeiramente inacreditável e dá-me um reconforto indizível. É que, para me permitirem a alegria de comunicar com o mundo vivo que mexe pela Terra além, tiveram de me fazer partilhar da maravilha, verdadeiramente desconcertante, de ludibriar o sistema que asfixia o País, mesmo no antro mais inexpugnável dele como este lugar é.


Não vislumbro quem poderá ter tomado a iniciativa disto nem que rede montou para tal. Por outro lado, não posso deixar transparecer nada de anómalo, para ninguém suspeitar. Não imagino que riscos anda alguém (e quantos serão!) a correr para me minorarem o abatimento e a revolta que sinto por aqui me encontrar, nas circunstâncias em que mo impuseram. Não quero que venham a sofrer por qualquer imprudência minha. Terei, pois, de manter-me calado relativamente ao modo como aquilo me chegou às mãos. “É o correio”, como exemplarmente falou o soldado, ao entregar-mo. E basta.


Aliás, vou agora mesmo montar uma camuflagem para isto. Do Instituto de Educação escrevem-me a perguntar como e se posso avaliar os meus alunos do Curso de Assistentes Sociais. Vou propor que elaborem trabalhos escritos na base dum esquema aberto que vou definir, tendo por referência a bibliografia disponível lá na biblioteca. Terão de mos remeter para cá até fins de Maio. Assim, o correio vai ter de me remeter para cá muitos rolos de material. Os que eventualmente me voltarem a mandar pela rede paralela serão exactamente o mesmo, desaparecerão no meio do conjunto, é mais fácil ninguém dar pela autonomia dos circuitos.


Doravante, porém, vou ficar a roer-me por voltar a Luanda. O brigadeiro insiste em que só me permite ir em serviço. Requeri entrevista ao Comando-Chefe mas foi recusada. Continuarei a bater na arma dos exames finais dos alunos. Já sei o que vai ocorrer. Terei, em Luanda, uma série de voltas pela Intendência e outros departamentos a levar os recados todos daqui e, se o tempo der, então poderei tratar dos meus trabalhos. O pior é convencer o comandante de que, podendo dar conta do recado como qualquer outro, tenho na realidade maior urgênciaa. Noutro dia, quando o abordei, atirou-me:


- Nesse caso meta férias. Remate os exames durante elas.


- O meu brigadeiro acha que não tenho direito a gozá-las? Ir lá fazer-lhes os exames creio que não é propriamente descansar. E, depois, o trabalho de professor não vale nada? Não é uma prioridade social a promover? É o que o governo diz...


- Não quero saber disso! Se vai arrumar outras coisas é nas horas que lhe crescerem do que tiver de ir lá tratar. Ou então em férias.


Mas ponhamos de lado tristezas. Será que algum dia descobrirei quem me brindou hoje com tão divertido descaramento? Pobre brigadeiro-ditador, nem tu imaginas como isto te torna ridículo! Que gozo!





St.ª Eulália, 25 de Abril


O que preocupa oficialmente são os mosquitos, a fêmea do anofeles, por causa do paludismo. Aqui tomamos a pastilha de quinino duas vezes por semana, é uma zona de alto risco. Alguns dos soldados já contraíram a malária e periodicamente estão caídos na enfermaria, pela estupidez de terem deitado fora os comprimidos quando lhos distribuíram.


A minha luta, porém, tem vindo a ser com as formigas a que aqui já ninguém liga, tantas e tão variadas são e tão incontroláveis se revelam. Eu, porém, não consigo pôr de lado a minha campanha porque o meu quarto-apartamento é um território em disputa entre mim e elas. Em primeiro lugar, encontrei um formigueiro exactamente por baixo do lavatório, numa fractura do cimento. Logo a seguir desataram a trepar-me pela janela e a infiltrar-se pela rede mosquiteira.


Perguntei ao Magalhães como é que aqui resolviam o problema e ele remeteu-me para o centro médico.


- Eles têm lá produtos especiais que dão conta delas. Doutro modo é melhor desistir, porque elas multiplicam-se por todo o lado e invadem tudo. É melhor uma pessoa ignorar.


- As que andam lá por fora, tudo bem. Agora com formigueiros dentro do quarto, um tipo ainda é comido. Vocês também as têm cá dentro?


- Isso não, foi tudo cimentado. No teu há porque estava abandonado e o chão deu de si. Senão a praga não tinha entrado.


Efectivamente, o problema era do mau estado do cimento, rachado em muitos pontos. Acabara de descobrir um terceiro formigueiro mesmo na soleira da porta mas do lado de dentro, com a entrada dele entre a madeira do batente e o solo por baixo dela onde, tudo indica, não chegara a argamassa do piso. Lá fora há um passeio de quase um metro de largo, feito de pedra cimentada e, logo além, é a terra nua do acampamento. Pois no limite e a todo o correr desta passagem, o chão inteiro está esburacado de formigueiros, num emaranhado inextricável de luras e mais luras. É um superpovoamento de milhões destes insectos, de tamanho, cores e formas várias. Parece um jardim zoológico, logo aqui a um metro da minha entrada. O que lhes não admito é que me invadam os meus domínios apenas, que o resto nem pensar!


No gabinete médico emprestaram-me dois produtos: um spray e um granulado. Podia usá-los à vontade, que não faziam falta. Recobri o peitoril da janela com grânulos e, debaixo do lavatório, fiz um cerco com eles à volta da entrada do formigueiro. Na soleira da porta, recobri com um montículo a fenda das formigas. No dia seguinte tinha uma mão cheia delas mortas, espalhadas pelo chão da casa de banho. À janela e à porta não notei diferença nenhuma, a não ser que a fileira que habitualmente trepava pelo batente, à entrada, até ao tecto, desaparecera. Só que não havia insectos mortos no chão. Fui à cozinha buscar uma pá e uma vassoira para limpar o estendal das dizimadas. O desconforto de ver aquele tapete malfadado de milhares de formigas recobrindo o cimento da casa de banho levou-me a tentar uma estratégia diferente. Na véspera, primeiro, pulverizara a entrada dos formigueiros e depois espalhara os grânulos. Procedi então ao invés, de modo a humedecer os grânulos venenosos, na tentativa de que retivessem o outro veneno, a fim de melhorar a eficácia do extermínio. Foi uma razia. De manhã estava um monte de alguns centímetros de altura na base do lavatório. Agora não haviam logrado sair fora do cerco dos grânulos, morreram todas dentro dele. Durante mais duma semana foi isto. Nunca imaginei que um formigueiro pudesse conter uma quantidade tão inumerável de animais. Finalmente, parou. Os grânulos continuam lá dias e dias e nem mais uma formiga aparece. Daquelas, portanto, libertei-me. A rede mosquiteira da janela igualmente passou a eliminar as intrusas, incluindo as moscas que também gostam do veneno. E à porta deixei definitivamente de ver os animais. Mas isto é que é o mais intrigante. Nunca descobri uma destas formigas morta. Por onde se escapam? Como resistem ao atractivo do veneno que aniquila inúmeras outras? O mistério afiou-me a curiosidade e vários dias espiei aquela entrada permanentemente abandonada, à espera duma pista para o problema. Como não logrei aperceber-me de nada, cansei-me e, durante uns tempos, distraí-me. Deixei de vigiar o recanto.


No fim da semana transacta veio a surpresa. Estava a deitar-me, de livro na mão, para ler um pouco antes de adormecer, quando um minúsculo reflexo brilhante a meia altura do batente da porta me chamou a atenção. Parado. Mas não havia dúvida, era a cabeça duma formiga. Corri a acender a luz do tecto para verificar o fenómeno, até porque não lhe via o resto do corpo. Então fiquei mesmo embasbacado. O animal olhou-me fixo um instante e imediatamente desapareceu. Tive de ir até à beirinha para compreender: haviam fabricado um túnel todo tapado que já ia a mais dum metro de altura e aquela era a sentinela que me vigiava, encarregada da ordem de retomarem o trabalho quando eu já estivesse fora do campo. Apenas a apanhara pelo reflexo da luz do candeeiro na cabeça, doutro modo ter-me-iam ludibriado por inteiro.


Destruí o tubo do túnel, admirando tanto a esperteza dos animais quanto a solidez e disfarce da construção: ele era constituído por um cimento resistente e duma tonalidade que o confundia facilmente com a madeira e a parede na junção das quais estava a ser erguido. Apesar de o desfazer em mais dum metro, não encontrei novamente nem vestígios de nenhuma formiga. A própria sentinela se pusera a salvo prontamente. Voltei a cercar de grânulos humedecidos a base do batente por onde se escapavam para dentro do formigueiro.


Nos primeiros dias, nada. Pois hoje, quando entrei, ao fim da tarde, no quarto, já estavam novamente com uns dez centímetros de túnel construído. E, claro, sem vivalma mal penetro nos aposentos. Destruí outra vez tudo. Mais uma dose reforçada de veneno.


O problema, agora, é que me estão a vir escrúpulos de continuar a luta com tais bichinhos. O comportamento deles é um milagre de inteligência. E depois, que diabo, sinto-os demasiado iguais a mim próprio! Pois que ando eu a tentar senão furar túneis disfarçados que me permitam levar a água ao meu moinhpo, apesar das teias de prepotência e obscurantismo que nos asfixiam inexoravelmente no País inteiro?






St.ª Eulália, 30 de Abril


A força da mulher é estranha. Se nunca tivera sido forçado a este isolamento jamais me aperceberia da falta que me faz a feminilidade. Creio mesmo que, caso fora esta a condição normal de vida, jamais hesitaria em casar com qualquer das antigas namoradas que me foram ficando pelo caminho dos anos. Nas condições em que nos encontrámos e convivemos, a relação nunca foi considerada por mim bastante satisfatória, muito embora sempre haja terminado num clima de eentendimento e até de amizade. Agora, a extrema carência do convívio feminino torna obsidiante a ternura e o erotismo, quaisquer que sejam as condições. Perante o doloroso vazio, tudo o mais perde o valor e a premência. Ficamos dispostos a tolerar seja o que for desde que possamos contar com a solidariedade, o carinho, o gesto, o olhar duma rapariga. Recordo-me do Branquinho, na Metrópole, quando retornou da Guiné:


- Eh, pá, quando regressámos a Bissau depois de tantos meses de isolamento na mata, só havia mulheres bonitas! É incrível, não consegui achar nenhuma feia!


Nos primeiros dias não compreendi a obsessão dos militares, soldados, sargentos ou oficiais, em irem todos os fins de tarde em romaria até à sanzala que nos fica uns cento e cinquenta metros à frente da porta de armas. Mesmo como prostituição era excessivo. Numa das rondas, quando estive de serviço há dias, o piquete quis levar-me a conhecer o povoado, espantados que ficaram por lhes ter dito que nunca lá fora nem me lembrara de tal. Curiosamente, à medida que íamos parando cubata a cubata, ora assistindo à lavagem dum miúdo numa celha de madeira, ora ao depenar duma galinha para uma moamba, ora ao grupo a conversar despreocupado à esquina da viela, fui-me apercebendo de que todos mantinham relações de conhecidos há muito, quase familiares. Era isto o que antes de mais os militares buscavam ali. A lavadeira fez tanta festa aos soldados que iam no Jeep, enquanto tratava dum dos filhos, como o único branco, dono do café-tasca do aldeamento, quando nos viu. Até pelos nomes se tratavam, o que emprestava ao passeio o ar duma visita, dum encontro de vizinhos, ao fim do dia de lavoira, num pátio qualquer de aldeia nortenha ou beirã. Era o retomar da vida descontraída que se perdera ao entrarrmos na guerra e principalmente ao cairmos em plena floresta dos Dembos. Com a particularidade significativa de aqui só encontrarmos mulheres, crianças e velhos negros e nem sequer um homem válido desta raça para amostra, fenómeno comum a todas as terras das áreas de intervenção militar com populações controladas, como constatei nas colunas de reabastecimento que comandei através de Angola inteira. Isto levou-me a compreender porque a sanzala não é, afinal, um prostíbulo apenas, como primeiramente supus: o convívio com as raparigas e mulheres, a boa disposição compartilhada, as pequenas entreajudas e serviços, a confiança mútua acalmam de tal modo a fome de intimidade, erotismo e sexo que, pouco a pouco, estes retomam o peso relativo que no equilíbrio da personalidade devem ocupar e a vida emocional de cada um avizinha-se do saudável. Quebra a agressividade e aumenta a exigência tanto mais quanto mais devém próximo cada relacionamento em concreto. Isto reduz a prostituição, o sexo vazio, por inúteis e sem sentido.


Agora foi a vinda inesperada da mulher do Capitão Romano para passar duas semanas no aquartelamento. Ele bem preferia ir gozar férias onde melhor lhe aprouvesse, mas o brigadeiro não o autoriza a sair, considera-o imprescindível aqui, pelo que, a título excepcional, permitiu que a esposa e não ele se deslocasse e permanecesse na cova dos leões. Uma banalidade destas adquire neste contexto foros de tal sensacionalismo que é motivo de comentários constantes de todos os oficiais. Ora, à refeição é que isto devém equívoco. Habitualmente sento-me à frente do capitão, entre os alferes e os oficiais superiores. Como o Romano tem a esposa ao lado, o casal encontra-me, assim, como interlocutor privilegiado naqueles momentos. Nunca tive conversas de jeito com ele, dada a mentalidade totalitária que o caracteriza, embora as relações mútuas se mantenham sem qualquer atrito, uma vez distantes no trabalho. Para a senhora, porém, é constrangedor sentar-se a uma mesa de oficiais, todos com grandes rapapés mas inibidos em lhe dirigirem a palavra. No primeiro dia ela privilegiou-me de tal modo na conversa, recordando tempos e amigos e conjunturas da vida universitária que ambos partilhámos, embora em locais diferenttes, que o jantar quase se transformou num ritual: nós os dois celebrando a palavra e a memória saudosa e libertadora e todos os mais em religioso silêncio, venerando o augusto episídio da salvação. Eu estive tão distraído nestas evocações que só no fim do repasto reparei no extremo desconforto do marido, reduzido a um mutismo sem apelo, por manifesta falta de matéria vivencial dele para intervir. Pelo canto do olho notei então que o campo dos milicianos mascarara uma serenidade irónica mal contida, gozando por trás com a situação, por óbvia antipatia de todos pelo Capitão Romano. Vinham gozando à grande o pratinho há um ror de tempo e eu sem ter dado por nada.


Durante a bica, no bar, a situação tornou-se incomportável, uma vez que a senhora, não se apercebendo evidentemente de nada, com a maior das ingenuidades continuava a meu lado, conversando do lar universitário e das festas e dos equívocos e assim por diante, enquanto os meus camaradas, espalhados agora ao acaso pelos recantos, me frechavam com olhares irónicos e sorrisos mordazes, verdadeiramente deliciados com o exasperamento do capitão, doravante indisfarçável. Estava nervoso, com o rosto congestionado e inquieto. Era manifesto que se apercebera da chacota que malevolamente todos aproveitavam para fazer dele. Despedi-me o mais rapidamente que me foi viável sem ser antipático. É claro que todos correram logo atrás de mim.


- Eh, pá, aquilo é que foi galá-la ali mesmo nas trombas do gajo! - comentou logo um.


Agora era eu que me sentia desconfortável.A incapacidade de compartilharem o diálogo levava-os a perverter de imediato uma conversa inocente e salutar.


- Ora, não estraguem o que é uma altura boa para toda a gente. Faz-nos falta ter o convívio com a mulher aqui neste isolamento. Acho é que devíamos aproveitar para lhe criarmos um bom ambiente, para ela não se sentir tão estranha no meio disto. Era benéfico para ela e para nós. Mudava logo o clima todo cá dentro.


- Mas ninguém a maltratou, acho que todos foram correctos e lá por gozarmos um bocado com o Romano não vem mal ao mundo – contrariou o Magalhães.


- Pois. Mas vocês não ajudaram nada - critiquei. - Isso pode é criar tensões e mal-estar. Disto já cá temos que chegue. Não sei porque não entraram na conversa. Julgo que era importante, até para não haver mal-entendidos estúpidos. Todos se sentiam agora melhor e já ninguém ia estragar a estada dela que, coitada, não tem culpa nenhuma de ser a única mulher no meio deste mar de homens.


- Como é que a gente ia conversar? Que diabo, falar daquilo só vocês é que podiam, quando muito os médicos também... - reflectiu o Marques. - Que é que eu sei agora do que anda pelas Universidades? Quase não tive tempo de as cheirar...


Isto forneceu-me a pista. Desde então preocupo-me por variar os temas e, a meio da conversa, distraio-me de propósito com comentários comezinhos para os meus vizinhos do lado, obrigando-os a entrar no colóquio quase sem quererem. Nunca tratei tão bem o Capitão Romano. Quando o vejo na iminência de ficar fora da jogada atiro-lhe uma ponte, de modo que ele encontre uma achega sua para introduzir na teia das intervenções. Ignoro se ele se apercebe. Provavelmente não, mas, pelo menos, nunca mais ficou tenso nem desajeitado. É claro que o centro de todas as atenções continua a ser a senhora, mas doravante não há disputas nem subentendidos, é o convívio com a mulher, aqui necessariamente rainha sem apelo, por força das circunstâncias. E, neste contexto, até o marido parece hoje sentir-se enaltecido. Agora a vida tem mais sabor. E, claro, tudo sofreu uma reconversão enorme perante a conjuntura, como um dos médicos resumia exemplarmente no caso mais flagrante, há pouco:


- C'um raio! Até o Tenente-Coronel Bizarro deixou de dizer palavrões! O que uma mulher pode!






St.ª Eulália, 1 de Maio


Sem história até às 23 horas. Cheguei a convencer-me de que era oficial de dia e nem dava por ela. Mas não. Hoje ocorreu a primeira baixa. Entra-me o cabo das comunicações a correr no quarto:


- Meu alferes, meu alferes! Um rádio urgente. Uma evacuação das Três Marias. Em risco de morte.


- Não pode ir aqui para o Centro Médico?


- Não, meu alferes. Tem de ir já para o Hospital Militar de Luanda, diz o snr. doutor.


- Accionaram o transporte?


- Pedimos um Dakota. Está cá dentro de três quartos de hora.


- Têm alguma informação do estado do ferido?


- Fractura das duas pernas e da bacia. Eles não explicaram bem, não sabem...


- Fractura? Então foi acidente?


- Parece que sim . Um Unimog, durante um patrulhamento, desequilibrou-se e caiu-lhe por cima. Estão a trazê-lo pela picada, devem chegar dentro de minutos porque já saíram há mais duma hora.


- O Dakota consegue aterrar aqui numa noita destas? Não se vê um palmo no escuro.


- Consegue, meu alferes. Eles só têm de iluminar a pista. Na Companhia sabem como, está tudo preparado.


- Já lhes deram ordens?


- Isso não, meu alferes. Tem de ser dada aqui pelo Comando. Por isso é que vim avisá-lo.


O brigadeiro ainda se encontrava à conversa no bar. Fui rápido informá-lo e perguntar-lhe como accionar o apoio à emergência.


- Pergunte ao nosso Capitão Romano, que ele logo lhe explica o que deve fazer.


- Já foi para o quarto, meu brigadeiro. Ainda por cima está cá com a esposa, não gostava nada de o ir incomodar.


- Ah! Não tem importância nenhuma. Bata lá à porta, que ele tem de atendê-lo, está em serviço, ora essa! Vá lá! Vá lá!


Não me consigo habituar a esta insensibilidade, à indelicadeza destes constantes pequenos nadas com que nos apodrece a vida. Que diabo lhe custava informar-me de qual o procedimento habitual? Ainda dei uma volta pelo pavilhão dos oficiais, à espreita de qualquer luz acesa. Os antigos pôr-me-iam a par da praxe estabelecida, escusava de ir bater à porta do casal. Infelizmente, porém, tudo dormia já. Tive de resignar-me. Não me admirei nada da demora: insisti por três ou quatro vezes e acabei por ter de chamar em voz alta. Efectivamente era natural que o capitão julgasse que era engano ou então uma brincadeira de mau gosto, antes de convencer-se da realidade: eu tivera mesmo de procurá-lo àquela hora da noite, sem qualquer motivo bastante para invadir-lhe a privacidade.


Espreitou-me à porta, escondendo a nudez por trás dela, uma camisa desabotoada enfiada à pressa, segurando com a mão o botão do colarinho.


- Uma evacuação de emergência dum soldado das Três Marias em risco de vida. O Dakota chega dentro de minutos. O nosso brigadeiro mandou-me perguntar-lhe como é que se faz.


- É só ir à Companhia avisar o piquete de prevenção. Têm tudo montado lá. Espalham as lanternas na pista e pronto.


- Mais nada?


- Não.


- Muito obrigado e desculpe, meu capitão.


Tão simples como isto. Se era preciso incomodar alguém por semelhante ninharia, ainda por cima nas circunstâncias em que o casal está a viver aqui!


Quando cheguei lá abaixo, todos estavam a postos, aguardando apenas sinal para correrem. Em cinco minutos, os rapazes colocaram as cento e cinquenta lanternas de petróleo acesas a marcarem os bordos exteriores da pista de aterragem. Agora era aguardar o avião, ainda inaudível. Entretanto, acabara de chegar a lenta coluna que por terra transportara o ferido desde a fazenda. Viera devagar dado o estado do soldado e o piso esburacado e pedregoso da picada. Os médicos aguardavam, ansiosos, prontos a intervir no que os parcos meios do hospital de campanha lhes permitissem, para, pelo menos, impedir a morte do jovem durante o trajecto. Puseram-no a soro e foi imediatamente para o avião, ainda sem sentidos. Quase não houve tempo de dar por nada: o Dakota aterrou, foi até ao fim da pista, estacou uns segundos depois de dar meia volta, acelerou e elevou-se acto contínuo nos ares. Era uma luta contra os minutos, o relógio é que separa agora a vida da morte. Por fracções de segundo, este soldado pode salvar-se ou morrer. Todos foram, por isso, incrivelmente lépidos no atendimento, a ponto de isto se projeectar ainda na recolha da sinalização de pista: efectivamente, quando me aproximei da rede na zona do Comando, com a sensação de que haviam decorrido apenas alguns instantes, já nem uma lanterna restava para amostra e tudo retornara ao silêncio abismal da noite na floresta.

Como esta proximidade entre vida e morte nos aguilhoa, como nos força a cerrar os dentes contra o desespero da ameaça!






St.ª Eulália, 4 de Maio


Um dos fenómenos mais estranhos das últimas semanas é a inesperada apresentação em massa de populações anteriormente controladas por guerrilheiros. A princípio aboletaram-se na Companhia, em pavilhões vagos junto à cerca, enquanto aguardavam transferência para Nambuangongo, onde havia espaço e enquadramento laboral e social para novas sanzalas e alargamento das anteriores. Doravante, porém, é complicado. São tantos que é um problema, lá como aqui. Até falam em alargar Quipedro. Têm de lhes arranjar terreno para as lavras e a capacidade de os acolher e reintegrar não acompanha o número imprevisto que vêm atingindo. É já uma sanzala inteira que mora entre os soldados lá em baixo. Até notamos a mudança de rumo ao fim do trabalho diário: muitos, em lugar da romaria até ao povoado em frente, preferem agora atravessar o acampamento para se juntarem na cerca da Companhia, à conversa com os homens e a observarem as mulheres. Com estas não é viável comunicar senão por gestos, porque apenas falam quimbundo que ninguém aqui compreende. O português dos homens é também muito mal alinhavado mas basta para se entenderem. Aprenderam-no enquanto contratados nas roças do café da região.


Tudo começou com uma operação em grande, desencadeada há semanas com apoio aéreo. Não pararam aqui, durante vários dias, a meia dúzia de helicópteros e os monomotores Mosquitos, velhos, pesadões e lentos mas ainda eficazes nesta guerra troglodita na matéria e nas formas. Tudo planeado em sigilo, apenas dei por algo quando os aparelhos enxamearam a pista, despejando e levando oficiais ignotos permanentemente, num vaivém de festa e morticínio. O brigadeiro passou o tempo no ar, seguindo a par e passo toda a movimentação. Deram cabo de quantas lavras havia detectadas por toda a região, fora do controlo das populações anexas às unidades militares. Bombardearam os acampamentos da guerrilha mais provavelmente sinalizados por baixo do inextricável manto das copas da floresta. Provocaram baixas, não provocaram? É incontrolável em definitivo. Apenas uma tarde o brigadeiro retornou para almoçar verdadeiramente eufórico:


- Pareciam formigas a fugir pelos trilhos. Aquilo é que era correr! E atingiram-nos a nós com uma ou duas fogachadas. Temos ali uns buracos – e ria, os olhos a faiscar de prazer.


O abalo da rede de controlo de civis pelos guerrilheiros e a fome que atingiu as sanzalas privadas das culturas levou ao movimento actual de apresentações. Até há pouco eram esporádicas. Há dias apareceu um autêntico chefe do povo com quarenta indivíduos duma assentada, o Anjo da Cruz, de seu nome. Foi um frenesim. Ainda por cima o homem veio disposto a cooperar na libertação de toda a população do acampamento donde fugiu e onde lhe ficaram ainda alguns familiares. É brilhante, porventura espectacular, a retirada deste civil. Chefe duma grande família poligínica com múltiplos colaterais, decidiu usar a manha para abandonar a sanzala onde eram retidos à força por oito guerrilheiros armados da FNLA.Viviam ali obrigados a produzir alimentos para aquela organização. Agora estavam a morrer à fome e sem horizonte de sobrevivência, dada a destruição maciça das lavras. Quase não corre um dia sem um ou dois mortos à fome no povo dele. Bem quereriam apresentar-se mas o risco de imediato fuzilamento retém a maioria. Anjo da Cruz, porém, não se inibiu. Atirou-se ao caminho a meio da noite em completo silêncio, com mulheres e crianças e alguns homens mais afoitos. Lograram não despertar nenhum dos guerrilheiros e puseram-se a salvo, mesmo escapando à inexorável perseguição que lhes armaram quando de manhã os tentaram interceptar. Trouxe toda a gente indemne até aqui por vias inesperadas e bem estudadas para jamais se exporem, permitindo-lhe ainda controlar os perseguidores à distância.


Estive com ele esta tarde. Fez questão de apresentar-me as duas mulheres. A mais idosa, tímida, engelhada, escanzelada, rodeada duma caterva de filhos, alguns já muito espigados, olhou-me meio amedrontada com um sorriso hesitante. Ela é que é a primeira esposa e, portanto, é quem faz as honras da família. Ou deveria fazer, o que é inviável aqui onde o desenraizamento é completo e tudo o que lhes entretece a cultura não existe. Quando Anjo da Cruz lho ordena, ela entra para me apresentar a segunda consorte, uma jovem de rosto regular e formoso, corpo curvilíneo bem constituído, toda envergonhada e tímida.


- A primeira, boa mulher. Ser cansada, muita gasta – comentava ele, solícito. - Então outra nova, boa trabalho.


- Muito linda – comentei, franco. - Parabéns!


- Linda nova sim – sorria prazenteiro, - Boa lavra aqui. Dar licença nós fazer logo, logo. Terra boa. Nós sabe cava, cava e pronto. Licença, não precisa Nambuangongo.


Os soldados à roda riam descontrolados. Um deles apertava a mão na barriga e chorava de riso, incapaz de pronunciar uma palavra. A princípio não entendi o que provocava tanta hilaridade. Ao meu ar perplexo, o que estava mais próximo de mim perguntou-me:


- O meu alferes entende alguma coisa?


- Então! Eles falam quimbundo. O português arranham-no um bocado os que trabalharam nas fazendas com brancos. Por isso é que as mulheres não conseguem dizer nada, viveram sempre nas cubatas com a filharada ou nas lavras, não o chegaram a aprender, nem mesmo mal.


O que se engasgava a rir logrou finalmente articular:


- Mas ele tem duas mulheres?!


- Claro. A família aqui é poligâmica, podem ter quantas puderem sustentar.


- Ah! Ah! Ah! - e a gargalhada sufucou-o de novo, as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara.


Quando me dispunha a prestar atenção novamente ao Anjo da Cruz, o rapaz conseguiu controlo bastante para atirar:


- E moram todos na mesma casa?! E elas não racham a cabeça uma à outra?! Ah! Ah! Ah! - e apertava as mãos na barriga tão sinceramente que o contágio foi geral e até eu acabei gargalhando pelo insólito da situação e do inesperado comentário.


Era o intransponível abismo das culturas. Como seria viável a um qualquer labrego transmontano ou beirão compreender tal fenómeno? Diante duma epifania doutro mundo ou se foge aterrado ou se desata a rir. De facto, para os nossos rapazes, aquilo não tem pés nem cabeça. Na terra deles, uma palavra libidinosa, um olhar brejeiro, um gesto com segundas intenções leva qualquer um a desfechar um tiro em quem lhe ameie assim à intimidade ou transgrida o compromisso assumido na dele próprio. E agora topam aqui com um homem a viver com duas mulheres e todos em perfeita harmonia! Então o mundo não virou do avesso? Não é de ficar tudo maluco? E ainda por cima chego eu e não revelo qualquer estranheza: tudo normal! Um tipo ou endoidece ou escangalha-se a rir!


O que me levou até à Companhia, porém, foi uma estranha conversa à mesa de almoço. Acabara de se apresentar à porta de armas um guerrilheiro armado de Kalaschnikof, com a espingarda cruzada sobre os ombros. O Capitão Romano fora interrogá-lo para colher as informações que ele poderia dar.


- Diz que não sabe nada da guerra – comentou-nos, à refeição. - Só trabalhou na cozinha. Nem sequer conhece ninguém, teve um ataque de amnésia, coitadinho! Quando lhe perguntei que diabo fazia na cozinha respondeu que a varria e por isso nem sabe cozinhar. Acabei por lhe perguntar se a varria com a Kalascnikof e o sacana respondeu que sim. “Ai é?! E varria com o cano ou com a coronha?” Um gajo que se apresenta armado e tem a lata de vir com uma conversa destas! Vai já preso daqui para fora que se lixa! Parece que ainda veio gozar com a gente! A PIDE trata-lhe da saúde.


Terror das represálias deste lado? Fome? Ambas as coisas misturadas com um resto de fidelidade à guerrilha abandonada? Estupidez? Que diabo fará com que um jovem entre assim tão levianamente na boca do lobo? Ou é inconsciência? Ou um suicídio quase ritual? Não há como deslindar as intermináveis contradições do Homem. Para além da vida e da morte, o mistério continua. Bastar-lhe-ia ter abandonado a arma para passar por um civil como qualquer outro a ser reintegrado. Ou então, com ela, identificar o acampamento donde fugira e respectivas forças e comando, para ser aproveitado numa unidade de ex-guerrilheiros apresentados. Nem com isto prejudicava os anteriores camaradas: quando um deles faz isto, os demais mudam imediatamente a localização e ficam novamente a coberto da selva impenetrável, tão incógnitos como dantes, pelo menos tão invulneráveis. Este combatente, porém, optou pelo caminho mais difícil e sem saídas. Que pode levar alguém a tal atitude?






St.ª Eulália, 9 de Maio


Depois de amanhã deslocar-me-ei pela primeira vez em serviço daqui a Luanda. Custou mas foi. Deram-me hoje a novidade e a lista incompleta das tarefas a executar. É apenas por três ou quatro dias, mas é melhor que nada. Curioso é que estou quase com pena de ir agora. Não posso demitir-me de tentar obrigar o poder a ceder nos dois pontos que me propus: primeiro, reconduzir-me ao meu trabalho na Chefia do Serviço de Justiça do Quartel General em Luanda; depois, informar-me das razões porque me condenaram ao isolamento em St.ª Eulália. Com a luta persistente que tive de travar para conseguir furar o bloqueio, não posso correr o risco de não aproveitar a oportunidade, por insignificante que seja e é de facto. Não vou ter tempo de respirar com tudo o que terei de fazer em Luanda, mas paciência. Não prescindirei do mais humilde dos meus direitos relativamente ao poder prepotente aqui reinante.


O caso, porém, é que hoje ao fim da tarde o Henrique me procurou, discreto:


- Sabes, andam a preparar um assalto ao acampamento do Anjo da Cruz. Ele diz que se lhe derem tropa mete-nos a todos lá dentro sem ninguém dar por ela. O gajo é castiço mas é muito esperto. Creio que é capaz de o conseguir. Tem é que se ir já, antes de os turras mudarem a localização. Ele garante que esta semana ainda iremos a tempo, mas depois já não encontraremos ninguém. Anda exasperado por apanhar o resto da família, com medo de represálias, quando descobrirem que ele trouxe toda aquela gente para aqui.


-Vais com eles? - perguntei.


- Pois por isso é que vim aqui falar-te da operação


- Mas qual é a ideia? Não vão lá arrasar aquilo, senão os civis é que apanham. Ainda por cima vivem lá forçados. Ficam entre dois fogos, é uma chacina.


- É o que eu gostava de evitar, tanto quanto puder. O brigadeiro não me queria deixar ir, mas eu pedi-lhe. Não pretendo despedir-me daqui sem ir a esta operação. Consegui mais ou menos a garantia de que me vai deixar comandar um pelotão. Para isto é que preciso agora da tua opinião. Como é que julgas que deveria ser feito?


- Ó pá, se é para ir lá tentar libertar o maior número possível de civis, o pessoal tem de ir bem mentalizado para não forçar ninguém e só abrir fogo em defesa, caso os guerrilheiros vos descubram e ataquem. Senão, é de não arriscar, nem que seja deixando-os fugir para não atingir inocentes. Que estes desgraçados apanham dum lado e do outro e ninguém lhes reconhece o direito de disporem deles próprios.


- Eu também julgo assim. Vou ver se consigo que a operação corra inteira sem um disparo. Era um fecho em beleza da minha comissão. Se perco esta, já não terei outra oportunidade. O meu tempo termina o mês que vem e o brigadeiro não me larga de mão. Já foi um inferno para o convencer a dar-me um pelotão agora.


- Vai ser complicado cumprir o projecto. Como garantir que os oito guerrilheiros não darão por nada?


- O Anjo da Cruz é extraordinário. Temos a maquete do acampamento, a localização de cada homem armado, o tipo de armamento e a quantidade de munições, a posição das cubatas com identificação uma a uma, as que têm família dele e as outras, tudo. Ele é que descreveu o terreno, as formas e linhas de aproximação para que ninguém dê por nada. Quer ser o primeiro, vai ter com o cunhado e o chefe do povo para convencê-los a vir com ele, enquanto formamos um cordão armado entre as cubatas dos guerrilheiros e as restantes, de modo que não possa haver reféns nem risco de tiroteio com civis pelo meio e desenhou-me entretanto um bosquejo do alvo.


- Os outros vão nisso? O brigadeiro alinha?


- Por ele a gente agarra-os a todos, a bem ou a mal, sem discriminar especialmente os guerrilheiros e os civis. São tudo gente que apoia o terrorismo e o mantém. Ele é assim, sabe-lo tão bem como eu. Não há paninhos quentes. Mas eu talvez consiga. O que te posso prometer é que tentarei tudo para fazer um trabalho limpo. Nem que não apanhemos nenhum civil. E agora, bico calado, certo?


- Evidentemente.


Neste momento custa mesmo ir a Luanda. Como irá acabar a aventura? Quando voltar, já tudo se terá consumado.






St.ª Eulália, 16 de maio, 18 horas


Acabo de regressar e nem sequer enjoei no Nord-Atlas como na ida para lá. O avião vazio, quando fui, tremeu e balouçou de tal maneira que fiquei zonzo, com o estômago às voltas. Precisei de duas a três horas para recuperar. Agora, carregado, manteve-se firme nas tremuras, pelo que não me atingiu minimamente. Apresentei-me, entreguei as papeladas e fiz o relatório em três tempos. Nem pude ficar um dia a mais em Luanda, o tempo e os planos de voo operaram como previsto, apenas um atraso de embarque de algumas horas requeridas para a manutenção do aparelho. Deu só para almoçar em família em casa do meu irmão que já não contava comigo. Um insignificante brinde à despedida mas que, pelo imprevisto, caiu mesmo bem. A gente fica é a sonhar por mais e não há nada a fazer.


Aqui fechado no quarto, a tristeza e o desencanto dominam-me sem apelo. Em Luanda morreu tudo o que tentei animar. Iniciativas culturais, revitalização dos cursos e trabalhos de campo, organização de tempos livres, colóquios de actualidade, fichas de leitura na Lello... Apenas o Zé Manel tentou manter o projecto da cooperativa livreira. Pôde completar-lhe a legalização apenas. Foi logo incorporado atropeladamente e de imediato afastado para o mais longe possível, de modo que tudo morreu ali. É a destruição sistemática de quanto cheire a vida e a sentidos que lhe dêem gosto. No Instituto de Educação ficaram felizes com a ideia dos trabalhos dos alunos para avaliação: garanti-lhes a efectivação das cadeiras. Saboroso o reencontro com colegas e principalmente com os alunos, embora tudo muito a correr, que os minutos livres mal deram para os abraços e as combinações de pormenor.


O abatimento que me esmaga, porém, é devido antes de mais à minha situação com que não há forma de me conformar, nem sequer emocionalmente. Isto porque, apesar de tudo, algo de esperançoso ocorreu entretanto no meio de todas as calamidades de Luanda. Quando nos sentámos à mesa da Académica, no Bairro do Café, eu e um grupo de amigos da Universidade e do Instituto, a Aurora desfechou-me:


- Então, sabes o que aconteceu ao Zé Manel?


- Cancelaram-lhe o adiamento da incorporação e atiraram-no para casa do diabo.


- E o resto?


- Qual resto?


- Ah! Então ainda não te contaram que ele casou, que a moça, sabes quem é?, a educadora social, fez questão, de imediato, de ir a tudo com ele. Ora, ela é filha dum coronel e aquilo foi o cabo dos diabos. Ela cismou que havia de acompanhar o marido para onde quer que o mandassem, arranjou uma farda camuflada e encostou o pai à parede. Foi o bom e o bonito! Uma mulher de armas, ali como deve ser! Atiraram-no a ele para o sul, pois ela vai a todas as operações com a tropa. O pai parece que está a dar em doido com isto. É uma tourada como nunca se viu. Se quiserem tramar o Zé Manel terão de a tramar a ela também. Já viste a partida que ela lhes pregou?


- Mas era apenas uma rapariguinha fresca, ingénua, toda cheia de alegria de viver, com iniciativa, está bem, lembro-me da animação que elas monitoraram no Natal, mas, que diabo, uma coisa destas... Nunca me passaria pela cabeça! Como é que a família dela não a impediu?


- Eles bem tentaram, mas ela aguentou firme. Responsabiliza-os por toda esta pouca vergonha, no fundo. Mas parece que o pai, apesar de tudo, encaixou isto muito melhor do que era de esperar. Não concorda mas aceita tudo, gosta mesmo dela, de maneira que não ia correr o risco de ficar com as relações cortadas ou estragadas com a filha. Claro que é sempre um coronel, não é?


Lá isso é, Aurora, mas não imaginas a força que me dá, neste momento, rememorar a pequena maravilha que me contaste. Ah, grande Zé Manel, não te pude dar uma prenda de casamento e és tu que, afinal, ma ofereces com uma novidade assim! Qual de nós poderia imaginar um desfecho tão espectacular quando, junto à mesma Académica, meses atrás, me confidenciaste que havias principiado o namoro com ela?! Lembras-te da hesitação com que mo contaste, porque afinal ela nunca tinha participado em nenhuma iniciativa daquelas com que andávamos tentando reanimar a vida? E da tua aposta num mero primeiro sinal prometedor, a festa do Natal cuja animação ela liderara e que fora para ti uma revelação? Mas era filha dum coronel... - também duvidavas tu. E eu igualmente me não entusiasmara. Como o coração consegue ver o que a razão não descortina! Tu, porque amaste, é que suspeitaste do fogo que nela morava escondido. Eu, confesso, não o adivinhei de todo. Maior é o maravilhamento assim. Peço-te perdão, mulher, da minha cegueira. Obrigado, amiga, companheira, por quanto a tua coragem me torna este exílio mais suportável.





St.ª Eulália, 15 de maio, 23h e 30m


O Henrique acaba de sair. Conversámos bastante depois do jantar. Já tinha estranhado, desde a hora da chegada, que ninguém comentasse a operação ao acampamento do Anjo da Cruz. Algo tinha de ter dado para o torto. Ou talvez não, depende da perspectiva.


- Um fiasco? - perguntei-lhe.


- Claro – sintetizou.


- Mas que diabo aconteceu? Explica-te, homem.


- Ó pá, para aqui, foi. Para os critérios deles. Apanhámos apenas uma grávida que tinha dormido à noite na lavra e um miúdo que ficou perdido na confusão da fuga. Encontrámo-lo ao regressar. Mais nada.


- Baixas?


- Não, nem uma de ambos os lados. Não houve nem um tiro. Quanto a isso foi mesmo com uma precisão de computador. Tudo certinho como o programado. Isto lixou os gajos aí. Para eles foi uma operação péssima. E na verdade foi.


- Como?! Então conseguiste uma vitória dessas e ficas abatido? Não julgo nada assim, homem!


- Está bem, concordo quanto a este aspecto. Mas o resto foi um barrete.


- Mas qual resto? Desembucha tudo duma vez! O Anjo da Cruz burlou a malta, foram todos enganados?


Apenas aqui o olhar lhe brilhou e subitamente foi o entusiasmo.


- Ora! Aquele homem é genial. O tipo é uma raposa velha e por ele foi tudo impecável. Seguimos à risca o esquema que ele propôs. Montámos o dispositivo na picada a uns dois quilómetros e meio do objectivo, de modo a não ser possível detectarem nada, nem luzes, nem ruídos. Acabámos entre as duas e meia e as três da manhã. O Anjo da Cruz conhecia os trilhos todos como a palma da mão, nem precisava de lanterna, ia lá de cor. Levou-nos direitinhos pelo acampamento dentro sem ninguém topar. O esquema que nos tinha dado era perfeito, tudo no lugar. Montámos a defesa como previsto, sempre em silêncio. Isolámos as quatro cubatas dos guerrilheiros com uma secção a fazer um cordão de protecção e os demais espalharam-se para receber o povo que quisesse vir connosco. Isto depois é que falhou.


- Porquê? Os gajos, afinal, não queriam vir? O Anjo da Cruz julgou mal o estado de espírito deles?


- Talvez, mas pode ser que não...


- Como é que aconteceu?


- Foi assim. Desde o princípio que ele teimava em falar com o cunhado e o chefe do povo, para convencê-los a juntarem os civis para vir toda a gente connosco. Desde que encurralássemos os guerrilheiros, de modo a aniquilar qualquer tentativa de resistência, o Anjo da Cruz cria que arrastaria o acampamento inteiro.


- Então que é que correu mal?


- Olha, ele quis falar primeiro com o cunhado e decidiu ir-lhe bater à porta sozinho. A ideia era convencê-lo, para ambos acordarem então o chefe, que era mais fácil levarem-no ambos a convocar o povo para regressar connosco. Tudo bem. Aconteceu foi uma reacção inesperada e disparatada, sem mais nem menos, do cunhado do Anjo da Cruz. Quando todos contávamos que o homem estivesse mais ou menos à espera duma coisa daquelas, não. Mal viu o outro, nem lhe permitiu dizer nada, desatou numa gritaria aterradora e foi um reboliço enorme em todo o acampamento. Aquela gente desatou a fugir descontrolada por todos os lados, num terror tal que não havia maneira de os podermos acalmar. Nós bem tentámos, chamámo-los, dissemos-lhes que ninguém lhes faria mal, que não fugissem, tentámos agarrá-los mas ainda foi pior, berravam cada vez mais apavorados. Olha, foi uma pena. Mas todo o pelotão esteve à altura, ninguém usou nenhuma violência como tínhamos combinado. Nesse aspecto a rapaziada foi impecável.


- Então e os guerrilheiros? Não abriram fogo?


- Tiveram lá tempo para isso! Sumiram-se como ratos. Apanhados de surpresa, nem reagiram. Um deles enganou-se na direcção e ainda atravessou a correr, em cuecas, o acampamento. Uma barraca das antigas! No meio daquela confusão toda ainda deu para desatar à gargalhada. Já viste, um maduro a fugir em cuecas com uma arma na mão e vem enfiar-se mesmo no meio de nós!


- E ninguém o abateu? É o que te digo, os rapazes foram mesmo espectaculares.


- É que era difícil evitar aí o movimento incontrolávelm dum tiro instintivo. O homem apareceu-lhes armado, o mais normal seria a resposta automática. Como é que conseguiste deles autodomínio a um ponto destes?


- É verdade. Iam bem mentalizados. Eu tinha-lhes seringado o juízo durante muitas horas para não cometerem nenhuma asneira. E olha, resultou.


- Em cheio, pá! Estás mesmo de parabéns!


- Não, falhei. Queria mesmo era ter trazido aquela gente toda. Estão de facto escravizados ali e vão morrer por lá aos bocados. É uma estupidez tudo isto.


- Mas não dependia de ti. Vocês não podiam ter feito mais nem melhor.


- Vai lá dizer isso ao brigadeiro. Para ele isto confirmou-lhes a teoria de que devíamos tê-los encurralado, de arma aperrada, e se algum desviasse um passo era logo abatido. Isto é que era uma vitória, estás a ver? Estou farto de os ouvir, raios os partam!


É mesmo assim. Também eu sou incorrigível. Mantemos sempre um resto de esperança de que algum dia eles revejam os critérios, mas não. Depois ficamos decepcionados. Por muito que se nos antolhe evidente que nós é que temos razão, a verdade é que a desautorização de quem nos manda desconcerta, acabrunha, dimunui-nos e acabamos inexoravelmente desfeitos por dentro de alguma maneira. Como custa, nestas condições, manter-se fiel a si e à humanidade! Como a dúvida nos fila permanentemente os dentes na evidência mais óbvia! Como cansa mantermo-nos de pé!






St.ª Eulália, 22 de Maio


Pouco tempo depois de vir cá parar veio para aqui corrido um terceiro médico que, à minha semelhança, também não tinha serviço nenhum a desempenhar. No caso dele, porém, não houve qualquer actividade militar ou civil que tenha servido de pretexto ao desterro, mas, ao que ele nos conta, uma história muito mais sórdida. Veio para Angola com a esposa, uma rapariga nova como ele. Ora, o comandante da Unidade para onde foi, que é um velhadas também casado, conheceu-a numa festa onde estiveram todos e passou o tempo a requestá-la à descarada e daí para diante nunca mais a largou com constantes cortejamentos. Isto enojou o casal a tal ponto que o médico acabou pegando-se com ele. O efeito é este: vive agora aqui enclausurado no retiro de St.ª Eulália e a esposa ficou abandonada ao assédio do bandalho no poder.


Este rapaz chegou aqui com um cachorrinho pastor alemão que, de alguma maneira, adoptámos como um aespécie de mascote para os oficiais milicianos que nos sentimos solidários com ele contra a perversão de que é vítima. À falta de trabalho, dedicou os últimos meses a treinar o animal, acompanhando-lhe o desenvolvimento. Ao fim da tarde observei-o todos os dias, solitário e abatido, com uma persistência canina, avançando passo a passo:


- Senta! Senta! - e parava, insistente, até o cão se sentar.


- Deita! Deita! - e obrigava-o a executar a ordem.


Avançava um pouco mais, o cachorro desatava a correr e logo ele:


- Aqui! Já aqui! - o animal saltava-lhe às pernas.


- Não! Encostado! Encostado! - e ao fim de alguns dias já o animal o seguia como escolta perfilada ao lado, acompanhando-lhe, rigoroso, os movimentos.


Ao fim, o pastor alemão crescera enormemente, é um canídeo respeitável, embora longe ainda do tamanho da adultez plena. Este acompanhamento sistemático colou-o tanto ao dono que nos habituámos a presumir que onde anda um encontramos o outro. Correu tudo normalmente até há três dias atrás. Aí tiveram de separar-se. O médico foi mandado numa operação de limpeza aí para uma zona qualquer da floresta. Recomendou-nos que olhássemos pelo animal durante os dias de ausência. Não podia ficar mais bem tratado.


O problema é que o cão anda num frenesim imparável de manhã à noite, até faz pena. Vai ao quarto do dono, segue-lhe o faro pelo corredor, vai à messe de oficiais, vasculha pelos cantos, percorre de lés a lés o pavilhão dos gabinetes de serviços,volta atrás e não pára um segundo em lado nenhum. É o desespero da procura infatigável do desaparecido. Curiosamente, não há um gemido, um uivo, um latido – nada. Apenas esta interminável busca por todos os cantos. Quase não se alimenta e, quanto a nós, mesmo aos que mais o amimavam antes, ignora-nos por inteiro. Se o chamamos, vem, a cauda murcha, aceita a carícia eventual e afasta-se de imediato farejando outra vez incansavelmente. Nem de noite tem repousado. Recusa-se a entrar no quarto vazio do dono e deita-se à porta, no corredor, de olho atento, como uma sentinela. E mesmo aí não chega a parar muito: anda para trás e para diante, entra e sai dos aposentos a noite inteira.


Depois de almoço, quando hoje reentrávamos nos gabinetes, andava ele no passeio defronte, debaixo dos maracujaleiros. Vagueava por ali também um rafeiro da Companhia que, valdevinos, nos cruza pela frente quando calha, ao cheiro de qualquer petisqueira inesperada. Ora, hoje deu-lhe para se pôr a ladrar ao pastor alemão. Perseguiu-o, ameaçador, sem se chegar muito, de trás, de lado, sempre a latir furiosamente. O outro, nada. Apenas, parado, o olhava de soslaio, silente e superior, numa indizível amargura. Aturou-o assim um par de minutos, sem lhe dar qualquer troco. Como o cachorro não havia maneira de desistir, inesperadamente e sem qualquer prévio aviso além dum eloquente arreganho de dentes, o pastor alemão, num fulgurante golpe de rins, fila o outro pelo meio das costas, levanta-o em peso ao ar, a contorcer-se de dor e terror num longo uivar tresloucado. E ali ficou especado, como uma estátua, com o rafeiro entalado nas presas, sereno, aguardando que um de nós lá corresse a resolver o problema. Uma nobreza e uma segurança magistrais. E só largou o animal quando lhe foi ordenado por um daqueles que lhe mereciam confiança. Então pousou, calmo, o bicho no chão. Este desapareceu como um foguete rumo à Companhia. Tão cedo não se lembrará de maçar ninguém, mesmo cão.


Enquanto isto animou o grande falatório da tarde por todos os serviços, dei comigo a invejar a nossa mascote. É que também eu aqui ando privado do mais querido na vida, do que mais sentido a ela me dá. Como gostaria de poder ferrar pelo meio os rafeiros da Companhia até a situação mudar de vez! Tem sorte, no fundo, o pastor alemão. É tudo muito mais difícil connosco.


“Como a vida é lenta

E como a esperança é violenta!” (Jacques Prévert)






St.ª Eulália, 25 de Maio


A busca de promoção num covil destes arrasta efeitos disparatados. Os soldados que prestam serviço no Comando entendem que é uma honra excepcional ser escolhido para servente na messe de oficiais. Desde que vivo aqui já perdi a conta a quantos rodaram neste serviço. Nas últimas semanas ficou um matarroano grosseiro coberto de cicatrizes de flor dos Dembos, a doença cutânea da região que leva os atingidos a coçarem-se até ficarem em carne viva. Andou muito tempo empenhado, com os dentes podres e caídos, os modos encardidos e inábeis, em dar boa conta do recado. Há dias, ao jantar, o Capitão Romano, depois de o observar de perto, perguntou ao oficial responsável pela distribuição deste serviço se não era capaz de encontrar ninguém mais apresentável, que o rapaz era tacanho e tosco como um penedo. Não sei se foi por isto ou não, o facto é que, há dias, perante o agravamento das feridas da cútis que obrigaram o moço a baixar à enfermaria, veio substituí-lo um soldado de aparência esbelta, escorreito e com jeito muito mais manifesto para o trabalho que o precedente.


Não me teria sequer apercebido disto, tão marginal se me antolha relativamente às grandes questões que nos condicionam a vida e o País, não fora o facto de hoje o major me requerer um parecer disciplinar acerca duma enorme zaragata que às cinco da madrugada desinquietou a caserna inteira.


Primeiro consultei o cadastro do desdentado matarroano. Um brigão inveterado que não aguenta um mês em lado nenhum sem uma caterva de porradas que obrigam a transferi-lo interminavelmente de Unidade em Unidade. Indesejado em toda a parte. Estranhamente, já se encontrava aqui há uns meses e até à noite anterior correra tudo impecavelmente. Revi todos os encontros que na messe tive com ele e não me pareceu de todo o mesmo indivíduo. A postura tosca, o gesto desajeitado, a inabilidade manifesta em dosear a poderosa musculatura de touro selvagem ao colocar um talher ou retirar um prato jamais o inibira de esforçar-se, empenhado e sorridente, em portar-se à altura. Agora aquele sorriso desdentado, cariado e pejado de tártaro é que mais me obriga a reflectir. Jamais encontrei aquele rapaz, ali na messe, que não fosse rindo-me, prazenteiro e acolhedor, a mim que ele bem sabia que era oficial de justiça e, portanto, do sector que mais o tem pisado sistematicamente. Não era para me desarmar, mas outra coisa. Ele esteve todo este tempo a provar que era mesmo capaz de ser outro, de ficar à altura das responsabilidades que lhe cometiam. Acreditou desde o princípio que eu estaria a par do passado dele. A minha hospitalidade, o não tê-lo discriminado relativamente aos demais deu-lhe força e autoconfiança. Aguentou-se até as circunstâncias terem mudado. Julgou-se iniquamente despromovido do alto privilégio que para eles é servir-nos à mesa na messe. Nunca tal me ocorreria.


Nos últimos dias os rapazes andam numa comemoração pegada do aniversário da chegada desta Unidade aqui. Como as alternativas não são muitas, isto dá apenas para tentarem umas petiscadas mais simuladas que reais, acompanhadas por uns copos. Foi aqui que tudo se estragou. Não sei por que carga de água o rapaz teve ontem alta da enfermaria coberto de cascos da flor dos Dembos mais dum garrafão de cinco litros de vinho. Onde diabo foi ele desencantar este, não entendo, mas o facto é que se apresentou com ele na caserna, disposto a convalescer com tal medicina. Aquilo foi para lá um forrobodó todo o serão com o gargalo a girar de boca em boca. Vai daí, o rapaz pega-se com o substituto dele na messe.


- Tu é que és o culpado de eu ter largado o serviço! - acusava-o.


- Eu?! Que é que eu tenho a ver com isso? O nosso alferes mandou, que remédio! Se queres ir, olha, volta para lá! - defendia-se o outro.


- Ele agora não me deixa. Tu é que quiseste ir, julgas que eu sou maluco, é? Não tenho olhos na cara? - regougava o primeiro.


Os outros acalmaram a querela para gozarem da pinga sem interferências. Entretanto, foram adormecendo todos e ninguém deu por nada até às cinco. Aí acordaram assarapantados quando o rapaz tropeçou trôpego e grosso, roncando por ali dentro, de garrafão em punho, direito à cama do substituto dele que dormia a sono solto.


- Eu mato este filho da puta! - berrou, ao encontrá-lo.


Acto contínuo, ergue o garrafão e, com toda a fúria da musculatura taurina, escaqueirou-lho na cabeça, espatifando-lha numa sangreira medonha. A vítima foi de urgência para a enfermaria e teve de levar pontos e pontos por quanto era rasgo. Agora já está fora de perigo.


- Então qual o parecer, alferes Costa? - perguntava-me o major há pouco. - O senhor é que é da Chefia de Justiça, sabe melhor que nós como é que lá dariam conta dum caso destes. Até hoje, ele aqui tinha-se mantido na linha, sem qualquer deslize. Mas uma coisa destas, ao fim destes meses...


- E que é que pensam fazer-lhe? É evidente que tem de punir-se um comportamento destes, ainda por cima ocorrido em público e nas circunstâncias em que foi.


- Até agora o que se tem feito é aplicar-lhe a competência máxima de detenção e, a seguir, uma transferência compulsiva. Foi assim que ele veio aqui parar. Agora irá para o destacamento das Três Marias.


- Tem de ser mesmo assim. É uma pena porque o rapaz estava-se regenerando. A gravidade do que fez, entretanto, não pode ficar impune, nem por ele nem pelo resto da Companhia. Ele tinha a obrigação de interpretar a situação como qualquer outro soldado o fez. Assim, perdeu talvez a grande oportunidade que lhe foi aberta para dar uma volta à vida. Não creio que tenhamos meios para ir mais longe, nas circunstâncias em que aqui vivemos. Se estivéssemos noutro ambiente, com outros recursos, seria de dar-lhe outras oportunidades, punindo-o mas sem lhe cortar as pernas de vez. Ele é, de facto, recuperável. Aqui, porém, é um caso perdido. Até nisto a guerra é um absurdo. Como é que a gente pode agarrar as pessoas quando nos faltam condições para tudo? Se não formos firmes e intransigentes agora, amanhã a caserna inteira vira do avesso e matam-se para aí todos uns aos outros. Não temos alternativa.


Foi o meu paarecer. Ainda estou, porém, com o estômago revolvido. Também falhei a expectativa que aquele rapaz em mim depositou. A minha derrota é igualmente irrecuperável. Menos visível embora, não sei qual delas acaba por doer mais. E por matar mais, a prazo. É que eu nem sequer tenho um garrafão para descarregar na cabeça de ninguém. Isto não tem forma de sair, vai ficar dentro, remoendo a fogo lento uma vida inteira.






St.ª Eulália, 27 de maio, 19h e 45m


Coube-me ser oficial de dia no momento mais alto das festas do aniversário da Unidade. O programa hoje constou dum espectáculo de variedades, a meio da manhã, com artistas do teatro, rádio e televisão, num espaço improvisado para o evento. Quase tudo mulheres, patrocinado pelo Movimento Nacional Feminino e da responsabilidade, como os demais programas recreativos do aquartelamento, do padre capelão, que opera aqui um pouco como pau para toda a colher com inesperada eficiência.


Nunca imaginei reagir assim. A vinda dos artistas criou uma maré de entusiasmo na soldadesca que teve o condão de me descoroçoar a tal ponto que nem sequer fui receber à pista o Nord-Atlas em que eles vieram, ao contrário de toda a gente. Depois, aqui à distância, enojou-me o porte putanheiro de algumas das vampes ali despejadas que, logo à porta do avião, se puseram a arregaçar a mini-saia, a atirar o busto seminu numa provocação incongruente de bordel reles. Evidentemente que isso provocou palmas e gritos dos machos famélicos que rodeavam o aparelho em completo delírio no esterqueiro. Deu-me náuseas e reforcei o acerto da minha decisão de nem pôr os pés na zona do barracão em que o pseudo-espectáculo iria correr.


A verdade é que tinha optado por isto apenas para não tirar lugar aos eufóricos soldados que, do Comando à Companhia, se batiam por um cantinho qualquer donde pudessem desfrutar da novidade que aí vinha pejada de sonho. Evidentemente, imaginei logo qual o teor que acabaria por revestir num acampamento isolado em que a fome da feminilidade não encontra praticamente lenitivo. Supus, contudo, que ficassem pela brejeirice da revista à portuguesa, picante mas inofensiva e, principalmente, sem apelo a comportamentos degradados, antes à imaginação criativa e ao equívoco brilhante e requintado. Quando, porém, me revelaram o patrocínio, logo suspeitei que seria tudo mais do género espectáculo de rameiras, a excitar clientes para subirem ao primeiro andar, a fornicar ao minuto com notas contadas. Se na Reboleira isto é negócio, aqui é puro sadismo: o que estes rapazes farão não é deitarem-se com as artistas-prostitutas, como acolá, onde ao menos a frustração do sonho ainda pode ter alguma compensação pelo prazer do orgasmo consumado numa relação sexual mercantil, mas, ao contrário, é sentirem-se mais vazios pela expectativa e excitação exacerbadas e sem contrapartida, e ficarem mais frustrados e famintos, sem apelo nem alternativa. Isto apenas pode agravar a violência e agressividade, deteriorar o ambiente de convívio no aquartelamento. Todos hoje se sentem um pedaço mais traídos, mais distantes dos paraísos eróticos e afectivos com que os levaram a sonhar, mais vítimas de injustiça. Todos consideram um bocado mais a vida que aqui levam uma iniquidade, um absurdo sem sentido nem justificação. Porquê aguentá-la mais? Uma diversão em tais coordenadas não é um prémio nem é um calmante. É uma droga de loucura e descontrolo. Veremos no que dará.


Alguns alferes não aguentaram aquilo e vieram saindo ao correr do espectáculo, decepcionados. Uma burla inqualificável. A soldadesca, porém, vibrou ali duas horas, praticamente numa gritaria ininterrupta. Não devem ter ouvido nada, claro. Também não era para tal que os amontoaram lá dentro.


O Movimento Nacional Feminino tem uma tal reputação entre nós que apenas o anedotário mais grosseiro e agressivo dá conta do asco que nos provoca. Há bocado, um colega brincava com o nome da presidente, a Snr.ª Supico Pinto:


- Sabem porque é que o espectáculo é aquela bodega? Então, porque foi mandado pela Snr.ª Seu Pito Pico!


- Ela agora anda fugida com um alferes da Intendência. Foi passear a Marrocos e não voltou. Há mais de dois meses – jogou logo outro.


- Co'os diabos! Agora é com um da Intendência? Aquilo é sempre a aviar! - riu um terceiro.


Esta história dos alferes com que periódica e sistematicamente foge aquela senhora, por incrível que pareça, tem sempre ouvidos disponíveis e crédulos a acolhê-la, por mais disparatada que se antolhe. Por mim, já lhe ouvi dezenas de versões, cada Unidade tem as suas. Nem que a dita senhora sofresse de furor uterino em derradeiro grau – ela teria, sozinha, de ser pior que um prostíbulo inteiro, a fornicar imparável, vinte e quatro horas por dia, com meio mundo. Curioso é que é tudo com alferes, em todas aquelas variantes – muitas vezes com nomes e tudo! Aliás, nem sequer sei se existem, de facto – e ninguém com tal se preocupa, claro. É manifestamente uma vingança do sector. Frágil, muito frágil. Mas que mais podemos fazer?






IV Parte


Vida e Poesia

Angola Militar




Angola

Vida militar 1


Apresentados na CSG do Quartel General, esperava-nos o Dinis, carregadinho de novidades e lamentos. Não nos habituáramos ainda ao sol-chuva do verão equatorial e menos ainda ao cariz amalgamado de Luanda. Assarapantados. E já o Dinis perorava:


- Aqui é um Congo! Eu depois conto. Olha, com o chefe, o Coronel Gonçalves, temos duas relações, não é? A de trabalho, teórica, é de colegas, de igual para igual, que ele é licenciado em Direito; a hierárquica, derivada cá da vida militar, é de disciplina e obediência. Repara bem no primeiro momento em que discordares dele, já não há mais relação de trabalho, é com os galões à cara! Que é que um gajo pode fazer?... Ladrar, ladrar... mais nada!É tudo a mesma corja, não há um que se aproveite!


Havia uns trezentos autos amontoados. Rígido horário de trabalho. Um ambiente irrespirável entre chefes e alferes. E um clima de greve de zelo que tudo retardava. Apalpei terreno. Atirei-me à mole de autos pendentes e tratámos todos de eliminar a papelada em atraso, mudando de estratégia. Dentro e fora da Chefia, dia e noite, durante semanas nos desunhámos para pôr tudo em ordem. E veio meio dia semanal de folga, um mês depois. Tentámos alargar o raio de liberdade, garantido o trabalho. Pouco a pouco conquistámos terreno. Aliás, com a celeridade no procedimento diminuíra o trabalho de cotio, a ponto de não chegarmos a ter, em largas temporadas, o bastante para um dia por semana. A mim, o chefe garantira-me:


- Dou-lhe até metade do tempo de serviço desde que me entregue pareceres certos e tão completos que eu nem precise de abrir nenhum auto. Então pode utilizar as horas livres como entender.


Com nenhum dos outros, porém, iria, de palavra, tão longe. E nem comigo nem com eles foi capaz de perceber nunca tal regime como aproveitamento útil à comunidade. É verdade que os meus camaradas o viviam em proveito próprio. Escritório de advogado nunca foi, porém, totalmente egoísta, repercute longe, na comunidade; indirectamente embora, é uma utilidade pública. Por mim, nem pretendia fruir de qualquer vantagem pessoal dos tempos livres: empenhei-me em animação cultural e comunitária com tudo e todos que me requereram para qualquer domínio onde poderia ajudar. Não encontrei, porém, fórmula capaz de furar-lhe o granito para lhe fazer luz e compreender o meu desinteresse. E era um coronel bondoso, apenas desmembrado por prepotentes hierarcas, ao que nós íamos descobrindo de conversas aqui e além.


- Quanto lhe pagam? - era a pergunta sacramental e era uma mentalidade. Desarmar-me-ia em regra, porque nunca aprendi como responder-lhe: para ele, apenas o dinheiro justificava o trabalho; para mim, era gerar um mundo. Acabei por aldrabar mais ou menos umas maquias, mesmo quando não me davam nada, como era de norma e para mim rigorosamente indiferente.


- Hum! É dinheiro... Está bem, pode ir, vá lá então...


Porque era, afinal, um homem bom! É triste, não haveria maneira de nos compreendermos?






Meu País


Na feira do mundo é o fim:


Macrofones – microfomes,

Microfones – macrofomes!


Até quando deixaremos isto assim?


Angola

Vida Militar 2


A primeira quinzena foi uma carga de trabalhos. Oficial de Dia à CCS/QG (Companhia de Comandos e Serviços do Quartel General) pela escala normal e dos domingos. Permanência à Chefia, nos feriados, por turnos.


Desanuviado um pouco o ambiente, veio a primeira coluna logística: para o Toto! Curiosidade e temor: era das pioress áreas ao norte, na fímbria da floresta dos Dembos; o caminho era bom, contudo. Ficaria a conhecer a região mais abalada, o coração do terrorismo em Angola. Perigo? Improvável. Não havia memória de ataque a um MVL (Movimento de Viaturas Logísticas) de Luanda. Já para os do interior era diferente. Mas lá levantei uma metralhadora FN (com que nunca fizera fogo) e as cartucheiras e retornei a casa, alertando a madrugada. Teria escolta a partir do Sassa, três quilómetros além do Caxito, e quase me não largaria mais. Primeiras etapas: Úcua e Píri – bem lembradas no princípio do terror. Comandante da escolta: um velho camarada de Coimbra, em vésperas de embarque de regresso – a última escolta que daria. Foi uma surpresa reencontrarmo-nos: um render de sentinelas.


Arrancámos. A floresta dos Dembos entregou-se-nos, luxuriante. O capim chicoteava a porta do camião. Os arbustos curvavam, reverentes, brincos de ninhos pendurados às miríades. Os embondeiros primeiro, logo depois copas cerradas, recatando gigantescos pés de árvores ignotas, brotaram no caminho, imensas e indiferentes. A natureza bruta numa prova de poder. E foi o mais arrebatador espectáculo com que Angola me brindou. Um paraíso violado pela luta dos homens.


Primeiro tremor: a Pedra Verde. Inesperadamente, encontrámo-nos isolados. A escolta da frente correra demais e, atrás de nós, ninguém. O camionista alarmou-se ao avistar a malfadada montanha, um penhasco gigantesco erguido na folhagem.


- Meu alferes, não vejo ninguém. É melhor parar. A Pedra Verde é o diabo.

Afivelei as cartucheiras e saltei, FN em punho. A meus pés, novelos de copas impenetráveis, ordenadas em rebanho ao redor da penedia nua, pastor vigilante e frio. Era um átrio de grandes holocaustos humanos ao deus da guerra, actualmente. Não se enxergava um palmo através da muralha bruta da vegetação. Quantos olhos dali nos vigiariam?


Alguns minutos após vieram outros camionistas. Nenhum problema, apenas galgar a montanha, com toneladas de carga, era moroso. Alinhámo-nos de novo e arrancámos.


Atravessámos o Quitexe e pernoitámos em Carmona, depois de terem ficado para trás dois camiões: um, definitivamente; outro, para recolar connosco após conserto, com material que teria de vir de Luanda. E de novo terras marcadas pelo sangue da guerra: Nova Caipemba, Vale do Loge, Toto, Quimaria e Quibala-Norte. Parei no Toto. Um problema para aqui chegar: não havia militares para dar escolta – andava tudo na mata. Fui perguntando e, quanto mais perto do fim, mais um nome era repetido: Pedro Afamado. No Toto informaram:


- Ele deve ter uma emboscada montada algures. Andam mais de mil e quinhentos homens a bater a mata. Aqui Pedro Afamado é o pior de todos: a última vez matou-nos oito e feriu um ror deles. Mas também apanhou!...


A carga diminuta para Quimaria e Quibala foi numa escolta providencialmente aparecida. Eram três camiões. Aguardei a volta deles no Toto. Demorada.


- Ó pá, vai-te embora. O Pedro Afamado caiu-lhes em cima – riam comigo.


Pouco a pouco mudaram para o sério. O nervosismo ganhara terreno. Entretanto, o camionista largado atrás, no Píri, chegou e ordenei a descarga. Material para Quimaria: teria de aguardar ali a coluna militar para carregá-lo, dois dias depois, que o camionista voltaria comigo a Luanda. Finalmente, domingo, às dez da manhã, entraram os três retornados da zona fatídica.


- Algum problema? - inquiri.


- Não.


Apenas a dificuldade habitual em arranjar escolta. Arrancámos logo rumo a Luanda: um milhar de quilómetros pela selva além.


Apresentado no Quartel General, alguém me procurou:


- Vens de Quimaria?


- Não, fiquei no Toto.


- Eh, pá, que sorte! Mesmo à tangente. Houve agora uma emboscada e tivemos dezoito mortos e sete feridos. Uma razia!


Lembrei-me da coluna militar, da carga do meu último camionista. Alguns que tinham rido comigo nunca mais ririam...






Testemunho


Fiel ao cativeiro de abismos do amor

Revelo a dor.


Uivam que acabrunho

Desfilando em praça monstros de entrudo,

Exigem-me testemunho

Testemudo.


Silvam agoiros mascarados no ar,

Aos tronos já não iludo,

Desembainham mentiras e aços, devagar...


Testemunho testemudo?


...Não ficarei, como lhes importa,

Mudo.

- Eia, forcemos a porta

Para tudo!






Angola

Vida Militar 3


Comandaríamos uma coluna de reabastecimento (MVL) de quatro em quatro meses, até nos tirarem da escala, já perto do fim da comissão. Eu faria mais três. Uma para Maquela do Zombo, mas de itinerário inabitual: penetrando para o interior, pelo Dondo, até Salazar, depois Samba Caju, Camabatela até ao Negage, onde pernoitámos. Às cinco da madrugada, arrancámos. Via 31 de Janeiro até Maquela para descarga a poucas dezenas de quilómetros do Congo. Em vez de voltarmos pelo mesmo caminho, porém, mandaram-me pela picada da fronteira, pelo Luvaco e Cuimba, até S. Salvador. E daqui voltaria a Luanda, via Tomboco, Ambrizete e Ambriz. Uma viagem turística por todo o norte, uns milhares de quilómetros. Curioso: deram-me apenas três dias para atingir S. Salvador, cargas entregues e tudo. Os camionistas ficaram apreensivos:


- Bem, meu alferes, se tivermos a sorte de não ter chovido na picada há algum tempo... Senão, atascamos lá todos. Nem cinco dias, nem dez, nem quinze. Desatolamo-nos quando calhar... Vai ter um grande frete, meu alferes...


Escolhi a viatura dum camionista que fora caçador especial em 61 e percorrera toda a área em combate e desmatamento. Ia-me descrevendo, quilómetro a quilómetro, o que em cada palmo de terreno ocorrera.


- Ali, naquela baixa, morreu um alferes. Queria surpreender os turras acolá na aldeia que eles tinham ocupado, quando os gajos saltaram aos gritos de todos os lados. Cercaram-nos. Eram tantos que as munições do pelotão não chegaram. Iam ficar ali todos, então o alferes mandou a malta correr em fila, abrindo uma brecha, para safar ao menos alguns, e ficou atrás a cobri-los, sozinho, com a metralhadora. O pelotão salvou-se inteiro. A ele os pretos despedaçaram-no todo aos bocados.


E, mais longe, no meio da savana perdida, uma inesperada casa branca:


- Olhe, vê este largo e aquele eucaliptal? Os brancos meteram-se acolá dentro da escola e os pretos apareceram daqui e lá dos eucaliptos que ainda não existiam.. Não acredita? Acha-os grandes demais? Então olhe: eram tantos a vir, a vir, a vir que os brancos estiveram ali de dentro a disparar quatro horas seguidas sem parar. Os mortos caíam e vinham logo outros por cima deles, e depois outros por cima destes e mais outros e outros. A gente não acredita mas era. Olhe que quando eles deixaram de vir, o largo estava tão cheio de mortos que era um monte pelo ar acima. Nem se podia contar, era uma loucura! Então, olhe, abriram ali uma grande vala e enterraram tudo. Depois, com medo de ficar a terra podre, resolveram plantar o eucaliptal. Basta reparar: aqui não vingam árvores nenhumas e o eucaliptal está ali como o meu alferes o vê.


O mais desolador, porém, era a solidão. Terreiros e mais terreiros de antigas sanzalas abandonadas, a terra batida, os mamoeiros e o dendém carregados. Galgávamos dezenas de quilómetros e nem vivalma. Nem uma cubata, apenas o antigo lugar delas.


- Era tudo habitado. Milhares e milhares de negros por aí além. Agora é o que vê: ou morreram ou fugiram. Quando viemos com as máquinas arrasámos tudo o que eles largaram. Ficaram os lugares, o capim ainda nem rebentou. Era a região mais populosa de Angola inteira e agora é um deserto. Vai ver que é o mesmo sempre daqui para diante. Todo o norte ficou vago.


- Como é que morreu tanta gente?


- Não, muitos não morreram, a maior parte deve ter fugido. Ficaram aí pelas matas, mortos à fome, por doença, pelos bichos, até pelos turras. Mas um grande número cortou a fronteira do Congo. Aquilo é lá um mar de gente!


- Então porque é que não voltam? Agora já não era de ter medo.


- Não podem. Matam-nos lá quando eles querem vir. É proibido, ai deles! Lá voltar queriam muitos, aquilo também é mau.


Tive oportunidade de confirmar tal facto em S. Salvador, por boca dum missionário italiano ali radicado há muitos anos. Os foragidos de lá haviam-nos contado através da Cruz Vermelha: 30.000! Mostrou-me grandes molhos de fichas individuais – eram os cristãos. Tirei algumas para ver. No fundo: “quer regressar” era o comum.


A guerrilha devastara toda a vida: era uma intérmina fileira de rastos de sanzalas, pequenas campas ao lado, pavoroso cemitério amortalhando o horizonte inteiro. Não voltaríamos a encontrar comunidades antes de reentrarmos na região costeira, completando a volta por todo o norte angolano. Apenas o realojamento, de longe em longe, a coberto de unidades militares, dos que haviam permanecido no lugar e dos entregues. Sanzalas novas, alinhadas, até com tentativas de modernizar, aproveitando materiais pobres e o gosto aborígene.


Comandei outra coluna para Artur de Paiva, até Vila da Ponte. Oportunidade de perscrutar a vasta região planáltica do centro e sul, nunca atingida pelo malefício da guerra, onde a vida anda remodelando estruturas e Angola nova se calhar germina. Tomámos pela estrada-eixo que, partindo de Luanda, atinge o planalto da Cela, Nova Lisboa e, desta, bifurca para Serpa Pinto e Sá da Bandeira com as urbes costeiras meridionais. Paragem de Nova Lisboa: um curto fotografar do coração deste mundo multiforme onde a vitalidade aflora em cada curva.


Três dias após uma carnificina de operários da Junta Autónoma de Estradas de Angola, caídos numa emboscada entre Mussessa e Ambrizete, troquei com o camarada que iria para lá com uma coluna e comandei-a eu. Era a ante-véspera do Natal de 69. Previa ficar retido uns dias. Queria ver o moral da zona após aquela mortandade. E o que era um Natal no mato. À ida nem pude reparar, foi uma correria com todas as escoltas em frenesim. Ao parar é que vi a raiva. Falavam por grunhidos entrecortados. Caras pesadas. Um ou outro era levado para um canto, uma pergunta muda.


- Nada, pá. Fugiram para a serra.


- E a sanzala?


- Estiveram lá. Mas ninguém sabia. Não voltaram mais.


Não descobri nenhuns civis, apenas um alferes, destacado em Musserra, comentara:


- Não, a sanzala não tem culpa, os pretos que eles mataram eram todos de lá. Uma tragédia para aquela gente! Andam tão fora de si que se agarram algum dos gajos esmigalham-no.


Ali a guerra tinha nervos, a justiça gritava e a dor não tinha cor de pele.


Afinal, vim consoar ainda a Luanda. Aqui nem havia guerra, nem injustiça, e a dor escolhera a cor da pele. Uma dezena de homens presos preventivamente. Quando alguém à polícia perguntara como arranjara aquilo:


- Mentiram-lhe, juro que não há ninguém preso. Pode ir ver: são tudo pretos!


São tudo pretos: não eram ninguém...





O Dever de Ignorar


Eu prendera a verdade na lapela

E em todos ria minha roupa bela.


Cochichei sorrisos em caras alheias

Às mancheias.


(Os erros vigiavam-me em esquinas

Escusas

E eram agentes secretos.)


Demonstrei às pegadas das sendas confusas

Como sobrevoar ravinas

E construir tectos.


(Os agentes vestiram noite e sigilo

Caminhando morte pelo meu trilho.)


Teu medo, amigo urgente, vem elidi-lo

Perseguindo noite além

O brilho

Da manhã que vem!


(Então um erro mudo me prendeu

E despiu

De pai e mãe.

Leram-me a lei:

Proibido vestir a verdade,

Desmoraliza.”)


Agora apenas o rei

Recolhe as madrugadas que jamais verei

E as pulveriza

Da cidade.


E os corvos em muda grita:

Noite para todos, cacos de luar.

Para engolir a desdita,

O dever patriótico de ignorar!”


E eu que prendera a verdade na lapela

E em todos ria minha roupa bela!





Angola

Vida Militar 4


Ninguém queria ser oficial de dia. Muitas vezes troquei, principalmente em domingos e feriados, com outros, porque não me era incómodo por aí além. Levava um livro para ler e, afinal, lia a revista “Notícia” ou ia palrar para o gabinete de Acção Psicológica. O trabalho da rapaziada era automático, bastava-me ir conferir num lado ou noutro.


À hora do almoço juntávamo-nos, por vezes, em grupo, ao redor da mesa e perdíamo-nos horas longas joeirando Angola.


- Já reparaste na quantidade de fardas que andam em Luanda? Muito quereria eu ver qual a distribuição de militares por áreas! Era muito revelador.


- Olha, aqui em Luanda sei eu, que tive de organizar um trabalho de Acção Psicológica e deram-me os dados. São 20.000!


- Vinte mil?! Ao todo atingimos 65.000 na Região Militar inteira. Então a terça parte está aqui!


- Agora repara: já descobriste algum terrorista por cá? Que andará todo este mundo de gente a fazer?


Um major da 1.ª Repartição confirmaria mais tarde que, após a saída do batalhão da rede periférica, conferira o número dos permanentes em Luanda. Eram 18.000, registo do CONDEL. Quando, tempos depois, referi ocasionalmente aquele número, um capitão da 1.ª Repartição do Quartel General discordou, radical:


- Em Luanda há apenas serviços e unidades de trânsito. A maior parte da tropa está em território de intervenção. Vinte mil, dentro da rede periférica?! Não pode, não pode...


Quando, porém, veio um novo Comandante-Chefe, a primeira ordem que dele me relataram foi a de atirar para o mato um ror de gente que perambulava em Luanda. Alguma razão haveria. A massa é que não acredita.


Aliás, alguém na Chefia havia comentado, a propósito da quebra alarmante de frequência à Academia Militar:


- Ó pá, não sabem como hão-de encher aquilo? Que diabo! Basta-lhes dizer a quantidade de graduados do quadro permanente que há no Quartel General e o número de milicianos que atiram para o mato. Vai logo tudo a correr para a Academia. Já reparaste bem no atropelo de inúteis que anda naquele Quartel General? Olha que de milicianos não é! Não haverá nada onde empregar aquela malta toda? E quantos capitães do quadro encontras tu a comandar Companhias em áreas de porrada? Quase nenhum. É tudo miliciano. Lixam-nos pela frente e por trás, bolas!


Viera para a chefia um capitão miliciano, em termo de comissão, que fora colocado na 1.ª Repartição e pedira a transferência. Era formado em Direito e preferira aclimatar-se novamente à vida jurídica.


- Para você imaginar a pouca vergonha que vai naquele Quartel General, repare: eu pedi para vir para cá porque não havia lá nada para fazer, uma total perda de tempo. Não justifica de maneira nenhuma um oficial o trabalho que eu tinha. Pois sabe o que fizeram depois de eu vir para cá? Como aquilo para mim já era demais, olhe, nomearam dois majores para o meu lugar!


Aliás, este esforçado heroísmo em fruir regalias à conta da guerra, confirmei-o ao vivo mais tarde: nos Dembos, santuário da UPA (União dos Povos de Angola), a mais sangrenta área de Angola, no coração do norte, lutavam apenas uns 2.500 militares; em St.ª Eulália, o comando do secreto Sector D, informaram-me de que era onde havia, apesar de tudo, maior concentração, porque a zona leste inteira ainda tinha menos, 2.200, e era a região mais afectada depois daquela. Nem 5.000 homens nas duas grandes áreas de luta! Que é dos outros 60.000?


É o patriotismo de comer e beber à custa do sangue alheio!






A Cor da Esperança


Por fruta de luar apodrecida

Nos atiram porta fora.

Lá dentro nos fica a vida...


Embora!

Na perdida urbe cinzenta

Não há cor que valha a esperança,

Por isso os atormenta

Nossa dança.


O preto,

O amarelo,

O pele-vermelha,

O branco,

Este com rasto de águia, aquele de verme ou de insecto:

Que o sol, tê-lo ou perdê-lo

Pende da cor que amealha

A conta do banco.


Ah, musseques de suor em rio preto,

Gente, cubata, pano,

Vida de cismar!

Mansão de branco é o engano

Discreto

De mestiçar vento de estrelas naquele suor concreto

Apenas para o disfarçar.


Quanto mais da verdade perto,

No sangue da revolta e da semente,

Para eles mais urgente

Aniquilar-nos: só o poder pode estar certo!


E depois, num arremedo

De esperança,

Obrigam-nos à aliança

Do arvoredo.


Prisioneiros do verde

Na juvenil floresta,

Nos morros, seios de mulher de

Ternura, e nesta

Árvora-farda que impele

As seivas da pele

Do mundo e dos frutos do fim.


Verde frenesim,

Poema sinfónico

Vestido de mim.


De amanhãs febris no recanto daltónico

Verdes fingidos tombam baços,

A morrerem de cansaços.


E o sol, à despedida,

Em muda gargalhada,

Pisca-nos genuíno o verde raio

Arrancado ao incêndio da vida

Pelo mundo largo semeada.


Por isso apagado não caio

E se, chama trôpega, tropeço,

Lume permaneço,

Não traio.






Angola

Vida Militar 5


Em Luanda não há onde arrumar um veículo, tal o número deles. E em cada dúzia, um, pelo menos, é militar. Elevado aferidor do gigantesco esforço guerreiro empreendido. É verdade que para manter em pleno a máquina multitentacular da luta, é urgente uma infraestrutura de interligação à altura. Altas estratégias militares remetem viaturas para as compras do mercado, o salão de chá, o cinema e a “boite” ou o jogo de canasta em casa da última amiga, carregando o excelentíssimo tédio das não menos excelentíssimas mulheres e filhos dos indiscutivelmente excelentíssimos oficiais superiores e generais a quem tais viaturas foram entregues para serviço. Aliás, é do superior interesse da Nação que deambulem batalhões destes automóveis em parada pelas praias da Ilha de Luanda, corando de mar e sol a sacrificada família dos patrióticos profissionais da morte. Tal holocausto depura a acrisolada devoção à Pátria, nunca por demais manifesta, de tais heróis. E, claro, é premente ir educando a juventude nos altos ideais do País e, portanto, o filho do herói desde menino empunha nobremente o volante, presta juramento de fidelidade e ei-lo correndo desarvorado em improvisado rali pela marginal, ou curtindo amores pelos recantos, com as amiguinhas ou amiguinhos lá do grupo.


Manda a verdade referir que tudo isto é mentira, devida a infiltração de propaganda inimiga. A prova é que não há qualquer documento comprovativo. Ou então que andaria a fazer a Polícia Militar? Ninguém pode negar que um grande número das viaturas militares que percorrem Luanda é justamente da PM. E o enorme volume de participações desta indica que não anda na rua por andar. Ora, no meio de tanto papel, não há nada que aponte para aquilo.


Nem pode haver. Quando um dia um camarada da Chefia berrou com um oficial da PM porque eles não punham cobro ao desaforo descobriu uma trama edificante.


- Ó pá, que queres que eu faça? Noutro dia obriguei a parar um. Era o filho dum tenente-coronel, andava a passear sozinho no carro do Estado. Nem sequer levava o condutor! Escrevi a participação e obriguei-o a voltar atrás. Fui logo chamado ao pai dele. Sabes o que deu? Obrigou-me a rasgar a participação, tirou-me o nome e o número e ameaçou-me de que falaria já com o general e eu era corrido para o leste. Que para a próxima em que eu me meta não me perdoa. Agora vê lá! Andam feitos uns com os outros, eu não tenho poder nenhum... Também não vou, para no fim não endireitar nada, estragar ainda a minha vida, quando os maiorais...


- E os pequenos é que pagam?! Então pronto, deixai andar, já que isto é uma bandalheira. Os menos culpados são estes matumbos que não têm nada e vós andais a massacrar a torto e a direito.


- É bom de dizer! Depois nós é que gramamos. Cortam-nos as pernas por todo o lado se não apresentarmos trabalho. Reparam em tudo. Quando uma patrulha não ligou a uma picuinha qualquer – às vezes passa-nos – e um dos crânios a viu, pronto, há barulho. Eles aprenderam a defender-se muito bem, nunca generalizam a coisa, daria muito nas vistas, que é que julgas?!


A subversão, porém, já vai longe demais. Então a Dr.ª Sinclética, deputada, não protestou na Assembleia Nacional, em Lisboa, contra o número de viaturas privadas militares em Luanda, uma vez que a época é de espartilho e não de grandezas?! Daqui a mais o País inteiro dá em traidor, excepto, claro, os excelentíssimos donos da guerra! Aliás, os homens do Goveerno são umas crianças ingénuas, temos de corrigir-lhes azelhices, mesmo indo contra a lei, mesmo usurpando poderes constitucionais. E eles que vão tomando cuidadinho, senão ainda apanham uma surra!


E lá anda este mini-país dentro do País, a ninguém sujeito, amarrando-nos patrioticamente ao arbítrio desta total falta de escrúpulos.






Combate


Multidões de hipopótamos arfavam em tropel

Vitoriando o grande chefe inventor do arganel,

Lágrima fácil, bedum neurótico,

Arrotando afrontados de ardor patriótico.


- E era uma vergonha usar a razão!

Da verdade os vivas cadinho serão.


Entretanto os corvos já tramavam teias

Calculando, metálicos, a garra fria,

O sangue podre das veias

E a carne macia.


- E era uma vergonha usar coração!

Embotaria a útil frialdade da razão.


De mortos fugindo pelo azul me sinto,

Uivam arrepios nas trilhas pisadas.

Uns dançam ao pé coxinho do instinto,

Outros afiam espadas.


Combate para os ceptros contratempo,

É urgente que os músculos da razão,

Enquanto é tempo,

Rasguem estrada ao coração!






Angola

Vida Militar 6


Ainda na Metrópole, várias vezes pernoitara em casa do Dinis, perto de Leiria, em Marrazes. O pai dele gostava de recordar os velhos tempos de militar e afirmava convictamente que era inviolável na tropa a igualdade perante a lei de grandes e pequenos. E contava histórias de antanho. Nós protestávamos. Mal armados, porém.


Durante os primeiros tempos na Chefia de Justiça nem reparei. Eram demais os atritos por eu ignorar as praxes internas. Um dia, porém, estoirou a rebelião: fora recusada uma informação dum auto disciplinar, um cúmulo de infracções graves com vários implicados, porque o maior infractor era filho dum crânio amigo do general e a mamã do menino reclamara clemência. Ora, perante um General Comandante de Região, o chefe curvara a espinha. Uma proposta de rara honestidade: para salvar o menino, para mais graduado, era mister jogar a culpa nos demais – estes tê-lo-iam arrastado, arguiriam.


- Ele é meio simplório. A gente não deve aplicar a lei com tanta intransigência, temos de humanizá-la.


- Está bem. Humanizemo-la então para todos. Só para alguns, não.


Discutimos o auto em conjunto. Confirmámos a primeira informação: igualdade perante a lei. Voltou a despacho.


- Mandei-o alterar o parecer – criticou o chefe.


- Não concordo. O meu parecer é este, meu coronel – retrucou o alferes.


- Já perguntou aos outros?

- Ninguém concorda com a alteração.


- Oh, diabo! Então estou sozinho. Bem, já que o senhor não quer corrigir, deixe ficar. Eu arranjo isto.


- Como o meu coronel queira. Mas eu mando tirar para mim uma cópia do parecer para futuros autos paralelos.


E os implicados foram mais punidos que o principal infractor. Não haverá ninguém no País capaz de gritar “Não!” a um general?


Doravante atendíamos toda a gente que nos procurava para nos informar do circunstancialismo de qualquer questão pendente e tomávamos em conta todos os dados. Por outro lado, resistíamos a qualquer pretensão por via hierárquica: ou recolhíamos elementos para ponderar ou então, nada. E é claro que o hierarca impera, não se rebaixa a informar inferiores.


Para além de a teia da lei não apanhar os pardalões, outras anomalias íamos anotando ao correr do tempo. O abuso de autoridade, estigmatizado no Regulamento de Disciplina Militar e no Código de Justiça militar, era letra morta. Várias vezes nem queria acreditar. Deveria haver algo nos factos que eu ignorava e, portanto, teria de rever o auto, reformaar a informação ou devolver para novos trâmites. Desiludi-me, porém. Era apenas um conluio espontâneo para camuflar o totalitarismo universal da máquina militar. As já muito curtas restrições ao poder arbitrário eram de tal modo cerceadas na prática ainda que perdiam todo o relevo. É um superior? Então pode tudo o que lhe apetecer, nós cá estamos para o guardarmos.


A mesquinhez atingiu por vezes foros de loucura. Uma bela manhã, um colega da Chefia de Contabilidade rebentou diante de nós, esbaforido.


- Eh, pá, tenho um auto às costas. Ando à rasca! - tremeu, confundido. - A minha mulher está em tratamento de urgência há três dias no hospital. Uma despesa enorme com que eu não contava. Ando teso, pá. E olha, há dias apareceu-me por ali um ganapo a vender enciclopédias e eu prometi que ia assinar uma delas. Agora, com isto, tive de desistir e fui-lho dizer. Ontem à tarde cai-me lá um major qualquer, que eu não tinha vergonha, que era um homem sem palavra, que o filho, coitado, andava a vender enciclopédias a ver se ganhava mais algum dinheirito e que eu ia apanhar uma porrada porque ia participar de mim, porque palavra dada ao filho era palavra dada a ele, que eu não podia mentir a um superior...


Escancarámos a boca até às orelhas. Mandámo-lo logo embora:


- Ó pá, deixa-o mandar o auto, deixa-o vir cá... Isto anda pior que um manicómio!


A febre do dinheiro é tal que o desfile de autos por burla, furto, desvio, vício de contas e quejandos não pára nunca. Nem parará. Os mais espertos nem vão à Chefia de Justiça, criam expedientes rendosos e seguros. Um dia perguntaram-me:


- Já sabes a história do coronel do Grafanil? Ainda não ta contaram?


- Não.


- Oh! Toda a gente fala por aí. É o tipo das viaturas que vêm do interior evacuadas para consertar ou abater à carga. A maior parte ele dera-as por irrecuperáveis e ficaram por lá a monte, como ferro velho. Olha, dizem que montou lá dentro um forno, fundia as peças em lingotes e exportava-as depois para o Japão. Uma mina! Entretanto a coisa ecoou lá por Lisboa e mandaram aí uma inspecção. Mas um tipo qualquer do puto escreveu para o gajo a preveni-lo. Sabes o que ele fez? Tinha ali uns doze Unimogues novinhos para distribuir, mandou desmontá-los todos, arrumou as peças em monte e, quando chegou o inspector, nada feito. “A sucata está toda acolá. Não desapareceu nenhuma.” E pronto, os outros engoliram a galga e foram embora.


Para não falar dum processo moroso em doze volumes que herdámos de trás, intrincado conluio de altas patentes com camionistas para aumentarem registos de quilometragem, número de viaturas contratadas e sei lá que mais. Outros camionistas falaram-me longamente daquilo, era do domínio público com nomes e tudo. Uma sujeira.


Como pôr cobro à libertinagem com uma justiça a encorajar o libertino? Que lucra a autoridade protegendo o crime, a pretexto de fortalecer a autoridade?





Anunciação da Alegria


Venho anunciar-vos a alegria.

Das entranhas dos montes do degredo

Nasce o dia!


Venho informar-vos em segredo

Que à meia-noite (a polícia nem suspeita)

O sol perde o medo.


Faz a desfeita

De entregar a toda a gente

A verdade da luz democraticamente.


Venho cantar-vos que a alvorada é para todos,

Não há grades que a encerrem.

Da verdade o modo é inventar modos

Que o sabor da verdade não desterrem.


Que importa a prepotência

Se a alegria explode serena da montanha verde?

Que importa a morte se a vida

Mora no peito fértil da violência

E o amor não é vaidade que se perde?


Canto livre a madrugada.

Minha voz, bandeira erguida

Alvoroçada,

Celebra agreste a abundância do dia.


Das horas presas a melhor fruta é a alegria

Generosamente

Repartida

A toda a gente.






Angola

Vida Militar 7


Um alvoroço na Chefia de Justiça, o coronel desarvorado a correr ao Quartel Genetral e, daí a pouco, de orelha a orelha, o segredo: “actividades políticas”. Quando lá entrei, de tarde, nem acreditei logo.


- Comunicaram-me alguma coisa, mas é secreto, não lho posso contar – comentou o coronel.


- Mas eu limitei-me a dar aulas e orientar sessões de estudo de temas de actualidade, mais informativas e documentais que outra coisa – argumentei.


- E não têm efeitos inconvenientes para a política em vigor?


Marcou-me entrevista com o Sub-Chefe do Estado Maior.


- Ignoro por completo o que há. Nós também estranhámos o rádio do Comando-Chefe. Mas olhe que é já o terceiro ou quarto graduado a ir para St.ªEulália. O brigadeiro que é o comandante de lá costuma pedir através deles e não por nós estes reforços. Tem uma maneira de proceder que não agrada aqui ao general, mas ele deixa correr. Provavelmente foi ele que o pediu para o comando do Sector.


Admiti que fora o Brigadeiro Pedro Serrano. Eu cobrira-lhe já o serviço de justiça da “Operação Robusta” um ano atrás, na região Quibaxe-Terreiro, uma limpeza das matas ao norte do Rio Dange.


- Tem projectos de relevo em curso? Então deve atestá-lo. Fale no Comando-Chefe. Um empreendimento importantte para a colectividade pode valer muito mais que qualquer trabalho de rotina que cubra no mato. Vá tratar já disso, que nós temos de atender ao que for mais válido – rematou o Sub-Chefe do Estado Maior.


O Coronel Gonçalves sugerira-mo também. Não perdi tempo, de boa fé. Entraram em linha os Secretários Provinciais da Educação e da Economia e o Instituto de Educação e Serviço Social. Entretanto, o administrador-adjunto ao Comando-Chefe contactou de tarde para lá. Veio abatido.


- Resposta negativa a todos. Nem vale a pena eu tentar nada.


Afastado “por conveniência de serviço” e o coronel para mim:


- Faça tudo por ficar aqui, O senhor faz-me cá falta na Chefia. Agora para St.ª Eulália! Então e o trabalho aqui? Meta os civis todos ao barulho para eles anularem isto.


Resposta do Comando-Chefe ao Instituto de Educação: “o bem e o mal têm de ser repartidos por todos, agora é a vez dele”.


Primeira pergunta, ao apresentar-me em St.ªEulália:


- O meu brigadeiro pediu para eu vir para aqui?


- Eu não! Nem sei porque vem para cá. Não tem aqui trabalho nenhum!


O Exército é fértil escola de despersonalização: aguentamos na pele o conluio de todos os cretinos. Quem diz que pretendem acabar com o terrorismo? Nada de ilusões – o terrorismo é muito útil: justifica o prolongamento dum monolitismo sociopolítico, dito unidade, pelo corte de toda a cabeça que brote do anonimato geral; cortando as cabeças proliferam insolúveis as desordens que frutificam em terrorismo: cultivando as causas colhe-se o efeito e voltamos ao princípio. É a galinha de ovos de oiro para a inépcia estabelecida. A juventude é que definha, reconfortada por homenagens públicas ritualizadas e farisaicas.






Espera


Perros de nada empreender,

Esperais a liberdade

Por milagre de varinha de condão?


Acreditais renascer

Por magia dos turíbulos da cidade?

- Revelação

Revela acção!






Angola

Vida Militar 8


Nunca entrevi o alcance da apoliticidade militar, uma vez que é pretexto para urdir partidarismo político onde política não há. Inverteram a finalidade das normas, de modo que actualmente não há mais estrénuo fabricador de ordem estabelecida que o militar. Inimigo mortal de qualquer vida, em tais mãos vai cair a juventude, vida do País: é a orgia dos vampiros.


O chefe uma vez por outra chamava-me ao gabinete. Pedi-lhe várias vezes para me permitir falar francamente, pôr cartas na mesa. Os atritos no quartel eram quotidianos. De boa fé, punha-me a nu – o que julgava , o que via, o que sentia, o que preferia. No fim, ele discordava polidamente, não mudava uma vírgula ao tratamento interno do aquartelamento, empoleirado na verdade perene do privilegiado crânio. E despedia-me assim, ritualmente:


- Espero que esta conversa tenha sido muito útil para si! - porque ele atingira há muito o estado de perfeição.


Curioso como a pretensão de tudo saber redunda em ignorâcia.


- Nós cá costumamos ser flexíveis. Há pouco a fazer. O senhor vai para as operações e informações.


Mais tarde descobri que a pretensa flexibilidade camuflava uma incompetência que é geral, reafirmada em múltiplas oportunidades por quantos com crânios tratavam e eram oficiais do quadro. Ao Exército ainda não chegou o princípio-base da produtividade, a especialização de serviços e funções. Têm-nos divididos mas qualquer um pode exercer todos, o que justamente os destrói pela base.


Entretanto, o Comandante-Chefe da Região Militar, General Almeida Viana foi demitido, substituindo-o o General Costa Gomes. Veio aquele a St.ªEulália, com um enorme estado-maior, despedir-se. Ao jantar pediu-me a identificação, estava eu de oficial de dia, responsável também pelo menu e serviço da messe.


- Ah! Nós já nos conhecemos – berrou, irónico.


E, para o brigadeiro:


- Este é o filósofo, este sabe tudo.


E o jantar inteiro foram propósitos e despropósitos. Aos brindes:


- Fui demitido. Sou um ignorante. Não tenho nada a ensinar a ninguém. Lamento que a experiência que adquiri durante estes anos, o Governo a deite fora. Mas eu sou daqueles que preferem um Governo que nos governe mal a não ter nenhum. Bem, não é o caso, falo academicamente... Ao fim destes anos de trabalho deram-me uma grande promoção: reconduzido ao lugar que ocupava há cinco anos atrás, Sub-Chefe de Estado Maior. Um grande prémio, como vêem! Eu não tinha interesses pessoais, não dava aulas – (esta era-me dirigida) – não trabalhava para mim. Mas não sirvo. E conheço muitos coronéis e tenentes-coronéis que roubam. Até há generais ladrões! Porque há muita maneira de roubar...


Brindou, beberricou e bacorejou:


- Para todos os efeitos, estamos em guerra. Quem não é por nós é contra nós. Seja preto, seja branco. Para mim é: eliminado! Até porque tais brancos vão ser os primeiros a dar-nos um tiro nas costas quando isto mudar.


A única lição magistral da minha guerra. Um general pode dizer o que quiser que não é isolado em St.ª Eulália.


Aprendemos, de fonte autorizada, que há coronéis e generais ladrões – nada de novo, apenas um depoimento sólido. E que temos generais discípulos de Hitler, que trituram ideias a carros de combate e rajadas de G3, para quem oposição é traição, cujo ideal de vida é a orgia de matar a diferença.


Onde encontrar alguém diverso num mundo ao lado do Mundo, onde tudo é deformado por igual bitola? Não descobri aqui, nem em Luanda, nem nas colunas pelo mato, um único oficial miliciano concordando com o estado de coisas angolano. Ninguém acredita nos quadros, na seriedade da luta, na competência e equilíbrio dos comandos, na justiça militar e, sobretudo, ninguém concorda com a perspectiva que a guerra tem no enquadramento do País. Ou defendem que urge preparar isto para a independência ou então que era bom, para a Metrópole não morrer à fome ou por qualquer outra razão, continuarmos todos ligados, mas como? - perguntam. O empedernimento dos caquéticos no poder deteriora a cada dia mais longínqua probabilidade de abrirmos trilhos de convergência para além da guerra.

O futuro da Pátria morre cada dia às mãos do militar e do polícia enquanto a contraprova duma ideia pretensamente errada for dar-lhe um tiro.






Receber é Dar-me


- Querem defender-me?!

Grita-me de alarme

A voz da epiderme.

- Quero é conquistar-me!


Mãos de proteger-me

Tentam engodar-me.

Ah, cordeiro inerme,

O engodo é um desarme!


Crêem que me enganam

Mentindo que crêem

Que com tempo me arme?


E de mim se danam

De eu não qu'rer que dêem?...

- Receber é dar-me!






Angola

Vida Militar 9


Dois temas de conversa encontrei nas unidades militares, um pouco por todo o lado na vastidão de Angola, pano de fundo dum estado crítico: pornografia e livros proibidos. Não entendo como arranjam aquilo, quando se encontram num enorme isolamento, em locais do fim do mundo. Fotografias, álbuns, postais com o agressivo erotismo nórdico, melodias e cantigas as mais provocantes. E, ao lado, Marx, Mao-Tsé-Tung, Régis Debray, Che Guevara, Fidel Castro, Roger Garaudy, os políticos africanos, Camilo Torres – um mundo de gente. Nos locais mais inesperados e recônditos do mato. Exibidos em ar de desafio: uma vindicta pelas costas! Compensações, comentaria Freud. Maneira de não explodir de frustramento. Evidentemente, nada alardeiam disto propriamente em público: é em privado e perante quem é de confiar.


Podem desmentir isto oficialmente, com plena honestidade: a juventude é aguerrida, generosa, heróica, patriótica e todos os demais predicados costumeiros. É o que ela mostra para fora. Nem o desdirá, vive bastantemente aterrada pelos que a rotulam para reagir sequer. Mas lá está o pano de fundo da pornografia, caracterização espontânea dum ambiente que se animaliza; e o do pensamento revolucionário, afrontamento e desprezo íntimo pelos que os violam.


Há uma divergência radical de métodos entre um lado e outro da guerrilha. Enquanto no lado de cá carregam no potencial de luta, os guerrilheiros respondem com a instrução e debate ideológico. Quando daqui se alonga um degrau mais o duelo, requintam eles, concomitantemente, o aguilhão dos ataques, com armas novas. E o trabalho deles com os povos continua imperturbado. Na “Operação Robusta”, a Engenharia, ao abrir uma picada, entrou de improviso num aquartelamento da guerrilha ignorado na floresta. Tudo embasbacou: era uma cidade.fantasma! Uma avenida principal, dois metros de largura, abobadada e com estacaria nas bermas, ninhos de metralhadoras a intervalos regulares. Trezentas cubatas, com palácio do chefe. Encontraram o trono deste, um magnífico cadeirão trabalhado. E, finalmente, um anfiteatro enorme, com várias centenas de lugares: a escola. O anfiteatro era o coração ao redor do qual a vida pululava.


Do nosso lado contrapõem sempre a mesma resposta: violência. Nem tudo é militar, evidentemente, mas a verdade é que em tudo há o horror à inteligência. O perigo de um homem pensar na vida! E como, desta maneira, dão campo aberto à propaganda insurreccional, vá de investir mais na guerra, de a forçar até à exaustão. E lá continuam, também aqui, a tentar vergar a razão pela força. Iguais em todo o lado.


Ora, basta um apoio estrangeiro atento à guerrilha para anular em pouco tempo qualquer birra. Mais um carregamento de armas e tudo volta ao que era dantes. Aliás, tudo fica um pouco pior, porque um retorno é uma nova fase. Deste modo, obrigando-nos a permanecer eternamente parados e alargando a campanha de mentalização por todos os meios enquanto entre nós é terminantemente proibido pensar (repetir lugares-comuns ou ser fiel à ideologia cristalizada, de fabrico hierárquico-monopolista, não é, evidentemente, pensar), eis-nos colaborando francamente com os guerrilheiros e buscando com todo o entusiasmo a derrota político-militar! E ainda brindaremos gentilmente ao adversário umas prometedoras infraestruturas económicas recém-promovidas, premiando-lhe o desportivismo.






Dor de Homem


Ouve, filho da bem-amada:

O trilho dos homens é a noite.

Tropeçam pelos matagais medrosos,

Olhos fixos na esperança da alvorada.

- Primeira dor de homem: a fome da luz.


Ouve mais, filho da bem-amada:

Verás o sol nascer

Dum infindo mar de sangue.

Olha para oriente.

Quando as veias dos cordeiros imolados

Encharcarem os lábios do horizonte,

Então brotará candente

A palavra do sol.

- Segunda dor de homem: o parto da luz.


Filho bem-amado:

Irei à tua frente,

Desistindo de apenas imaginar a palavra

Entre nós jamais pronunciada.

Nos pedregulhos do caminho por ti me imolarei,

Meu sangue espargindo nos espaços

Para te inundar de sol nascente.

No cálix de minhas mãos mortas,

Ofertar-te-ei o dia.

- Derradeira dor de homem: serei tua luz!






Angola

Vida Militar 10


Correio para mim era raro. Na Matrópole tinha a correspondência violada, mas punham-lhe o visto e às vezes a rubrica do agente da censura. Violavam-na com vagos escrúpulos de lealdade. Uma carta urgente de Coimbra demorou-me um mês a chegar ao Lumiar. Em Angola perderam os escrúpulos, nunca rubricaram nada. Mas os 250 Kms de Luanda a St.ª Eulália demoravam também um mês, apesar dos aviões diários. Inventei, porém, um estratagema infalível: desatei a insultar os agentes em meus aerogramas, chamando-lhes colaboradores do terrorismo por não permitirem a ninguém trabalhar, ameacei-os com Marcello Caetano a quem iria contar tudo. E então recebi as cartas em dois dias! Tal o heroísmo dos intransigentes patriotas!


Aliás, a PIDE era prestigiada. Garantiram-me que ela tinha de tratar da subversão, não era como a da Metrópole, com politiqueiras baratas. Eu, porém, tinha matilhas deles atrás de mim. Pelos vistos, tudo o que faria era suspeito. Como vivia às claras, devem ter apresentado relatórios irrefutáveis de graves crimes. Entretanto, a subversão alastra por todos os lados, dentro inclusive de Luanda, onde até já panfletos distribui. É evidente, há poucos agentes, não podem dar a tudo cobertura... E, portanto, farejam, às dúzias, atrás dum oficial do Exército!


No fim do meu primeiro mês de férias correu, em Luanda, o primeiro volante universitário contra a prisão, pela PIDE/ DGS, duma quarentena de estudantes. O mesmo, agora em Angola: o polícia analfabeto a aniquilar o doutor. O que vale é que a verdade não se descobre nem se encobre a tiro.


Em aerograma dum colega da Chefia de Justiça contaram-me um facto divertido. Um tenente-coronel do Depósito de Adidos de Angola, ao ir comer à messe, lavava as mãos e depois vinha-as sacudindo por entre as mesas, chapiscando toda a gente. Um dia, eufórico, mandou vir vinho, bebida extra, e no fim não queria pagar. Um grande borborinho e então, colérico, pagou mas obrigou a vir quatro cervejas a que, pela ementa, tinha direito. Despejou duas fora, ostensivamente, chamou dois faxinas e deu-lhes a beber as outras duas. O capitão gerente da messe fez queixa dele e parece que o não avisara antes. Instaurado o auto, a Chefia emite parecer para obrigar a responder o tenente-coronel; a 1.ª Repartição, para ilibá-lo e punir o capitão. Prevaleceu este último despacho. A questão grave, para os crânios, era o capitão não ter prevenido o superior de ir queixar-se dele, a escandaleira do outro não importara.


Ao correr do auto, acovardado, o tenente-coronel fora um dia à Chefia confabular fechado com os maiorais para abafarem a coisa. E palraram, palraram...


Os meus colegas fitaram a orelha atrás da porta.


- Não, a guerra está para durar.


- Olha que tem havido agora umas arrancadas e isto vai desgastando...


- Não, isto deve-se prolongar... Agora, em acabando, aí então ou nos dão as mesmas regalias ou há-de correr muito sangue! Ai corre, corre.


Reparando que a alta administração pública de Angola é dirigida por militares, desde o Governador-Geral aos governadores de Distrito; olhando para as ditaduras militares brasileira, grega e as da América latina; respirando um clima de incontrolável abuso do poder no meio da mentalidade granítica duma extrema direita omnipotente, joguei meus temores aos camaradas:


- Caminharemos para uma intentona militar que esmigalhará qualquer tentativa de liberalizar e renovar?

- Entre nós. Não. Toda a malta que desde 61 aqui gramou viu como isto anda podre. Não creio que fiquem muito quietinhos ou que vão logo à ordem do primeiro. Lembra-te de que quem usa as armas somos nós e podemos atirar para muitos lados.


- Ó pá, mas que é que a gente entende de guerra? Os crânios é que têm tudo nas mãos...


- Está bem, não podemos pegar na máquina e pô-la a andar. Isso é lá com eles. Mas já podemos escolher o campo onde alinhar. E duvido muito que uma besta qualquer destas arranje apoio.


- O pior é se não houver ninguém que se lhe oponha.


- Não, tanto não. Há muito quem não alinhe. Era azar demais – e o interlocutor remordia uma vingança que tardava.






Amorte


Amor te ofereço,

A morte me dito.

A morte ofereço,

Amor te medito.


Assim,

Cara e coroa da moeda de mim.






Angola

Vida Militar 11


Encarregaram-me de fazer uma palestra de acção psicológica aos militares. Escrevi-a: enquadramento actual da guerrilha, dificuldades do País, caminhos para superá-las. Propus no fim a transformação das Forças Armadas num serviço social, com duplo objectivo: defender e promover a colectividade, para empenhar as especialidades técnicas e humanísticas dos incorporados em prol dum desenvolvimento comunitário integral. Mandaram-me cortar tudo isto mai-las dificuldades em que nos debatemos. Argumentei que era para mim um problema de consciência, não ia pôr-me a mentir. Engavetaram a palestra. Nunca mais a vi.


Tempos atrás, perante uma atitude ilegal, eu prevenira um comandante:


- A lei não lhe permite fazer isto.


- Ó meu caro, faço o que tenho a fazer, seja pela lei ou contra ela.


La loi c'est moi. Em que escola aprenderão isto? Aliás, mesmo quando pretendem argumentar legalmente, atiram com infantilidades de palmatória: tudo é lei, desde o texto legal aos comentários, aos apêndices, aos formulários inventados pelos autores dos livros. Um dia recebi, devolvida pela terceira vez, uma deprecada, “para a elaborar nos termos do Cófigo de Justiça Militar”. Preocupei-me, ignorava por completo uma lei a impor termos de deprecada, além da lei comum que cumprira. Depois de muitas voltas, o coronel devolutor, vitorioso, empalmaria a tal lei: uma fórmula inventada por Martins Vicente que a publicara, entre outras, no fim do código por ele anotado. “Termos da lei”, para um coronel, obrigatórios, como afirmava, peremptório, eram uma nota exemplificativa. Decididamente, eu era uma besta de ignorante!


Outra coisa que nós somos é multirraciais. E andamos a proteger populações coitadinhas. O imprevisto das refregas traz-nos evacuados de urgência, normalmente por avião. E das regiões afastadas requeremos a Luanda um aeroplano que virá, quantas vezes noite fechada, levar feridos graves. O Clarimundo teve um dia um caso nocturno e correu ao comandante:


- Tenho aqui um doente que tem de ir já para Luanda. Não pode esperar para amanhã.


- É branco ou preto?


- É um doente.


- Já sei, mas é branco ou preto?


- É um doente!


E não lhe respondeu. Porque dos pretos ele comentava:


- Ah, é preto, então pode esperar até amanhã.


Em risco de morte, porventura. Com a salvação em Luanda, a trinta e cinco minutos de avião.


O Director do Hospital Militar de Luanda era um tenente-coronel médico. Contaram-me na Chefia de Justiça que tomara uma atitude punível perante dois alferes médicos. Os ofendidos queixaram-se militarmente e à Ordem dos Médicos. O auto veio à Chefia e foi distribuído ao Vieira de Campos. Informação para punir. Chamado ao coronel recém-colocado, novo chefe:


- Ora, qual é a graduação dele?


- Tenente-coronel.


- Ah! Então é para arquivar.


- Ai, isto vai dar que falar! - ripostou o capitão. - Quando chegar ao Ministério vou contar tudo, como isto por aqui anda. Não, não pode ficar assim!


Telefonou para Lisboa a perguntar como ia o problema na Ordem dos Médicos.


- Expulsaram-no da Ordem – responderam-lhe.


Voltou a despacho com a anterior informação.


- Já lhe disse que tem de mudar isto.


- Meu coronel, aviso-o de que coloca mal a Região Militar e o comandante e o segundo comandante dela.


- Não me venha agora dizer que o nosso general é burro, não sabe o que faz.


- E digo!


- Ó nosso capitão, retire o que acaba de dizer!


- Não, não retiro!


- Porque é que diz isso?


- O Director do Hospital Militar de Luanda acaba de ser expulso da Ordem dos Médicos.


- Não me diga uma coisa dessas! Dê-me cá o auto.


Correu ao Quartel General. De volta, chamou o Vieira de Campos:


- Pronto, o nosso general vai então propor que o passem à reserva.


Era um coronel de Artilharia a comandar uma Chefia de Justiça... O Dinis comentara:


- Ó pá, que é que tu queres? Este gajo de Direito só sabe Artilharia!


No último trimestre de 69 nomearam-me instrutor do Curso de Oficiais Milicianos, especialidade de Secretariado. Andei a correr dia a dia para o Grafanil. O mal-estar generalizado era deformação contestatária da juventude ou cancro de estruturas? É que nós criámos grandes amizades. Tornei-me confidente de alguns. Um dia, um deles, depois da aula, correu cá para fora para me agradecer, comovido:


- Obrigado, meu alferes, pelas aulas que nos tem dado.


Foi a matéria que melhor aprenderam, quando, no fundo, não tinha qualquer valor para a vida civil de praticamente nenhum deles. Que é que faria, afinal, a diferença?






Doi-me o Corpo dos Outros


Porque o coração me saltou

A egoísta fronteira das costelas,

Doi-me o corpo dos outros.


Porque meu sangue se derramou

Obrigando a enraizar-se estrelas

Na terra martirizada,

Indomáveis potros

Saltitam novos nas pastagens do futuro.


Porque a madrugada

Se entrevê das serpentes

No silvo inseguro

E nas mãos na terra semeadas

De esperança,

Sou muito mais carne das gentes.


De corpo de espadas

Derivaremos corpo de dança.





Angola

Vida Militar 12


Durante as últimas férias em Luanda, numa reunião de estudo dum grupo de amigos, um capitão da 1.ª Repartição do Quartel General fez um balanço do enquadramento militar da opinião de Angola solidamente documentado.


- Militarmente não temos problemas de maior. As áreas da guerrilha são os Dembos até ao Dange, Uíge, e, ultimamente, um pouco também para os lados de Malange – no que respeita ao norte. No leste, abrange a área entre o planalto central e a Zâmbia, mas o Cuando-Cubango é pouco afectado. Para norte desta região, na fronteira do Congo, já volta a não haver nada. Comparando com o tamanho de Angola, as áreas afectadas são uma ninharia. E além do mais temos superioridade clara na luta, os turras nunca nos afrontam ou então fogem muito maltratados. Agora com a subversão é o contrário. Alastra imparavelmente por todo o lado, não há nada que a entrave. No fundo, qualquer negro mantém uma secreta esperança nas promessas reiteradas dos guerrilheiros. Pelo menos, muita coisa vai mudando porque o terrorismo veio, lembrarão eles. Ora, a subversão está organizada em toda a Angola, não há praticamente recanto onde não tenha agentes, até dentro de Luanda. Neste aspecto, o MPLA é que é verdadeiramente perigoso, com uma organização poderosa, cobrindo tudo. Por este lado, nem acção psicológica, normalmente ridícula, nem nada. Vivemos estrangeiros no meio dos negros, nada do que empreendemos os atinge verdadeiramente. Aproveitam as regalias que lhes damos e não acreditam em nada do que prometemos, não somos da igualha deles. Mesmo os realojados, não querendo voltar à mata, também não vivem integrados connosco, regressam para sanzalas e metade do que lhes prometêramos não lho damos. Não vejo qualquer viabilidade em juntar os mundos e criar algo diferente dos dois universos lado a lado, coexistindo estrangeiros um ao outro. Quanto aos brancos, é uma minoria, menos de meio milhão. Andam inseguros. Há um grupo pequeno de optimistas que julga que tudo vai bem, nem reparou ainda no abismo entre as duas culturas de Angola. Outro, maior, acredita que não há outro caminho que o que trilhamos e que há grande probabilidade de ganhar a guerra. A maioria deles, porém, vivem alheios por completo a tudo, preocupados apenas em enricar rapidamente, por qualquer meio, e fugir enquanto é tempo. Uma pequena parte descrê por completo de o caminho palmilhado vir a propósito, dá a causa por definitivamente perdida. Este grupo é fortemente representativo por englobar homens formados, altamente colocados e até elementos da administração pública. Não tem, porém, qualquer força, é diminuto; por outro lado, também ignora outra alternativa para o dilema. Deste modo, por uma razão ou outra, todos os estratos, como o confirmaram as últimas eleições legislativas, apoiam mais ou menos a política em vigor. Por outro lado, o desânimo aumenta dia a dia entre os que andam mais de perto ligados a esta problemática, a situação vai explodindo aqui e além, mormente entrre os militares, com comissões sucessivas e numa vida instável, de modo que o último grupo indicado tende a alargar mais e mais e, caso não haja uma viragem espectacular no panorama político-bélico, tornar-se-á em breve maioritário.


Um Assistente Social, vindo da Cela, narrou-me que fora encontrado morto o tesoureiro das finanças, lá, com um tiro, no próprio gabinete da Câmara Municipal. A instantes do disparo, a mulher dele vira-o falando com um desconhecido, ambos lá dentro. O misterioso interlocutor fugira, incógnito. Averiguado o crime, confidenciam que o tesoureiro era o agente político do MPLA na região, encarregado de cobrar as quotas para o movimento. Houvera um desfalque de quarenta contos nas Finanças. “Talvez com medo de ele vir a falar, olha...”


Na mesma ocasião encontrei um padre que veio a correr perguntar-me:


- Sabe das prisões dos universitários?


- O quê? Prenderam outra vez...?


- Não, agora diz que na última operação dos Comandos, no leste, apanharam um ficheiro dos turras. Tinham lá o registo completo de quarenta universitários daqui. Foi tudo preso. Julgava que soubesse alguma coisa, queria confirmar. Isto está a ficar duma maneira... Quantos mais não andarão por aqui de que ninguém apanhou o ficheiro?


Entretanto, na área de intervenção, os crânios andavam aterrados. Dobrar sentinelas, rondas contínuas, graduados vigilantes a noite inteira. Houve um período em que não corria uma semana sem punirem um ou dois oficiais no Sector. A revolta transpirava. Os capelães militares, curiosamente, andavam de trela curta. Um deles tinha de ler à missa a homilia que o Comandante de Batalhão lhe ditava na véspera. Todos bem controlados, nada de novidades – um cristianismo inofensivo, inoperante era o único tolerado.


Quando puniram lá um alferes, o grupo de combate rebelou-se, pegou em armas e rodeou o gabinete do Comandante.


- Ou a punição desaparece ou este filho da puta já não sai daqui vivo.


A rebelião foi abafada, para ninguém adivinhar. Mais tarde puniram um capitão. A Companhia de Artilheiros dele correu logo a levantar o armamento, juntou-se-.lhe um pelotão de morteiros, queriam arrasar o batalhão todo. O comandante, aterrado, manda tocar a oficiais, roga-lhes que tenham mão nos rapazes senão era uma desgraça. O capitão foi ter com eles.


- Meu capitão, dê-nos ordem e isto vai já tudo raso!


Ele, porém, mandou-os depor as armas e ficarem calmos; foi, a seguir, punido e transferido. Falou depois comigo:


- Olhe, eu só não dei ordem para avançarem porque me lembrei dos meus três filhos pequeninos! À despedida, a chorar, alguns soldados juraram que o comandante não ia sair vivo de lá e que eu tinha feito mal em não os deixar ter ido para a frente. E olhe que um dia algum de nós perde a cabeça. Depois vai ser bonito! Até eu já me arrependi de não ter deixado correr...


Foi nos Dembos, o nó vital do terrorismo angolano, em 70. Apenas ameaças de levantamento, por agora.






Ordem


Liberto as fontes da serrania desembainhada

A refrescar-me

E das alturas jorro praias de amor

Mundo criança além.


Grunhem porcos a isolar-me.

Camada sobre camada,

Fossam barragens de esqueletos em redor.


Águas prisioneiras, porém,

Maior luz retêm.


Caveiras clamam defender a Ordem

Imprecando piamente que os mortos acordem

E nos arreiem o juízo

De cabresto e pala!


- Ordem?! É alarmantemente preciso

Inventá-la!






V Parte


St.ª Eulália

De 27 de Maio a 24 de Junho de 1970




St.ª Eulália, 27 de Maio, 23h e 30m


Era um milagre o dia terminar sem incidentes. Desde o espectáculo da manhã que eu aguardava alguma sarrafusca. O segundo comandante, Tenente-Coronel Bizarro, andou todo o dia preocupado. Ao almoço alertou-me para a eventualidade de ocorrerem excessos entre os soldados.


- Hoje não lhes dê largas. Olhe que anda tudo afogueado. Eles metem-se para aí nos copos e depois é o diabo! - aconselhou. - E logo à noite, mal dê o toque de silêncio, quero tudo deitado e luzes apagadas. Se apanho alguém a pisar o risco, leva logo uma porrada.


- Estão mesmo alevantados? O espectáculo deixou-os tão descontrolados que perdem a noção das medidas?! - duvidei, embora crendo que é mesmo assim.


- Medidas?! Era bom, era! Depois de verem aquelas gajas todas em pêlo, até eu perco as medidas e ao mais já sou para aqui um velho! Agora eles! Está ali tudo a ferver. Ainda vamos ter muita sorte se pudermos ficar por uns quartos de sentinela e umas faxinas.


- Estes espectáculos em vez de ajudarem vêm criar problemas? Ou foi só este? Senão, era melhor acabar com tudo. Para que serve semelhante coisa?


- Servir, servia. Questão era que fizessem programas divertidos com juízo. Parece que a única coisa que sabem é vir aí atirar as coxas e as mamas para cima deles. Ora, coitados, estão aqui meses e meses sem mulher, que era de esperar? Embebedam-se e fazem asneira. Aquilo nem são artistas nem nada! É mas é um bando de putas, é o que elas são. Ora, artistas! Destas anda cheio o Cais do Sodré. Se calhar até as foram lá arrebanhar e tudo, que é que julga? Isto é uma choldra! Como aqui agarram o que vem à rede, aplaudem tudo desde que haja umas pernas ao léu, pronto, já são artistas. Julga que em Lisboa ou mesmo em Luanda arranjavam auditório? Nada, qual quê! Lá tinham era de entrar num bordel. Aqui são promovidas a artistas. Qual artistas, qual carapuça! São é artistas da cama. Se fossem todas p'rà... Anda aqui um homem com os problemas que temos e ainda vêm estas sacanas estragar mais tudo isto! Olhe, vigie-os bem de perto e faça constar que, à primeira infracção, apanham logo pela cabeça abaixo. Senão ainda vai ser pior, acabamos por ter de estragar a vida a alguém.


Durante o dia, porém, o serviço correu dentro da normalidade. Uma certa euforia, uns comentários entre a rapaziada, piadas e risos, mas nada de anómalo. Depois do jantar, porém, é que as coisas aqueceram. Primeiro ouvi algazarra na caserna dos soldados e calculei logo que começavam os sarilhos. Não tardou cinco minutos, um deles bate-me à porta.


- Meu alferes, desculpe, mas ninguém consegue dormir ali. Há lá um tipo que lhe deu para ter um rádio ligado, outro não pára de cantar... Não estou para passar a noite em branco nem quero apanhar uma porrada, se me pegar com eles. Mas se não se calarem eu acabo por não me segurar e atiro-me, meu alferes.


Lá fui acalmar os ânimos. Evidentemente, quando entrei já todos estavam num silêncio de morte. O do rádio baixara-o em surdina tal que apenas ao lado da cama é que notei a música. Apesar disso, mandei-o desligar, a não ser que se entendesse com o outro, de modo que não fosse mais preciso eu voltar lá. Aí, fizessem como quisessem, não era já nada comigo. Julguei que tudo ficaria por aqui, enganei-me.


Quando voltava para o meu quarto, ao passar frente ao refeitório, reparei que havia luz na zona da cozinha. Vi logo que não podia ser distracção do faxineiro. Alguém se metera para lá. Ainda supus que de oficiais só eu estaria a pé e tratei de arrumar o problema sem levantar ondas. Quando bati à porta notei logo a perturbação lá dentro, os cochichos abafados, o silêncio a ver se eu desistiria. Insisti. Veio então um deles abrir. Era o cabo das comunicações, logo por azar um dos moços mais eficientes e equilibrados dos serviços.


- Ó homem, então não sabes o que o nosso tenente-coronel ordenou? - censurei-o.


- Ó meu alferes, a gente só está aqui a fazer uma petiscada, a assar uns chouriços, somos só três, nem fazemos barulho nenhum. Ninguém nos viu. A gente tem cuidado. Venha cá comer umas rodelas connosco. Isto está óptimo.


- Não duvido, mas não posso. Por mim, vocês já sabem que está tudo bem. Mas hoje isto pode dar para o torto. Ainda se tivessem a luz apagada, ninguém conseguia topar-vos. Agora assim... Arriscam-se a apanhar uma porrada. Claro que não estão a fazer nada de mal, mas com os outros já há asneira. Venho agora mesmo da caserna. Se vos descobrem, depois como é?


- É à nossa responsabilidade, meu alferes. A gente acaba já e depois arrumamos tudo, ninguém dá por nada.


- Eu avisei-vos, o problema é vosso. Ao menos despachem-se. Não vale a pena correr riscos inúteis.


Com estes sabia eu bem que jamais haveria qualquer problema. Estavam, porém, em transgressão. Custava-me que fossem logo os melhores a serem sacrificados.


Vinha calmamente meditando nisto quando uns passos breves me surpreenderam. Era o segundo-comandante. Não havia já fuga possível.


- Venha lá comigo! Então aqueles indivíduos obrigam-me a andar cá fora a uma hora destas? Não têm consideração por ninguém! - comentava, rumo à porta, onde bateu.


- Já para a caserna! Todos deitados imediatamente! Amanhã de manhã apresentem-se os tyrês no meu gabinete. Eu preveni-os, nãao têm desculpa!


E pronto. Um espectáculo patrocinado pelo Movimento Nacional Feminino termina com três soldados, dos mais responsáveis e eficientes do Comando, punidos. É o apoio para nos levantar o moral. Por fora, um gesto amistoso; por dentro, um escarro que nos atiram à cara. Tratam-nos como animais. Trouxeram as vacas aos bois, e apenas para lhes fazerem negaças, ainda por cima!






St.ª Eulália, 30 de Maio


Calha-me no próximo mês responder pela messe de oficiais. Nunca tive gosto nem jeito para a cozinha, pelo que este trabalho me vem preocupando. Falei nisso durante o jantar e os outros alferes foram-me pondo a par do que é habitual. Como tudo aqui, há uma rotina implantada e o que temos é de garantir que se mantenha. Nada de transcendente, portanto. A verdade, porém, é que me aflige.


No bar, o Henrique aproximou-se de mim naturalmente. Murmurou:


- Se estiveres atrapalhado, diz-me, que eu resolvo o problema. Gosto mesmo de cozinha e até já inventei vários pratos. Há um restaurante em Lisboa que tem na ementa um dos meus. Nem sequer me dá trabalho, é um prazer, compreendes?


- Aceito, pá. Muito obrigado. Nem imaginas como me alivia!


- Não, isto não vale nada. Tu é que estás de fora, mas logo vais ver que não tem dificuldade nenhuma. O Zacarias, o cozinheiro, mal fala português mas disto conhece os truques todos e funciona sem a gente se preocupar mesmo com nada.


- E como é que uma pessoa não se deixa levar? Estou farto de ouvir falar em falcatruas, em processos por desvio de fundos e coisas assim. Já viste, um oficial de justiça metido em alhadas destas...


- Pois, mas aqui não há grande hipótese. Julgo que ninguém tentou nunca nada disso. O mais que podiam era comprar umas coisas na sanzala ou a algum fazendeiro que por aí venha. É tudo tão pouco e ainda por cima legal... Os de Luanda é que nos mandam comprar os verdes por aqui. E a carne fresca, se não fora o mesmo, nunca a víamos...


- Não há então problema quanto a isso? Óptimo. O meu maior medo vem daí. Mas do resto eu não entendo nada e, por isso, não vejo como poderei tomar qualquer decisão, escolher, sei lá...


- Há outro obstáculo. É que temos de gerir a messe dentro da verba que lhe é atribuída. Neste momento há um défice duns vinte e cinco contos.


- Vinte e cinco?! Mais de três meses do nosso vencimento?! Como se recupera isso?


- Em princípio, quem gerir mal e exceder, repõe do próprio bolso, só que ninguém o faz. Passamos dum mês para o outro e tentamos poupar, para ninguém ter de entrar com o seu.


- Então e se não resulta? Estou mesmo a ver que aí é que me vão tramar.


- Não vão, não. Calma, que eu ando aqui. Vou-te ensinar uns truques para fazeres uma messe que deixa aí tudo babado e ainda recuperas o défice. Ninguém vai topar, até vão pensar que isto é um hotel de luxo. Deixa tudo comigo.


- Ó pá, então explica-me aí. Senão, esta noite já não vou conseguir dormir.


- É muito simples. Há dois pratos que dão lucro, ficam quase à borla e a malta grama à brava. Um deles são umas migas de peixe, à maneira alentejana. Desde que eu fiz a messe nunca mais foi servido. Eu é que trouxe a receita, os outros não a conhecem, não a pudemos comer. Tás vendo. Aquilo leva quase só pão e uns condimentos, apenas se paga o peixe que é do mais barato: umas sardinhas ou uns jaquinzinhos fritos. Este podes servi-lo duas vezes por semana, que não é demais. Todos gostam dele à doida. Comem-no como uns brutos, logo vais ver.


- Duas vezes por semana... Não vão enjoar?


- Qual o quê?! Depois é o frango. O problema com este é que é preciso variar de maneira que não se descubra que é ele que estamos a servir. Anda tudo enjoado porque os pratos que servimos de frango sabem da mesma maneira, não conseguem alterar-lhe o sabor para não ser identificado. Ora, a minha mulher descobriu uma forma de o cozinhar com vinho que até parece um marisco, sabe quase a lagosta.


- Essa agora!


- Verdade. Eu vou dar a receita ao Zacarias. Assim tu serves duas vezes frango por semana. Uma, normal, outra, desta forma. Ninguém vai topar o que é. Comigo também não descobriram. Depois, podes ainda dar uma vez um combinado. Como é à base de conservas variadas e salada, também dá lucro. Já tens cinco refeições em que poupas muito. O resto podes servir o que houver que não vais exceder a verba e ainda se vai recuperar muito dinheiro. Faz assim que ainda apanhas um louvor, vais ver.


- Era só o que me faltava! Porque não ensinaste uma coisa destas aos outros? Não haveria défice...


- Os outros que se lixem, também não me deram a mão em nada! Podes ficar descansado que a ti não te apanham. És capaz de recuperar o défice inteiro com a tua gerência e ainda por cima vais brindá-los com refeições de luxo que eles nunca sonharam ter aqui algum dia.


O Henrique tomou mesmo a peito defender-me. Nisto comunga com a solidariedade geral de praças e milicianos. Há, porém, neste zelo, um pouco mais: cooperar comigo realiza-lhe, de algum modo, um ideal de justiça e integridade que não logrou levar avante na trajectória militar dele, a partir do momento em que veio também para aqui expulso. Funciono como procurador dos sonhos traídos. Quanto Portugal morará escondido por trás disto?






St.ª Eulália, 7 de Junho


Como gerente de messe, fiz hoje as honras aos oficiais duma Companhia de Comandos vinda duma operação. Acabou por ser um almoço divertido. Apesar de cansados, estavam calmos e famintos de comunicar. Por nossa parte, queríamos novidades. Fico sempre meio confundido quando contacto com estas máquinas humanas de morte. Até onde vai a humanidade e a desumanidade neles? Curiosamente, surpreendem-me sempre as pequenas notas de gente comum que inevitavelmente os acompanham. Quando lhes ouvimos os treinos e nos narram as proezas no terreno depressa nos convencemos de que se transmudaram em autómatos, esfumando-se enquanto sujeitos. É bom e reconfortante constatar que não é de todo assim, que se lhes colocam os mesmos problemas éticos que a nós, as mesmas hesitações e revoltas.


Nunca preveríamos um relato como o que um dos alferes nos acabou por fazer desta operação donde chegaram. Procurávamos pormenores dos eventos.


- Qual era o fito da vinda aqui à Zona? Uma limpeza? - perguntei-lhe.


- Mais ou menos... - hesitou.


- Resultou?


- Oh! Isto é uma bodega duma guerra! Nós nunca devíamos andar a tratar de civis.

- De civis?! Como é que é isso? Comandos contra civis?! Era um massacre! Conta lá por miúdos.


- Não, não é nada do que estás a pensar. Ò pá, a gente veio para limpar a região de guerrilheiros. Está tudo inçado de acampamentos por quanto é sítio. Deve haver aqui à volta de vocês uns cento e cinquenta, se não for mais. Mas quando um gajo lá chega, viste-los? Não há vivalma. Constou-lhes que vinham aí os comandos, pronto, volatilizaram-se. Não topámos nem com um para amostra. Claro que eles andam por ali, mas no meio da florestsa um gajo dá dois passos e desaparece. Como é que os vamos descobrir?


- Não encontraram mesmo ninguém? Enttão veio uma Companhia inteira para ficar a seco?


- Pois é. Depois, olha, entretivemo-nos a destruir acampamentos e sanzalas, queimámos aquilo tudo e as lavras. Mas tem pouco interesse, eles voltam a erguê-los a cem ou duzentos metros do local primitivo e continuam como dantes. Isto não leva a nada. Andamos a brincar às escondidas. Porcatria de guerra!


- Para quê vocês então? As Unidades aí no terreno chegam bem para dar conta do recado, se for apenas para isso.


- Evidentemente, é uma barraca pegada. Se ao menos conseguíssemos manter o segredo, ainda podia haver algum efeito de surpresa, talvez os apanhássemos na primeira intervenção. Mas não, os gajos sabem tudo ainda antes de nós, é uma pouca-vergonha. Não há qualquer segurança. Depois, pronto, o que encontramos são civis, claro. E andamos ali a fazer figura de parvos, a puxar-lhes pelas pernas.


- Pelas pernas?! Que é isso?! Não me digas que...


- Digo, digo! Viemos do quartel directamente para uma acção nocturna. Íamos apanhá-los ali de repente, tás a ver? Nem havia tempo de darem um ai. Se lá estivessem, claro. O pior é que de guerrilheiros, nem cheiro! Mas abandonaram os civis todos lá. A gente dominou o acampamento inteiro sem ninguém topar, cubata a cubata. Tudo a dormir. Quando confirmámos que não havia nenhum dos gajos armados (já tinham todos dado o fora antes de nós chegarmos, sem avisarem a população), então, olha, o que havia a fazer era trazê-los, aos civis, connosco. Cada qual foi à sua cubata acordá-los para virem. Só que os tipos não querem e então é cada cena!


- Foi mesmo puxar-lhes pelas pernas?!


- Oh! Eu entrei numa e estavam lá uma meia dúzia de indivíduos. As mulheres e crianças, quando dei ordem, entregaram-se, com o medo. Mas ficou ali um velho que cismava que não vinha. Eu dizia para ele se levantar e o tipo que não, não queria, não vinha connosco. Agarrei-lhe pelos pés e puxei-o. O gajo encolheu-se e abraçou-se ao catre. Voltei a puxá-lo. “Venha, que ninguém lhe faz mal, vamos todos!” E o homem: “Não, não quero ir!” Que coisa mais caricata! Para o que uma pessoa aqui anda!


- Mas acabaste por trazer o indivíduo ou não?


- Trouxe nada! Não veio quase ninguém. Estava eu naquilo, há um disparo. Parámos todos e logo um soldado aflito vem-me avisar que tínhamos uma baixa: um sargento. Desandei para lá. Um dos que tinham entrado na cubata para convencer as pessoas, ao ver, de repente, por trás, chegar um vulto armado, disparou à queima-roupa. Morte instantânea. Só depois é que o identificou. Quando vi o soldado estavam os outros a segurá-lo, o gajo queria suicidar-se, quase deu em maluco. Vai ter de entrar em baixa. Nunca mais recuperou. Ainda por cima era amigo do morto. Uma coisa destas!


- Mas que azar! Podia tê-lo atingido mas sem o liquidar, há para aí tanto disparo fortuito! Pouca sorte.


- Ó pá, andamos treinados para não falhar um tiro. É muito difícil uma bala disparada não causar estrago. Tam vantagens. Aqui deu nisto. Porca de vida! A única baixa da operação...


E até o apetite se lhe foi, no sorriso resignado com que nos olhou. O desespero da fatalidade sem remédio.





St.ª Eulália, 10 de Junho


Dia da Pátria, condecorações e louvores. Achei que fazia sentido preparar um almoço de maior requinte, que mais não fosse para dispor bem e soltar a ironia. Todos nos sentimos insultados com as comemorações públicas, excepto o comandante e pouco mais. Desde manhã ando a ouvir dichotes a propósito do dia. O Marques, logo ao pequeno almoço, comentava:

- Ainda bem que um gajo foi atirado para aqui. Ao menos não temos de gramar as celebrações e o paleio daqueles cabrões todos. Deixam-nos em paz.


- Claro, isto é muito melhor do que a gente pensa – ria um dos médicos.


Em breve, porém, os comentários derivaram para o irónico e o jocoso.


- Qual dia da Pátria! Com o que fizeram disto já nem é Pátria nem é nada – resmungava o Meireles, entre dentes.


- Claro, é mas é uma pútria. E transformaram-nos em filhos da pútria! E o pior de todos és tu – atirou-lhe o Dr. Mendes, em desafio. E, ante o ar picado do outro: - Calma, filho. É um fedor tão grande à tua volta que nem precisas de comer feijões! É só isso.


Em resposta apanhou uma canelada do Meireles por baixo da mesa, enquanto à roda todos ríamos e o Magalhães tossia, engasgado com um golo de café.


- Calem-se para aí! Falta de respeito! - atalhou o Guimarães, com ar façanhudo. - Já um gajo não se pode peidar à vontade para o dia da raça!


Foi o fim. Respinguei-me todo com o pão que estava mastigando. O Magalhães, que tentava engolir de chávena à boca, com a gargalhada explosiva borrifou meia mesa num chuveiro incontrolável. Tivemos de saltar dos lugares inopinadamente e o contágio atirou-nos pelos cantos, de mãos apertadas na barriga, em risadas retumbantes. Pior ainda, deparámos com o Meireles no seu lugar, cara de poucos amigos, a comer solene e composto, com o ar mais ofendido do mundo, fuzilando-nos com os olhos. Quando nos íamos a sentar de novo, dispara ele:


- Eu queria ver-vos a rir sofrendo dos intestinos como eu!


Voltou tudo atrás. O Marques teve de tirar os óculos, tantas eram as lágrimas de riso. O Magalhães cobria a cara com o lenço. A hilaridade tornou-se tão contagiante que o Meireles acabou por engasgar-se com o pão e desatou a tossir, a rir e a chorar ao mesmo tempo, tão desgovernado que acabou fugindo da messe para conseguir dominar-se.


Ao almoço comentei um dos condecorados cujo feito haviam lido numa Ordem de Serviço e que me intrigara pela raridade. Era um alferes miliciano que fora atingido a norte desta área militar, durante uma emboscada. Narravam que o pelotão caíra todo em zona de morte, de modo que ninguém podia tentar qualquer manobra de envolvimento ou resposta. Ficaram sem comunicações, pelo que socorro de fora também não o conseguiriam. O fogo era nutrido interminavelmente e a emboscada não se desfazia. Começaram a rarear munições entre os sitiados. Convenceram-se, com as baixas que já tinham mais este pormenor crítico, de que ninguém escaparia. Foi quando as atitudes de descontrolo, desespero e terror principiaram a aflorar que ocorreu o inesperado: o alferes saltou sozinho do seu canto, a metralhadora em punho, e avançou a peito descoberto contra os emboscadores, disparando, imparável. Enfiou-se no meio do inimigo com os tiros chovendo-lhe em redor para abatê-lo. Desalojou os guerrilheiros uns atrás dos outros e pô-los todos em fuga. Só quando a emboscada se desfez é que tombou, finalmente. Havia sido atingido por doze balas. Socorrido, sobrevivera milagrosamente.


- Eu conheço-o – informou o Magalhães.


- Este, ao menos, condecoram-no bem, pelos critérios oficiais – comentei. - Que razia!


- Uma ova! Não sabes o melhor da festa. Este tipo era dirigente estudantil. Lixaram-lhe a vida, puseram-no em atirador e toca a andar aqui para a frente norte. É o gajo mais contra tudo isto que tu podes imaginar. Agora vê. Vão-lhe dar um penduricalho. Por patriotismo, coragem e heroicidade.


- Como é que lhe aconteceu uma coisa daquelas?! Perdeu o controlo? Que diabo de situação!


- Eu falei com ele já depois de ter tido alta. Não consegue explicar. Viu a morte à frente e pronto. Foi tudo sem saber como, uma atitude instintiva. Não pensou em nada nem se lembra de decidir nada. Desatou aos tiros de raiva, sei lá! O pior é que ele não consegue perdoar que agora o condecorem por aquilo.Tem um filho miúdo e o que me perguntava é como é que ia mais tarde explicar-lhe o que aconteceu. O que mais o preocupa nem é o que ocorreu durante a emboscada. É darem-lhe o estupor da medalha por aquilo. Um regime que ele combate, que ele não aceita, que o esmagou e encurralou e no fim tem a lata de o querer alcandorar em herói. Quando ele nem sequer pode responder pelo que fez e até não concorda com nada daquilo, julga que lhe deu um ataque de loucura naquele momento. Não se reconhece em nada da sequência. Os ídolos dos gajos são assim, é tudo uma mistificação pegada.


Enfim, os heróis forjados para o 10 de Junho. Quanto não terão a contar e a desmascarar, se vierem algum dia a ter voz!






St.ª Eulália, 12 de Junho


Servi pela primeira vez ao jantar a receita do combinado. Hesitei muito a ganhar coragem para apresentar aquele prato. Convenci-me de que todos iriam torcer o nariz de enjoados quando as travessas corressem pela mesa. Enganei-me redondamente. Mal a primeira foi pousada ante o brigadeiro e os oficiais superiores, arregalaram os olhos e explodiram em exclamações admirativas. Fui seguindo com os olhos cada um, a ver se era efectivamente preponderante esta atitude e acabei por convencer-me de que o Henrique tinha razão. Ele conhecia, na verdade, muito melhor do que eu os oficiais do Comando. Previu exactamente isto quando me ajudou a elaborar a ementa. Irei incluir no cardápio o combinado duas vezes por semana. É baratíssimo, acabo mesmo por recuperar as finanças da messe, ao fim do mês, com um festival gastronómico durante o período inteiro.


Descobri com isto, afinal, que a atitude perante a comida é aqui derivada, não da fome que não passamos, de facto, nem dos gostos e qualidade da refeição, mas duma condicionante inesperada e que apenas a guerra cria: o termos de andar sempre a comer sensivelmente a mesma coisa – o amaldiçoado frango. É este que carregam os Nord-Atlas de Luanda, voo atrás de voo. Não há quase alternativa pelo fornecimento oficial.


- Ah! Isto é outra loiça! - exclamou com a costumeira expansividade o Tenente-Coronel Bizarro. - A ver se a gente desenjoa. Ao menos aqui há vários sabores. Faz falta ter um prato assim. Muito bem!


O Major Frias, tímido como de costume, introvertido na casca impenetrável duma cisma íntima, quebrou o isolamento sorrindo-me e comentando:


- Desta vez requintou, hein? - e acenava com a cabeça uma concordância breve que o sorriso e o olhar brilhante sublinhavam, eloquentes.


Do canto, o Henrique fez-me apenas um inapreensível sinal de sobrancelhas, com um sorriso matreiro por trás. Ele gozava duplamente, claro. Toda a festa se deve a ele e não a mim. Ninguém, entretanto, compreende. E isto que devia noutras circunstâncias aborrecê-lo, aqui dá-lhe prazer. E eu entendo muito bem porquê. É uma forma de nos colocarmos por fora e acima desta máquinaa toda, dos mentores dela, das conjunturas de que se alimenta, da morte que gera e nos vai corroendo, queiramo-lo ou não. Isto de os ludibriarmos, mesmo inocentemente, aos donos da guerra, liberta-nos dela, pelo menos simbolicamente. É já um princípio...


Há dias, quando servi o frango de vinho, o comentário mais divertido foi o do Tenente-Coronel Bizarro:


- Ora até que enfim que me dão a comer alguma coisa que não sabe a frango!

- Mas então que é isto senão frango? - perguntava um dos majores.


- Ora essa! O que me importa é que não sabe a ele.Vivo para aqui enfastiado porque há meses que nos andam a servir pratos diferentes e todos eles sabem a frango. Agora não. De que é que isto é feito, sei lá! O que interessa é que um indivíduo não sente mais aquele sabor que até nos tira o apetite.


O inesperado hoje foi que, após a primeira onda de comentários, o Brigadeiro Pedro Serrano, todo ele um sorriso, o olhinho miúdo a brilhar de prazer, joga este comentário:


- O nosso alferes está de parabéns. Sim senhor! Agora até parece que estamos no Ritz. É quase um restaurante de cinco estrelas. Muito bem, alferes Costa!


Limitei-me a sorrir, contrafeito. No bar, ao fim, o Henrique soprou-me de lado, ao ouvido:

- Não te dizia que apanhavas um louvor público? Ora toma! Deste já não te livraste!


Ainda continuo um bocado confuso. Por um lado, é bom e desconcertante que qualquer granítico Pedro Serrano de repente se revele capaz de vibrar, de quebrar a rigidez, dando um momento voz a um afecto, por mais anódino que se revele. Por outro, porém, sinto-me vergonhosamente lisonjeado por quanto ocorreu e, em particular, pelas palavras dele. E confesso que não é, manifestamente, por ter-lhe quebrado o gelo, o que decerto me daria, sem mais, muito gozo. Não. O que me fez corar e revoltar-me contra mim próprio é que o elogio me tocou porque vem de quem manda, do grande estratega, do chefe, do lídimo representante do regime – de quanto para nós não tem sentido nenhum porque é responsável pelo massacre organizado de quanta promessa de vida nos brota espontânea do caminho. Que fúria! Maldito poder que o poder tem que até nos trai por dentro!






St.ªEulália, 15 de Junho


Quando vim há pouco de Luanda, uma das novidades que trazia e que foi um brinde dos meus amigos luandenses, é a canção de Francisco Fanhais “É Preciso Avisar Toda a Gente”. Desde que a ouvi senti-me logo atingido por dois lados: é uma música bela e cheia de força mas, para além disto, grita com rigor o que ando vivendo e a premência que sentimos em rasgar a mordaça do silêncio.


´´É preciso avisar toda a gente,

Dar notícia, informar, prevenir

Que por cada flor estrangulada

Há milhões de sementes a florir.”


É, desde então, a minha cantilena, mesmo quando nem sequer nela ando pensando. Murmura-me ao ouvido o dia inteiro. Isto fez com que os outros também a acolhessem e a cantem quando calha, mormente durante o serão, em privado, longe dos ouvidos suspeitos de alguns oficiais do quadro marcadamente pró-regime. Apesar disto, não me tinha dado conta da popularidade e divulgação que aqui atingiu no acampamento.


O Henrique acabou a comissão. Tem a partida de cá marcada para depois da amanhã. Hoje comemorou a despedida, ao fim da tarde, com um grupo dos mais ligados a ele, no bar. Apanhou uma bebedeitra hilariante e explosiva. Desatou a cantar a balada em altos brados e não se deixou convencer pelos demais, aflitos não fora ele ser chamado à pedra pelo brigadeiro e ainda apanhar para aí uma punição que lhe estrague o termo da guerra. Não houve recomendações que o demovessem, cada vez cantava mais alto e desaforado.


- Ó pá, isso pianinho, que diabo! Se eles ouvem, lixam-te! - recomendavam os outros.


- O quê? Eles? Ah, ah, ah! - ria, bem disposto. E logo, altissonante: - “É preciso avisar toda a gente...”


- Apanhas uma porrada, c'um raio! Não te deixam embarcar, homem! Cala-te para aí com isso!


- Não calo nada! Qual não deixam! Embarco, embarco! “É preciso avisar toda a gente...”


Como todos insistiam, aflitos, para silenciá-lo, desembesta porta fora, uma garrafa de vinho na mão e corre aos tropeções direito ao antigo pau de bandeira, por trás da cantina. Não sei como conseguiu aquilo, mas trepou até ao topo onde ficou empingarelhado, balouçando perigosamente, o braço com a garrafa estendido, bradando em alta grita para conclamar toda a gente. A caserna esvaziou-se, claro, ninguém ia perder pitada do espectáculo. Enquanto cá em baixo alguns ainda insistiam, embora perdidos de riso com a situação, em que ele descesse, agora com medo de que a embriaguês lhe fizesse perder o equilíbrio e o estatelasse das alturas no chão pétreo da parada, ele cada vez ficava mais eufórico com a plateia que se congregava curiosa e bem humorada ali em volta.


- É preciso avisar toda a gente! - berrava para todos os lados. - É preciso avisar toda a gente!


E, quando o maralhal em baixo ria do despropósito:


- Guerra filha da puta! Esta guerra é uma puta de guerra! É preciso avisar toda a gente! Os cabrões... digo aos cabrões. Acabou! É preciso avisar toda a gente! Esta guerra acabou. “É preciso avisar toda a gente...”


E assim por diante. Até se cansar, farto. Então desceu do pau, bebeu mais uns goles e, a praguejar, entrou no quarto onde se aperaltou todo. Apareceu imponente ao jantar, com o ar mais natural deste mundo, como se nada houvera ocorrido. Não é muito crível que tudo tenha passado despercebido aos crânios, mas fizeram orelhas moucas, como se continuara impávida a rotina. Imaginei-lhes o embaraço, a tentarem manter a seriedade patriótica da causa bélica nacional confrontados com aquele discurso abandalhado, jogado por um bêbedo na tribuna irónica dum pau de bandeira. Ainda por cima com o enorme auditório que congregou à volta! Se calhar o episídio do bar era capaz de vir a ter sequelas, restrito a um pequeno círculo como estava. Agora, uma vez alargado a toda a Companhia, com tanto público a divertir-se com o ocorrido, seria difícil e de má política mexer na questão. Preferiram deixá-la morrer por ela própria, sem levantar ondas. No fundo, o Henrique teve sorte com o entusiasmo da embriaguês. Ainda bem que veio para a rua juntar as massas e dar espectáculo. Isto é que lhe deve ter garantido a passagem imediata à disponibilidade. Senão ainda teria gramado, connosco ou noutro lugar, mais uns tempos de guerra, como punição pelo desrespeito aos bolorentos valores sagrados da desordem dominante.


O facto é que isto dispõe bem. Hoje todos nos sentimos alegres. Por ele e por esta forma marginal como connosco celebrou uma mensagem de fundo, dantes silenciada e doravante a gritar ébria por cima dos telhados.






St.ª Eulália, 17 de Junho


- Como é que a operação está correndo? - perguntou o brigadeiro, sentando-se à mesa para o almoço, virado para o Tenente-Coronal Bizarro.


- Complicada, ao que parecee. Quando me informei às onze, onze e meia, aquilo ainda estava para durar. Mas talvez ali algum dos alferes tenha notícias mais frescas. Alguém passou por lá? - perguntou, virando-se para nós.


Por mim, não estava entendendo nada. Conversa de loucos, então agora nós é que íamos informá-los duma operação? Ainda mais baralhado fiquei quando à minha esquerda um dos colegas respondeu, com ar natural:

- Meu tenente-coronel, vim agora mesmo e parece que a fase crítica já passou.


- Mas salvam-se? Vão conseguir? - insistia o segundo-comandante.


Que diabo era isto? Então agora nós é que estávamos a liderar, ainda por cima operações?! Cada vez mais confundido, estive vai não vai a perguntar para o lado. Mas como é que aquele diz que veio? Donde? Se há para aí uma emboscada em que as coisas estão correndo mal, ele não pode ter vindo de lado nenhum, a não ser que seja do sector de comunicações. Arrebitei a orelha, intrigado, em busca duma descodificação.


- Há quanto tempo é que já dura? - insistiu o brigadeiro, deixando-me ainda mais intrigado.


Então ele, o primeiro a ter de ser informado, ignora-o e tem de vir perguntá-lo à mesa de almoço?! De que é que estão falando? Ainda por cima parecem todos inteirados e apenas eu continuo fora da jogada.


- Há um bom par de horas. Está a ser difícil. A coluna saiu ao amanhecer e aquela guerra dura desde então. Vamos lá a ver o resultado – foi a reflexão do major do Estado-Maior.


Se os não visse tão naturais juraria que estavam encenando uma charada para se divertirem à custa de quem, como eu, estaria fora do tema. Será que alguém está simulando compreender e não topa nada daquilo a que se vêm referindo?


Entrou um dos médicos, apressado pelo atraso, e logo as atenções convergiram para ele.


- Então, doutor? Já pôde vir? Acabou? - perguntou o tenente-coronel.


- Ainda demora um bocado, mas já não sou lá preciso.

- E conseguiram ou não?


- Um morto, o pequeno. Mas já tinha chegado sem vida. De resto, tudo bem.


- Sobrevive? Já não há riscos? - interrogou o brigadeiro.


- Ah, sim, não deve vir a ter sequelas nenhumas.


- Óptimo, estão de parabéns. Desta vez foi uma maratona – congratulou-se o brigadeiro.


O problema era, portanto, no hospital. Teria havido algum combate de que apenas eu me não apercebera, com baixas que se estariam tentando manter vivas? Só vinte minutos mais tarde, já no fim da refeição, é que, finalmente, pude compreender, quando entrou o derradeiro médico. Vinha feliz, todo lavado de fresco, as mangas arregaçadas, sorrindo apesar dumas grandes olheiras.


- Enão? - perguntou-lhe o tenente-coronel.


- Conseguimos! Está viva. O miúdo perdeu-se mas ela está já fora de perigo. Era tempo demais, dois dias e meio em trabalho de parto sem assistência nenhuma. Foi uma sorte mas lá a reanimámos.


- Chegou assim tão mal? - quis saber o brigadeiro.


- Vinha mesmo praticamente à morte. Com hemorragia permanente e o feto morto dentro durante tanto tempo, nem sei como aguentou. O mais difícil foi tirarmos-lhe o bebé do ventre. Ela já não podia ajudar-nos em nada. O resto, se ela não morresse durante a extracção, era menos complicado. Bem, conseguimos, mas estou exausto. Há quantas horas andamos nisto? Perdi a noção do tempo.


- Foi uma manhã inteira – retorquiu o capitão. - É muito bom para o chefe da sanzala. Se ela morria aqui, o homem não ia gostar nada.


- E que culpa tínhamos nós? Se a tivessem trazido logo, até o bebé teríamos salvo. Assim...


- Claro. Mas o homem agora já se tinha convencvido de que ela estava condenada e era a mulher preferida, a favorita. Como a salvámos, é óptimo. Podemos contar doravante a sério com ele.


- Com ele contámos sempre – contestou o Major Frias. - Agora, é um bom serviço que lhe prestámos. Lá que o não vai esquecer nunca mais, decerto não vai. Ela chegou mais morta que viva.


- Para mim o que conta é que a salvei. Como médico, não tenho a ver com mais nada. Dessas outras coisas não tenho que cuidar – comentou o doutor, seco.


Hoje ficou por aqui a briga entre o ideal de servir e os militarismos. Era festa.






St.ª Eulália, 20 de Junho


Finalmente, uma esperança de alvorada. Visitou-nos o novo comandante-Chefe, General Costa Gomes, com o estado-maior. Passei o dia conversando com o ajudante-de-campo dele e foi uma revelação no meio deste degredo.


- O nosso general está a par do que ocorreu consigo e é totalmente contra o que lhe fizeram – informou-me, mal me identificou, pedindo-me que o acompanhasse, pois pretendia falar a sós conigo.


- E então? Vai reconduzir-me ao serviço?


- É a intenção dele, mas previno-o de que tudo tem de seguir uma tramitação inteiramente legal. Decerto compreende, é a sua especialidade. É que a posição do nosso general tem de ser preservada e não lhe é desconhecido que ele vive igualmente debaixo de fogo. Temos de descobrir uma maneira regular, inatacável e aqui a sua formação jurídica decerto lhe revelará meios mais aptos que os que eu lhe poderia sugerir para conseguirmos isto de forma limpa.


- O nosso general pode sempre usar o poder que tem. Que mais é preciso?


- Claro que pode, mas o problema é outro. A posição dele é periclitante, o Governo aproveita, mas não muito convictamente, a capacidade e eficiência que ele revela e só por isto é que o tolera. É do domínio público que andam de candeias às avessas. Mas, enfim, até agora a coexistência ainda não foi quebrada. Ora, o que importa é que o seu caso vá num rumo que não abale este equilíbrio instável. Compreende-me, não é?


- Evidentemente. Mas então preciso de mais informações. Arranjarei uma forma, conto com o apoio de toda a Chefia de Justiça.


- Olhe, o que lhe posso dizer, em primeiro lugar, é que, quanto a nós, nada do que lhe aconteceu faz qualquer sentido, estamos em discordância total. Depois, há, de facto, um processo que lhe levantaram, classificado como confidencial. Finalmente, a isto é que lhe importa agora atender, o nosso general Almeida Viana despachou-o definitivamente, de modo que não há poderes do novo Comandante-Chefe para reabri-lo. O senhor, como é jurista, trate de arranjar algum modo legal de se poder dar a volta a isto.


- Correcto. Vou estudar o prroblema e arranjarei um meio de revisão extraordináriia. Não há dificuldade, até porque nunca fui ouvido, o que é flagrantemente ilegal.


- Actue de modo que o nosso general possa intervir dentro da lei. Depois é só aguardar o tempo que a burocracia destas coisas sempre terá de levar.


- Mas afinal de que é que me acusam no processo? Isto é kafkiano, que diabo!


- Isso já não lho posso revelar porque é confidencial. Pergunte ao nosso general, ele até pode mudar-lhe a classificação. Eu também li tudo. O mais que vou adiantar-lhe é que a sua reclamação lá arquivada bateu a cem por cento no alvo. Quanto ao resto, só o comandante-Chefe é que pode deixá-lo consultar um documento daqueles. Vá pedir-lho, mas ignoro se ele acederá. Nisso nunca falámos.


- Já é muito bom saber que acertei. Foi uma sacanice como nunca julguei possível!


Passeávamos pela parada. Durante meia manhã foi isto. Ele mostrou-se muito curioso acerca do meu trabalho em Luanda, das iniciativas de animação cultural, das aulas, dos convívios, de tudo. De vez em quando, o Capitão Romano olhava-nos, com cara de espanto. O ajudante-de-campo ignorou descaradamente todo o restante quadro do Comando, só eu existia.


- Quero que saiba – confirmava-me, insistente – que estamos perfeitamente de acordo com todo o seu trabalho. Era isto mesmo que devia há muito ser feito por toda a gente.


Depois de almoço foi a visita às unidades da Zona. Quando o General Costa Gomes perguntou ao ajudante-de-campo se ficava ou ia também, ele afirmou que preferia continuar a conversar comigo. Quando andávamos para trás e para diante junto à rede, ao longo da pista, rememorando quanto em Luanda ocorrera desde que eu lá aportara e era de meu conhecimento e comparticipação, ele interrompeu-me para me afirmar:


- Sabe, eu queria mesmo ter esta conversa, não só para me inteirar de tudo de viva voz mas principalmente porque lhe queria manifestar desta maneira todo o nosso apoio moral e o meu em particular. É por isso que fiquei em vez de continuar a acompanhar a visita à Zona. Aquilo é a rotina que temos de fazer. O seu caso é de facto outra coisa e eu vim mesmo com a intenção de me solidarizar consigo e lhe confirmar que estamos deveras dispostos a ajudá-lo em quanto estiver ao nosso alcance. Ouvir o seu desabafo, rompendo com as praxes, é mesmo para que saiba que assim é. E, se quiser, escreva-me para o Comando-Chefe. Pode contar comigo para tudo, dentro dos condicionalismos que lhe referi e nos são impostos por circunstâncias que nos ultrapassam. Agora, em termos pessoais, tanto de mim como do nosso general, saiba que pode contar mesmo connosco. E no resto também, claro, logo que nos encontre a tal via legal que decerto vai conseguir descobrir.


Foi assim até à hora da despedida. Um dia inteiro reconfortante e inesperado. Como respiramos melhor e como seria tão simples para um País inteiro!


Agora resta-me accionar os mecanismos. Vou requerer novamente uma audiência, uma vez que o requerimento anterior não obteve resposta e isto é ilegal. Nem é preciso mais nada. As portas, finalmente, parece que irão abrir-se. Vamos lá a ver até onde o sistema vai poder ser manobrado. Já é muito bom contar com aliados assim. Ignoro por inteiro os pormenores dos meandros do poder. Nunca me atraiu esta área e cada vez me enoja mais. Agora, porém, terei de me orientar no meio dos escolhos dela. Voltarei à Chefia de Justiça? Algum dia conseguirei ler o maldito processo confidencial, tão clandestino que nem eu, nele condenado, lhe sabia da suspeita existência?






St.ª Eulália, 23 de Junho


Algum dia teria de ocorrer uma tragédia. Foi hoje. Quando me preparava para retomar o trabalho (as minhas leituras!) depois do almoço, o Major Frias aflorou à porta, acabrunhado, e fez-me sinal discreto para segui-lo. Intrigado, saí para a alpendrada debaixo dos maracujaleiros e afastámo-nos dois ou três passos, o bastante para não sermos ouvidos dentro dos gabinetes.


- Olhe, vai ter de fazer um enterro – anunciou-me ele.


- Um enterro?! – estranhei. Nunca ouvira tal no aquartelamento.


- É. Hoje foi um dia aziago. A coluna do Bacalhau foi apanhada numa emboscada. Uma chacina.


- O Bacalhau? Aquele...?


- Pois, o que era aqui muito popular. Era o sargento que divertia aí o pessoal todo. Vai ficar por cá tudo num estado... Por isso é que o chamei. Temos de ser discretos para não chocar mais. Mesmo assim isto vai desmoralizar toda a gente. Já andam por cá muito abatidos. Enfim, uma chatice.


- Mas que aconteceu ao Bacalhau? Ao menos ele safou-se?


- Não. O pior é isso. Foi um massacre e ele lá se foi, coitado. A gente evacuou para Luanda os mortos, esses não param cá para não agravar o moral das tropas. Os feridos ligeiros é que são aqui internados e tratados, os outros foram também para o Hospital Militar. O azar foi que um deles morreu-nos aqui na pista. A esse é que temos de lhe tratar do enterro. Pergunte aí aos alferes que eles põem-no logo a par dos trâmites. É simples. Foi pena, que se não fora isto nós abafávamos melhor o desastre e evitava-se o choque entre os daqui. Logo haviam de ser desta coluna que era a mais benquista por todos em St.ª Eulália! Mas isto é a quem calha, que se há-de fazer? Olhe, ao menos os que se foram já não terão mais que sofrer, valha-nos isso. Nóa vamos continuar a gramar até quando calhar e nada nos impede de ficar sujeitos ao mesmo.


- Onde está o corpo?


- No Centro Médico. Já foi pedido o caixão. Amanhã é que terão de o chumbar e aí vai ter de lavrar o processo que irá acompanhá-lo até à Metrópole, para a família.


- E é o único daqui? Não há feridos em risco?


- Não, o caso é único. Cá não entram baixas graves. Não temos meios e, depois, desmoralizaríamos toda a gente se aqui permanecessem, haveria mortes. Só vai mesmo tratar daquele, pode ficar descansado. Mas olhe, não fale nisto, está bem? Mesmo assim a rapaziada já vai ficar muito em baixo com uma coisa destas. É melhor tocar o menos possível na ferida. Esta vai doer mesmo, os mortos tinham muitos amigos entre os homens daqui.


Fui recolher elementos sobre como operar. Inteirado do processo, procurei dados relativos ao falecido: um soldado madeirense, na flor da vida. Quando mo mostraram para eu ler a placa identificadora pendurada ao pescoço, os enfermeiros estavam aparentemente calmos, mas num silêncio de pedra. Não logrei praticamente arrancar-lhes informações complementares, haviam literalmente perdido a fala, rígidos, de olhar parado na cara do defunto. Nem consegui aclarar porque é que ele morrera. Nada lhes importava, era o peso do irremediável.


- Conheciam-no? - interroguei-os.


Ambos acenaram que sim. A voz continuou estrangulada. Se o não houveram conhecido, teria sido mais fácil. Tratei de o tapar o mais rapidamente possível. Para quê agravar esta angússtia?


Voltei ao gabinete como se nada houvera ocorrido, cogitando em como andariam os sargentos. O Bacalhau era o ídolo deles. Recordei a conversa com o da Intendência, nos primeiros dias que aqui passei. Todos vão sentir o braço direito amputado. A periódica festa da chegada da coluna terminou hoje no silêncio eterno.


Sentei-me e reparei que defronte estava uma folha dactilografada com um parecer que emitira de manhã, relativamente a uma infracção disciplinar duma Ordem de Serviço. Reli-a com cuidado, teria de ir a despacho. Havia uma gralha de pontuação insignificante, mas achei que deveria corrigi-la. Em vez de chamar o soldado que, por acaso, é o melhor profissional de que dispomos aqui nesta especialidade, dirigi-me à secção deles, como, aliás, é meu hábito. Hoje, porém, pretendia disfarçadamente ir reparando nas reacções que os acontecimentos estariam a despoletar. Nunca este rapaz falara comigo sem rir bem disposto. É extremamente prestável e amigo de quem lhe faz jus. Hoje, quando o olhei, estsva debruçado sobre a máquina de escrever, os dois punhos pregados na cabeça, imóvel. Ao pôr-lhe folha diante sobressaltou-se, regressando doutro mundo, e ficou atarantado. Puxou dum lenço e assoou-se a despropósito. Ouviu as indicações, fez que sim com a cabeça e pôs-se concentrado a corrigir na máquina o texto. Quando virei as costas, ouvi-o murmurar, abstraído:


- Que azar! E agora a família deles? Ainda por cima os melhores é que são abatidos...


Quando me restituiu a minuta corrigida reparei que os olhos lhe estavam pisados de lágrimas...






St.ª Eulália, 24 de Junho


Fechámos o caixão às 16h e 30m. Precisava de duas testemunhas. Falei aos escriturários. Não podiam abandonar a secção em bloco, acompanharam-me apenas os dois requeridos. Quando cheguei, porém, à improvisada câmara ardente, já eram uma dúzia.


Tínhamos primeiro de retirar a placa identificadora, metade da qual iria junto da parte chumbada onde o cadáver, coberto de cal, seria definitivamente encerrado. Não havia cerimonial nenhum, apenas as diligências imprescindíveis para não persistir qualquer probabilidade de erro na identificação.


Os brincalhões que estes jovens são não lograram manifestar-se aqui. Nem um comentário a despropósito, nem uma ironia. Apenas, por parte de alguns, curiosidade pelas diligências que ordenadamente se encadeavam.


O mais surpreendente para mim foi a reacção que se generalizou no meio da atitude solene que haviam tomado, no momento em que a cal principiou a ser espalhada sobre o cadáver.


- É preciso mesmo isso, meu alferes? - afligiu-se um.


- Claro. Qual é o problema? - estranhei.


- Pois. Mas ao menos evitava-se... Eu bem sei que ele está morto, já não adianta nada – gaguejou outro, meio confundido.


- Isto vai ser chumbado e nunca mais pode abrir-se. A decomposição vai desfazer tudo – expliquei.


- Mas a família... Ninguém pode vê-lo? - ainda perguntou outro.


- Ó pá, mas como? - interveio alguém. - Daqui até ele lá chegar que é que fica para ver? E depois, se fossem a abrir isto daqui a não sei quantas semanas, estás a imaginar?... Eu, mesmo que pudesse, preferia nem abrir nada. Ainda era pior.


- Faz uma impressão! - estremeceu outro. - Imagina só que era eu! Ao menos pode não se lhe pôr a cal em cima da cara?


O enfermeiro que fazia o serviço parou, hesitante. Já enchera os lados do corpo, ia principiar a cobri-lo agora e dirigia-se, automático, ao rosto, quando ouviu o comentário. Fixou-me sem uma palavra. Também ele perdera desta vez a frieza com que os profissionais lidam com os corpos anónimos nos hospitais. Não conseguia justamente remetê-lo para o anonimato, este era-lhe irremediavelmente familiar. Por mais que simulasse manter-se alheio e cumprir o ritual mecânico dos gestos habituais, na indiferença que o profissionalismo lhe requer, desta vez não conseguiu. Ficou ali com o gesto suspenso, a pá cheia de cal, a olhar-me fixamente, tolhido. Não falou. Irresoluto, a incarnação da impotência. Teria de ser eu a pôr de novo a máquina a funcionar.


- Não há problema nenhum em deixar-lhe a cara a descoberto, não é verdade? - interpelei-o, para acordá-lo.


- Sim, meu alferes – murmurou, inerte ainda.


E continuou parado, como se não atinasse com que fazer. Apontei-lhe os pés do caixão enquanto comentava para os restantes, numa tentativa meio gorada de introduzir nisto alguma naturalidade e indiferença:


- É o mesmo, não há qualquer contra, mas também não adianta nada. Ele já não sente e o que importa é facilitar a decomposição sem fazer correr riscos a ninguém. Isto agora, até à Madeira, são uns milhares de quilómetros e temos de pensar em quantos vão ter de o levar até lá. Se há aqui uma fenda, uma fuga de gases da decomposição, vocês estão a imaginar o que seria para os que vão ter de transportá-lo, não é?


O enfermeiro, entretanto, como liberto pelo meu sinal, começara por cobrir-lhe os pés e as pernas e agora escondia-lhe o peito sob o manto de cal.


- É verdade – resumiu, descansado, um deles. - Mas assim a gente sente-se melhor. Coitado, ao menos vai com a cara descoberta.


Todos compreendemos de repente que o problema era connosco. Que nada nos obrigue a tapar quanto de íntimo nos vai morrendo na vida sem rumo que por aqui arrastamos! Que, pelo menos, a marca disso nos grave a memória e o tempo! Algum dia os mortos queridos terão de falar.






VI Parte


Vida e Poesia

Angola Cultural




Angola

Vida Cultural 1


Alguns dias após a minha chegada a Luanda, entrei de manhã na Igreja da Conceição e dei com o P. Esaú muito preocupado porque tinha um seminário de prospectiva com os terceiranistas de Assistentes Sociais, no Instituto de Educação e Serviço Social, e declarou-me que ignorava por completo a matéria. Fizemos um levantamento de dados, para orientar.


- E de Teilhard de Chardin? - perguntou.


- Estudei-lhe o pensamento. Creio que dele eu poderia dar uma panorâmica equilibrada e de fundamentos seguros.


- Olhe, venha de hoje a oito ajudar-nos. Eu não tenho elementos à altura. E é pena os alunos não disporem de ninguém que lhes dê umas perspectivas de conjunto e uma crítica.


Fui. Os alunos gostaram, deram-me o programa, pedindo-me para orientar a recolha de informação e para não faltar a mais nenhum seminário. Falei com o chefe militar e praticamente cumpri o que queriam. Semana a semana, cada vez mais alunos me procuravam também em casa, para rever trabalhos, preparar aulas e debates ou apenas pôr a nu problemas mais ou menos pessoais e aclará-los comigo. Durante quinze meses de Luanda nunca se estancaria esta corrente, apenas variaram as modalidades e estruturaram-se iniciativas.


Por aqui entrei, afinal, no Instituto de Educação e ServiçoSocial, a única escola de Humanidades de então em Angola. Daí a pouco abririam os primeiros cursos de Letras, mas atirados para o cabo do mundo: Sá da Bandeira. Leccionaria Filosofia e Psicologia sociais e Doutrina Social da Igreja. A minha expulsão de Luanda impediu-me o último curso de Psicologia Social. O entusiasmo dos alunos, a alegria com que debatiam temas, quantas vezes para além do horário regulamentar, quando mesmo entravam na aula de má vontade, a lealdade com que discordavam e a confiança com que esperavam de mim revisões e sugestões de trabalhos, planos ou de qualquer outro problema, o diálogo livre e irreverente, tudo congregado me daria as horas de maior alegria que vivi em toda a Angola. Os alunos eram, em média, muito inermes nas minhas matérias. Cultura geral, abertura a um mundo planetário – praticamente nulas. Entretanto, um gosto insaciável de aprender e uma revolta quase infantil contra a ignorância generalizada e a dificuldade em encontrar elementos informativos e documentais. Uma fome aguda de mundo largo, entrevisto apenas, longínquo: atraente e terrível a um tempo, desafiando o comprometimento vital de cada um. Um novo amanhã a brotar-lhes das mãos, a exigir-lhes unhas para tal.


Preocupei-me por não iludir ninguém. Uma análise da conjuntura colectiva e grupal de vários estratos sociais angolanos e desequilíbrios preponderantes. Métodos de acção para progredir superando factores deletérios. Vias não apenas relativas ao trabalhador social mas também a qualquer entidade, serviço ou estrato comunitário cujo empenhamento numa linha determinada aumente o equilíbrio de forças das várias formações colectivas. Talvez esta perspectiva teórico-prática tenha concorrido para o clima fraterno e empenhado que todos respirávamos.


Dado o traumatismo colectivo gerado pela guerrilha (ou, pelo menos, tornado manifesto por ela) , o trabalhador social é a pedra de toque do eventual renovo angolano, tanto quanto é o técnico ou mais, porventura, porque afronta o coração dos homens e não apenas o rosto da terra e sociedade.


A Luísa, referindo-me elementos conjunturais relativos ao instituto-na-colectividade, apontou o motivo da fraca preparação dos mestres disponíveis. O Governo-Geral proibira, até então, qualquer especialização no estrangeiro e não permitira preencher-se nenhum lugar por docentes de fora. A Filomena tivera bolsa de estudo para o Brasil; não pôde ir. Havia peritos do Brasil dispostos a dar contributo: proibidos. Agora, com a alteração da administração, o novo secretário-geral pretendia justamente o contrário, afloramento do renovo político marcelista. Por ali caíram, portanto, barreiras. Até onde?


O pior é a PIDE. Controlam aulas, programas, têm lições transcritas, até intervenções de alunos. Chamam a Dr.ª Susana continuamente lá. Sempre a rezingar. Claro, assim não há espontaneidade, anda tudo cheio de medo, os alunos não têm confiança em ninguém. A realidade tem de ter a cor do Partido: ou os factos confirmam a ideologia ou então tanto pior para eles! A PIDE é uma organização comunista, pelo menos de acordo com os artigos acerca desta que a Censura permite publicar. Para eles, alguém faz política ou é subversivo ao constatar na colectividade linhas de força que não agradam ao poder. Que é que a gente pode fazer? A vivermos numa comunidade perfeita, então não é preciso preparar trabalhadores sociais. A criá-los, então temos de lhes apontar o que anda mal e que eles terão de contribuir para corrigir. Mais tarde viria a DGS (Direcção-Geral de Segurança), mas aqui não haverá melhoria. Aliás, piorará: a Dr.ª Susana, à despedida de minhas últimas férias, em Luanda, informara-me de que o cerco se apertara mais ainda e mais amiúde a obrigaram a ir aturá-los, nos últimos tempos.


Evidentemente que tal estado de coisas repercute em todo o lado. Um grave entorse é o dos trabalhos finais e relatórios. Naqueles a verdade é falseada porque têm de ser revistos por uma alta entidade, da Junta de povoamento ou do Instituto de Assistência Social de Angola, não recordo qual. E o aluno tem de cortar os elementos recolhidos no estudo do meio que não agradam à desordem estabelecida e queimar tudo o que os patriotas oficiais apodariam de mentira. Doutro modo seria repudiado e, claro, ninguém perderá um curso por desporto. Após a monda dos dados e dos textos, é evidente que poderíamos provar a pátria razão com a recolha “científica” duma frontaria comunitária invejável. A verdade, porém, é que nem o fazemos. Por honestidade? Não, apenas que, mesmo depois da monda, tais trabalhos ainda são considerados perigosos e ficam arquivados em processo confidencial! Praticamente ninguém pode, portanto, conferi-los.


Mais grave ainda é o reflexo na qualificação técnica dos alunos e no trabalho efectivo que darão. O resultado é que o curso de Assistência Social não pode preparar realmente ninguém para o nível dele, uma vez que o planificador da equipa de serviço social tem de ter, pelo menos, uma visão global do homem enquadrado na colectividade concreta, com pontos de tensão e relações traumáticas dela típicas. Doutro modo é um papagaio, um tecnocrata alheio à realidade humana circundante. Donde resulta que o assistente social ali preparado é basilarmente um repositório de outros cursos afins: tem as generalidades deles, executa os seus trabalhos, praticamente não tem nada diverso para permuta. Isto redunda em que a tónica vai para o trabalho de educadores sociais e de infância, monitores de infância e auxiliares de família – ficando em branco o trabalho mais fundamental: a reforma das estruturas colectivas, os cancros comunitários. E o trabalhador social, em vez de obreiro-base do povo, vive em permanente infantilismo, marginalizado, organizando festas, piqueniques, convícios, dando umas palmadinhas nas costas do cliente, impedido de co-estruturar caminhos de solução radicais. Condenado a perpetuar, distraindo-a, a dor dos homens. Injecta anestésicos, não cura males.


Dentro do Instituto isto gera um clima de choque permanente com os grupos de alunos que dão conta da menoridade a que os forçam. Vai até à revolta e ao abandono do curso. A maioria, porém, é amorfa, como sempre, e todo este ambiente lhe vai premiar o comodismo, incapaz de sobressaltos morais. Alguns, porém, após a entrada na vida real, acordam e desatam a remodelar a tarefa de que os incumbiram, a documentar-se, a tentar aprender por si os móbeis profundos imbricados na problemática que dia a dia lhes vem cair às mãos. Mas eis que a PIDE/DGS açula farejadores e o trabalhador então perde o lugar. Ao que me confirmaram algumas estagiárias, não há um diplomado do Instituto que não ande vigiado de perto em qualquer canto de Angola onde vá parar. Assim vivemos...






Fome de Longe


O preto, o branco, o amarelo, o vermelho, o mestiço,

De quantos caminhos cósmico rito!

- Homem arco-íris

A coser o horizonte ao infinito.






Angola

Vida Cultural 2


O CEC, Centro de Estudantes Católicos. Quando era dirigente da JUC discutimo-lo muito. Recordo um Conselho Geral, em Lisboa, em que uma colega de Benguela ergueu a voz contra o abuso da Fé para encobrir o jogo político. O CEC brotara dum grupo de inteira monocromia política, religioso-português, como ironizávamos. Uma réplica angolana do CADC coimbão de tempos idos (Centro Académico de Democracia Cristã – onde pontificaram, entre muitos outros, Salazar e o Cardeal Cerejeira, - um pilar-viveiro do regime).


Ignorava por inteiro, quando arribei a Luanda, qual o horizonte actual do organismo. Vários membros, ao correr do tempo, me procuraram e foram informando das actvidades. A primeira vez que entrei no meio deles foi num colóquio da Dr.ª Susana, directora do Instituto de Educação e Serviço Social. Pretendia conhecê-la mais de perto (já me enfronhara, entretanto, naquela escola). Com a vantagem de ouvir um exame da fisionomia da capital angolana. O tema era “Luanda, cidade de areia, cidade de asfalto”. Foi afirmado e discutido, em resumo, o que segue.


Asfalto, o sólido caminho do branco; areia, o atoleiro do negro. Luanda, duas pátrias: a vivenda e o arranha-céus para noventa mil brancos; o barro e a folheta para trezentos e cinquenta mil negros. O branco alarga a casa, o preto aperta o musseque. Até ao estrangulamento. E depois vai rebentar para outro lado, cada vez mais longe, uma maldição. Ordenados parcos, produtos caros: ordenados paga-os o branco, produtos tem de os comprar o negro. Mão de obra especializada, cara: 99% branca. Serviços baratos: 99% negros. A estrutura é maleável do ponto de vista legal, deveria haver osmose de grupos. Mas há um abismo a transpor.


Mais tarde eu animaria outra palestra e teria reuniões com ddirigentes e membros mais activos, para informação mútua e debate. Ao correr do ano, periodicamente, foram promovidas conferências sobre temática concreta vária.


Agradou-me a fome de realidade naquele grupo de universitários. E temi o medo, também neles aflorando, de se empenharem. Vários me apontaram a origem burguesa da maioria; como iriam arriscar privilégio tão confortável? Fervia tensão interna entre dois grupos relativamente a critérios de agir. Não, porém, inimizades.


Andavam a criar uma biblioteca privativa. Pouco mas bom. Concomitantemente, porém, pouco lida, não aproveitada.


Actividade anual mais importante: o campo de férias, de modelo metropolitano. Larga participação de elementos estranhos ao organismo, incluindo grupos neolisboetas. Acompanhei a realização dum deles de perto. Tema: “O Trabalho em Angola”. Conclusões impublicáveis, obviamente. O arcebispo de Luanda foi ao encerramento e ouviu-as. Comentou-me depois um dos participantes:


- Perante aquilo, de duas, uma: ou ele fechava o CEC ou então, pela primeira vez, tinha de calar e acabar com o jogo duplo.


Tiveram um economista deslocado propositadamente da Metrópole para garantir a análise científica do tema, Armando Castro. Durante a merenda de despedida, no meio do falatório geral, o arcebispo veio perguntar-me que era feito de mim, Julgava-me nos Dembos, na Operação Robusta. Trocámos notícias relativas ao ambiente da região. Referi-lhe que o que mais me chocara foram as evacuações de povos inteiros sem os prepararem nem eles consentirem, dias e dias encaixotados em camiões, pelas picadas da floresta, sem condições higiénicas nem respeito nenhum por eles, como deportados. Falei-lhe num garoto da missão a quem tinham levado toda a família e que lá ficara abandonado por não andar na sanzala quando arrebanharam o povo.


- Pois é, eu também ouvi algumas coisas e até já falei com o Governador para verem aquilo, porque não vai bem. Mas olhe, ele respondeu-me que ou a gente está com eles ou então estamos mal...


Por telefone convidaram-me a integrar uma mesa-redonda de professores universitários, como representante dos alunos (eu frequentava, entretanto, o curso de Ciências Pedagógicas), numa semana de colóquios da Universidade, empreendimento do CEC. Nunca ouvira falar tão clara e duramente, cartas na mesa, dados recolhidos na origem. Pois os alunos não gostaram:


- Ó pá, isto apenas criou a ilusão de que é livre falar da Universidade. E é mentira. Tudo fica no ar e não dá fruto nenhum, ninguém pode garantir continuidade. É tabu. E agora todos irão dormir mais calmos, porque, afinal, discutiram a Universidade, não há motivo para alarme, não é?


Mais tarde pretendeu o CEC promover umas jornadas de teologia para universitários e participantes a eles equiparados. Convidaram teólogos dominicanos portugueses para monitorarem. Tudo tratado, informaram, como é de hábito, o arcebispo.


- Ao Fr. Bento Domingues proíbo-o que venha cá.


- Porquê? É um teólogo, professor do Instituto Superior de Estudos Eclesiásticos, em Lisboa.


- Enquanto eu aqui estiver, ele não porá o pé dentro da minha diocese. É subversivo e contestatário.


O magno problema do CEC era a dificuldade em penetrar no meio. De ano para ano, confiaram-me, diminuía o número de aderentes. Nunca haviam estruturado trabalho comunitário, não aprenderam nunca a encontrar quem porventura os esperaria. Deslizavam para um número crítico, era premente quebrar o espartilho e correr à rua. Como, porém?


Um domingo à tarde, em conversa com o Carlos Carvalho, antigo presidente do CADC de Coimbra, perguntou-me ele:


- Olha lá, avisaram-te duma reunião, há tempos, de antigos dirigentes da JUC para debater o problema do CEC?


- Não. É a primeira vez que ouço falar dela...


- Eu também lá não fui. O Onofre telefonou-me a perguntar se eu fora convidado, para eu lá ir. Cheirou-me a esturro, não me agradou a forma como vi orientar a coisa, não pus lá os pés.


E referiu-me os convocadores. Eram criadores do organismo. Falei mais tarde com o Onofre, igualmente ex-presidente do CADC:


- Fui lá à primeira reunião, convidaram-me. Tomaram uma atitude incrivelmente paternalista. Discordei, que nós quando éramos dirigentes também não queríamos ninguém de fora a meter o bedelho no organismo. Quando o CEC pedir ajuda, então devemos dá-la, doutro modo deixemo-los livres de reorganizarem tudo como entenderem. Não concordaram comigo e como eu vi que eles iam todos na mesma linha e eu era a ovelha ronhosa e como me pareceu que, no fundo, também não lhes agradaria muito eu estar presente, nunca mais lá fui. Também não adiantava nada, eles têm aquela posição e eu tenho a minha, não nos entenderíamos nunca.


Entretanto, um membro do organismo contou-me que estavam a ser boicotados: tinham-lhes inviabilizado a casa do Morro da Luz, onde anualmente realizavam o campo de férias, programando dois cursos para lá nos fins de semana que eles deveriam ocupar. Tinham tentado acordar um modus vivendi, pagando inclusive prejuízos para terem a casa livre numa das semanas. Não atenderam.


Num encontro habitual de amigos em casa do Gomes de Azevedo o problema veio à baila. O Eng. Melícias relatou um episódio ilustrativo:


- Apadrinhámos, eu e a Madalena, dias atrás, uma criança. O pai é do próximo Curso de Cristandade. Entrámos na igreja e com que deparámos? Os convidados eram tudo gente do Curso. Bem, fiquei enfiado e lá tive de ir para a frente. Agora imaginem o que é ter de estar ali a aguentar aquilo, pressentindo os olhos cravados nas costas a registar cada gesto, cada movimento do hereje. Foi um alívio chegar ao fim. Corri para a sacristia e então era o bispo Muaca dum lado e o pároco doutro a baterem-me nos ombros ao mesmo tempo: “Calma, valente! O que é preciso é persistência, que isto há-de ir.” Bem, qual era a preocupação daquela gente toda? O CEC, coitadinho, a quem era preciso deitar a mão porque andava tresmalhado, ideias comunistas... E lá foram todos para o copo de água a discutir aquilo. Palavra que ainda me deu ganas de ir ali atirar-lhes umas tantas!


Entrei uma tarde no CEC para dar um recado e informaram-me de que as reuniões do tal grupo de estranhos já tinham chegado a nível do arcebispo e agora haviam convidado a direcção para reunir com eles. Recusaram e aguardavam resposta. Tinham-me contado, em conversa de café, que os tais agora pretendiam criar uma JUC para contrapor ao CEC, a partir dum grupo escolhido, monolítico, cristãos militantes do alheamento (os integristas estão na moda...). Agora murmuravam que o CEC daria em CUC (Centro Universitário) para, em vez de estudantes em geral, vir a incluir apenas universitários, via discreta para diminuir-lhe o poder. Pedi para participar numa reunião, a meio das tensões. Em pleno debate, um dos mais prometedores filiados demitiu-se:


- No condicionalismo actual da Igreja aqui, o CEC não pode ser católico na Universidade. Vou abandonar o organismo. Isto é uma mistificação.






Mãos Dadas


Mudo canto degolado,

Sangue de astros no levante,

- Mundo inteiro aleiloado,

Todo escravo a todo o instante...


Mandarins de vento impante

Devoram o suor do prado,

Murcham do pão o descante,

Murcham os povos de enfado.


Se a noite é noite demais,

Se a lua estertora e aterra,

Empunhar mãos dadas traz


Alvoradas aos punhais:

- Servos do festim da guerra,

Brindai o sangue da paz!






Angola

Vida Cultural 3


A Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, durante o meu primeiro ano de Luanda, nem reparei nela. Um local de ameno convívio de velhos académicos, com um colégio ao lado. Entretanto, promoveram periodicamente colóquios, palestras e festas de convívio. A frequência, notaram-me, era muito reduzida; o ambiente luandense é novo-rico, individualista, de horizontes curtos. A temática, porém, era actual, por vezes de choque. Mas Luanda, de facto, vive muito mais atenta aos lucros que aos homens.


O Instituto de Angola, representante da cultura oficial, pouco mais que empresta as instalações para nelas outros realizarem actividades. Vitalidade praticamente nula. Recordo o Dr. Baião lamentando a inutilidade daquilo e magicando malabarismos para revitalizá-lo. Tempo perdido.


No Museu vivi os trabalhos mais correspondidos: um curso de arte, com numerosos participantes; ciclos de conferências, identicamente concorridos, mormente os relativos ao renovo da Igreja. Ignoro o movimento interno autónomo do Museu. Apenas duas ou três pessoas me falaram dele durante toda a minha permanência em Luanda. O parco mundo cultural vive a ele alheio.


Os rotários têm larga actividade por toda a Angola. Por vezes debatem temática fervente, em particular a relativa à juventude e à escola. Tudo gente demasiado bem, contudo...


A Liga Universitária Católica é inoperante. Integram-na alguns velhos camaradas de lide, mas não encontrei nunca eficácia. No último ano, contudo, acorreria à arena com um ciclo de conferências sobre temática religiosa e crises colectivas actuais. Uma gota de água, porém.






Acorda


A morte, não. A corda

De mãos dadas verás se

Amor te não acorda!


A morte, não.

Demãos dadas, veraz,

A morte não acorda.






Angola

Vida Cultural 4


A Universidade. Porque pretendia apreendê-la por dentro, matriculei-me em Pedagógicas. A maioria dos mestres com quem me encontrei afirmaram que o aproveitamento médio dos alunos era melhor que o da Metrópole. Havia mais garra, menos peso morto, turmas pouco numerosas e, portanto, mais bem acompanhadas. A confirmá-lo, os bons alunos transferidos para a Metrópole que firmaram créditos entre os melhores.


A preparação era, contudo, quase exclusivamente técnico-experimental. E nem a criação dos primeiros cursos de Letras em Sá da Bandeira equilibraria a balança porque larga maioria de alunos cabe a Luanda. E até dos inscritos em Sá da Bandeira o maior volume é de voluntários da capital. O que redunda em larga perda, pois grande parte dos voluntários, por não poder frequentar aulas nem acompanhar matérias, perde cadeiras e cadeiras. Justificam isto oficialmente alegando que é preciso promover Universidades futuras descentradas da megalómana Luanda. Os universitários riem disto:

- O que eles querem é não ter a Universidade junta. Têm medo dos estudantes. E depois formam uma maioria de tecnocratas, alheios a qualquer formação humanística, para podê-los manobrar melhor. Arrancamos um diploma sem conhecermos nenhum critério para qualquer problema da colectividade. Aí obrigam-nos a ficar a zero. Prevêem que a grande maioria, pela lei do menor esforço, ou não dará pela falta ou então nem ligará.


A Universidade, com cerca de milhar e meio de alunos, repartidos pelos três centros (Luanda, Nova Lisboa, Sá da Bandeira), comporta, afinal, 95% de brancos para 5% de negros. Prevêem, porém, que a curto prazo, a maioria caberá às etnias negra e mestiça, dada a actual cobertura escolar do terrirótio. Abrindo a década de oitenta, a barreira dos cinco mil matriculados cairá ultrapassada, afirmam. De qualquer modo, a hegemonia branca é nítida, para não dizer escandalosa. Vários colegas de estudo me comentaram a triagem:


- Ó pá, o branco aqui tem tudo, o preto é para as sobras. Eu falo muito com os de cor do meu curso e com outros. Os gajos dizem que mal isto vire correm com tudo e reorganizarão a Universidade então como querem e com os professores que julgarem e acabarão com esta porca unilateralidade política da escolha.


Finalmente, o problema dos organismos académicos. Há-os, quase todos formados pelo mesmo grupo afadigado em adiantar-se à evolução, prevenindo-a por uma orientação de actividades paternalista, de alheamento da problemática política (que é um modo de proteger pela cegueira a política no poder) , se bem que tal não diminua o mérito e projecção real de actividades, nem tão- pouco obrigue a que finalidades de estrito academismo devam obrigatoriamente explicitar conteúdos políticos.


O facto, porém, de haver organismos académicos não implica vida académica. Por exemplo, ninguém pode falar em Associação. Nada de fortalecer este campo. Ou então podem congregar-se em Associação desde que esta fique tutelada, por qualquer via, pela reitoria e autoridades académicas. Uma desconfiança generalizada. Por parte dos alunos, o descrédito do sistema em vigor. Também se prepara, pois, por esta via do absurdo, um escol angolano irredutivelmente contrário à desordem estabelecida.





Obedece ou Morres


Infantil, sorriso pela mão,

A fronte espargida,

Espalhando ao sol inexperiência,

Corres.

- E os mestres da nação,

A cana da lei erguida:

Obediência

Ou morres!”


Recolhido ao deserto,

Escutas a sabedoria.

Alcandorado ao alto da montanha,

O olhar desperto,

A moléstia que teu povo emurchece

Na amplidão das derrotas percorres.

- Enraiva a espada do guia

Pretensão tamanha:

Obedece

Ou morres!”


Explodem pontes de saber e de amor

Nas ruínas das classes e gerações.


Que é da lua interior de que te socorres?


Por favor,

Enfurece

Teus canhões

E grita-lhes tu: “Obedece

Ou morres!”






Angola

Vida Cultural 5


Conversando com um aluno de Medicina que me visitara, lamentava ele a penúria do mercado livreiro de Luanda, mormente em obras técnicas.


- É má organização. Nenhuma livraria vai pedir um exemplar isolado duma obra cara, ter uma trabalheira para não lucrar nada ao fim.Listai os que as querem e pedi por junto.


Dias depois procurou-me de novo:


- Ó pá, para uma obra americana, de consulta obrigatória numa cadeira, fomos, no mesmo dia, catorze gajos à Lello pedi-la. Sabes o que responderam a todos? “Não mandamos vir porque não se vende”. Acreditas agora? A todos hã?!


Percorri as maiores livrarias demoradamente. Actualização relativa em matéria romanesca e documentários de problemática internacional em foco, muito material escolar, primário e secundário, um pouquinho de humanidades, mormente pensamento religioso, sem critério, e outro tanto no mundo científico-técnico. Tinham o que o comprador normal lhes pediria. O mercado qualificado era-lhes praticamente estranho.


Joguei a ideia de lançarmos uma cooperativa livreira para atender particularmente às obras de especialidade. E então, em lados diversos, topámos com grupos de estudantes e graduados, ignorando-se mutuamente, a fomentar o mesmo plano. Concregámos disponibilidades e coordenei o primeiro grupo-piloto, com larga maioria de alunos, encarregado de preparar a montagem final.


Primeira etapa: um bom colar de fundadores para apoiarem a cooperativa. Abordados os Secretários Provinciais da Educação e da Economia, o Provedor-Geral da JASA, um membro da Comissão de Censura – todos ficaram entusiasmados com a ideia. O Secretário da Educação até prometeu logo uma verba de apoio, o censor veio à reunião de trabalho imediata e colaborou empenhado. Pois nenhum a fundou. Em determinado momento, algo correu nos bastidores que obrigou o Secretário da Educação e o membro da Censura a declararem que não podiam ser fundadores; continuariam a dar todo o apoio, estariam connosco, deveríamos progredir como se nada houvera. O Zé Manel pedia razões. Que não lho podia revelar, que era grave, que mo diria a mim se eu o pretendera - renitiu o censor.


Por outros motivos não viriam os demais. Apenas o Secretário da Economia, Walter Marques, me pareceu pesaroso por não ter podido assinar a escritura de constituição. E fora ele que mais nos alegrara quando o convidáramos:


- Diversifiquem a cultura. Lembrem-se de que o mais importante não é vender livros: é preciso quebrar a uniformidade cultural. Este é o grande problema de Angola. Vocês terão uma grande responsabilidade. Têm de tentar diversificar a cultura.


O jogo na sombra, porém, é mais poderoso: seis dias após lavrar a escritura da “Livrúnum, SCARL” expulsaram-me de Luanda. Conseguira adiantar-me, por um triz, à teia. Meia vitória.






Vencer


I

Se, para vencer, é preciso

Degolar a vida ao brotar da terra,

Tem juízo

Perde a guerra!


Se, para vencer, o preço

É prostituir aos violinos o coração,

Desarma, de começo,

Tua mão!


Que minha vida dou-a, não a empresto,

E só por livre a dar é que a gozo.

Antes derrotado honesto

Que vencedor criminoso!


II

Vencer...

- Vem ser!






Angola

Vida Cultural 6


Encontrei num campo de férias um pequeno geupo de universitários de Nova Lisboa. Perguntei-lhes pela vida cultural de lá.


- Não há nada. Quando alguém promove qualquer coisa fica tudo muito empertigado, a botar ares de intelectual, é um estendal de mundanismo.


- E vida académica?


- Nula. As duas Faculdades ficam uma em cada extremo da cidade, a uns vinte quilómetros uma da outra. E somos ainda muito poucos. Uns quatrocentos. Repartidos entre ambas, nunca nos encontramos uns aos outros. Ainda parecemos menos.


- Porque é que as Faculdades ficaram tão separadas?


- Por nada. Só traz prejuízos. É a politica de dividir a malta. Nós é que nos lixamos, não convivemos nada, não temos actividades circum-escolares, tiramos um curso a ler sebentas e pronto. Ignoramos tudo o que vai pelo mundo, mesmo à volta de nós.


Mais tarde eu comandaria uma coluna militar até lá. Nos dias em que ali fiquei aproveitei para explorar o ambiente. Típica cidade do interior, mentalidades preconceituadas, curto rasgo para inovar. E grande alheamento do mundo, dos homens, da vida. Cidade linda de corpo que procura encontrar alma. Se lho permitirem... É que a mistificação para adormecer consciências atinge o inacreditável.


Ao preparar um tema para um campo de férias vasculhei um tratado relativo à conjuntura do trabalho pobre angolano. Quando reuni com os demais colegas que elaboravam a matéria tive uma revelação inesperada.


- É tudo mentira!


- Não acredito. Isto é ratificado por uma Universidade.


- As bases de onde o tema decorre não têm validade.


- Mas é de estatísticas oficiais, na maior parte, com inquéritos e questionários elaborados pelo próprio autor. Não há engano.


- Pois é. Você nunca viu como isso é feito nem falou com os negros. Eu fui missionário muitos anos, os dados verdadeiros foram fechados no Paço. O arcebispo pode abrir a gaveta e logo verá a verdade. Eu sei que é tudo mentira, porque vivi lá, vivi com eles e vi as falcatruas dos inquéritos e estatísticas para darem os resultados que eles querem. Olhe, para já, o negro não fala, nunca diz o que lhe vai lá dentro. Depois, responde o que o branco queira. A resposta nunca é a verdade mas aquilo que ele julga que o branco quererá. Até a mim fizeram sempre isso, quanto mais a um estranho qualquer. E olhe, porque denunciei a mentira descarada, o roubo, é que me correram da Missão. Aqui ninguém pode solidarizar-se com os negros. É logo subversivo. E quando lhes li alguns dados relativos ao trato nas fazendas riram às gargalhadas.


- Eh, pá, os pretos vivem no paraíso e a gente não sabia de nada! - ironizou outro, divertido.


- Olha, não há nada disso, a exploração continua até com muito mais requinte. Agora, porém, recoberta por uma obra de fachada imponente que ludibria qualquer desprevenido. Era bom, era...


- Numa visita de estudo do meu curso à Alfândega, há dias, - comentou um estudante – o director declarou-nos que a única estatística feita com um mínimo de rigor científico é a de lá dos serviços. E que em Angola não havia mais nenhuma, eram todas mais ou menos forjadas para propaganda.






Projecto


Sanguessugai-me os miolos,

Arrancai-me de raiz...

- Não mendigarei consolos,

Não sei dobrar a cerviz.


Raiva de amor é maior

Que a dor que lhe cabe em sorte.

Que importa a fúria da dor

Se a vida cresce da morte?


Acoimado de inimigo,

Ao bosque se acoita o gamo,

- A febre com que persigo

O terror com que vos amo.


Em lugar de medos parvos

Abro os portais da manhã.

De outras armas como armar-vos,

Uma lua, uma romã?...


Alastra o fogo, a secura,

Os mortos matam os frutos.

- Quem pode, morta a ternura,

Tolerar mais tempo os lutos?






Angola

Vida Cultural 7


Outrora houvera vitalidade cultural em Angola, recordam-nos. O Paulo, numa noite de entusiasmo, levou-me ao Baleizão, frente à baía, a petiscar, pretexto para explodir. E desdobrou-me, como tantas outras vezes, a saudade da extinta Associação Cultural.


- Agora não há nada que preste, tudo coisinhas. Não há um lugar onde todos se encontrem. Vem um perito de fora, não tem onde falar, anda de tertúlia em tertúlia, vive tudo em grupinhos. Uma porcaria! E olhe que a Associação tinha vida. Faz tanta falta! No ano de 63/64 foi uma razia, dissolveram tudo, prenderam gente, expatriaram directores, um pandemónio. E depois, nunca mais... Quem é que se atreve a criar alguma coisa? É uma chatice aproveitarem a guerra para justificar tudo.


A polícia aterra, constatei múltiplas vezes. Os guerrilheiros nunca os amedrontaram, mas a PIDE, o Governo. Política é tabu. Quando preparava a infraestrutura da cooperativa “Livrúnum”, logo me preveniram:


- Olha que, anos atrás, já tentaram organizá-la e todos os que andavam metidos foram corridos para CaboVerde. A ideia partira da Associação Cultural, olha...


Havia também organizações autóctones de cultura tradicional. O furacão da mitologia política oficial arrasou tudo. O preto assimilado não é nem ele nem outro, é um aborto. Porque assimilar implica um preconceito de superioridade da cultura branca, europeia, quando nenhum é superior nem inferior, mas apenas um complexo de componentes, crenças, idiossincrasias e relações-tipo revelando o equilíbrio da vida comunitária dum agregado humano.


O grande viveiro cultural, no plano da Igreja, a prometer a geração da primeira teologia angolana, fora, outrora, o Instituto Superior Católico de Nova Lisboa. Tentara um renovo do pensamento e responsabilidade cristãos na vida angolana, tornando-se um foco polarizador a formar e dinamizar mormente a juventude estudantil, Angola além. Promoveram uma campanha para repensar cristãmente a paz e criar um clima de empenhamento pela criação de condições concretas de paz em Angola. Foi considerado subversivo e proibiram a iniciativa.


Agora, há dias, o general Comandante-Chefe, em brinde público, afirma-nos que a grande batalha não é a da guerra mas da paz e que temos de criar-lhe as condições, o que obrigará ao trabalho primordial de assistir e promover, por todos os meios, as populações desprotegidas.


Depois os membros do Instituto Superior Católico promoveram em Luanda os Colóquios de formação religiosa. Um escândalo geral. Proibidos a meio, tiveram de acabar na cave duma casa particular, ao que me recordo. E nunca mais os teólogos teriam repouso. Criaram-lhes um ambiente de tal modo enervante, irrespirável, que iriam parar a um psiquiatra se não debandavam de Angola. E lá foram todos. O Instituto foi dissolvido.


Contam-me que estes traidores que para Angola não prestavam, ocupam agora, um, a secretaria mundial da Congregação, em Roma, além do lugar de conselheiro teológico; outro é provincial, no Congo-Kinshasa; um terceiro, o P. Santos Neves, é, como já indiquei, director da revista “Spiritus”, em Paris, além de conselheiro teológico da Congregação.






Desafio


Servi lá toda a sevícia

Que servis em vez de pão.

Não é tiro de polícia

Que vai calar a razão.


Pobre país o país

Onde é crime ser um homem!

Os cães de guarda servis

Os próprios filhos lhe comem.


Triste do povo que um dia

Tremeu do silvo da bala,

A vida é da boca fria

Que nem de morta se cala.


Ninguém 'sconjura a desdita

Com justiças desiguais.

Terra inteira, ergue-te e grita

Os crimes oficiais.


Servi lá toda a sevícia

Que bem disfarçais de pão...

- Nem sequer para o polícia

O tiro mata a razão!






Angola

Vida Cultural 8


Alguns episódios e quadros soltos que só aparentemente são desconexos, uma vez que revelam a inflexível congruência da desordem implantada.


Não havia teatro quando aportei a Luanda. Criaram mais tarde a primeira companhia. Teatro de comédia, ligeiro, para gerar público. Agitaram a ideia de fundar um teatro universitário. Novos agrupamentos brotaram, entretanto, de partes várias, tentando o teatro amador, em bairros periféricos. Fomentado o clima, vieram as companhias metropolitanas. Bastante público em Luanda, raro no resto de Angola. Não vem quem quer, porém; apenas quem agrada ao poder. Vem a OTEC de Coimbra, mas já é inviável a vinda de algum outro agrupamento teatral académico, o TEUC ou o CITAC. Por muito que a OTEC arme escândalo e deixe atrás de si uma esteira de agentes da Polícia judiciária a investigar uma infinidade de participações-crime, como me indicaram que foi por Angola além. O mais divertido é que depois ainda os originais vão à Censura, ainda há cortes, ainda há espectáculos cancelados! E é já muita sorte não prenderem as companhias inteiras para averiguarem...


A revista de maior nível intelectual em Angola é a “Prisma”. Revista de escol. Muito nova. Numa reunião de planeamento com o Dr. Baião, no Instituto do Trabalho, lamentava eu a arbitrariedade da minha expulsão de Luanda, quando ele recordou a história do Palha, da “Prisma”:


- Tivemos um dia de ir ao Governo Geral tratar de qualquer coisa. Então o secretário do Governador, no meio da conversa, atirou-me: “Olhe lá, conhece o Palha?” Eu até andava na ocasião de relações cortadas com ele por uma questiúncula qualquer. E lá lhe respondi: “Conheço muito bem, somos colegas de meninos e praticamente temos andado sempre juntos. Mas porquê?” “É que ele quer criar uma revista. Que lhe parece?” “Muito bem. É um homem de valor e fará um bom trabalho.” “Ah, não, tenho muitas dúvidas. Tenho aqui o processo dele e há lá na vida particular do homem coisas estranhas.” E mostrou-me o tal processo. Olhe que eu fiquei indignado. Até o acusavam de chulo, palavra de honra! Aquilo é feito com uma irresponsabilidade criminosa. Tive de dizer algumas muito fortes. Porque isto aconteceu ao Palha e podia acontecer a mim ou a outro qualquer e não podem jogar com a vida de ninguém com aquela leviandade. É pôr a sorte das pessoas na mão de crianças. Pois olhe que não valeu de nada. Só com este Governador é que o Palha conseguiu publicar a revista.


Com o decorrer do tempo multiplicava o número dos que me procuravam. Havia fome de Filosofia encarnada, economia, sociologia, moral, teologia, antropologia – fome de problemática humana, fome de horizontes mundiais. Animámos um colóquio quinzenal, fundamentalmente de índole informativa e de panorâmicas gerais, o ponto de várias áreas culturais, na perspectiva da problemática mais candente em cada uma. Foi nesta sequência que, a pedido de vários alunos, comentei um discurso de Marcello Caetano à Acção Nacional Popular, em parâmetros filosófico-sociológicos. Uma semana depois era expulso do serviço para St.ª Eulália.


Constatando a penúria de Humanidades na Lello, falei com o gerente e combinámos uma forma de trabalho com um grupo de estudantes, para animar e actualizaar aquele sector. Mandámos vir algumas colecções de obras pela primeira vez para Angola. Eram ignoradas a “Livre de Vie”, a “Foi Vivante”. E apresentámos montras de humanidades com o material disponível. Cada obra tinha uma ficha de apresentação crítica. Concomitantemente policopiámos os textos de cada montra para distribuição livre. O inédito atrai e a verdade é que o movimento em redor da montra logo se tornou notório. Várias semanas decorreram. O grupo de trabalho preparava-se espontaneamente para defrontar a tarefa de pôr de pé a cooperativa livreira, último fito. Uma noite, porém, telefonou-me, alarmado, o gerente. A PIDE mandara um exemplar do texto policopiado, com muitas frases sublinhadas e com a ordem, no fim: “identificar todas as pessoas que lançaram esta propaganda”. Os autores cuja apresentação era para eles altamente suspeita foram o neotomista Jacques Maritain e o economista cristão François Perroux!






Revelador Histórico


Revelador,

Revel à dor,

Revela dor.


Descobrimentos: Ré, vela – dor!


Ré... Velador

Rêve là d'or...


1580, Perda da Independência: Re-velador

Revela a dor:


- Ré! Vê lá dor?

Ré vela a dor!


Leitura da história: Revela-dor

Revê lá dor!


Revelador!






Angola

Vida Cultural 9

A Censura apreendia as obras mais inesperadas. Muitos títulos em circulação livre na Metrópole ficariam cá pelo caminho. A liberalização que vai desabrochando lá, aqui não vê a luz do dia. Uma coisa que estranhara era o elevado preço de venda dos livros.


- Ó Dr., quer que lhe diga? - comentou o gerente da Lello. - Por minha vontade fechava a livraria de vez. Não dá lucro nenhum. Vendemos com um aumento de perto de 30% relativamente ao preço de Metrópole, mas não imagina como é. Olhe, por um lado, os monos: tenho aí milhares de livros em armazém invendáveis, a humidade e a temperatura deterioram-nos e é perda total. Por outro lado, há o furto. Aqui é uma loucura. É uma coisa divertida furtar livros! E às vezes é quem não precisa nada daquilo, eu até tenho vergonha de lhes dizer alguma coisa, ninguém suspeitaria. Pessoas bem colocadas, de grande consideração social. Principalmente mulheres. Fica admirado? E com que requintes!


Um empregado confirmar-me-ia depois que, naquela livraria, cerca de 30% do movimento total eram furtos. Os preços teriam de aumentar, portanto, em proporção.


- Mas o pior de tudo é a Censura – continuou ele. - Olhe que é de a gente perder a cabeça. Apreendem as coisas mais extravagantes. A gente bem tenta entender porquê mas ninguém o atinge. Um dia entraram aqui, vasculharam tudo e levaram-me uma série de revistas francesas, inglesas e americanas, até a Life. Achavam que atentavam contra os bons costumes. Olharam para as capas e pronto. Eu até comentei lá para o chefe do grupo: muito me alegro em saber que a sociedade aqui anda tão evoluída, até já lêem revistas imorais em francês e inglês! Está a ver, mandam uns analfabetos quaisquer para aqui e uma pessoa tem de cruzar os braços. Olhe que eu até lhes pedi uma lista das obras que eles apreendiam porque não tinha outra maneira de me orientar. Mandaram uma lista tão grande que desisti: era impossível controlar, é tudo. O mais grave é que livro apreendido é guilhotinado. E a gente tem de pagá-lo. Está a ver o que é uma remessa duma centena de exemplares caros dum romance qualquer que lhes deu para apreender: é uma porrada de contos! Protestámos, ao menos deixem-nos devolver a encomenda. Muitos dos livros em circulação livre na Metrópole, por que diabo os guilhotinam? Veio cá um Secretário de Estado qualquer e queixámo-nos daquilo. O homem prometeu falar ao Governador, que isto não tinha jeito, que poria cobro a tal regime. O Governador concordou. Continuaram, depois, a fazer o mesmo. Berrámos, então o Governador dava ordens e eles não ligavam? Riram-se:”O Governador não manda nada aqui, fazemos como entendermos e não temos contas a dar a ninguém”. E até hoje.


E continuará. Quem poderia atentar contra um conluio Censura-PIDE que ri na cara mesmo dum Governador-Geral?






Paz Universal


Quer a paz

Enfim

- Totalitariamente -

Na terra.


Portanto, o omnipotente,

A quem não quer querer assim,

Interminavelmente

Faz

Guerra!






Angola

Vida Cultural 10


A propósito de cultura popular, lembro-me das escolas primárias: uma avalanche recobrindo Angola de lés a lés. Milhares e milhares de alunos. Trinta mil só em Luanda. Graves lacunas, próprias de estruturas grandiosas e inexpertas: má preparação de professores improvisados, programas metropolitanos completamente desenraizados de culturas locais, plenos de portugalidade universal que é apenas ibérica lusitanidade...


Quando percorri o norte e vasculhei o reordenamento, reparei que a arquitectura escolar era copiada da Metrópole, quando até as próprias sanzalas experimentavam métodos novos para tirar partido do clima equatorial: tecto duplo ou elevado do corpo da construção, beirais de capim alongados, a criar zonas de sombra ao redor da habitação, aberturas altas e rasgadas. Nem isto era aproveitado. Escolas cálidas, irrespiráveis, húmidas – um monumento à preguiça.


Escrevi uma curta monografia relativa ao problema, propondo com modelos concretos uma arquitectura alternativa, que me serviu de tema para a cadeira de Higiene Escolar do Curso de Ciências Pedagógicas. Elogios, largos comentários. Ficou por aqui: na prática, nada.


A grande anomalia da escola primária é o Abrantes. Por Angola inteira ouvi falar do Abrantes. É que não há primeira classe, mas a classse do Abrantes. Nunca tive a desonra de conhecer tal sumidade, pelo que é para mim apenas um nome, um espantalho. O Abrantes é, contaram-me, o inspector-chefe das escolas primárias que fora muito mau professor e agora vinga a frustração de antanho em sevícias por Angola além, num completo descalabro. Em todo o lado ouvi dele e tudo unanimemente muito mau e muito grave. Nos locais mais remotos de Angola, inclusive. Nenhum professor primário ignora o Abrantes, creio. Pois o Abrantes impôs à primeira classe, como pedagogia obrigatória de ensino, o método global, de forma exclusiva. Como qualquer método tem vantagens e limites, tem de ser completado por outros. Ora isto é terminantemente proibido, sob pena de sanções graves, até de expulsão. E toda a gente que pratique um pouco de pedagogia moderna vê que isto não tem pés nem cabeça: ela não é um método mas múltiplos e um complexo de técnicas maleáveis que têm de combinar-se em concreto, de acordo com o progredir da aprendizagem e o carácter do aluno e o professor. Ora, a verdade é que, à custa disto, o Abrantes, que é autor do livro por ele aprovado para o método, murmuram que tira limpos, por ano, com a venda do livro único, mais de cem contos ( o vencimento anual dum professor fica abaixo disto!). Como os pontos de exame que vão à aprovação dele perdem no concurso com os que ele próprio elabora, aí vão mais uns largos contos. E também têm de ser obrigatoriamente dele as provas de exercício dadas durante o ano. Enfim, uma grande mina! Nada mau, para um professor falhado!


O pior ainda é que o Abrantes exerce vindicta privada. A minha cunhada dirigiu uma escola, por ordem dele, para pôr à prova o método. Como o método não dava para o que ele pretendia, ela atirou-lho à cara. E largou a escola. O Secretário Provincial de Educação nomeou-a directora duma outra de musseque. A meio do ano, quando o Abrantes reparou, demitiu-a. Na Secretaria provincial comentaram: “Antes, era apta para dirigir uma escola-piloto. Agora desaprendeu!”


E o Secretário Provincial, Dr. Pinheiro da Silva, revoltado:


- Deixe lá, minha senhora, vou-lhe arranjar um lugar sobre que ele não tem competência e ali o trabalho até vai ter muito maior repercussão. Venha para a tele-escola. Aí ninguém lhe pode fazer nada.


O método é comum para quem não lhe agrada. Más informações, sobrecarga de exames, fiscalização de má fé, distribuição de lugares com intuito vindicativo, enfim, todo o arsenal de violências que o cargo lhe põe à mão.


- Dizem que ele anda muito bem protegido lá no Ministério – comentam-me por todo o lado – por um grandalhão qualquer. Protestos não faltaram. O pior foi que não deram resultado e ele, informado dos autores, estragou a vida a todos. Agora, claro, é o medo. Ele tem lá uma cunha muito grande, não vale de nada lutar contra, ainda ficamos todos pior.






Disfarçado


Rebola o sapo na lama,

Encharca-se a rã no lodo

Enquanto um céu enorme à flor de água se acama

Todo.


Caveiras matraqueiam dentes,

Microfones nacionais,

Coleiam na história serpentes

De bolor e glória quentes

Com rugidos ancestrais.


Corvo imundo

Da podridão não se acanha,

O tirano ameia ao mundo

As seis patorras de aranha.


Venha o que lhe vier

À teia,

Digere,

Arrotando heróis de papelão depois da ceia.


Vive de açucenas mortas,

Homicida recidivo.

Fecha às madrugadas as portas,

- Morto disfarçado de vivo!







VII Parte


St.ª Eulália

De 27 de Junho a 23 de Agosto de 1970




St.ª Eulália, 27 de Junho


Finalmente irei de férias. Não tive remédio senão marcá-las para o período de exames do Instituto de Educação e Serviço Social. Não convenci o brigadeiro de que isto era trabalho assumível pela função militar. Para ele é um negócio privado, legítimo mas à margem do labor e ideal dum oficial no activo. Não terei, conseguintemente, férias nenhumas. Pouco me importa, aliás. É tão entusiasmante o convívio com os alunos, tão gratificante partilhar-lhes os sonhos, as esperanças, as frustrações e as revoltas que, pessoalmente, jamais trocaria isto por férias nenhumas. O problema é o da cegueira institucional, política e cultural dominante que não há maneira de considerar e legitimar o que é decisivo para a vida das pessoas e para a revitalização dos grupos, comunidades e da colectividade em geral. Não há forma de abalar a rotina, não há angústias nem projectos que lhes abalem os corações mecanizados.


Hoje é um dia de revisão. Já fiz a mala. Levarei de volta o rádio que o meu irmão me emprestou para quebrar a solidão e monotonia de St.ª Eulália. É que adquiri, no meio desta floresta perdida, o modelo mais recente e avançado de rádio-gravador japonês, aqui chegado de contrabando. Se mo contassem não acreditaria. Mas a verdade é que num recanto ignorado e inacessível como este, em plena floresta virgem, se operam negócios impossíveis. É divertido. Ultimamente entretenho-me noite fora a ouvir a BBC de Londres, a voz da Alemanha, sei lá que mais. A verdade é que consigo estar a par do quevai ocorrendo pelo mundo fora. A solidão é outra.


Terei de proceder às avaliações finais dos alunos em Luanda. Terei de ir à entrevista com o ajudante-de-campo do General Costa Gomes. Finalmente está marcada e o processo desbloqueado. Que ocorrerá a seguir? Apenas sei que primeiro serei recebido pelo General Comandante da Região Militar. Até agora ninguém me ouvia. Doravante irei falar com todas as instâncias. Finalmente, reservarei um tempo especial para a Irondina. Julguei que nunca me dariam o sinal da rede que me remete jornais e revistas do mundo inteiro. Até que ela me transmitiu um comentário fugaz, em meio a uma conversa de grupo indiferente. Ninguém poderia captar sequer a insinuação, tão perfeita no enquadramento foi lançada.


A Irondina, tinha de ser ela. Uma jovem desfeita por muitos lados ao mesmo tempo, mas persistindo apesar de tudo em viver. Funcionária da TAP, ali mesmo no coração da rede de comunicações para os forçadamente isolados. Para ela a tragédia começou no dia em que o noivo lhe desapareceu misteriosamente. Até aí projectara apenas um amor simples, uma família que viajaria mundo, liberta no espaço e no sonho.


- Que vos aconteceu? - perguntei-lhe uma noite, quando quis agradecer-lhe, passeando nos jardins do Miramar, com a baía e o anfiteatro luandense refulgindo ao fresco luar tropical, ali estendidos aos nossos pés.


- O meu noivo nem era político. Ficou revoltado com as prisões dos colegas, julgou que não podia calar mais a arbitrariedade e as perseguições. Então, um dia, desapareceu também. Eu ia dando em louca. Procurei-o por quanto é sítio, nos quartéis, nas polícias, nas prisões. Acabei por ir-me abaixo, tive de ser internadaa para uma cura de sono, durante não sei quantas semanas. Depois de muito bater com a cara nas paredes lá consegui que mo desencantassem. Libertaram-no, mas ele estava desfeito, nunca mais pudemos reatar quanto vínhamos projectando. E, depois, ele teve logo de fugir de cá, senão ainda o matavam por aí “por acidente”. Não havia alternativas.


- Mas então...?


- Nunca mais. E foi melhor assim. Já não tínhamos condições para nos reencontrar e recombinar a nossa vida. Nada mais era viável, tivemos de deixar ir tudo por água abaixo, nem eu nem ele conseguíamos namorar, sonhar com o casamento, nada. Tudo foi demasiado terrível, vocês não podem entender. A vida acabou ali, com a inocência, a ingenuidade. A brutalidade foi tão grande que não ficou em mim nem nele pedra sobre pedra. Tínhamos, até então, vivido tão à margem de tal coisaa que fomos apanhados desprevenidos por inteiro. Um esmagamento completo.


- Quer dizer, antes nunca te tinhas metido em nada. No meio de toda a desgraça quem tem sorte ainda sou eu. Ninguém ia romper o cerco de St.ª Eulália a não ser tu...


- Pois não, antes não. Mas agora sinto uma angústia tão grande quando acontece outra vez, que olha... Eu vejo-me na obrigação de fazer por vocês quanto puder. Ao menos dá-me algum sentido à vida.


Enfim, vai haver um ror de trabalho. Não vou ter férias nenhumas. Vão ser umas férias fantásticas!






St.ª Eulália, 1 de Agosto


Voltei à prisão. Que outro nome dar a isto? Ainda alimentei a esperança de que as férias seriam período bastante para me ser feita justiça e de que não precisaria de retomar o degredo. Ingenuidade. Perdi logo as ilusões durante a primeira conversa com o ajudante-de-campo do Comandante-Chefe.


- Chamei-o para lhe confirmar como o caso vai andando.


- E então?


- Olhe, em primeiro lugar o processo foi de facto reaberto com base nos fundamentos do seu requerimento.


- E reconduzem-me à Chefia de Justiça?


- Vai ser feito, mas temos de pedir-lhe ainda um bocado mais de paciência.


- Mas porquê? Isto foi uma arbitrariedade e um abuso do poder descarado!


- Isso é outro aspecto que pretendo que fique claro. Quero que saiba que é exactamente assim que entendemos o que lhe fizeram.


- A que é que vem agora a paciência?


- Tem toda a razão. Por mim e pelo nosso general isto já estava tudo arrumado. Mas não somos apenas nós, compreende? Temos de jogar inteligentemente com o outro lado. Eu já lhe falei nisto quando visitámos o Comando de Zona.


- E o poder dum Comandante-Chefe? Superintende a tudo e todos. Para quê tanta demora e hesitação diante duma ilegalidade flagrante?


- Pronto, nós compreendemos a sua impaciência e revolta. São inteiramente justificadas. O senhor é vítima duma injustiça que não temos qualquer dúvida em condenar. O problema é outro. Temos de criar tempo para deixar arrefecer mais a situação, deixar esquecer um bocado. É que interveio no seu caso gente demais e do mais alto nível. Já viu o que era se agora fôssemos mexer novamente em tudo, com os ânimos ainda exaltados? Voltava a reacender-se a fogueira e ninguém sabe o que daria. Temos de conseguir fazer isto despercebidamente, compreende? Aliás, o nosso general conta com a sua compreensão e colaboração para levar isto a bom termo. Não podemos transformar o caso num confronto entre pessoas e posições. Tem de ser encaminhado como uma situação normal de trabalho. Foi transferido por conveniência de serviço e vai regressar na mesma base.


- Oh que coisa mais aborrecida! Para a arbitrariedade não foi preciso tempo nem contemplações. Para repor a justiça é com todos os paninhos quentes.


- É de facto revoltante. Perfeitamente de acordo. Mas decerto compreende que temos de usar de inteligência para não levantarmos outra sarrafusca que possa provocar novos transtornos e perdas ainda maiores, não é?


- Muito bem. Já estou por tudo. Vivo à margem desses jogos. Aqui é que os podem compreender. Façam como puderem.


- Mas não julgue que a nossa posição é uma manobra dilatória ou que há qualquer fingimento. Não. É apenas fruto de ponderarmos a situação e da força das entidades que se envolveram nisto. Precisamos de deixar acalmar as águas, fazer cair o caso um bocado mais no esquecimento. Então, como quem não quer a coisa, transferimo-lo novamente, dentro duma rotação normal de serviço. Evitamos a ligação entre ambos os aspectos.


- Tem de ser assim?


- É o mais conveniente. E depois há as burocracias, os pareceres, anda tudo de gabinete em gabinete, é muito moroso. Mas por ora é mesmo importante criar tempo.


- Isto é um inferno!


- De facto é, mas que se lhe há-de fazer? Tem de haver prudência e fazer tudo bem feito, para não haver nada por onde possam pegar-nos. - E, vendo-me abatido, para me reconfortar: - Olhe, já lhe marcámos entrevistas com o nosso general Comandante da Região, também está a par de tudo, e depois com o nosso general Comandante-Chefe.


- Mas se o caso é como diz... - hesitei.


- Não, não. O nosso General Costa Gomes faz questão em falar pessoalmente consigo. É um problema de princípios, que mais não fosse. O senhor tem direito a ser ouvido e vai sê-lo. Recusaram-lhe sempre isso, mas agora, não. E mais, vai ser ouvido pelo nosso general Comandante da Região porque é dele que depende e, portanto, antes de mais é ele que vai ter de o receber e conversar consigo.É desta forma que as coisas deveriam ter sido feitas. Já que o não foram, são-no agora. Importa que tudo fique no lugar e que as regras se cumpram. Mas já sabe que a nossa posição é de inteira concordância consigo, isto é apenas para conceder-lhe aquilo a que sempre teve direito e de que o esbulharam. Neste particular, vai ser accionado já. O resto aguardará um momento mais oportuno, mas na certeza de que também o faremos antes de lhe acabar a comissão.






St.ª Eulália, 5 de Agosto


Oficial de dia uma vez mais. Agora é já uma rotina. Não deu sequer para me distrair do que se me vem tornando quase uma obsessão, as conversas com os generais em Luanda. Foi tudo como planeado pelo ajudante-de-campo. Só que resultou muito bizarro. Decididamente, o Comandante da Região não me parece afinado com o Comandante-Chefe, pelo menos no meu caso. Quanto à mentalidade, também não creio que sejam assim tão afins.


Recebeu-me todo sorrisos gorduchinhos e mandou-me sentar familiarmente.


- Ora diga lá, nosso alferes.


- Bem, eu não pedi esta entrevista, ela foi marcada pelo Comando-Chefe e eu não sei muito bem porquê. De facto, a minha expulsão para St.ªEulália e o processo dela não passaram por aqui, tudo se confinou, e pelos vistos confidencialmente, a quem lá na ocasião mandava...


- É como diz, mas está mal. O nosso alferes dependia daqui, nunca deveria ter havido decisões acerca do seu destino sem por cá passarem. Mas enfim... Agora estou inteirado de tudo.


- Conhece o processo?


- Evidentemente.


- Eu nunca o vi, nem sequer tive qualquer conhecimento da existência dele, mesmo depois de me expulsarem “por conveniência de serviço”.


- Claro, claro. E agora que pretende?


- Voltar para a Chefia de Justiça. É o meu lugar de trabalho. Lá em St.ªEulália nem sequer tenho nada para fazer.


- Não lhe distribuíram serviço?


- Ah, evidentemente que distribuíram. Dá-me para cerca de quinze minutos por dia e é quando o há.


- Pois, o nosso alferes está no activo, não é detido nem expulso. Foi para lá como qualquer dos outros oficiais do aquartelamento.


- Não me parece propriamente a mesma coisa...


- Eu queria chamar-lhe a atenção para um pormenor. Pediu alguma vez autorização para dar aulas?


- Não. Nem creio que fosse preciso. Aliás, o meu chefe soube desde o princípio que eu ia leccionar. Por isso até me pôs a dar o Direito no curso de oficiais milicianos do Grafanil.


- O seu chefe sabia?


- Claro. Tive de combinar sempre com ele isso e todas as outras actividades para organizar o tempo livre de que podia ou não dispor. Por outro lado, para que era precisa autorização se as aulas eram fora do período de serviço? Não faz sentido nenhum. Então nós não vimos para cá dar o mais e melhor que pudermos a estas terras e gentes? É o que apregoa todos os dias o Governo e a propaganda oficial. Senão como é? Afirma-se por um lado e desfaz-se pelo outro?


- Mesmo assim devia ter pedido. É dos regulamentos.


- Dei conhecimento ao nosso coronel da Chefia de Justiça. É a mesma coisa. O assentimento dele é uma autorização.Ele é que era o meu superior hierárquico.


- Deixemos isso. Queria dizer-lhe que eu e o nosso general Comandante-Chefe conversámos sobre o seu caso e estamos de acordo. Aquilo não faz, de facto, nenhum sentido. Quando é que pretende voltar para Luanda?


- Já. Como estou de férias não precisaria sequer de retornar a St.ª Eulália.


- Ah, mas tem de lá ir para arrumar as suas coisas pessoais, deixar o trabalho nas mãos de quem o fique a substituir...


- Não tenho lá nada. Já trouxe tudo e não há trabalho pendente. Aliás, o pouco que me deram voltou para quem sempre o desempenhou, nem sequer há transmissão nenhuma.


- De qualquer maneira isso não pode ser. Tem de aguardar um pouco mais.


- Assim acabarei a comissão lá.


- Não. Antes disso o nosso general manda-o regressar. Mas demora um bocado. Só mais umas semanas, está bem?


- Que remédio! Não sou eu que mando, que hei-de fazer?


- Outra coisa. Quando voltar como é que pretende agir?


- Retomo o que tinha em mãos quando me expulsaram e que ainda possa recuperar-se. Claro que há iniciativas que por natureza morreram, como os ciclos de conferências. Outras já não dá tempo para nada, a não ser que alguém de cá as retome, como as montras de livros seleccionados e coisas do género.


- Mas o nossso alferes não se vai meter outra vez a fazer ondas, não é verdade?


- Eu nunca andei a fazer ondas. Limitei-me a dar o melhor que sabia em tudo o que pude...


- Está bem. Mas agora já vê. Tem de ser discreto e passar despercebido. Não pode voltar ao mesmo. Estamos entendidos?


E pronto. Voltar tarde e más horas e ainda por cima de mordaça na boca. A fera açaimada. Devo ser mesmo perigoso e nunca reparei!






St.ª Eulália, 6 de Agosto


A espera continua. Não entendo porque me custa muito mais agora do que antes das férias. Esta expectativa de quando chegará a ordem de regressar desmotiva-me para tudo aqui. Correu a informação de que afinal me reconduzirão às funções de onde nunca deveria ter saído. Aguçou as curiosidades, até dos soldados. Isto é mesmo uma pasmaceira onde qualquer nada atinge foros de sensacionalismo para quebrar o tédio, despertar o sabor possível da vida. Uma ida para um outro mundo alimenta o imaginário, abre a porta ao sonho. Curiosamente, tanto quanto para eles é uma válvula de escape, é para mim um cilindro compressor, cada dia me esmagando mais. Perdi definitivamente as ilusões quando fui recebido pelo General Costa Gomes, no que respeita a um rápido retorno a Luanda, em situação de normalidade.


- O nosso general Comandante da Região já lhe explicou tudo, não é assim? - rouquejou, mal nos cumprimentámos.


- Sim, pelos vistos vou ter que esperar. E ficar mudo e quedo.


- Pois é, vai ser preciso um pouco mais de paciência, está verde demais ainda o caso. Tem de acalmar e cair um bocado no esquecimento. De resto, ninguém tem nada a censurar-lhe, damos-lhe inteira razão.


- É mesmo preciso tanto cuidado?


- Olhe, peço-lhe para reparar nisto: não se trata apenas dum problema, há outros indivíduos que temos de proteger. Há mais situações por que precisamos de olhar, outras pessoas a requererem apoio e não creio legítimo pôr em risco as possibilidades de as atender que vamos conseguindo preservar. Ora, para isto ser assim, queria a sua cooperação, mais algumas semanas. Logo que a transferência não levante conflitos, garanto-lhe que voltará, não me esquecerei, compreende?


- Não quero estragar a vida a ninguém. O meu general é que sabe o que pode ser feito.


- Vamos agir como lhe digo, é o mais seguro. E quando voltar, compreende como vai ser?


- Pelos vistos, praticamente reduzido ao silêncio, não é?


- Olhe, também não queria que encarasse o problema assim. Deve levar uma vida normal. Apenas será prudente abster-se daquelas iniciativas que preveja que poderão provocar mais agitação, ataques contra. Fica-lhe ao critério, evidentemente. Mas por certo concorda que, depois do ocorrido, é mais sensato usar de preferência a esperteza em vez dum confronto directo com quem não o compreende mas tem muito poder e é capaz de provocar danos pesados.


- É difícil aqui prevenir tal coisa. As iniciativas mais ingénuas, só por despertarem alguém do letargo, podem ser tomadas como subversão ou comunismo, sei lá o quê...


- Tem toda a razão, eu estudei bem o caso, é de facto assim. Agora, apesar de tudo, houve umas actividades que provocaram mais celeuma e outras que praticamente correram despercebidas. O que lhe sugeria é que jogue um bocado nisto. De qualquer modo, também não vai dispor de muito tempo para grandes projectos. A não ser que pretenda radicar-se aqui. É o seu intuito?


- Não, de maneira nenhuma. Depois do que me ocorreu, nem por sonhos! Aqui não podemos promover nada. É tudo aniquilado no ovo. Isto é uma terra podre e que liquida quem tente dar-lhe algo sadio.


- É complicado, é. O clima de guerra distorce também muitas coisas. De qualquer modo, é sua tenção voltar à Metrópole? Não pretende então dar continuidade a nada do que tentou pôr em andamento?


- Faria sentido. Desde que agarrado por alguém aqui radicado. Mas nem vale a pena, é tudo sistematicamente destruído e as pessoas encolhem-se depois. Não vejo futuro nenhum numa situação destas.


- Pois seja como queira. Apenas queria dizer-lhe que, se, como militar, ainda lhe podiam opor objecções a toda a actividade civil por exceder as tarefas que lhe incumbem num clima de intervenção (o que não tem nada a ver com o conteúdo, com aquilo que de facto andou empreendendo, entende?), a verdade é que, como civil, aí terá todo o direito de agir como pretender. Com os riscos inerentes à conjuntura que vivemos, obviamente, e que muito bem conhece.


- Vim para cá porque o requeri, para dar dois anos de vida a esta terra e gentes gratuitamente, o melhor que podia e sabia. Este foi o meu projecto. Não me deixaram promover tudo de que era capaz, paciência. De qualquer modo, acabada a comissão, tenho outros planos que me obrigam a voltar à Metrópole. É o que pretendo. Também por este motivo já não poderei adiantar nada até ao fim da comissão, por falta de tempo, por falta de quem continue qualquer iniciativa e até por já não conseguir ânimo para promover o que quer que seja. Agora estou completamente descrente de tudo. É uma desilusão quanto apregoam oficialmente de Angola e do resto. Quando voltar para aqui é para arrumar de vez, despedir-me.


Despedir-me-ei com mágoa e revolta. Como perdoar que nos matem o sonho enquanto gritam aos quatro ventos que o acarinham?






St.ª Eulália, 10 de Agosto


Foi por volta das dezassete e trinta, tinha eu acabado de voltar do gabinete para o quarto, que o magno espectáculo principiou. Já de manhãzinha fora anunciado, cobria-nos uma neblina densa e quente que lavou os maracujaleiros e o sape-sape (é como aqui designamos as anonas), enfeitando-os de iridescentes colares de cristal líquido, pingando a compasso. Ao fim da manhã, o sol a pino às vezes espreitava negaceador por entre cobertores cinzentos de nuvens grossas como montanhas, a vogar preguiçosas pelo infinito. Durante o almoço não havia frescura que nos enxugasse as bagas do suor. Apenas uma ou outra lufada de vento esquecido e sonolento molemente abanava a rede mosquiteira, a mesma que, em lugar de parede, nos protege dos insectos, a todo o comprido da messe de oficiais. Mas nem a brisa molengona parecia querer acordar da sesta aquele bafo pegajoso, como igual só encontrei ao largo da Guiné, quando a bordejámos no Vera Cruz, à vinda para Angola. A pele fica-nos viscosa, grudando-se a tudo, dando-nos a sensação de que ficaremos irremediavelmente sujos, que lavar-nos, de facto, não resulta – continuaaremos peganhentos, com nojo de nós próprios, a roupa colada.


À tarde, pelos gabinetes, as osgas andaram frenéticas, se tal podemos adjectivar dum réptil tão calaceiro e cuidadoso ao deslocar-se, nas atitudes acrobáticas que tem de tomar para capturar os insectos que lhe servem de vitualha. As duas ou três que habitualmente nos policiam as paredes e traves da secção lá cirandavam sem parança, escorregando de canto para esquina interminavelmente.


- Até mesmo elas sentem que isto hoje anda mais pesado – comentei para o António, o alferes que ocupa a secretária do meio, na fiada que me fica à esquerda. - Não param um momento.


Como de costume, olhou, sorriu e continuou mudo a analisar um processo qualquer. É o mais automático dos oficiais, opera como um relógio, em regularidade plena. Raramente lhe arrancamos uma palavra. Vive no terror de qualquer crítica ou atauqe dum superior, pelo que é o escrúpulo em pessoa em quanto respeite a trabalho. Àquela hora éramos, por isso também, os únicos no gabinete. Mergulhei na leitura e daí a pouco eu próprio vogava noutro mundo, inteiramente alheio ao que me rodeava. Nem reparei no tempo.


Inesperadamente fui acordado por uma enorme restolhada e gritaria. O António pulara do lugar em pânico.


- Ui! Que é isto? Ai! - e esbofeteava-se na cabeça, na cara, no tronco, pinchando como um desalmado, num descontrolo completo: o alferes certinho tinha virado maluco!


- Que foi, homem?! - acudimos todos, desnorteados, já ele trepara para cima da cadeira.


- Ui! Uma osga! Caiu-me uma osga na cabeça! E desceu-me para os óculos! Ui! Ui! - e continuava com arrepios, esmurrando-se entusiasticamente, aos pulinhos.


O Marques, que acudira à grita, explodiu às gargalhadas, de mãos na barriga, amparando-se à secretária. A hilaridade foi tal que as lágrimas lhe correram pela cara abaixo e teve de atirar os óculos para longe.


Depois adveio a guerra dos elementos, como jamais a presenciara. Primeiro, um ribombo de canhão da banda do destacaamento, muito perto daqui, porém. O raio não o vi mas, obviamente, rachou o arvoredo cerrado que se acama a partir da meia encosta do morro cujo topo ocupamos. Sem transição, a área da Companhia de defesa ficou preta de nuvens carregadas, tão baixas como nunca vira. A tempestade desencadeou-se brusca com uma tromba de água tal que instantaneamente a pista de aviação virou um lago com ondas e tudo e uma correnteza em cachoeira atroadora de meter medo. Inesperada, a ventania desencabrestou-se com violência atirando ramarias e árvores pelos ares fora como mera poalha. As portas e janelas matraqueavam furiosas, mesmo trancadas. Os telhados, presos com cordas de aço ao chão, abaulavam-se, rítmicos, numa batucada interminável e ameaçadora.


Estranhamente, porém, aqui no Comando continuava um sol radioso e nem uma poeira bulia. Abrira-se um arco-íris descomunal no aguaceiro que inundava o acampamento até à esquina do Centro de Saúde, a cinquenta metros donde eu observava o estranho fenómeno. Além, o fim do mundo; aqui, a paz. Dois passos entre o céu e o inferno.


De repente, as cordas de água principiaram a rodopiar em turbilhão, na clareira entre as casernas e a rede da pista aérea, formando uma tromba em coluna, pelos ares arriba, cada vez mais grossa e acelerada. Aí os primeiros pingos e um vago sobressalto de aragem atingiram-nos, à porta da messe. Recolhemo-nos dentro, aturdidos e maravilhados com o colorido, a variedade, a energia desta descomunal natureza à solta, em estado bruto. De súbito, a cachoeira despenhou-se por cima de nós e instantaneamente deixámos de avistar o edifício dos gabinetes, dez metros adiante, inteiramente encoberto pela cortina atroadora da inundação, pelo vapor turbilhonante que explodia enervado do chão tórrido em novelos enrodilhados, pela terra salpicada chicoteada pelo vendaval ciclónico que estoirara. O ribombar era tão ensurdecedor que ninguém conseguia ouvir-se, nem mesmo aos gritos. O telhado da messe era pior que um batalhão de artilharia pesada em canhoneio contínuo.


Depois, instantaneamente, parou tudo. O sol brilhou fresco, remirando-se em miríades de regatinhos e arestas. A brisa refrescou-nos meiga, brincando inocente no azulíneo do fim da tarde. Nuvens? Restou um pouco de algodão em rama acolchoando as incontáveis cabecinhas da floresta, ao longe, repousadas na travesseira do horizonte. Ninguém poderia acreditar no que ocorrera instantes antes.


Como pode abrigar tanta violência por trás esta aparente candura? Como pode uma tempestade ser tanto o meu país?






St.ª Eulália, 12 de Agosto


O Zacarias é o cozinheiro da messe. Negro oriundo de Cabinda, cumpridor e com dedo apurado para o menu. Não muito esperto, fala mal o português, mas a verdade é que sem ele as nossas refeições iriam decerto por água abaixo. Casado, largou a família no enclave mas não a esquece. Há dias queixou-se-me de que já vai no segundo ano sem férias. Toda a gente as goza menos ele, que não tem substituto à altura e, conseguintemente, ficou agrilhoado às panelas por ser bom no ofício. Escolheu aquilo para tentar promover-se e, afinal, é pior do que ter ido para atirador, que estes ao menos têm um mês por ano para rever mulher, filhos e demais parentes. Foram mesmo os outros soldados que me alertaram para isto. Depois pediu-me ele para interceder junto do brigadeiro. Agora estou furioso. Aquele homem não tem remédio: para ele não há lei nem humanidade.


- Meu brigadeiro, o Zacarias, o cozinheiro, tem direito a trinta dias de férias – principiei, quando ele me recebeu.


- Tem de as pedir e têm de ser-lhe concedidas pelos seus superiores – retorquiu, gélido.


- Já as requereu.


- E eu entendo que ele é imprescindível e, portanto, não lhas concedo.


- Meu brigadeiro, mas então o homem é punido por ser bom?! Se fosse mau cozinheiro não lhe faria isso, não é verdade?


- Claro que podia gozar as férias como qualquer outro. Só que não temos quem o substitua.


- Meu brigadeiro, ter, temos. Podem é não dar tão boa conta do recado, mas para remediar...


- Não, não. Ele é necessário ao serviço, não vai de férias. Já decidi, está decidido.


- Meu brigadeiro, mas é ilegal. O meu brigadeiro não pode fazer isso, tem de cumprir a lei.


- A lei não me importa para nada. Faço o que entendo que deve ser feito, ora essa! E o nosso alferes deveria cooperar comigo, também é da lei, não é verdade?


- Evidentemente, meu brigadeiro. Por isso mesmo é que vim aqui falar-lhe.


- Então, se não tem mais nada a dizer-me...


- Não reformula a decisão?


- Não, não volto atrás.


- Então, meu brigadeiro, informo-o de que vou participar superiormente contra si. Não posso aceitar, enquanto oficial de justiça, que viole a lei desta maneira.


Ergueu-se bruscamente, os olhos fuzilando-me, a cara de pedra.


- Participe à vontade, nosso alferes. Faça o favor de retirar-se!


Não consegui ler uma linha a tarde inteira. Por outro lado, julguei mais prudente não divulgar o teor da conversa e menos ainda a fúria em que me deixou. Claro que me arrisco demais. Para quem vive já na minha situação, isto pode ser o fim. Mas que pode um homem fazer ante a desumanidade, a prepotência cega e surda? Ou o Zacarias, lá por ser preto e cozinheiro, não é gente? Quantas leis há neste País? Vivemos ainda cá o tempo dos negreiros e da escravatura: este pobre homem ficou para aqui ignorado pela história durante um século inteiro.

A ele, evidentemente, tive de contar.


- Não consegui nada. Bem argumentei, barafustei, mas aquele homem não ouve nada nem ninguém. Não te dá as férias.


- Obrigado, mê alfer, muito obrigado.


- Não tens nada que agradecer, não consegui convencê-lo.


- Ah, mas falou, mê alfer. Muito bom, mê alfer muito bom.


- Ora, Zacarias! Muito bom era humanizar, tornar tolerante aquele indivíduo. Assim, tudo isto é um nojo. Porcaria de vida!


- Não, não. Eu já bem, sastifêto, mê alfer. Preto habituado. Obrigado por falar, sim, mê alfer?


Não foi nada simulado. Ficou-me infinitamente grato apenas por eu me ter colocado ao lado dele, mesmo com um rotundo fracasso. Reconciliou-o com a iniquidade, connosco, deu-lhe força para mais um ano de óptimo trabalho forçado. Mais um ano de saudades. E Cabinda aqui mesmo ao lado!






St.ª Eulália, 13 de Agosto


Dera-me conta ontem, durante a tarde inteira, de que, de facto, o brigadeiro confabulara, às vezes com vozes alteradas, com o segundo-comandante, o tenente-Coronel Bizarro. Como aquilo é habitual, nem liguei. Calculámos que seria mais alguma questão polémica duma qualquer operação nova em curso de planeamento. O Magalhães, à noite, já me alertara para a anomalia:


- Eles berraram toda a tarde um com o outro. Aqui há gato. Mesmo quando montam operações (e neste momento não tenho notícia de nada) não é costume exaltarem-se assim. Foi demais.


- Que é que julgas então?


- Há barraca com alguém, vais ver. O Bizarro agora enfrenta-o. O brigadeiro tramou um gajo qualquer.


- És mesmo ave de mau agoiro! Pode perfeitamente não ser mais que uma questão de rotina.


- Tenho aqui um dedo que adivinha. Vamos ver quem tem razão.


E uma vez mais ele acertou. À tarde, após o trabalho, quando viemos ao bar que, aliás, cruzo habitualmente de passagem para o quarto, o tenente-coronel fez-nos companhia, como quem não quer a coisa. Depois de beberricar uma bebida qualquer, surpreendentemente calado, como quem matuta numa preocupação, desviou-se para a minha beira e murmurou:


- Alferes Costa, chegue aqui. Preciso de falar-lhe um minuto. Pode dispor? Não tem pressa?


Afastámo-nos dos demais para um canto retirado e sentámo-nos.


- O senhor vai mesmo participar do nosso brigadeiro?


- Não tenho alternativa. O que ele fez ao Zacarias é ilegal. É um abuso do poder descarado.


- Pois é. Eu gritei ontem a tarde toda com ele, vocês ouviram decerto muito bem. Mas aquele homem não há diabo que o demova quando se lhe mete uma coisa na cabeça.


- Está a ver. Conhece-o melhor que eu, não há saídas.


- Mas era disso que queria falar-lhe. Não faça a participação contra o Serrano. Não é por ele, é por si.


- Porquê?


- Ele vai fazê-la seguir e depois aquilo não dá nada, ninguém se atreve a opor-se-lhe nem querem mete-se em encrencas, ainda por cima por um reles cozinheiro preto. Está a perceber? O senhor é que fica à pega. Eles tramam-lhe a vida.


- Tramado já eu estou!


- Mas é pior, homem. Eles recambiam-no para o leste e ninguém mais lhe apanha o rasto. Há muitos que lá ficaram já com um tiro nas costas. Olhe que o estou a avisar como amigo. Fazem-lhe isso, entende? Pense a sério. Por um caso destes não vale a pena. Não vai servir ao Zacarias nem a ninguém. Morto, o senhor não presta para mais nada. A decisão é sua, claro, mas pense bem antes de tomar uma atitude.


- Ai isso é mesmo assim?! Está tudo podre! Então não há via nenhuma!


- É verdade, mas que havemos de fazer? Eu por mim também barafustei mas dele não há nada a esperar. E depois, olhe, o Zacarias está conformado, estes gajos aguentam tudo sem piar. Estão habituados, são uns pobres diabos! Não faça mais nada, o caso não o merece. Você arrisca demais. Ainda se é uma coisa em grande, que valha a pena, agora isto!


- Vou pensar, tenho de falar com os outros.


- Isso, fale. E olhe, digo-lhe mais. O que você queria, no fundo já o conseguiu. O Serrano ficou mais fulo que uma barata! Estragou-lhe o dia todo. Ele andou a ferver, foi a primeira vez que o vi sem conseguir trabalhar. Não parou a tarde inteira. E depois eu ainda lhe malhei em cima, está a ver. Toda a noite deve ter tido pesadelos. Com esta não contava mesmo! Fora de si. Foi a primeira vez que o vi descontrolado, num desvario. Isto já o senhor conseguiu, está a ver?


- Eu também perdi o trabalho e a noite, é justo que lhe tenha ocorrido o mesmo. Ele nem sequer me fala, nem olha para mim. Todo o dia fez de conta que nem me viu.


- Ah! Ah! Ah! Não me diga! - riu franco, finalmente descontraído. - Vê? Eu não lhe dizia? Você conseguiu tramá-lo! Isso é o que importa, o resto, não. Se você participa, vai perder tudo, que eles liquidam-no. Deixe a coisa como está, que já o lixou! Ah! Ah! Ah! Então o Serrano nem lhe fala! Acertou em cheio, homem!






St.ª Eulália, 13 de Agosto, 23h e 30m


Um serão divertido e sério ao mesmo tempo. Reproduzi ao Magalhães e ao Marques a conversa que tive com o segundo-comandante, para me darem a opinião. Ficaram chocados com aquilo, tanto que durante um grande bocado nenhum deles foi capaz duma palavra. Desta vez foi o Marques, o mais taciturno, que acabou por quebrar o silêncio, depois de se ter especado bruscamente no vaivém em que sempre o vejo entretido quando vou seroar ao quarto deles, ao principiar a ouvir o teor do diálogo que eu lhes estava comunicando. Terminei acentuando o risco de morte em que eu incorreria, caso participasse do brigadeiro no problema Zacarias-cozinheiro.


- Filhos da puta! - explodiu o Marques em resumo, após um minuto de estupor.


Não foi capaz de mais comentários. Mas ficou sentado, de carão fechado e punhos nos joelhos o tempo todo. Isto explicava melhor que um discurso o tufão que lhe zurzia dentro. Quase nunca o vira parado, conversava passarinhando sempre. Agora caiu-lhe a alma aos pés, quebrou-lhe o andar.


- Então que acham? Que devo fazer? - insisti, para abrir-lhes o mutismo.


- Nada, não fazes nada, evidentemente – retorquiu o Magalhães. - É um risco inútil. O Bizarro tem razão. Porra! Com quem um gajo anda metido!


- Não vale mesmo a pena?


- Tem lá conversa, pá! Com isso ias-lhes prestar um favor: davas-lhes o pretexto para te liquidarem e ficavam todos descansadinhos, era menos um para chateá-los. Nem penses!


- Se julgam que não compensa, tudo bem. Mas apetecia mesmo! Ninguém enfrenta estas bestas à solta! Oh! Que raiva!


- Cabrões do caraças! Nem para eles sabem ser bons! É preciso ser uma cavalgadura chapada para não ver que assim perdem o crédito por completo, cada vez mais. Ai, quando isto virar, não vai haver candeeiros que cheguem, não!


- O problema é que a gente esquece depressa. Eu já ando a duvidar se isto é correcto. A impunidade leva a proliferar o crime. E toda esta camarilha é de criminosos. Nem é por metáfora, são-no mesmo perante a lei que eles próprios promulgam. Só a elaboraram para atirar poeira aos olhos do mundo. O pior é que levam nisto muita gente, a maioria.


- Evidentemente. Controlam tudo. De estranhar era o contrário. Mas é maioria silenciosa também.


- Lá fora, no estrangeiro, não. E, apesar disto, internacionalmente o regime com esta podridão toda lá vai singrando. É um desespero! Quando veremos o fim do pesadelo?


- Um tiro pelas costas! Eu sabia era de majores e de coronéis que se conta que foram abatidos assim, quando fugiam acagaçados nas emboscadas. Agora esta modalidade pia mais fino. Estes bandalhos, não têm outro nome, já não lhes basta enfiarem um tipo numa enrascada destas, ainda por cima limpam-nos o sebo se lhes não caímos no goto! Isto está mesmo...

- Mas depois atribuem-nos uma medalha! - ri-me.


- Admira-te!


- É mesmo! Quantos daqueles condecorados a título póstumo não serão destes?! Tenho estado a pensar, depois daquela conversa. Uma perfeita camuflagem para os assassinos. Se calhar até vão eles pregar no peito dos órfãos ou viúvas o penduricalho. “Lá vamos, cantando e rindo, levados” e bem levados!


- Mas que canalhada! É bem capaz! Um dia qualquer alguém acaba por perder a cabeça e isto vai tudo raso!


Continuámos até acalmarmos um pouco. Aí o Marques ergueu-se e procurou na prateleira o maravilhoso maldito “Luuanda”.


- O Luandino Vieira está no Tarrafal. Eu sou amigo dele, falávamos muitas vezes – murmurou ele, magoado – quando eu estava a estudar no café. Toma lá para o leres. É um tipo mesmo bom, como pessoa e tudo. Leva-o.


- Oh, que maravilha! Há tanto tempo que o queria apanhar! Óptimo! Isto já me reconcilia mais com St.ª Eulália.


- Tem aí um conto que diz tudo. É uma maca de musseque, por causa dos ovos duma galinha. A dona diz: “Os ovos são meus porque a galinha é minha”. A vizinha responde: “São meus porque os pôs no meu quintal”. Chega a tropa e arruma tudo: “A galinha é nossa!” E vão fazer uma arrozada. Está tudo dito. Merda de farda que um gajo é obrigado a vestir. Filhos da puta!


Vim pressuroso deliciar-me com o Luandino Vieira. Com quem melhor conversaria, no meio de toda esta pouca-vergonha? Que pena não lhe poder contar a ele tudo isto, no isolamento do Tarrafal, para minorar-lho também!






St.ª Eulália, 15 de Agosto


Um dos nossos médicos é mestre de Karaté. Conseguiu desencantar umas instalações devolutas num pavilhão que transformámos num recinto de treino. Não temos tapete mas cimento. As paredes são também rebocadas com ele em vez de estuque. Andamos há duas semanas a aprender a cair neste chão e a treinar as sabradas contra estes muros duríssimos. É mais uma diversão que um desporto e menos ainda um treino de combate. Durante aquela hora das dezassete e trinta às dezoito e trinta ignoramos o resto, descontraímos e despejamos a agressividade esmurrando quatro paredes.


Não me tinha apercebido de quanto isto nos muda mesmo fisicamente. Estive convencido até hoje de que me mantinha tal e qual. Como acabámos de entrar nos primeiros treinos de combate, alguns colegas quiseram vir observar-nos, descrentes da eficácia do que andamos praticando. A grande surpresa principiou aí, quando o Magalhães, que sempre se rira da nossa carolice em andarmos a empatar o tempo com tal coisa, entrou porta dentro. Estávamos ainda nos exercicios de aquecimento.


- Mas então é para isso que aqui vêm? - ironizou ele.


Alguém teve a ideia de começar a executar quedas. E então todos nos exibimos em aparatosos e sonoros trambolhões em corpo inteiro no chão de cimento. Nunca me tinha apercebido da espectacularidade disto, tão compenetrado andei em aprender a técnica. O facto é que todos os visitantes ficaram aparvalhados e mudos, olhando-nos, enquanto executávamos quedas cada vez mais aparatosas e tonitruantes no cimento nu.


- Mas vocês não se aleijam? - acabou por perguntar, estupefacto, o Magalhães.


- Aleijar? Não. Olha! - respondi-lhe, divertido, deixando-me cair de costas a todo o comprido, à frente dele, com um estrondo colossal.


- Co'os diabos! Vocês treinaram bem! - esclamou, francamente espantado. - Como é que o conseguiram em tão pouco tempo?! É que isto é cimento, não é o tapete que os clubes usam!


- É como vês! Estavas a gozar, agora olha!


- Ó pá, parabéns! Nunca imaginei uma coisa destas!


Depois foi a nossa vez. O mestre pôs-nos a treinar, primeiro, o pontapé de costas na cara do adversário, em que o corpo principia num brusco rodopio em pião, terminando lançado em torpedo com todo o peso e violência contra o obstáculo. Todos sabemos que o doutor pesa mais de cem quilos e não esperávamos o que vimos. Com efeito, ao proceder às sucessivas demonstrações, ele escolheu como alvo a porta dupla de vaivém que temos à entrada do recinto. Executou o golpe uma série de vezes simulando o pontapé final junto ao meio da porta, parando quando ficava resvés com ela. Como nenhum de nós apanhava o jeito da complexa e rapidíssima sequência dos movimentos, ele acabou por executar o pontapé inteiro contra a meia porta da esquerda, apenas aflorando-a num ligeiro toque final. Por incrível que pareça, apesar de tão subtil contacto, a porta saltou dos gonzos e voou a direito pelos ares como impelida por uma bomba. O mais inacreditável, porém, é que um homem tão pesado como o doutor é, numa fracção de segundo endireitou-se, projectou-se para diante, segurou a porta a menos de meio metro do aro e estacou, dominando a situação, antes mesmo de o conseguirmos aperceber. Foi tudo um relâmpago tão instantâneo que perdemos a respiração.


- Isto muda mesmo o corpo numa arma! - ouvi ao meu lado. - Como é que aquele tipo fez uma coisa destas?!


Mas não acabou aqui. Depois foi a vez do mestre. Quando passámos ao treino de combate, ele veio simular-me golpes que eu teria de contra-atacar à sabrada. De repente, ele atira-me um ataque mortal, o pontapé no sexo. Simulei a sabrada de defesa apontada a partir-lhe a canela da perna. Talvez a gravidade do ataque me tenha levado ao excesso de defesa, não sei. A verdade é que parei a simulação da sabrada apenas quando lhe aflorei a perna. E então foi um grito de dor e a fuga ao pé coxinho, agarrado ao membro molestado.


- Eh, pá, treinaste mesmo o sabre! Tás um perigo! Se me davas a pancada completa o que era da minha perna?! Bolas!


Não me tinha apercebido de nada. Apenas no princípio, quando dava a pancada no cimento, era comedido porque me doía. Agora, não. Dou a sabrada com toda a violência e nada sinto, apenas a parede ecoa como percutida à marretada. Este pequeno degrau, afinal, é que transformou as minhas mãos em duas armas destruidoras de imprevista eficiência.


- Cuidado com este gajo! - comentou para os demais, meio a rir, meio a sério, depois de me ter mandado executar a sabrada no betão, para poder observá-la. - Se ele aplica em alguém um golpe destes, não há osso que aguente.


E, logo a seguir, para mim:


- Não te deste conta, não é? Pois olha que, se à partida tinhas uma potência de murro, digamos, de 40 ou 50 Kg, agora cada sabrada destas deve andar à volta dum impacto de 100kg. Com a concentração que opera numa superfície diminuta, calcula só o efeito de tal golpe num combate a sério!


E eis como arranjei uma arma de defesa pessoal sem ninguém ma ter dado nem ter de requisitá-la. Com a vantagem de jamais adivinharem sequer que a trago comigo. Parece que vivo condenado, aliás, a andar armado assim em todos os domínios e eu próprio me não dou conta, à primeira, de quanto para a desordem implantada isto é um perigo.






St.ª Eulália, 20 de Agosto


Hoje chegou-me um processo insólito contra um alferes duma das Companhias da Zona. A longa nota de culpa é clarificadora e desconcertante.


O alferes Hipólito é hipoteticamente acusado de colocar o respectivo pelotão em perigo extremo por irresponsabilidade, incúria ou incompetência. O caso é que não atinam com aquilo de que deverão incriminá-lo. E não admira, que eu próprio jamais deparei com situação paralela. Mas vamos a factos.


Em todas as operações, patrulhamentos e actividade combativa em geral ele tem comportamentos inesperados anorrmais que colocam tudo em grave risco. A título de exemplo, contam eles o que ocorreu durante o derradeiro reconhecimento em que a Companhia inteira andou envolvida. Tiveram de desbravar uma região da floresta em busca de trilhos de guerrilheiros e que se situava numa áreaa que ia duma picada percorrida pelos Unimogues e Jeepes até à margem dum rio que era suspeito de ser um santuário ignorado dum grupo da FNLA, para além de conter eventuais caminhos clandestinos de comunicação entre acampamentos rebeldes.


Durante a primeira parte da progressão do pelotão a corta-mato, o Hipólito bebeu toda a água do próprio cantil logo nos primeiros minutos da caminhada. Manifestava-se extremamente nervoso e descontrolado, falando alto a despropósito, queixando-se do calor e da sede intolerável, denunciando permanentemente a presença do pelotão a qualquer eventual inimigo que os pretendesse atacar. De nada valeu o sargento e os soldados insistirem para se calar, que a zona era perigosa e ignota, pelo que teriam de avançar em silêncio e muito atentos a qualquer vestígio ou sinal da guerrilha. Ele não conseguia dominar-se de forma alguma.


Num determinado ponto depararam com uma trilha disfarçada, com sinais evidentes de uso recente nas ervas pisadas e nos ramos e lianas desbastados. Decidiram montar um dispositivo para capturar algum eventual transeunte. Mal se espalharam escondidos ao correr da senda, logo o Hipólito desatou a reclamar mais água, pedindo o cantil do sargento. Bebeu-o todo dum trago, aflito, a escorrer suor. Mal acabou, resfolegando como com falta de ar, pediu os dos soldados mais próximos e, um atrás doutro, escoou seis deles e decerto continuaria, não fora o protesto dos demais de que assim ficariam todos sem água e então ninguém aguentaria. Só poderiam reabastecer-se quando chegassem ao rio que não ficava longe mas ninguém sabia se não estaria minado ou armadilhado ou com alguma emboscada a aguardá-los. Ele acatou as razões e manteve-se quieto no refúgio.


A respiração, entretanto, era-lhe cada vez mais cava e estridente, o suor ensopava-o da cabeça aos pés. Não havia forma de evitar que ele lhes denunciasse a emboscada a mais de cinquenta metros de distância. Estavam nisto quando, pelo carreiro adiante, apareceu um civil negro desarmado que conseguiram entrever ao longe. O sargento murmurou-lhe insistentemente que se controlasse para lhes não denunciar a presença e poderem capturá-lo. Em lugar disto, o Hipólito apontou a arma, meteu-lhe bala na câmara e ficou a seguir na mira os passos do recém-chegado. O sargento insistia que era um civil desarmado que tinham de apanhar à mão e sem ruído, para não serem ouvidos por eventuais guerrilheiros que manifestamente andariam ali por perto. Isto ainda desgovernou mais o alferes que desatou a tremer todo, esgazeado, cada vez com o fôlego mais congestionado, acabando por disparar a G3, ao que tudo indica fortuitamente. O negro, num pulo, sumiu, irremediável, pela mata dentro.


O pelotão levantou de imediato a emboscada, protestando veemente pelo risco mortal que doravante corriam, denunciados como ficavam perante qualquer grupo de guerrilha, em terreno que ignoravam mas familiar ao inimigo. Ainda por cima começava a faltar a água e o dia ainda não ia a meio. E tudo por culpa do Hipólito.


Aqui o alferes pediu perdão a todos, a chorar, e que lhe dessem os cantis vazios. Agarrou neles todos e desembestou, sem mais nem menos, numa corrida solitária em direcção ao rio. Os demais gritaram inutilmente que parasse, que era perigosíssimo, podia ser abatido imediataamente. O sargento mandou três dos melhores atiradores atrás dele para protegê-lo e tentar convencê-lo a regressar, para não agravar ainda mais os riscos que todos estavam correndo.


Quando chegaram à margem do rio, o Hipólito havia-se já despido e banhava-se em tronco nu no meio da correnteza, totalmente exposto, desarmado, a qualquer atirador que quisesse abatê-lo. Abandonara os cantis e a espingarda na margem. Os soldados gritaram-lhe que regressasse imediatamente, então não via que qualquer guerrilheiro o podia matar já? Aí o alferes ficou aterrado e correu para a margem a vestir-se e encher os cantis. Voltaram, felizmente, sãos e salvos.


Decidiram não completar a missão e retornar ao ponto de encontro por manifesta falta de condições para levarem a cabo o que quer que fosse com um mínimo de segurança e de utilidade.


Quem pôs as vidas dum pelotão inteiro nas mãos dum anormal? Quem anda tão cego que não reconhece nele um oficial inteiramente inimputável, irresponsável legalmente? Como é que brincam assim com a vida de tantas pessoas?






St.ª Eulália, 20 de Agosto, 23h e 30m


Contei ao Magalhães e ao Marques o que lera nos autos relativos ao Hipólito, o alferes anormal.


- Vocês nunca ouviram falar deste indivíduo? - perguntei-lhes.


- Ora, o Hipólito! Quem havia de ser?!


- O gajo está cada vez pior! Vão tramá-lo agora, vais ver.


- Donde é que o conhecem? - insisti.


- Ó pá, ele é doido, tem um parafuso a menos – comentou o Magalhães. - Há tempos passou aqui uma temporada.


- Um pobre diabo – meditou o Marques. - Tem lá culpa!


De repente começaram ambos a rir.


- Tu é que és o culpado! - e apontavam um para o outro.


- Não, é a mãezinha dele que nunca devia ter vindo ao mundo. A avó é que é a culpada – ironizava o Magalhães.


- Que diabo de conversa é essa? - interrompi.


- Olha, é simples – respondeu-me ele. - Como o tipo não é certo, a malta fartou-se de o gozar aí, enquanto cá permaneceu.


Voltaram à gargalhada.


- Diabo de coisa! Quem é que se lembrou daquilo? - perguntou o Marques.


- Sei lá, aconteceu – retorquiu o outro.


- Mas de que é que vocês estão a falar?! - havia antecedentes, afinal, e eu precisava deles.


- Duma barraca que houve com ele quando cá se aboletou.


- Lembras-te do gajo, todo gorduchinho, com as banhas a abanar, por ali fora? - e o Marques desatou outra vez à gargalhada.


- Cena do caraças! - e era agora secundado hilariantemente pelo Magalhães.


- Eh, pá, contem-me lá isso como deve ser, que já agora também me quero rir! - protestei contra as delongas.


- Bem, – principiou o Magalhães – se queres que te diga, eu já nem me lembro como aquilo começou, mas, olha, o tipo é anafado, todo menino da mamã e duma ingenuidade que até chateia, tás a topar o género?


- Eu só me lembro do médico a afirmar-lhe que ele ainda ia morrer do coração se não abatesse uma dúzia de quilos. E o gajo ficou para ali completamente alarmado, até gaguejava de susto!


- Então, quando a malta o viu feito palerma a engolir todas as galgas, pronto! Apareceram as dietas mais estúpidas que possas imaginar, até que alguém atirou que não senhor. O melhor para eliminar as banhas era correr em pelote ao nascer do sol. Tinha de apanhar os raios na pele, senão anularia o efeito. E a corrida faria o resto.


- Nunca acreditei que o gajo embarcasse numa coisa daquelas! - riu gostosamente o Marques.


- Não me digam! O homem andou...?! - pasmei.


Engasgaram-se com as risadas.


- Co'os diabos! Quando amanheceu já era aí um chavascal pelas esquinas, que nem queiras saber! O pessoal todo a espreitá-lo, a cochichar, a esconder-se. Que espectáculo!


- Eu quando olhei ali pela janela – comentou o Marques – só vi a cabeça do tipo por trás da rede da pista, todo apressado, numa de acelera. Ainda julguei que estivesse vestido ou em fato de banho, ao menos.


- Mas nem isso?! - duvidei.


- Pois o mais estúpido é que aquele animal foi correr a pista em cuecas! - explodiu à gargalhada novamente o Magalhães.


Foi a um retardado mental destes, armado bobo da Companhia sem mesmo dar por ela, que consideraram apto para todo o serviço, oficial atirador de infantaria, depositando-lhe nas mãos o destino dum pelotão de trinta homens, na zona de intervenção mais quente de Angola inteira. Se não fora pôr tantas vidas em risco, também isto era de rir às escâncaras. Alguém deve andar a gozar connosco! E com o País! Não é demais fazer pouco assim da gente?






St.ª Eulália, 21 de Agosto


O TenenteCoronel Bizarro convocou-me hoje, a propósito do auto levantado ao alferes Hipólito. Decidiram instaurar-lhe um processo disciplinar e ele foi nomeado o instrutor. Chamou-me para me pedir a colaboração enquanto licenciado em Direito. Quis o meu parecer quanto ao relatório da acção remetido pela Unidade do arguido.


- Meu tenente-coronel, eu nunca mandaria proceder disciplinarmente num caso destes. Quando muito, é motivo para averiguações, se houver ainda alguma dúvida quanto à personalidade do oficial em causa.


- É como fariam na Chefia de Justiça?


- Num caso destes, evidentemente. É tão flegrante o desequilíbrio que o que se justifica é confirmar pericialmente que estamos perante uma personalidade anómala. Isto faz-se através dum auto de averiguações. Só depois, se se não confirmar que ele é psicopata, então é que haverá motivo para lhe instaurar um processo disciplinar.


- Pronto! Vamos fazer como diz.


- Eu estou convencido de que, se queremos proceder equilibradamente, o que este homem tem é de ser afastado imediatamente das funções e responsabilidades que lhe cometeram para tratar doutras onde a anomalia comportamental dele não coloque terceiros em risco e onde possamos tirar algum proveito das demais competências que ele tiver.


- Mas temos de dar alguma resposta ao relatório da Unidade. Uma coisa daquelas não pode ficar assim, senão amanhã fingem-se para aí todos doidos.


- O auto de averiguações resolve a questão.


- Bom, mas julga realmente que o homem tem pancada?


- Psicologicamente não há dúvida de que é uma personalidade fortemente desviada do comum e altamente inadaptada, principalmente em momentos de tensão. Isso é do domínio público, aqui no aquarteelamento. Ele foi o bobo inconsciente de toda a gente, o meu tenente-coronel deve saber também do caso.


- Claro que sei. Aí os alferes fizeram do homem gato-sapato. Aquilo é um pobre diabo, claro. O problema é que não vai ser fácil convencer o nosso brigadeiro. Como é que isto deve ser feito? A gente tem que apertar com o homem, senão vão dizer que nos deixámos levar.


- O importante é confirmarmos no interrogatório se ele simula ou não aquele comportamento, de modo inequívoco. Envia-se depois a um exame psicológico e fica arrumado.


- Temos de lhe pregar umas rasteiras. O senhor é que vai ter de fazer isso, é o especialista de Direito que cá temos.


- É fácil, o homem é tão ingénuo que nem vale a pena preocuparmo-nos. Vai estender-se aí ao comprido sem precisarmos de nada. De qualquer modo estou ao dispor para o que for preciso.


- Eu vou requerê-lo bastante nos próximos dias. Se não arranjarmos maneira de convencer o Serrano, ele dá-lhe uma porrada e manda-o outra vez para o mato. O gajo ainda morre para lá e o pior é que vai levar atrás uma data doutros. Eu penso como o senhor, o tipo tem pancada, enfia-se num serviço onde não faça estrago e pronto. Agora o nosso brigadeiro cisma que não, que uma pessoa ou é doida varrida ou então é apta para todo o serviço, para ele não há meio termo. Então, se o não deram por louco, ainda por cima o tipo é oficial, até estudou e tudo, está feito! Vai para onde o mandarem e não há mais conversa. Está a compreender, não é verdade? Como é que uma pessoa vai agora dar tramenho a isto?


- Ora! A psicologia considera há muitos anos vários graus de anomalia, desde a fobia que não perturba a vida inteira da pessoa até à psicose que a altera completamente, desajustando-a em todas as situações. Isto é já do domínio público há décadas, que diabo!


- E como é que a gente vai enfiar uma coisa dessas na cabeça dele?


- Não temos nada que enfiar. Há peritos para estudarem o caso e emitirem parecer. Para que é que serve uma ala de psiquiatria no Hospital Militar? Não há lá só doidos. É também para tratar destes problemas, eles é que são os especialistas. Pede-se-lhes um relatório.


- O problema é que o Serrano não o vai deixar sair daqui, que é que julga? E para ele o parecer dos peritos, mesmo médicos, é tudo uma treta. São todos forjados. Ele não se convence.


- Mas a gente não pode deixar que um homem destes volte para o mato! É um perigo! Então vamos brincar assim com a vida dos outros todos? E com a dele também?


- Isso é que é o diabo! Amanhã vamos interrogar o homem. Depois veremos, está bem? Tenho de preparar-me para a luta. Mas vou fazê-la!






St.ª Eulália, 22 de Agosto


O interrogatório principiou por volta das dez da manhã e prolongou-se até à hora de almoço. Como prevíamos, o Hipólito é completamente destituído de defesas. Confessou tudo com a maior das ingenuidades, a tremer da cabeça aos pés como se enfrentasse um pelotão de fuzilamento. O suor caiu-lhe permanentemente pela cara abaixo como uma torneira aberta e, todavia, estamos com uma temperatura fresca.


Por mim, contava que o comportamento dele no interrogatório confirmasse a incapacidade de tomar consciência do que era ou não grave para ele em tudo quanto ocorrera. Não estava à espera do que veio a mais e foi tão excessivo. Primeiro, o descontrolo corporal. As tremuras eram tão disparatadas e incontroláveis que a princípio ele nem conseguia articular as palavras.


- Como te chamas? - principiei, propositadamente num registo familiar a ver se o ajudava a descontrair-se.


- Hip.. Hip... Ah! Hip... Hip...Eh!... Como? Como?


- O teu nome. Diz lá o teu nome completo – continuei, o mais anodinamente possível.


Aqui já ele perdera o lenço e escorria-lhe uma gota ignorada pelo queixo abaixo.


- Ah! Nome... Pois... Ah! Já me lembro!


Quando, ao fim de meia dúzia de minutos, finalmente foi viável um diálogo coerente, a farda ficara coberta de manchas de suor que alastravam a enorme velocidade, encharcando-o por inteiro. Este homem podia-se espremer, é uma esponja. Nunca víramos tal coisa! E era a reprodução ao vivo do que lhe ocorrera em plena operação na mata. Por muito bom actor que fosse, suar em bica desta maneira não fica propriamente ao alcance nem sequer dum génio do palco. Para o imenso corpanzil do Hipólito aquele intérmino destilar teria de provocar uma desidratação extrema em curtos minutos.


Quando o nosso tenente-coronel confirmava, incrédulo, os litros ingeridos durante a operação, introduzi um desvio no interrogatório.


- Mas diz que bebeu seis cantis de água de enfiada?! - inquiria o instrutor.


- Sim, meu tenente-coronel, bebi-os todos – redarguiu o alferes.


- Em quanto tempo? Onde é que o senhor conseguiu meter tanta água?! - insistia o outro.


- Não sei...


- Mas quanto tempo demorou isso? Foi ao correr do dia? Ou tudo aconteceu logo no princípio da operação, antes do almoço? Como é? Conte lá!


- Foi antes... no princípio... eu não sei, não...


- Logo ao iniciar a operação, é isso?


- Sim, senhor.


- Oh, co'os diabos! Mas este gajo tem estômago de camelo ou que raio é isto?! - explodiu, incontido, o Tenente-Coronel Bizarro, humoristicamente desnorteado.


- Mas tu agora não tens sede! - interrompi bruscamente.


- Tenho, tenho muita! - gemeu ele, com os olhos esbugalhados de desespero.


- Então e não pedes água?! - insisti.


- Não, não peço! Não peço! Não peço! - repetia, obsessivo, com o olhar desorbitado dum louco.


- Essa agora! Porque é que não pedes?! Água é o que mais há!


- Não, não! Não posso pedir água! - e olhava-me estarrecido, como se eu fora um fantasma.


- Não podes?! Quem é que disse isso?! Podes, sim senhor! Que disparate! Queres água?


- Sim, senhor.


Notara que desde há bocado ele enclavinhava as mãos na barriga e agora cruzava e descruzava as pernas nervosamente, com uma violência esquisita, cada vez mais depressa.


- Homem, não estás a precisar de ir à casa de banho? - perguntei-lhe de repente.


- Sim! Tou aflito!


- Então e não pedes para...?


- Não, não peço! Não peço! - agora resfolegava rumoroso, a respiração estrangulada.


- Corre já à casa de banho! Esta agora!


Mas ele ficou a olhar, interdito, o Tenente-Coronel Bizarro. Foi preciso este gritar-lhe:


- Aproveite, homem! Despache-se! De que é que está à espera!


Mal ele desapareceu, o instrutor não conteve mais a hilaridade:


- Ah! Ah! Ah! Ia ser bonito! O pivete que aqui ia ficar, mesmo ao lado do nosso brigadeiro! Já viu a cena? Ah! Ah! Ah! Um homenzarrão daquele tamanho todo mijado! Ah! Ah! Ah!


- Isto ultrapassa as marcas. Por mim não preciso de mais perguntas. Quem merecia um processo...


- ...É quem manda anormais destes para aqui, pois claro! Eu também não quero mais nada. Isto entra pelos olhos dentro. Mas vamos ter de escrever tudo, não?


- É tão flagrante que nem faz sentido! O nosso brigadeiro pode prescindir disso. É competência dele.


- Então ainda bem, que não me vou chatear com papéis. Quem vai ter de se ver comigo é o Serrano! Uma coisa destas! Ah! Ah! Ah!






St.ª Eulália, 23 de Agosto


A disputa no gabinete do Comandante prolongou-se ontem a tarde toda. O berreiro atroador do vozeirão do Tenente-Coronel Bizarro reboou pelo pavilhão durante a manhã inteira de hoje numa briga irada, com ambos continuando fechados naquele recanto. Ao almoço estiveram taciturnos e mudos, aparentando uma calma de tempestade contida. Pelo nosso lado, encenámos conversas de circunstância, mantendo-nos à margem do conflito, muito embora o desenlace para bastantes de nós não seja assim tão indiferente. Pela tarde fora trovejou interminável o mesmo furacão, alteando-se o berreiro a ponto de o ouvirmos em toda a área do Comando. Ao jantar, quem primeiro chegou foi o Tenente-Coronel Bizarro, manifestamente exausto.


O Brigadeiro Pedro Serrano chegaria bastante depois, já adiantada a hora do comer, com ar macilento e acabrunhado, a cara de pau mais refechada que nunca. Nenhum de nós sabia dos rumos nem resultado da contenda. Também jamais assistíramos a um confronto tão violento e interminável entre ambos.


- Está duro de roer, não? - perguntou um dos médicos ao segundo-comandante.


- Não dormi nada a noite passada e esta vai pelo mesmo caminho – respondeu este.


- Mas já acabou?


- Não, Dr., não acabou. Mas eu hei-de aguentar – retorquiu o tenente-coronel. - Desta vez não lhe vou ceder mesmo!


- Está difícil, então.


- Olhe, eu já ando a comprimidos, senão tinha quebrado – e virou-se para mim. - Tive de ir pedir apoio aos médicos, está a ver? Tiveram de me dar alguma coisa, sou capaz de ter de gramar não sei quantas noites em claro. Mas desta vez, pelo menos, não podem dizer que não tentei. Vocês ouviram bem todo o dia como a coisa está feia.


- Ele não cede, mesmo diante duma evidência tão flagrante como a da anormalidade do Hipólito?!


- Qual o quê! Aquilo é casmurro... Olhe, repare só há que tempos andamos nisto! E não lhe vejo o fim. Mas ele tem de acabar por ceder. Eu hei-de aguentar o que for preciso! Ó Dr., vocês têm de me ajudar, ouviu?


- Conte connosco, claro! - reiterou o médico.


A conversa quebrou-se à vinda do brigadeiro e durante a refeição ninguém mais tocou no caso. Fomos comentá-lo ao serão no quarto do Magalhães.


- Até que enfim que se engalfinharam os dois. A briga vai rija! - desabafou ele.


- Eh, pá, é a primeira vez que se quebrou a aliança de ambos! Já não era sem tempo! - admirou-se o Marques. - Aquilo pareciam o duplicado um do outro, até fazia impressão!


- É uma coisa de nada e até parece que a gente já respira melhor, não é? - reflecti. - Nós somos mesmo muito vulneráveis.


- Um gajo aqui apanha de todo o lado, não tem para onde se virar. Então com os crânios a agirem em bloco, aí, pronto, não há nenhuma alternativa. Ao menos agora alguém tomou a defesa daquele tipo – interveio o Magalhães.


- Não é um grande consolo, que aquilo é um caso gritante. Só em Portugal é que um gajo tão anormal chega à Universidade, é feito oficial e vem parar a um inferno destes. Estou convencido de que não deve haver no mundo muitos países onde tal coisa pudesse ocorrer – comentei.


- Pudera! Nós somos governados por atrasados mentais, que é que era de esperar? - alfinetou o Marques.


- Qualquer dia ele ainda chega a ministro, vais ver! - riu o Magalhães.


- Aposto que o Bizarro não vai virar o brigas – tornou o outro.


- Sim, só por milagre! Era a primeira vez que o comandante cedia. Vai acabar por pô-lo de cama. Ele já anda a comprimidos, vai-se abaixo das canelas e pronto. E o Hipílito volta para a mata que é um regalo! - e o Magalhães tornava às folhinhas, a desenhar bólidos de corridas, como sempre que se põe a pensar ou anda preocupado ou saturado.


- Eu não sei. Ele está muito determinado - contrariei.


- Ele quem? Aqui estão os dois. - questionou o Marques.


- Referia-me ao tenente-coronel.


- Piada, tinha. Era uma vitória. Arrancada a ferros, mas era – ponderou o Magalhães.


- A esta hora está tudo a falar disto aí pelo acampamento. Todos em suspenso do resultado. É melhor que um Benfica-Porto. É o de cá e, ao menos, mais autêntico que o outro.


- Porcaria de País! - regougou o Marques. - Até uma questão destas a encaramos como um jogo de futebol.


- Foi só um comentário, que diabo! - defendi-me. - Mas, mesmo sendo assim, ao menos agora está em causa a nossa vida e a do País e a maneira de as encarar. Não é a fuga, a distrair-se com a bola para não pensar na tibieza chata ou pior ainda de quanto vivemos.


- Oh, isto não era contigo, pá. Claro! Mas eu já tinha pensado que o desempate do confronto deles é capaz de interessar à maior parte apenas para ver quem ganha e não topam nada do que de importante está em causa nem querem saber disto para nada. É o que eu julgo que é grave. Quase apostava em como é mesmo assim.


- De qualquer maneira, nesta batalha, o brigadeiro está só. A claque é toda do Bizarro.


- É verdade. Mas não te iludas. Não é porque entendem a justiça do problema, é porque querem acalcanhar o brigas, mais nada. E, de qualquer maneira, o outro está mais connosco, é mais ligado à malta. É tudo uma questão de clubismo mais que outra coisa. Só tu é que estás todo do outro lado. Os restantes é antes por simpatia. Como ninguém pode ver o Serrano, pronto.


- Espera aí – atalhou o Magalhães. - Não vais negar, primeiro, que é importante que seja o gajo mais humano que vença; segundo, que é um bom critério, para a malta, fazer força ao lado dele e não do outro; terceiro que, se ele ganhar, é uma vitória contra um tipo de comando e de uso do poder que nos lixa aqui, mas que é o do País inteiro, porque é o dos ceguetas do regime, para não lhes chamar outra coisa; e, depois, também não vais decerto querer dizer que isto não é mais importante do que o caso em si do Hipólito. Neste sentido, o caso dele é apenas a gota de água que ajudou a extravasar o copo. É um aspecto típico das grandes viragens, há sempre um pequeno incidente donde salta a faísca que inaugura uma era nova.

- Pena é que a faísca aqui não vá mais longe que o caso Hipólito – ponderei.


- Sabe-se lá! - sonhou o Magalhães.


- Podia ser um começo. É sempre melhor que nada. Nem que apenas fique por cá – aderiu o Marques.


A nossa fome de porvir é tanta que a mais insignificante esperança nos ilude e alimenta a coragem de sonhar um amanhã. Mas que é que poderá um sonho?






VIII Parte


Vida e Poesia

Angola Religiosa




Angola

Vida Religiosa 1


Era Natal angolano quando desembarquei no porto de Luanda. Natal ensoleirado e chuvoso, atabafante. Não íntimo, como o europeu, antes de portas e janelas francas: um Natal aberto para o mundo.


Na Igreja da Conceição, a mais veneranda, o P. Esaú empreendera um rol de actividades preparatórias. Nas vésperas da festa haveria três depoimentos, para comentário livre, relativos ao sentido do Natal. Foi a primeira vez que falei em Luanda publicamente. No pátio da Imprensa Nacional haveria apenas uma centena de cristãos. Contei do choque que me abalara toda a minha primeira semana: o escândalo do mútuo alheamento entre a Luanda branca e a Luanda negra, a ratificar o abismal desnível económico-social que as divide. Mais tarde descobriria que tal era o escândalo de Angola inteira.


Enquanto o pároco da Conceição fora o P. Esaú, a liturgia daquela igreja era grandemente concorrida. Não era propriamente uma reacção de cristianismo adulto, mas uma procura instintiva de vida. A homilia era o polarizador em redor do qual tudo girava. Por vezes, em fim de semana, a igreja não abarcava a multidão. À volta duma liturgia atinente à vida real, um pequeno mundo de grupos de trabalho de todas as idades.


Os caçadores de heresias rastejavam, porém, de orelha engatilhada, pronta a matar à primeira. Como ela não havia meio de vir, lá foram deturpando, caluniando, insinuando. De tal modo minaram o terreno que o P. Esaú teve de voar até Paris! Já quase lhe não restava terra onde pousar os pés.


E veio um pároco velhinho cujo primeiro cuidado foi perguntar quanto rendia a paróquia por mês. O P. Fernando, jovem e sonhador, que dias depois andaria de igreja em igreja, anónimo, a sondar o culto e a participação, lamentaria, após ter passado pela da Conceição:


- Olhe que é de o arcebispo e toda a camarilha dele andarem de parabéns! É uma tristeza ir agora a uma missa daquelas. Estive lá no último sábado. Éramos uns seis, ao todo. E antes nem cabiam lá. Olhe que isto anda de todo! Conseguiram pôr a diocese completamente de rastos. Nada de válido para os homens pode vir agora duma igreja em tal estado.






Grilhetas Douradas


O mundo inteiro

Murmura admiração

Do incomparável civismo amordaçado dos povos”

- Confirmam jornais, rádio e televisão.


(E a gente a saber que o verdadeiro

É que o pássaro da vida não germina de ovos

Em putrefacção!)


Admirável a carne de sacrifício

Do camponês renitente

Que respira dança,

Cadinho impoluto de virtudes da raça!”


(Ofício de defuntos de quem por ofício

Mente,

Regando farta a pança

E à revolta fala do tempo-que-passa!)


É seguro,

Heróica juventude que se bate

No combate

De estrelas cadentes,

O renovo

Do futuro!”


Ninguém toca os sinos a rebate?!

Ninguém range os dentes?!

- Ah heróica covardia do meu povo!






Angola

Vida Religiosa 2


Os Cursos de Cristandade foram, nos primórdios, um motor de patente vitalidade, confirmam. Entronizaram-nos de tal modo, porém, que actualmente são o maior travão ao cultivo dum cristianismo fértil em Angola. Os melhores elementos desertaram-lhes das fileiras e formam grupos marginais ou dispersos, desiludidos.


Muitas vezes me encontrei com um destes grupos de amigos, em amena cavaqueira. Foram os bandeirantes do movimento em Luanda, dirigentes ou partícipes dos primeiros cursos agora praticamente à margem de tudo. Contaram muito dos primeiros tempos e do posterior degradamento.


- O que a Igreja aqui tem de pior é os Cursos mandarem em tudo – comentava um deles. - qualquer empreendimento a tentar na Igreja ou é dos Cursos ou é proibido. Ou então, pior ainda, é boicotado pelos próprios cursistas, eles não acreditam que algo de bom venha de fora dos Cursos. Se é cursista, é irmão; não o sendo, é do anti-Cristo.


- A grande falha é a pobreza mental – reflectia outro. - Ninguém estuda nada. E depois armam em doutores daquilo de que nada entendem. O pior é que os padres não ajudam muito, é uma cambada de ignorantes impenitentes. Fazem o curso e por mais que lá repitam que o fundamental é o trabalho posterior, não vale de nada. Andam para aí com um orgulho, um triunfalismo...


- Aquilo é missas, comunhões, confissões – ironizava um terceiro – liturgismo e mais liturgismo e muito pobrezinho, graças a Deus. Mas lá nisto ainda dão o que podem, não têm cabedal para mais. Quanto à caridade, é umas palmadinhas nas costas, umas cunhas metidas aqui ou além e pronto. Aquilo chega ao ponto de ser um rico expediente para agarrar bons tachos, arranjam por ali uns óptimos padrinhos. Mas não generalizemos. No fundo, é apenas uma grande penúria de espírito. Farisaísmo a mais e ninguém o irradica. É claro, quando não há vida sofrida na própria carne, a liturgia é formalismo, um espectáculo de mau teatro. Vivem-na magicamente, é tudo muito milagreiro...


- Ora, isso é que lhes mantém a consciência a dormir: cumprir brilhantemente um dever! É o que mais revolta. Em vez de contribuir para acordá-los, adormenta-os num eterno repouso. Requiescant in pace. Amen.


- No princípio a garra era outra. Também houve muita asneira, exageros, levados pelo entusiasmo. Mas ergueram-se marcos. Olhe, a casa dos retiros, no Morro da Luz, construímo-la nós. E éramos bem poucos! Oferecemo-la à diocese, toda a Igreja beneficiou com ela, não foi para a gente. Nos primeiros anos o movimento foi muito bom, serviu para despertar e deu um grande abanão. Agora era preciso outra coisa, andar para a frente e eles deixaram estagnar tudo. Mantêm alguma utilidade apenas para quem lá for. O ambiente fora já não é muito bom e na Igreja talvez estejam produzindo mais mal do que bem, a provocar cada vez mais incompatibilidades, espírito de capelinha, mesquinhez, orelhas moucas a quenquer que pretenda um bocadinho só de renovamento.






Discurso do Ditador ao Monumento a Si Próprio


Minha lei é esta:

Cristalizar estátuas,

Especar em monumento

As vidas fátuas

Da multidão em ludíbrio de festa

No funéreo momento

Que lhe resta.


Porque aboli o pensamento

E exijo o amor codificado,

Militarizado.


Meus generais, minha glória!

Sem vós, como imunizar a revolução,

Ossada jamais revolvida?

É preciso matar a vida

Para perfeição

Da vitória.


Que arte,

Juventude, é sacrificar-te

À tradição,

Cantando-te hinos e pavores

Iguais aos de teus maiores.


Tudo igual

Todos iguais,

Abolido o mal

Com tudo o mais.


Venerem a abismal raiz

De meu intento:

Talhar o País

Monumento!


À guerra! Que o monumento anda cativo

Da vida

Em demanda de porto!

General, a toda a brida

Fabrica de cada homem vivo

Um herói morto!”






Angola

Vida Religiosa 3


Na minha primeira Quaresma em Luanda, convidou-me um dia o P. Esaú para uma reunião nocturna na Igreja da Conceição. Apresentou-me um grupo de casais e alguns outros convidados. Viriam a tornar-se-me os melhores amigos de Angola. A ideia do P. Esaú era apenas ter uma roda de leigos para reflectir e preparar homilias dominicais, programas radiofónicos e artigos de jornal, durante aquele período litúrgico, com elementos recolhidos da vida comunitária através dum grupo a partir dela formado.


Foi a Quaresma da alegria. O que mais feria todos os leigos era o habitual clima acabrunhador daqueles dias, invocado até ao masoquismo, de qualquer maneira incônscio de qualquer valor positivo e, portanto, desacreditado. Auto-punição não é cristianismo. Daí que todos votaram pela explicitação da alegria, presente em forma de esperança no tempo penitencial. Dor é alegria de amar, Paixão actual é actual confiar em Ressurreição vindoura, portanto, presença já actuante desta atraindo a comunhão final.


Tudo dito à ligeira, em linguagem de cotio, ilustrado com factos reveladores, até humorísticos. Uma onda afluíra às liturgias dominicais, a abarrotar. E havia debate, semana além, da problemática apontada, cidade fora.


Os caçadores de heresias regougaram à eminentíssima orelha arquiepiscopal que o P. Esaú era um hereje porque andava a dar cabo do sacrifício. Era preciso metê-lo na ordem, que era a vergonha da classe. Desacreditava os outros. Lá teve ele de ir prestar sucessivas declarações. Entretanto, os tópicos da homilias eram distribuídos de véspera ao arcebispo e demais celebrantes da paróquia. Não bastaria, porém.


Foi por aquele período que mais um revés adviria ao pequeno resto dos animadores da comunidade crente. O jornal “O Comércio” editava uma página dominical de comentário cristão da vida. Era organizada pela “Equipa Convergência”, um pequeno grupo leigo que também fora criado pelo P. Esaú e trabalhava agora em plena autonomia. Premeditáramos congregar esforços e programar a página durante aquele período em concordância com a linha dos outros trabalhos. Pois bem, publicaram então uma pequena recolha relativa a Teilhard de Chardin. Ora, o bispo de Carmona, o inteligente lá da alta hierarquia, calhou de ler aquilo e atirou logo com atentados à ortodoxia e pendores perigosos. E, como noutras páginas se dera conta, em textos antológicos, de autores menos gratos a quem morre de pavor perante a vida, logo uma pléiade de súbditos leais aos Príncipes da Igreja acorreu a prestar-lhes fiel vassalagem, trejurando rechaçar o inimigo infiltrado nas fronteiras feudais a gritos de Nosso Senhor Jesus Cristo. E transferiram a página para outra gente, com orientação menos de culto a Cristo que à autoridade e que, conforme o hábito, levaria a crer que Deus tem de obedecer intransigentemente ao Papa sob pena de excomunhão. Ora, como a página se tornara um mamarracho integrista de atroz vacuidade, morreria pouco depois de inanição. E nada pôde substituí-la, numa comunidade cada dia mais famélica de sentidos para a vida.


Alguns membros da equipa destruída junter-se-nos-iam, porém, no trabalho que empreendêramos. Um ilhéu de persistência a lutar contra o naufrágio geral.






Sacrifício aos Deuses


É preciso defender a língua-mãe,

Adorar a língua-mãe,

Exportar a língua-mãe...”


- É inadiável expatriar a língua-mãe!


Quanto mais emigrantes, mais prestígio

Se falam língua-mãe.”


- Subversão é língua de eles não terem vintém!


Até no País dos Papuas – oh, prodígio! -

Há fósseis de língua-mãe!

Língua-mãe acima de tudo!”


- E qualquer filho da mãe

Joga o entrudo

Com o pedro-sem.


Língua-mãe, te deam adoramus!”

- E ajoelham com fausto

No nova ermida.


Na hora do holocausto

Nós é que damos

A vida!






Angola

Vida Religiosa 4


A meio do ano, em jantar de família, alguém proclamou:


- Vem aí o P. Veiga!


- Quem é?


- Era dos Cursos, um dos melhores, e foi estudar para a Espanha. Agora vem cá uns quinze dias dar umas palestras e vai falar nas ultreias. Vai dar muita luta.


Ouvi-o na Igreja da Conceição: a diaconia do ministério eclesiástico. Bem fundamentado, demasiado teórico para o nível actual do católico luandense. Aberto o debate, ninguém abarcara o fulcro da problemática. Um pouco de incomodidade e logo um ataque frontal:


- Creio que não compreendi bem o problema da autoridade. Julgo que quando um leigo quer duma maneira e o Papa doutra, um leigo nunca pode ir contra ou então fica fora da Igreja. Pareceu-me que defendeu o contrário... ou entendi mal?


- Ter em conta – resmungou outro – o querer da comunidade?! A Igreja não é uma democracia! - era a transcrição duma nótula de jornal relativa a um discurso ocasional do Papa, dias atrás, sacralização do hierarca, tornado novo oráculo.


O debate não ia além disto. A caquética mentalidade conformista, não-te-rales, torcia-se pelos bancos. Que desaforo este de lhes pretenderem provar que não tinham nenhuma salvação eterna garantida! E que eram responsáveis por tudo, como qualquer hierarca. Um ataque à autoridade é que aquilo era!


Mudámos, porém, de temática. Delineámos vagamente um plano de trabalho comunitário. Alguém interveio com um dado inesperado:


- Falei há dias com o arcebispo e ele contou-me que afinal o nomearam para ir representar Angola no próximo Sínodo Episcopal de Roma, em Outubro, e que não sabia o que é que havia de dizer lá. Não tinha elementos nenhuns.


- Porque não fazemos o ponto da Igreja em Angola aqui na paróquia, recolhemos dados, reflectimos neles e damos ao Snr. Arcebispo uma recolha final de tudo? Era um bom elemento para ele não ir para Roma de mãos a abanar. E, de qualquer modo, começaríamos a encarar a sério a função do leigo na Igreja, a darmos o corpo ao manifesto para acordar a comunidade do letargo.


A única dúvida então esboçada foi o incomensurável alheamento, agora ratificado por todos, em que vivíamos relativamente à vida da Igreja universal e local e que era um muro praticamente intransponível. Poderíamos antes, a abrir, empreender encontros para informar-nos e actualizar-nos, tanto acerca de factos vitais como da teologia renovadora de linha conciliar. Não deliberámos por onde arrancar; ficaria a questão de pé.


Alguns dias depois, a dúvida era quebrada. Em reunião convocada pelo P. Esaú, ouvimos uma carta do arcebispo a proibir terminantemente qualquer actividade provinda do colóquio do P. Veiga. Ainda ignorávamos o que faríamos e já tudo era cortado. E em particular qualquer debate relativo à Igreja em Angola. Isto, portanto, teria logo de eliminar-se. Restava a outra linha. Marcámos audiência, levando um plano elaborado, e fomos autorizados a realizá-lo. Pedimos representantes do arcebispo nas sessões de estudo, para evitar intermediários de má fé. E pedimos contactos directos entre nós e ele para evitar mal-entendidos.


O plano era apenas um conjunto de sessões de aprofundamento de temas conciliares, abrindo cada uma por uma visão panorâmica da matéria, continuada em debates por pequenos grupos.


Logo brotaram reuniões à margem, conluios para derrubar o anti-Cristo. Em várias frentes. “Aquilo é diabólico!” - proclamou um padre numa aula de teologia. Atoardas e calúnias correram. E, claro, viera logo a heresia, triunfal. Pois não tínhamos lido que viver em graça era viver para os outros, parafraseando Hans Küng? Ora isto era claramente herético porque não era o que rezava o catecismo nem a teologia seminarístico-escolástica. Tinham de desmascarar-nos. E, por Luanda além, eu, por exemplo, era já um ex-seminarista expulso do seminário por indisciplina ou imoralidade. Era até angolano e tudo. E depois era praticamente criminoso, com muitas histórias obscuras. E, no fundo, o que pretendíamos todos era atirar abaixo o Papa! E, além do mais, houve quem, mais honestamente, veio avisar o grupo promotor do tremendo risco que era revelar aos fiéis que havia várias teologias. Íamos baralhar tudo, porque ele compreendia, mas a generalidade iria confundir teologia com Fé e era um problema. Por mim, limitei-me a responder:

- Já encontrou aqui alguém com tais problemas? Repare neles todos, descobre alguém confundido? Creio que aqui há apenas um homem a temer a baralhada...


Tentaram boicotar as reuniões. Na fase da discussão por grupos, houve apenas um destruído por inteiro pelos fanáticos da Igreja morta. Nos outros, se houve elementos programados para tal, acabaram, dum modo ou doutro, num esforço de boa vontade, por adoptar atitudes construtivas. Ao segundo colóquio, já se haviam esgotado todos os exemplares de documentos do Concílio à venda em Luanda. Finalmente, noutra sessão, com os dois representantes do arcebispo, elos entre ele e nós, presentes, veio inopinadamente um terceiro padre com ordem dele para intervir. Nada nos fora comunicado; era, porém, indubitável: exibia as próprias cartas que trocáramos com o arcebispo. Ora ele era o padre que mais nos atacara por trás em reuniões e incitamentos. Senti-me francamente traído e duvidei, pela primeira vez, da honestidade do hierarca. Tal interventor vinha repor a ortodoxia onde nós éramos heréticos, como bom arauto das múmias escolásticas. Eu, porém, previra o golpe e prevenira-o. Como lhe antecipara e desarmara a palavra, só lhe restou dar uma opinião. E deu-a desastradamente, insinuando política, condenando a linha dos trabalhos, afirmando que, afinal, a teologia não importava para nada porque a mãe dele, que era analfabeta, lhe ensinara tudo quando ele tinha seia anos de idade e nada de fundamental aprendera a mais pela vida fora. E era realmente irrefutável, víamo-lo ali: um orgulhoso ignorante. Foi um borborinho, os participantes caíram-lhe em cima, em grande berreiro, e ele bateu em retirada, confundido.


Pouco depois enviar-me-iam para a região Quibaxe-Terreiro: a “Operação Robusta”. Não voltaria antes de tudo ter terminado. A campanha deletéria continuaria, porém, até ao ponto de o arcebispo, no derradeiro dia, enviar uma carta, lida aos participantes, em que se desvinculava do empreendimento. Era uma condenação prática de tudo e, portanto, deram por findos os trabalhos. É terminantemente proibido falar do Concílio Vaticano II em Angola.






Sequelas


Exploração

Expele oração.

Eis – pló! - ração.

Ex-ploração

Explora acção!


Exploradores

Explora-dores

Explorado: rês!






Angola

Vida Religiosa 5


Rodeia o arcebispo uma auréola de notáveis, a principiar num doutor da Gregoriana de Roma, demasiado preocupado em fugir a heresias para permitir que a vida lhe borbote no caminho. O homem de melhores qualidades humanas e mais informado era o D. Abade, monge idoso, um espírito benevolente, capaz de verdadeiro diálogo, apto a compreender e encorajar qualquer opção válida, mesmo não partilhando dela. A prova viva de que a formação tradicional não é, realmente, a escabrosa deformação dela que nos sufoca por todos os lados.


Há, por fim, os meninos-bem. Consta que há muitos. Eu esbaarrei apenas contra dois. Trabalham por vias travessas, atacam pelas costas, é um problema detectá-los. Os ratos da igreja. Um deles, com provas públicas de estupidez, como vimos atrás, capitão camuflado de padre, quanto mais ignorante mais fanático e, portanto, com futuro prometedor na carreira: já vai na Chefia do Serviço Religioso! O outro era um amador de música religiosa que me deliciaria com novidades maravilhosas e algumas aguardentes, muito amigo pela frente e que, por trás, esgotaria a meu respeito o reportório de todas as alimárias do planeta. Até ao ponto de me obrigar a convencer de que ele era realmente um homem de várias caras, opinião partilhada anteriormente à minha decepção por muitos que com ele haviam lidado. Como era dobrável, armaram-no em mestre de teologia.


Finalmente, o bispo Eduardo Muaca, o primeiro bispo negro do século no país da multirracialidade, quando África inteira anda já semeada deles. Creio, porém, que é o melhor bispo da Angola actual, o mais informado intelectualmente, mentalidade contemporânea, trato chão, atento, fronteiro à vida concreta, alheio ao espírito de capelinha e a lutas mesquinhas. É, porém, apenas bispo auxiliar. E, além do mais, ainda com restrições, como veremos.






Hidra


Hidro-eléctrica, hidra eléctrica,

Monstro de quanta cabeça,

Alongada fita métrica

De vidas liquefeitas sem que ninguém lho impeça!


Multinacional hidra eléctrica...

Do húmus esventrado o abutre não mangue:

Ceia de angústias pela noite tétrica,

- Espremei as hidras e vereis meu sangue!


Multímoda e tentacular hidra eléctrica...

Ai povo morto de fome, soldado mais morto de guerra!

De teu ventre, a hidra, perversão geométrica,

Quanto mais tu morres, maior lucro desenterra.






Angola

Vida Religiosa 6


Um dia o capitão-padre converteu os Cursos de Vida Apostólica em cursos de vida à pistola! Cristianismo a tiro! Um golpe de estado militar na fé. Contaram-me, no meio da hilaridade:


- Chegou lá, demitiu a direcção inteira. Tudo para a rua! Agora só ele é que manda. E tudo o que for feito há-de ser com ordem dele. E berrou uma discursata. É pena não ter gravador. Nunca ouvi tanta asneira! Valia a pena.


- Conta lá – pedi, divertido.


- Ó pá, o gajo viu que havia malta que não alinhava lá nas burrices dele. De maneira que, olha, desatou para ali a asnear que havia lá elementos subversivos infiltrados e que andavam a virar a cabeça a toda a gente. E que ele teria de os desmascarar. Enquanto ele ali estivesse não haviam de vingar. E que a direcção andava a deixar-se manobrar, era tudo muito verde. Mas agora mandaria ele e queria ver! Só irá aos futuros cursos quem ele permitir, vai vigiar tudo. O cúmulo foi quando desatou a enumerar todas as condecorações que tem e os trabalhos dele como capelão. E que é capitão, nomeado para o cargo por proposta do Governador-Geral, ratificada pelo ministro. Quando falou das medalhas alguém perguntou lá atrás: “Os turras também já o condecoraram?”, porque o gajo é um turra, pá. Ah! E depois atirou esta: “Se as autoridades aqui me puseram foi para dormirem descansadas e enquanto eu aqui estiver hão-de dormir descansadas!” Depois disto, pá... - e encolheu os ombros, irónico.


Para mais, ratificado pelo arcebispo que dá rédea larga a tais favoritos, tornados olhos e ouvidos episcopais!






Velhos Papéis


Levais o ideal cativo nos olhos,

Jovens segréis,

Escudam-vos as costas velhos zarolhos

Com papéis.


Precisareis

De espelhos do dia?

Deles aqui discursa, intimam velhos, a fotografia

Dos papéis.


Ai, jogral cantor da guerra,

Que silêncio engole a terra?


Queira Deus, ao grito da bala

Luares mortos não tombeis,

Que aos velhos fantasma de lume não abala,

Logo o amortalham de papéis.


Enquanto solitário jogas a vida,

Soletrando amores de luto no capim,

Recusam-te os velhos guarida,

Jovem dos meandros entre o não e o sim.


Podre de egoísmos e bolor, frio de arsénico,

De papéis te monta guarda

Dos velhos o grupo cénico,

Escudo

De rectaguarda,

Cauda que arrastas de cadáver mudo.


Ai, jogral cantor da guerra,

O silêncio dos mortos a gelar a terra!






Angola

Vida Religiosa 7


- Olha, hoje tive de aturar outra vez o patrão – desabafou uma tarde o P. Esaú.

- Porquê?


- As aulas de teologia. Que eu ando a dar autores heréticos. Só para ver o nível, a meio da entrevista, escapou-se-lhe esta: “Esse autor inglês muito célebre, como é? O que morreu numa prisão dos nazis? Bönhöffer!” Confundiu-o com o Robinson. Vá lá que já sabia que o outro morrera na prisão. Uma desactualização completa.


E eis como um bispo ignorante promove a Igreja: plena liberdade aos cretinos, trela curta aos que não transigem com iludir os crentes.


A desvergonha atinge extremos de verdadeiro ridículo. Num debate violento em que um padre anatematizara os leigos que liam teólogos que “andam pela borda da Igreja, prestes a precipitar-se no abismo”, alguém contra-atacou perguntando:


- Não compreendo bem. Se aqueles teólogos são tão perigosos como é que estão todos à venda na livraria católica, no Paço?


Em primeiro lugar, os tais teólogos pré-heréticos eram na quase totalidade peritos conciliares, iam de Congar, Liégé e Lubac a Schillebeckx e Gonzáles-Ruiz. E eis agora o melhor: ficando desarmados perante aquele argumento, correram à livraria e retiraram todos os livros renovadores em escaparate! Ficaria à venda ainda muita história infantil para adultos, mística lacrimejante e catrapácios medievais bolorentos e intragáveis, até para eles próprios.


Recordo que o P. Esaú me pediu um dia para orientar o trabalho final de teologia duma aluna do segundo ano: “Teologia da morte de Deus”. Dada a falta de tempo e a curta informação da aluna, tentei dar-lhe uma visão panorâmica do problema, no plano das opções de base dos teólogos deste ramo. Ou porque fui muito infeliz na linguagem, ou porque não me enquadrei na mentalidade da aluna, o facto é que ela, meio rindo, meio séria, declarou que ficara por completo baralhada com aquilo, não compreendia nada agora. Dei-lhe então um esquema genérico de trabalho e leitura facilmente preenchível. E nunca mais pensaria naquilo, não fora um telefonema angustiado do P. Esaú, alguns dias depois.


- Desculpe, mas estou aqui atrapalhado. O arcebispo mandou-me uma carta por causa das aulas de teologia da morte de Deus. Diz que tem conhecimento de que as minhas aulas criaram problemas de fé e que em vez de terem uma função pastoral construtiva estão a colaborar na onda de ateísmo. E manda-me responder por escrito: “Porque é que dou autores não aprovados pela Igreja, como é que orientei as aulas e resolvi as dúvidas dos alunos e que posições tomei nesta questão.” Agora não sei como hei-de responder-lhe. Já tenho aqui rabiscada uma resposta mas tenho medo. É capaz de me dar uma ajuda?


E lá planeámos em conjunto a resposta às questões. Era, porém, com mentalidadde prosélita que pretendiam impor um curso superior. Combinei ir à turma dar em duas aulas um panorama de conjunto deste pendor teológico e pôr claramente a questão dos problemas de fé porventura provocados. Ninguém os teve, mostraram-se mesmo admirados com aquilo. Os crentes continuavam de igual modo; os descrentes, idem. Ficavam informados e apenas os preocupava a extrema ignorância da matéria e o que ela lhes exigiria de trabalho para a dominarem.


Quer dizer: fora um comentário esporádico, meio rindo, da aluna que investigava aquela matéria que, subindo a escalão superior, ignoro por que via, fora pretexto para mais uma perseguiçãozinha.






Não Queres?


Para sairmos ilesos

Da emboscada ferida,

Coesos

E nenhuma cabeça erguida!”


E nós a vermos a batota

De cortar cabeças

A iludir pressas

De derrota.


E o agoniado pretexto

De confundir união

Com o rançoso do texto

De abafar o coração.


E a utilidade da luta

Para o calcanhar do poder

Impunemente esmoer

O crânio de quem labuta.


E o talhar a flor campestre

Em molduras marciais.

E os cidadãos, animais

Com domador que os amestre.


A derrota, erva daninha,

Nas insónias lenta medra...

Adivinha

O cansaço dos poderes.


Coesos?! Ah, que vontade de ser pedra!

Tu não queres?






Angola

Vida Religiosa 8


Pouco após minha expulsão para os Dembos, a irmã Pierre Antoine era retirada de Luanda para os confins do planalto central. Com um curso de teologia tirado com os peritos conciliares franceses, era, evidentemente, um elemento muito perigoso. A pouca-vergonha que não era agora andar aquela degenerada para ali a pregar que a Igreja cristã de Luanda se tinha de tornar igreja e se tinha de tornar cristã! Já viram o que não era se os fiéis descobriam agora que aquilo não era igreja nenhuma e que de cristã nada tinha?! Um forrobodó dos diabos! O mais seguro era, diplomaticamente, mandá-la fazer festinhas aos pretinhos porque eles, coitadinhos, andam muito atrasadinhos...

Lá foi para o mato. O pior é que ela não melhorou do juízo e falou aos tais pretinhos dum Cristo que preferia a tudo os expoliados. E eles gostaram. Então alguém julgou melhor devolvê-la à origem, clandestinamente. Proibiram qualquer despedida.


O Irmã Pierre Antoine encontrar-se-ia em Paris com o P. Esaú, em vésperas do casamento dele. Comunicou que embarcaria em breve para o Gabão. Fim da depuração duma estrangeira que pretendera defrontar-se com a defesa intransigente da “civilização cristã e ocidental”.


O P. Esaú abandonara Angola meio ano antes, desiludido. Tinham-no arrastado ao extremo da resistência, quase já nem falava ao arcebispo. Quando organizámos as sessões de teologia do Vaticano II, a PIDE entrou na arena. Obrigaram-no a ir à sede, por convocatória, umas cinco vezes. Não o recebiam mas obrigavam-no a esperar (e a perder) horas e mais horas. Por fim impacientou-se e declarou que não voltaria lá mais, que, querendo eles falar, sabiam perfeitamente onde ele estava. Então um agente, contou-me ele, segredou-lhe:


- Olhe, nós não temos nada a ver com isto, nem lhe queremos nada. O arcebispo é que nos não larga a porta para a gente o chatear. Foi para nos vermos livres dele que o mandámos cá vir. De resto, não é nada connosco.


Verdade? Mentira? Quem poderá deslindar a trama da habilidosa confusão dos poderes?


Já embarcado no alto mar, entregam-lhe um telegrama do Governo-Geral: “Votos de felicidades e boa viagem”.


Um amigo do P. Esaú atrairia à Igreja da Sagrada Família o rebanho disperso. Era o P. Fernando. Mais verde, mais novo; idêntico amor à vida concreta, nele ainda mais crua. Aguentaria pouco tempo. A mesma técnica da atoarda a oprimi-lo, chamadas ao arcebispo, crítica demolidora e o P. Fernando cairia pouco depois. Pedira a Roma uma suspensão temporária das obrigações presbiteriais. Deferido. Veio para o meio do mundo tentar compreender o que realmente andava mal.


Conversaríamos largamente. Concluíra logo que, em Angola, com o episcopado actual, nada haveria a fazer: era uma igreja escandalosamente pagã, uma organização totalitária para alienar os homens. Procuraria ir a Paris tirar um curso a sério e tentaria encontrar depois um bispo com quem trabalhar em verdade, longe de medievais conluios politiqueiros.


A miséria religiosa de Angola, cada dia mais aflitiva, agravar-se-ia com o encerramento da missão da Xamavera, dos “Petits Frères”, no Cubango. Foi num encontro de amigos que me informaram. Todos os elementos foram corridos de Angola. Os bochimanes ficariam condenados ao extermínio, roubaram-lhes as últimas testemunhas que o crime temia. A história dos derradeiros episódios era um tanto complicada e muito misteriosa. Corria que um grupo de turras os viera ameaçar e lhes dera um prazo para retirarem. Os irmãozinhos confirmaram que um grupo armado entrara na missão. Agora não acreditaram é que eram turras.A divergência entre eles e as autoridades públicas já vinha de longe. E como poderia atingi-los um grupo terrorista sem ninguém ter dado por eles e partirem de novo em completa tranquilidade? Nem um rasto! Aqui andava marosca. Murmuravam em Luanda que a DGS simulara o ataque para justificar a intervenção por motivos de segurança. Os “Petits Frères” partiram infinitamente revoltados. Não concordaram de modo nenhum com a decisão. Alguém pretendia matá-los? Ficariam para morrer. Ninguém lhes dera, porém, ouvidos. Escreveram uma carta magoada ao bispo, lida ao meu grupo de amigos e todos lamentaram a brandura dela. Alguém comentou que os próprios Irmãozinhos a lamentavam mas temiam represálias mais graves ainda contra os membros portugueses da fraternidade. Da amargura da carta recordo um ponto que me feriu. O bispo, meses atrás, em público, comentara o trabalho da missão dos bochimanes: “É um verdadeiro milagre o que os Irmãozinhos ali fizeram”. Agora, em carta ao Governo-Geral: “O encerramento da missão não tem qualquer importância pastoral na vida da diocese”!






Libertadores


Libertadores,

Não

Acreditamos

No malogro.


Embarcamos

Na estúrdia das palavras. Então

Descobrimos o logro:

- Armaram-nos liberta-dores!






Angola

Vida Religiosa 9


A dado momento, viera um capelão aviador, como um leigo qualquer, a uma reunião de grupo e dera uma colaboração tão valiosa que o convidaram para animador. Identificado como padre, logo lhe pediram para prestar assistência ao conjunto de amigos que formáramos a partir do trabalho com o P. Esaú. O P. Tavares frequentaria regularmente os encontros periódicos que empreendemos.


Alguns meses depois, o P. Tavares pediria a recondução ao estado laical. Casaria com uma antiga dirigente da JUCF, minha contemporânea, membro do grupo. Uma família germinada a enfrentar a vida, responsável pelo mundo. Sem traumatismos nem rebeliões, pacificamente equilibrada: nem saída de recurso nem compensação. Tudo simples, como quanto é autêntico.


Entretanto corriam atoardas relativas ao P. Esaú. Casara, iria casar, já não era padre, era padre contestatário, era hereje... Uma formidável campanha para denegri-lo fermentando no sector emburguesado da Igreja, a todos os escalões. Regularmente, porém, ele ia escrevendo de Paris para minha casa. Quando, finalmente, informou do casamento já a beataria atingira o paroxismo da calúnia e do ridículo: agora o P. Esaú já dera apoio ao terrorismo, até ia falar à ONU contra o Ultramar e, finalmente, empenhara a Igreja “contra nós”, pondo-a ao lado da subversão com as propagandas dele. Que homem mau, hein?!






O Meu General

Integridade marginal da nação,

Juventude generosa na frente de covardes, quanto

De teu sangue é pão!

- E o meu general com cara de santo!


Um , dois, mata, morre, esquerdo, direito...

Branco é o rio bom, preto é o grito mau.

Morre o soluço dos astros ceifados a eito!

- E o meu general com cara de pau!


Corre, soldado! Ao ataque!

O capital precipita a peso de ouro cada murro.

Cada nota, cada baque.

- E o meu general com cara de burro...


Soldado tombado! Ei! Louros fresquinhos!

Rosnam os cães, disputam ração,

- “É teu! Não, é meu!” -

- E tu, general, com cara de cão!






Angola

Vida Religiosa 10


O terror da teologia conciliar vimo-lo um pouco por todo o lado. Havia um curso de formação religiosa organizado fundamentalmente para os leigos que viriam a dar aulas de Religião e Moral nos estabelecimentos públicos de ensino. Vários alunos me procuraram ao correr do tempo para lhes dar uma orientação qualquer porque não entravam nos apontamentos. E verdadeiramente era de não entrar: escolástica gelada, terminologia medieval e com a filosofia implicada escrupulosamente alheia a qualquer recolha da cultura moderna. Com apetrechamento caduco, em linguagem caduca, que poderia resultar dos cadernos de apontamentos senão esoterismo e uma religião de mistérios, manipulada magicamente apenas pelos iniciados – os padres, falando em línguas intraduzíveis contra a ordem de S. Paulo? E os pobres alunos, pretendendo iniciar-se, descobriam a inumanidade da tarefa de roubar o fogo aos deuses.


Com tal escola, onde parariam as aulas futuras destes alunos? Tinha um sobrinho no 5.º ano do Liceu que adorava narrar as aventuras das aulas de Moral. Não houve, em todo o ano lectivo, uma única aula séria de religião. A mestra chegava e o teatro abria. Se ela falava, interrogavam-na com as perguntas mais disparatadas e ela desatava a expulsá-los da aula. Como todos pretendiam ser expulsos, era tal o pandemónio que acabava por vir tudo para a rua ou por apanhar falta disciplinar. Quando ela interrogava, davam-lhe respostas piores que as perguntas, eram espectáculos impagáveis de gargalhada colectiva. Punham-lhe bombas debaixo do estrado, garrafas de sulfídrico na cadeira, era uma tourada interminável. Dava-lhes pontos, entregavam-nos em branco e iam jogar. Proibira-lhes debandar antes do termo da aula e então eles armavam concursos de bom-humor com os respostas: “Porque é que Jesus Cristo é Deus?” Resposta: “Ora essa! Porque sim!” “Sabe quantos são os livros da Bíblia?” “Eu não!”


Tantas e tais lhe pregaram que a pobre senhora tentou suicidar-se. Esteve uma semana na sala de reanimação. Deram o facto como intoxicação involuntária. Era muito mais grave afrontar o problema verdadeiro: a hierarquia prefere aguentar com unhas e dentes a privilegiada posição de cómodo desprezo dos homens, mesmo esmigalhando gente aos bocadinhos, a rasgar a pele nas angústias quotidianas da humanidade que em dor e dúvida se vem erguendo.






Embarque de Guerra


Embarca a saudade, imersa

Ao peso de cada filho,

Ao mudo olhar da mulher,

Longa truncada conversa...

Da guerra o trilho

Os passos dispersa,

Virá quem vier.


Embarca o País inteiro

Nos galões do capitão.

Ao sábio enevoou-lhe o brilho,

O menino do tinteiro

Doutor irá maltrapilho...

Aperta o povo o espartilho,

Faltam soldados do pão.


E a guerra munge dinheiro

A quem doura alto galão.


Navega a barca submersa,

Chumbo dos pés da ilusão

E a guerra tudo dispersa...


Arma em punho, embalde espero

A via láctea vir trilhar.


Encostam-me ao desespero,

Ainda um dia hei-de atirar,

Hei-de atirar, mundo zero!






Angola

Vida Religiosa 11


Uma tarde o P. Freitas dera-me boleia na carrinha da Casa dos Rapazes para a baixa de Luanda. Continuávamos um diálogo.


- Com tanta mania da multirracialidade, com tanta civilização cristã na boca e, afinal, nem um bispo de cor temos aqui para amostra em lado nenhum – comentei.


- Ainda bem. Ainda os não estragámos aí. Para fogo de vistas já basta o que há. Mesmo que os nomeiem eles não poderão ser nunca bispos negros. Aqui é tudo modelo único.


Quando o cónego Muaca, recém-vindo da Metrópole, do exílio dos padres negros angolanos, prolongado desde 61, foi nomeado, recordei o antigo diálogo.


Bispo auxiliar: escolhido pelo episcopado em Angola, sem ratificação ministerial. Nos primeiros tempos vivera recolhido fora do mundo. Reordenamento da vida para a tarefa futura e preparação íntima da sagração. Gerara-se, entretanto, um clima de expectativa e descrença, mutuamente imbricados, em redor do novel bispo. Expectativa porque era, indubitavelmente, o hierarca mais culto e actualizado e o único de mentalidade contemporânea em Angola. Descrença porque é tímido, contemporizador, incapaz dos afrontamentos inadiáveis das podridões comunitárias e, principalmente, porque seria irremediavelmente reduzido a títere, a camuflar imobilismos eclesiais, sociais e políticos.


Pouco depois de toda a festaria, reintegrado na rotina de Luanda, convidámo-lo para vir a uma reunião de amigos. Tinham-no proibido. Não podia contactar expressamente com tal grupo, tinham-lho indicado, com nomes e tudo. E não eram os únicos cristãos que teria de ignorar.


- Não posso. O patrão proibiu-mo. Eu bem queria encontrar-me com todos.


Patrão, justamente. Sagram um bispo para o obrigarem a ser, não o bispo da Igreja, mas apenas o duns tantos apartados no meio do conjunto. A hierarquia até já pratica segregação no meio da comunidade, por ironia no próprio acto com que pretendia provar que a repudiara – a escolha dum bispo negro!






Arte Oficial


Deixa-me, Orfeu, de lira.

A manhã canta o sol, o

Eterno apagador da noite...”


- Deixa, Morfeu delira!

Amanhã canta o solo

E, terno, apaga a dor da noite.






Angola

Vida Religiosa 12


No meu segundo Natal de Luanda corria uma apatia generalizada na igreja viva, mal encoberta pelos aparatos e futilidades da outra, a triunfalista, com os frondosos presépios e sentimentalismos de imatura adolescente, mai-los argumentos quantitativos dos liturgismos mágicos.


Saboreámos em família uma ceia de consoada íntima, música de Natal por fundo, e confraternizámos depois com gente amiga que consoara só, até à meia-noite. E todos juntos partimos então para a missa do galo na Casa dos Rapazes.


Qual não foi o espanto quando, olhando à roda a assembleia, descobrimos presentes membros de grupos vivos de todas as idades! Havíamos tido em conjunto a mesma ideia. Foi uma onda de alegria.





O Cristo Negro


Nasceu num morro de Canacassala

Capinada e fria

Como uma bala

A rebentar do chão.


Também lá na sanzala

Não havia

Pensão.

Nem sequer

Virgem Maria.


Nasceu duma Ginga qualquer,

Nem virgem, nem Maria,

Bastou ser mulher.

Tão pobre, coitada,

Que nem teve Anunciação,

Nem sabe de casamento.

Foi três vezes alambada

Com o terror, o tormento

E a escravidão.


Mas nasceu-lhe um filho, que lhe importa o pai?


Cresce o menino na nudez da selva.

Pela tardinha, às estrelas vai,

Carregando o silêncio dos sonhos da montanha.


Semeia-lhe o pensamento

Agitada relva

Com seiva tamanha

Que a terra inteira a pouco e pouco ganha.


Vem conspirar com o povo

Um coração novo

Que dá liberdade.

Mas era um negro de carapinha e tanga este Cristo!


Ora, em minha cidade,

Isto

É um crime de lesa-majestade.

É de lei que apenas a branquidão é verdade,

Monopolista da razão

E de muitas coisas mais.


Condenaram o Cristo aldrabão,

Comunista,

Apologista

Da subversão,

Indigno cidadão

Duma pátria de animais

Racionais.

Chutaram-no de polícia em polícia

E à rádio calaram e aos jornais

De dar notícia.


Sem defesa morreu na ignorância

Que amortalha todo o preto condenado:

- Nem sequer o pobre foi crucificado!