À LUZ DA CANDEIA




BARTOLOMEU VALENTE




Lisboa, 2011







AO SERÃO DOS CONTOS ANCESTRAIS



I


Ao serão de domingo







Contar


Não sou só contos e lendas.

Contudo, sem narrativas,

Sem de as contar oferendas,

Não sou nada. Arestas vivas

Restam só de minhas sendas.


É uma história o movimento

Dum lugar a um outro além,

Nunca deixa o seu fermento

No primeiro teor que tem.

Vivemos neste andamento.


Um princípio tenho, assim,

E terei então um fim.


Histórias


Todo o contador de histórias

É aquele que vem de fora,

Que na praça das memórias

Duma aldeia que ali mora

E que nunca dali sai

É o além que entre eles cai.


Dá-lhes a ver outros montes,

Outras luas e terrores,

Outras caras, outras pontes...

Metamórficos pendores.

É quem captou a atenção,

Que outro mundo traz na mão.


É um outro olhar, outra voz:

Deste era-uma-vez por meio

Supera este mundo a sós

E a metafísica em cheio

Introduz então na infância

De todos com elegância.



Habita-nos


Habita-nos o antiquíssimo,

Cada dia, e nos impele

Para agir, leve, levíssimo.

Haja embora o que o repele,

É assim: para começar,

Vimos de longe e luar.


Como a luz fóssil se observa

Em astrofísica em volta

De nós cintilando, serva,

Desde o nascimento à solta

Dos mundos, ouvir podemos,

Além e aqui, se mantemos


Os ouvidos bem abertos,

Murmúrios de antes da história,

Dos inícios encobertos

De que se perde a memória.

Os sonhos de outrora são

Parentes nossos então.




Repara


- ”Deus fez o mundo em seis dias

E tu minhas meras calças

Nem em seis meses farias?!”


- ”Mas, meu caro, a quanto é que alças?

Repara só, num segundo:

Vê tuas calças e vê o mundo...


Não têm comparação:

Tuas calças, que mundão!”



Pergunta


Quando alguém pergunta à Lua

O que é que ela mais deseja...

- ”É que o Sol que além flutua

Morra e mais ninguém o veja.”


- ”Também, Lua, o não verá...”

E ela confirma sem pena:

- ”Ora, tanto se me dá!”

...E à noite assim se condena.



Fome


Levada pela fome mais cruel,

Uma hiena olha atenta o seu filhote.

As ilhargas cavadas pelo bote

Das privações, achega-se ao farnel:


- ”Não é que um anho me pareces fiel?

Julgo ver um cordeiro como dote

Quando olho para ti. Um borregote

Suculento, a saber-me como mel.”


- ”Mãe, olha para mim, é lá possível

Parecer um cordeiro! Sou teu filho,

Não sou o anho que julgas comestível.”


- ”A prova que me livra do sarilho

É que estás a balir neste momento.”

E logo o devorou sem adiamento.



Sede


Um cão, a morrer de sede

Após mui longa corrida

Pelo deserto que fede

De estorricar nele a vida,

Chega, enfim, junto a um regato

Que corre muito pacato.


Inclina-se. Porém, quando

Se dispõe para matar

A sede que o vem matando,

Nas águas a se achegar

Vê que vem a própria imagem:

Doutro cão crê que que é mensagem


A impedi-lo de beber.

Deita-se o cão sequioso,

A arfar, aguardando, a ver...

Um nada após, momentoso,

Achega-se da má sina

E com prudência se inclina,


Mas o outro lá continua.

Retira e senta outra vez

E de morte a sede o acua.

Várias vezes o entremez

Repete até que, extenuado,

Sem reter-se haver logrado,


Atirou-se dentro de água

Para a limpo tirar tudo

Com o cão de tanta mágoa.

Grande surpresa, contudo:

Não encontra nenhum cão,

Chapinha, enfim bebe, então.


Saiu de água saciado

E, antes de tomar caminho,

Olha atrás o seu traslado

No espelho de água adivinho.

E lá o fantasma o encarava,

Só que então já o não entrava.



Caracol


Observava certo dia

Mui atento um caracol

Que pelas ervas seguia

Lento e mole, lento e mole,

Um filósofo entretido

A ver daquilo o sentido.


- ”Em que pensas?” - um passante

O questiona, oportuno.

- ”Tenho um caracol diante,

Penso nele: eu me coaduno

A que eu penso nele e, enfim,

Ele nunca pensa em mim.”


- ”Isso apenas?!” - o outro torna.

- ”Não, não é somente aquilo.”

- ”Que mais, para além da sorna

De olhar bicho tão tranquilo?”

- Ӄ que, se isto descamamos,

Julgo que nos completamos.”


- ”Completamos?! Em que lei

O homem com bicho cabe?”

- ”Sabe, é que eu sei que não sei

E ele não sabe o que sabe.”

O pensamento, de agudo,

Dum nada retira tudo.



Paraíso


No paraíso Adão mais Eva andavam,

Até que Adão de retirar-se teve,

Eva deixando, num momento breve,

A sós perante as tentações que entravam.


Satã vem logo mais o filho Esquivo

Contando a Eva: -”Tenho de ir-me embora.

Tomas-me conta de meu filho vivo

Até que eu torne? É uma ligeira hora...”


Eva aceitou. Adão, chegando, vê

O Satanás e o reconhece logo

E logo o mata destruindo o jogo

Ao pendurá-lo, retalhado, ao pé.


Quando ele sai, logo Satã retorna

E com magia reconstrói o filho.

Eva, culpada, uma vez mais, sem jorna,

Aceita o encargo mas prevê sarilho.


Quando Adão chega, furioso encara

O Esquivo ali bem retornado à vida.

-”Porque à palavra do inimigo, cara,

Tu dás ouvidos, enganada em lida?


Em mim apenas confiar-te deves.”

Mata o diabo e desta vez o crema,

Espalha as cinzas dele em gestos breves

Por mar e terra, que ninguém o tema.


Satã regressa e Eva logo conta

O que é que Adão empreendera ali.

Satanás chama: então, de ponta a ponta,

Recola o filho e após o encosta a si.


- ”Posso deixá-lo uma vez mais à guarda

De teu cuidado?” - perguntou a Eva.

- ”Leva-o contigo, de novo antes que arda!

Não quero mais. Onde é que isto me leva?”


Mas Satã usa de mil e uma manhas,

Lamenta humilde, sedutor devém.

Eva, à terceira, com pressões tamanhas

Aceita o filho que o diabo tem.


Adão, em fúria, quando volta, mata

Satanás-filho e a frigir o pôs,

Comeu metade e a outra parte acata

Eva comê-la, a dar-lhe fim, após.


Quando Satã reaparece é que Eva

Lhe conta tudo o que ocorreu no dia:

- ”É de nós parte, cada qual o leva

No próprio corpo.” Dali não fugia.


- ”É exactamente,” - diz o rei da treva -

Exactamente aquilo que eu queria.”



Astrofísico


Um astrofísico em papuas terras

Partilha os sonhos a que sonho empresta:

- ”...Por fim é Marte ver se vida encerra.”

- ”Porquê? A vossa vida então não presta?!”



Riquíssimo


Um riquíssimo ateniense

Quer Diógenes de visita

Ao paço dele imponente.

Mas este sofre a desdita

De estar com grande catarro:

Puxa, constante, um escarro.


O ricaço lhe pediu

Que não escarre a impecável

Morada a que o atraiu,

Que de asseio era intocável.

Diógenes, cordato, o encara

E escarra-lhe então na cara.



Fazendeiro


Um fazendeiro da América,

Muito mais do que abastado,

Visita um primo afastado,

Lavrador à escala ibérica,

Pouco mais que remediado.


- ”Pego o carro de manhã” -

Diz o americano inchado -

E, à noite, após ter andado,

Qualquer que seja o afã,

Nem ultrapassei um lado


Do meu rancho.” -”Estou a ver,”

- Comenta o primo, contente, -

Dantes também eu, demente,

Tive um carro assim qualquer...”

E eis como lhe ferra o dente.



Juntos


Um polaco e um judeu

Vão a pé, juntos, à feira.

De repente, um deles viu

Um monte de bosta à beira.


Diz o judeu ao polaco.

- ”Dez zlotys se tu comeres

De bosta aquele grão naco.”

Contas a teres e haveres


Faz o camponês, cuidando

Que intuito secreto tem

O judeu com que anda andando.

Por fim, aceita e retém


O engulho ao comer a bosta.

Recebe então o dinheiro,

Continuando, ganha a aposta.

Perde o judeu por inteiro


Mas medita que, afinal,

Comer bosta não há feito

Ao polaco nenhum mal.

Que bom!” - cuida, satisfeito.


Avista um segundo monte

De excremento e diz então

Ao polaco enquanto o aponte:

- ”Se eu comer este montão,


Devolves-me os dex zlotys?”

O camponês diz que sim.

Logo o judeu aprendiz

Come a bosta até ao fim.


Continuaram para a feira

E o camponês, meditando,

Pergunta, a ver se se inteira

Da razão de tal desmando:


- ”Como és esperto, judeu,

Explica-me o que é tal boda:

Porque é que a gente comeu

Aquela, enfim, bosta toda?”


Da resposta não há escrínio.

Muitos há sobreviventes

É dos campos de extermínio:

- Sabiam cerrar os dentes.



Passarinheiro


Ao fim da tarde, numa ruela de Damasco,

Fechou a loja, pôs às costas as gaiolas

De suas aves e ao caminho apronta o casco

Rude e grosseiro de seus pés, quais padiolas,


Pobre, infeliz passarinheiro, rumo a casa.

Cansado, avança lentamente, com bengala.

Vende umas aves: qual o ganho que isto apraza?

Traz meia dúzia a dormir já, de olhos em pala,


Às costas dele, pelas sombras do crepúsculo.

E eis que um dervixe de Tabris caminha ao lado,

Ouve-o falar com suas aves, som minúsculo:

- “De vós ter pena não importa, que eu traslado


Cada gaiola, trago e levo... Tudo trato,

De manhãzinha, água e sementes, pelo fresco,

Dou polimento ao bico, aliso com meu tacto

As penas breves, varro o chão, num arabesco


Lanço perfume e, pelo frio, junto ao fogo

Cada gaiola. No verão, à sombra as ponho.

Ah! Se eu tivera quem às costas, desde logo,

Me transportara de gaiola, mas que sonho!


Ah! Se eu tivera quem me dera de comer

E de beber todos os dias duma vida!”

Ora, o dervixe ouviu então, a se perder,

Uma vozinha a responder à queixa ouvida:


- ”Julgas que estamos na gaiola mas te enganas.

Nas minhas penas tenho insectos que o nem notam.

Também tu vives na gaiola e não te danas,

Gaiola é a casa, a tua rua e não se esgotam


Aqui as grades, que a cidade o é toda inteira.

Onde é que julgas da gaiola o fim das grades?

A Terra toda é para nós de jaula esteira.

A Lua, o Sol, todo o Universo ao qual agrades


Serão gaiola a balouçar pelo Infinito...”

De lassidão, passarinheiro nem responde

E, se calhar, nem mesmo ouviu o surdo grito.

Quando a sombria noite escura tudo esconde,


O vendedor a se queixar retoma o tema,

A desejar para si mesmo a sorte de ave.

Uma voz débil, de dormente mal atrema

No que dizer, faz-se entender à orelha suave


Do bom dervixe que se cola aos passarinhos:

-”Esquece tudo, fecha o espírito, eis a noite:

A fala de ave que ora escutas sem carinhos

És tu, teu imo, e tu, gaiola onde se acoite.


Teu pensamento o trancou forte em própria grade,

Dá-te trabalho a desmontar, nem o consegues.

Em casa pousa esta gaiola de inverdade.

Não penses mais, come e dormir vê quando adregues,


Que, adormecido, se abrirá tua gaiola

Ao mundo inteiro e então podemos falar mesmo.

Pois boa noite.” E só o dervixe tem a esmola

Desta mensagem que o silêncio espalha a esmo.



Monge


Monge cristão fundado havia, em canibais

Regiões, mosteiro organizado em solidez.

Os solitários, às dezenas, vivem mais

De seu trabalho e orações, em paz de vez.


Tem vastas terras muito férteis e rebanhos,

Hortas, pomares, galinheiros e um viveiro,

Produz compotas, vinho, leite, assados de anhos,

Fabrica pão, bolas de carne... É num ribeiro


Que, represado, águas recolhem para as lidas.

Sobre a região então se abate crua seca

Onde as colheitas são de todo destruídas.

Mas o mosteiro resistiu: irriga a peca


Semeadura, astucioso, controlando

De águas o débito conforme as precisões.

A dura seca entre as cubatas provocando

Vai entretanto letal fome aos aldeões.


Um dia, à porta do mosteiro, uma quinzena

De camponeses mui magrinhos pede ajuda.

O generoso abade-mestre, já com pena,

Mandou colher muitos legumes com que acuda,


Matar um porco dos mais gordos do cercado.

Logo uma sopa nutritiva é distribuída

A cada indígena, aos parentes que hão juntado,

E o que restou vai de farnel, à despedida.


Agradeceram os prendados, mas voltaram

Um dia após, quando eram já meia centena,

Pois o rumor do bem-querer longe espalharam

Todos aqueles que encontraram ceia plena.


O abade manda matar outro porco então

Como abater gordo carneiro a tanta fome.

Todo o selvagem come bem, se embora vão,

Sacos de nozes cada qual leva e consome.


Um dia após, são mais de cem com as crianças

Mais as mulheres, de sanzalas tão distantes

Que jamais antes nem ouvido, em tais andanças,

Tinham de haver mosteiros tais, de bens garantes.


O bom do abade pôs os monges a correr,

Um talhão colhem de legumes horta fora

E pescam trutas com a nassa e vão colher

Cestos de fruta e abater bodes agora.


Todos comeram, já por entre altercações.

Ao fim da tarde, uma oração rezam por chuva,

O monge e a selva de mãos dadas nas funções.

Mas de manhã nem do nevoeiro a branca luva


Responde às preces. Como a fome é mais cruel,

Já são duzentos visitantes por comida.

Alguns ajudam o convento no tropel

De abater carnes, refeição a ser servida.


Todos comeram, bem ou mal, e ao dispor tudo

Os monges põem, generosos, sem limite.

A oração cantam novamente e, sobretudo,

Ritos pagãos vão-lhe acrescer que a selva emite.


Tudo por nada, já que a seca persistiu.

São mais de mil, ao quinto dia, a vir famintos

E desde então os monges deixam de pousio

A quinta deles, já que os ovos, mesmo os pintos,


Legumes, frutos, tudo colhem, vão comer.

Toda a reserva é consumida, frutos secos,

Mel e compotas, as conservas, o que houver:

Os animais são abatidos, rincham ecos


Da mortandade dos cavalos do mosteiro,

Do burro velho que no prado tasquinava.

Tudo comeram, as galinhas, o viveiro,

Patos e cães e mesmo os ratos, se calhava.


Nada restou. E foi então que eles comeram

Os monges todos. E uns aos outros, logo após.

Um que ficou, depois que todos pereceram,

Morreu de gordo, em palermice tão atroz


Que, de ocioso, o rebentou a obesidade.

...E ali findou assim de vez a Humanidade!



Falcão


Adeja um falcão

Forte e ameaçador.

Domina, senhor,

Tudo o que há no chão.


Mas dum caçador

Uma flecha então

O trepassa e não

Tem mais vida e ardor.


Ao tombar, vê penas

De falcão nos nós

Que a frecha contém.


Viu, então apenas,

Que o que vem a nós

Sempre de nós vem.



Viajaste


Dois camponeses conversam,

Por ocasião da feira,

Das ditaduras que terçam

Armas contra o que as não queira.


- ”Conheci tantos países,

Rússia, Polónia, Alemanha,

Sei lá de quantos matizes!...”

-”Viajaste então com sanha.”


-”Qual o quê?! Nunca saí

Desta aldeia onde nasci.”


Hoje a comunicação

Põe o mundo todo à mão.



Piedosos


Dois piedosos muçulmanos

Seguiam pela montanha.

- ”Quando chegam os humanos

À perfeição que se ganha?”


-”Quando à montanha ordenarem

Que ande e ela então andar.”

De repente, ao repararem,

A montanha a começar


A mexer-se principia.

Vira-se o segundo então

Para ela e anuncia,

Com breve gesto da mão:


- ”Calma, montanha, é que eu não

Ordenei mesmo que andasses.

Era uma suposição,

Não percamos nisto as faces.”



Mercado


No mercado de Damasco

Hodja compra de algodão

Bela peça, após com asco

Regatear o preço em vão.


Vai depois a um alfaiate

Para que um bom albornoz

Talhe e cosa que acicate

Uma festa, um tempo após.


- ”Quando é que ele fica pronto?”

- ”Pois, com a ajuda de Deus,

Numa semana, é o que conto.”

Ela corrida, é de incréus


Que os olhos se lhe arregalam,

Pois do albornoz nem sinal.

As tesouras não se calam,

Tudo cortam, por seu mal,


Mas nem ao menos talhada

Foi do albornoz uma peça.

- ”Quando, então, vir de jornada?”

- ”Uma semana mais meça.”


- ”E então pronto de vez fica?”

- ”Pois, com a ajuda de Deus,

Pronto há-de estar, que se aplica

Nisto a vontade dos céus.”


Transcorreu outra semana,

Do albornoz, contudo, nada.

Adoeceu-lhe de esgana

Do alfaiate a filha amada.


- ”Quando devo tornar cá?”

- ”Dentro aí de quatro dias.”

- ”O albornoz pronto estará?”

- ”Com a ajuda em boas vias


De Deus ele há-de estar pronto.”

- ”Escuta, o dia da festa

Dentro de bem pouco aponto.

Não podes, de forma lesta,


Costurar-me este albornoz

De Deus sem ajuda após?”



Ofício


De sexta-feira no ofício,

Um imã, com eloquência,

Exclama, tenta um resquício

De sagrada eficiência:


- ”Ó Alá, senhor do mundo,

Dá-me a fé, dá-me a humildade,

A força de ser facundo,

Dá-nos a paz da verdade,


Dá-nos o amor da justiça,

Perdão, generosidade

Para o pobre que se enguiça,

Mais a luz da liberdade!”


Hodja, que estava presente,

Ergue-se e põe-se a clamar,

Mui convicto, de repente,

Crente de vir a alcançar:


- ”Ó Alá, senhor do mundo,

Dá-me doze potes de oiro,

Uma casa grande e, ao fundo,

Um lago, um jardim, com loiro


Cabelo de raparigas

Bem novas e sedutoras

Que a mui me agradar obrigas

A todas e quaisquer horas!”


O imã tentou calá-lo

E chamou-lhe de infiel

A blasfemar com regalo

Sacrílego e o repele.


- ”Mas porquê?!” - diz com espanto. -

Faço o que faz o imã...”

- ”Como assim?!” - gritam do canto.

- ”Bem, então! Cada manhã,


Cada qual, buscando o bem,

Pede aquilo que não tem.”



Machado


Um camponês perde um dia

Das freimas dele o machado.

Busca em casa, faz vigia,

Tudo em vão, em todo o lado.


Avista então um vizinho

A desviar, passando, o olhar.

Cara e gesto comezinho,

Atitudes, aquele ar,


Tudo nele revelava

Que era ladrão de machados.

Já quase o denunciava

Pondo a público tais dados


E levando-o ao juiz,

Quando recupera então

O machado: uma raiz

O esconde caído ao chão.


Voltou a ver o vizinho:

Afinal, não tem sinal

Do ladrão que ele, adivinho,

Nele presumira real.



Malhas


Acaso e necessidade

Tecem malhas do destino,

A sorte que nos persuade

E a que, queira ou não, me inclino,

Quando piso o chão que grade.


Roleta russa jogamos,

Uma bala no tambor,

Das seis com que o completamos:

Giramo-lo e é o que for,

Quando à fronte o disparamos.


Um actor polaco tinha

De interpretar um papel

Dum militar da marinha

Que, no meio do tropel,

Aquela bala sozinha


Jogava ao terceiro acto,

Numa aposta que ganhava:

Preme o gatilho e o impacto

Nunca o tiro disparava.

Com a vida mal, de facto,


Desanimado, introduz

Uma bala verdadeira

No tambor. E não traduz

A informação desta asneira

A ninguém, que o não seduz.


Pois por vinte e duas vezes,

Com sorte bem milagrosa,

Representa sem reveses.

A cena com ele goza

Com tiros secos, corteses.


Mas no dia vinte e três

Um febrão grave o abateu

E cai à cama de vez.

Quando o aviso recebeu,

Tapa o teatro o revés,


Dele chama o substituto.

E foi com grande alegria

Que este ensaiou o produto.

Quando o cano à fronte enfia,

Morre em cena, ao tiro bruto.


Ergueu-se dias depois

Aquele actor principal.

Foi ele que, dentre os dois,

Assistiu ao funeral...

Mas nunca mais meteu, pois,


No tambor balas daquelas,

Não vá o diabo tecê-las.



Viajante


Um viajante atravessa

A floresta solitária.

Uma quadrilha depressa

Despoja-o da indumentária,

De tudo o mais em seguida.

- ”Vamos deixá-lo com vida?”


O punhal dum salteador

Logo lhe aponta à garganta.

- ”Mas matá-lo que valor

Nos traz, de que é que adianta?”

Atam-lhe aos pés cada mão,

Da vala fica no chão.


Mais tarde outro salteador

Vem junto do viajante,

Desata-o, trata-lhe a dor,

Segue com ele adiante.

- ”Vem agora atrás de mim,

Vou guiar-te até ao fim.”


Caminharam pelo escuro

Noite fora, tempo além,

Até caminho seguro

Se vislumbrar que lá vem.

- ”Tua aldeia fica ali

Ao fundo, vai por aqui.”


- ”Acompanha-me até casa,

Quero-te recompensar.

Comerás do que te apraza,

Beberás lá no lugar.”

-”Não posso ir” - com pundonor

Respondeu o salteador.


- ”Mas porquê?” - o outro se espanta.

- ”Porque sou um salteador.

A polícia desencanta

Minha presença ao odor.

Viria logo a correr

Em tua casa me prender.”


Com isto deu meia volta,

Dali desapareceu.

Três forças andam à solta

Tecem da vida o mantéu:

Uma assalta, uma outra ajuda,

Na fuga a final se escuda.



Aldeia


Numa aldeia abandonada

Do mundo dos distraídos

Um rico tem a morada

E um pobre tem desvalidos.


Trepa um dia o rico ao monte

A mostrar com largo gesto

Ao filho todo o horizonte:

- ”Olha o nosso e olha o resto,


Será um dia tudo teu.”

Trepa ao monte por igual

O pobre, a fruir do céu.


De espanto ao filho em sinal,

Na emoção de quanto o acolha,

Murmura-lhe apenas: - ”Olha...”



Tundra


Na tundra siberiana

Um homem encontra um preto,

Julga mesmo que se engana:

Jamais um vira em concreto!


Perplexo, pergunta então

Quando com ele se cruza:

- ”És a noite? A noite ou não?”

Resposta, porém, recusa


O preto e dali se afasta.

Um dia após, no lugar,

A curiosidade basta,


Vendo o preto ali passar,

A fazer que mais se afoite:

- ”Quem és? És ontem à noite?”



Sonha


Sonha o santo: uma mulher

De incomparável beleza

Encara-o com bem-querer,

Sorri-lhe tal quem o preza.


- ”Donde é que te provém tão

Maravilhosa beleza?”

- ”Um dia” - diz-lhe ela então -

“Choravas tu de tristeza:


Lavei minhas faces duas

Naquelas lágrimas tuas.”



Cão


Um homem está sentado

Lá no público jardim,

Um cão pela trela ao lado,

Aos pés dormitando assim.


Uma dama se aproxima

E senta-se à beira dele,

Olha o cão, um ser que estima,

Pergunta, a apontar-lhe a pele:


- ”O seu cão é um cão mansinho?”

- ”É muito mansinho, muito.”

Ela a mão devagarinho

Estende, em gesto fortuito,


Ao animal. De repente,

Este salta, vai mordê-la

E deveras ferozmente.

- ”Mas que me disse?!” - a sequela


É que a mão lhe está sangrando. -

“Afirmou-me que o seu cão

Era manso e eis senão quando...”

- ”O meu é. Mas este não


É o meu, já que esta manhã

Passeio o da minha irmã.”



Asceta


Um asceta, na esperança

De atingir o bem supremo,

Vê se não dormir alcança

Dezenas de anos seguidos,

De noite, a vergar o demo,

Até perder os sentidos.


Para tal, regularmente,

Nos olhos aplica sal

Até que o sangue fermente.

Já no limite das forças

Adormeceu, afinal.

Ai, virtude, a quanto orças!


Durante o sono, eis-lhe vem

A visão do Paraíso,

De Deus, dos anjos também...

Quando acordou, ficou triste:

- ”Procurei com tanto siso

Isto que no Além existe


Quando acordado e, afinal,

Só dormindo é que vi tal.”



Selvajaria


Após uma ditadura

A selvajaria impera:

Tanto há ganho com fartura

Como se esvai em quimera.


Dois búlgaros a uma esquina

Se encontram a negociar.

- ”Dois camiões quis a sina

De cigarros vir-me dar,


Cigarros americanos,

Um milhão por eles quero.”

- ”Pois é teu” - nem pesa enganos

O segundo, com esmero.


Selam de aperto de mão,

Vai cada qual a seu lado:

Um ver se encontra um milhão,

Cigarros, o outro enganado.


A terra sem roque ou rei,

A sequela a que anda atreita

Esta será: não há lei

E ninguém mais a respeita.



Música


Há na música indiana

Harmonias para a noite,

Harmonias para o dia

E, quando ninguém se engana,

Não há verão que lhe acoite

Dum inverno a melodia.

E diversos sentimentos

Dão vários de canto alentos...


Um rei que era caprichoso

Chama um mestre do sitar,

Pede-lhe um canto da noite

Quando o sol brilha fogoso.

- ”Impossível” - se a queixar,

Sem que mais longe se afoite,

Começa o músico atento. -

“De manhã noite nem tento.”


- ”Toca na mesma!” - “Não posso...”

- ”Recusas? Mando cortar

Já tua cabeça aqui!”

Ante a ameaça, tenta o esboço

O melhor que ele alcançar,

Toca noite, um peso em si.

Faz que a luz empalideça:

- O Sol a pôr-se começa!



Saudá-lo


Quando um novo Papa é eleito,

Os chefes, por tradição,

Doutra qualquer religião

Vêm saudá-lo a preceito.


Entre eles vem um rabino,

O mais ancestral de Roma.

Após a praxe, ele toma

Um sobrescrito mui fino,


Lacrado, de antigamente.

Pega-lhe o Papa na ponta,

Logo um cardeal o aponta

E ao ouvido algo comenta.


Sem abrir o sobrescrito,

Logo o Papa o devolveu

Às mãos do rabi judeu,

Tratando-o como um proscrito.


Este ritual perdura

Há muitos séculos já.

Que é que aquela carta apura

E tais gestos porque os há?


É o segredo dum cardeal

Que à hora da morte o conta

A um vivo que o logo aponta

Para aos Papas dar sinal


Que no futuro vierem.

É assim sucessivamente,

De longe, imemorialmente.

Ora, há imprevistos que ferem:


Há um século atrás morreu

O cardeal, de repente,

Que o segredo tem presente

E a transmissão se partiu.


Contudo, no protocolo,

Todos os Papas seguintes,

Da tradição fiéis ouvintes,

Cumprem o ritual a solo


Sem nenhuma confidência:

A carta é de devolver,

Devolvem sem ver sequer

Se contém qualquer pendência.


Se havia, pois, um segredo,

Parecia estar perdido.

Mas o actual Papa, atrevido,

Quer limpar suspeita e medo.


Nada o proíbe de ver,

Consultas devidas feitas,

Da carta quais as receitas

Que decerto há-de conter.


Os cardeais de antigamente

Que falavam ao ouvido

Se calhar nem o sentido

Sabiam dali pendente.


O Papa logo aceitou,

Sem a devolver, a carta.

O rabino nem se aparta,

Do espanto que o alegrou.


Finda que foi a audiência,

Um cardeal e uns peritos,

A um recanto circunscritos,

Fecham-se com impaciência.


Abre o Papa o envelope

E descobre um documento

Muito antigo, bolorento,

Em língua que ninguém tope.


Vêm os epigrafistas,

Linguistas ao Vaticano,

Esventram a fundo o arcano

E descobrem que são listas:


É duma casa de pasto

A conta de Última Ceia

Por pagar há era e meia,

De Cristo e os Doze o repasto!


O Papa muito se admira:

Então Jesus convidado

Não foi ao festejo dado,

Com eucaristia em mira?


A conta indica o contrário.

O rabino atesta então:

- ”É o texto em primeira mão

Que, através do tempo vário,


De geração se transmite

Em geração, há bem mais

De vinte séculos, tais

Os que conta quem o emite.


A Ceia que não se apaga,

Entre todas fundadora

Mesmo após tanta demora,

Nunca de facto foi paga.


Os meios para pagar

A dívida, sem demora,

Talvez tenha a Igreja agora,

Nem há juros a cobrar!”



Krishna


Quando Krishna era criança,

Tinha fama de maroto,

Era o guloso que alcança

Sempre o que lhe deu no goto.


Era oitava encarnação

Do deus Vishnu, benfazeja

Força que segura o chão

Do mundo, tal se deseja.


Um dia foi acusado

De haver de terra engolido,

Bem escondido, um punhado,

No que foi repreendido


Por Yasoda, a mãe terrestre,

Que explica que em caso algum

- Ela tenta o que o amestre -

Coma a terra que é comum.


- ”Não comi” - diz o pequeno.

- ”Abre então a boca, a ver...”

Obedece e um cheiro a feno

Vem-se dele a desprender.


Debruça-se Yasoda e vê

Árvores, rios, montanhas,

Todo o Universo à mercê

Cheio de estrelas tamanhas,


Dos seres toda a existência,

O passado e o futuro,

Dos mortos parca a vivência,

As formas do nascituro.


Viu além toda a emoção

Que todo o ser vivo tem,

Medo, raiva e coração,

Deslumbramento também.


Viu as lágrimas, o riso,

Os estádios da matéria,

Nada lhe escapa ao aviso,

Do filho na boca séria.


As parcelas do Universo

Todas vão no seu lugar.

- ”Está bem, é um mundo terso,

Podes a boca fechar.”



Quarto


Dorme um frade sozinho num castelo antigo

Quando ouve à meia-noite alguém bater à porta.

Entra um maldito enorme, nariz inimigo,

Olhos de brilho azul, a língua negra e torta.


- ”Quem és e que procuras?” - diz ousado o frade,

A quem Deus dava forças, sem temor algum.

- ”Aquele que virá depois de mim é que há-de

Explicar-to” - responde o que é o fantasma um.


O segundo maldito entra então, eram dois.

- ”Quem és e que procuras?” - perguntou o frade.

- ”Aquele te dirá que vem de mim depois” -

Retorque-lhe o maldito que, segundo, o invade.


Entra então o terceiro dos malditos soezes.

- ”Quem és e que procuras?” - insistiu o frade.

- ”Aquele que após mim entrar diz quanto prezes.”

O frade não arreda, que tal nunca o enfade.


Ora, o quarto maldito que é que diz então?

- Pois o quarto maldito nunca veio, não.



Ilusão


Ramakrishna conta,

Ao falar de Maya,

A ilusão que aponta,

Na qual tudo caia.


Um homem pobre e sem labor

Saiu de junto da mulher,

Do filho doente (arde em calor),

Tenta, pedinte, o que puder.


Não conseguiu. Quando voltou,

Um dia após, o filho é morto.

Logo a mulher o lamentou,

Que ele morreu sem seu conforto.


Ficou a olhar para a mulher,

Para o cadáver, e sorria

O pobre do homem esmoler.

Por que razão, não se entendia.


- ”Porque sorris?” - diz a mulher,

Sem o abarcar, muito espantada.

- ”Minha razão vou-ta dizer:

É que sonhei, de madrugada,


Que eu era um rei com sete filhos

Todos saudáveis, e feliz

Com eles vivo. Os meus sarilhos

São que acordei (bem o eu não quis)


E todos eles se hão sumido.

Diz-me tu quem mais lamentar:

Se o que doente hemos perdido,
Se os sete em vão sumidos no ar.”



Teatro


Vai um homem assistir

Ao ar livre a um teatro.

Leva um cobertor ao ir,

Enrola-o, dobrado em quatro.


Quando chega, a peça ainda

Não havia começado.

Mas que modorra benvinda!

Deita-se e adormece ao lado.


Dorme tão profundamente

Que só acorda bem depois

De finda a função presente.

Dobra o cobertor em dois


E retorna para casa

Com risinho sinuoso

Murmurando, olhos em brasa:

- ”Muito bom! Maravilhoso!”



Lenhador


Um lenhador habitava

Numa aldeia e de manhã

Na floresta se adentrava

A trabalhar com afã.


À noite, quando voltava

Os aldeões reuniam

Em redor e ele contava

O que vira e eles ouviam.


Eram mais de mil inventos

Coloridos, variados,

A imaginários sedentos

Servidos, pratos cuidados.


Um dia encontrara um trol

Das raízes a sair,

Uma gigantesca mole

A falar do que há-de vir.


Outro dia foram ninfas

A mergulhar na cascata

E os faunos que nessas linfas

Armaram o nó que as ata.


Conhecia-os pelo nome,

Sabe querelas, amores,

A inveja que algum consome,

Canta deles os favores.


Crónica quotidiana

Da maga floresta erguida

Todas as noites emana

A uma aldeia embevecida.


Quando ia até junto ao mar,

Via sereias ao sol,

Tritões trompas a soprar,

Cavalgando a onda mole.


Uma que outra vez por ano

O bispo do mar lhe dava

Notícia do mundo arcano

Que na lonjura morava.


Também com elfos se via,

Gnomos, ogres e até fadas

E destas contos ouvia

Para as noitess encantadas.


Sílfides voavam no ar,

Criaturas plantas sendo,

Minhocas a vir falar

Com cobras tais que só vendo.


O lenhador inventava

Histórias mil destes seres

Que na aldeia em todos grava,

Nos homens e nas mulheres.


Emaranhado sem fim,

Com mil ramificações,

Mantinha em suspenso assim

Insaciáveis os aldeões.


Acabavam por julgar

Que não podiam viver

Sem a aventura estranhar

Que o relato lhes trouxer.


Desejos, preocupações

Deles lá reconheciam

Ou em longínquos torrões

Aportavam que nem viam.


Era o que mais divertia,

Acalmava e a dormir

Bem melhor serve de guia

Até o alvor do porvir.


Um dia tudo mudou.

O lenhador lá partiu

Para a selva onde suou,

Ao ombro o machado frio.


Mal tinha entrado no bosque

Viu, desta vez de verdade,

Onde o tojo mais se enrosque,

Dois sátiros, mãos em grade,


Uma ninfa a perseguir

Que pedia ajuda às plantas,

Aos gnomos, a quem ouvir,

E que só foi salva, às tantas,


Por um dragão voador

Que a uma nuvem a levou,

De enxofre em meio a um odor

Com que os ventos sufocou.


Ouviu também de elfos cantos,

Nítidos os viu dançar,

Das sereias os encantos

Vieram-no cumprimentar.


Pois até o bispo dos mares

Veio benzê-lo em latim

Numa vaga alçada aos ares

Com um trono de serrim.


Isto durou todo o dia...

Quando retornou à aldeia,

Todo o habitante que havia

Recolheu à sala cheia,


Que ao hábito ninguém foge,

À espera do que revele.

- ”Ora, então, que é que viste hoje?”

- ”Hoje? Nada!” - responde ele.



Cava


Um homem, torrando ao sol,

Cava, cava, no deserto.

Um beduíno com que bole

Pergunta, ao chegar-lhe perto:


- ”Que fazes?” -”Cavo um buraco.”

- ”Mas para quê?” -”Procurando

Ando moedas que num caco

Escondi já não sei quando.”


- ”Devias ter reparado,

A marcar o lugar onde,

Em algo que hajas fixado,

Rochedo, erva onde se esconde...”


- ”Reparei...” - diz o das moedas.

- ”No que foi?” E este então ri

Ante estas marcas tão ledas:

- ”Das nuvens na sombra ali.”



Acordou


O marido adormecido

Acordou mui bruscamente.

Dá mil voltas e um gemido,

Acorda a esposa dormente.


- ”Que agitação invulgar!

Vais transpondo um rio a vau?!”

- Ӄ que acabo de sonhar,

Tive um sonho muito mau!”


- ”Que sonho?” - ”Sonhei que a burra

Do nosso vizinho acaba

De à luz dar, enquanto zurra,

Um burrinho em que desaba


Esta má sorte sem nome:

O burro nasceu sem cauda!”

- ”Isso é o que aqui te consome?!

Estás à espera que aplauda?!”


- ”Imagina que o burrinho

Cai num buraco, uma vala...

Pede-me ajuda o vizinho

Para a cria então sacá-la.”


- ”Sim, vai pedir. E depois?”

- “E depois?! Depois é o diabo!

Como é que o apanho, pois

O burrico não tem rabo?”



Deitado


Uma noite em que a mulher

Jantou na sua família,

Volta a casa e que vem ver?

Um motivo de quezília:

Dorme o marido em sossego

Deitado com um borrego.


- ”Que é que é isto?!” - grita ela.

- ”Nada” - diz ele. - ”A questão...”

- ”Não contes outra balela!

Agora tens atracção

Por borregos?! Que borrada!”

- ”Não estás a entender nada!


Sonhei que me entrava o lobo

No redil e, logo à entrada,

Comia o borrego bobo,

Dentada atrás de dentada.

E ele é que, de medo, clama

Por abrigo em nossa cama.”



Sem-abrigo


Dois sem-abrigo dormiram

Mui vagamente abrigados

Na entrada que conseguiram

Duns prédios abandonados.

Despertam para a manhã

Dum inverno bem malsã.


Ambos tiritam de frio,

Nada têm que comer.

Os transeuntes, ao rocio,

Correm por eles sem ver,

Apressam os passos ante

A chuvada penetrante.


Um deles ao outro diz:

- ”Tive um sonho extraordinário.

Num paço vivo feliz

Com divãs de odor mui vário,

Bailarinas ao serviço,

Vinhos com sabor castiço,


Todos os frutos do mundo

Num pomar à discrição,

Cada canto o mais fecundo...

E tu, não sonhaste, não?”

- ”Eu não sonhei nada” - diz

Dos dois o outro infeliz.


- ”Tens sorte” - torna o primeiro,

Após vaga reflexão.

- ”Tu é que, num grau cimeiro,

A tens, o sonho é um condão.”

- ”Não, és tu: desiludido,

Não acordas destruído.”


Discutiram tempo além

Sem nunca chegar a acordo,

Como à miséria convém,

Sem barco onde entrar a bordo.

Qual o bem que o mal persuade:

O sonho ou a realidade?



Cura


Um homem religioso

Apaanhou doença grave.

Sonhou então, luminoso,

Que peregrinar é a chave

Da cura. Vai a Konya,

De Rumi na sacra via.


Em sonhos lhe garantira

Um célebre santo imã

Que há muito de nós partira:

Vira a cura de manhã.

Reuniu forças então,

Foi em peregrinação.


Custou-lhe cara a viagem,

Cansou-o, pois que as estradas,

Sem poiso nem estalagem,

Todas vão enlameadas,

Muitas tinham aluído

Das chuvadas que hão caído.


Em Konya, ele ficou,

Sujo, em caravanserai,

Mas as devoções orou,

Aos santos lugares vai.

Ao túmulo de Rumi

Voltas deu de dar aí.


Só depois se fez à estrada

Integrado em caravana.

Esta, a caminho, é atacada

Por bandos de mão profana

Que o doente maltrataram,

Todos os bens lhe roubaram.


Esgotado, regressou

Ao lar para repousar.

Dias após constatou

Que a doença, sem melhorar,

Afinal, mais parecia

Agravar-se dia a dia.


Então confronta o imã

Que em sonhos lhe aparecera:

- ”Prometeste, uma manhã,

Que em Konya a cura houvera.

Fiz o que disseste e sou

O morto em pé que aqui estou.”


O imã não deu resposta.

Porém, na noite seguinte,

Quando o doente se encosta

Na choupana sem requinte

E adormeceu para o lado,

- Sonhou que estava curado.



Virgem


Uma rapariga ainda virgem sonha

Que um príncipe mágico na aldeia pára,

Que por ela vem, para que o sol lhe imponha

Que nele rebrilha como jóia rara.


De manhã levanta-se e com pressa corre,

Deita-se à procura do encantado seu,

Mas ninguém ouviu onde esse amor ocorre.

Um velho sentado entre uma fonte e o céu,


Lhe diz quando passa lá por perto dele:

- ”O teu tempo perdes, o teu tempo perdes.”

Nem ouve o que diz, presa ao que além a impele,

Sai da aldeia e pula pelos campos verdes.


Ninguém viu tal nobre. Ao retornar, cansada,

Passa junto ao velho que de novo diz:

- ”O teu tempo perdes.” Mas não ouve nada,

Volta para casa; não, porém, feliz.


Tentam acalmá-la, que a razão lhe volte,

É apenas um sonho... São inúteis freimas,

Que o sonho é mais forte e faz com que ela solte

Novas correrias após muitas teimas,


Pois de novo o viu que lhe estendera os braços

Num sonho envolvente. Cruza junto ao velho,

Perto da nascente, com os mesmos traços:

- ”O teu tempo perdes.” Sempre igual conselho!...


Busca em toda a parte, fere pés e pernas

Nas pedras dos trilhos, no silvado agudo.

Não tem mais resposta, ralações supernas

São o que recolhe, conferido tudo.


Quando a cruzar volta pelo velho, à fonte,

Torna a dizer-lhe ele: - ”Pois teu tempo perdes.”

Na noite seguinte, o sonho estende a ponte:
O príncipe os braços abre, herança que herdes,


E a moça se lança na prisão que a enlaça.

Louca de esperança, a oposição venceu

De pais, de vizinhos, contra dela a traça,

Corre além do velho que já nem ouviu:


- ”O teu tempo perdes, o teu tempo perdes.”

Após vários dias de mil buscas vãs,

Retorna esgotada. Quanto dela houverdes

É roupa em farrapos, terra em jovens cãs,


Pernas a sangrar... Como não pode mais,

Senta-se na pedra junto ao velho e à fonte.

Ele nem diz nada. Nos fiéis caudais,

Onde à sede a vida mais saúde aponte,


Da nascente perto vai colher em mãos

Água que oferece à rapariga lassa.

Ela inclina o rosto, vê tais dedos sãos,

Tão juvenis mãos em quem por velho passa,


Mais um anel de oiro em que um diamante brilha,

Que levanta os olhos, sob a capa vê

Que lhe oculta o rosto de negror mantilha,

Que um jovem se esconde, de olhar onde lê


O brilho da aurora, lábios sorridentes:

É o que vira em sonhos e a tomara em braços!

- ”Eras tu aí?!” De gestos mui silentes

Ele nem responde, mas não há embaraços.


Ela torna ainda: - ”Porque não disseste

Que eras tu mais cedo?” E ele então responde:

- ”Como é que eu sabia, com saber que preste,

Que era quem buscavas, sei lá bem por onde?”



Dragão


Sonhou alguém com um dragão atroz,

Aterrador, com uma goela em chamas

Ameaçadoras, a urrar feroz.

Ora, assustado, lhe questiona as tramas:


- ”Que vai passar-se? Que aterrado estou!

Irá comer-me? Ai, meu Deus do céu!”

Diz-lhe o dragão, a suspender o voo:

- ”Que quer que diga? O sonho é todo seu!”



Rua


Numa pouco iluminada

Rua uma mulher caminha

Numa passada apressada,

Medrosa, que vai sozinha.


Mas é um sonho. E um homem sai

Da sombra, cola-se a ela,

Estende a mão, quase vai

Prender-lhe a cintura bela.


- ”Cavalheiro, que é que faz

Pare ou a polícia chamo!”

- ”Ora, vós é que sonhais

Seja o que for que eu reclamo...”



Noite


Uma noite, simplesmente

Numa camisa comprida,

Sai do leito, lentamente,

A mão à frente estendida.


Atravessou o jardim,

Deu volta completa à casa

E à porta de entrada assim

Retornou tal quem se atrasa.


Um vizinho, quando o viu,

Pergunta por sobre o muro:

- ”Que fazes?! Que é que te deu?!”

- ”Chiu! Cala-te! Só murmuro...”


- ”Diz-me então que é que se passa!”

- ”Minha mulher conta a todos

Que um sonâmbulo com graça

Sou. Confirmo-o com meus modos.”


- ”E então?” -”Chiu! Podes levar-me

A um mal com que nem concordes.

Há um risco de grande alarme:

Sobretudo não me acordes!”



Aborígenes


Aborígenes primevos

Australianos um dia

Caminhavam, de hoje coevos,

A um etnólogo por guia,


Por uma estéril paisagem

Dos desertos interiores.

O cientista em viagem

Anotava os pormenores


Dos actos deles e gestos.

Regularmente este grupo,

Gente de acordos honestos,

Sem ordens e sem apupo,


Parava um longo momento.

Não era para comer

Nem para ver um invento

Que a natura ali tiver,


Nem sequer para sentar

Nem descansar da fadiga.

Era somente parar

Sem nada que a tal obriga.


À segunda ou à terceira,

O etnólogo então pergunta

Que faz que desta maneira

Todos parados os junta.


- ”É bem simples: nós estamos

À espera de nossas almas.

As almas que nós tenhamos,

De vez em quando, mui calmas,


Param no trilho a cheirar,

Ver, ouvir algo escapado

Aos corpos com que hão-de andar.

As razões de haver parado,


Sendo no íntimo secretas,

São mui fortes, sedutoras.

Por isso, mesmo discretas,

Se os corpos correm por horas,


As almas param, por vezes,

Durante uma hora inteira.

Urge esperarmos, corteses,

Por elas, do trilho à beira.”



Bali


Em Bali contam que, à morte,

Almas há mui descontentes,

Recusam largar à sorte

Os corpos ali presentes,

Mormente quando eles vão

Queimar-se em pira no chão.


Almas há recalcitrantes.

Em pública cremação

Vestem os participantes

As vestes da tradição,

Cumprem rituais antigos

A exorcizar inimigos.


Uma dolente alma esquiva

Duma mulher morta cedo,

Cremação definitiva

Recusa ao corpo em degredo

Que lhe houvera pertencido,

Por um fado não cumprido.


Dela a irritação sussurra

De asas em roucos ruídos,

No toiro que salta e urra,

Que a carreta com gemidos

Puxava, tal como quem

Picado é de insectos cem.


Os oficiantes contam

Que os cabelos se moviam,

Os pêlos na barba apontam

Para onde não queriam.

Tentam pegar fogo à lenha,

Logo a apaga o ar que venha.


Foi preciso interromper

A cerimónia letal.

Dum celebrante vão ver

Que das almas o sinal

Descontente entenderia,

Ao que a voz comum dizia.


As almas que rejeitarem

Morte ao corpo que as alberga,

Conta o velho, é de enjeitarem

O karma que ao alto as erga:

O corpo não satisfez

O que devia, de vez.


Agitam-se loucamente

Na esperança apavorada

De que o morto, finalmente,

Retorne à vida passada

E cumpra a tarefa agora

Que a terra dele lhe implora.


Reuniram-se em conselho:

Que fazer? Saber das queixas

De alma que tem preso o artelho,

Remediá-las, com as deixas.

Mas o corpo estava morto:

Como da morte ir ao horto?


O ancião pede que o deixem

Sozinho uma noite inteira

Junto à morta. Que se queixem

Os do Além é o que requeira

Cada oração, cada reza

Cujo segredo ele preza.


Pela manhã declarou

Que das iras de tal alma

Já sabia: desejou

Dum amor colher a palma

Dum vizinho e tal prazer

Recusara o corpo ter.


O brâmane encarregado

Foi de visita a tal homem,

Explicar-lhe aquele fado

Cujas sequelas consomem

O espírito já partido.

O homem fica surpreendido,


Não tinha de tal ideia,

Pois conhecia a mulher

Desde miúdo, na aldeia,

Mas nem sonhara sequer

Que viver pôde tal sina

Duma paixão clandestina.


O religioso pede

Que receba a alma penada,

Se umas horas lhe concede

A mantê-la bem tratada.

Ele vai falar à esposa,

Que é casado e dum lar goza.


Ela fica surpreendida

E por demais inquieta,

Se há uma ligação vivida

Outrora e tida secreta

E que o brâmane informado

Do facto haverá ficado.


Demorou a convencê-la

Que não era nada disto,

Um adultério não vela

Um morto, mesmo benquisto,

O que ali se tem de pôr

Não é sexo mas amor.


O marido se dirige

À casa da mulher morta

(Onde tal alma o exige

E o segue), a ver se a conforta

Aquela friorenta noite

Que lhe oferta onde se acoite.


Amigos e conhecidos

Ficam até madrugada,

Fora apuram os ouvidos,

Mas ninguém logra ouvir nada.

De manhã, o homem saiu,

Ao lar retorna e dormiu.


O funeral recomeça,

A brisa é calma, mui suave,

Erguem-se as chamas depressa,

Sem peias, quais penas de ave...

Tudo finda calcinado

E de almas, mais nenhum dado.



Narciso


Quando Narciso morreu,

As margens, mui desoladas,

Pediram gotas ao rio

Para as lágrimas choradas.

- ”Nem todas as minhas águas

Chorariam tantas mágoas.


Como o amava!” - e o rio chora.

- ”Impossível não o amar!” -

Carpem as margens agora. -

“Como era belo, que olhar!”

- ”Era belo?!” - diz o rio.

- ”Quem melhor que tu tal viu?


Da margem se debruçava

Ele em ti todos os dias

E nas águas contemplava

Suas faces fugidias.”

- ”Ah! Se o amava não era

Por isso” - o rio assevera.


- ”Então porquê?” - ”Porque, quando

Ele ali se debruçava,

Eu podia ver, cantando,

A beleza que agitava

Minhas águas, sem escolhos,

Na fundura de seus olhos.”








































2


Ao Serão de Segunda-feira































Mendigo


Um homem andrajoso, miserável,

Como um mendigo penetrara um dia

De Bagdade no paço do califa.

Na ausência do venerável,

Se atira, sem cortesia,

Do trono para a alcatifa.


Adivinhando o insólito, a real guarda

Não se atrevera a expulsar o intruso.

O camareiro-mor acorre ao caso:

- ”Sabes que ocupas, sem farda,

Um lugar apenas de uso

Do califa em breve prazo?”


- ”Sim, sei.” - ”Sabes quem é o nosso califa?”

-”Estou acima dele.” - ”A inteligência

Perdeste, que a pobreza ta não dá.

Aqui não ganhas a rifa,

Por sobre Sua Excelência

É só Maomé que estará.”


- ”Sei” - disse o desgraçado. - ”E o Profeta

Saberás tu quem é?” - “Sei muito bem,

Estou acima dele.” Erguem as armas

Que o desplante despoleta

Os guardas que se mal têm.

- ”Deixem, que após ireis dar-mas” -


É o camareiro-mor que mais ajunta:

- ”Acima de Maomé só vive Deus.”

- “Sei” - responde o mendigo. - ”E Deus morreu?!”

- ”Acima estou, se é pergunta.”

- ”Pois nada acima há nos céus!”

- ”Claro! E tal nada sou eu!”



Odor


Um pobre come pão seco

Em frente dum grelhador

De avaro churrasco e peco.

Quer cobrar-lhe o dono o odor,


Recusa o pobre e um juiz

Vem decidir a querela.

Uma moeda que condiz

Com o custo da tabela


Joga ao chão do restaurante

E ao dono diz que ali queda:

- ”Paga-te com, doravante,

O barulho da moeda.”



S. Clemente


De Alexandria S. Clemente

Diz que um egípcio combinado

A soma certa, mui contente

Tinha por ter o favor grado


Da cortesã mais glamorosa.

As condições aceitam ambos,

Combinam bem hora amorosa,

Ele a fremir já de pés bambos.


Mas, entretanto, o jovem sonha

Que tinha obtido da moçoila

Todo o prazer que se suponha,

Drogado em sono de papoila.


Todo o prazer então gozou

Mui solitário, noite fora.

Já satisfeito, ele acordou,

Quer cancelar o encontro agora.


A cortesã disto discorda,

Manda intimá-lo e vai ao rei

Bocóris ver com quem concorda.

E ele decide em sábia lei:


A cortesã deve ser paga,

Porém de certa forma nova.

Ao sol a bolsa que o réu traga

Esvaziou, boa-fé prova:


- ”Mas ela fica, o mais lhe vedas,

Só com a sombra das moedas.”



Molho


No Zaire, um homem idoso

Avança penosamente

Por caminho pedregoso,

De lenha um molho pendente

Às costas, rumo à sanzala,

Apoiado na bengala.


Pára a recobrar alento

E pousa o molho no chão

Dele ao lado, lento e lento.

Diz na pausa ao molho então:

-”Não aguento... Toda a vida

Molhos carrego em seguida.


Contente, quando era jovem;

Sem esforço, homem maduro,

Agora, que mal me movem

Os meus passos, de inseguro,

Das forças este resquício,

Ao levar-te, é já um suplício.”


De repente, ouve uma voz

Que lhe vem da lenha e diz:

- ”Ouves-me? Ouves tu, a sós?”

- ”Quem fala? Será um juiz?!”

- ”Sou eu” - responde-lhe o molho. -

“Ao lado estou, não me encolho.”


- ”És um molho então falante?”

- ”Não muitas vezes, mas hoje

Ouvi-te, por um instante,

A queixa que de ti foge.

Um molho de lenha, a par

De tal, pode então falar.”


- ”E que me queres dizer?”

- ”Se tu, para me levar,

Cansado estás de morrer,

Às minhas costas trepar

Deves, que eu levo-te a ti,

Como a mim tu até aqui.”


- ”E tu podes fazer isso?!”

- ”Pois claro, se to proponho!”

E, como que por enguiço,

O velho vê, como em sonho,

O molho a se levantar,

Ficar de pé no lugar.


Apoia-se em quatro galhos

Que mexem debaixo dele

Como perninhas sem talhos.

- ”Vais a andar!” - o velho expele.

- ”Agarra-te a mim sem medo,

Que eu levo, fim do degredo.”


- ”Certo estás de me levar?”

- ”Muito tempo me levaste,

Está na vez de eu prestar

Serviço igual quanto baste.”

O molho ligeiramente

Se inclina então para a frente.


O velho, contra o receio,

Se instala o melhor que pode

Da ramagem pelo meio,

Pés num galho que não rode,

Braços a agarrar-se bem,

Face entre as folhas que tem.


- ”Estás bem?” - pergunta o molho.

- ”Muito bem!” - retruca o velho.

- ”Cuidado enquanto recolho

O bordão de bom conselho.”

Põe-se então a caminhar

Trilho fora sem parar.


Os ramos um pouco estalam

Mas o todo aguenta bem.

Os pés das lenhas abalam

Carregando o velho além.

Fecha os olhos, em repouso,

Sorrindo, o velho, com gozo.


Durante um tempo, avançaram.

De repente, há uma mudança

No andamento que levaram.

O velho olha e quanto alcança

É que não vão no caminho,

Mas no matagal vizinho.


- ”Não estamos no caminho!” -

Grita o velho ali, zarolho. -

“Já não vamos, adivinho,

Para a aldeia” - impreca ao molho.

- ”Porque iria para a aldeia?” -

Diz o molho. - “Qual a ideia?”


- ”Porque é na aldeia que eu moro,

Lá que vive a minha gente,

Que vê se não me demoro,

Que a noite cai de repente.

Estarão à minha espera

Antes da hora da fera.”


- ”Tu tens medo, tu, das feras?!”

- ”Naturalmente que tenho,

Todos, em todas as eras,

Temem o seu arreganho.”

- ”De feras não tenho medo” -

Murmura o molho em segredo.


- ”De que é que tens medo então?!”

- ”Tenho dos homens,” - responde -

“Do destino que me dão

Na sanzala, se for onde

Eu te levar. É que sei

O destino que terei:


Minhas folhas a comer

Dás às cabras e carneiros,

Vão-me em gravetos fazer,

Que queimam melhor que inteiros.

Isto é que os molhos de lenha

Temerão que lhes advenha.”


- ”Para onde então me levas?”

- ”Ias-me levar à aldeia.

Faço o mesmo, antes das trevas:

Levo-te, floresta meia,

Para o lar onde nasci:

Minha gente vive ali.”


- ”Que vais fazer? Vais queimar-me?!”

-”Porque havia de queimar?

Pegar fogo, se tal arme,

À minha família e lar?

Vou largar-te na floresta,

Que a fera faça o que resta.”


- ”Na floresta não me deixes,

Que das feras tenho medo.

Deixa-me descer dos feixes!”

Logo o molho pára quedo,

O velho desce depressa,

Pisa o chão, de mente avessa.


Fica olhando para o molho

E o molho a olhar para ele,

Olhos de pau sem sobrrolho,

Casca seca em vez de pele.

Cai lento o Sol no horizonte

E há já feras que se aponte.


- ”Que fazer?” - pergunta o velho.

- ”Agora?” - do molho a voz

É sopro a esvair do espelho,

Vida a se apagar a sós. -

“Já não sirvo para nada,

Leva-me em tua jornada.”


- ”Achas?” - o velho pergunta.

- ”Rápido!” - o molho responde.

O velho depressa junta

Os galhos, o medo esconde,

E às costas, com a bengala,

O leva para a sanzala.


O mais depressa que pode

Caminha nas velhas pernas.

No atraso ninguém lhe acode,

Adormece das luzernas

Com as pálpebras pesadas.

Mas não pára. A noite cai,

Vê cada estrela que sai.


Não vai pensar nos joelhos,

Vão cada vez mais doridos,

Arqueja, cedem artelhos,

Os ombros já vão feridos,

Porém, curiosamente,

Na fadiga segue em frente.


Sabe que o repouso o espera,

Ao longe viu uma luz,

A aldeia não é quimera,

Família e todos traduz,

Prontos para o receber

Quando além aparecer.


- ”Estás zangado comigo?” -

Pergunta ao molho silente. -

“Não estás? De eu pôr-me a abrigo?...”

O molho de lenha, ausente,

Dele às costas, já sem vida,

É o silêncio em despedida.



Hassidismo


Um rabino muito jovem

Foi a um mestre do hassidismo.

- ”Quem és tu?” - e mal se movem

Do mestre os lábios de abismo.


- ”O neto sou do rabino...”

- ”Não te perguntei quem era” -

Corta o mestre, de ar ladino -

“O avô que no lar te espera.


Pergunto então outra vez:

Quem és tu? Sabes quem és?...”



Apanha


Quando Nasredim passeia

Com o amigo, este se abaixa,

O espelho apanha que ameia

Num canto, partida a caixa.


- ”Julgo que conheço este homem” -

Ao se ver no espelho diz.

Logo leva a que as mãos tomem

De Nasredim, mui feliz,


O espelho em gesto adivinho.

Olha nele o rosto seu

E comenta: -”Que espertinho!...

Claro, conheces: sou eu!”



Génio


Salomão aprisiona

Num pote de cobre um génio,

Do fundo do mar o adona,

De ondas lhe cobre o proscénio.


O génio enriquecer

Jura quem o libertar.

Cem anos vão decorrer

E ninguém a o procurar.


Jura que ao libertador

De quanto tesoiro houver

No mundo fará senhor.

Cem anos: nada a ocorrer.


Jura então os três desejos

Do libertador cumprir.

Mais cem anos e dos brejos

Ninguém vem-lhe a tampa abrir.


Os séculos vão passando.

E o génio jura (é a verdade)

Que irá matar, judiando,

Quem lhe der a liberdade.



Encontram-se


Encontram-se dois um dia

Na praça duma cidade.

- Ӄs tu?! Mas quem o diria?!

Não vinha à espera, em verdade,


De te ver, mudaste tanto!

Tinhas o cabelo claro,

Hoje é moreno, que encanto!

É dum preto muito raro...”


O outro quer retorquir,

Este, porém, não o deixa

E continua, a sorrir:

-”Eras alto, uma fateixa,


Hoje ao meu ombro mal chegas!

Que aconteceu entretanto?”

O outro, em gestos de mãos cegas,

Tenta desfazer o encanto,


Mas o primeiro retoma:

- ”E a cicatriz aí na testa

Apagaste-a com a goma

Como a texto que não presta?”


E, sem esperar resposta,

Acrescentou: - ”Francamente,

Simão, queres uma aposta?

Mal te conheci, parente.”


- ”Eu não me chamo Simão” -

Consegue dizer, por fim,

O outro, interdito. - “Ai não?!

Também muda o nome assim?!”



Distraído


Era um homem distraído.

À hora de se deitar

É só roupa a se espalhar.

De manhã, sono volvido,

Já nada logra encontrar.


Anota então num papel

Os diversos cantos onde

Põe a roupa que se esconde

Como um rebanho em tropel.

Perde papéis quanto bonde...


Escreve em papel segundo

Qual o lugar do primeiro.

Perde o segundo, pioneiro

Doutros, encadeado fundo.

Nem com lembrete sineiro!


Combina os métodos todos

E, em manhã determinada,

É toda a roupa encontrada.

Do dia é o melhor dos bodos.

Da voz do imo há uma chamada,


Bem de dentro (quem responde?):

-”E tu? Onde estás tu, onde?”



Termos


Nasredim encontra um homem

Que não conhece na rua,

Que diz (termos que o consomem):

- ”Bênçãos na cabeça tua!”


Nasredim, surpreendido,

Pergunta ao homem, de lado:

- ”Quem é que tens no sentido?”

E o outro, desconcertado:


- ”Falo contigo, porquê?”

- ”Então sabes quem eu sou?”

- ”Não...” - admite o outro, ao pé.

- ”Nem quem sou nem onde vou


Sabes tu, na tua crença.

Que te faz pensar que actua,

Que haverá que te convença

Que é minha tal bênção tua?”



Porta


Nasredim, ao ir de casa,

Deixa sempre a porta aberta.

Mal torna, num golpe de asa,

Tranca tudo a hora certa.


Qual a razão da atitude?

- ”Muito simples. Nada tenho,

O bem de maior virtude

Sou eu próprio. Quando venho,


Seja o motivo qual seja,

É normal que me proteja.”



Sábio


Um sábio muito eminente

Do Afeganistão viera

Da invasão mongol premente

A fugir, tal duma fera.


Foi recebido em letrado

Círculo havido em Damasco.

Dele em honra organizado

Houve encontro, vinho em casco,


Com poetas, tradutores,

Com cristãos, maometanos,

Físicos, comentadores,

Judeus mesmo, até ciganos...


Discursou o presidente,

Louvou o labor insano,

Todo o saber eminente

Do grande homem, homem do ano.


E chegou mesmo a dizer:

- ”Eis entre nós o mais sábio

Dos sábios que o mundo houver

Desde Aristóteles. Sabe-o


Quem dele ouvir as lições.”

Pensa o sábio, lá com ele:

- ”Cá está. Já tem restrições...”

E fechou-se em sua pele.



Psiquiatra


Ao psiquiatra vai um homem

E fala de seus problemas.

Mil tristezas o consomem,

É abatido que ouve lemas,


Nada o retém nem importa

E a melancolia plena

Quem o rodeia a suporta,

Sempre a aturar-lhe tal cena.


- ”E viajar, já tentou?” -

Pergunta o médico após.

- ”A viajar sempre estou,

Viajo toda a vida a sós.”


- ”Não vejo nada de grave.

Preciso é dar-lhe o abanão,

A se interessar, suave,

No que toque o coração.


Olhe lá, se ao circo for?”

- ”Ao circo?!” - ”É que há lá um palhaço,

O Grock, um grande senhor,

É de rir a par a passo.


Decerto far-lhe-ia bem.”

- ”Não posso.” - ”Porquê? Já viu,

Ajude um pouco também...”

- ”É porque o Grock sou eu.”



Al-Mokri


Al-Mokri, o mestre islâmico,

Empreende longa viagem

Ao Egipto panorâmico,

Pérsia e África selvagem...


Uma década passou

Numa Ispahan, a mongol,

Que sufi sempre ficou.

Da poesia persa o rol,


A mais bela então do mundo,

Percorre em deslumbramento.

Em reputação fecundo,

Reclamam-lhe o ensinamento.


Da Pérsia vem à Turquia,

Aos dervixes rodopiantes,

Na cidade de Konya.

Auditórios expectantes


Vêm beber-lhe a palavra.

Escreveu vários relatos,

Selectas de sua lavra

Que os copistas, com recatos,


Transmitem mui fielmente

Ao mundo então conhecido.

De quem Rumi tem em mente

É exegeta preferido.


Chega a ser-lhe atribuído

Um saber super-humano

Já de magia tingido,

De fados de anjos arcano.


Com poderes invisíveis

Tem contacto permanente,

Curas pratica impossíveis,

É o milagre aqui presente.


Na Turquia, após seis anos,

O Bósforo atravessou,

Vive na Grécia sem danos,

Por fim à Itália chegou.


Vamos encontrá-lo em Roma,

Muito próximo da Cúria,

A ponto dos de Mafoma

O crerem converso, em fúria.


Mas não ficou por aqui,

A mais viagens procedeu.

Relatos, se houver daí,

O registo se perdeu.


Vinte e oito anos de ausente

Levam-no a casa, por fim.

Como incógnito é presente,

Sem se anunciar, assim,


Que não quer ajuntamentos

De curiosos vazios.

Mas no lar não há elementos,

Ninguém, os leitos são frios.


Mas, para grande surpresa,

Célebre é seu nome ali,

Em toda a parte ele pesa,

Referência ou alibi.


Todos os livreiros têm

Infinitas obras suas,

Ignotas dele também,

De terras, casas e ruas


Relatos imaginários,

Encontros inexequíveis

Com reis de Universos vários,

Com falecidos incríveis


De antes de ele ter nascido,

Travessias de dragões

Que um fantasma há percorrido...

Tentou chamar de ilusões


Aos manuscritos falseados,

Já que visitado tinha

Do mundo os cantos tratados,

Mas logo a resposta vinha:


- ”Al-Mokri foi quem o disse...”

Ir de cidade em cidade

Fez que isto se repetisse,

É o critério da verdade.


Até que ele perguntou:

- ”Mas onde mora Al-Mokri?

Posso ir vê-lo donde estou?”

Olham de surprresa ali,


Tal se a questão fora estranha.

Fica a saber que morrera

Anos atrás, quando apanha

Rumo à terra onde nascera.


Toda a gente o garantia,

De quê, ninguém sabe ao certo.

Alguém mesmo aventaria

Punhal ou veneno perto.


Por uns anjos, outros contam,

Elevado fora ao céu.

E o túmulo? Logo apontam

Da tumba o recanto seu,


Altamente venerado.

Ali vinha prosternar-se

O peregrino enfadado,

A flor lançando em disfarce.


Al-Mokri seguiu caminho.

Em qualquer outra cidade,

Tudo igual e ele sozinho:

Obra apócrifa, inverdade,


De milagres mil relatos,

Cantorias de louvores

E outra tumba com impactos

De visitas e penhores.


Só tumbas, vê mais de doze.

Quando quer informações

De si, retalhos que cose,

Nenhum traz recordações


Da vida que ele vivera,

Não há nenhuma verdade:

Na China até combatera

Demónios que a humanidade


Comem, como a sombra errante

De Alexandre um gole de água

Lhe pede, por um instante,

Para lhe esfriar a mágoa...


Vive ainda nesta era,

Porém, uma lenda viva

Da vida se lhe apodera,

Todos a falar de outiva.


A vida dele se torna

A dum sábio, a dum santo,

A dum milagreiro à jorna,

Quase divino, entretanto.


Várias cidades e aldeias

A honra entre si disputam

De berço dele, em mil teias.

Cantos, árias executam


A levar de terra em terra

Longínquos sonhos de viagem,

Tão longe que o santo aterra

Na fímbria que faz triagem


Entre abismo e fim do mundo,

Onde debruçado aspira

Do inferno o amargor profundo,

O enxofre em rajadas de ira.


Atribuem-lhe o que nunca

Pensara, factos e gestos

Milhentos que a lenda junca,

Ritos, orações, aprestos


Cantam longos dele o nome.

Há dezenas de famílias

Que a dele são, com renome,

Disputam-no em mil quezílias,


Chegam a tirar proveito,

Sem escrúpulo, dos laços,

Quando o assassínio dá jeito,

Matam sem mais embaraço.


Al-Mokri quer combater

Tal efeito irracional,

Discípulos a dizer

Que são dele, a bem ou mal.


Sem se atrever a afirmar

Que ele próprio é o Al-Mokri

(Quem iria acreditar?),

Diz: - ”Muitas vezes o vi,


Era notável, decerto,

Contudo era mais comum,

Mais banal, de nós mais perto

Que a imagem de lado algum.”


Aqueles a quem falava

Viravam costas, troçavam,

Ninguém ouvidos lhe dava,

Muitos até o insultavam,


Chamavam-no de blasfemo,

Gabarola ou invejoso:

É mesquinho como o demo

Apoucar ser tão grandioso.


Foi o que o mais perturbou.

Vai juntar-se aos peregrinos,

Tumba a tumba visitou

A salmodiar loas, hinos...


Cada vez falava menos.

Às vezes tinha a impressão

Duma memória com drenos

A esparramar-se no chão.


Tais pedras toscas dum muro

Que se desagregam, caem:

Konya não é seguro,

De Ispahan entram ou saem?


Na cabeça obnubilada

Os nomes se confundiam:

Em Roma fez uma estada,

Quem são os que lá viviam?


Os pontos de referência

Da existência vagabunda

Foram perdendo evidência,

Obras, nomes, tudo afunda.


Uma noite deslocou-se

Junto duma tumba sua,

Deu-lhe a volta, prosternou-se,

Ignora quem nele actua.


Voltou lá frequentemente.

Uma manhã encontraram

Rígido o corpo fremente

E de imediato o levaram


Para fora da cidade

Onde o enterraram num canto.

O deserto logo o invade,

Nada mais restou do santo.



Ladrão


Um ladrão introduziu-se

Em casa de Nasredim.

Nada encontrou que se visse

Para lá furtar, ao fim.


Numa qualquer arca a um canto

Repara, vai-a pilhar.

Mas lá dentro, em grande pranto,

Vê Nasredim a chorar.


- ”Que fazes aí?” - pergunta.

- ”Escondo a minha vergonha.”

- ”De que tens vergonha?” - junta.

- ”De não ter nada que ponha


De roubar em minha casa,

Onde encontres um bom porto.

Crê que a misériaa me arrasa,

Estou de vergonha morto!”



Conquistador


Um conquistador avança

Pela terra devastada.

Todos fogem do que alcança,

Senão cortam-nos à espada.


Em toda a parte, um vazio.

Entra à porta dum mosteiro,

Cruza o pátio com fastio,

Nas celas só resta o cheiro...


Mas, de repente, detém-se:

Eis um monge ali sentado,

Calmo, imóvel, tal quem vence.

O conquistador, irado,


Para o monge avança então

Que o parecia não ver,

Puxa o sabre com a mão,

Na garganta do esmoler


Assenta o gume e lhe diz:

- ”Querer-me-á desafiar?

Quem sou não sabe o infeliz?

E que o posso trespassar


Sem pestanejar sequer?”

O monge os olhos abriu,

Pronto ao que der e vier,

E tranquilo respondeu:


-”E tu não sabes quem sou?

Não vês que me trespassar

Posso deixar-me onde estou

Sem sequer pestanejar?”



Igual


Nasredim vai ao mercado,

Uma grande melancia

Sob cada braço arqueado.


À frente dele seguia,

Caminhando em passo igual,

Outro que também trazia


Duas melancias, qual

Delas a mais bem criada.

Dele a roupa é, por sinal,


Igual à do outro na estrada,

Tem a mesma corpulência...

- ”Quem é aquele?” - a si, de entrada


Espanta a coincidência,

Acelera o passo então

Mas o outro, em precedência,


Faz o mesmo pelo chão,

Nasredim só vê umas costas.

- ”E se for eu?” - é a questão. -


“É que, se não sou, que apostas

Há de quem poderá ser?”

Acelera nas congostas,


Tudo em vão. Parou a ver.

Renuncia a defrontar

Este ignoto que é quenquer.


A si finda a explicar:

- ”Frente a mim se ando a correr,

Que é que adianta me apanhar?”



Batem


Batem à porta. À pergunta

“Quem é?” - respondem - “Sou eu!”.

Hodja, abrindo a porta, assunta

Quem é aquele amigo seu.

Só que, interdito, lhe ajunta:

- ”Mas porque dizes que és eu?!”



Perderam


Dois iranianos se perderam no deserto,

Há vários dias caminham sob o ardor,

Comer não têm, de beber não há por perto,

Vão esgotados, tombam, erguem-se e, ao calor,


De novo tombam. Leva um saco ao ombro um deles

Que algo contém. - ”Que é que tu levas no teu saco?”

- ”Nada” - responde-lhe obstinado e com ar reles

O portador, nada propenso a dar cavaco.


Caem de novo, já se arrastam, já não podem

Mais levantar-se. Igual pergunta se repete:

- ”Que é que no saco, afinal, tens? Coisas que acodem?”

O homem do saco a confessar finda em falsete:


- ”É melancia...” - ”Melancia?! Uma deveras?!”

- ”Sim...” - ”Vá, depressa! Urge parti-la, é de comer!”

- ”Não!” - o do saco, olhos fechados, nas esperas,

“Estou guardando-a” - diz e mais: diz que não quer.


- ”Mas a guardá-la para quê?!” - quer o outro ver.

- ”Para um extremo caso” - diz ele ao morrer.



Diabetes


Preso por reincidente

De escândalo em via pública

E desrespeito ao agente

Que tentou, cordato, a súplica,


Um cinquentão ao juiz

É presente, mui bem posto,

Distinto, com ar feliz,

Óculos de oiro no rosto.


O magistrado, surpreso,

Comenta . - ”Não posso crer

Que alguém tão fino e tão teso

Desacate, ao fim, quenquer.”


-Ӄ porque, senhor juiz,

Eu diabético sou.”

- ”Não vejo o laço que diz

Haver ao que se passou.


Afinal, que é que a diabetes

Tem a ver com tudo isto?”

- ”Ah! Ladrão que me acometes,

Sacana de juiz malquisto!” -


Exclama, a bater o pé,

Aos berros, em fúria, o homem. -

“Besta de juiz é o que é,

Que as questões que me consomem


Retoma: como as repetes

Sobre a minha diabetes?!...”



Loucamente


Um adulto desejava

Loucamentte uma mulher.

A classe alta ele ostentava,

Mesmo assim ela enjeitava,

Tal se ele fora um qualquer.


Mensagem após mensagem,

Persistente, ele enviava,

Seguia-a toda a viagem,

Metia-se com coragem

Ao caminho onde a encontrava.


Mandou-lhe ela um mensageiro:

- ”De meu corpo por que parte

Te prendeste por inteiro?”

Responde ele, lisonjeiro:

- ”Por um olho a assinalar-te.”


Então ela um olho arranca,

Envia-o numa bandeja

Ao homem que o gesto espanca:

- ”Eis o olho, bem o tranca,

Olha-o com senso que o veja!”


Imediata foi a cura

Deste homem apaixonado

Cujo amor logo é secura.

De importunar não mais cura

Da indómita dama o fado.



Duquesa


Da duquesa a lengalenga

Afirma que a classe baixa

É preguiçosa, molenga.

(E ela nem um dia encaixa

De trabalho em toda a vida,

A comparar a medida...)


Que cada trabalhador

Tem um miúdo a ajudar

A transportar com suor

A ferramenta de obrar.

- ”Um homem pode, decerto,

Transportá-la sem aperto” -


Protesta, enquanto o criado

Segura a travessa de oiro

Para servi-la do enfado

Das batatas de tom loiro.

Ao beber o quarto copo

De vinho, então trepa ao topo:


- ”Bebem tanto ao meio-dia

Que incapazes são de tarde.

Esta gente o que queria

É apaparico covarde.”

Entretanto, dez criados

Servem doze cozinhados.


- ”O Governo não tem nada

Que auxiliar a pobreza.

Qual remédio, casa dada,

Qual pensão ao que a despreza?

Os pobres são mais frugais,

Virtude das principais.”


Isto após a refeição

Que teria alimentado

Quinze, com satisfação,

Uns dez dias por contado,

Da classe trabalhadora

Que a duquesa, claro, adora...


- ”As gentes devem contar

Com elas próprias apenas” -

E o mordomo a levantar

A ajuda, com mãos serenas,

E a se dirigir à sala:

Em seu trono nada a abala!



Pavlova


Anna Pavlova, a bailarina,

Teve um triunfo, em espectáculo,

Que foi lendário, como sina

Que a consagrou num tabernáculo:

A sala aplaude em frenesim

Por tempo, em pé, que não tem fim.


Agradecer veio mil vezes,

Recebe ramos às dezenas,

Sorriu, fez vénias mui corteses

Aos gentis fãs naquelas cenas.

O pano desce finalmente.

Ora, os amigos vão à frente


Do camarim, à espera dela

Para a rodear, mais aplaudir.

Um quarto passa, não há estrela,

Meia, uma hora, e ela sem vir!

Vai um amigo ao camarim.

Anna Pavlova, a sós, enfim,


Lavada em lágrimas encontra:

Chorando estava há uma hora.

- ”Não há razão, que é que tem contra?

Que grande noite! Porque chora?”

- ”É que não tenho em mim sentido

Tê-la deveras merecido.”



Bicicletas


Um judeuzito precisou

De ir a Mosscovo de comboio.

Preocupado se esgueirou

(Há muito que andam trigo e joio


A separar, ao persegui-los,

Aos judeus ditos), se aninhou

Num canto esconso, dos tranquilos:

- ”Despercebido a ver se vou...”


Pára o comboio na estação,

Trepa um cossaco à carruagem

Que, ao se sentar, exclama, chão:

- ”Fora os judeus! Que malandragem!


São sempre a causa dos problemas,

Deles por mor, há fome e guerra,

Traem-nos. Tiram oiro e gemas...

Com eles fora é o céu na terra!”


Avista então o judeuzito

Enfiado ao canto e lhe pergunta:

- ”Não é verdade o que aqui dito,

Que os judeus são desgraça junta?”


Com voz tremente, o judeu diz:

- ”São eles mais as bicicletas.”

Coça o cossaco o seu nariz,

Interdito ante estoutras setas.


Com um suspiro - “Mas porquê

As bicicletas?!” - olha os céus.

O judeuzito (mal se vê)

Pergunta então: - ”Porquê os judeus?”



Murmuram


- ”Murmuram que irão prender

Os judeus mais os barbeiros.”

- ”Porquê os barbeiros?!” - dizer

Ouves logo os teus parceiros.



Racista


- ”Racista?! Tenham decoro,

Que eu já sou avô de netos!

Mesmo até porque eu adoro

Os estúpidos dos pretos!”



Eczema


Sofre um homem dum eczema,

Vai a um dermatologista.

Examina-o, como é lema,

Diz-lhe ao fim, completa a lista:


- ”Vou livrá-lo de vez disto.

Irá pôr esta pomada

Três vezes por dia, insisto,

Fica a cura consumada.”


- ”De certeza?” - “Certamente.

O eczema numa semana

Desaparece, é um repente.”

Receita que o não engana


Dobra o doente e ao bolso a mete.

Contudo, sai descontente

E o médico se intromete:

- ”Algo está mal, é o que sente?”


- ”Está tudo muito bem.”

- ”Vá lá, diga, algum aspecto

Não ficou como convém...”

- ”É que...” - diz o doente, recto -

“Onde é que após vou buscar

O prazer de me coçar?”



Comunista


É na Rússia comunista,

País onde falta tudo.

Formam fila, em mãos a lista,

Frente a um armazém sortudo:

Acaba de anunciar

Que há carne mesmo a chegar.


Muito tempo a espera dura,

Até que, a dado momento,

O agente, má catadura,

Ordena sem sentimento:

- ”Judeus, fora! Judeus, fora!”

E vão-se os judeus embora.


Os outros ficam, batendo

Os pés por causa do frio,

Durante a noite. Mas vendo

Da manhã luzir um fio,

Logo - “Fora” - o agente diz -

“Aos não russos de raiz!”


Bielorrussos, ucranianos,

Georgianos e outros mais

Saem da fila de enganos.

No fim do dia os sinais

São que outra expulsão se apraza:

- ”Já podem ir para casa


Os que não são do Partido,

Não chegará para eles.”

Restam como que em sentido

Os puros e só aqueles.

Então vem um dirigente

E confessa-lhes de frente:


- ”Também podem ir-se embora,

Não há carne no armazém

Agora ou a qualquer hora,

E nenhum dia nos vem.

Foi tudo publicidade

A levantar, na verdade,


O moral da esfomeada

População do país.”

Da fila então dispersada

Diz alguém, torto o nariz:

- ”Os judeus, judeus danados,

Sempre privilegiados!”



Sufis


Em casa dum turco rico

Sete sufis se reúnem.

Ele tenta-lhes o bico,

Petiscos que se coadunem,

E eles em nada tocavam:

Meditação nova travam.


Jejuam diversos dias

De seguida, de tal modo

Que ao anfitrião porfias

Tais preocupam-no todo,

Até um amigo dizer:

- ”Sei como os pôr a comer.


Traz em grande quantidade

A necessária comida,

Depois esvazia a herdade,

Todos fora, de seguida.

E sai tu próprio de vez.”

Ora, o homem assim fez.


Serviu pratos variados,

De vinte ou trinta convivas,

A família e os criados

Manda embora, que as festivas

Horas pertencem aos santos,

Todos lhes deixa os recantos.


Porém, desaparecer

Não quis e, num quarto escuro,

Pôs-se a espiar para ver

Dos sufis qual é o apuro.

Quando cuidam que sozinhos

Estão, então quais cadinhos


De fé, de meditação!

Atiraram-se à comida,

Infrene empanturração,

Lambarice desmedida,

A ponto de os insensatos

Lamberem também os pratos!


Ora, com tal tratamento,

Um deles, em dor atroz,

Cai por terra e é o finamento.

Os mais, qual o mais veloz,

Continuam, sem ligar,

Somente a se empanturrar.


Um segundo cai por terra,

Depois um terceiro, ao lado,

Um quarto mais longe aterra,

Um após outro, enfartado,

Sem nunca soltar a garra,

Vítima da grande farra.


Quando só restava apenas

Deles um sobrevivente,

O dono que armou as cenas

Vem como da rua em frente.

Vê seis corpos lá no chão,

Pratos vazios, e então


Perguntou ao que escapou

Se a comida era bastante.

- ”Não” - o sufi retrucou -

“Faltou alguma, ao restante,

Senão eu, que a tantto exorto,

Também já estaria morto.”



Moradia


Uma bela moradia

Ergue na Índia um ricaço,

No cimo dum monte, um dia.

Quando fica pronto o espaço,


Rebenta uma tempestade

Com proporrções de ciclone.

O dono se persuade

A impetrar quem o abone,


Um sacrifício oferece

A Vayu, ao deus dos ventos.

A casa que ele estremece,

De sonho lugar de eventos,


Pede-lhe que não destrua.

Vayu, porém, não o ouviu

E a tempestade na rua

Ainda mais recrudesceu.


Lembra o homem que Hanuman,

O deus-macaco, era filho

Do deus do vento. A manhã

Rompe atando ele o cadilho


Das súplicas, garantindo

Que a casa era uma pertença

Do filho do deus tão lindo.

O deus é surdo à sentença.


De todo o lado batida,

Até o alicerce a casa

Estremecia, fendida,

De ave partida qual asa.


E o homem, em desespero:

- ”Senhor, Senhor, piedade!

Não destruas este esmero

De casa, propriedade


Do próprio Rama, o grão-mestre

De teu filho, de Hanuman.”

E ao vento nada há que amestre,

Tudo arrasa em terra chã,


Vai tudo desmoronar-se.

Então, a salvar a vida,

Corre o rico até que esgarce

A véstia feita à medida.


Maldisse todos os deuses

E, após meditar, exclama:

-”Que a arrasem estes reveses,

Que ma espalhem pela lama!


Bem vistas todas as coisas,

Bem ponderado este enguiço,

Não me inscrevo nestas loisas,

- Que tenho eu a ver com isso?”



Lágrimas


Hodja vê chegar a casa,

Toda em lágrimas, a filha

Que lhe conta como a arrasa

De pancada o bigorrilha


Do homem com quem casou.

Algo pede que o pai faça.

Logo ele a esbofeteou

E lhe impôs por nova traça:


- ”Volta agora a tua casa!”

Como não compreendia,

Perguntou-lhe, o rosto em brasa:

- ”Batem-me então todo o dia?!


Queixo-me de me baterem

E tu bates-me também?!

Queres que assim me venerem?!”

- ”Volta a casa, é o que convém!


Quem cuida o teu homem que é?

Em minha filha a bater?!

Vai-lhe dizer, bem ao pé,

Que eu lhe bati na mulher.”



Feira


Num dia de feira, à praça

Chega, tonto, Nasredim,

Onde a barafunda abraça

Carregadores sem fim,


Cambistas e carroceiros,

Compradores, vendedores...

É multidão de parceiros,

O rebotalho, os senhores,


Homens, animais, mulheres

Que vão e vêm, se cruzam,

Se acotovelam nos teres,

Se insultam quando se abusam...


Sacas de trigo se viram,

Carroças se desconjuntam,

Ladrões, escusos, retiram,

Balem cordeiros, mãos se untam...


No meio desta desordem,

Barulhenta actividade,

Nasredim que os gritos mordem

Se esgueira em dificuldade.


De repente, aos pés avista

Uma moeda perdida.

Apanha-a e, feito alpinista,

Trepa à casa ao lado erguida


E grita, brandindo a moeda:

- ”Ei! Parem com o alvoroço!

Não vale mais que suceda:

Eis a moeda: dá-la posso


A quem a tiver perdido.

Parem lá com o alarido!”



Mandarim


Em tempos que já lá vão

Na China houve um mandarim

Que de amor tombou em vão

Por cortesã nada afim.

Solicita ardentemente

Dela o favor. Renitente


Diz-lhe ela: -”Me entregarei

A ti depois de passares

Cem noites no jardim que hei,

À minha espera, e sentares

Num banco sob a janela

Que é minha, florida e bela.”


O mandarim conhecia

Da rapariga o feitio.

Aceitou e, de noite, ia

Sentar num banquinho, ao frio,

Sob a janela da dama.

Que é que não fará quem ama?


Ora, a cortesã se dava

A uma vida de folguedos,

Só futilidade amava.

De tal vida, sem segredos,

Se propagavam os ecos:

No jardim não eram pecos.


Age assim o mandarim

Por noventa e nove noites.

De manhã ergueu-se, enfim,

Pega o banco das sonoites,

Foi-se embora, ao dealbar,

Para nunca mais voltar.



Dante


É Dante um dia abordado

Por alguém desconhecido:

- ”Qual é o melhor cozinhado,

Mundo fora conseguido?”


- ”Um ovo” - sem se voltar

Dante respondeu, mui breve.

Cinco anos se vão passar...

O mesmo homem que lá esteve


Cruzou por perto de Dante

Em outra rua qualquer.

- ”Com quê?” - lhe pergunta, instante

- ”Com sal” - eis Dante a dizer.


De Dante não é uma glória,

É apenas boa memória.



Tédio


Um rei, muito aborrecido

Do tédio da vida fútil,

Pede que tomem sentido

Nalguma façanha útil,

Que encontrem alguém capaz

De algo que mais ninguém faz.


Os emissários procuram

E acabam trazendo um homem

Que de longe – é o que asseguram -

Lança um fio que as mãos domem,

Fá-lo passar, sem mais bulha,

No buraco duma agulha.


Portento inimaginável,

Tal homem o executou

Ante o rei, corte infindável,

Muitas vezes o provou...

Dá-lhe o rei cem moedas de oiro

Mais cem açoites de coiro.


- ”Mas porquê cem vergastadas?” -

Pergunta o homem, aflito.

- ”As moedas de oiro são dadas

À façanha que, acredito,

Ninguém, em nenhum lugar,

Será capaz de imitar.


As vergastadas, a par,

Que irás aqui receber

São para te castigar

De tanto tempo perder

A atingir com tal quilate

Semelhante disparate.”



Nichapur


Nichapur. Um mercador

Que teria de ir à China

Em negócios, por um ror

De tempo, a confiar se inclina

Uma escrava muito bela

A um amigo: - ”Tento nela!”


Tal amigo recebeu

A jovem (dezassete anos),

Do seu melhor procedeu,

A agradar, sem causar danos,

Porém, sempre a vigiar

Como prometera obrar.


A partir deste momento

Perdeu a calma e o sono.

Não pensa em nenhum evento,

Só na moça que tem dono.

Seu perfume persistente

Segue-o permanentemente.


Quanto admira dela a graça,

O sorriso, os finos pés,

O braço que o não abraça!

Ela olha-o triste, talvez,

O que a ele turva a reza,

Porém serve-o com destreza.


Como, contudo, era escrava,

Teria podido usá-la,

Dela abusar, nada o entrava.

Mas dele a fé não abala,

Licenciosidades, não

Tolera em seu coração.


Quando ocorria sonhar

Que à jovem rouba prazer,

Pelo alvor, ao levantar,

Por castigo merecer,

Fustiga-se à chicotada

Toda inteira a madrugada.


Um dia em que o massajava

Após o banho, ela viu

Os vergões que ele ostentava

Nos ombros e lhe inquiriu

Que era aquilo. Só um resmungo

Deu a entender que era um fungo.


A partir daí recusa

O cuidado corporal,

Perde o apetite, o que acusa

É uma magreza geral

E já sozinho falava,

Os mais dizem que variava.


Oito meses de tormento

Correram. A caravana

Retorna, a dado momento

Da China onde o sonho mana.

O mercador logo vem

Ver se tudo correu bem.


- ”Sim, correu.” - ”E de saúde?”

- ”Muito bem.” - ”E a escravazita?”

- ”Está boa.” - ”Só virtude?

Não deu problemas a dita?”

- ”Nenhum.” Mas o mercador

Viu-lhe da tez o palor,


Os braços mui descarnados,

Os tremores que agitavam

O corpo, toque a finados,

Parece até que o sugavam.

- ”Que tens tu? Estás doente?”

- ”Não tenho nada, é evidente.”


- ”Tens a certeza?” -”Garanto!”

O mercador retomou:

- ”Trouxe-te peças de encanto,

Algum jade, seda e vou

Mostrar-te a escrava chinesa,

Nova, uma flor de beleza.


Se te agrada, fazer podes

Dela tudo o que quiseres.”

O escanzelado os bigodes

Abre contra tais prazeres:

- ”Não, não quero os teus presentes,

Nem da escrava ver os dentes!


Fica com ela e também

Com a que deste a guardar.

Leva-a depressa dalém.”

- ”Não te veio contentar?

Faltou-te ao respeito acaso?”

- ”Leva-a sem mais nenhum prazo!


Nunca mais ouvir falar

Dela vou querer na vida,

Nem quero mais, em lugar,

Escrava jovem sortida.”

- ”Como queiras. Vou levá-la.”

- ”Fora daqui, que me abala!


Quero esquecê-la, me entendes?”

Fez a vénia o mercador

(“Vê o que perdes, vê o que rendes”)

Torna ao lar com o penhor

Daquelas duas escravas.

Há no outro saudades bravas:


Esquecer não esqueceu,

Ao invés, dentro morreu.


E apenas o tempo apura

Nele uma enfermiça cura.



José


José do Egipto, o mais belo,

Entra um dia numa sala

Onde as jovens, de escabelo,

Com olhar que se regala,

Estavam a descascar

Laranjas para o jantar.


Da beleza hipnotizadas,

Dele seguiam os gestos

A ponto de dar facadas

Sem dor sentir dos aprestos,

Dedos e mãos retalhando,

Nele os olhos represando.


José, dos irmãos vendido,

Escravo é do Faraó

Que à venda o pôs, despedido.

As damas metiam dó

Todas a se apresentar

Com o intuito de o comprar.


Trazem ricas oferendas,

Sacos de almíscar, essências,

Preciosidades, rendas...

Todas elas são carências.

Uma velha se aproxima,

Numa bengala se arrima.


Como era pobre, trazia,

Para a compra de José,

De cheiro erva com que enchia

Saca bem segura ao pé.

Fora aquilo que colhera

E preparara como era.


O que dirigia a venda

Comentou-lhe com desprezo:

- ”Como esperas, na contenda,

José comprar a tal peso?

O que trazes bem compara

Com doutras a prenda rara.”


- ”Sei tudo isso” - diz a velha.

- ”Então porque vens? Que queres?”

- ”Que me contem” - aconselha -

“Entre todas as mulheres

Que vieram ao teu pé

Tentar comprar o José.”



Bar


Um judeu americano

Entra num bar que ao balcão

Tem um negro com um pano.

Pede com resolução:


- ”Um café, preto de merda!”

- ”Preto de merda, porquê?” -

Sem se irritar, a voz lerda,

Diz o negro, de boa-fé. -


“Nada te fiz, nem conheço,

Podias ser educado,

Não me tratar sem apreço.”

Encolhe os ombros de enfado


O judeu, insiste em pressa.

Propõe-lhe o negro uma troca:

- ”Queres um gesto que meça

O que ouvi de tua boca?”


- ”Está bem, que é que tu queres?”

- ”Vem para trás do balcão,

É só mesmo para veres.”

O judeu segue a instrução,


O negro sai um momento,

Reentra no estaminé

E diz ao judeu atento:

- ”Judeu de merda, um café.”


- ”Não dou, não” - diz o judeu -

“Que debaixo destes tectos,

Enquanto é negócio meu,

Aqui não servimos pretos.”



Autocarro


Num autocarro, na América,

Os passageiros lugar

Tomam em fila colérica:

Ainda estava a vigorar

Que os negros vão na traseira

E os brancos, na dianteira.


Começam a aparecer

As tentativas primeiras

Contra o racismo que houver.

Os negros cerram fileiras,

Protestam veeementemente

Contra a afronta, de repente,


Como qualquer branco impante

Sentar-se querem à frente.

Mas estes seguem avante,

Nada cedem a tal gente:

- ”Eu sou branco, tu és negro,

É da lei em que me integro.”


Mas estes negros recusam

Os lugares lá de trás,

As altercações abusam,

Rebentam, que é que se faz?

O condutor do autocarro

Declara em jeito bizarro:


- ”Ouçam-me! Ninguém é preto

Nem branco, estão bem a ouvir?

São todos azuis, correcto?

Olhem-se bem, a seguir!”

Estacam, surpreendidos

E um diz, entre os aturdidos:


- ”Mas então que é que fazemos?

O motorista, pensando,

Crê por fim domar os demos:

- ”É fácil, a pensar ando:

Azuis-claros para a frente,

Escuros, atrás da gente.”



Ar


Nasredim recebe um dia

A visita dum dervixe.

Um ar santo o precedia,

Mal comeria uma quiche:

Costumes de santidade

E extrema frugalidade.


Hospitalidade oferta

Cuidando que ele queria

Comer algo, pela certa.

- ”Como bem pouco por dia”, -

Diz o santo homem então. -

“Ervas, a fruta do chão...


Dias há que me contento

Com água mais grãos de arroz.

Mas, se for de teu intento

Comer, como logo após

Contigo, é uma parceria

A fazer de companhia.


É que é bem desagradável

Ter de alguém comer sozinho.”

- ”É verdade insofismável

E agradeço-te o carinho.

Que queres então comer?”

- ”Seja lá o que for que houver.”


- ”Servem ovos estrelados?”

- ”Perfeitamente.” - ”E tu gostas

Deles bem ou mal passados?”

- ”Tanto faz. Mas são mal postas

As frituras em sertã

Com azeite, opção malsã.”


- ”Como então queres que os faça?”

- ”Simples, numa pedra quente.

No centro, a gema, com graça,

Cuidado, que não rebente.

Isto é que é o mais importante,

Tudo o mais passa adiante.”


- ”Ora, então, são bem passados?”

- ”Sim, porém, não em excesso.

A orla da clara, aos lados,

Dourada um pouco te peço.

Vês o que quero dizer?”

- ”Muito bem, é só querer.”


- ”No derradeiro momento

De vinagre umas gotinhas

Caíam que nem pão bento.

Tens vinagre do das vinhas?”

- ”Claro.” - ”Vinagre do bom?”

- ”Do melhor e de bom tom.


Mas diz-me, gostas dos ovos

Com muito ou com pouco sal?”

- ”Muitto, não. Porém, dos novos

Sais vindos do mar real,

Se de todo não te importas.

E, já que tanto me exortas,


De orégão umas folhinhas

A rematar, que delícia!

De alho duas dentadinhas

E é pronta a boa notícia!”

Nasredim então lhe diz:

- ”Passo a informar que a perdiz


Que os ovos pôs para a gente

Se chama Misa, afinal.

Não vês inconveniente?

E não te irão saber mal?”

E pensa: “Frugalidade!

Então que é voracidade?...”



Orgulho


Al-Saqati, o ancião,

No século nono vive

Em Bagdade, a mãe do pão.

Alguém lhe pergunta então:

- ”Se orgulha do que se prive?”


Reflectiu mui longamente

E respondeu no final:

- ”Me orgulho de ter em mente

Há decénios a insistente

De comer vontade real,


Comer mel nalgum ensejo,

Pois resisto a tal desejo!”



Negros


Três negros, com dons de Deus,

Alcançam falar com Ele.

Pedem um favor aos céus

Que lho dão tal qual se apele.


- ”Faz de mim branco” - é o primeiro.

- ”Concedido” - Deus responde.

Fica dum branco pioneiro.

De contente, nem o esconde.


- ”E tu?” - pergunta ao segundo.

- ”Também branco ser queria.”

- ”Concedido, em dons abundo.”

E o segundo agradecia.


Deus dirige-se ao terceiro:

- ”Ficar branco também queres?”

- ”Não,eu não!” - ”Bem, companheiro,

Diz-me, afinal, que preferes?”


- ”Que voltem a ficar pretos

Os outros que hás atendido.”

E, em seus mágicos decretos,

Deus responde: - ”Concedido!”



Cabeça


Na Casa Drouot, Paris,

Um homem desconhecido

Apresentou-se, feliz,

Num leilão descomedido,


Leilão de arte oriental,

Uma amálgama de objectos

De valor mui desigual,

Vindos de locais secretos,


Coreia, Egipto, Tibete...

Na véspera, os comissários

Tinham visto que repete

Os expositores vários


Tal homem desconhecido:

Dum para o outro ia,

Parava como em sentido

Nos fragmentos de magia


De esculturas indianas.

No decorrer do leilão

Levanta as mãos soberanas

No cinquenta e seis, talão


“Cabeça de divindade

Feminina, de Índia vinda,

Dos séculos, para a idade,

VIII a XIII.” Coisa linda!


Lança uma primeira oferta

Que é coberta pela mesa.

A segunda outrem desperta

Que estava na sala coesa.


Ao terceiro lance, ganha.

Por um preço razoável

Ele a velharia apanha.

Paga o custo inevitável,


Leva a cabeça indiana

Em plástico saco pobre

Que trouxera e nada engana,

Na bolsa que nada encobre.


Volta a casa de autocarro,

Ao modesto apartamento

Em Courbevoie, lar de barro.

Dos docentes elemento


Ou então dos funcionários,

Os ombros já descaídos,

Passos com tremores vários,

Cabelos ralos, perdidos,


Entre quarenta e cinquenta

Serão seus anos de idade

Em que ao fim ninguém atenta.

Óculos usa, em verdade.


Pousou o saco na mesa,

Dele a cabeça retira,

Com precaução, gentileza,

Pô-la à frente e fixo a mira.


Era um rosto de mulher

Com um ligeiro sorriso,

Pérolas a lá conter

Da cabeça, ao alto, o siso,


Restos de policromia...

Como muitas, arrancada

Ao suporte sido havia,

A punção, à martelada,


No século dezanove

Ou talvez século vinte.

Vendeu-a quem a remove,

Com clandestino requinte,


Por uns obscuros circuitos

Que sugam beleza ao mundo.

Alguns livros entre muitos

Abre o homem e um fecundo


Ficheiro de indicações,

Múltiplas fotografias.

A origem como as funções

Da cabeça por tais vias


Logra calmo precisar.

Pátina examina, estilo,

Aturado a comparar.

E conclui, por fim, tranquilo,


Que deve ter pertencido

A um templo Tamil Nadu,

De Índia no sudeste erguido.

De Estugarda a Katmandu


Meses depois ele voa,

Por fim aterra em Madrasta.

Sem meios, viaja à toa,

Do modo em que menos gasta,


Mas conservando consigo

Sempre de pedra a cabeça,

Num saco posto ao abrigo.

Num autocarro atravessa


Até Madurai, no sul.

Numa velha bicicleta

Lento faz que se acumule

Uma pesquisa completa.


Era simples a intenção:

Restituir a cabeça

Ao corpo donde o ladrão

Havia roubado a peça.


Ele, cidadão francês,

Desejava ter um gesto,

Mínimo embora, cortês,

Contra o intérmino, imodesto


Furto de que vinham sendo

Vítimas os templos mil

Do mundo de que dependo,

Séculos de hábito vil.


Optando por importar

Cabeças a revender,

Os ladrões decapitar

Vão decerto, sem rever,


Às centenas de milhar

As estátuas mundo fora.

Reconstituir no lugar

Quer ao menos uma agora.


Queria ter a certeza

De que sua vida tinha

Servido para uma empresa

Boa aqui, como convinha.


Pretendia uma acção justa,

De justeza indiscutível.

Desinteressada, custa

O que custa, inamovível.


Devagar, meteu-se à estrada

Na bicicleta queixosa

Com a cabeça cortada

Presa atrás, jóia valiosa.


Em todo o templo parava,

Fora modesto ou grandioso,

Nas estátuas atentava.

Decapitadas por gozo


À mão dos saqueadores,

A maior parte não tinha

Já cabeça e seus humores.

À procura da adivinha,


Elimina efígies de homem

Para só dar importância

Às femininas que assomem.

Às vezes, mesmo à distância,


Um relance já bastava:

Nem dimensão nem estilo

Dão resposta ao que buscava.

Para enfim ficar tranquilo,


Às vezes trepava a um muro,

Chega a pedir uma escada

Para pôr, pelo seguro,

A cabeça na entalhada


Estátua que é duvidosa.

Examina desta forma

Milhares: não cansa, goza.

Com pouco viveu, por norma,


Dormiu, de hábito, ao relento,

Atado por uma guita

À bicicleta do intento.

De arroz, fruta que concita


Se alimentava somente.

Baixote, magro, com pêlo,

As roupas rapidamente

Troca do europeu modelo


Por tanga, corpete e socos

E, com a barba crescida,

Ignorado é como poucos.

Mais de meio ano de vida


Após, encontra por fim

O corpo que respondia

À cabeça. Alegre, enfim,

Fecha os olhos, pensou que ia


Desmaiar com a alegria.

Tudo agora estava certo:

Dimensão, corte, a macia

Face com o áspero perto,


Até os restos de pintura...

Isto ocorreu em Trichi,

Num dos recintos que apura

De Ranganatha Suami


Ser parte do templo imenso,

Dedicado ao deus Vishnu.

Com seu bronzeado intenso

Por um peregrino hindu


Passou, penetrar logrando

Nos locais aos mais proibidos,

Com a guarda vigiando.

Em recantos escondidos


Conseguiu por lá dormir.

Com espátula e cimento,

À noite, ninguém a ouvir,

Na estátua põe o elemento


Da cabeça que faltava.

Não se lhe nota a fissura

A uns metros, quando se olhava.

É uma apsará tal figura,


Uma folha de palmeira

Ostenta na mão direita.

Única por ora inteira

Entre cada irmã desfeita.


Sorriso débil, graciosa,

Tem sempre um pé levantado

Numa postura teimosa

Que é da tradição o fado.


Olha para tudo e nada,

Tinha então voltado a casa.

A tarefa terminada,

Sentou-se na pedra rasa


O homem, não mexeu mais.

De vez em quando se lava,

Come, tem gestos que tais,

Depois volta à pose escrava.


Feliz, satisfeito, quem

O poderia saber?

De qualquer modo, porém,

É pobre, um mui pobre ser.


Peregrinos e turistas

Cruzavam em seu redor,

Incessantes, em mil pistas.

Um dia sente um calor


De moeda a cair na mão.

Um visitante deixado

A havia: toma-o então

Por mendigo consumado.


O homem ergue a cabeça

Para a imagem, nela viu

Que distintamente, a peça,

Ao olhá-lo, ali sorriu.


Então abriu mais a mão,

Estendeu-a para diante.

Muitas moedas cair vão,

Até rupias garante.


No alto, a estátua de apsará

Continua-lhe a sorrir.

Compreendeu que era acolá

O lugar de a seu fim ir,


De terminar os seus dias.

Muito descansado, pensa

Que valeu mais que as folias,

Quem quer melhor recompensa?



Nacionalidade


Quando Hodja foi tunisino,

Tomou-se de admiração

Por Inglaterra. O destino

Fê-lo requerer então


Dela a nacionalidade.

Foram empenhos, gorgetas,

Anos muitos de ansiedade

Para aproximar as metas.


Ao chegar o grande dia,

Quando a carta oficial

Em ordem tudo dizia,

Vestiu-se, em gala real,


Com o melhor albornoz

Para ir ao consulado

De Inglaterra, logo após,

Ao passaporte acabado.


Um amigo o acompanhou.

Quer que este o espere na rua

E no consulado entrou

Sozinho, que no ar flutua.


Mas meia hora mais tarde

Sai de lá, porém em pranto,

Abatido e sem alarde.

- ”Que se passa?” - com espanto


Pergunta-lhe então o amigo. -

“Recusam-te o passaporte

Por derradeiro castigo?”

- ”Não, deram-mo. Que má sorte!”


- ”Mas então de que te queixas?”

Abana a cabeça, cinde-a,

De dor , em duas madeixas,

Diz: -”Ai! Perdemos a Índia!”



Istambul


De Istambul um muçulmano,

Por um cristão convencido,

Converteu-se sem ter dano,

De olhar ingénuo, sentido,

A um claro cristianismo

E recebeu o baptismo.


A ler os livros sagrados

Do que é cristã tradição,

Evangelhos, Bíblia, grados

Padres de antes, pôs-se então.

No Evangelho de S. Marcos

Chega, ao fim de esforços parcos,


Chega a saber que Jesus,

Em vez de reconhecido

Inocente, o que traduz

Dos judeus o mau sentido

É que aos romanos o dão

Que crucificá-lo irão.


Furioso, o convertido

Agarra então num cutelo,

Corre a um judeu conhecido,

Com loja num cotovelo,

Derruba-o em curto espaço,

O cutelo no cachaço.


- ”Cão judeu, vou degolar-te!

Vou-te cortar a cabeça,

Dá-la aos cães, tal quem reparte.”

- ”Degolar-me?! Céus, homessa!

Mas porquê?!” - diz o lojista.

- ”Ainda te atreves, faquista,


A perguntar-me porquê?!

Quando foste tu e os teus

Que entregaram à mercê

Dos Romanos Deus dos céus,

Que mataram numa cruz

Ignobilmente Jesus?!”


- ”Mas isso” - diz o judeu -

“É velho e já não faz danos.

É muito velho, ocorreu

Já faz mais de dois mil anos.”

- ”Que importa toda a demora?

Eu por mim só soube agora.”



Cão


Lambe um cão napolitano

Uma lima. As asperezas

Rasgam-lhe a língua com dano,

Corre o sangue sem defesas.


O cão gosta do sabor

Do sangue e a lamber a lima

Mantém-se, apesar da dor

Que possa sentir por cima.


Nada, pois, o faz parar...

- Cão-homem: ambos a par!



Doenças


De todas as doenças sofre um homem,

Tem todos os sintomas, sua vida

São os mil sofrimentos que o consomem,

Angústias que jamais terão medida.


Que doença podia ser a sua?

Não sabia: cabeça, ventre, rins?...

Impossível dizer: todo ele sua,

Todo o corpo é uma dor em seus confins.


Um médico, porém, lhe diagnostica

Com rigor todo o mal que o atingia:
É doença incurável que ali fica

Arrastando-o na morte cada dia.


O estranho é que, informado, sente alívio:

Agradece ao bom médico e recebe

Amigos que hão tombado num oblívio.

A conversar e a rir, com eles bebe.


Um deles lhe pergunta que razões

Hão-de estar por detrás desta atitude.

- ”É que até agora foram mil lesões,

Agora só há uma que em mim grude.”



Sabedoria


Perguntam a Goha um dia

Donde é que a sabedoria


Que lhe conheciam todos

Lhe vinha assim tão a rodos.


Contou-lhes que possuía

O segredo e a magia


Do que é douta inteligência.

- ”De que forma?” - ”Bem, na essência,


De pílulas sob a forma.

Da receita tenho a norma.”


Instaram que revelara,

Afinal, tal jóia rara.


Em vão se furta à resposta:

A sério levam a aposta.


Foi apanhar, lavra a lavra,

Mil caganitas de cabra,


Cortou-as, moldou bolinhos,

Junta açúcar e cominhos,


Meteu-os num saco atado,

Foi vendê-los ao mercado.


Armou a pequena banca

E apregoa, alçada a anca:


- ”Pílulas da inteligência!

Dez dinares, é ciência,


Um grande segredo enfim

Revelado, vão por mim!


Minhas pílulas comprai,

Dez dinares e pasmai:


Sereis mesmo inteligentes,

Por tuta e meia contentes.”


Não há muito ajuntamento.

O descrente do argumento


Passa , os ombros encolhendo.

Mas há sempre um bronco crendo


Que o saco toma, examina:

- ”É eficaz? Isto é uma mina!”


- ”Duma eficácia tremenda!

E muito rápido, entenda!


- ”Ficarei inteligente

Como quem burro me sente?”


- ”Até muito mais do que eles” -

Diz Goha, a troçar daqueles.


O cliente compra um saco,

Abriu-o e provou um naco.


Mastigou por um bocado,

Depois cuspiu, enojado:


- ”Mas isto é bosta! É o que abona?!”

- ”Pois é! Vê como funciona?”


Escultor


Um escultor brasileiro,

Sem qualquer formação de artes,

Busca, madeiro a madeiro,

Esculpe de animais partes.

Uns são conhecidos dele,

Outros, não. Nada repele.


A girafa esculpe um dia

Sem nenhum modelo dela,

Sem imagem que veria:

Esculpe sem nunca vê-la.

Alguém lhe faz a pergunta

De como é que aquilo assunta


- ”Pego meu toco de pau

E começo a trabalhar.

O que não pertence e é mau

Para a girafa talhar

Então aí boto fora.

Findo o bicho não demora.”



Rumi


De Rumi os seguidores

Puseram-se a lamentar

Das ausências os temores:

Não os deve mais largar.

- ”Quando não estás, sentimos

Tua falta e logo vimos


Que o mundo ficou vazio,

Sem sabermos que fazer,

A tristeza corre em rio...”

Com tal maneira de ser

Rumi se irritou deveras,

Despede-os sem mais esperas.


O filho dele estranhou,

Pergunta ao pai a razão.

- ”É que a sério” - comentou -

“Nem gostarão de mim, não.”

- ”Mas sim, gostam, uma vez

Que estranham se aqui não és.”


- ”Cada qual diz-se mui triste

Todo o tempo em que me vou,

Constantemente, já viste?

Amas-me tu no que sou?”

- ”Sim, meu pai.” - “Diz-me, porém,

Se não estou, não advém


Às vezes uma alegria?”

- ”Sim, claro” - responde o filho.

- ”Tal alegria seria

Eu também, um meu cadilho.

Eles, alunos falazes,

De a sentir são incapazes.”



Asceta


Um asceta mui severo

No intuito de penetrar

Da natura o cerne vero,

Porque um dia ouviu falar


De Nasredim como sábio

Tão grande que dele a fama

Faz que inteiro o mundo gabe-o,

Uma longa viagem trama


Para se encontrar com ele.

Puseram-se a conversar.

O asceta diz que o impele

Uma procura sem par,


Que, ao cabo de anos de esforço,

Ouve as mensagens do vento,

Com aves fala um escorço,

Dos peixes entende o intento...


- ”Não me admira nada, não.

Conheço com animais

Tal jeito de relação.

Um dia um peixe dos tais


Até me salvou a vida.”

- ”Tua vida um peixe salvou?!” -

Julga o asceta em seguida

Que é um prodígio que ignorou.


- ”Aqui está” - diz ele - “a prova

De que todo o ser vivente

Se entende, língua que inova

Com os mais, com toda a gente.”


Era o que sempre afirmara.

- ”Explica-me o que ocorreu.”

- Ӄ dificuldade rara,

Como entender o que é meu?”


- ”Não faz mal e me esclarece.

Conheço os peixes mui bem.

Com tua ajuda com esse,

Talvez o entenda também.”


Ajoelha ali no pó,

Pronto a renúncia qualquer,

Todo o sacrifício e dó.

Nasredim põe-se a dizer:


- ”Aquilo que vou contar

Vai chocar, magoar-te até.”

- ”E que é que me há-de importar?

Diz-me, rogo, homem de fé!”


- ”Como queiras. Pois sabendo

Fica que eu um dia estava

A um passo, quase morrendo

De fome, quando pescava.


Um peixe então se prendeu

Ao meu anzol quando eu já

Levo semanas de meu

A pescar em vão por lá.


Pus o belo peixe ao lume

E comi-o de seguida.

Tudo a isto se resume:

Como vês, salvou-me a vida.”



Água


Um dia a Buda apresentam

Um homem que se dizia

Que há seis anos seus pés tentam

Sobre água andar por magia.


Pretendia ter, enfim,

Conseguido atravessar

Com esforço um rio assim.

- ”A tal dor porque se dar?” -


Diz-lhe Buda descansado. -

“Dei uma moeda à barqueira

Que levou-me ao outro lado

Do rio sem mais canseira.”































3


Ao Serão de Terça-feira























Tacanhos


Os espíritos tacanhos,

Com inteligência lenta,

Imolam-se, tais quais anhos

A que a fortuna não tenta.


Um homem e uma mulher,

Lá pelo norte do Irão,

Amavam-se, tal quenquer,

Viam-se com discrição


Apenas de vez em quando.

Ambos muito jovens eram,

Em casamento falando

Vão, contra os pais que o não creram.


Um dia os vizinhos foram

Encontrar a rapariga

Desolada. Como ignoram,

Perguntam por uma amiga:


- ”Que é que se passa, afinal?”

- ”Ora, está tudo acabado!”

- ”Mas porquê?” - “Além, no vale,

Disse-me ele: no sagrado


Dia que é na sexta-feira,

Vai lá a casa, que ninguém

Vai lá estar a tarde inteira.”

- ”E então? Isso que é que tem?...”


- ”Ora, eu fui por lá, porém,

Não estava lá ninguém...”



Cego


De Edo pelas cercanias,

No Japão, em ano novo,

Um monge cego houve uns dias

Que, convivendo entre o povo,

Foi a casa dum amigo

De criança, por abrigo.


Comeram até fartar,

Beberam na lauta ceia

Até o cego levantar

Indo embora, a noite meia.

- ”Leva esta minha lanterna,

Que a noite vai ter-te à perna.”


- ”De lanterna eu não preciso” -

Diz-lhe então o monge cego.

- ”Precisas, sim, tem lá siso.

Não te vendo num refego,

Os mais contigo chocar

Poderão e magoar.”


- ”Com efeito, tens razão” -

Diz o cego e na lanterna

Pega e parte, ela na mão.

Ruas adiante, eis que aderna

Contra ele brutalmente

Um homem subitamente.


- ”Vê se vês por onde é que andas!” -

Exclama o cego. - ”Não viste

Pela lanterna as locandas?”

- ”Não vi, não” - diz o homem, triste -

“É que ela, nesta jornada,

Vai por inteiro apagada.”



Recém-casados


Na Índia, uns recém-casados

Não param de discutir:

Em campo algum acordados

São rumos por que seguir.


Cada um recriminava

O outro da malfadada

Sorte com que deparava

Do dia em cada jornada.


Era uma existência amarga,

Uma vida barulhenta.

A superarem tal carga,

Um amigo deles tenta


Que um guru da vizinhança

Consultem, o que fizeram.

- ”Só uma solução alcança

A paz aos que a bem quiseram:


Para um casal harmonioso,

Que se tornem é preciso

Os dois, como cada esposo,

Um só. Tal é o meu juízo.”


Logo os dois, a uma só voz:

- ”De acordo, claro, afinal

Que um só fiquemos após,

Tornados num só. Mas qual?...”



Mercador


I


Nos Balcãs caminhava o mercador,

De cidade em cidade, aldeia a aldeia.

Viajava por países de Ásia meia,

Pelo norte da Índia, até o sol-pôr.


Mercador de palavras como um ror

Já fora dele o pai, colhia a teia

Das palavras à sorte, onde as semeia

Dele o trilho de acaso, horto maior.


Pagava-as quando assim alguém lho impunha,

Cedia-as se alguém delas precisava.

E muitas eram onde o ignoto punha.


Ondas, marés, ao montanhês levava,

Neve e glaciar, aos tórridos países...

Mas quantos a tal torcem os narizes!


II


Atenta o mercador no utilitário,

Com termos de bazar, de indústria leve.

Sem grande entusiasmo, busca breve

Com que ganhar a vida em mundo vário.


Por entre quem amou vocabulário

E linguagem, célebre se teve

O mercador de termos, pois reteve

Cuidada ocupação de amor sumário.


Ao comum ajuntava as emoções,

Deslumbramentos de alma, sentimentos,

O afecto peculiar dos corações.


E quantos nele buscam alimentos

Eis que falam por momentos língua tal

Que brilha num mosaico universal.


III


De Portugal levou-nos a saudade,

Tristeza duma ausência dirigida

A quem já não temos cá na vida,

Que já tivemos, pois, mas noutra idade.


De Áustria, a palavra kitsch, de verdade

É que o mercador prende, de seguida,

De Espanha é o termo curso, na medida

Em que é um fora de moda mas que agrade.


Quando chegava a um sítio, os habitantes

Com ele vinham ter, muito discretos,

Descobrem sentimentos hesitantes


Para os quais não terão termos correctos.

E o mercador atento lhes abria,

Num novo termo, um mundo de magia.


IV


Os ladrões de palavras o pilhavam,

Ao desbarato vendem-lhe os tesoiros.

Nos seus cadernos são pepitas de oiros

Os termos que dispunha e lhe agradavam.


Um libanês cliente diz que os loiros

Da classificação nunca bastavam:

Do mercador as práticas armavam

Ordens, rubrica, dum caderno em coiros.


Com o tempo a linguagem foi cifrada,

Mesmo em código duplo, que talvez

A ladroagem fuja assim de vez.


E o cuidado maior desta charada

Tem este mercador, para sossego,

Nos termos a que tem maior apego.


V


Os povos todos que na terra vivem

Pensam e sentem duma igual maneira,

Mas de termos a falta, numa ou noutra leira,

Pode o aparecimento que motivem


Bloquear dum sentimento que se abeira.

Por isso cuidaria que se esquivem

De nós os mil afectos que revivem

Quando de os nomear não ando à beira.


Já que o conhecimento da palavra

Mais facilmente acesso deu à coisa,

Se vais desembestado à tua lavra


Logo o desembaraço em ti repoisa.

Evoca na palavra heróis que apeles,

Serás rapidamente um qualquer deles.


VI


O mercador às vezes faz a troca,

Palavras por legumes, ovo, aveia

Para a mula do carro com que ameia

Na estrada que ao povoado desemboca.


Se for numa palavra que coloca

Troca por troca de que a terra é cheia,

Madruga à luz às vezes da candeia,

Pois a seu termo nenhum abre a boca,


Que desvalorizá-lo o outro iria.

E põe de parte, dele na reserva,

O termo favorito, que não ia


Ser o grosso da venda, mas o observa.

E, ao comparar, repara: há muitos termos

Comuns às línguas, a regar-lhes ermos.



VII


A palavra elegante é sempre a mesma

De línguas em dezenas: conseguida,

Há-de ter nela a ideia bem contida

Na sua própria forma, atada à resma.


Não será de estranhar que, feita lesma,

Se veja no passado, ermida a ermida,

A tantos povos, lenta, distendida,

Se tenha acomodado e agora lês-ma.


Melancolia é um termo que inventado

Foi por quem lhe deu tal sonoridade

De badalada triste como um fado


Que por europa viaja, idade a idade:
Ninguém sabe porque há mais conseguidas

Palavras, só que são as difundidas.


VIII


O que tem para os termos bom ouvido

Não será um bem-falante, longe disso.

Dum endrominador não tem feitiço,

É bastante lacónico, um sonido


É o que dele ouvem quantos lhe hão surgido.

A força da palavra é o seu chamiço,

A única riqueza a dar-lhe viço,

De beleza selvagem um sortido.


Uma palavra basta para pôr

O mundo em movimento e lhe extrair

Um segredo inovado, com calor


Acrescer-lhe a surpresa dum porvir.

Quem das palavras vive é que, fecundo,

As memórias encerra em si do mundo.


IX


Espanta o mercador que chocolate

Seja palavra igual em toda a língua,

Como se de mais sons houvera míngua.

Porém, já borboleta se rebate


Diversa em todas; a igualdade vingo-a

Mantendo sugestivo um som que bate

Asas leves, farfale, um tal quilate

Que papillon, butterfly, não sofrem íngua


Na carne do sentido por que voam.

Que dizer do entrañable que, espanhol,

No íntimo sofre perdas que atordoam?


É como a despedida que no rol

Dum adeus para sempre, desmedida,

É a vera imagem já da nossa vida.


X


O termo bem formado, bem sonoro,

Trazia ao mercador muita alegria.

Em paisagem caminha que infundia

Maravilhas intérminas por foro.


Em Babel, afinal, Deus não punia

Multiplicando as línguas sem decoro

Porque este mar de termos não dá choro

É uma oferenda e nada a igualaria.


No Irão tarif é o termo que descobre

Para uma oferta recusar que dá

Muito prazer, delicadeza encobre


Que, refalsada, mal dispõe-nos já.

Que tanta língua legue, no final,

Assim a Deus é que então levo a mal?


XI


Aumenta de ambição o mercador,

Cuidou que seu negócio já podia

Tornar qualquer pessoa bem melhor,

Ensinando a justiça o que seria


Ou mesmo a compaixão que compraria

Por uma mão de arroz a um vendedor

Que do Tibete volta por tal via

Que a morte a farejar-lhe anda em redor.


Sem conta nem medida os benefícios

Devidos a tal homem sempre são.

Inscrevem-se em segredos os resquícios


Das coisas que nas línguas constarão

E é o que, por conseguinte, nos invade

E que constrói a nossa humanidade.


XII


Durante a guerra a actividade encolhe,

Só depois dela desenvolve então.

Nas nações novas os mercados vão

Entusiasmar-se com quem termos colhe:


A bomba atómica, o radar acolhe

O mercador para negócio são,

Num contrato vendeu mesmo o neutrão,

Como o stalag encante o que o recolhe.


Só que pouco depois o abrandamento

Da curiosidade foi demais,

Já ninguém necessita dum aumento


De termos estrangeiros que acenais.

Cuidou que o retrocesso é passageiro,

Enganou-se, do mal é pioneiro.


XIII


Parking se espalha pelo mundo inteiro,

Weekend e shopping seguem logo atrás.

Conquistadoras, quem venceu as traz

Por marca sua, da conquista ao cheiro.


Mas já o kolkhoze russo a que me abeiro,

Como uma nave soyuz bem falaz,

Não logram nunca acatamento em paz,

Do mundo o resto não se quer herdeiro.


Quem não vender sua palavra ao mundo

A perda tem já nele programada.

Razões políticas há nesta estrada,


De vida estilo de que me eu fecundo.

É que a língua acabamos por falar

Daqueles que gostamos de imitar.


XIV


A Inglaterra espalhou por todo o mundo

Os termos ganster, dandy, mesmo snob,

Embora o derradeiro nunca adobe

Um Baluchistão pobre mas jucundo.


De acordo ninguém diz, é O. K., no fundo

Tomam um drink, jeans usa qualquer Job,

T-shirt, fast food e o mais que nisto englobe

A língua inglesa a passear no mundo.


Porém jihad e fatwa apareceram

Vindas dum mundo que não era inglês.

Ameaçadoras, muito já correram,


Os compradores fazem bicha aos pés.

Analfabeto era não ler francês

Ou inglês e hoje é nem ver que é que lês.


XV


Há palavras morrendo cada dia,

Aspiradas no abismo da ignorância,

O inferno duma língua a que a elegância

Se perdeu na preguiça que nos guia.


Cada vez menos termos haveria

Mundo fora a marcar predominância,

Embora cresça em números a infância,

Explosão sem limites se anuncia.


Os ouvidos humanos se fecharam

Às palavras subtis que outros houveram.

Banalidades cobrem o planeta,


Redes fáceis que a todos enredaram.

Palavras raras, belas se perderam,

O irrelevante as suga, de hoje meta.


XVI


Por mais inverosímil que pareça,

Atém-se a humanidade ao termo pobre.

Árvore imensa onde a ramagem sobre,

As folhas vai perdendo, peça a peça.


Até os ramos da língua em que tropeça

Se quebram ressequidos, sem alfobre

De folhas, de vergônteas, já que cobre

O chão de tronco seco onde esmoreça.


Em vez dum feixe de vital frescura,

A língua é quase de betão pilar.

Um universo que se assim figura


Será uma noite onde, ao ninguém olhar,

Ninguém querer saber como nem quando,

As estrelas se foram apagando.



Califa


O califa de Bagdade

Se admira de Nasredim,

Sábio maior da cidade,

Sempre desdenhar, ao fim,

Das reuniões mui faladas,

No palácio organizadas,


De filósofos e sábios.

Ordem lhe acaba por dar,

Vinda de seus próprios lábios,

De numa participar.

Como se obrigado a murro,

Nasredim vai no seu burro


No dia determinado.

Para a cauda do animal,

Contudo, monta virado.

Apontando feito tal,

A cidade dele troça

Abertamente e sem mossa,


Que ele bem deixa que o façam.

Neste preparo é que chega

Ao lugar onde entrelaçam

Dos ditos sábios a achega.

É a vez de, em coro sidéreo,

Rirem deste despautério.


- ”Montaste o burro às avessas!

Como não te deste conta?!”

Não liga às vozes travessas,

Olha-os bem, de ponta a ponta.

O califa toma então

A palavra e eis a questão:


- ”Porque é que tu nunca vens

A nossas reuniões?

Pelo saber que tu tens

Elogiam-te as nações...”

- ”Misturar-me é que não quero

Com parvos que não venero.”


- ”Toma-los por imbecis?”

- ”Tenho a certeza, califa.”

- ”Que é que a tal te leva? Diz!”

- Ӄ que a pergunta, na rifa,

Nunca dizem que for certa.”

- ”Que pergunta têm alerta?”


- ”Perguntam mui parvamente

Porque montei ao contrário.”

- ”Certa não é, certamente...”

- ”É um questionar arbitrário.”

- ”Dize-me então, por favor,

Qual a pergunta a propor?”


- ”Exactamente a seguinte:

Terá sido Nasredim

Que ao contrário, por acinte,

Montara no burro assim,

Ou é o burro que há virado

Antes para o lado errado?”


E, tal como tinha vindo,

Foi para casa seguindo.



Râbia


Amulher santa do Islão,

Râbia, respostas nos deu

Que a via apontam do chão

A trepar até ao céu.


- ”Donde vens?” - “Do outro mundo.”

- ”Vais aonde?” - “Ao outro mundo.”


- ”E neste mundo que fazes?”

- ”Eu? Pouco dele, por fases.”


- ”E como é que fazes pouco?”

- ”Como-lhe o pão: como um louco


Durante o mesmo segundo,

Faço a obra do outro mundo.”



Visita


Um homem sábio visita

Râbia e fala longamente

De ilusões que o mundo incita,

Miséria sempre presente.


- ”Muito deves gostar disso,” -

Râbia das falas repoisa -

“Para ter-te tanto o enguiço

De não falar doutra coisa!”



Corânica


Numa corânica escola

O mulá faz o final

Exame a ver quem se enrola.

A um aluno diz, leal:


- ”Dou-te a escolher: serão duas

Questões fáceis que eu quiser

Ou uma, se me insinuas

A difícil pretender.”


- ”Quero que a difícil tomem.”

- ”Sendo assim, tu me responde:

Como nasce o primeiro homem?”

- ”Do ventre da mãe, eis donde.”


- ”Seja. E como nasce a mãe?”

- ”Isso agora” - o aluno assunta -

“Vai do combinado além:

É já segunda pergunta!”



Zen


I

Ao budismo zen afectos,

Conversam dois japoneses.

Com mestre dos mais correctos

A retiros fora, às vezes,


Um deles. O outro pergunta:

- ”Que é que fizeste?” - ”Formei,

Após quanto ali se assunta,

A conclusão que é de lei:


Parti tal cheguei – sem nada.”

- ”Então para quê o retiro?”

- ”Sem ele, sem a empreitada,

Como é que ao fim eu confiro


Que sem nada partido hei

Tal sem nada aqui cheguei?”


II

Um asceta zen contava

Que o mestre-mor que tivera

Como Oshibu se chamava.

- ”E que é que viste que ele era?” -

Pergunta-lhe um outro monge

Que ali viera de longe.


- Ӄ muito simples: cheguei

Lá junto dele sem nada

E sem nada retornei.”

- ”Apenas isso?! E te agrada

Afirmar que era o maior

Dos mestres que vens propor?!”


- ”Sim, em verdade eu o digo.”

- ”Mas porquê?!” - ”Porque, sem ele

Como saberia, amigo,

Que sem nada à flor da pele

Tinha chegado e sem nada

De novo parto na estrada?”



Morte


Uns anos depois da morte

Dum inestimável poeta

Juntaram-se, um pouco à sorte,

Uns chineses com a meta

De à pergunta responder:

Quando se pode dizer


Que um poeta estará morto?

“Quando ele perder a vida”,

“Se de editar perde o porto”

- De alguns vai ser a medida.


“Poeta bom morrerá quando

Já não consiga escrever,

Nem por ele nem a mando.”


Mas o consenso se vê

Da poesia neste aborto:

- ”Só quando ninguém o lê

É o poeta deveras morto.”



Agartha


Agartha, o sábio, vivia

Numa floresta indiana.

A solidão que escolhia

Agrada-lhe, não o empana.

Conhecido é por ciência

Dos três mundos e da essência.


Um príncipe o visitou

De longe ido que começa

Por pedir-lhe: - “Que é que sou,

De alma imortal uma peça?

- “Nada te posso dizer,

De tal não tenho saber.”


- ”Fala-me dos outros mundos

Que escapam à nossa vista.”

- “Não posso. Mesmo fecundos,

Não constam da minha lista.”

- ”Dos deuses a natureza...”

- ”Nada sei: matéria ilesa.”


O príncipe que passado

Meses em viagem houvera

Sente-se então enganado

E enraivado vocifera:

- ”Ignorante! Célebre és?!

A tua fama não tem pés!”


-” Isso depende” - responde. -

“Sou famoso do que sei,

Não do que não sei. Nem donde

Às questões responderei

Que faça um desaguisado

Príncipe descontrolado.”



Horta


Nasredim penetra um dia

Na horta do seu vizinho.

Soprava uma ventania.

Pôs-se ele então, de mansinho,

A apanhar para a sacola

Nabo, cenoura, cebola...


O vizinho apareceu

Irritado e perguntou

Que faz no que era de seu.

- ”Nem vais crer” - Hodja contou. -

“Ia a passar lá na rua

E o vento ao ar me flutua,


Num turbilhão pega em mim,

Pôs-me aqui na tua horta.”

- ”E então?” Diz-lhe Nasredim:

- ”Vento assim ninguém suporta,

Agarrei-me ao que podia,

Nabo, alface, uma endivia...


Só que o vento até os levava!”

- ”Estou vendo” - o vizinho olha

O saco que abarrotava. -

“Explica-me esta recolha

Aqui tão bem arrumada

No teu saco de enfiada.”


- ”Ora aí tens!” - diz Nasredim. -

“É o que me há preocupado

Quando chegaste, por fim.

Mexe comigo há bocado.

Pões o dedo na ferida:

Vê só do vento a medida!”



Conquistador


Ao grande conquistador

Que é de todos aclamado

De ter vitória alcançado

Dum inimigo de horror


E que então se vangloria

Disto até mais não poder,

O pobre dum esmoler

Pergunta intrigado um dia:


- ”Quem era, afinal, mais forte?

Tu ou o teu inimigo?”

- ”Eu, é claro, que o persigo.”

- ”Porque então tentar a sorte


Duma vitória a gabar-te

Se dela nem fazes parte?”



Estudante


Um estudante em viagem

Pede ao barqueiro que o passe

A contento, como a um pajem,

Do largo rio ante a imagem,

À outra margem que abrace.


Ora, o barqueiro vivia

Deste labor. Fá-lo entrar,

Logo aos remos se prendia,

Com cuidado se metia,

Profissional, a remar.


De pássaros passa um bando,

No momento, sobre o rio.

- ”Sabe os hábitos e quando

Vêm tais aves voando

Por aqui com tal ousio?”


- ”Eu cá não sei nada disso” -

Diz o barqueiro aplicado.

- ”Pois perdeste, de submisso,

Da vida um quarto de esquisso.”

Tendo o barco após rodeado


De plantas de água um lençol,

O estudante perguntou:

- ”De plantas toda esta mole

Como vive? Que asa bole

Nela, que nome lhe dou?”


- ”Não, não sei de coisa alguma

Dessas” - responde o barqueiro.

- ”Então tu perdeste, em suma,

Meia vida que ressuma

Das águas neste viveiro.”


Chegando do rio ao meio,

Diz outra vez o estudante:

- ”E estas águas, todo o veio

Donde vem? O rio cheio

Vai até onde adiante?”


- ”Disso não sei nada, a sério.”

- ”Três quartos da tua vida

Perdeste” - diz, nada aéreo,

O rapaz, com todo o império.

A madeira apodrecida


Abre um buraco nocasco

E o barco desata a encher-se

Como na torneira um frasco.

O barqueiro, ante o fiasco,

Pára e, com o alarme a ver-se,


Diz, vendo o barco a afundar-se:

- ”Sabes nadar?” - ”Não, não sei...”

-”Nesse caso, sem disfarce,

A vida inteira a afogar-se

É que aqui perdes por lei.”


E para a margem distante

Mergulhou, indo a nadar,

Deixando o barco, o estudante,

Mais o seu orgulho impante,

Rapidamente a afundar.



Ouvido


Em tempos que já lá vão,

Na China um homem gozava

De ouvido tão fino, tão,

Que da margem reparava

No ruído que, a nadar,

Faz o peixe, água a sulcar.


Ao colar o ouvido à terra,

Ouve toupeiras, minhocas...

Quando à noite em sono ferra,

A aranha, ao sair das tocas,

Faz um barulho larvar

Que o leva sempre a acordar.


Um dia foi um prodígio:

Teria ouvido a eclosão

Duma rosa no fastígio

De ao mundo abrir o botão.

Vizinhos foram com ele

A um jardim: que feito aquele!


Até um botão de rosa

Aproximou o ouvido,

Horas e horas ali goza,

Meio sorriso, o ruído.

- ”Ouves mesmo alguma coisa?”

Nos lábios o dedo poisa,


Recomenda aos curiosos

Não perturbem o exercício,

Aparentava os gozosos

Êxtases, tal como um vício.

Ouve as pétalas da flor

Com lentidão, ao calor,


Todas a se descolar,

Ouvia a seiva a fluir,

Murmúrios quase a aflorar,

Roçagar a mal surdir.

Ele nem termos sabia

Para contar o que ouvia.


Após horas no jardim

Uma mulher perguntou:

- ”E o cheiro como é, por fim?”

- ”O cheiro?! Qual?!” - exclamou. -

“Explica-me bem primeiro:

As rosas também têm cheiro?”



Alexandre


Quando Índia fora avançava,

Alexandre da existência

Da feiticeira augurava

De grande reputação

Que o futuro via então


Sem se jamais enganar.

Ficou muito surpreendido

Ao ver a mulher sem par,

Jovem, bela, olhar medido,

Que pergunta, o falar puro:

- ”Queres saber teu futuro?”


- ”Meu futuro não existe” -

Responde o conquistador. -

“Construo-o eu, é o que viste.”

- ”Como tu queiras, senhor.”

E Alexandre, de seguida:

- ”Porém,em contrapartida,


Quero saber como fazes,

Para prever o futuro

Tão exacto, em suas fases,

Com o teu modo seguro.”

- ”Pois eu posso-to dizer” -

Respondeu logo a mulher. -


“É de erguer de certo jeito

Um monte de paus talhados

Duma madeira a preceito.

De incenso são polvilhados.

E, enquanto se pronunciam

Certos termos, se acendiam


As chamas desta fogueira.

No lume que então se eleva

Podemos ver a certeira

Figura vinda da treva,

Com pormenor, do futuro.

Então é que o prefiguro.”


- ”Não me estás mentindo?” - ”Não!”

- ”Dizes-me como se faz?”

- ”Claro. Dou-te a indicação

Do pau de que hás-de ir atrás,

Como talhar os gravetos,

Como dispô-los, secretos,


Como misturar o incenso

E como lhe deitar fogo.”

- ”E verei, é o teu consenso,

O porvir nas chamas logo?”

- “Sim. Mas há uma condição:

Não poderás nunca, não,


Nem sequer por um momento,

Reflectir dum crocodilo

No olho esquerdo. Lamento.

Só no direito, tranquilo.

Mas no esquerdo, um mero instante,

É a perdição tua adiante.”


Diz-lhe Alexandre: - ”Está bem,

Já percebi a evidência.

Jamais tentarei, também,

Indo além do que convém,

Essa tua experiência.”



Mestre


Era um jovem japonês

Que a um mestre se dirigiu

De artes marciais, certa vez.

Grande especialista o viu


Para a prática da espada.

O tempo lhe perguntou

Preciso para apurada

Ter tal arte que sonhou.


- ”Dez anos” - o mestre diz.

- ”Dez anos?! É demasiado,

Não há força de aprendiz

Por prazo tão dilatado.”


E o mestre, a evitar enganos:

- ”Se assim for, então vinte anos.”



Brâmane


Um brâmane muito culto

Vai ter uma vez ao rei.

Dezoito dias o oculto

Lhe tenta explicar da lei,

Dezoito cantos que cita

Do sacro Bhagavad-Gîta.


Escutou com atenção

O rei, contudo, no fim,

Ao brâmane com unção

Diz, numa dúvida, enfim:

- ”Tudo isso está muito bem,

Mas compreendeste também


Tudo quanto me explicaste?”

Responde o brâmane: - ”Não,

Mas importante que baste

É que tu, de coração,

Vislumbando-lhe sentido,

O tenhas compreendido.”



Xun Zi


Xun Zi conta que um famoso

Mestre tomou, certo dia,

A decisão, imperioso,

De que jamais falaria.


Um discípulo pergunta:

- ”Mestre, se não falas mais,

Como é que a assembleia junta

Transmite, com que sinais,


O teu grande ensinamento?”

O mestre explicou-lhe assim:

- ”Fala acaso o firmamento?

Ora, as estações, no fim,

Ocorrem e as criaturas

Multiplicam-se, seguras.


Que me respondes a isto?”

Nada tinha a responder

Este aprendiz, tudo visto.

Silenciam, até ver...

- Este é o silêncio que após

Dali nos chega até nós.



Buda


Quando Buda oferecia

Na Índia os ensinamenos,

Os cultos, em romaria,

Quem de pensar quer fermentos,

Acorriam a escutá-lo

Para tentar praticá-lo.


Porém, os menos dotados,

Desprovidos de altos voos,

Ouviam, mas desolados:

- ”Levar à prática vou-os,


Mas como, se os não entendo?”

Um deles tanto se queixa

Que Buda, a sofrer o vendo,

Lhe tomou então a deixa


E aconselhou-o a varrer

Criteriosamente o chão

E as sandálias que tiver,

A limpar, polir à mão.


Ora, o homem alcançou

Deste modo o despertar

Que há que tempos desejou

Sem sequer o vislumbrar.



Rumi


O poeta Rumi falava

De música aos seus alunos.

Do rebab perguntava,

(Do Afeganistão é um múnus),

Donde vem a força, o encanto

Da música de seu canto.


Quando um o questionou,

Retorquiu-lhe em melodia:

- ”Deveras quando soou,

Eu do paraíso ouvia

A portada em movimento

Por um mui longo momento.”


-”Também eu” - o aluno afirma. -

“Também da porta o barulho

Ouvi, mas não se confirma

O êxtase que ali vasculho.

Porquê?” - ”Simples é a razão” -

Diz Rumi, descendo ao chão. -


“Do paraíso ouço a porta

Quando ela se vai abrindo.

Vós, quando o som vos transporta,

É a fechar que ela vai indo.

É pequena a diferença,

Mas é inversa a recompensa!”



Passos


Havia em Àfrica um homem

Magro mas de olhar brilhante.

Pelas aldeias se somem

Seus passos para diante.


Na mão leva um balde água,

Na outra, uma tocha acesa.

Se lhe perguntam que mágoa

Ou que esperança represa


O levam a transportar

Os dois objectos, responde:

- ”A tocha é para atear

O paraíso sempre onde


O não encontrar eterno,

Como água é para apagar

Por onde calhar o inferno.”

- ”Mas queres iluminar


O céu e apagar o diabo

Porquê?” - ”Travo atento a guerra

Porque vejo, ao fim e ao cabo,

Que há tudo isto aqui na terra.”


E, seguro, no maninho,

Continuava o caminho.



Filho


Nasredim um filho tinha

Que perguntou curioso:

- ”Porque flutua uma pinha,

Não vai ao fundo lodoso?”


Nasredim profundamente

Pensa para responder

Com franqueza, limpa a mente.

- ”Nada sei de tal, sequer.”


- “E como fazem os peixes

Ao respirar dentro de água?”

- ”Não sei, não. Porém, não deixes

De perguntar, não traz mágoa.”


- ”E as marés a que se devem?

Porque é que o mar sobe e desce?”

- ”Sei lá bem porque se elevem

E porque minga o que cresce!”


- ”Não te incomodam, em suma,

As perguntas de rajada?”

- ”Mas, de maneira nenhuma!

Sem tal, nunca aprendes nada...”



Noviço


Um noviço ao mestre chega

E pergunta: - ”Tenho em mim

A natureza que adrega

Buda ter até ao fim?”


- ”Não!” - lhe diz o mestre, seco.

- ”Mas não disseste que todo

O ser vivo, forte ou peco,

De Buda, de qualquer modo,


Terá sempre a natureza,

Mesmo a planta ou o animal?”

- ”Sim” - responde, sem surpresa.

- ”Porque não eu, afinal?!”


Peremptório, o mestre junta:

- ”Porque fazes a pergunta.”



Prender-se


Um jovem muito dotado,

Cioso de não prender-se

A nada, por nenhum lado,

(Como um sábio deve haver-se)


Certo viajante encontrou

Que ali cachimbo fumava

E desde logo o imitou.

Mal sentiu que começava


A tomar gosto ao tabaco,

Rápido abandona o fumo.

Um astrólogo, a um pataco,

Nas estrelas, em resumo,


Ensinou-lhe a ler destinos

E a remendar desonesta

Vida nos termos mais finos.

Logo um astrólogo em festa



Se tornou, mas ao dar conta

Do prazer de encaminhar,

Logo o remorso desponta,

Finda a tarefa a largar.


Experto em caligrafia,

Quando exímio se tornou,

Logo a tudo renuncia,

Que ali o medo o agarrou.


Como monge num convento,

Recebeu do superior

Proposta dum nobre intento:

Suceder-lhe vem propor.


Rejeitou, que a promoção

Temeu que o ia prender

E logo ao convento então

Foge sem adeus sequer.


O mesmo com a pintura,

O sabre, o teatro, o canto...

Se no píncaro figura,

Renuncia, põe-no a um canto.


Quando o fim se lhe aproxima,

Chama um clínico afamado.

O doente, de tudo acima

Quer ver-se, em ânsias, curado.


- ”Que devo fazer?” - pergunta,

Com profunda ansiedade.

- ”Que quer que lhe diga?” - assunta

O outro com sobriedade. -


“Anda assim tão preso à vida,

Tanto então ela o regala,

Que de forma desmedida

Quer tanto, ao fim, conservá-la?”



Pesca


Vem da pesca o jovem monge

Com sete peixes na rede.

Um velho encontra, não longe

De morrer de fome e sede,


Estendendo a mão à beira

Do caminho onde prossegue.

O monge então, com canseira,

Explica como consegue


Escolher-se um bom bambu,

Talhar a cana de pesca

E prender, sem mais tabu,

Fio, anzol e, pela fresca,


A eleição do rio onde ir.

E foi assim por diante,

Que minhoca preferir,

Que peixe a quer, hesitante,


Quando ao velhinho faminto

Lhe tomba a mão estendida,

Cai-lhe a cabeça do plinto

E morreu-lhe à fome a vida.



Dibbuk


Um dibbuk, entre os judeus,

É um defunto que dum vivo

Se apodera, o faz dos seus,

Para atormentá-lo, esquivo.


Hoje narrá-lo rareia.

Perguntaram a Mendel:

- ”Porque é que o ninguém nomeia?”

- ”Porque hoje livrar-se dele


(Vê só o alcance que tem)

Já não o sabe ninguém.”



Confúcio


Confúcio recomendava

O exercício da poesia,

Leitura de odes que amava.


Tseu-Hi recitou-lhe um dia

Uma passagem que diz

Dum rosto que em mulher via:


“Enruga os cantos, feliz,

Da boca um riso trocista.

Olhos belos de raiz


Brilharão, a quem a avista,

No esplendor a preto e branco

Que um fundo branco revista.


Deste a cor diversa arranco.”

Tseu-Hi pergunta o sentido

Que um filósofo mui franco


Encontra no que foi lido.

Confúcio, a quem o poema

Diz além do que é entendido,


Respondeu que isto era o lema

Fiel da sinceridade

Que considerava um tema


Da primária qualidade

Requerida à aplicação

Dos ritos de toda a idade.


Tseu-Hi perguntou-lhe então:

-”Sinceridade porquê?”

Confúcio, com convicção:


- ”Seja lá o que for que vê,

Um fundo branco é questão

Antes de o pintar, não é?”



Guru


Um discípulo a um guru

Votava tal confiança

Que bastava, sem tabu,


Pronunciar-lhe o nome: alcança

A largura atravessar

Dum rio a pé sem tardança,


Sobre águas a caminhar.

O guru, disto informado,

Vem o prodígio testar


Que ante ele foi confirmado.

A si próprio diz então:

“Como santo abençoado


Devo ser para a menção

De mim gerar tal poder!”

Logo, sem hesitação,


Atira-se ao rio, a ver,

Gritando: “Eu! Eu!” Eis senão

Quando acaba por morrer.



Rumi


Rumi, grande poeta persa,

De invasões mongóis expulso,

Espalha a vida, dispersa


Terra em terra, a tomar pulso...

Por fim passou na Turquia.

Por não perder dele o impulso,


Em casa o acolhe, em Konya,

Chams de Tabriz, poeta velho,

Que mui dele divergia.


Rumi dum mestre é um espelho,

Muito rico, bem rodeado,

Pede-lhe o sultão conselho...


Chams era pobre, inflamado,

Um errante, imprevisível.

Quando viu Rumi sentado,


Absorto de modo incrível

Num poema, com paixão,

Pergunta, um pouco irascível:


- ”Que fazes?! Por que razão?!”

- ”Nada que entendas!” Responde

Rumi. Chams agarra à mão


O poema e ali é donde

À lareira o atira então.

Chams de Tabriz não esconde


Que a Rumi quer tirar vendas.

Este grita, a fúria em vão:

- ”Que fazes?!” - ”Nada que entendas!”



Indiana


Conta uma história indiana

Que um mui célebre guru

Que a uma floresta se irmana


Há tempos, já seminu,

Visitaram certo dia

Uns estranhos. Muito a cru,


Uma questão lhes bulia.

- ”As respostas serão duas

À questão que se enuncia:


A primeira, a abrir-nos ruas,

A segunda e a terceira.”

As visitas, mentes nuas,


Se admiram daquela asneira:

- ”Falou de duas respostas

Mas depois, muito à ligeira,


Contou-nos três. São supostas?”

- ”Deixem-me explicar então.

À pergunta, logo expostas


Duas saídas irão.

De imediato reparei

Que, mal vo-las ponha à mão,


Vem-me à mente e então terei

Uma terceira intuído.

Por isso é que a acrescentei,


Por não ser desprevenido.”



Japonesa


Uma lenda japonesa

Conta que um jovem pintor

Que aperfeiçoar a cor

Pretende, a um mestre que preza

Vai que tinha grande fama

Em tons, matizes e trama.


Quando chega ao personagem,

Que só lecciona lhe dizem

Por dia as horas que visem

Do Sol dois pontos da viagem,

Ao nascer e ao pôr-do-sol,

Enquanto no jardim bole.


O mestre recebe o jovem

Que longa romagem tinha

Feito, como se adivinha.

Logo às pretensões que o movem

Acolhe, para regalo,

Ao aceitar ensiná-lo.


Lado a lado no jardim,

O jovem se apercebeu,

Para grande espanto seu,

De que o mestre é cego, enfim.

Como é que um cego podia

Cor lhe ensinar algum dia?


Ficou tentado a partir,

Porém decidiu ficar,

O mistério a decifrar.

O mestre cego a pedir

Ao novo aluno começa

Que os olhos feche e que peça


Uma cor à fantasia.

- ”De olhos fechados só vejo

O preto” - diz-lhe, sem pejo.

- ”Eu” - pois o mestre anuncia -

“Consigo às rãs ver o azul

Como aos céus o véu de tule.


Tenho em mim todas as cores.

Como alguém diz que sou cego?”

O jovem, já sem apego

A estranhos que tais mentores,

Cuida que perde o juízo

O velho, não tem mais siso.


Para o não contrariar,

Mantendo os olhos fechados,

Diz-lhe em termos inventados:

- ”Já começo algo a notar.”

- ”Que vês tu?” - ”Vejo o vermelho

De árvores de tronco velho.”


O velho mestre estacou

E, com espanto na voz,

Remata, incrédulo, a sós:

- ”Impossível! Onde estou,

Nem mesmo longe acolá,

Nenhumas árvores há...”



Neve


No Japão, em pleno inverno,

Caminhava um jovem monge

Por neve fresca até longe.

Voltando-se, ao frio interno,

Viu que imprimia pegadas

Atrás de si afundadas,


A pureza destruindo

Da brancura do coberto.

Para bater tudo certo,

Volta atrás, vai espargindo

Com as mãos a neve solta

Sobre as pegadas em volta.


Mas no caminho em retorno

Novas pegadas imprime,

Sempre assim, por mais que arrime

Neve por sobre o contorno

Novas pegadas se aninham

Por onde os seus pés caminham.


Foi ao mosteiro, arranjou

Então uma vassourinha

E, ao caminhar, adivinha

Que para quanto intentou

O melhor é caminhar

Às arrecuas e, a par,


As marcas ir apagando

À medida que as fazia.

Isto é lento em demasia

E depressa vai cansando.

Um monge as idas e vindas

Viu cheias de intenções lindas


E perguntou ao noviço:

- ”Que é que buscas tu ao certo?”

- ”Nem de longe nem de perto

Perturbar todo este viço

Imaculado da neve,

Pretendo apagar-me breve.”


- ”Pela primavera aguarda.

A neve derrete ao sol

E a tua pegada mole

Desaparece, não tarda.”

E o velho monge sereno

Bebe a alvura, calmo, em pleno.



Bovnam


A Bovnam, rabi de fama,

Se apresenta um velho um dia:

- ”Quem foge duma honraria,

(É o que o Talmude proclama)

Faz com que ela, ao que a repele,

Venha a correr atrás dele.


Pois bem , toda a minha vida

Fugi de honrarias eu,

Nenhuma me perseguiu.”

- Ӄ que tu, na tua lida,

Sempre andaste, contumaz,

Ansioso a olhar para trás.”



Gigantesca


Uma estátua gigantesca,

Buda deitado de lado

No Nirvana quando há entrado,

Esconsa, ninguém repesca

Das areias entre os dedos

Lá dos afegões rochedos.


Trezentos metros medir

Deverá de comprimento.

De todo o deserto o vento

Por séculos a zunir

A pouco e pouco enterrado

A terá, pois, nalgum lado.


De arqueólogos equipas

Tentam um século inteiro

O colosso verdadeiro

Encontrar e nem farripas

Vislumbram de algum sucesso,

Antes lhes é tudo avesso.


Contam que uma expedição,

Quando o país era presa

De guerra e convulsão tesa,

Se perdeu numa região

Árida, pela canícula

Da estiagem, sem retícula


De mapa que lhes valera.

Esgotaram provisões,

Reservas de água, rações...

A pé vão, agora à espera

Dum bom reabastecimento,

Mas nem rádios, de momento.


As forças iam perdendo,

Limiar de sobrevivência.

Uma noite, uma evidência

Num terreno vai-se erguendo:

Reconhecem pelo fosso

Que era uma boca de poço.


Logo um deles se arrastou,

Um calhau deixa cair:

Rumor de água vão ouvir

Que um pouco abaixo ecoou.

Reanima-os o ruído

E o poço é desimpedido.


A uma rocha arredondada

Amarraram uma corda.

É o mais magro que concorda

Descer e fazer a aguada.

A escuridão é completa

Mas encher cantis é a meta.


Puderam dessedentar-se

Da missão os elementos.

Acabaram-se os tormentos,

A vida ao corpo a tornar-se.

Comeram o que encontraram:

Bagas que ao poço tiraram.


Dormiram algumas horas,

Marcharam antes do sol,

Fugindo ao calor que imole.

Mais tarde, muito a desoras,

Socorrem-nos camponeses

Hospitaleiros, corteses.


Nunca souberam que tinham

Naquela noite encontrado,

Providenciais, ao lado,

Boas águas que os sustinham

De Buda na orelha cheia

Enterrada sob a areia.



Hitchcock


Para Hitchcock o que importa

Era acção, não o motivo.

Que é que está por trás da porta?

Vale é que dela me esquivo.


O segredo do segredo

É por McGuffin tratado.

Dois homens, conta o enredo,

Num comboio, lado a lado,


Viajam, quando um aponta

Do outro a mala lá por cima

E faz a pergunta tonta:

- ”Que é que leva neste clima?”


- ”Um McGuffin” - o outro acode.

- ”Que é que é isso exactamente?”

- Ӄ um aparelho que pode

Capturar-nos, de repente,


Leões nos Adirondacks.”

(É cadeia montanhosa

Que nem sequer atabaques

Toca a quem lá férias goza.)


- ”Não há lá nenhum leão!” -

Diz o outro com desdém.

- ”McGuffin talvez então

Não seja o que a mala tem...”



Saco


Na estepe de Ásia central

Carrega um homem um saco

Às costas, piramidal,

Ao sol quente, feito um caco.


Cruza com outro que quer

Saber o que o saco tem.

- ”Toalhas” - diz-lhe, a sofrer,

O que do saco é refém.


- ”Para quê?” - ”Secar a cara.”

- ”Mas é de loucos! Pesado

É demais. É pilha rara

De cem toalhas no costado!”


- ”Mas não é gesto gratuito:

É que, enfim, eu suo muito...”



Bolos


Nasredim diz ao vizinho:

- ”Adoro bolos de mel

Com sêmola, mas definho

Por não conseguir daquele


Manjar nem um só comer.”

- ”Então porquê?” - ”Porque em dia

Em que mel em casa houver

Não há sêmola e, se havia,


Então é o mel que nos falta.”

- ”Ainda assim, alguma vez,

Onde um é já o outro salta,

Os dois juntos ali vês.”


- ”Pois, mas quando isso se apraza

Eu jamais estou em casa.”



Strudel


Numa família judia

O filho pergunta um dia


Ao pai, um homem letrado,

Porque o strudel é chamado


De strudel. O pai reflecte

E diz como lhe compete:


- ”Não tem o strudel a forma,

A espessura que o conforma,


A consistência daquele

Comer chamado strudel?”


- ”Tem” - o moço lhe confirma.

- ”E a canela não se afirma


Nele como no strudel?”

- ”Sabe a canela como ele.”


- ”Tem dentro maçãs cozidas,

Tal um strudel, bem medidas?”


- ”Sim” - o filho lhe responde.

- ”Se todos os pontos onde


O comparar com strudel

É tal e qual como ele


Porque havia de o chamar

Dum outro modo, em lugar?”



Buracos


Nasredim muito ocupado

Num campo anda a abrir buracos.

No fundo dispõe uns nacos

De queijo e com mui cuidado

Logo os fecha muito bem.

Um amigo que lá vem


Pergunta-lhe porque aquilo

Ele andava ali fazendo.

- ”Abro buracos. Defendo

Que apanho ratos, tranquilo,

Só com este estratagema.”

- ”Como assim?! Isso é um poema...”


- ”Atraído pelo cheiro

Do queijo, o rato se inclina,

Funga e entra, é dele a sina,

Para o buraco, lampeiro.”

- “E porque os fechas então?”

- ”É para que os ratos não


Possam voltar a sair,

Uma vez dentro ao cair.”



Espelho


Um homem há um bom pedaço

Estava perante o espelho:

Fecha os olhos. De embaraço,

Pede a mulher um conselho:


- ”Que é que fazes tu, de pé,

Ante o espelho aí plantado?

Porque estás de olho fechado?”

- ”Eu quero ver como é que é:

Como é que eu sou a seguir

Quando estiver a dormir.”



Brasil


Em S. Paulo, no Brasil,

Recebe um italiano

Um amigo: -”Não refile,

Não conduzo por engano.

Meu cunhado é motorista,

Ele é que me deu a pista.


Não se inquiete, já que eu faço

Tal como ele me ensinou:

Ao sinal vermelho, esgaço,

Melhor, acelero e voo.

É que, se não corro assim,

Qualquer ladrão vem a mim.”


Com efeito, noite fora,

O brasileiro ultrapassa

Sinais vermelhos agora.

O italiano se embaça,

Do carro preso ao assento,

Quase aterrado do intento.


De súbito, ao sinal verde,

Logo o brasileiro estaca,

Quase a chiar travões perde.

- ”Que se passa?” - o outro ataca. -

“No sinal verde paraste,

Não há um ladrão que te arraste?”


- Ӄ que pode do outro lado

Vir chegando o meu cunhado.”



Capelista


Nasredim foi capelista,

Anotava as encomendas

Guardando o lápis à vista

No turbante, após as vendas.


- ”Porque o pões atrás da orelha?” -

Diz-lhe um cliente que sai.

- ”O nariz não o aconselha,

Se o lá puser, ele cai.”



Passeio


Dois homens vão a passeio,

Leva guarda-chuva um deles.

Começa a chover a meio.

Já chuva lhes pinga as peles

E o homem não quer abrir

O guarda-chuva, a seguir.


Pergunta o outro porquê.

- ”Não serviria de nada” -

Diz o amigo, de boa-fé. -

“Cobertura esburacada...”

- ”Então porque trouxeste esse?”

- ”Nunca pensei que chovesse.”



Analfabeto


Um homem analfabeto

Vem pedir a Nasredim

Que carta escreva, correcto,

A Istambul, que a manda assim.


- ”Não posso! Bem gostaria...” -

Diz-lhe Nasredim em troca.

- ”Porquê?” - ”Porque todo o dia,

Calçado com esta soca,


Muito me doem os pés.”

- ”Mas escreves tu com eles?!”

- ”Não, mas sofro dum revés:

A escrita a que tu apeles


Em minha caligrafia

É tão má que até Istambul

De caminhar eu teria,

Cruzando de norte a sul,


Para ler ao teu amigo

A carta que não consigo.”



Disparatadas



Perguntas disparatadas

Faziam a Nasredim,

De longe até disparadas

Para ouvir dele algo enfim.


- ”Quantas patas de rã são

Para ir daqui à Lua?”

-”Uma só,” - diz o truão -

“Mas bem mais longa que a tua.”



Banana


Num restaurante, no Irão,

Ao meditar sobre o mal,

Um cliente pede então

Uma banana mais sal.


Salga cuidadosamente

A banana e deita-a fora.

- ”Porquê?” - dizem ao cliente

Circunstantes, sem demora.


- ”Porque odeio nas entradas

Quaisquer bananas salgadas.”



Rússia


Na Rússia o judeu Mendel

Pegou no cesto e o abriu,

No regaço e sobre a pele

Uma toalha estendeu


E, sob os olhos atentos

Dos parceiros de viagem,

Pega na faca e em momentos

Corta um frango sem paragem.


A seguir descasca um ovo,

Batatas e beterraba,

E um pouco de azeite novo

Acrescenta e não acaba:


Cebola, sal e mostarda,

Mais um raminho de salsa...

Fica o efeito a olhar, não tarda,

Mas logo sob os pés se alça,


Abre a janela ao comboio

E atira tudo lá fora.

Dúvida a um parceiro mói-o,

Pergunta-lhe, não demora:


- ”Mas que acaba de fazer?!”

- ”Frango em salada judia.”

- ”Joga-a fora sem comer?!”

- ”É que não há, juraria,


Coisa que eu deteste mais

Neste mundo que a salada

Judia de frango. Tais

As razões. E ei-la enjeitada.”



Tempo


Anda um grupo a passear

E pergunta a Nasredim:

- ”Quanto tempo vai levar

Da aldeia até ao confim?”


- ”Andem!” - disse-lhes. - ”Mas quanto?”

- ”Andem” - repete. Mais nada

Retiram dele. Entretanto,

Fazem-se lestos à estrada.


E meia hora mais tarde

Chegam ao lugar seguinte.

Ouvem passos com alarde

A correr, tal por acinte.


Nasredim vêem agora,

Sem fôlego, a parar junto.

- ”Demora uma meia hora.”

- ”Porque não falou do assunto?”


- ”Porque antes eu não sabia

Qual era a velocidade

A que o grupo seguiria.

Ou isto não é verdade?”



Fumar


Certa noite, Nasredim

Tem vontade de fumar.

Não consegue afugentar

Tal desejo. Então, assim,


À pressa se levantou,

Bate à porta do vizinho

Que pergunta, de mansinho,

Mui depois que o acordou:


- ”Que queres?” - ”Tenho vontade

Muito horrível de fumar.

Não tens fogo no teu lar?”

- ”Fogo?!” - ”Sim.” - ”Vens de verdade


Acordar-me em plena noite

Pedindo fogo e na mão

Tens aceso um lampião?!”

- ”Busco quem o lume acoite.


Vê se mui alto não gritas,

Que o apagas, acreditas?”



Filho


Nasredim, com convidados,

Manda o filho comprar chá:

- ”Depressa, pés despachados!”

Vai o filho a correr já.


Retorna muito mais tarde

A arrastar os pés de sorna,

Quando lume nenhum arde,

De vez já perdida a jorna.


Repreende-o, furioso,

O pai: - ”Eu disse depressa!”

- ”Mas não disseste, é curioso,

Nada a quando se regressa...”



Quântico


Niels Bohr, o quântico físico,

Em Tisvild conhecia,

Na casa de campo um tísico

Com uma ancestral mania:

Mantinha uma ferradura

Por cima da porta escura.


- Ӄs mesmo supersticioso?

Acreditas de verdade

Que a ferradura traz gozo,

Vai trazer felicidade?”

- ”Claro que não” - responde ele. -

“Porém parece que aquele


Ferro resulta se o fite

Mesmo quem não acredite...”



Suíça


Durante a guerra voavam

Sobre a Suíça os ingleses

Enquanto bombardeavam

A Itália múltiplas vezes.


Da bateria suíça

O comandante chamou

Um piloto que na liça

Sobre ele alto sobrevoou..


- ”Você acaba de entrar

Em suíço território.”

- ”Eu sei “ - diz o inglês lá do ar.

- ”Se de imediato este inglório


Voo não voltar atrás,

Então terei de abrir fogo.”

- ”Eu sei” - torna o inglês, veraz,

E em rota nem liga ao rogo.


A bateria dispara

Durante vários minutos,

Nem a recarregar pára.

- ”Do vosso fogo os produtos


Estão cem metros abaixo” -

Diz o inglês, calmo e castiço.

- ”Eu sei” - responde-lhe, baixo,

O comandante suíço.


















4


Ao Serão de Quarta-feira
































Naftali


Naftali, mestre judeu,

Estava a ralhar um dia

A um filho que o mal fez seu,

De idade em dez anos ia.


- ”O que tu fizeste não

Está mesmo nada bem.”

- ”Que fazer na ocasião,” -

O petiz mal se contém -


“Se empurra o instinto do mal?...

Foi bem mais forte do que eu.”

- ”Pois” - diz o pai - “faz igual,

O mal como mal agiu,


Faz tu bem tal deve ser.

Ao menos imita-o nisso.”

- ”É verdade, é o que se quer,

Só que ele não tem o enguiço


Que nós temos, por sinal,

E no pior momento vem:

Não tem o instinto do mal

Que obrigue a fazer o bem.”



Água


Um fio de água corrente

De Mohammed Aslam à porta

Lhe murmura permanente.


Nunca lhe o desejo importa

Que tem sempre de a provar,

Não lhe toca porque, exorta,


Decerto pertence a um lar.

O desejo foi mais forte

Um dia, ao se refrescar.


Mas Aslam não perde o norte,

Tira de seu próprio poço

De água a bilha de transporte,


Do rego a despeja ao fosso.

A seguir encheu a bilha

De regato neste esboço,


Com consciência ergue a vasilha,

Bebe em paz, refeito moço:

Ninguém vê que água partilha.



Bassorá


Um homem de Bassorá

Na Idade Média decide

Que há-de ver, ou cá ou lá,

Custe o custo a que convide,

Do mundo o fim que haverá.


Teria ouvido falar

Por filósofos e poetas

Que o fim do mundo é um lugar

Onde viajantes estetas

Do abismo vão se acercar


No fundo do qual, uivantes,

Correrão rios ferventes.

Vendeu os bens todos dantes,

Comprou camelos correntes,

De guarda armada e garantes


Se rodeou e de comida

Em bastante quantidade,

Partindo então, de seguida,

Numa noite em que a cidade

Via a Lua Cheia erguida,


A aproveitar a frescura

E a nocturna claridade.

Caminhou à desmesura

Sempre a leste, que, em verdade

Era onde há o fim que procura.


Trocou camelos por mulas,

Para atravessar montanhas.

E por camelos com gulas

De águas em oásis tamanhas

Quando por China além bulas.


Cruzou rios e cidades,

Embarcou num barco à vela,

Do oceano imensidades

Transpondo a olhar uma estrela,

Choca em perigosidades,


Aventuras tenebrosas,

Alguns guarda-costas perde.

Chega à América e frondosas

São gentes, paisagem verde,

Pirâmides fabulosas

Feitas por quem nem o ferro

Afinal conheceria.

À doença, traição, erro,

A custo sobrevivia.

Viu pinguins longe, no aterro,


Que por humanos tomou.

Atravessou noutro barco

Outro mar que o balançou,

Que quase o atirou ao charco,

Mas a Europa alcançou.


De terra em terra fugiu

Escapando a locais guerras

Que então, de fio a pavio,

Devastam campos e serras

De Espanha aos Balcãs, no ousio.


Chega ao fim a volta ao mundo,

Quatro anos de provações,

O arredor atinge, imundo,

De Bassorá, seus brasões,

Donde partira jucundo.


Reconheceu a paisagem

Bem familiar da infância.

Na cidade finda a viagem,

Busca o bairro, a casa, em ânsia,

O irmão busca com coragem.


Viu-o no mesmo lugar

Onde o houvera deixado,

A meia-noite ao soar.

- ”Do mundo o fim avistado

Houveste, acaso, ao calhar?”


- ”Não vi nada semelhante.

Cavalguei e naveguei

E eis que me encontro perante

O lugar donde arranquei.

Dilema decepcionante,


É tal se nem viajado,

Saído do mesmo sítio

Houvera para algum lado.

Todo o meu percurso, dite-o

Embora, eis que tu sentado


Estás bem à minha frente

No teu lugar. Que serviu

Tanto esforço? De repente,

Que nada mudou se viu.”


- ”Engano!” - comenta, ausente,


O irmão. - ”Pois algo mudou.”

- ”Então o quê?” - ”Olha!” - estende

O dedo à Lua que achou

Cheia à partida e que rende

Um quarto, ora que chegou.


- ”Mudou a Lua” - lhe diz.

- ”Não mudou por minha causa,

Muda sempre de cariz,

A viagem não lhe impôs pausa.”

- ”Não disse tal, o que fiz


Foi apontar-lhe a mudança.

Tu parado, em movimento,

Pouco importa, o que ela alcança

É que muda a seu contento.

Não podes, após tal dança,


Dizer que é tudo como antes.”

Fica o viajante a pensar

E após diz, de olhos brilhantes:

- ”Como antes anda a mudar!”

E o outro, após uns instantes:

- ”Ainda está por provar.”



Chofar


Um judeu testemunhar

Foi perante um juiz russo.

Pergunta-lhe hora e lugar

Do evento, a coçar o buço.


- ”Foi quando o chofar tocou” -

Lhe retrucou o judeu.

- ”Que é um chofar?” - lhe perguntou.

- ”É um chofar!” - lhe respondeu.


O chofar é um instrumento

Feito em corno de carneiro

Que é tocado no momento

Dumas festas, o ano inteiro.


- ”Se não dizes de imediato

O que é um chofar” - diz o juiz -

“Na prisão é o seguinte acto

Em que tombas por um triz!”


- ”Um chofar é uma corneta.”

- ”Porque não disseste logo,

Sem que ameaças cometa?

É tudo arrancado a rogo!”


E o judeu, fincado à meta:

- ”Porque não é uma corneta!”



Faminto


Um faminto caminhava

Só e perdido no deserto.

Só com pão quente sonhava,

Ovo fresco, azeite perto.


A meio da noite chega

A um acampamento em hora

Em que um ladrão escorrega

Com os roubos, indo embora.


Ora, os donos acordaram,

Tomaram o vagabundo

Pelo ladrão que assustaram.

Cem bastonadas no imundo


Dão antes de descobrir

Que se haviam enganado.

Pois desculpam-se a seguir,

Põem-no bem alimentado


De ovos frescos e pão quente,

Mesmo até dum bom azeite.

Matou a fome, contente.

Semanas após o aceite,


Fatigado e esfomeado

Chega a um outro acampamento.

Viram-no tão esgalgado

Da fome pelo tormento


Que lhe ofertam de comer.

- ”Aceito” - diz às guinadas. -

“Contudo quero sofrer

Primeiro as cem bastonadas.”



Chammai


Uma das mais rigorosas

Das escolas do Talmude,

A de Chammai, diz que gozas

De divórcio, já, em virtude

De a mulher só um cozinhado

Haver mal confeccionado.


Um jovem questiona um dia,

Então, célebre rabino:

- ”Mas quem é que aceitaria

Tal coisa como destino?

Que haja a divórcio direito

Por tal razão tãosem jeito?”


- ”Não percebes nada, a frase

É escrita a bem da mulher,

É uma defesa de base.”

- ”Não estou a compreender...”

- ”Quando um homem estiver

Disposto a largar mulher


Por uma razão tão fútil,

A mulher deve feliz

Sentir-se, de isto ser útil

A se livrar do cariz

Dum homem tal, tão sem jeito

Que o divórcio é um bom preceito.”



Buraco


Um dia, de manhã cedo,

Nasredim cava um buraco

Nas hortas. Logo, num credo,

Enche-o de pedras e caco.


Olha então à sua frente

O monte de terra e cava

Outro buraco onde tente

A terra enfiar que sobrava.


Um vizinho fica a olhar,

Espantado com tal acto.

Nasredim, suor a limpar,

A pensar põe-se, pacato.


- ”Que vais fazer do segundo

Monte de terra cavado?

É num terceiro mais fundo

Buraco que tens pensado?!”


- ”Pára aí!” - diz Nasredim. -

“Não há tempo nem num ano

De explicar até ao fim

O pormenor do meu plano.”



Fumar


Um amigo alguém encontra

Que dois cigarros fumando

Juntos está, como a montra

Das marcas que anda queimando.


-”Eu por mim um vou fumando

E outro pelo meu cunhado

Que não pode fumar quando

Hoje é um hospitalizado.”


Uma semana mais tarde

Voltam a encontrar-se os dois.

No amigo um só cigarro arde

E o porquê quer o outro, pois.


- ”Este é pelo meu cunhado,

Continua no hospital.

Eu, entretanto, hei deixado

Já de fumar, por sinal.”



Soviético


No regime soviético,

Dois oficiais frente a frente.

Um pergunta ao outro, céptico,

A pergunta mais urgente:


- ”Que pensas tu do regime?”

- ”O mesmo que tu, solerte.”

- ”Nesse caso, convenci-me,

O meu dever é prender-te.”



Cruel


Um cruel governador

Pilhava, aterrorizava

Do Império Otomano um ror,

Nas terras que governava,


Doutro governador filho,

Que, por sua vez, bem duro

Com o povo foi, rastilho

Da fereza que hoje apuro.


A divisa parecia

A de que o poder é feito

Para abusar cada dia

Dele a torto e a direito.


Ora, um dervixe vestido

Muito desgraçadamente,

De santidade investido,

Noite e dia, permanente,


Anda ao acaso das ruas

Apregoando, convicto,

Mil insanidades cruas,

Ao que crê qualquer perito:


- ”Viva o governador, viva!

Que ao governador Alá

Dê vida longa e festiva!”

Ao dervixe faz que vá


Alguém mui prudentemente

Murmurar: - ”Porque ao tirano

Desejas longa e decente

Vida um ano atrás dum ano?”


- ”Porque o pai dele era mau

E ele ainda é pior.”

- ”Não entendo. O varapau

É que era de se lhe impor...”


- ”Pois então pensa um bocado:

Se nos livrarmos daquele,

Que desgraças, por seu lado,

Nos traria o filho dele?”



Selos


Numa estação de correios

Da caída União Soviética

Protesta alguém, sem rodeios,

Ante a empregada, com ética:


- ”Camarada, os novos selos

Com a efígie de Lenine

Não colam nunca: os meus zelos

Não resultam. Que os define?”


Com ar de enfado, a sorrir

Diz o balcão de bem perto:

- ”Vê. Não estás a cuspir,

A cuspir do lado certo...”



Húngaro


Um húngaro no hospital

Dos olhos e dos ouvidos

Quer o serviço que igual

Os trata nos ofendidos.


O soviético legado

Diz: - ”São dois departamentos,

O dos olhos é dum lado,

Doutro, os ouvidos.” Momentos


Após diz o paciente:

- ”Então tenho de ir aos dois.”

- ”Porquê?” - ”Vê que estou doente,

De quê não entendo, pois,


De algum tempo a esta parte,

E eu bem descanso e retoiço,

Meus sentidos vão destarte:

Eu não vejo aquilo que oiço...”



Inadequado


Um poder inadequado,

Inoperante seguia,

Lenine, Estaline ao lado,

Krustchev e Brejnev à guia,


Todos no mesmo comboio

E, de repente, este pára.

Diz Lenine (a espera mói-o),

Quando naquilo repara:


- ”Chamem especializados

Engenheiros do lugar

E que sejam despachados

O comboio a reparar.”


Chamaram os engenheiros,

Meteram mãos ao trabalho,

Mas nem saber nem dinheiros

Mexem um comboio falho.


Estaline berra então:

- ”Fuzilem os engenheiros

E o maquinista que é vão,

Também, já agora, os fogueiros!”


Obedecem-lhe, mas fica

O comboio ali parado.

Krustchev é após quem se aplica

A rever o destinado:


- ”É fácil, há que arranjar

Engenheiros, maquinistas,

Fogueiros para o lugar.”

É o que fazem pelas listas,


Mas o trem mantém-se ali

Paralisado de vez.

Então Brejnev sorri,

Olhando-os nos canapés:


- ”Camaradas, as cortinas

Fechemos e faz de conta

Que o trem corre nas colinas

Normalmente, ponta a ponta.”



Ditador


Como em qualquer ditadura,

O ditador quer feliz

O povo. Um disfarce apura

A ver o que o povo diz.


A um vendedor ambulante

Pergunta-lhe o que é que pensa

Do querido governante

Que ao país lavra a sentença.


Diz o homem: - ”Que mudança!

Até que enfim temos quem

Se preocupa. O povo dança!

Há escolas como convém,


Hospitais, públicos banhos,

Até justos tribunais.

E os ricos, hoje, em rebanhos,

Seguem exemplos que tais.


De repente, o mundo inteiro

Nos respeita e nos inveja.

Deus deu-nos guia e sendeiro,

Não há melhor que se veja.”


O governante, encantado,

Revelou-se e ao ambulante

Vendedor diz num trinado:

- ”Sou eu o chefe brilhante.


A agradecer-te a franqueza,

Pede-me o que tu quiseres,

Que te é dado de certeza.”

- ”Sim?!” - “São os meus afazeres.”


- ”Então concede-me um visto

Para eu poder do nicho

Fugir que é, desde que existo,

Todo este país de lixo.”



Imperador


Um imperador que tinha

Poder absoluto em tudo

Ouve que alguém adivinha,

Por trás de qualquer escudo


Todo o segredo do mundo.

Dos animais entendia

Da língua o selo fecundo,

Nas nuvens mensagens lia,


Decifra o código ao vento,

Às ondas do mar também,

Diz dos trovões qual o intento,

Com animais fala tem.


Até mesmo o pensamento

Em funda mente escondido

Lia a qualquer elemento

Que lhe houvera tal pedido.


O imperador manda-o vir.

Mal ele se perfilou,

Pôs-lhe questões a seguir:

- ”É vero o que aqui chegou?”


Ele respondeu que sim,

Que entende quaisquer sinais

Que a terra ofertar por fim,

Que os interpreta tais quais.


- ”Ouve,” - diz-lhe o imperador -

“Fechado nas minhas mãos

Tenho um pássaro cantor.

Vivo ou morto? Ou serão vãos


Teus esforços desde agora?”

O homem silenciou,

Reflectia sem demora:

Se morto o disser, o voo


O imperadorsoltará;

Mas, se disser que está vivo,

Logo ele esmagá-lo irá.

- ”Então? Isto é muito esquivo?”


Pensa um pouco mais na aposta

E diz, para todos verem:

- ”Pois, majestade, a resposta

É a que as tuas mãos quiserem.”



Chinês


I

Um soberano chinês

Que vivia junto a um lago

Um belo junco uma vez

Mandou montar. Tudo pago,


São madeiras preciosas,

A maior parte, lacadas,

Velas e cordame, grosas

De oiro e prata polvilhadas,


Esculturas, ornamentos

De bronze, de incrustações

De madrepérola aos centos.

Uma vez pronto às funções,


Manda o rei lançá-lo às águas.

Começa o junco a vogar

E o rei vai curar as mágoas

Margem fora a cavalgar.


Muito quilómetro além,

Voltam o rei e o cortejo,

Bem como o barco, também,

De vez cumprido o desejo.


II

Uns dias depois tornaram

O caminho a refazer

Com olhos que se extasiaram

De tal junco poder ver.


E nas semanas seguintes

O mesmo se repetiu.

O irmão do rei tais requintes

Estranhou e lhe inquiriu:


- ”Porque não trepas a bordo?

É o melhor junco do mundo,

O mais belo, estou de acordo,

Mas só em terra o vês jucundo?”


O rei responde ao irmão:

- Ӄ de facto muito belo.

Mas, se dele piso o chão,

Como então fruirei de vê-lo?”


III

Mas, ante a pressão constante,

A bordo o rei trepa um dia

Com a corte hilariante

No junco de fantasia.


Largam amarras e o barco

Lento se alonga em viagem.

Olha o rei ao mundo parco

Correndo olhos na paisagem:


Nada de novo lhe traz,

Montes, bosques conhecidos...

Até o irmão, muito atrás,

A acenar, braços erguidos.


De repente, nuvens vêm,

A ventania soprou

Sobre o lago ali refém

Que logo se encapelou.


O junco cerimonial

Era pesado e não tinha

Como resistir a tal

Furacão como convinha.


Partiu-se, desintegrou-se,

Alguns marinheiros tentam

Nadar, o mais afundou-se

Com o rei. Todos lamentam...


O irmão, que há meses se ferra

Na viagem, cão sem dono,

Esperto ficara em terra:

- Então subiu logo ao trono!



Ásia


Na central Ásia um esperto

Conseguiu entrar um dia

Do xeque no paço aberto

E o cavalo logo avia


Tal como se fora em casa:

Lesto pensou a montada

E a arrumar nada o atrasa

Os bens logo de assentada.


Estendeu-se e adormeceu.

Os guardas, muito espantados

Da atitude do sandeu,

Quiseram, pois, destes lados


Expulsá-lo como intruso.

Mas como era muito forte,

O à-vontede, fora de uso,

Hesitaram com tal porte,


Preferem notificar

Quem lhes é superior.

O intendente do lugar,

Depois um alto senhor,


Mesmo um ministro vieram

Com ele parlamentar,

Que as atitudes dele eram

Um enigma singular.


Tudo em vão. Diz que partia

Quando o momento chegasse.

E pediu a simpatia

Dum sono que o sossegasse.


Tanto em volta comentavam

Que chega ao governador.

Este viu que é que pensavam,

Manda chamar o impostor.


O homem, de mau humor

De o sono lhe interromperem,

Chega após de tempo um ror.

- ”Porque sem to concederem


Deitas no chão a dormir?”

- ”Porque é um caravanserai.

Fiz como quem quiser ir

A uma hospedaria e vai.”


- ”Caravanserai aqui?!

Palácio do imperador

É o que pisas, ai de ti!”

- ”E a quem pertence, senhor?”


- ”A quem queres que pertença?

A mim, claro, é o meu palácio!”

- ”E antes de quem era tença?”

- ”De meu pai, que o céu agrace-o!”


- ”E antes? - ”Ao pai de meu pai.”

O homem, por um momento

Em silêncio fundo cai.

Todos observam o evento.


- ”E antes do pai de teu pai,

A quem é que pertencia?”

- ”Ao pai dele.” - ”E antes?” - ”Ai,

Ao pai do pai, esta é a via.”


- ”E dizes que isto não é

Um caravanserai mesmo?

A entrar e a sair de ao pé

É só gente, gente a esmo!...”



Iraque


Durante a guerra do Iraque

Saddam Hussein procuram

Por todo o canto em destaque:

Só fumos se configuram.


Diversos sósias havia

Que sempre ele utilizava

Quando bem lhe parecia.

Um dia alguém os chamava


Secretamente. Hoje diz:

-”Tenho a boa e a má notícia.

Começo com que cariz?”

- ”Boa, que não faz sevícia.”


- ”Muito bem: Saddam é vivo.”

São mil gritos de alegria

Ao anúncio, um bom motivo.

- ”Mas a má que noticia?” -


É um sósia, quer sorte eterna...

- ”Ele perdeu já uma perna.”



Akbar


Akbar era o imperador

Pela generosidade

Famoso, dado o pendor

De aos ascetas com vontade


Favorecer lautamente.

Um destes que, num casebre

Vive miseravelmente

E gostaria com febre


De algo ter para auxiliar

Quem venha pedir-lhe ajuda,

Decidiu apresentar

Petição que o não iluda.


Chegou junto do monarca

Quando ele estava a rezar

E viu que não era parca

A petição no lugar:


- ”Dá-me, senhor, territórios,

Mais recursos, mais riquezas...”

Metido em seus envoltórios,

O asceta nem quis mais rezas,


Tenta logo, de imediato,

Abandonar tal espaço.

Mas o imperador, pacato,

Acena, toma-lhe o passo.


- ”Vieste ver-me?” - ”Sim.” - ”E embora

Ias sem me ter falado?”

- ”Vinha pedir, mas agora...”

- ”E então?” - ”Tendo reparado,


Vi que és tu próprio mendigo...

Prefiro ir ao meu abrigo.”



Ego


Tento-lhes olhar os olhos,

Todos têm ar altivo,

Orgulho a franzir sobrolhos,

Ego activado, incisivo.


Dirão: - ”Sou mais importante

Porque eu é que estou aqui.”

Com que objectivo adiante,

De que serve o frenesi?


- ”Para ser melhor que os mais” -

Dirá o ego. E para quê?

- ”Conforto como jamais

E uma segurança até


De que nenhum mal advém.”

Mas porquê ficar seguro?

- ”Para não sofrer também.”

Mas para quê tanto apuro


Se é só para não sofrer?

- ”Porque, de contrário, dói.”

Orgulho então e poder

São defesas do que mói?


- ”Claro, que a minha função

Foi sempre afastar a dor.”

E se eu tombar neste chão

Vazio mas com um ror


De orgulho e em busca insistente

De poder, isto não vai,

A prazo, uma dor crescente

Provocar-me, onde não cai


Quem humilde for deveras

E com os céus conectado?

- ”Agora, não noutras eras,

Não te dói em nenhum lado.


Só me ocupo com o agora.

Depois, logo se verá...”

E o ego todo se enflora

Sobre a tumba onde ele está.



Polónia


Nos tempos do comunismo,

Na Polónia se contava,

Medindo em dureza o abismo,

Que num grupo se encontrava

O americano, o francês

Com um polaco, eram três.


Alguém lhes perguntaria:

- ”Tocam às três da manhã

À porta. Que é que seria?”

Logo, o americano: - ”É vã

Mais alguma expectativa.

É o meu banqueiro: - 'Ora viva!


Eu nem pude esperar mais:

Suas acções japonesas

Tiveram subidas tais

Que a uma fortuna estão presas!'”

Depois o francês responde:

- ”Olho à porta para onde


Me aguarda uma rapariga

De pouca roupa vestida

Que me diz, sorrindo à intriga:

- 'Há tanto que em minha lida

Desejava conhecê-lo!

Posso entrar um pouco e vê-lo?'”


Ante a pergunta, o polaco

Reflecte um instante e diz:

- “Abri apenas um naco,

Vejo três, de mau cariz,

Roupa escura e de chapéu.

Murmura um deles, do breu:


- 'Daniel Poltarsky é o senhor?'

- 'Não! Ao fim do corredor...'”



Checoslováquia


Checoslováquia invadida

Pelo Pacto de Varsóvia.

Entra um checo de corrida

Na polícia, razão óbvia:


- ”Comissário! Comissário!

Venha, um soldado suíço

Roubou, grande salafrário,

Meu relógio russo. Enguiço!”


- ”Espera aí! Quer dizer:

Soldado russo roubou

Relógio suíço, é de ver...”

Logo o homem exclamou:


- ”Pois o senhor é que disse,

Não eu! Não quero chatice!”



China


De receber uma oferta

Acaba um rei de oriente:

Um manto. A costura acerta

Fio de oiro e prata, assente


Entre pedras preciosas.

Era um sinal de amizade

Do imperador que às formosas

Regiões da China agrade.


O rei vestiu-o, se admira

A um grande espelho e pergunta

A Nasredim que o lá mira:

- ”Quanto valho? Tudo junta!”


Nasredim examinou

Longamente o vestuário,

Um caderno retirou,

Faz um cálculo sumário:


- ”Vales quinhentas moedas!”

- ”Quinhentas?! Nem penses nisso!

Só o manto, com estas sedas,

Isso vale. E o meu feitiço?...”


- ”É verdade, ó grande rei.

Quando perguntaste quanto,

Entendi, tudo somei:

Só vale o valor do manto!”



Rússia


Na Rússia do comunismo

Fala em aula um professor

Muito acerca de humanismo.

Um petiz perguntador


Levanta a mão, questionou:

- ”Mas humanismo é o quê?”

O mestre pensou, pensou

E depois conta-lhe ao pé:


- ”De manhã, Lenine ergueu-se,

Vai fazer a barba ao rio.

É no campo. Então muniu-se

De sabão, navalha e, ao frio,


Vai a um regato ali perto.

Senta e põe-se a barbear.

Uma menina, num certo

Momento, o vem contemplar.


Quando finda, ela pergunta:

-'Que é que estiveste a fazer?'

Lenine apenas assunta:

- 'A barba, como quenquer.'”


Era de humanismo o exemplo.

Fica a turma mui perplexa,

Tudo mudo como um templo.

Porém, o petiz indexa:


- ”Mas, professor, porque é que isto

É um exemplo de humanismo?!”

- ”Ai valha-me o Santo Cristo!

Desgraçado, olha o abismo:


Lenine tinha a navalha!

Podia ter degolado

Num instante, como palha,

A moça que lhe há falado!”



Estaline


Estaline, o ditador,

Envelhecido, uma escolha

Quer fazer do sucessor

Que os loiros todos recolha.


Malenkov e Bulganine

Para junto dele chama.

Cada qual quer que examine

Aves que em gaiola aclama.


Nelas os mandou pegar.

Bulganine pega numa

Mas, de tanto medo a par,

Demais a aperta e, em suma,


Finda matando tal ave.

Estaline, descontente,

Mostra na cara que é grave.

Malenkov então, tremente,


Pega na mão a segunda.

Não quer o erro repetir,

De mão mole, o espaço abunda

E eis o pássaro a fugir.


Pega Estaline o terceiro,

Diz aos outros: - ”Olhem bem!”

Mui delicado e ligeiro,

Pega as patas ao refém,


E uma a uma, lentamente,

Arranca-lhe as penas todas.

Depenado, o inocente

Na mão se aconchega, às rodas.


Diz Estaline: - ”Estão vendo?

Para mais ainda está grato

Do calor que vai sorvendo

De minha mão este rato.”



França


Ao rei Luís XI de França

Vira um criado um piolho

Do manto a passear na trança.

Levantou a mão e o olho


Ao rei a dar a entender

Que ia prestar-lhe um serviço.

O rei se achegou a ver,

O outro o livra logo disso,


Tira o piolho e deita-o fora.

Quando o rei lhe perguntou,

Tal homem quase que chora

Vergonha e medo. E contou.


- ”Ainda bem” - disse-lhe o rei. -

“É um presságio bem feliz,

Pois que, tanto quanto sei,

Tal bicheza sempre quis


Homens jovens atacar.

O que quer dizer então

Que homem sou e novo, a par.”

Qurenta coroas dão


De presente a tal criado.

Mais tarde um oportunista

Fez menção de ter tirado

Algo à roupa que o rei vista.


O rei perguntou o que era.

Com algumas reticências

Simuladas e uma espera

Informou das evidências:


- ”Há pulgas na real roupagem.”

Uma de lá retirara.

- ”Tomas-me por um cão?! Pagem,

Que é que melhor lhe assentara?


De começo, como entrada,

São quarenta bastonadas.”



Samarcanda


Tamerlão, em Samarcanda,

Ia à cabeça das tropas.

Aos portões da cidade anda

Um mendigo com que topas

A estender ali a mão,

Esfarrapado, no chão.


Vendo-o, o tirano o mandou

Decapitar de imediato.

De pronto se executou

Aquele arbitrário acto.

Diz Nasredim: -”Afinal,

Porquê ordem tão brutal?


O mendigo nem havia

Sequer mostrado arrogância

Perante quem lá seguia...

De risco não era instância.”


- ”É verdade” - é Tamerlão

Quem o diz. - ”Mas,como parto

Em campanha este verão,

É mau presságio. Estou farto.”

Mais adiante Nasredim

Murmurava então assim:


- ”Não sei bem a qual dos dois

Um deles pressagiou, pois.”



Tchao-Tchéu


Aos alunos que queriam

Saber de que material

Uma estátua deveriam

Fazer de Buda, afinal,

Para se prostrar ante ela,

Tchao-Tchéu disse, na sequela:


- ”Seja o que for, barro não.”

- ”Porquê” - ”De estátuas de barro

Só se engalana um verão.

À primeira chuva esbarro

Nelas desfeitas, que agoiro!”

- ”Faremos uma então de oiro?”


- ”Logo o fogo a derretia...”

-”De madeira?” - ”Também não,

Que um incêndio a queima um dia...”

Os discípulos então

Entendem que ele não quer

Nenhuma estátua que houver.


E por aí se ficaram,

Ao sábio se conformaram.



Testemunha


Num negócio de carneiros

Um tratante desonesto

Diz que dez vendeu lampeiros

A um vizinho que, de resto,

Só de cinco lhe pagara

Dos dez com que contratara.


O vizinho a Nasredim

Pede, em sinal de amizade,

Que testemunhe, por fim,

Por ele. Vê se o persuade.

- ”Todavia, eu não sei nada

De tal negócio, de entrada.”


- ”Não tem importância alguma.

Tu só terás de jurar

Que é vero o que digo, em suma.

É simples testemunhar.

Se litígios tens aí,

O mesmo eu farei por ti.”


O cadi, no dia certo,

Convocou as duas partes

E as testemunhas do acerto.

A Nasredim, sem apartes,

Pergunta a dado momento:

- ”Confirmas este elemento,


Que o teu vizinho pagou

Ao marchante de carneiros

Os dez mesmo que comprou,

Todos e não só os primeiros?”

- ”Por Alá que o eu confirmo.

E o vendedor mesmo afirmo


Que até umas pauladas deu

Ao meu amigo, a tal ponto

Que uma perna lhe partiu.”

- ”O quê?! Não estarás tonto?

Ninguém falou de pauladas,

São furto as questões tratadas!”


- ”E acrescento que esse infame -

Continua Nasredim -

“Ouvi que, ao bater, lhe chame

Mil blasfémias, um sem fim,

Que jamais me é permitido

Aqui ouvir repetido.”


- ”É muito grave o que contas” -

Observava-lhe o cadi. -

“Cuidado com o que apontas,

Pode acontecer-te a ti,

Se não contas a verdade,

Coisa que nunca te agrade.”


- ”Eu não tenho nada a ver,

Mesmo nada com verdade.

Vieram-me aqui trazer

Apenas na qualidade,

Que o que apontei bem realça,

Duma testemunha falsa.”



Condenado


Um homem foi condenado

De prisão perpétua à pena.

Um amigo dedicado

Lamenta a quanto o condena:


- ”É mesmo horrível, já viste?

Toda a vida na prisão!”

- ”Não é quanto em mim existe,

Estás enganado, não!


O melhor desta demora

É que é só a partir de agora.”



Shiraz


Nasredim foi contratado

No tribunal de Shiraz,

Num Irão desgovernado.

Ver quem é e que é que o traz

Ante qualquer visitante

É a função que tem diante.


Apresentou-se-lhe um dia

Um homem que lhe pediu

Se ao juiz falar podia

Principal que lá existiu.

- ”Isso não vai ser possível” -

Diz Nasredim, impassível.


- ”Mas porquê?” - ”Porque ele está

Agora num julgamento.”

- ”E quanto é que durará?

Não sai a qualquer momento?”

- ”Depende: se ele é julgado

Ou não é como culpado.”



Afeganistão


Hodja, no Afeganistão,

Foi ao rei pedir um cargo,

Um rendoso até mais não.

O rei não quer pôr-lhe embargo:


- ”Que cargo desejas tu?”

- ”Um de teus ministros ser,

Do petróleo, sem tabu.”

- ”Do petróleo?! Hás-de saber


Que não há petróleo algum...”

- ”E daí? Que é que isso enguiça?

Não tens por lá também um

Que é Ministro da Justiça?”



Salomão


Salomão vai à prisão,

Chama os presos um a um

E, a cada, pergunta então

Se cometeu crime algum.


E todos a responder:

- ”Qual o quê? Eu não fiz nada!

Agora um crime qualquer!

A sentença está enganada,


Sou vítima de injustiça!”

Mas o rei não acredita,

Adivinha, atrás da liça,

Que a mentira é que os agita.


No entanto, um dos presos diz:

- ”Cometi, meu rei, um crime.

Mereço, pelo que fiz

A prisão que me redime.


Causei muitas vezes mal

A muitos meus semelhantes.

É um pesadelo real,

Nem durmo já como dantes.”


O rei chama de imediato

Os guardas e logo ordena

- ”Antes de algum desacato,

Libertem de toda a pena


Este grande criminoso,

Senão irá corromper

De inocentes o pasmoso

Bando que aqui dentro houver.”



Índia


Na Índia o brâmane Astica

Foi em peregrinação

A um sacro local que fica

Do Ganges lá num covão.


No caminho, ao se entregar

Dele às rituais abluções

Doutro rio num algar,

Um crocodilo, aos sacões,


Veio dele se achegando

Que pretendia informar-se

Do rumo que ia levando.

O brâmane, sem disfarce,


Respondeu de boa-fé.

O crocodilo pediu

Que com ele o leve a pé,

Que o sonho que em vida viu


Foi do Ganges ver as águas

Que não tinham ligação,

Para grandes dele mágoas,

Com o rio em que estarão.


O brâmane, compassivo,

Aceitou e o foi levando.

Como, apesar de bem vivo,

Mau é o réptil caminhando,


Meteu-o num grande saco

E aos ombros o carregou,

Sem lhe cobrar nem pataco.

E muitas vezes parou


A descansar do penoso

Esforço a que se entregou.

Chegam ao rio gozoso,

O crocodilo chorou


De fé com que lhe agradece.

Mas diz-lhe que ressequida

Tem a pele, que fenece...

Não pode ele, de seguida,


Levá.lo um pouco mais dentro,

Para as águas mais profundas?

Condu-lo o brâmane ao centro,

Onde há maretas jucundas.


Quando vem a regressar

Para terra, o crocodilo

Vai-lhe logo abocanhar

O pé, como é seu estilo.


- ”Assim me agradeces, dás

O mal pelo bem que fiz?

Que virtude é a que te traz?”

E o crocodilo lhe diz


- ”Vens-me falar de virtude?

Hoje o que é da rectidão

É comer quem nos ajude,

Bons alimentos darão.


Este é que é do mundo o estado,

Quer o tu queiras, quer não.”

Discutem, sem resultado.

Convence o brâmane então


O crocodilo a apelar

A três árbitros, ao menos.

Uma mangueira a velar

Na margem com uns acenos


É o primeiro que lhes conta:

- ”Aos homens dou todo o fruto,

Nem com um fico por conta.

Dou sombra, folhas, produto


Que lhes serve, porta a porta.

Porém, ao envelhecer,

Cortam-me os ramos - 'que importa?' -

E fazem mesmo mister


De da terra me arrancar.

Para os homens a virtude

É quem os alimentar

Destruir. Nada isto ilude.”


Uma vaca, consultada,

Foi pelo mesmo discurso:

Dera leite e, afadigada,

Laborara como um urso.


Depois, quando envelheceu,

Foi largada junto ao rio,

Das feras ao escarcéu,

À morte, por desfastio.


Terceiro árbitro, a raposa

Não gaba benfeitorias

Que lhe devam e não goza.

Quer do pormenor as guias,


Obriga a recontar tudo

E pede confirmação.

- ”Num assunto tão agudo

Não posso decidir, não,


Levianamente, à ligeira.

Não serei tão categórica

Como a vaca ou a mangueira.

Não basta a forma alegórica,


Tenho de ver rectamente

Da viagem a condição.

Crocodilo, certamente

Não te importarás, pois não,


De entrar no saco um momento

Para eu ficar sabendo

Como aqui te trouxe o intento?”

O crocodilo, tal vendo,


Nem hesita, entra no saco.

O brâmane o pôs às costas,

Uns passos deu, sem cavaco,

E a raposa olha as congostas.


- ”Vem comigo” - diz-lhe então.

Condu-los, brâmane e carga,

Da margem e do fundão

Para longe, nada a embarga.


Manda o brâmane pousar

Depois tudo lá no chão.

Numa grande pedra, a par,

Pega e, sem hesitação,


Ao crocodilo esmagou

A cabeça, ainda no saco.

- ”És imbecil,” - regougou

Ao brâmane - “que um pataco


Não vale o que tens na mente.”

Depois chamou a família

E cada qual, mui contente,

Devorou, sem mais quezília,


O crocodilo feroz.

Brâmane é vegetariano?

Fez excepção logo após,

Da troca não sofreu dano.



Divórcio


Nasredim Hodja desposa

Mulher em núpcias segundas,

Viúva de muita prosa.

Recordações mui jucundas


Guardava de anterior lar,

Do morto, do irmão, da irmã,

Filhos, gente singular.

Do falecido, mui chã,


Acolhera os quatro filhos

Dum anterior casamento.

Atara-os com tais atilhos

Que hoje aguardam o momento


De vir com toda a família

Visitá-la o mês inteiro

Em sacrossanta vigília,

Alegria sem argueiro.


Ela tivera três filhos

Que continuava a educar,

Sempre em casa, sem sarilhos,

De Nasredim, novo lar.


Nasredim vai ter um dia

Com o cadi: foi pedir

O divórcio, pois queria

Da família prescindir.


- ”Por que motivo?” - o cadi,

Espantado, perguntou.

- ”Porque à noite, ao que já vi,

Sempre a mulher me expulsou.


Atira comigo fora

Da cama que é do casal.”

- ”Não venhas com essa agora,

Ela é grande, por sinal.”


- ”Parece grande, parece,

Mas com toda a gente dentro,

Garanto e juro uma prece,

Já não há lugar no centro,


Nem sequer lugar no fim,

Não há lugar para mim,”



Rublos


Um pobre judeu russo encontra, um dia,

Com uns quinhentos rublos, a carteira

Do mais rico da aldeia que dizia

Cinquenta dar a quem lha entregue inteira.


Foi o pobre levar-lhe a bolsa cheia.

O rico verifica o conteúdo,

Põe ar severo e diz, de cara feia:

- ”Da recompensa já tiraste tudo,


Quinhentos e cinquenta rublos tinha,

Aqui só estão quinhentos, nada devo.”

O pobre, mui zangado, se avizinha

Do rabino a quem narra o caso coevo.


- ”Confio que me diz mesmo a verdade” -

Comenta ao homem rico este rabino. -

“Um homem tal você para que é que há-de

Mentir, ainda por cima ao que é destino?”


Começava a alegrar-se o homem rico

Como a indignar-se o pobre e eis que o rabino

Para este se vira: - “Verifico

Que não és desonesto (pois me inclino


Perante a tua entrega), que, se o foras,

Com a bolsa ficado tu terias.”

E então ao rico torna sem demoras:

- ”Logo, não foi a bolsa que perdias


Que ele encontrou. Fique ele então com ela,

À espera de que o dono verdadeiro

Lha venha após pedir, disto em sequela.

Fica com a carteira e o dinheiro.”



Discussão


Durante discussão das mais acesas

Um pobre esbofeteado é de mão rica.

Insultado, recorre, as garras presas,

Ao cadi que entre os justos pontifica.


Os dois ouve o cadi, cara sisuda,

E manda ao ofensor que ao ofendido

Dê uma malga de arroz, para que muda

Indemnização seja ao ocorrido.


Ao ouvir a sentença, o pobre vem

Esmurrar o cadi com toda a força.

- ”Estás doido?” - o cadi mal se contém.

- ”Nem por sombras!” - o pobre o tom reforça.


- ”Não ficaste contente da sentença?”

- ”Fiquei” - responde o pobre. -”Agora vou

Embora. Fica tu (que te convença!)

Com a tigela de arroz que me ficou.”



Destrinçar


Um rei que todos os dias

A justiça administrava

De destrinçar não vê vias

Sinceridade que lava

De mentira que escurece,

Até os culpados esquece.


A justiça parecia

Actividade confusa,

Aleatória mania

De que quenquer usa e abusa.

Um dia vem-lhe falar,

Mas sem se identificar,


Um homem com o remédio

Para tantas incertezas.

- ”Posso dar-te, sem assédio,

A faculdade que prezas

De sem falhas distinguir

Justo de injusto a seguir.”


- ”Sabes ler os pensamentos?”

- ”Precisamente, até o fim.”

- ”Que é que lês desde há momentos?”

- ”Que não confias em mim.”

Viu que ele tinha razão,

Era o diabo em questão.


O rei, pois, desconfiou,

Começou por recusar,

Pouco depois aceitou

Uma experiência tentar.

Se não gostar, findaria

O tentame em qualquer dia.


Nas audiências seguintes

O mundo e seus habitantes

Têm luminosos requintes.

Vê logo, em poucos instantes,

A culpa deste ou daquele

Como a sombra que os impele.


Vê pensamentos de amigos,

Dos filhos e das mulheres,

Dos secretários ambíguos

Que o ajudam nos mesteres

De deslindar o que enliça

Sempre quem fizer justiça.


Vê que em toda a parte havia

Crime, inveja, cupidez,

Esconsa malfeitoria

Que aos justos fazem revés.

Hesita, mas reparou

Que a mente se lhe turvou.


Dorme mal, até suspeita

Dos próprios filhos que tem,

Castiga alguém que uma peita

Aceitou que lhe convém

Quando dantes confiara,

Bem imprudente, em tal cara.


Volta a chamar o diabo:

- ”Que experiência dolorosa!

Não vou levar isto a cabo.”

- ”Mas não é fastidiosa

E é útil, é bem de ver,

Terás de o reconhecer.”


- ”Já agora, não me pediste

O que te hei-de dar em troca.”

- ”Não pedi nada, já viste?”

- ”O diabo sempre invoca

As almas a quem concede

Tal favor. E logo as pede:


Quando morrem é no inferno

Que assam para a eternidade.”

- Ӄ o costume desde o eterno,

É o costume, é bem verdade.”

- ”Põe-me como eu era dantes,

Com meus olhos hesitantes.”


- ”É o que desejas deveras?”

- ”Clarividência suprema

Não é humana, é doutras eras.

Não poderei por sistema

Muito tempo suportá-la.

É um tormento que me abala.


Não quero ser infalível,

Antes dúvidas prefiro,

Mesmo a hesitação terrível,

Frente a frente, de que aufiro,

Com os homens, da verdade.

Isso, enfim, é o que me agrade.”


- ”A tua situação

Não é das mais confortáveis.

Contudo, quem é que não

Quer juízos confiáveis?

Alguém há que me refila

Contra poder adquiri-la?”


- ”Os que têm tal desejo

Não sabem a dor que traz

De conhecer este ensejo.

Castigou Deus o capaz

Juizo de Adão e Eva

Que retirou toda a treva


Que existe entre o bem e o mal.

Volta a enevoar o meu

Discernimento, afinal.

Que a justiça tenha um véu

E duro me dê labor

Como sempre, aonde eu for.”


- ”Não posso” – diz-lhe o diabo.

- ”Mas prometeste, aceitaste

Que uma experiência a cabo

Eu fizesse, por contraste.”

- ”Não tinhas, quando acordei,

Este poder que te dei.


Não podias ver, portanto,

Que eu te estaria a mentir.”

- ”Mentira?!” - ”Mentira e tanto!”

- ”Pois claro. E de mim a rir!

Vejo em toda a claridade

E que hoje falas verdade.


Não posso voltar a ser

Quem era outrora, portanto.”

- ”Não está no meu poder

Volver ao incerto encanto.

O que propus aceitaste,

Voltar atrás renegaste.”


- ”E não há nada a fazer?”

- ”Nada a fazer.” E, ao sair,

Voltou-se para dizer:

- ”Quanto a pagar, há-de vir,

Não te preocupe tal.

Interesse não há igual


Em almas iguais à tua.

Nunca te irei pedir nada

Além da morte que actua,

A acompanhar-te na estrada.

O inferno que mais aterra

É o que vais viver na terra.”



Persa


Um persa chora, em plena noite,

Ante uma porta ali fechada.

Um outro passa e que o acoite

Não há recanto nem entrada.


- ”Porque é que choras?” - ”Eu perdi

A minha chave desta porta.”

- ”Ao menos tu, bem pressenti,

A porta tens, que é só o que importa.”



Marselheses


Marius e Olive, os marselheses,

Compram dois carros contrapostos:

Olive é o lento e com reveses,

Marius, o bólido, bons gostos.


Um dia chega uma surpresa:

Olive tem um acidente!

Marius acorre à cama lesa,

Só ligadura no outro assente.


- ”Que te ocorreu? Demais depressa

Por uma vez ias na vida?”

- ”Pelo contrário, o que interessa

É que eu seguia calmo à ida.


Ultrapassaste-me, um tornado!

Numa certeza então esbarro:

Julguei que estava ali parado

E, ao julgar, saí do carro!”



Corrida


Marius e Olive se inscrevem

Numa pedestre corrida.

Os mais desistem, não devem

Comparecer à partida.


São só dois e Olive ganha.

Tempos depois, um amigo

Que Marius na rua apanha

Quis saber do feito antigo.


- ”Então, que tal a corrida?”

- ”Já foi...” - ”Como te correu?”

- ”Fui segundo. É à medida.”

- ”Nada mal, amigo meu!


E o Olive se aguentou?”

- ”Em penúltimo acabou.”



Alfaiates


Conversam dois alfaiates

No Bronx, Estados Unidos.

Um diz de Einstein que quilates

Tem tais que nem são medidos.


- ”Einstein...quem é?” - ”Não conheces?!”

- ”Não...” - ”És idiota ou quê?!

Génio que o mundo enaltece,

A maior cabeça é o que é!”


- ”Mas é tão célebre assim?!”

- ”Tem o nome nas canetas,

Cigarros, cerveja, enfim,

Não há onde o tu não metas.”


- ”Tão célebre é assim porquê?”

- ”Pela relatividade.”

- ”Está bem... Mas isso que é?”

- ”Pois, pois... Que é que te persuade?”


- ”Não me podes explicar?”

- ”Imagina que uma velha,

A cheirar mal, vem sentar

Ao teu colo e se aconselha


Aí durante um minuto:

Vai parecer-te uma hora.

Mas é um tempo diminuto,

Se, em vez daquela senhora,


É uma linda rapariga

Que se sentar ao teu colo:

Na hora que aí se abriga,

Que minuto é desconsolo?


Tudo finda de repente,

Parece que mal sentou...”

-”É disso que fala à gente?”

- ”Mais ou menos tal soou.”


- ”Relatividade então...”

- ”Explico-a mal entendida,

Que os sábios é que a dirão.”

- ”E a dar colo ganha a vida?” -


Pergunta, após um momento,

O ignorante, agora atento.



Diminuta


À mulher que se queixava

De ter casa diminuta

Um homem aconselhava,

Após convicta disputa:


- “Pega nas tuas galinhas,

Mete-as lá dentro contigo.”

-”Nas divisões que são minhas?!”

- ”Vai lá, faz o que te digo!”


Deixou-se ela convencer,

Transportou para o interior,

Vociferando a valer,

O galinheiro, um horror!


-”Agora as tuas ovelhas

Vai buscar, mete-as em casa.”

- Ӄ mesmo isto que aconselhas?

De cheia. Vai ficar rasa...”


Mais uma vez, transportou

O rebanho para dentro

E todo ele ali ficou

Muito apertado, no centro.


Com o burro foi o mesmo

E, depois, com o camelo.

Fica tudo tão a esmo

Que lá não entra um cabelo.


Vários dias decorreram.

O conselheiro à mulher

Disse, então que findos eram:

- ”Esta noite – ouves sequer? -


Pelas três da madrugada,

Tira os animais de casa,

Vai pô-los duma assentada

No lugar. Nada te atrasa!”


O que o homem lhe ordenou

Fez a mulher, expedita.

Quando a manhã clareou,

Andava, com muita dita,


Divisão em divisão,

Exclamando, olhos em brasa:

- ”Mas que enorme casarão!

Como é grande a minha casa!”



Dinamarquês


Num trem, o dinamarquês

Victor Borge, certa vez


Vai com Einstein viajar.

Não sabe de que falar,


Que o que viu de seu trabalho

Tudo nele é só um baralho,


Sem cartas para jogar,

Que nada está no lugar.


Após muita hesitação,

Se encoraja e diz então:


- ”Boston, a terra de apoio,

Parará neste comboio?”



Rómulo


Rómulo, aquele lendário

Fundador de Roma mítico,

Não bebia vinho. O erário

Era, ao tempo, mui somítico.


Alguém lhe comenta um dia

Que o preço bate no fundo

Se, como ele não bebia,

Não bebera todo o mundo.


-”Não,” - responde ele - “ao contrário.

Os preços iam subir

Se todo o mundo, sumário,

Como eu bebera a seguir:


É que eu bebo, não te esqueça,

O vinho que me apeteça.”



Anarquismo


Na Guerra Civil de Espanha

O anarquismo catalão

Suprime, em primeira apanha,

A anterior legislação.


Liberdade para todos

Como a partilha dos bens

E amor livre, de mil modos,

Sem pecado e sem reféns.


Uma mulher que enganava

Dela o marido em segredo

Olha, enquanto se esquivava,

Da aldeia o padre com medo,


Em traje civil blindado.

Propõe-se ele então ouvir

A confissão, nalgum lado,

Dela para a bem servir.


Ela, porém, recusou,

Nada tinha a confessar.

- ”Já não enganas” - fitou -

“Teu marido com um par?”


-”Não. Renunciei a tudo isso.”

- ”E que é que te fez mudar?”

- ”Perdeu de todo o feitiço

E gozo deixou de dar:


Eu tive de o pôr de lado

Por deixar de ser pecado.”



Príncipe


Um príncipe andava à caça,

Disparou a um javali,

Mas falhou. E se embaraça

Vendo a fuga em frenesi.


Alguém entre a criadagem

Gritou então: - ”Bravo!Bravo!”

- ”Porquê bravo?!” - no nobre agem

Mil espantos no tom cavo.


- “Não, não lhe falava a si,

Era com o javali...”



Muçulmana


Na tradição muçulmana,

Jesus caminhava um dia

Com discípulos, savana

Fora, quando, em meio à via,


Dum cão a carcaça topam.

O cadáver já fedia,

Vermes, insectos galopam.

O que é que o mestre diria


Curiosos aguardavam

Os discípulos, ao lado.

Jesus, enquanto paravam,

Ao passar, há comentado,


Sem se atrasar uma linha:

- ”Que dentes brancos que tinha!”



Turco


Um turco gabava um dia

A estatura de seu pai:

- ”É muito alto! Quem diria?”

- ”Mas, de alto, até onde vai?”


- ”Nunca conheci ninguém

Tão alto, tão alto ele é.

Chega às nuvens, vejam bem,

Quando ele se põe de pé!”


Nasredim ouve, discreto,

A conversa e então pergunta:

_ ”Quando ele ultrapassa o tecto,

Se a mão, à cabeça junta,


Ele erguer, não sentirá

Uma coisa suave e quente,

Como uma carícia lá?”

- ”Se calhar...” - diz o outro, crente.

- ”Não sabes o que é, pois não?”

- ”Não...” - responde-lhe o farsante.

- ”Os meus testículos são

E não sabes, ignorante!”



Empurrados


Dois judeus, depois da guerra,

Depois de muito empurrados,

Como sempre, terra em terra,

Reencontram-se, arrumados:


- ”Olha, tenho aqui um visto!”

- ”Visto para que país?”

- ”Para a Argentina me alisto.”

- ”Vós para longe fugis!”


O outro pára um pouco, até:

- ”Longe?! Mas longe de quê?!”

























































5


Ao Serão de Quinta-feira




















Lendária


O amor de Leila e Majnum

Correu todo o Oriente,

Não houve recanto algum

Que o não ouvira, insistente,


Com imagens à beleza

Muito lendária da jovem

Cuja perda tanto lesa

Que errância e loucura movem


O jovem Majnum que a perde.

O califa os elogios

Ouviu desde a idade verde,

Quis conhecer tais feitios.


Chama Leila até Bagdade,

Mandou-a sentar em frente.

Fica, de curiosidade,

Horas a olhá-la presente.


Uma chávena de chá

Toma, muda a posição.

A olhá-la mantém-se lá,

Perplexo, no almofadão.


Diz o califa por fim:

- ”Como é possível que contem

Tanta maravilha, enfim?

Olho-te a ver o que apontem


E não logro compreender

Tudo o que dizem de ti.”

- Ӄ que olhas para me ver,

Mas falta uma coisa aí


E que é uma falta comum:

São os olhos de Majnum.”



Japão


Era uma vez no Japão

A cordada de alpinistas

Equipados, nada é vão,

A atacar, mesmo sem pistas,

Um cume a pique talhado,

Até então inviolado.


Longamente preparada,

Anunciada na imprensa,

A expedição, à largada,

Teve a directa presença

Dos jornais e da TV,

Da rádio, sei lá do quê...


Logo nos primeiros dias

Viu-se o percurso penoso

De perigo em demasias

Que a vários, extinto o gozo

Ou de força limitada,

Leva a fugir da escalada.


Um deles finda morrendo

Dos efeitos duma queda.

Vão-se nas névoas perdendo,

Na neve que lhes suceda.

Telefones avariam

E os rádios se lhes seguiam.


Muita vez vêm atrás,

Trepam com enorme esforço

O contraforte tenaz,

Donde irão, nem um escorço.

Exaustos, roupas rasgadas

E de mãos ensanguentadas,


Conseguem chegar ao cume.

E, para grande surpresa,

Encontram, ateando o lume,

Um grupo que se reveza,

Homens, mulheres, em roda,

Bebendo o chá, como em boda.


Sorriem tranquilamente,

Alguns deles reclinados

Em coxins comodamente.

A custo os recém-chegados

O fôlego recuperam

E, de espantados, ponderam:


- ”Então estão mesmo aqui?!”

- ”Estamos” - diz um do chá. -

“Sirvam-se. Agora o fervi.”

- ”Mas como puderam já

Ter chegado aqui ao cume

Sem ver aonde se rume?!”


Os em roda lá sentados

Uns para os outros olharam

Como que um pouco espantados

Até que ao fim perguntaram:

- Ӄ deveras o que ouvi?!

Isto é o cume? É mesmo aqui?!”



Deserto


Ao deserto, a meditar

Vai um homem e passou

Dos anos quarenta a par

Da solidão que traçou.


Tornando ao mundo habitado,

Veio de reputação

Imparável aureolado.

Tinha, em meio à solidão,


Mil e um mistérios sondado

Da natureza, da vida,

Do coração que é-nos dado.

A multidão o convida,


Todos vão falar com ele.

Um jovem foi admitido,

Perguntou-lhe à flor da pele:

- ”A vida o que é, faz sentido?”


Após longa reflexão,

Respondeu-lhe: - ”Ora, é uma fonte.”

- ”Fonte? De certeza então?”

- ”Se quiser, não é uma fonte.”


E, a saborear o horizonte,

Num adeus, ondeia a mão.



Rabino


Encontra o rabino novo

O que era o velho rabino.

Diz o velho: - ”Não aprovo

O que ouvi, que é bem cretino:

Que andas a afirmar há dias

Que tu é que és o Messias.”


- ”Quem to disse?” - ”Toda a gente,

Nos campos e na cidade,

Em todo o lado igualmente.

Agora diz-me: é verdade?”

- ”É verdade” - diz o novo. -

“Perante ti o renovo,


Que a ti posso bem dizê-lo:

Sou deveras o Messias.”

- ”És?” - ”Sou. De borla e capelo.”

- ”Quem to disse, dir-mo-ias?”

- ”Claro! Foi o próprio Deus.”

Arregala os olhos seus


O velho, todo enfermiço,

A gemer: - ”Eu?! Eu disse isso?!”



Criar


Quando Deus anunciou

Que iria criar o homem,

Muito arcanjo protestou

Quantas razões o consomem:


- ”Ó meu Deus, não faças isso!

O homem são rivalidades,

Querelas por um chamiço,

Mortes por quaisquer vaidades...”


Deus escuta e suspendeu

O gesto da criação.

Mas depois os anjos viu

Que todos discutir vão


Lá numa esquina do céu,

Muito, muito acalorados.

E cada qual diz de seu:

- ”Como podem ser falados


Do homem tantos defeitos

Se nem criado é sequer,

Não existe, pelos jeitos?”

Respondia outro qualquer


Que tinha ouvido rumores

De Deus sobre as intenções,

Sabia bem os humores

Da criatura, os senões...


Armaram tal reboliço

Que Deus, que os bem escutava

Às escondidas, o liço

Pega em mãos, já reatava


A obra que há programado.

- Sabemos o resultado...



Faraó


Quando o Mar Vermelho fecha

Do Faraó sobre a tropa,

Um anjo canta uma endecha,

Seráfico em sua opa.


- ”Mas que é isto?!” - exclama Deus. -

“Estão criaturas minhas

A afogar-se e aqui nos céus

Cantas tu?! Não os detinhas?!”


- ”Mas não foste tu, Senhor,

Que ordenaste àquele mar

Que se fechasse em redor

Dos guerreiros a afogar?”



Ramakrishna


Diz a Ramakrishna um dia

Certo discípulo atento:

- ”Sempre que um elefante ia

Pela estrada fora ao vento


Houve sempre mil rafeiros

Que atrás dele vão correndo

A ladrar, muito lampeiros.

O elefante, parecendo


Nem mesmo os ouvir sequer,

Continua o seu caminho.

Dum homem de Deus qualquer

Parece ser o adivinho.”


Diz Ramakrishna: - ”Atenção,

Acerta bem teus ponteiros!

Deus, é a minha opinião,

Também é Deus nos rafeiros.”



Estacionar


Gira o homem de negócios

Ao volante de seu carro,

Dos escritórios nos ócios,

A sonhar com um chaparro,

Pois não consegue encontrar

Lugar para estacionar.


Dirige-se a Deus: - ”Suplico,

Faz com que encontre um recanto.

Vais ver como então me aplico,

Da mulher vou ser o encanto,

Dos filhos irei cuidar

E aos pobres muito vou dar...


Mas depressa, tem piedade,

Deixa-me um lugar vazio!”

Logo à frente um carro à grade

Do parque sai com ousio.

O homem diz a Deus, com jeito:

- ”Pronto, pronto! Já foi feito.


Não precisas mais de estar,

Portanto, a te incomodar.”



Existência


Dois rabinos, de repente,

Sobre a existência de Deus

Discutem veementemente,

Um pró e outro contra os céus.


Esgrimem mil argumentos

Quando, às tantas da manhã,

Concluem de seus intentos:

- “Deus não é, mas coisa vã.”


Um deles, de manhã cedo,

Vai procurar o confrade

Que no jardim reza o credo

A que o ritual persuade.


Pergunta, surpreendido:

- ”Que fazes?!” - ”Rezo a oração.”

- ”Então que foi concluído

Com tanta argumentação,


Não foi que Deus não existe?

E agora, porque é que rezas?”

E o outro, com todo o chiste,

Surpreso, escondendo as presas:


- ”Demos cabo do toutiço...

Que tem Deus a ver com isso?”



Itália


Francesco, homem mui piedoso,

No norte de Itália, um dia,

Viu-se imbuído com tal gozo

De Deus que não conseguia


Pensar mesmo em nada mais.

Um sinal particular

De Deus quer, dos mais reais,

Gesto, palavra, um luar,


Nem que para tal levara

O resto de sua vida.

Com tal fito não poupara

Jejum, oração seguida,


Muita mortificação

E até peregrinações.

Do deserto soube então

Que os Padres tinham menções


De Deus, que era um bom retiro.

Foi anos para a montanha,

Comeu bolota, deu tiro

E devorou a castanha.


Correu descalço na rocha,

Cantou hinos, reza o terço,

Flagelou-se, acendeu tocha,

De espírito a devir terso...


E resultado: nenhum!

De Deus, tão solicitado,

Nem visão, nem rosto algum,

Nem termo algum formulado.


Já que Deus não se mostrou

Sensível à tentativa,

Francesco o rumo mudou:

Não terá o inverso esquiva.


Pôs-se então a insultar Deus,

A profanar o sagrado,

A infâmia a gritar dos céus,

Cruzeiros a ter quebrado.


Panfletos escrevinhou,

Foi mesmo à televisão

Onde o ódio reafirmou

Por um Deus que é um aldrabão.


Alimentava a esperança

Que insultos, provocações,

Sacrilégio algum alcança

A resposta às pretensões.


Nada, porém, ocorreu.

O grande ausente do mundo

Ninguém o viu nem ouviu,

Indiferente, infecundo.


Francesco então longamente

Reflectiu numa cabana:

“Se Deus não responde à gente

Quer louve, quer malhe em gana,


É porque eu é que sou Deus.

Isto é que explica o mistério

Que consome os sonhos meus.

Não responde do sidéreo


Porque quem é Deus sou eu.

Como mostrar-me podia

Eu a mim próprio? Sandeu!

Impossível tal mania.”


Quando, após meditação,

Concluiu que era a correcta,

Partilhar a conclusão

Decidiu por nova meta.


Foi buscar a velha mota

Guardada antes de partir

E conseguiu pô-la em rota,

Rumo a Milão, a seguir.


De prática tinha falta,

Porém, e a direcção solta.

Em curva derrapou alta,

Caiu, volta atrás de volta,


Por uma ravina abaixo.

Esmagou-se nuns rochedos,

Corpo desfeito num cacho.

Nunca ninguém, nos seus credos,


Soube que na ribanceira,

Por ela abaixo caído

Por desleixo e por asneira,

Deus, enfim, tinha morrido!



New York


Numa família abastada

De New York, o pai, burguês,

De visão muito alargada,

Ateu convicto e cortês,


Decidiu mandar o filho

Para uma escola cristã

Mui reputada, com brilho,

Onde o inscreve, uma manhã.


Após dois meses de estudos,

O filho chega da escola,

Pergunta ao pai, por miúdos,

Pousada ao lado a sacola:


- ”Que é que quer dizer Trindade?”

- ”Não me chateies com isso!”

- ”Mas então porque é que invade

Toda a escola este feitiço:


Pai, filho, Espírito Santo?”

O pai arrasta, furioso,

O filho lá para um canto,

Sacode-o, diz desgostoso:


- ”Ouve bem o que te digo

E mete-o dentro da pele:

Deus há só um – que castigo! -

E nós, nós nem cremos nele!”



Sábio


A um sábio mui reputado

Um rapaz fez a pergunta:

- ”Deus existe?” Olha-o de lado

O sábio que os trapos junta.


- ”Para a questão ter sentido

É preciso que a resposta

Tua vida haja mexido.”

- ”É disso a causa suposta.”


- ”Se eu te garantir que Deus

Existe, isso irá mudar

Em tua vida os modos teus?”

- ”Julgo que não, se calhar.”


- ”Então” - e o sábio se ajeita -

“Tua escolha já está feita.”



Cartas


Certa noite, de repente,

Morre um homem ao jogar

Às cartas, a um café rente.

Os amigos anunciar


Não sabem como a notícia

Súbita e triste à viúva.

Um deles vai, sem letícia,

Entanguido, como à chuva,


A casa dela. Ele sabe

Que é muito religiosa.

- ”Boa noite. Não me cabe

Iniciativa gozosa.


Venho aqui, repare bem,

Da parte de seu marido.”

- ”Pois. Há-de estar mais além

No jogo, vício perdido!”


- ”Pois, sim...” - ”E perdeu dinheiro?”

- ”Claro, precisamente.”

- ”Perdeu tudo por inteiro?”

- ”Foi muito, claro. É indecente.”


- ”Fulmine-o Deus num ataque,

Mate-o naquela cadeira!”

E o homem, como num baque:

- ”Deus ouviu-a! Toda inteira!”



Samaritana


Jesus a samaritana

Vê sentada numa pedra

À beira da estrada insana.

Não pede água. A ver se medra,


Olha-a com severidade

E diz-lhe assim: - ”Filha, estás

No mau caminho, em verdade.”

- ”Nem me fales!” - e olha atrás. -


“Desde manhã cá presente

E nem sequer um cliente!”



Padre


Um velho padre atravessa

Um subúrbio perigoso.

Um grupo encontra sem pressa

De jovens fumando o gozo


Da marijuana e tabaco,

Bebendo álcool e revendo

Pornografia a pataco

Num aparelho contendo


Uma ilegal ligação.

Detém-se o padre, admoesta:

- ”Vossos pais não vos dirão

Que isto de fumar não presta?”


- ”Dizem” - responde-lhe um jovem.

- ”E que não devem beber?”

- ”Também, mas não nos demovem.”

- ”E que filmes destes ver,


Tanta indecência, é pecado

Que a mulher fica humilhada

E o desejo, emporcalhado?”

- ”Claro que a rapaziada


Ouviu bem já disso tudo.”

Murmura o padre, indo embora:

- ”Graças, meu Deus, sobretudo:

Não sabem mentir, por ora.”



Criou


Deus criou o paraíso,

Diz ao anjo Gabriel

Para o visitar com siso.

Mas que espanto todo ele!


Vem de lá maravilhado,

As criaturas humanas

Não queriam outro lado.

Por isso Deus de praganas


Lhe cobriu qualquer acesso,

Deveres e obrigações

Bem penosos no processo.

Gabriel viu tais funções,


Retornou apavorado:

Ninguém queria ou podia

Entrar lá por nenhum lado.

Então Deus o inferno cria.


Gabriel foi visitá-lo

E voltou com mais pavor:

Ninguém teria regalo

Em viver num tal horror.


Deus aí fez o contrário

Do que fez no paraíso:

Todo o atractivo sumário,

A tentação sem juízo


Pôs o inferno a rodear,

De modo que Gabriel

Com ele até vem sonhar,

Qualquer via a ele impele.


Se Gabriel não caiu,

Entre humanas criaturas

A lista de quem ouviu

A chamada às vis venturas


É longa e sempre em aumento,

À medida que aparecem

Tentações em acrescento

E as antigas nunca esquecem.



Golfe


Um judeu que é um novo-rico

Pelo golfe tem paixão,

Dá-lhe em tempo cada nico,

Pensa em cada reunião,

De a cabeça ter tão cheia

Não dorme, com cefaleia.


Ora, de Kippur no dia,

A festa da tradição

Mais importante judia,

Ele, que nunca à oração

Na sinagoga tem falta,

Não resiste ao que o assalta:


Aproveitando a inacção

Que entre todos é geral,

Deixa então que os pés lhe vão

A um campo de golfe tal

Que é só de judeus usado,

Desata a jogar, viciado.


Mal o avista, Satanás,

Ávido de denunciar,

De Deus corre logo atrás

O que se passa a contar:

Joga golfe um insolente

Em dia de Deus somente.


Deus ouve e a Satanás diz:

- ”Muito bem, eu trato disso.”

Cá em baixo, o homem, feliz,

Bate a bola e, num enguiço,

No buraco entra à primeira.

Ele, eufórico, se abeira,


Nunca logrou tal façanha.

Coloca a segunda bola,

Bate-a e tal efeito ganha

Que noutro buraco atola.

E assim sempre de seguida,

Cada buraco à medida.


- ”Mas então que é que se passa?” -

Diz o diabo desnorteado. -

“Disseste-me, em tua graça,

Que era um assunto tratado.

Explica-me, pois, te rogo,

Porque lhe acertas o jogo.”


- ”Porque ele está ali sozinho.”

- ”E daí, que é que isso tem?”

- ”Quando ele quiser, tontinho,

Gabar-se por aí além

Deste jogo singular

Quem o vai acreditar?”



Prova


Um estrangeiro a Nasredim

Pergunta um dia: - ”Crês em Deus?”

- ”Creio” - responde, firme, assim.

- ”Então porquê? Nos feitos teus


Tens uma prova da existência?”

- ”A prova é simples: é que eu rezo

Todos os dias.” - ”E na essência

Há um só Deus? Que prova prezo?”


- ”Só rezo a ele!” - ”E omnipotente

Também o provas com acções?”

- ”Pois! E que prova convincente:

Nunca me ele ouve as orações!”



Avisa-me


A um amigo Nasredim

Um dia pede assim:


- ”Avisa-me, se morreres.

Que queres?


Não gostaria de saber

Por outra pessoa qualquer...”



Apagado


Um homem muito apagado

Junto a Nasredim morava.

Morreu e foi enterrado,

Ninguém em tal reparava.


Um vizinho perguntou

De que é que tinha morrido.

Nasredim obtemperou:

- ”Como posso ter sabido?


Se nem sei de que viveu,

Como ver de que morreu?!”



Amigas


Duas amigas de ouvido

Encontram-se à porta dum horto.

Diz uma: -”E o teu marido?”

E a outra: - ”Continua morto.”



Grave


Falam com todo o sentido

Duas amigas que o tempo esqueceu.

- ”Como está o teu marido?”

- ”Não sabes? Morreu.”


- ”Que doença danada

Te impôs tal entrave?”

- ”Uma rinite complicada.”

- ”Vá lá, que ao menos não foi coisa grave...”



Gata


Nasredim, ainda criança,

Regressando de viagem

Vê que na rua o alcança

Um vizinho, com bagagem,

No burro dele montado,

E que logo o há saudado.


Pediu-lhe novas da aldeia,

Em particular da gata

De que gostava e que ameia,

Sempre que mal se precata.

- ”A gata morreu” - lhe diz.

- ”Porque é que a nova infeliz


Dum modo tão brutal dás?”

- ”Como a havia de anunciar?”

- ”Olha: vê o calor que faz,

Ela uma volta quis dar

Mas, como escaldava a telha,

Saltou e, como era velha...


Era qualquer coisa assim,

A dar tempo a preparar-me.”

- ”Desculpe” - diz Nasredim.

- ”Não faz mal. Cantar-lhe um carme

Nada adianta sequer...

Como vai minha mulher?”


- ”Ora bem, precisamente,

Veja só o calor que faz,

Quis tomar ar, de repente,

Trepou ao telhado e zás!...

Não que ela já fosse velha...

É isto assim que aconselha?”



Mekki


Abbu Hâchim Mekki foi

Um dia pelo bazar.

No magarefe olha o boi

Que ele estava a esquartejar.


- ”Leva esta carne” - ofertou

Ao santo homem o talhante.

- ”Não há dinheiro” - objectou

O outro que era um mendicante.


- ”Não faz mal, leva e me pagas

Depois, quando tu puderes.

Confio, não comas bagas.”

- ”Eu é que em mim, para veres,


Não confio mesmo nada.”

- ”Vá lá, vejo-te as costelas...”

- ”Isto basta à jantarada

Dos vermes que, nas sequelas,


À cova irão que me acoite.”

De facto, morreu à noite.



Bater


- ”Porque bateu no meu filho?”

- ”Porque ele é um mal-educado:

'Gorda!' - diz-me o peralvilho.”

- ”E então há-de ter achado

Que será por lhe bater

Que ao fim logra emagrecer?!”



Jesus


Jesus entra no hospital,

Vai à cadeira de rodas,

Impõe mãos e, a um sinal,

As mazelas cura todas.


- ”Como é que é o médico novo?” -

Dirá quem fora esperou.

Nem vê o curado o renovo:

- ”Como os mais. Nem me auscultou...”



Chaqiq


O homem santo muçulmano

Chaqiq recebe um dia

Um velho no desengano

Que, penitente, diria:


- ”Cometi muitos pecados,

Vim penitenciar-me aqui.”

- ”Tarde vens a estes lados.”

- ”Mas, afinal, consegui.”


- ”Conseguiste ou foi da sorte?”

- ”Consegui porque cheguei

Aqui mesmo antes da morte.”


Chaqiq vê fé, vê lei,

Junto de si o ancião

Escolhe acolher então.



Pobre


Era um homem muito pobre,

Estava para morrer,

Mas, antes que o sino dobre,

Chama o médico a mulher.


Este examina o doente

Que no catre arfa em esforço,

À luz da vela tremente,

Uma só, magra, um escorço.


Nenhuma esperança resta.

Então o homem, parca a fala,

Diz da vela que mal presta:

-”É inútil desperdiçá-la...”


Sopra-a logo. Sem escopro

Talhou o dito que abala:

“Foi o seu último sopro.”



Doente


A mulher de Nasredim

Cai gravemente doente.

E ele ali geme sem fim,

Chora copiosamente.


Os vizinhos lhe disseram:

- ”De nada serve chorar.

Quantos doentes se ergueram!

Ainda te vai preparar


Amanhã uma jantarada.”

- ”Não é por isso que eu choro.”

-”Sim?! Porquê? Não há mais nada...”

- Ӄ que aquilo que eu adoro


É que, aquando de eu morrer,

Quero que ela me recorde

Como o homem que há-de ver

Que a chorar bate o recorde.”



Preguiça


Foi num tempo de preguiça

Que a Nasredim diz alguém:

- ”Que fazes tu, não tens liça,

De manhã à noite sem

Ter qualquer ocupação?”

Nasredim responde então:


- ”O meio de não morrer

Procuro o meu dia inteiro.”

- ”E funciona? - quis saber

O intrometido, lampeiro.

E Nasredim, sempre à tona:

- ”De momento funciona.”



Ásia


Na central Ásia um proprietário

Mui generoso diz a um pobre

(Que o ajudara num agrário

Duro labor) que os passos dobre:


- ”Caminha tanto quanto possas

E toda a terra que os teus passos

Hajam rodeado vai sem mossas

Ser sempre tua e de teus laços.”


O homem pôs-se a caminhar,

Tendo o cuidado de correr

Primeiro um círculo a traçar

Muito pequeno que após quer


Ir alargando a cada volta.

Caminha sempre, dia e noite,

Cansa-se, perde a desenvolta

Noção do que há que ao fim o acoite,


Pois não queria, enfim, parar.

No termo, exausto, cai no chão

E morre logo, um ai sem dar.

Quem o encontrou abre o covão


Com o tamanho do que enterra:

- Dele a parcela foi de terra.



Daud Tai


O santo xeque Daud Tai

Que viveu no século VIII

Pede que, quando se esvai

Do corpo a vida, o introito


É que o corpo depositem

Atrás dum muro qualquer:

“Para que os peões evitem

Minha cara ver sequer.”



Morrer


Uma senhora de idade

Que a uma disputa assistia

Chama um padre à puridade

E, aparte, então lhe confia:


- ”Quando eu morrer, pelo menos,

Num canto bem sossegado

Me ponha onde nem acenos

Me cheguem de nenhum lado


Das disputas que são notas

De todos estes idiotas.”



Egipto


Quando o Egipto era romano,

Do século quarto em volta,

De Alexandria o engano

É da cortesã a escolta


Que de Aminta se chamava.

Os poetas a elegiam,

E de amor artes que usava

Em boatos se estendiam


Por África e Ásia funda.

Príncipes núbios lá vinham

Dela à benesse jucunda,

Paga a fortunas que tinham.


Também Aminta é versada

De música e dança em artes.

Vive em sumptuosa morada,

Escravos são baluartes.


Um faustoso que provinha

Lá das margens do mar Negro

Alexandria maninha

Encontra: dele o que integro


É que só quer impetrar

Entrevista com aquela

Que era a imperatriz de amar,

Só vinha por causa dela.


Nem pirâmides do Cairo,

Nem sarcófagos de antigos:

É tão grande seu desvairo

Que só nela busca abrigos.


Com dura negociação

Fixa para o encontro o preço.

Uma entrevista lhe dão.

Uma alcoviteira o ingresso


Recebe, como é costume.

No dia e hora marcada,

Com véstia com que se aprume,

De Aminta se posta à entrada.


Ao chegar, porém, repara

Numa silhueta escura

Que na casa se prepara

Para entrar, má catadura.


Reconhece de imediato

Que era a morte, não se engana.

A silhueta, com recato,

Passa junto, a porta abana,


Pronta para entrar na casa.

Crítias (ele assim se chama)

Com um gesto breve a atrasa:

- ”És a morte?” - ”Sou” - proclama.


- ”Que é que vens fazer aqui?”

- ”Buscar nesta casa alguém.”

- ”Não!” E, já fora de si:

- ”Dá um pouco de tempo além.


Dar-te-ei o que quiseres,

Caminhei dias e meses

Em busca destes prazeres.

É o supremo, sem reveses,


Sonho duma vida inteira,

Única felicidade

Que na terra se me abeira.

Deixa-a viver, que me agrade


Durante mais duas horas.

Que o sonho se realize

E o desejo, sem demoras,

Se me aplaque em quanto vise!”


Falou algum tempo mais,

A silhueta escutou,

Virou costas e os sinais

São que a entrar renunciou.


Crítias segue, era aguardado,

Entrega o resto da paga.

Após banho e perfumado,

A Aminytas vai que o afaga


Dos segredos com tal arte

Que as duas horas correram,

Num encanto, como aparte.

Mas as emoções valeram.


Quando, no fim, se vestia,

Disse a Aminta: - ”Te agradeço,

Meu sonho foi real um dia.

É certo, jamais te esqueço.


Mas também tu poderás,

Creio eu, estar-me grata.”

- ”Porquê?!” - cortesã sagaz

Tudo apura em cada data.


- ”É que hoje salvei-te a vida.”

- ”Que queres dizer?” - ”Ao menos,

Prolonguei-a, na medida

Em que os momentos pequenos


De estar contigo logrei.”

Crítias conta à cortesã

Da morte a entrar lá sem lei,

Como afastara a malsã.


- ”Ela vinha aqui?” - Aminta

Pergunta com atenção.

- ”Aqui, sim. E, quanto eu sinta,

Ia pisar já teu chão,


A atravessar o jardim.”

- ”Caminhava à tua frente?”

- ”À minha frente, pois sim.”

- ”Que disse ela, exactamente?”


- ”Buscar nesta casa alguém.”

- ”Disse quem? Citou meu nome?”

- ”Não, não disse o de ninguém...”

Cai em si e se consome


Crítias, as feições geladas,

De olhar fixo, de repente.

À morte as questões cobradas

Foram sem rigor premente.


A respiração findou,

Já não vê, não pensa em nada

Quando para trás tombou

Nos braços duma criada.



Índia


Do norte da Índia o rei,

Aos quarenta e cinco anos,

No dia em que era de lei

Receber ele os decanos


E mais os embaixadores,

Se aborrecia de morte.

Pois então, com tais humores,

Não foi capaz, ante a corte,


De segurar a cabeça,

Deixa-a cair sobre o peito

A meio daquela peça

Dos cumprimentos de preito


Que um diplomata apresenta.

O rei, muito surpreendido,

Deu consigo numa lenta

Passagem por um florido


Campo verde onde avançava

De jovem com a leveza,

Com uma moça cruzava

De encantadora beleza


Que lhe sorriu ao passar

E a quem devolve o sorriso.

Ela pertencia a um lar

De camponeses com siso.


Levou-o até à casa

Onde com os pais vivia.

Ali não há rei que apraza,

Ele próprio se esquecia


Do título e condição.

Ela apresenta o rapaz,

Diz que lhe quer dar a mão,

Consentem-lho logo em paz.


Casaram-se pelos ritos,

Tiveram filhos robustos.

Cumpre o ex-rei os requisitos,

Às ordens do sogro os custos


Paga com trabalho duro.

Morre este e deixa-o senhor

De casa e terras, seguro.

Os filhos crescem no amor,


Casaram por sua vez.

Quando ele tinha já netos,

A desgraça, duma vez,

Se abate sobre seus tectos.


Secas constantes o solo

Empobrecem e as colheitas

Emagreceram o bolo.

Ele lutou nas estreitas


Condições, mas a mulher

Morreu, bem como um dos filhos,

Dum relâmpago qualquer

Fulminado em letais brilhos.


Quando o raio o fulminou,

Ergueu a cabeça o rei,

Os olhos abriu, voltou

A si no trono de lei,


Escutou, aí sentado,

O final dos cumprimentos.

No dia, antes de findado,

Audiências e lamentos,


Propostas, reclamações,

Mil petições recebeu

E respondeu com tenções

Do melhor que conseguiu.


Retornara a sua vida,

a seu ofício de rei.

Chegada a noite, a dormida

A favorita (é da lei)


Lha garantiu sossegada.

Ao cabo de vários meses

Desta vida retomada,

Quando, com vénias corteses,


Por um corredor seguia,

Veio-lhe à memória a aldeia,

Uma casa, um rosto-guia...

A emoção breve se alteia.


Um desejo inexplicável

De rever o lugarejo.

Só partiu, indetectável,

Encontra, fácil, num brejo,


O lugar onde vivido,

Trabalhado anos e anos

Dantes houve, desmedido.

Vizinhos, com seus arcanos,


Lhe perguntam: -”Por onde é

Que tens andado? Buscámos

Por toda a parte. Porquê

Te escapulir como os gamos?”


Não soube que responder,

Nem sequer fazia ideia

Que ausência findara a ter.

No lar dali que lhe ameia


O lugar vai ocupar,

Junto à neta que às desgraças

Sobreviveu singular.

Vivendo os dois vidas baças


Foram tal como podiam.

Pouco antes do pôr-do-sol,

Um dia em que o invadiam

Torpores em vasto rol,


Sentou-se então frente à casa,

Sem poder nem respirar.

Olha as flores, plantas, brasa

De estival calor e, a olhar,


Tudo é da primeira vez.

Rumo a ele avista a neta

Que um colar de flores fez

De luto que ao colo meta.


Então ele arranja forças

Para perguntar-lhe, brando:

- ”Tanta flor que em colar torças

São para quem, para quando?...”


A menina se aproxima,

Sorria, detém-se à frente.

Ele tem tempo, em tal clima,

De a ouvir, antes que rente


Lhe descaia o queixo ao peito,

A jamais se levantar:

- ”Porquê flores deste jeito?!

O rei morreu. Ando a par.”



El Centauro


El Centauro, o ditador,

República de Miranda,

De qualquer opositor

Se livra, pondo-o de banda.


Reina, senhor absoluto,

Com, na polícia secreta,

Um terço do povo bruto

E um outro terço a completa,


A vigiar o primeiro

E assim sucessivamente.

Tudo depende, certeiro,

Do ditador tão somente.


Cognomes se atribuía

De El Unico, El Generoso,

El Cercadedios um dia,

Purificador de Gozo.


Execuções às centenas,

Nas prisões não cabem mais,

Nem liberdades pequenas

Na educação, nos jornais...


No décimo aniversário

Da tomada do poder

El Centauro vai, sumário,

Glorificar-se a valer.


Uma semana, porém,

Antes das celebrações,

Uma carta às mãos lhe vem

Que diz só, sem mais razões:


“Morrerás no teu discurso.”

Ficou tudo em polvorosa

A seguir da carta o curso

Mas, do autor, nem uma prosa.


Medidas de segurança

Tomam-se extraordinárias.

Cada convidado alcança

A sala das honras várias


Só depois de três controlos.

Todo o edifício guardado

É de regimentos. Rolos

Cercam de arame farpado.


El Centauro entra na sala

Com meia hora de atraso.

Outra meia é para a gala

De aplausos que vêm ao caso,


Bênçãos, felicitações...

Depois, tudo a seu lugar,

São do discurso os borrões.

El Centauro, ainda a acenar,


Abre a pasta e lá encontrou,

Escrito em termos argutos,

Um papel que o transtornou:

“Daqui a vinte minutos.”


Hesita, pensa anular

A cerimónia, mas nota

Que o excita ir enfrentar

Deste desafio a rota.


Tinha experiência da morte,

Ao menos da morte alheia.

“Companheira de meu norte,

Convivemos volta e meia.”


Olhou longamente a sala

Onde havia homens armados,

Pouco espaço os intervala.

Irão traí-lo os soldados?


Impossível. Escolhidos

E formados são a dedo,

São robôs de outrem movidos,

Seguros que nem um credo.


Limpa a testa com um lenço

E começa. Recordou

De benesses rol extenso,

Persistir em tal jurou.


Mas não falou da miséria

Que assola campo e cidade.

Quinze minutos de léria,

Páginas de insanidade.


Na sala, nem uma mosca,

Apenas do ditador

O elogio a si se enrosca.

Mas, uma lauda ao transpor,


Um bocado de papel,

De novo uns termos enxutos

Pingando a gota de fel:

“Daqui a cinco minutos.”


Novamente perturbado,

Fez uma pausa e tentou

Ver que astúcia imaginado

Terá o mentor. E cuidou


Se agiria só, em grupo,

Como iriam atacar...

E como, após tanto apupo,

Há oposição no lugar.


Uma página após leu,

Dois minutos lhe levou,

Outra a seguir, suspendeu,

A fronte então enxugou.


Pega o copo de cristal,

Serve-se dum pouco de água.

Pensativo, um gole mal

Deu, duma fogueira a frágua


O estômago dilacera.

O sangue a arder, entendeu

Que água envenenada era

E que morrendo se viu


Perante os olhos de todos.

Cinco segundos mais tarde

Já nada mexe em seus modos.

Ninguém se atreve nem arde,


Agora que está tranquilo,

A pensar em aplaudi-lo.



França


Em França, uma professora,

No final do ano lectivo,

Anuncia, sem demora,

Que um dia depois, ao vivo,


Vem um fotógrafo à escola.

A os convencer a posar,

Retira duma sacola

Uma foto singular


Do ano anterior em que posa

Ela entre os outros alunos.

- ”Verão mais tarde o que goza

Quem a olhar e, no seu múnus,


Puder dizer: olha a Linda,

É vedeta de cinema,

E aquele ali, mal vê-se ainda,

É um político de gema,


E o João Paulo, o cientista...”

Um dos miúdos põe o dedo

Na fotografia, alista:

- ”E esta é a professora, credo!


Nunca mais ninguém a viu,

Há muito que já morreu...”



Emissário


Manda a morte um emissário

A buscar um eremita:

Era a hora do sudário.


Porém, ele em si concita

Decénios numa floresta

De Índia ao sul, o que habilita


O monge a escapar na fresta

Dum poder que ninguém tem.

Ele é capaz desta gesta:


Só por vontade mantém

De si múltiplas imagens.

O emissário se detém


Ao entregar as mensagens,

Pois em redor vê centenas

De monges de iguais montagens:


Não vê qual, entre tais cenas,

É a quem deve dirigir-se.

Fala à morte: - ”Mal acenas,


E o prodígio a produzir-se.”

A morte fica a pensar,

Murmura ao ouvido, a rir-se.


Volta o criado ao lugar,

A ter com o velho asceta

Logo a se multiplicar.


De espanto a cara correcta,

Diz o emissãrio, convicto:

- ”Que maravilha! Cometa


Alguém tal, não acredito.

Nada vi que se compare!

É milagre o que aqui fito!


Que pena um nada faltar,

Que haja uma pequena falha...”

- ”Falha?!” - logo a perguntar


O ermitão nem se atrapalha.

Só que é o próprio quem falou.

O emissário logo, à gralha,


Rápido o identificou,

Levou-o sem mais palavras.

As mais imagens olhou


A esvaírem-se nas lavras,

Até que nada restou

Da selva nas terras glabras.



Condolências


Nasredim detesta tudo

O que tem a ver com morte,

Das cerimónias o entrudo,

Das orações o transporte,

Como todos os rituais,

Mormente os tradicionais.


Um imã censura-o um dia

Por mor disto e Nasredim

Defendeu como podia:

- ”O profeta nunca, enfim,

Fez daquilo obrigação,

Glória à morte é de dar? Não!”


- ”Ao menos faz um esforço” -

Diz-lhe o imã. - “Nem que só seja

Por respeito, sem remorso,

À família que o deseja.”

- ”Tens razão” - diz bruscamente

Nasredim com algo em mente. -


“Escuta aqui: por respeito

Para com minha família

Prometo tomar a peito

Comparecer na vigília

De meu próprio funeral.

Dou-te a palavra formal.


Chego à hora combinada,

Ficarei até ao fim

Do enterro, é coisa aprazada.

Só há um pormenor, enfim,

Que não posso prometer.”

- ”O quê?” - quer o imã saber.


- ”Não irei poder ficar

Depois para as condolências.

Sempre detestei, a par,

Essa parte em tais pendências.”



Cavaleiro


Um cavaleiro parou

Ante o lar de Nasredim

E diz-lhe, quando o chamou:


- ”Tenho uma notícia, enfim,

Bem triste para te dar.

Venho de Damasco. É assim:


Acaba de se finar,

Na cidade, o teu irmão.”

A nova vem-no abalar,


Deixa-se tombar no chão,

Lá no meio do jardim,

A cabeça numa mão,


E põe-se a chorar sem fim.

A mulher e os vizinhos

Reconfortam Nasredim.


O cavaleiro os caminhos,

Entretanto, volta atrás

E diz-lhe, ao ver os carinhos:


- ”Perdoa, tirei-te a paz.

Quem morreu não foi o teu,

Mas do Kacem lá de trás


Um irmão. Foi erro meu,

Que me enganei com a casa.”

E a galope então partiu.


Nasredim, que o sol abrasa,

Endireita-se e suspira:

- ”Já estou bem, já não me arrasa.”


- ”Tinhas um ar!... Quem te mira

Vê-te aí bem abalado” -

Diz um vizinho que o vira.


- ”E razões de tal estado

Bem as tinha, que a notícia

Deixou-me como sangrado.”


- ”Mas porquê? Foi sem malícia...”

- ”Não é isso. Esta é a questão:

É que eu nunca tive irmão!”



Qirguízia


Da Quirguízia algumas tribos

Guardam dum texto a memória

Que, em momento certo, cibos

Dão dum medo contra a escória

Da morte, a porem-na em fuga,

Que ela então nunca madruga.


Testemunhas tinham visto

A morte ao vivo, vestida

De preto e rubro registo,

Silente, no leito erguida,

Um moribundo a levar,

Quando este, ao brusco acordar,


Lograva lembrar o texto

E recitá-lo a contento.

Garantem que, em tal contexto,

A morte, em terror do intento,

Fugia, escondendo o rosto

Atrás das mãos de osso exposto.


A natureza, porém,

De tal texto qual seria?

Oração, reza ao além,

Imprecação ou magia?

Que é que metia, afinal,

Medo à morte que é fatal?


É de supor e convir

Que a morte pode ter medo,

Que emoções há-de sentir

Tais que roubam o sossego.

Pode ficar revoltada

E depois ser castigada.


Já nas lendas indianas

De deuses morte escolhida

Recusa matar humanas

Vidas na missão pedida,

Quando vergá-la conseguem

Com palavras como seguem:


“Nos séculos que hão-de vir

Glória tua é sem igual.

E descansa, estás a ouvir?

Morte não mata, afinal.

Não te aflijas com os danos,

Não farás mal aos humanos.


Uns aos outros todos matam,

Mesmo os deuses são mortais.”

Medos à morte não atam,

Dizem uns, se o bem cuidais.

Tudo era teatro ou jogo:

Adeus, que voltarei logo.


Outros, que o texto é dum deus

Ou dum arcanjo caído:

Vingam-se de algum dos seus

Dando ao homem destemido

Este poder clandestino

Com que emular o divino.


Nesta tradição, a morte

Arma suma era dos deuses,

Do poder deles suporte

E dum culto sem adeuses.

Se o homem sem morrer vive,

Religiões leva a que arquive.


Por isso os chefes supremos

Das grandes religiões

Mandaram, até os extremos,

Missionários com missões:

Ou recolhem as palavras

Ou extirpam-nas das lavras.


Um chinês, príncipe grande,

Enviou um velho astuto

Que uma idosa lá demande

Que da montanha em reduto

Há tantos anos vivia

Que suspeitam que sabia


O texto que espanta a morte.

Quis-lhe comprar o segredo.

Ela recusou: - ”De sorte

Que é vender-te, tarde ou cedo,

Aquilo que nunca tenho?”

- ”Diz os termos. São teu ganho.”


- ”Porque é que eu hei-de dizer

Umas palavras à toa?

Este é um momento qualquer

Em que a morte me atordoa?”

- ”Das falas pões-te ao abrigo

Só se de morte em perigo?”


- ”Mas de que falas me falas?!”

Ela afirmava, insistente,

Que não sabe de tais galas

E ao chinês sempre desmente.

Este envia homens armados

A ameaçá-la assanhados.


Ameaçada e ferida,

Ela muda se manteve.

- ”Porque nem por tua vida

Ouço o que a morte susteve?”

- ”Pois é porque não sei nada

Que nada digo, à chegada.


Desde que entraste na gruta

Que sei bem que irei morrer.”

- ”Não há aqui quem o discuta,

Como podes tal saber?”

- ”Se não falar, tu me matas

Com os homens com que tratas.


Se eu falar, matar-me-ias

Por só teu ser o segredo

Com que então sobrevivias.

Vieste por esse credo.”

- ”E não te importa morrer?”

-”Na longa vida hei-de ter


Algo aprendido que importa:

Morrer é bem menos grave

Que matar, fechar a porta.

Se há palavras com que trave

A morte e protejo alguém,

Não as há para quem vem


Matar, para vir salvá-lo.”

Calou-se por uns instantes.

O chinês vê com abalo,

Fascinado, a velha de antes:

Parece estar frente a frente

Com o imortal é o que sente.


A mulher volta a falar:

- ”Se tais palavras houvera

Que impedissem de matar,

Que precioso bem era!

Se as souberas nestes dias,

Tu pronunciá-las-ias?”


O chinês se levantou,

Fez brusco sinal aos guardas,

Um logo a sabre cortou

Da velha o pescoço às sardas.

Ela teve um sobressalto

E tentou pronunciar alto


Umas palavras decerto,

Talvez para se salvar

Por fim no momento certo.

Tarde demais, ao findar:

A cabeça cai no chão

Da gruta, num repelão.


O chinês desce a montanha

Com os seus guardas armados.

Mais adiante, com manha,

São por um bando atacados

Que pacientes esperaram

E a todos os massacraram.


Habitantes da região,

Pensavam que o chinês tinha

A senha mágica à mão.

Queriam tal adivinha.

Prenderam-no, interrogaram

E, ante o não, o degolaram.


Entre eles também havia

Uns cavaleiros de oeste

Cobertos de ferro e a guia

(Que não sabem a que preste

E que os nem veste com jeito)

Duma cruz vermelha ao peito.



Africana


Conta uma lenda africana

Que uma pedrinha do chão

Apanha um homem à mão.

Diz a um outro, a ver se engana:


- ”Que é que aqui tenho? Adivinhas?”

- ”Uma bicicleta!” - ”Ora!

Fizeste batota agora

Quando a escondi nas mãos minhas.”



Irão


No Irão, na revolução

Islâmica, a interdição


É permanente e arbitrária.

Alguns, de forma sumária,


Conseguem que os internassem

Por que por malucos passem.


Ao menos podem gritar

Sempre naquele lugar:


- ”Abaixo o Islão! E ao Profeta,

Morte, que não se intrometa!”


Quando queriam sair,

Bastava o grito banir,


Confessar que eram errados,

Pedir perdão dos pecados.


Na actividade proibida

Era a música mantida,


Mesmo a mais tradicional.

Quem era profissional,


Por perícia não perder,

Tem de às esconsas manter


Treino à sua conta e risco.

Houve quem fugiu do aprisco,


Orquestras em plena noite

No deserto que as acoite


Tocando, à luz das estrelas,

As melodias mais belas.


Um pianista à prisão

Cai por crime de opinião.


Pratica todos os dias

Na mesa, em mudas porfias,


Para os dedos adestrar

E flexíveis conservar.


Ao director da prisão

Foi chamado. Eis a questão:


- ”Que faz com as mãos na mesa

Da cela, qual sua empresa?”


Disse que se aborrecia

E então na mesa batia


Deixando o tempo passar.

Logo o outro, a gargalhar:


- ”Não me venha com histórias!

Um pianista tem memórias


E, apesar da proibição,

Treina a futura função.”


O pianista nega e nega

Mas ocorre – diz – que adrega,


Às vezes, contra-vontade,

Que os dedos têm saudade,


Lembram alguma sonata

E a pauta, mal se precata,


É a superfície da mesa.

Mas ele até que a despreza...


- ”Está bem, pode voltar

Para a cela, ao seu lugar.”


Quando o pianista saía

E entre os guardas se espremia,


O director o chamou,

Irónico acrescentou:


- ”Cuidado com as dedadas:

Só peças autorizadas...”



Bagdade


A Bagdade um estranho chega um dia.

Ninguém o conhecia, é de aparência

Pobre, como um dervixe se anuncia.

Porém, não mendigava e a estridência

Do canto não usou nenhuma vez.

Nunca ninguém o viu comer talvez


Senão algumas tâmaras do chão

Da feira, que esfregava dentre os dedos.

Não era esburacado o seu gibão,

Nem era roupa usada dos degredos.

Calçava umas sandálias, mui decente,

De cajado robusto, em mãos pendente.


Era muito bonito, o rosto magro,

Cabeça levantada, limpo olhar

De verde cintilando, flor num agro,

Com laivos de cinzento a contrastar.

Este olhar maravilha, dentre o escuro

Olhar dos habitantes, negro muro.


Só de noite era visto, após a uma.

Ia de casa em casa onde batia

Com o cajado à porta, em grita suma:

- ”Vem alvorada aí!” - mas repetia

O mesmo em casas nobres, do Governo,

Na mesquita, no albergue... Acorda o inferno!


Duas ou três semanas tal durou,

Reputação estranha anda a envolvê-lo:

Seus olhos são dum tigre quando olhou,

Corta pau à dentada, salta em pêlo

Aos terraços mais altos a que chega

Sem trampolim de apoio, sem ter pega...


Pergunta uma mulher porque anuncia

Em plena noite o alvor quando faltavam

Umas cinco ou seis horas para o dia.

Então o anunciador que embaraçavam

Estas questões, afasta-a do caminho

Com um gesto do braço comezinho:


- ”Anuncio alvorada quando é noite

Porque à noite é que falta-nos a luz.”

E a mulher a insistir como um açoite:

- ”Mas toda a gente sabe que reluz

Toda a manhã o alvor. Porque insistir

A dizer o banal? Deixa-os dormir!”


- ”Se sabem que alvorada vem aí

Porque é que dormem todos os que dormem?”

- ”Pois não te compreendo” - pensa em si

Que era bêbedo ou louco e, ao que a informem,

Os despertados já por tal o tomem.

- ”Ninguém me compreende” - disse o homem. -


“Não é quando houver fome que é preciso

Anunciar a chegada de comida?”

- ”Isso é” - disse a mulher com todo o siso.

- ”Quando se está doente é que a medida

De o médico chamar é que convém?”

- ”Pois é.” - ”Que serventia para alguém


Teria uma alvorada lhe anunciar

Quando ela está chegando de oriente?

Quando a mulher acorda já no lar,

Da capoeira o galo era estridente...”

- ”Isso eu entendo” - diz a mulher, calma.

- ”Não parece que entendas” - com a palma


Afasta-a do caminho e bate à porta

Posterior a gritar pela alvorada.

Tornou-se impopular. O povo exorta

A que o prendam e expulsem para a estrada.

Mas semanas mais tarde ele voltou

E novamente às portas cutucou.


Novamente o prenderam e entregaram

A uma caravana: é de o levar

Bem longe de Bagdade. Abandonaram,

Sem consideração mais lhe mostrar,

O pregoeiro à aridez de algum deserto,

Não pôde mais voltar para mais perto.


Alguns dias depois desta partida

Chegaram os primeiros cavaleiros

Mongóis às cercanias da perdida

Cidade de Bagdade. E aos luzeiros

Da manhã, quando acordam, os vizinhos

Tendas de invasor vêem como ninhos


Erguidas no exterior já das muralhas.

O assalto foi lançado em poucos dias

E foi de madrugada, hora em que as gralhas

Um pouco antes troçavam das manias.

Dormiam sossegadas no seu leito

E viram-lhes depois punhais no peito.



Louco


Fazia um louco as orações a sós.

Alguns amigos o convencem, logo,

A ir na sexta à comum reza. Após,

Numa mesquita, ei-lo a assistir a rogo.


O imã começa a levantar a voz,

Pôs-se a mugir com toda a força o louco.

- ”Não tens vergonha?! Deus não temes, pois?!” -

Dizem-lhe alguns num comentário rouco.


- ”Estive apenas a imitar o imã.

Quando ele disse 'seja Deus louvado',

Estava um boi comprando então no afã.

Pus-me a mugir, por igual, eu, ao lado.”


Pergunta alguém ao pregador que se ia

Ali passando. - ”Bem” - disse ele - “enquanto

Rezava, estava a meditar que um dia

De tratar tenho dum terreno, um canto


Longe daqui. Comigo disse, é certo,

De comprar tenho um boi. E ouvi mugir...”

- É com respeito que sairá de perto

Do louco o louco que anda a nada ouvir.



Resposta


Havia em Bagdade

Um louco que nada

Dizia, em verdade,

À fala escutada.


Perguntam-lhe um dia:

- ”Não dizes palavra?”

- ”A quem o diria?

Não vejo na lavra,


Nem com alta aposta,

Quem me dê resposta...”



Varredor


Diziam a um varredor:

- ”Procuras tu sem parar.

No entanto, és já sabedor

De que não vais encontrar.”


- ”É verdade, tens razão.

Não hei-de encontrar jamais

O que não perdi, no chão,

Sei-o tão bem como os mais.


Mas o que é mais curioso

É que isto me põe furioso.”



Febre


Alguém diz a um louco:

- ”Sabes que tens febre?”

- ”Morra eu um pouco

E, duma assentada,

Foge como lebre

A febre, curada.”



Mulá


Nasredim, vendo um mulá

A pôr uns óculos grossos,

A um oculista de lá

Iletrado até aos ossos

Pede uns óculos de ler,

Tal se bastam a o aprender.

Um rádio tendo comprado,

A um emissor estrangeiro

O liga. Mal hão falado,

Nada entende. Então, ligeiro,

Corre à loja: que um lhe ceda

Que à língua dele lhe aceda.


Um dia estava a serrar

O ramo em que se sentava.

Avisa alguém, ao passar,

Que cairia, se não trava.

Nasredim não lhe ligou,

Cede o ramo e ele tombou.


Uma espécie de profeta

Concluiu que era o vizinho.

Pergunta a hora correcta

Da morte a tal adivinho:

- ”Quando morro em meus achaques?”

- ”Quando o burro der três traques!”


E assim, pois, se livrou dele.

Nasredim vigia o burro.

Quando ia à feira com ele,

Ouve um traque, com um zurro,

E depois segunda vez.

Treme da cabeça aos pés,


À espera então do terceiro

Que devia ser fatal.

Logo ouve outro que, certeiro,

Provou mesmo ser letal:

Na estrada, ao lado dum horto,

Nasredim tomba ali morto.


Logo uns homens o levaram

Para casa e as mulheres

Do cadáver se ocuparam,

São da tradição deveres.

E mais alguém decidia

Enterrá-lo nesse dia.


Breve se forma o cortejo

Que à margem chega dum rio

Que é de atravessar no brejo.

O cemitério se viu

Que era na margem de lá

Onde ninguém chega já.


Era mui forte a corrente.

Como a ponte utilizada

Pelo povo normalmente

Das águas fora arrastada,

Perguntavam por onde ir.

Uns diziam que a subir,


Outros julgavam que não,

Discutiam com calor.

Houve quem, na confusão,

Julgue que um barco é o melhor.

Nasredim, na padiola,

Lépido se desenrola


E proclama com voz clara:

- ”Há uma ponte mais abaixo,

Sólida, coisa bem rara,

Nela é que melhor encaixo.

Um barco?! Era o que faltava!

Eu ainda me afogava!...”



Lago


Um lago vinha bater

Na base dum muro em pedra.

Sentado em cima, um qualquer,

Fatigado, se requebra,


Uma a uma tira ao muro

As pedras que ao lago lança.

- ”Que fazes aí seguro?! -

Diz mulher que o lago alcança


Para de água encher a bilha.

- ”Ao muro tiro umas pedras,

Lanço-as ao lago que brilha.”

- “É tarefa em que não medras.


Porque estás a fazer isso?”

- ”Porque tenho sede” - diz.

- ”Não entendo o teu enguiço.”

Logo o outro contradiz:


- ”Se atirar pedras ao lago,

Faço o lago então subir.

Tarde ou cedo, alcanço um trago,

Que as águas hão-de aqui vir.”


- ”Vai levar um tempo louco!”

- ”Não creias nisso. Olha bem.

Jogo a pedra, sobe um pouco

O lago e baixo também


Um pouco a altura do muro.

Assim é que os aproximo.”

- ”Se desces, é mais seguro,

Debruças-te de água ao cimo.”


- ”Talvez, mas eu tenho medo

De cair e me afogar.”

- ”Aqui, no ponto onde acedo,

Não é fundo, é um bom lugar.”


- ”Como sabes?” - ”Vou mostrar

Como é que sei” - e a mulher

Vem-se, lesta, então postar

Atrás do muro. Vai ter


De dar um grande empurrão

Ao homem que cai no lago,

Com um enorme chapão

Mais um grito, de olhar vago.


Nem chega o lago aos joelhos.

- ”Venho aqui todos os dias

Água buscar, molho artelhos,

Sei dos fundos as manias.”


- ”Deste-me cabo das contas” -

Diz ele, com ar zangado. -

“Assim as pedras que apontas

Não sei se haviam bastado


Para o lago a mim chegar.”

- ”De que é que isso te servia?”

- ”De nada. Mas lá gostar

De saber bem gostaria.”


Sacudiu-se como um cão,

Saiu de água e se afastou,

Deixando um rasto no chão

De água que dele pingou.


- ”Disseste que tinhas sede

E não bebeste, afinal.”

- ”Não quero as águas que cede

Um lago de mau sinal.”


- ”Mesmo se eu teoferecer?”

A mulher colhe um bocado

Para a bilha, dá a beber.

Ele hesitou. Agachado,


Bebe por fim longamente.

Morta a sede, se levanta,

Porém fugiu, de repente,

Como quem se desencanta.




























































6


Ao Serão de Sexta-feira






























Hospício


Num hospício um judeu não

Parava de requerer

Comida kosher, senão

Mais nenhuma ia comer.


Grita tanto e barafusta,

Escreve tanto e tão bem

Que por favor se lhe ajusta

O prato que lhe convém.


Mas no sábado seguinte

O psiquiatra reparou

Que ele de aves era ouvinte

No jardim e ali fumou,


Tranquilo, um gordo charuto.

- ”Está fumando?” - pergunta,

Espantado do produto.

- ”É como vê” - o outro assunta.


- ”Então fez tanto chinfrim,

Incomodou tanta gente

Para ter comida ao fim

E agora fuma contente


Do sabbat em dia. Como?!”

- ”Ora, como lhe retruco?

Senão, que prémio de tomo

Havia de estar maluco?”



Muçulmano


Foi num país muçulmano

Que um pobre maluco deu

Com conhaque, por engano,

E à noite, a esconsas, bebeu,


De grande árvore por baixo.

Rebenta uma tempestade,

Sacode os ramos em cacho

Um vento que tudo invade,


Relâmpagos iluminam,

Os trovões nos ensurdecem...

Do louco a Deus se destinam

Os gritos que o estremecem:


- ”Que é que Te deu? É uma estafa!

Como nisto crer não posso!...

Eu é que bebo a garrafa

E Tu é que ficas grosso?!”



Sevilha


Havia em Sevilha um louco

Que adoptou a extravagância

Que a ninguém lembra tão-pouco,

Nem por ânsia nem ganância:


Arranja um tubo de cana

Dum dos ladoa aguçado.

Se um cão da rua lhe abana

A cauda, é logo apanhado,


No pé prende-lhe uma pata

E segura a outra à mão,

Mete-lhe, mal se precata,

No ânus o tal tubo então,


Põe-se a soprar do outro lado

Até que o pobre animal

Fique em bola arredondado.

Após pô-lo em forma tal,


Dava-lhe umas palmadinhas

E largava-o comentando,

De conduta ante tais linhas,

Dos circunstantes ao bando:


- ”Cuidarão vossas mercês

Que é coisa de pouca monta

Inchar este cão, talvez?

Não é, não, É coisa tonta...”



Córdoba


Em Córdoba um louco havia

Que trazia na cabeça

Um pedregulho. A mania

Tinha um fito para a peça.


Sempre que encontrava um cão

Que não estivesse alerta,

Aproximava-se e então,

Antes da atenção desperta,


Deixava cair o peso

Em cheio por cima dele.

O cão urrava mui leso,

Fugia a salvar a pele.


Ora, um dia aconteceu

Que, entre os cães tão maltratados,

Do chapeleiro um caiu

Que ao dono é dos mais amados.


A pedra, ao cair, bateu

Na cabeça. O agredido

Mui lancinante ganiu.

O dono, tendo-o ouvido,


Fica furioso deveras.

Pega numa vara e espanca

O doido sem mais esperas.

À paulada que o desanca,


Gritava-lhe: - ”Era o meu galgo!

Não vês que é um galgo o meu cão?”

Galgo repete como algo

Que não pode olhar-se em vão.


Dava bordoada no louco

Como quem malhara trigo.

Desterra-se o doido um pouco,

Pois dava efeito o castigo,


E, durante mais dum mês,

Não aparece na rua.

Voltou por fim outra vez

Ainda sob a pedra sua.


Aproxima-se dum cão,

Apontava com cuidado,

Mas não se atreve à função.

Sem a haver nunca largado,


Diz ele: - ”Este é um galgo, não!”

De todos os cães comenta

Que eram galgos. Desde então

Contra nenhum cão atenta.



Campónio


Um campónio muito rico

Foi vender a uma feira

Sete burros com fanico

Tal quem nem lavram a jeira.


Monta o mais robusto deles,

Atrela os outros atrás

E segue, coberto a peles,

Chega e, sem se apear, faz


A conta aos burros que tem.

Aquele esquece que monta,

Só descobre seis além.

Volta a contar: mesma conta.


Aflito e bem convencido

De um burro lhe ser roubado

Ou então de o ter perdido,

Volta à quinta desvairado.


Chama a mulher e lhe diz:

- ”Não sei o que se passou,

Com sete à estrada me fiz,

Só meia dúzia restou.


Ajuda-me, por favor.

Quantos burros contas tu?”

Vai-se a mulher, calma, pôr

A contá-los, tu mais tu,


Sem esquecer o montado

Ali pelo seu marido.

Com dedo a ele apontado,

Diz com sorriso fingido:


- ”Esquisito o teu introito.

Pois olha, eu cá conto oito.”



Estrelas-do-mar


Uma forte tempestade

Lança na praia milhares

De estrelas-do-mar: invade

As areias e os palmares

Delas todo inteiro o rol

Ali a morrer ao sol.


Passam dois homens. Um deles

Baixa-se de vez em quando,

Apanha uma estrela reles,

Ao mar a atira, em tom brando.

O outro, que tinha pressa,

Diz-lhe, abanando a cabeça:


- ”Que fazes?! Irás deitá-las

Todas ao mar? É impossível,

Estás maluco! Não falas?”

Diz o primeiro, credível:

- ”Das que deito ao mar, retruco,

Acha-me alguma maluco?!



Espanha


Um viúvo pobre, em Espanha,

Cria com dificuldade

Dois filhos. Gasta o que ganha,

Nada poupa que lhe agrade.


Um filho era jovial,

Um optimista por lema.

O outro é uma sombra letal,

Sempre infeliz, toda a cena.


Ante as festas natalícias,

O pai pensa nos presentes

Que pode, como primícias,

Dar aos filhos dependentes.


Ante a magra economia,

Pede dinheiro emprestado

E compra, em segunda via,

A seu filho desgraçado


Um relógio. Mas não tem

Nada para o optimista.

Quando numa rua vem,

Eis que um burro, à sua vista,


Desatou a defecar.

Apanha a bosta, embrulhou

Num papel prata a imitar

Que na lixeira encontrou,


Atou-lhe uma fita em volta,

No presépio de Natal

A aconchegou bem envolta

Junto ao relógio real.


Chegada a noite das prendas,

O filho que é taciturno

Retira ao embrulho as vendas.

Vê o relógio, porseu turno,


Pô-lo no pulso, automático,

Sem demonstrar alegria.

- ”Então?” - Um vizinho, prático,

Pergunta no outro dia. -


- ”Viste que relógio belo

Te comprou teu pai?Ao menos

Estás contente por tê-lo?”

Faz que não com uns acenos.


- ”Mas porquê?!” - ”De cada vez

Que no pulso pouso os olhos,

Vejo as horas, dias, mês

A passar. Baixo os sobrolhos,


Que o que me resta a viver

Encolhe, aproxima a morte.”

- ”E tu tiveste um qualquer

Presente melhor da sorte?” -


Ao outro irmão perguntou

O vizinho muito atento.

- ”Um cavalo?” - retrucou

O rapaz, cheio de alento,


Acrescentando na hora:

- ”Só que foi-se logo embora!”


Nasredim


Nasredim fica senhor

De dinheiro apreciável.

Vem-lhe um camponês propor

Se lhe não era emprestável


A soma de mil dinares,

Que lhos paga, sem engano

E com juros singulares,

No prazo dali a um ano.


Ele empresta-lhe o dinheiro,

Julga-o perdido de vez.

Mas, corrido um ano inteiro,

Paga tudo o camponês.


Nasredim perplexo fica.

Dois ou três anos mais tarde,

O mesmo homem embica

Aonde a fortuna guarde


E pede-lhe a mesma soma.

- ”Ah, não! De mim nunca mais

Tua lábia algo me toma.”

- ”Mas porquê recusas tais?


Reembolsei-te o prometido,

Juros de todos os meses...”

- ”Precisamente! É o cumprido.

Não me enganam duas vezes!”



Avarento


Um rico muito avarento

Um dia caiu a um rio.

Arrastava-o lento e lento

A corrente, em desfastio.


Como não sabe nadar,

Acorrem várias pessoas

Margem fora a lhe gritar:

- ”Dá cá a mão, que te atordoas!”


Mas ele não a estendia

E deixava-se afundar.

A vida ao fim deveria

A Nasredim que, ao chegar,


Das águas se aproximou

E gritou do coração:

- ”Vá, homem, sem hesitar,

Toma, toma a minha mão!”



Marselhesa


Um retornado da Argélia,

Rei do merguez em Marselha,

Tem fortuna (quer revele-a

Como nova quer por velha)


Que é por incontável tida.

Um condiscípulo acolhe

Certo dia, doutra vida,

De Oran, do liceu e molhe.


Algum tempo conversaram

Trocando recordações,

Os colegas evocaram,

Professores e lições...


O que veio de visita

Um empréstimo pediu

Ao outro a quem bem concita.

O abastado reflectiu,


Levou-o a uma janela,

Mostrou-lhe fora, na rua,

Da agência bancária a tela.

- ”Vês o pendão que flutua?


Fiz um acordo cortês

E que dura o ano inteiro:

Eles não vendem merguez

E eu não empresto dinheiro.”



Glacial


Viajavam lado a lado

Por um tempo glacial

Um rico e um pobre coitado.

O rico sente-se mal


Embrulhado em dez camadas

De roupa, vai tiritando.

O pobre traz apertadas,

Nunca aos frios se entregando,


Umas roupas de algodão,

Insensível fica ao gelo.

- ”Como fazes tu então

Para o não sentir no pêlo?”


- Ӄ que tu sofres de frio

Porque tens no teu roupeiro

Botas e xailes, um rio

De sobretudos inteiro.


Ao passo que eu, pobretão,

Só tenho isto de algodão.”



Índia


No centro de Índia, um asceta

Mendicante se instalou

À porta que dá directa

Para um bordel que ignorou.


No chão se senta, a escudela

Estendida a quem passar.

Veste pobre, tanga em tela,

Barba grisalha a abanar,


Cabelos em carrapito.

O sinal de Vishnu tem

Na fronte bem circunscrito,

Os ombros cinza contêm.


Quando soube por quem passa

Que uma prostituta actua

Na casa a distância escassa,

Uma fúria lhe deu crua.


Insulta a porta, as paredes,

Quis fazer queixa, mas dizem

Que de lei não há cá redes

Para os que por lá deslizem.


Ele alerta a quem passar,

Dizem que o que a fazer tem

Era mudar de lugar.

É o que jamais lhe convém,


Tão movimentada é a zona,

Tão favorável à esmola.

Os clientes, numa fona,

Insulta, à má-fama imola,


Tenta atacar à paulada...

Uma tarde, ao dormitar,

Um cliente, junto à entrada,

Uma moeda faz tombar


De prata lá na escudela.

Ao despertar do barulho,

O asceta retira dela

A moeda com orgulho.


Nos dias que se seguiram

O mesmo gesto ocorreu,

Dezenas o repetiram.

A crítica esmoreceu


Do asceta, agora acalmando.

Os clientes satisfeitos

Lá o iam esportulando,

Como a tal mendigo afeitos.


Foi o hábito crescendo,

Os vizinhos deste asceta

Pela calada dizendo

Que era um mero proxeneta.


Mas um dia a prostituta

Decidiu mudar de casa.

As carroças, em disputa,

Cada qual a carga apraza.


Móveis, tapetes transportam,

Candeeiros, roupas, tudo

E nas carroças se exortam

A atulhar miúdo e graúdo.


Ora, o asceta olhava aquilo

Com um ar muito inquieto.

No fim sai, em grande estilo,

A mulher, saco repleto.


As carroças já partiram,

Vinha agora um palanquim.

As criadas reagiram

A ajudar a dona ao fim.


O asceta então a chamou

E perguntou: - ”Vais-te embora?”

- ”O insulto me azucrinou,

Contente deves agora


Estar da minha partida.”

Trepa para o palanquim,

Fecha a cortina em seguida.

O asceta, num frenesim,


Correu atrás a clamar,

Pisando os calhaus da estrada:

- ”Não me poderás tu dar

A tua nova morada?”



Haim


O judeu Haim dormia

Com sua mulher, à tarde,

Quando um barulho se ouvia

Na casa que tão mal guarde.


Um ladrão de introduzir-se

Acabava em casa deles.

Cheios de medo, a esvair-se,

Ficam imóveis aqueles.


O ladrão busca a correr

Por toda a parte e encontrou

Um lindo anel de mulher

E foi o que ele levou.


Haim, que estava a espiá-lo

Pela porta entreaberta,

Foi atrás até caçá-lo.

Ao voltar, ainda desperta,


A mulher lhe perguntou:

- ”Recuperaste o anel?”

- ”Não, não!” - ele retrucou.

- ”Correste... Não foi por ele?!”


- ”Só lhe queria dizer

Que o anel tinha custado

Muito mais que outro qualquer,

Para não ser enganado:


Quando ele tentar a alguém

Vender, venda, ao menos, bem.”



Rabino


Um rabino viajante

Oferecia os serviços

Cidade a cidade adiante.

Das etapas nos sumiços,


Chega sempre a Berditchev,

Se aloja no lar dum pobre,

Que outro convite não teve

Que em tal terra ali lhe sobre.


Mas tornou-se popular,

Ganhou dinheiro o rabino,

Reuniu, a o rodear,

Mil discípulos de tino.


Chega um dia a Berditchev,

Agora em coche doirado

Que os cavalos puxam leve.

Um dos ricos, anafado,


Logo se lhe apresentou,

Para seu lar o convida.

E o rabino retrucou:

- ”Com sua licença, a ida


É ao pobre do costume.

Porém, se lhe dá regalos,

Tudo a isto se resume:

Convide então meus cavalos.”



Colectas


Um padre mais um rabino

Falam da parte que têm

Para seu próprio destino

Das colectas que retêm.


O padre: - ”Traço no chão

Da igreja uma linha recta

E, no fim da missa, então

Atiro ao ar a colecta.


O que cair à direita

Guardo inteiro para mim.

O que à esquerda ali se ajeita

Será para Deus, enfim.”


E o rabino: - Ӄ mais ou menos

O que eu faço, mas sem linha.

Grandes atiro e pequenos

Dinheiros ao ar. A minha


Decisão é feita assim:

De Deus é o que fica no ar;

O que cai é para mim.

Ninguém se pode queixar.”



Fato


Um judeu com um amigo

À loja vai por um fato.

No alfaiate encontra abrigo:

Um lhe agrada e quer contrato.


Discute, porém, o preço

Durante três quartos de hora.

- ”Regateaste! Não esqueço

Que o não vais pagar agora...”


O outro diz-lhe: - Ӄ que assim

Perde ele menos, ao fim...”



Ética


Um judeu ensina ao filho

O que é que ética será:

- ”Queres ver com todo o brilho

Um problema onde isso está?


Um cliente vem à loja

E, ao sair, esquece o troco

No balcão que a caixa aloja.

Problema no qual eu toco


A ética mais profunda

Que me faz perder meu ócio:

Se o dinheiro não abunda,

Divido com o meu sócio


Ou guardarei por inteiro

Para mim todo o dinheiro?”



Fome


Sobre a região a fome

Tremenda ali se abatera,

A população não come,

Mata a miséria qual fera.


Porém, os ricos cuidado

Tinham de encher os celeiros

E adegas, tudo atulhado,

Fartos são meses inteiros.


A mulher de Nasredim

Diz-lhe então: - ”É uma vergonha!

O rico foi sempre assim,

Tudo tem de que disponha.


E meio povo não tem

Nem sequer de que comer.

As crianças morrem também,

Até o rato anda a morrer.


Não poderás fazer nada?”

- ”Mas que queres tu que eu faça?”

- ”A riqueza partilhada

Com os pobres nos congraça.


Não poderás convencer

Os ricos à entreajuda?”

- ”Tens toda a razão, mulher,

Vou já tentar se isto muda.”


Saiu de casa e só volta

Cinco ou seis dias mais tarde.

Esgotado, a voz mal solta

Num murmúrio sem alarde.


- ”Então,” - pergunta a mulher -

“Cumpriste e tua missão?”

- ”Sim” - mal se ouve responder.

- ”Conseguiste, pois, então,


Convencê-los a aceitar

Uma partilha dos bens?”

- ”Consegui metade, a par.”

- ”Metade?! Mas que é que tens,


Que é que é isso que me encobres?”

- ”Convenci mas foi os pobres.”



Damasco


Nasredim saiu um dia

De viagem a Damasco.

Logo o imã longo escrevia

Que de lá lhe traga um frasco,


Várias peças de brocado,

Mais duas tapeçarias,

Serviço de chá talhado

Em porcelana de estrias


Com a chinesa embutida,

Cem obras encadernadas,

Miniaturas à medida,

Mais luxos para as jornadas...


E anotava: - ”Não te inquietes,

Pago-te mal aqui voltes.”

Mal torna e pisa as carpetes,

Logo o imã: - ”Que enfim te soltes!


Correu-te bem a viagem?”

-”Correu” - disse Nasredim,

No descanso da paragem. -

“Damasco, um mundão assim,


Que grande, grande cidade!

Contar-te-ei até ao fim

Tudo o que vi que te agrade,

Se tens paciência, enfim...


Mas antes, algo em contraste

Tenho-te a dizer a ti:

A carta que me mandaste

Eu cá nunca a recebi.”



Cinema


Um produtor de cinema

Célebre por seus calotes

Os Champs-Élysées atrema

Em subir, um dia, aos trotes,

Quando sentiu uma mão

Pousar-lhe no braço então.


Sem, contudo, se voltar,

Diz a quem tenta detê-lo:

- ”Também a mim, se calhar,

Me chegas a roupa ao pêlo.

Ora, a mim próprio, parceiro,

Também me devem dinheiro...”


Sacha Guitry de finados

Solta deste canto os dobres:

“Conheci-os arruinados,

Mas nunca os conheci pobres...”



Polónia


Na Polónia dois judeus

Viajam no mesmo comboio

A Varsóvia, rumo aos seus.

São como o trigo e o joio.


Não se conhecem. O novo

Diz ao velho, de repente:

- ”Para si sei que reprovo,

Mas diz-me a hora presente?”


O velho, numa olhadela,

De imediato lhe responde:

- ”Não!” E ao canto, sentinela,

Se encolhe todo, se esconde.


O rapaz, surpreendido,

Aguarda então uns minutos:

- ”Porquê o não tão decidido

E com uns modos tão brutos?”


O velho hesita um instante

Até depois responder:

- ”Ouve cá, ó meu tratante,

A Varsóvia vamos ter.


Cidade que não conheces,

Disseste-o ao revisor.

É o sabbat, não te esqueces,

Este é o dia do Senhor.


Vais perguntar-me, portanto,

O rumo da sinagoga.

Eu recusar-me, no entanto,

Não posso, que a fé o advoga.


Levo-te lá pessoalmente.

À saída, como vejo

Teus meios (são de indigente),

Perguntas-me se entrevejo


Alguma pensão barata.

Como nenhuma conheço,

Num jogo de desempata,

Minha casa, no começo


Vais aceitar, com certeza,

Poderei prever que sim.

Tenho filha, uma beleza,

Dezoito anos de marfim.


Vai-te agradar, pela certa,

Não tardam a apaixonar-se

Um do outro, em casa aberta.

Uns meses, para disfarce,


E pedes-ma em casamento.

- E achas bem se eu a concedo

A quem nem tem, de momento,

Nem para um relógio?! Credo!”



Bagdade


Em Bagdade houvera outrora

Uma longa discussão

Entre a gente pensadora,

A responder à questão:

Há duas categorias

De homens cá todos os dias?


De acordo era a maior parte

Mas discordavam acesos

Sobre a razão que os reparte:

Como dividir os coesos?


O muçulmano convicto

Diz: fiéis e infiéis.

O cristão, não: é o maldito

E o salvo, sem mais papéis.


Para o grego, é o dominante

E, a seu lado, o dominado.

Noutros termos: grego impante

Contra bárbaro iletrado.


Noutros era a inteligência

Que havia de dominar:

Os que sabem, a ciência,

E os que ignoram, logo a par.


Instruídos – ignorantes.

Mas há mais nestes alfobres,

Que aqueles dizem pedantes:

Bastam-lhes ricos e pobres.


Há o que manda, o que obedece.

Há o vencedor e o vencido.

De Índia um há que não esquece

Divisões noutro sentido:


A dos vivos e a dos mortos.

Para alguns, são bons e maus,

Embora, nos nossos hortos,

Onde, entre os dois, talhar vaus?


Ao fim do mês foi forçoso

Separar sem solução

Tanto sábio portentoso,

Que vã fora a discussão.


Encontram então na rua

Nasredim que ia a passar

Calmo na montada sua.

Vai-lhe um sábio perguntar:


- ”Nasredim, categorias

Será que de homens há duas?”

- ”Claro que há, não o sabias?”

- ”Quais e como as encafuas?”


- ”Os que pensam que do Homem

Há duas categorias

E os outros, os que nos tomem

Por irmãos todos os dias.”



Zen


Uma velha abastada decidiu

Auxiliar um jovem monge zen

Em estado famélico que viu

Penitente na rua, ali perene.


Alojamento deu-lhe na cabana

A meio situada, em parque imenso

Em torno à residência onde se fana

E alimentou-o então, com todo o senso.


Ora, o monge aceitou, não vendo nisso

Mal algum e alguns anos decorreram.

Ele ganhava peso mas serviço

Fez sempre, que orações sempre correram.


A dama apreciava tal presença

Que, tranquila e devota, a apaziguava.

O eremita cuidava da sentença,

Em seu lugar pecados lhe lavava.


Aos amigos falava e o exibia,

Que trocavam com ele algumas falas.

Com o tempo ninguém estranharia

Tal presença: o melhor era das galas.


Uma sobrinha a dama, porém, tinha

A quem vida monástica atraía.

Mas antes do convento o que a detinha

É que conhecer quer toda a alegria,


Ao menos uma vez, do amor carnal.

Pensa consolidar a vocação

Se aprende a apreciar pelo total

Aquilo que depois larga no chão:


Senão, qualquer renúncia que valia?

Não ousando ela aos pais, à tia fala

Que, depois de hesitar, admitiria

Como era pertinente o que a regala.


- ”Tenho justamente o que é preciso,

Ao menos creio ter” - confidenciou.

À rapariga disse, com juizo,

Que à cabana a acompanhe, onde explicou


Ao eremita o acto que esperavam.

Mas este recusou veementemente

Qualquer sexual contacto. Renunciavam

Os monges ao prazer, coração quente


Já não tem e não quer correr o risco...

A velha se irritou e pôs na rua

Imediatamente aquele cisco,

Que a vista já lhe turva, negra e crua.


- ”Como dei eu guarida ao imbecil?!” -

Exclama, a verter fel, raivosa esponja. -

“Com certeza não há mais um em mil!”

E a rapariga foge de ser monja.



Hassan


Hassan ia desposar

Do sultão a filha única,

Mas tem um jogo de azar:

Tirar do bolso da túnica,


À escolha, um de dois papéis.

Num se escreveria “vida”

E o consórcio troca anéis.

Noutro, “morte” e, de seguida,


Era morto o pretendente.

Apesar deste contrato

(Que assina Hassan, de repente),

O sultão perde o bom trato,


De aflito. Pensava ele:

Tenho uma hipótese em duas

De a filha dar para aquele

Zé-ninguém de andar nas ruas,


Mais a parte da fortuna.

O risco é grande, cuidava.

Do biltre a morte se coaduna

(E só ela) ao que o magoava.


Dá parte da inquietação

Ao grão-vizir, um escroque.

Aconselha-o este então

A ter de génio este toque:


Escrever nos dois papéis

A fatal palavra “morte”.

É o privilégio dos reis:

Mudam a seu gosto a sorte.


Mas Hassan é inteligente

E prevê toda a armadilha.

Chega o dia e, sorridente,

Entra à sala da pandilha,


Onde o aguardam o sultão,

O vizir e toda a corte,

Mais um carrasco. No chão,

O cepo e o sabre do corte


Do pescoço que pretendem.

Hassan avança. Um criado

Põe na bolsa que lhe estendem

Os dois papéis. Descuidado,


Hassan logo agarra num,

Enrola-o, sem mais o engole.

- ”Porque quebras o jejum

Comendo esse nojo mole?” -


Exclama brusco o sultão.

- ”Fiz a escolha e engoli-a.

Se meus fados onde vão

Queres saber, pois a via


É ler o outro papel.”

Ora, neste havia “morte”,

Pelo que deduz-se dele

Que o que engolira reporte


Nele escrito o termo “vida”.

O sultão já não podia

Tirar-lha e é-lhe cedida

Mais a filha que queria.



Indiano


Tinha um sábio indiano

A fama de preferir

Silêncio a todo o engano

De ensinança que existir.


Uma pequena cidade

Convidou-o, no entanto,

Decidindo que o persuade

A falar, usando o encanto.


Ante a centena de parvos

Pergunta a primeira vez:

- ”Sabeis de que irei falar-vos?”

- ”Não!” - respondem no entremez.


- ”Então nada vos direi.

Sois por demais ignorantes,

Com que podia não sei

Entreter-vos ums instantes.”


E retirou-se. O auditório,

Desapontado, voltou

Segunda vez, em velório.

De novo ele perguntou:


- ”Sabeis do que irei falar-vos?”

- ”Sim!” - responderam em coro.

- ”Nada então tenho a ensinar-vos.”

E lá se foi, com decoro.


Não se dando por vencidos,

Os interessados voltam

Um dia após, decididos

A um ardil que aos pés lhe soltam.


- ”Sabeis de que que falar vou?”

- ”É que uns sabem e outros não.”

- ”Nesse caso, donde estou

Os que sabem o dirão


Aos que não sabem.” E, a par,

Foi-se, sem mais retornar.



Senhorio


- ”Padre, chamo-lhe a atenção

Para o terrível flagelo duma pobre família:

Pai desempregado e a mãe não

Pode trabalhar, dada a vigília


Pelas nove crianças que tem de sustentar.

Têm fome e em breve irão para a rua,

Salvo se alguém lhes pagar

Os 500 euros da renda sua.”


- ”Que horror!” - diz o padre, tocado

Pela preocupação do homem de brio. -

“E o senhor quem é? Conheço-o de algum lado?”

- ”Sou deles o senhorio.”



Crêem


Desde sempre os homens crêem

Que haja um mistério no mundo

Que só os iniciados vêem

Após um rito profundo.


Um califa encarregou

Nasredim de o descobrir.

- ”Queres” - este interrogou -

“Do esoterismo que ouvir


Que eu lhe descubra o segredo?”

- ”Sim e que após mo reveles.”

- ”Mas, supondo que lhe acedo,

Não és acaso daqueles


Que, após to haver confiado,

Mandas cortar-me a cabeça?”

- ”Mas para quê tal mandado?!”

- ”Para o único da peça


Ser que tem conhecimento.”

O califa trejurou

E Nasredim, no momento,

Logo a casa retornou


Prometendo sem demora

Do esoterismo informar-se.

Mas nem antes nem agora

Da vida altera o disfarce.


Vai no burro colher figos,

Ocupa-se do negócio,

Conversa com os amigos

Em redor dum chá, em ócio


Discute com a mulher,

Com os filhos, com o burro...

Rotina, como quenquer.

Findo o tempo, mui casmurro,


O califa o convocou,

Pergunta, no encontro a sós:

- ”Do que tanto se falou

Descobriste alguma voz?”


- ”Descobri” - diz Nasredim.

- ”Mas o que é? Conta-me então!”

Lançando um olhar sem fim

Em redor, pelo salão,


A assegurar que sozinho

Está com o soberano,

Ao ouvido, em burburinho,

Do mistério tira o pano:


- ”O que é que é o esoterismo?

Descobri que é uma cenoura.”

- ”Uma cenoura?! O que crismo

De mistério é o que me agoura?


Mas porquê?!” - ”Ao que parece,” -

Nasredim que o não impeçam

Garante, a salvar-se em prece -

“Muitos burros se interessam


Por ele, não é verdade?”

E, com isto, ele se evade.



Glicínia


Um ingénuo camponês

Depõe toda a confiança

Dum monge zen em mercês,

O qual em gruta se alcança

Distante mais duma hora

Duma aldeia aonde mora.


Quando um problema sofria,

Filho doente, má colheita,

Até à gruta subia

E ao monge, para a maleita,

Um conselho então lhe pede

E logo este lho concede,


Sempre com igual resposta,

Fosse qual fosse a pergunta:

- ”Para a questão que é proposta,

De glicínia um pouco junta

E, na chávena servida,

Bebe glícínia fervida.”


Com uma só diferença:

Se era animal ou pessoa

Doente, então a sentença

Dita que a tisana é boa

Só quando, evidentemente,

É bebida pelo doente.


O campónio, uma manhã,

Procura em vão o cavalo

Pela aldeia, em busca vã.

Constata, com muito abalo,

Que anda desaparecido

E, sem ele, se há sumido


Todo o trabalho da terra.

Trepa à gruta do eremita

Lá bem no cume da serra,

Explica-lhe o que o agita.

Reflecte profundamente

O eremita, em chão assente.


Meia hora bem contada

Após, diz com toda a gana:

- ”Pois de glicínia apanhada

Vai beber uma tisana.”

- ”Em que me vai ajudar

Uma tisana emborcar?!”


O eremita se recusa

A dizer mais e voltou

Para a sua gruta escusa.

O camponês retornou

Para a aldeia onde a mulher

Diz mais glicínia não ter.


Devia haver noutro vale,

Onde se chega transpondo

Uma escarpa sem igual.

Mas para quê ir, supondo,

Se não diz coisa com coisa

O monge que no alto poisa?


Sem saber mui bem porquê,

O camponês tem confiança

No eremita que além vê.

Põe-se a caminho e alcança

O outro vale. E eis que o cavalo

Ali pasta que é um regalo!



Dougxan


Em pleno século XIII

Andavam Xengha e Dougxan

Pelo campo, sem que os lese

Nada, até que uma manhã,

Couves chocas, de repente,

Vêem a ir na corrente.


Dougxan diz que um eremita

Budista ter-se instalado

Devia lá na territa,

Pois o resto rejeitado

Duma refeição seria

A couve que ali se via.


Procuram, acham-no logo.

Mal os vê, pergunta ele:

- ”Caminho nenhum advogo

Nesta montanha. Que impele

Minhas visitas então?

Vieram, mas por que chão?”


- ”Pouco importa” - diz Dougxan.-

“E o senhor onde passou?”

- ”Não vim atrás da manhã

Nem do rio que escoou.”

- ”E há quanto tempo aqui vive?”

- ”Anos não há que eu arquive.”


- ”Quem vivia aqui primeiro,

O senhor ou a montanha?”

Diz o monge pioneiro:

- ”Sei lá bem qual de nós ganha!”

- ”Mas como, como não sabe?!”

- ”A conta em homens não cabe


E nem nos deuses também.”

- ”Mas, sendo assim, porque veio?...”

- ”Vi dois bois de lama além

Que lutavam, num enleio,

Entrarem pelo mar fora.

Depois, nada. Até agora.”



Sandália


Ao discípulo curioso

Que da vera natureza

De Buda quer ter o gozo

Responde o mestre que preza:


- ”Uma sandália do pé

Tira, põe-na na cabeça

E sai sem dizer até

Logo, como quem tem pressa.”



Um


Um jovem pergunta ao mestre:

- ”Tudo a um é redutível.

E o Um não há quem amestre?

Ele é mesmo irredutível?”


Responde o mestre Tchau-Tcheu:

- ”Antigamente, quando eu


Morei na zona de Tching

A pesar uns sete kin


Mandei fazer uma veste

Que assim bem a mim me preste.”



Istambul


Um homem, em Istambul,

Andando já nos sessenta,

Por amor, com véu de tule,

Casa com jovem que assenta,

Uma bonita mulher,

Dos amigos contra o crer.


Era um homem reputado,

Rico e mui bom conselheiro:

Cada assunto delicado

Ponderava o ano inteiro.

Ocorreu-lhe o que acontece

A quem de quem é se esquece:


A sua jovem esposa

Amante da idade dela

Toma e clandestina goza

Duma alcoviteira em cela.

Por mais hábil que mantida

Seja, acaba conhecida.


Una amigos do enganado

Acharam-se no dever

De tudo lhe ter contado.

O homem manda rever

Toda aquela informação,

Ouve inteira a confissão.


Mandou chamar a mulher,

Não nega o que era evidente.

Ante acusação qualquer,

Chora desoladamente,

Impetra todo o perdão,

Que as leis a morte lhe dão.


Remete-a o homem ao quarto,

A decisão a aguardar.

Sozinho fica, refarto,

Noite inteira a ponderar.

Orou muito e reflectiu,

Até que a decisão viu.


Bem cedo, saiu de casa.

Viram-no em diversos cantos

Da cidade. Tudo o atrasa.

Ao fim da manhã, sem prantos,

Manda preparar depois

Uma refeição a dois.


Quando a refeição foi pronta,

Mandou descer a mulher,

Que em frente se sente aponta.

Ela faz o que ele quer.

- ”Comamos” - diz ele então.

E, durante a refeição,


Recorda à sua mulher

Que, um dia após, convidados

Terão para receber

E que ela preste os cuidados

Requeridos a que bem

Corra tal serão também.


Mais informou que viriam

Reparar parte do tecto

Onde já brechas se abriam

E que contava, em concreto,

Com ela para acertar

Tudo e para vigiar.


Comportava-se tal como

Num outro dia qualquer,

Sem perturbação de tomo.

Admirava-se a mulher,

Inquieta desta atitude

Que qualquer castigo ilude.


Mal começam a comer,

Diz-lhe o homem: - ”Não desdobras

Teu guardanapo sequer?”

Da confusão entre as sobras,

Ela esqueceu de pegar

O seu guardanapo a par.


Ao desdobrá-lo, descobre

Lá dentro o estojo da marca

Do joalheiro que cobre

O melhor que a urbe abarca.

Abre o estojo e a jóia viu

Brilhando que ele lhe deu.


- ”É para quem?!” - perguntou

Num espanto bem profundo.

-”Para ti” - lhe retrucou

O marido, em baixo fundo.

Ela, sem compreender,

Nem toca a jóia sequer.


Por fim diz, trémula a voz:

- ”Não mereço recebê-la.”

- “Não” - diz o marido após,

Meditando na sequela.-

“Mas eu é que, de alma aberta,

Eu mereço oferecer-ta.”



Nasredim


Nasredim ia a passar

Numa rua quando alguém

Tão violento vem chocar

Com ele que quase tem

De ir ao chão recuperar

O equilíbrio dele além.


Nasredim, muito abalado,

Atrás do homem correu

E perguntou-lhe, açodado:

- ”Este encontrão que me deu

Foi por mero acaso dado

Ou brincando aconteceu?”


- ”Por acaso” - diz-lhe o homem.

- ”Ainda bem, fico aliviado.”

- ”Mas que coisas te consomem?”-

Diz o outro, por seu lado.

- ”É que, se encontrões se tomem

Por brincadeira de agrado,


Uma brincadeira assim

Era nova para mim.”



Índia


Na Índia, certo homem santo

Caminhava na cidade,

A escudela canto a canto

Recorrendo à caridade,

Quando foi doutro atacado,

Desta atitude irritado.


Violentamente agredido,

Deixa-o, tal morto, no chão.

Do convento, o aviso ouvido,

Os monges, de supetão,

Vêm logo ali buscá-lo,

Para a cela a transportá-lo.


Dispensam todo o cuidado,

Lhe arejam todo o ambiente,

Água fresca, leite coado...

Quando abre os olhos, em frente,

Um monge, a verificar

Se a mente tem no lugar


Perguntou: - ”Tu me conheces?

Saberás dizer-me a quem

Este leite que apeteces

Deverás por fim também?”

- ”Sim, sim,” - logo o enfermo anuiu -

“Àquele que me bateu.”



Trolha


Houve certa vez um trolha

Que, se um bocado de massa

Cai no nariz donde a colha,

Logo a um colega, com graça,

Pede que com a colher

Lha tire em golpe a correr.


O companheiro cumpria,

Sem olhar, sem apontar,

No ar a colher assobia

O bocadinho a arrancar.

O trolha não há mexido,

Nem sequer estremecido.


Foi um príncipe informado

Desta proeza inaudita.

Ao trolha envia um mandado

E pede-lhe que repita

Perante ele a habilidade

De que se mal persuade.


-”Lamento, mas é impossível.”

- ”Porquê?” - ”Porque já morreu

Aquele trolha impassível

Que sempre a mim mo pediu.

Hoje mais ninguém alcança

Que eu tenha tal confiança.”



Zen


Um mestre zen com mais dois

Dos discípulos caminha

Pelas veredas de sóis

Dum jardim florido e vinha,

Num insecto a reparar,

Um perfume a respirar...


Chega ao termo do carreiro,

Voltou-se para o jardim

E afirmou com ar matreiro:

- ”Sem pisar caminho, assim

Caminhei, sem pisar terra,

Só agora é que o pé me aterra.”


- ”Eu também” - disse o primeiro

Dos discípulos, facundo.

- ”Eu também não” - justiceiro,

Completa assim o segundo.



Sesta


Nasredim dormia a sesta

Num jardim perto de casa,

Costume a que bem se apresta.

A vizinha, olhos em brasa,

Acorreu alvoroçada,

Sacode-o, descontrolada:


- ”Depressa, vem! De cacetes

Entraram homens armados

Em casa. Pagam-lhes fretes,

Que golpeiam os costados,

Sem paragem nem sentido,

Do pobre do meu marido.”


- ”E então? Fracote como é,

Não vão precisar de mim...”

Nem sequer se pôs de pé,

Adormeceu logo assim.



Filhos


Perguntam a Nasredim:

- ”Um homem de oitenta anos

Pode ter filhos ao fim?

-”Na condição...” - quentes panos

Quer Nasredim aplicar.

- ”Que condição tem lugar?”


- Ӄ que ele tenha em caminho

De vinte anos um vizinho.”



Enganar


A Nasredim vem contar

Um vizinho que a mulher

Dele o andaria a enganar

Com um padeiro qualquer.

Nasredim, que jovem era,

Mal a fúria contivera.


Agarrou logo um punhal

E atrás das árvores foi

Colocar-se ante o rival,

Junto à loja que lhe dói.

Da ira fúrias lhe dão,

Bate os pés, punhal na mão.


Cai a chuva miudinha.

Ao sentir gotas na cara,

Da verdade comezinha

Se lembra que em si dispara:

- Há muito não tem mulher,

Vive só, nenhuma quer!



Frango


A mulher de Nasredim

Um belo frango assa à noite,

Lume em lenha e alecrim,

Senta-se à mesa onde a acoite

O marido bem disposto,

Com ele a comer com gosto.


- ”É bem pena” - diz então

Nasredim tal para si -

“Sermos tantos ao quinhão,

Tão numerosos aqui.”

- ”Numerosos?!” - a mulher

Não está mesmo a entender.


- ”Preferia – vè, não mango -

Ser apenas eu e o frango...”



Gato


A solteirona sozinha

Vive apenas com um gato.

Dispende horas na cozinha

Matando o tempo pacato,

Em frente à televisão

Que vê distraída então.


O gato acariciando

Às vezes junto à lareira,

Vai memórias recordando,

Devaneios de solteira.

De vez em quando murmura:

- ”Se mudasses de figura...


Se pudesses transformar-te

Já no príncipe encantado

Que espero de qualquer parte,

Há tanto tempo contado!”

Um dia, o milagre opera:

A transformação se dera.


O gato desaparece.

Diante da solteirona

Está um jovem que esclarece

Que é um príncipe vindo à tona.

Soberbo, respandecente,

Veste magnificamente.


Olha-a com sorriso amargo

E diz-lhe, como a hesitar:

- ”Que bom seria este encargo!

Mas mandaste-me capar...”



Erudito


Era um homem erudito,

De grande reputação.

Recebe um outro, esquisito,

Que o nunca larga de mão,

Serve um pretexto qualquer

Seu conselho a recolher.


- ”Posso ir a tua casa?”

- ”Podes, claro” - ele responde.

- ”Um problema que me arrasa

Tenho, vindo não sei donde.

Esta tarde posso ir?”

- ”Se quiseres, é só vir...”


O homem não se coibia

De o visitar, cada vez

Mais frequentemente iria,

Por razões de tal jaez

E por tão fúteis motivos,

Tão vazios, tão esquivos


Que um certo dia o erudito

Perdeu mesmo a paciência,

A ponto de lhe ter dito:

- ”E se tu, na minha ausência,

Em vez de vir todo o dia,

Em prol duma ninharia,


Procurar-me em minha casa,

Resolvesses, ao contrário,

Por quanto, afinal, te arrasa,

Procurar, antes, sumário,

Vir-me a casa em tua casa?

Findava-se-te o calvário...”



Bascos


Vão dois bascos num comboio.

Durante um grande bocado,

A cada o silêncio mói-o,

Frente a frente ali sentado,

Olhando de vez em quando

Paisagens que vão cruzando.


A dada altura, o primeiro

Pergunta: - ”Tu, tu donde és?”

- ”De Bilbau. E tu, parceiro?”

- ”De San Sebastian, já vês.”

- ”E que fazes de trabalho?”

- ”Sou músico quando calho.”


- ”Também eu. E que instrumento

É que tocas, afinal”

- ”Violino é quanto tento.”

- ”Também eu, é o principal.”

Fica um nada a meditar

E torna então a falar.


- ”Ao tocar na catedral,

As lágrimas vão correndo

Da imagem, da principal

Da Virgem, no altar se vendo.”

Após um silêncio curto,

Responde o outro, num surto:


- ”Quando na igreja toquei,

Cristo até desceu da cruz,

Veio até mim. Quando dei

Por ele, diz-me Jesus:

'Deixa-me, irmão, abraçar-te!

Tocas com uma tal arte


Que és mesmo muito melhor

Que o estúpido que põe

Minha mãe chorando um ror

Em Bilbao, ao que supõe!'”



Burros


Um homem que burros vende

Lá no terreiro da feira

Vê que o mesmo, ao fim, pretende

Nasredim à sua beira,

De metros a umas centenas

Já de venda a encenar cenas.


Só que os vende mais baratos

Do que o mercador consegue.

Descontente com tais tratos,

Comprar em conta persegue,

A roubar aos criadores,

Dos preços baixando os teores.


Mas burro de Nasredim

Sempre é de preços mais baixos.

Furioso, o outro, enfim,

Corta na aveia, nos sachos...

E os de Nasredim, nos tratos,

Continuam mais baratos.


Reduz paga aos empregados,

Despede uns, batota faz...

Nasredim, nos burros dados,

Nunca, porém, fica atrás.

O mercador já vender

Não consegue, é só perder.


Quando acaba a paciência,

Vai ter com o afortunado

Rival e diz-lhe, na essência:

- ”Como é que fazes, danado?

Não logro vender os meus

Burros ao preço dos teus.


Roubei os fornecedores,

Os criadores roubei

E também os mercadores

De aveia que lhes tirei...

Como é? Trata-los a murros?...”

- ”É simples: eu roubo burros.”



Turco


Um turco tenta evitar

Desesperado que caia

Um burro por um algar,

A cauda a agarrar sem baia.

O burro agitadamente

Bate os cascos que mal sente,


Sem nada a que segurar-se.

Tal homem, com toda a força,

Agarra-se até que esgarce,

Pedindo ajuda que torça

O destino malfadado,

Que os santos olhem seu fado.


Chama em auxílio os profetas,

Moisés, Abraão, Jesus,

Que importam de igreja as setas?

Aqui não há mais tabus:

- ”Acudam! Se o burro cai,

Atrás a vida me vai...”


Os músculos crispa, as mãos

Cedem, que já não aguenta,

Vai ter de largar, são vãos

Os esforços que ele tenta.

No instante em que o burro cai:

-”Santos, ai, vos abrigai,


Que eu aqui, mesmo casmurro,

Eu findei largando o burro!”



Parteira


Quando à luz dava a mulher,

Nasredim se preparava

A sair, como quem quer

Passear na terra brava,

Mas a parteira lhe disse

Que não, não, que não saísse.


- ”A ajudante está doente,

Anda,vais substituí-la.”

Nasredim quer, veemente,

Protestar, mesmo à má fila.

Fez que a parteira ordenasse,

Cogente, que ali ficasse.


Na mão pôs-lhe a vela acesa

E disse-lhe, autoritária:

- ”Tens só de mantê-la presa,

Dar-me dela a luz sumária.”

Trémulo, então, Nasredim

Viu chegar o serafim


Do primogénito filho.

Ia-se logo afastar

Mas a mulher diz, com brilho:

- ”Não, não! Terás de esperar.

Vem outro aí, acho eu...”

E Nasredim então viu


O gémeo vir do primeiro.

Rápido a vela soprou.

- ”Que fazes, ó mau parteiro?

Alumia! Cega estou...”

- ”Desgraçada! Daqui sai,

Que esta luz é que os atrai!”



António


António, pândego alegre,

Inventor de patacoadas,

Qual a melhor que se integre

Em refeições bem regadas,

Enfrenta a questão que sobre:

Que é que no homem é o mais nobre?


Um dos parceiros sustenta

Que eram olhos, outro, a fronte,

No coração outro assenta,

Outro à mente abre horizonte...

Depois cada qual explica

As razões de sua dica.


António prefere a boca,

Logo outro o ânus escolhe.

Porque este tal parte invoca

O espanto de todos colhe:

- ”Por uso, tal honra assenta

No primeiro que se senta.”


Aplaude então toda a gente,

Fica António derrotado.

Remói no caso pendente

E, após um tempo passado,

Voltam a ser convidados

A um banquete os dois visados.


Encontra António o rival

Que estava ali de conversa

Enquanto não vem sinal

Do jantar que a reunião versa.

Vira costas, ergue o fraque

E solta um sonoro traque.


O rival fica indignado,

Diz de António: - ”Grosseirão,

Rústico mal engendrado!

São tais modos teus então?!”

- ”Porque te zangas?” - responde -

“És mais nobre, afinal, onde?


Se a boca, o mais nobre em mim,

É que em mim te cumprimenta,

Respondes-me amável, sim.

Cumprimenta-te o que assenta,

Que é para ti o mais nobre

E ficas zangado?! Pobre!”



Alemanha


Na Alemanha, um mestre-escola,

Finda a guerra mundial,

Na turma a questão recola:

- ”Porque a perdem, no final?”

Um aluno, o mais reguila,

Responde, do fim da fila:


- ”Pelos generais judeus!”

- ”Mas nós nem tínhamos cá,

Nos crentes nem nos ateus,

Judeus generais, se os há!...”

- ”Pois não, nem cá se adivinham.

Eram os outros que os tinham!”



Indiana


Na tradição indiana,

Dos tempos lá pela origem,

O deus do sexo, o deus Kama,

Mãos à obra, com vertigem,

Deita pela criação,

A moldar o mundo à mão.


De sábios uns delegados

Vêm trazer-lhe oferendas,

Cantos em louvor entoados.

Porém Kama, em meio às prendas,

Desatou a rir com gosto.

Os sábios, a contragosto,


Surpresos, desiludidos,

Perguntaram-lhe a razão

Dos risos descomedidos.

- ”Os que aqui vêm e vão

Tentando agradar com ritos,

É de rir, na cara fitos.”


- ”Então e quanto aos demais?”

- ”Se alguém que for ponderado

Do mundo busca os sinais,

Da razão-saber armado,

Rio-me na cara dele.”

- ”E se é o amor que o impele?”


- ”Se um sensato ou insensato,

Malévolo ou virtuoso,

Me diz que busca num acto

De amor o mais fundo gozo,

Na cara dele me rio,

Tal com os mais, de fastio.”


- ”Mas porquê?!” - estupefactos,

Perguntam os sábios todos. -

“Por que razão a tais actos

Reages tu com tais modos?!”

E Kama, ante as questões dadas,

Desatou às gargalhadas.



Judeu


David, o judeu, dá voltas

Na cama e não adormece.

A mulher perguntas soltas

Lança a ver que é que acontece

E ele acaba a confessar:

Um dia após, de entregar


Tem uma soma ao vizinho

Jacob, pois lha deve, e não

A tem, nem nada a caminho.

A mulher ergue-se então,

Abre a janela e, sem dó,

Chama na noite: -”Jacob!”


Do outro lado da rua

Acende-se a luz então,

Abre-se a janela à Lua,

Jacob grita à negridão:

- ”Que foi, mulher? Que é que queres?”

- ”É melhor já tu saberes:


O David não vai dar

O teu dinheiro amanhã.”

Volta a janela a fechar,

Vai deitar-se até manhã

E a David há murmurado:

- ”O Jacob fica acordado.


Tu podes, pois, meu rapaz,

Tu podes dormir em paz.”



Africana


Um missionário cristão

(Conta uma história africana)

Repreendia a tradição

Dum soba de terra arcana

Por, entre crenças e haveres,

Ter sempre duas mulheres.


Um dia encontrou o soba

E logo este vem dizer:

- ”Descansa, acabou a boba,

Já só tenho uma mulher.”

- ”Ainda bem” - o missionário

Diz, palpando o seu rosário. -


“E da outra que fizeste?”

- ”Comi-a” - retruca o chefe.

- ”O quê?! Comeste-a?! Comeste?!”

- ”Comi” - torna o magarefe.

- ”Mas porquê?! (Ai que é que eu fiz!)”

- ”Porque era a mais tenra” - diz.




























































7


Ao Serão de Sábado





























Acordo


Era um homem que de acordo

Estava sempre com todos,

“Senhor-sim” em todo o bordo.

Sendo fraqueza de modos,

Um amigo diz-lhe um dia,

Contra tão tola mania:


- ”Vê lá se tomas emenda!

Devias não dizer “sim”

A evitar toda a contenda,

Nem tudo o merece assim.”

- ”Um sim eu nem sempre digo” -

Retorquiu ele ao amigo.


- ”Achas tu!” - ”Tenho a certeza!

Quando a minha mulher “não”

Afirma em algo que preza,

Também “não” eu digo então.”



Nápoles


Em Nápoles, uma dona

Insulta, insulta o marido.

Que é um cretino é o que lhe abona,

Cretino enorme e sabido,

Dos cretinos é o cretino.

- ”És tanto, que eu desatino!” -


Grita-lhe ela, a briga em curso, -

“Pois, se houvera de cretinos

Por acaso algum concurso,

Não irias cantar hinos,

Ficarias em segundo.”

- ”E porquê?” - diz-lhe, jucundo,


O sujeito a tal destino.

- ”Ora, porque és um cretino!”



Além


Morre um homem, ao Além

Chega e dá com um amigo

Que uma jovem bela tem

Do colo dele ao abrigo.

- ”Olha-me esta!” - diz e pensa: -

”Ela é tua recompensa?”


- ”Não, não! Vês mal a sequela:

Eu sou o castigo dela!”



Conversa


Nasredim tagarelava

Com vários amigos dele.

A conversa em breve dava

Num sábio que a culto apele,

Mas que era muito emproado...

Nasredim não há gostado.


- ”Porque é que dele não gostas?”

- ”Não gosto porque ele é parvo.”

-”Parvo?! Perdes as apostas.

Quanto mais por ele escarvo,

Mais vejo que sofres mínguas:

Ele fala sete línguas!”


- ”Está bem, vejo ao que apelas,

Mas é parvo em todas elas.”



Áustria


Nos tempos da guerra fria,

Uma cortina de ferro

A Europa dividia,

O comunismo no aferro,

Sempre encerrando a fronteira,

Não vá escapar algo à joeira.


Mas um jovem checo obteve

Milagrosa permissão

Para, em Viena de Áustria, breve

Ter uns dias de verão.

Logo na primeira noite

Foi a um bordel que o acoite.


Uma madame arrogante

Dá uma olhadela à roupinha

Que é socialista o bastante

Perguntando-lhe ao que vinha:

- ”Como é que estás de dinheiro?”

- ”Cinquenta coroas cheiro.”


- ”Cinquenta coroas checas?!

Dá para te masturbares

Sob a ponte para as cuecas...”

E a porta, nos alizares,

Lhe fechou logo na cara.

Minutos após, repara


Que o jovem lá retornou.

Abre-lhe a porta outra vez.

A mulher lhe perguntou:

- ”Que vais querer tu, freguês?”

Responde ele, humildemente:

- ”Vim só pagar, no presente.”



Mobilizado


Nasredim mobilizado

Foi com a mais soldadesca.

Quando à batalha hão marchado.

Um soldado, cara fresca,

Que ao lado dele seguia,

Viu que a aljava ia vazia.


- ”Não tens flechas?” - perguntou.

- ”Não.” - ”E para a guerra vais

Sem flechas quando soou

A batalha? Com que sais

A combate?” - ”É que inimigo

Dispara flechas. Consigo


Apanhá-las. Vou servir-me

Delas para lhe atirar.”

- ”E se ele as não lança, firme?”

- ”Então hás-de reparar” -

Diz Nasredim, não se aterra -

“Que em tal caso não há guerra.”



Acampamento


Nasredim, no acampamento,

À noite, numa campanha,

Ouve os comparsas atento

A gabar muita façanha:

Este tinha derrubado,

Seis cavaleiros matado,


Apesar dos ferimentos,

Tinha o outro no seu rasto

Quinze mortos, uns portentos,

Um terceiro aumenta o pasto

E assim todos por diante,

Não há quem lhes passe avante.


- ”E tu?” - perguntou alguém.

- ”Eu cá cortei uma perna

A um guerreiro mais além,

Mas era a besta superna...”

- ”Não lhe cortaste a cabeça?”

- ”Tinham cortado tal peça.”




Cairo


No Cairo, em pleno mercado,

Lado a lado estão três lojas

Que vendem por atacado

Tudo igual quando as despojas.

A um egípcio pertencia

A da esquerda, a olhar da via;


A do meio, a um judeu;

A direita, a um libanês.

O egípcio lá conseguiu

Ser primeiro certa vez,

Nem sequer comera os caldos,

Mas na montra escreve: “Saldos”.


Chega o libanês mais tarde,

Vê o cartaz, escreve à entrada,

Sem dar parte de cobarde,

Em letras de mor fachada:

É “Liquidação Total”.


O judeu apareceu,

Viu então os dois cartazes,

Pensa um pouco e lá escreveu,

Em caracteres capazes,

Sobre a porta, a dar sinal,

Isto: “Entrada Principal.”



Judias


Se encontram duas judias

Que há que tempos se não vêem,

Aos abraços de alegrias

Como há muito já não têm.

- ”Então, Sara, novidades?”

- ”Ai, Raquel as necedades


Que tenho por te contar!

Para já, duas notícias

Terei, para começar,

Boa e má, mas sem malícias.”

- ”Qual a má?” - diz a Raquel,

Arrepiada logo a pele.


- ”Tu lembras-te do meu filho,

Do Samuel?” - ”Que idade tem?”

- ”Trinta e dois. E vê o sarilho:

Homossexual é também.”

- ”Oh desgraça das desgraças!

Em teu lugar como passas?


Mas diz-me lá então, ó Sara,

Tens uma notícia boa?

Na boa melhor repara,

Senão ficamos à toa.

Dela posso saber eu?”

- ”O namorado é judeu.”



Anos


A judia oferta ao filho

Que hoje faz dezassete anos

Duas gravatas de brilho,

Rubros e amarelos panos.

Logo o filho experimenta

A vermelha que o mais tenta.


Faz o nó, vê-se ao espelho

E a mãe logo, na sequela,

Vendo-o todo de vermelho:

- ”Que tens tu contra a amarela?”



Mães


Em cena, três mães judias

Falam de seus filhos ternos.

- ”Pois o meu, todos os dias

Me retira a meus infernos.

Busca-me cada semana,

Dá presentes, não se ufana...”


- ”O meu” - a segunda diz -

“Duas vezes por semana

Me visita mui feliz,

De pele que não engana

Me ofertou um bom casaco,

Todos os dias um naco


De belas flores me envia,

É mesmo um amor de filho.”

- ”Ora, o que é isso, hoje em dia?

O meu atou um cadilho:

Vai por semana três vezes

A um amigo com reveses


A quem pagará sem fim,

Só para falar de mim...”



Moisés


Um mestre-escola pergunta:

-”Quem é Moisés?” E um aluno

Logo a resposta lhe junta:

- ”Era o filho que coaduno

Com uma egípcia princesa,

É dela o filho que preza.”


- ”Não é, não” - diz o docente. -

“A mãe dele era judia.

Encontrou, benevolente,

A princcesa, certo dia,

O bebé numa cestinha,

Na correnteza maninha.”


E o outro, erguendo o nariz:

- ”Isso é o que a princesa diz...”



Casada


Uma judia casada

Há cerca dum ano ou mais

Vivia desesperada

Por ter atenções reais

Do esposo que só na mãe

Pensava que perto tem.


A mãe era a referência

E a esposa, apesar do esforço

Por distrair com veemência,

Vestir bem e sem remorso,

Cozinhar bem o que ganha,

Sente-se sempre uma estranha.


Por sua mãe vive o marido,

Vive para a mãe também.

A jovem não vê sentido,

Confessa a amigas que tem.

- ”Vê se tentas seduzi-lo,

Arma nossa, em grande estilo.


Calças umas meias pretas,

Bem como um preto espartilho,

Combinação, curvas, rectas,

Tudo de negro e com brilho,

A luzir e, então, deitada,

Aguardas dele a chegada.”


A esposa segue os conselhos

Das amigas, se prepara.

Do marido eis os artelhos,

Abre a porta, olha e dispara:

- ”De preto?! Coisa malsã

Aconteceu à mamã!”



Cincinnati


De Cincinnati a judia

Velha dirigiu-se um dia


De viagens a uma agência

Por um bilhete de urgência


Para Katmandu, Nepal,

Seu destino principal.


Quer da agência o director

Dissuadi-la, custa um ror,


Falou-lhe até da distância,

Das deslocações, com ânsia,


Mesmo do preço elevado

E tudo sem resultado.


Foi-se. Em Katmandu apanha

Transporte que a custo ganha


Um mosteiro lá bem alto,

Da montanha num ressalto.


E, no fim, ainda teve

A caminhada na neve.


Um guru muito famoso

Era do mosteiro o gozo,


Até previa o futuro,

Em milagres tinha apuro,


Palavras de compaixão

Que a vida iluminarão.


A judia americana

Quer-lhe a presença com gana.


Espera pacientemente

Na mole imensa de gente.


Pauzinhos de incenso queimam

Os que numa audição teimam.


Quando ao fim alguém a leva

Por um corredor de treva


Onde os monges, sem engano,

Salmodeiam tibetano,


Dizem-lhe que só uma frase

Lhe pode falar, de base.


Ela aceitou, descuidada,

Fique a turba descansada.


Levaram-na então diante

Do guru, estátua infante.


E, de olhos semi-cerrados,

Tira-se ela de cuidados:


-”Basta, Salomão! Agora

Vamo-nos daqui embora!”



Cegonha


A cegonha é uma ave impura,

Numa tradição judaica.

Mas, hassida, o afecto a cura,

Ama os seus, nada prosaica.

- ”Como é que se explica” - um dia

Pergunta uma mãe judia -


“Que se diga que a cegonha

Ama os seus e, no entanto, ela

Se conte dentre a vergonha

De aves impuras na tela?”

Diz o rabi, mãos aos céus:

- ”Porque ela só ama os seus.”



Herança


Um judeu lá da Polónia

Recebe de herança casa

Rodeada, com cerimónia,

Dum prado com que bem casa.

Para imitar os vizinhos,

Mesmo sem ver os caminhos


Nada sendo camponês,

Começa comprando um toiro

Que no prado põe: é a rês.

À feira, com algum oiro,

De Minsk foi comprar vaca

Que no prado pôs de estaca.


O toiro, mal viu, se atira

À vaca, mas ela o evita

E foge, se o tem na mira.

Vezes sem conta, igual fita,

Ele sempre a persegui-la

Sem a apanhar à má fila.


O homem fala ao rabino,

Desistindo de juntá-los,

Conta-lhe o caso mofino:

- ”Mal das patas ouve estalos,

Se ele investe da direita,

Logo a vaca à esquerda é atreita,


Mas se é da esquerda que vem,

Pela direita se escapa.”

O rabino então se atém

Longo tempo a pôr a capa

E, por fim, sereno, diz:

- ”Compraste a vaca, infeliz,


Em Minsk onde tens o tino?”

- ”Como vieste a saber?!”

E responde-lhe o rabino:

- ”De Minsk é a minha mulher.”



Israel


De Israel Chefe de Estado,

Ben Gurion pelo Mar morto

Caminhava, encabulado,

Quando uma garrafa, absorto,

Pousada avista na areia,

Dum velho mistério cheia.


Nela pegou, abre-a e jorra

De lá um fumo que se eleva

Para o céu, forma uma gorra,

Depois um génio de treva,

Enquanto em voz de trovão

A bem Gurion diz então:


- ”Livras-me dum cativeiro.

Formula, pois, um desejo,

Concedo-to por inteiro..”

- ”Só não vejo algum ensejo

De haver a paz verdadeira

Com povos à nossa beira.”


Pensa o génio no problema

Que lhe era posto e, por fim:

- ”Perdoa, mas esse tema

Excede quanto haja em mim.

Formula um outro desejo,

Que eu concedo-to, prevejo.”


- ”Faz com que a minha mulher

O prazer da felação

Me venha à noite a fazer,

Quando eu chegar, ao serão.”

O génio fica a pensar

E acabou por perguntar:


- ”O teu desejo, afinal,

O primeiro, fora qual?”



Cão


No cinema um homem fica

Sentado ao lado dum cão.

Do outro lado pontifica

Deste o dono, na sessão.

O cão segue o filme inteiro

Com interesse cimeiro,


Ele ri quando é de rir,

Chora quando é comovente.

No fim é vê-lo a aplaudir

Com duas patas da frente.

O homem se inclina então

Dizendo ao dono do cão:


- ”O seu cão é formidável!

Como ele o filme seguiu

E apreciou! Admirável!”

- ”Pois, o espanto” - o dono anuiu -

“É que do livro, de entrada,

Ele não gostava nada.”



Maesh Das


Traça pelo chão, a giz,

Uma linha um cortesão.

A Maesh Das lhe diz

Que encurte essa linha então

Sem a tocar e apagar.

Limita-se ele a traçar


Uma linha mais comprida

Junto à primeira, em seguida.


- Se em tal tempo Einstein vivera

Que prazer isto lhe dera!



País de Gales


Nos finais da Idade Média

Houve no País de Gales,

Na selva de caça nédia,

Uma fonte em fundos vales

Tal que o que a mira mudara

De imediato ali de cara.


Às vezes nem davam conta,

Seguiam pela floresta

Tendo a sede morto à tonta,

Só que então já ninguém resta

Que os possa reconhecer.

Vinham após então ver


Que tinham perdido o aspecto:

A fonte havia roubado

Olhos, orelhas, o recto

Cabelo, o nariz talhado

E por outros os trocara

Agora na nova cara.


O fenómeno durou

Por cerca de dois decénios,

Muito tempo perpassou

Até notar-se-lhe os génios,

Tanto mais que inofensivas

Há por lá nascentes vivas.


Quando foi assinalada,

Um número muito grande

De gente desengraçada

Lá foi, à espera que mande

Trocar-lhe pela beleza

A feiura que despreza.


Tanto pode acontecer

Como acontece o contrário:

Um homem mirou-se, a ver,

E o que viu foi um sudário,

A cara virou caveira,

Os dentes alvos à beira.


O dono de tal floresta

Mandou chamar os doutores,

Teólogos, quem mais presta...

Dissertam, graves, penhores

Compram com mil orações

E vão-se sem soluções.


Nenhum deles se debruça

Sobre tal água que pode

Mostrar o inferno que embuça.

A aparência lhes acode

Como bem satisfatória,

Doutra não querem a glória.


Há curas miraculosas

Mas crassos também fracassos.

Recomendam-se-lhe as glosas

Ou proíbem-se os espaços?

A fonte detém caprichos

Conforme o humor de seus nichos.


Padres fazem exorcismos,

Invocam lugares santos...

Tudo em vão, ante os abismos

Donde corre a fonte em prantos.

Vem um dia um saltimbanco,

Veste andrajos, mas de branco,


Vende poções milagrosas,

Poemas recita escuros,

Anedotas escabrosas,

A saltitar pelos muros

E que ninguém conhecia,

Nem sequer donde viria.


Antes de se debruçar

Por sobre as águas da fonte,

Lembrou-se de afivelar

Uma máscara que conte

Com nariz, lábios espessos,

Dentes pretos, podres gessos...


Debruçou-se sem temor

Sobre as águas, levantou-se:

Tem a máscara o palor

Dum Apolo, embelezou-se.

Quanto à cara do bufão,

Por baixo, nem beliscão.


O homem jogou a caraça

Ao regato que a levou,

Vai-se embora, achando graça,

À gargalhada abalou.

Perdeu a fonte o poder,

Já ninguém mais a vai ver.



Tuaregues


As saarianas lendas,

Entre os tuaregues mormente,

Narram que, por entre as tendas,

Apareceu, de repente,

Um estrangeiro à ventura

Que, pela areia insegura,


Quer ir só, com um camelo,

Mais algumas provisões,

Um odre de água com selo,

Mapa, bússula, ilusões.

Seguro de seu caminho,

Dos poços quer-se adivinho.


Qualquer conselho prudente

Despreza e, certa manhã,

Parte à sorte, para a frente.

No princípio, com afã,

Assaz tudo corre bem,

Solidão nunca o detém.


Porém, ao terceiro dia,

Começa a preocupar-se,

Duna a rocha sucedia

Sem que horizonte o disfarce.

Não parece progredir:

“Ando às voltas sem sair?”


Ao quarto dia não tinha

Víveres e no cantil

O fundo já se adivinha

E a ração nem vale um til.

No quinto dia, as imagens

São vertigens e miragens.


Sentiu então, de repente,

Atrás a respiração

De alguém posto, ali presente,

Do camelo na armação.

Voltou-se, sem crer na intriga,

E ali estava a rapariga


Atrás dele bem sentada,

Sorridente, mui morena,

Véstia de brancura armada,

Pés descalços, que lhe acena.

- ”Quem és tu?” - pergunta ele.

- ”Que importa?” - a questão repele. -


“Não te quero incomodar.”

- ”Nada. Viajas sozinha?”

- ”Sempre só. Pode levar

Teu camelo os dois em linha.

Eu sei disto e sou leveira.”

- ”Teu nome?” - já se ele abeira.


- ”Nunca costumo dizer

O meu nome, vai andando.

Daqui a pouco vais ver

Quem eu sou, adivinhando.”

A marcha o homem prossegue

Que mais deserto lhe agregue.


O camelo parecia

Pouco sensível à carga

Suplementar que trazia.

A passada desembarga

Parando de vez em quando

Comendo ervas que há secando.


Ao homem tolda-se a vista,

Tosse, cospe, procurava

As referências da lista

Em redor. Nada acertava.

Admite, em palavras meias,

Que se perdeu nas areias.


- ”Tu bem vês que estou perdido

E cantas despreocupada.

Não tens alforge provido?”

- ”Não, não preciso de nada.”

- ”Diz-me quem és, por favor,

Que eu nada tenho. É um horror!”


- ”Agora posso dizer.

Tu não me reconheceste?

Sou a sede. De beber

Se um viajante não se ateste,

Quando já não tiver nada,

Eu faço a minha chegada,


Dou-lhe minha companhia,

Tal é sempre o meu papel.”

- ”Mas és viva?! Quem diria?!”

- ”Aquele a quem seca a pele

Poderá dizer que sim:

Sou dos vivos, mesmo assim...”


- ”Podes viver sem beber?”

- ”A sede não bebe, dá

De beber ânsia a quenquer,

Constante lembrando-a está.

Porque havia de beber?

Também a fome não come,

Nem frio fogo há que tome.”


Garganta de areia e sal

Já tolhia lentamente

O viajante terminal,

Já compreensão nem sente...

...Vê só a moça se escapando

E o camelo tasquinhando.



Guatemala


Diz a antiga crença maia

De aldeias da Guatemala

Que, à morte, o corpo desmaia,

Desintegra-se na vala,

A nossa sombra, porém,

Continua terra além.


E, sobretudo de noite,

Vagueia meia perdida,

Meia incônscia do que a acoite,

De ameaças perseguida:

De sombras um caçador

Pode vir delas dispor.


Tais caçadores ferozes

Às sombras recalcitrantes

Encurralam-nas, atrozes,

Contra a vontade que hão dantes

Levam a presa forçada

Lá para a terra do nada.


Mas neste mundo há um lugar,

Da Guatemala num monte,

Onde as sombras encontrar

Refúgio podem na fonte:

É gruta profunda, escura,

A quilómetros de altura.


Quando qualquer corpo morre

Em qualquer lugar da terra,

Separa-se a sombra e corre,

Buscando a gruta na serra.

Tal qual ave migratória,

Segue indícios de memória.


Ao longo deste caminho

Que pode demorar anos,

O caçador adivinho

Usa armadilhas e arcanos

E muitas vezes consegue:

Captura então quem persegue.


Umas chegam a bom porto,

Juntam-se às que se escaparam.

Montanhês que, por desporto,

Trepe à gruta que visaram

Ouve um roçagar nos pegos,

Como milhões de morcegos.


Sombra às sombras se amontoa

Naquele lugar do mundo.

Há tempo ou tudo anda à toa?

É um eterno antro infecundo,

Purgatório de verdade,

A pausa da eternidade.


Na mais vulgar armadilha,

O caçador escurece

O Sol que pelo céu brilha

Antes que a noite aparece,

Leva as sombras a pensar

Que podem sair, passear...


Uma vez um caçador,

Entre os ferozes feroz,

Duma africana o fulgor

Cobiçou de amor atroz.

Logrou, com um sortilégio,

Tirá-la ao refúgio régio


Quando o sol alto escandia.

Ela aproveita a paragem

Para se lavar na ria.

Fica nua nesta viagem.

O caçador, deslumbrado,

A fera em si põe de lado.


As regras viola do Além,

Tratando então de a salvar.

Roupas berrantes convêm,

Chega-lhe o rosto a velar,

Levou-a, no tempo certo,

Para um canto do deserto.


É mulher toda velada

No Iémen, ruas de Sana,

Sombra como as mais na estrada

Que o véu cobre, não engana.

Convence a sombra ao raptor

De a qualquer perseguidor


Escaparem juntamente.

O mar então atravessam

Da caçada sempre à frente,

Escapam aos que aparecem,

Na corrida sem escala

Alcançam a Guatemala.


Chegados perto da gruta,

Está o caçador cansado,

A sombra já não disputa,

Quer um canto sossegado:

Para a gruta ela fugiu

E ele atrás logo a seguiu.



Roménia


Em Bukovice, Roménia,

Contam muitos viajantes,

Com atestado e com vénia,

Que cruzaram, hesitantes,

Uma aldeia sem fim que há

Em terras de algures lá.


São casas tradicionais

Dum lado e doutro da estrada,

Com uns motivos florais

Pela madeira pintada.

Por trás há um quintal plantado,

Fruteiras, tudo arroteado.


De carruagem ou a pé,

De automóvel hoje em dia,

Na aldeia tomamos pé

Como em qualquer se faria.

Avistam-se aqui, além,

Habitantes, sempre alguém.


Passados alguns minutos,

O viajante repara

Que a aldeia, além dos produtos,

Tem uma lonjura rara,

Alonga-se sem parar,

Parece nunca acabar.


Para cruzá-la há turistas

Que demoram mais dum mês.

Mesmo os automobilistas,

Quando ao fim chegam de vez,

Reparam que a luz do dia

Foi-se e a noite se anuncia.


Muitos param, admirados,

A pedir informações.

Porém, de todos os lados,

Sorriem a tais tenções

E, com simpáticos gestos,

Não falam de seus aprestos.


Muitos buscam encontrar

Nome e localização

De aldeia tão singular

Nos mapas da região.

Ninguém identificá-la

Logrou em nenhuma escala.


Há testemunhos aos centos

De que, num ponto da aldeia,

De “déjà vu” sentimentos

Fica-nos a mente cheia.

Os viajantes reconhecem

Casas que lhes aparecem,


Tal se a aldeia recomeça

Várias vezes ou sucede

Uma a outra, peça a peça,

Sempre igual à que a antecede.

Fotografias tiradas

Saem sempre desfocadas.


Mais estranho é que nalgumas

Só vejamos terra arada,

Árvores, casas nenhumas...

Muita comissão nomeada

Foi para ver do mistério:

Nenhuma o resolve a sério.


Os últimos escolheram

Fugir de vez da Europa.

Um não fez o que fizeram

E a estrela sob esta copa

É que acabou internado

Numa clínica, acabado.


Por fim, muitos, concordantes,

Dizem que a aldeia sem fim

Não se encontra como dantes

No mesmo lugar assim,

Que, ao sabor das estações,

Se desloca entre nações:


Um a viu em Bukovice,

Outro, porém, na Moldávia,

Na Transilvânia alguém disse

Que a viu dum cesto de gávea

E um, enfim, até veria

Tal aldeia em meio à Hungria...



Parvati


A jovem adoradora

De Parvati, par de Shiva,

Na Índia proposta fora

Para o serviço da diva

Num dos templos consagrados.

Dos deuses no panteão dados


Punha Parvati acima,

O tempo dava à oração,

Cuida de altares, se arrima

Às estátuas desde o chão,

A colher e arranjar flores,

Varrendo o templo de odores,


Distribui pão aos mendigos,

Observa todo o ritual.

Nas festas, sai dos abrigos

Dos bailados ao sinal,

Junta-se às mais bailarinas,

É Ambalika em nome e sinas.


Ao fazer vinte e três anos,

Conheceu lá no recinto

Um peregrino. Fez danos

Seu olhar onde pressinto

Das profundezas o brilho:

Foi da paixão o rastilho.


Ambalika bem lutou

Contra a emoção que sentia

Mas depressa adivinhou

Que o rapaz a compartia.

O jovem persuadiu

E Ambalika consentiu.


Antes da noite da fuga

Dirige à deusa a oração,

Que entenda porque madruga,

Perdoe-lhe o coração.

Jeito arruma clandestino,

Vai ter com o peregrino.


Viveram juntos seis anos,

Têm dois filhos e a usura

Da vida provocou danos,

Vai matando com secura.

A atracção já se esboroa

E ele vai-se embora à toa.


Sozinha com os dois filhos

Ambalika enfrenta a vida,

Do campo lavra os sarilhos,

Perde um filho de seguida,

Outro homem que a conquistou

Meses após a largou,


Roubou-lhe o pouco dinheiro

Que ela lograra poupar...

A vida inscreveu-lhe inteiro

O inferno que tem vulgar.

Decidiu voltar então

Ao templo deixado em vão.


Quando ao templo após chegou,

Já tantos anos mais tarde,

Algo estranho constatou:

Todos, sem qualquer alarde,

Brâmanes e sacerdotes

A acolhem com os seus dotes,


Como se a tivessdem visto

Somente umas horas antes.

Saúdam-na, tal previsto,

Chamam-lhe o nome, constantes.

Ausência ninguém a sente,

Tudo é como antigamente.


Ambalika não pergunta

Mas a deusa interrogou.

Parvati ao sonho junta

Uma apsará que falou:

-”Parvati bem conhecia

Que voltarias um dia.


Assumiu tua aparência

E cumpriu tuas funções.

Varreu, perfumou de essência,

Engrinaldou os balcões,

Dançou, acolheu com hinos

E orientou peregrinos.


Ninguém da substituição

Se pudera aperceber.

Retomas tua função,

Ela, a sua e a correr

Tudo, enfim, ficará bem.”

Ambalika acorda e vem


O milagre agradecer

Em segredo realizado.

Retoma o que haja a fazer.

Porém, ao varrer um lado

Duma das salas a cargo

Notou que um tapete largo,


Num recanto mais escuro,

Parece inchado, uma bossa

Grande ali subia em muro.

Levanta o tapete a moça

E vê que há muito que alguém,

Por preguiça ou por desdém,


Se limita a empurrar lixo

Por baixo do tal tapete

Que ali só já cria bicho,

Em lugar, como compete,

De com a pá o apanhar

E para fora o levar.


De cólera então fremente,

Pousa Ambalika a vassoira,

Despe a bata competente,

Sem olhar quem a desdoira

Abandonou, com a ira,

De vez templos de mentira.



África


Havia duas aldeias

Frente a frente, junto a um rio,

Em África, como ameias

Que se olham em desafio.

Os remoinhos constantes

Impedem os habitantes


De fazer a travessia.

Crocodilos e serpentes

Venenosas de vigia,

Maus espíritos presentes

Aumentam o isolamento

De quem ali toma assento.


Quando algum audacioso

Tenta dum ao outro lado

Ir do rio tenebroso,

A verdade é que voltado

Nem sequer houve jamais

Nenhum de partida ao cais.


A aldeia de Ogadaú

Olha ao longe Uadagô,

Aceitam, pois, o tabu,

Do terreiro vêem pó,

Fumo a subir das cubatas,

Do tal rio além das pratas.


Uma ou outra silhueta,

Barcos ao longo do rio,

Luzeiros na noite preta

E das relações o fio

Ficava, ao fim, por aí.

De Ogadaú, Bakari


De muito novo sentiu

O fascínio duma aldeia

Que nunca alguém atingiu,

Horizonte a braça e meia,

E deu consigo a sonhar

I-la um dia visitar.


Aos dezoito anos chegado,

Decidiu que é a sua vez

De desafiar o fado,

Cortar o rio através.

Muito cuidadosamente

Prepara o que tem em mente.


De noite cava a piroga,

Leva uma pagaia a mais,

Uma catana que advoga

Contra ataques eventuais,

Bem como alguns amuletos

Contra espíritos secretos.


Treinou o melhor que pôde

Na margem onde habitava,

Aos remoinhos acode

Onde o perigo rondava,

Adquire vera destreza

Nestes domínios que preza.


Ao sentir-se preparado,

De manhã, rompendo o dia,

Saiu do lar, açodado,

Lança-se ao que o atraía

E, para sua surpresa,

Foi a travessia ilesa.


Os rápidos e correntes

São menos assustadores

Que quando os vêem as gentes

Da margem sonhando horrores.

Houve umas sacudidelas

Que dominou sem sequelas,


Desembarca do outro lado,

Puxa a piroga na areia,

Caminha para o povoado:

É-lhe familiar a aldeia.

A mesma vegetação,

Iguais cubatas no chão,


Iguais árvores e terra,

As mesmas redes de pesca

Ao sol, sem sinais de guerra,

- É uma magia grotesca!

Os aldeões a sair

Começam, ao campo a ir,


Enquanto a mulher sacode

A esteira à porta de casa.

Bakari vê que então pode

Conhecer do lar a brasa:

Tais habitantes maninhos

São todos os seus vizinhos.


Um cão de pata partida

Que havia na sua aldeia

Ali vive a mesma vida.

Virou-se, deu volta e meia:

Será que ele se enganou

E ao mesmo lado voltou?


Um habitante da aldeia

Cumprimentou-o ao passar

Com seu nome em boca cheia.

Conhece-o bem, era o par

Mais antigo do pai dele.

Arrepia-se-lhe a pele.


Cada vez mais espantado,

Sente-se mesmo à vontade

Na ruela, em todo o lado.

É a vez primeira, é verdade,

Mas Bakari, de repente,

Entra em casa de sua gente,


Na que tinha abandonado

Umas poucas horas antes.

Hesitou em ter entrado,

Que a mãe viu, mãos bem constantes,

A varrer o chão em frente

E que o olhou, sorridente.


Perguntou-lhe donde vinha.

Bakari, num gesto vago,

Olha o rio da adivinha.

Para beber de água um trago

Entra na cubata então.

Dá com seu bebé chorão,


Sua esposa a dar-lhe o peito.

Não parece surpreendida

De o homem ver deste jeito.

Foi quem lhe trouxe a bebida.

O copo de água sorvido,

Ele adormece aturdido.


Bakari fica na aldeia

Que é de nome Uadagô,

Retoma o labor, semeia

Campos de que sabe o pó.

Reencontrou o seu cão,

As alfaias, dele o chão.


Está mais velho, há momentos

Em que pára, imóvel fica,

Os olhos presa dos ventos

Da aldeia que o mistifica.

Voltar lá por vezes pensa...

Mas o risco o rio adensa.



Sudão


No Sudão, as caravanas

Perdidas aparecer

Vêem, dentre as secas canas,

Quando esgotamento houver,

Uma enorme fortaleza,

A seco, em pedra e beleza.


Basta então bater à porta

Para abrir-se hospitaleira

E a entrar como que exorta.

Dentro, de alguma maneira,

Os viajantes fatigados

São logo retemperados,


Há uma fonte de água fresca,

Fruta, carne de carneiro,

Leite, chá, do rio pesca,

Tâmaras, figos – viveiro

De coxins, tapetes, loiças

Onde noite além retoiças.


Um único pormenor

Preocupa aos que o elegem

Para fugir do calor

Para os repousos que o regem:

Faltam quaisquer animais

E, de humanos, nem sinais.


Não se encontra castelão

Nem criado de servir,

Nem mulher vinda ao serão,

Nem criança a brincar, rir...

Nem sequer um cão se apanha,

Nem um lagarto ou aranha.


O local parece ter

Sido por um batalhão

Preparado para ser

De fantasmas um desvão:

Nem sombra, sopro ou ruído,

Nem de música um gemido.


E, quando os caravaneiros

Acordam de madrugada,

Estão no deserto inteiros,

De arbustos a cama armada.

De tapetes, vitualhas,

Nem sinal, nem de muralhas...


Contudo, tempos mais tarde,

Outros grupos noutros cantos

Contam com algum alarde

Ter vivido, em meio a espantos,

No desespero da viagem,

Aquela mesma miragem.



Conto


Ao avô que muito preza

A criança diz, cordata:

- ”Porque é que do conto a reza

Em 'era uma vez' sempre ata?”

- ”Para eu ter a certeza

De não me enganar na data.”



Majun


Majun, o louco de amor,

Dum dervixe é questionado:

- ”Que idade tens tu, senhor?”

- ”Mais de mil hei já contado...”

- ”Que dizes?! Estás mais louco

Do que antes quando o eras pouco?”


- ”Estes mil anos não foram

Mais do que um sopro de nada.

Mas nesse sopro é que moram

Traços do rosto da amada:

Vejo Leila que perpassa...

Podes entender tal graça?”



Idade Média


Na Idade Média europeia

Partiu um monge à procura,

A manhã nem ia meia,

De plantas que davam cura,

Na floresta do lugar.

De repente ouve cantar


Um pássaro encantador

De canto maravilhoso.

Um momento, com fervor,

Ouve, arrebatado em gozo,

Depois retorna ao convento.

Vê que é o mesmo monumento,


Mas ele não reconhece

O irmão porteiro que atende.

O arvoredo em redor tece

Uma altura que surpreende

E, por fim, a sua cela

Outro monge habita nela.


Pretende, inquieto, ir falar

Com o superior da casa:

Era um outro, singular,

Não conhece a fronte rasa,

Nem o outro mostra saber

Quem é que ele venha a ser.


Compreendeu então que o canto

O teria enfeitiçado:

No feitiço desse encanto

Cem anos terão passado!

Volta então para a floresta

- Mas canto nenhum já resta.



Velho


Retorna um velho duma longa viagem,

Sai da estação e a pé regressa à aldeia,

Atravessando da floresta a aragem.

Quando julgava andar sozinho, ameia


Um outro homem e da mesma idade,

Caminha ao lado e mui silente em frente.

Cumprimentaram, num sorrir que agrade,

Não se conhecem, conclui ele, ausente.


Finda uma hora de caminho, o velho,

Cansado, viu que o outro, enfim, havia

Ficado jovem, a mexer o artelho

Bem mais depressa do que o que antes ia.


Toma de avanço metros mais de dez,

Volta-se após para esperar por ele.

Tal não o turba: -”Eu me enganei talvez...”

Ambos avançam, a apressar impele


O tempo curto. Só que o velho viu

Que o companheiro está na meia idade,

Caminha agora sem qualquer desvio

Bem mais do que ele, sem que nada o enfade.


Como enganar-se tanto já podia

Na idade dele? Não entende, não.

Passa uma hora e o velho então veria

Algo de estranho a lhe ocorrer à mão:


Detém-se o outro um pouco além, se volta,

Distintamente ele deveio jovem,

Além dos vinte pouco mais e, à solta,

Os gestos dele juvenis se movem.


Não se tratava de nenhum error,

Nenhuma dúvida já tem de tal.

- ”Quem és?” - pergunta com algum temor. -

“Entre nós dois que a correr anda mal?”


Responde o outro só sorrindo e avança.

No mais cerrado da floresta estavam,

O companheiro às vezes não alcança,

Reaparece longe donde andavam.


Seriam vários? Perturbar-me querem?

Mas porque haviam de querer? “Que fiz?” -

Tenta perguntar, nada mais lhe auferem

E o par caminha tal qual um petiz,


Adolescente, quando muito, agora.

- ”Não corras tanto, que eu estou cansado,

Por mim espera, que isto a mim demora.”

E, paciente, o outro espera ao lado,


Durante um tempo irão no mesmo passo,

Depois se afasta e a aguardá-lo torna,

Senta-se às vezes, após mais espaço.

- ”Mas que me queres? Andas nisto à jorna?


Trazes amigos confundindo um velho?”

E o companheiro só um sorriso tem.

É uma criança de tomar conselho,

De dez anos, cinco, já nem anda bem.


É que aos três anos lentamente vai,

É-lhe difícil em floresta andar,

O velho guia, ajuda quando cai,

Pega-lhe ao colo quando urgir saltar.


O mais estranho é que tudo é normal,

Sem saber como, recupera forças.

Mas de repente, sem qualquer sinal,

Quando entre os troncos passeavam corças,


Desaparece o bebé dentre o mato.

O velho o chama, o procurou em vão.

Desamparado, retomou, pacato,

A caminhada da floresta em chão.


Pouco depois outro barulho ouviu,

Como de passos, ali perto a andar.

Vira a cabeça e uma jovem viu,

Grávida andando de si quase a par.


Com uma mão o ventre inchado apoia

E num cajado apoia os lentos passos.

- ”Como te chamas?” - antevê tramóia

O velho, olhando-a com seus olhos lassos.


Por mais perguntas que fizer, a moça

Não lhe responde, fica a olhar, sorri.

Ao caminhar, então do ventre a mossa

Diminui lenta e o passo é leve ali.


- ”Que me acontece?” - o velho a si pergunta.

Um pouco após, de gravidez cintura

Desaparece e o velho as forças junta,

Revitaliza, perdeu anos, jura.


Caminha atrás, começa a achá-la bela,

Um sentimento há muito já perdido.

- ”Vamos falar” - diz - “um bocado” - a ela.

- ”Quase a chegar. Há que tomar sentido.” -


Até que enfim que já lhe ouvira a fala.

Vai-a seguindo, já não via mais

Que seu vestido de amarelo em gala.

A selva acaba, um rio dá sinais,


Macacos saltam como as aves cantam.

A rapariga pára junto às águas,

Solta o vestido, juvenis encantam

As curvas suas de esquecerem mágoas.


O homem cuida que jamais tal vira,

Um sangue novo se agita nas veias,

Do corpo a idade já de si saíra,

Todo o cansaço, da fadiga as teias...


Quis perguntar à rapariga ali,

Raio de sol em frente ao rio manso,

Mas ela tempo não tem mais em si

E diz-lhe então, com ancestral descanso:


- ”Não foi aqui que combinámos nós

Vir encontrar-nos em segredo, amor?”

Nesse momento reconhece-a. Após,

Braços abertos, tudo é só fulgor.



Mesopotâmia


Foi no século XIV,

Em plena Mesopotâmia,

Que mui alto às turbas orce

O custo de certa infâmia.

Hoje um estranho acrimónia

Daquilo olha em cerimónia.


Numa praça, seminus,

Homens o corpo fustigam,

Látegos de coiros crus

Com ferros que se lhes ligam.

Jorra o sangue e cai no chão.

Lúgubres, em cantochão,


Em redor batem no peito

Assistentes em lamentos.

Choram crianças em preito,

Da desolação aos ventos,

Tal se de ocorrer findara

O que em dor os arrasara.


O estranho pergunta a um velho

Que é que se passa, afinal.

- ”Dobramos nosso joelho

Ao passamento final

Do nosso emir Hossein

Que à vida o rumo define.”


- ”Quem foi?” - ”Não sabes?!” - ”Eu não...”

- Ӄ o fundador do xiismo,

O modelo da nação,

Quem nos dá lições de abismo.

Mas foi traído e deixado,

Em batalha se há finado.”


- ”E quando é que ele morreu?”

- ”Terá sido há pouco mais

De quatro, ao que contei eu,

Quatro séculos atrás.”

-”Só agora” - diz o outro a rir -

É que o estão a carpir?!”



Salvatore


Aos vinte anos, Salvatore

Deixa a povoação lenta

Onde nada é de supor

Que aconteça e implementa,

Negociando flor de dália,

Nova vida pela Austrália.


Fica lá quatro decénios.

Depois, com a vida feita,

Arrumados mil convénios,

Volta à terra, anciã colheita,

A reviver trigo e joio,

Num ronceirão dum comboio.


Ao pôr o pé na estação,

Questiona se um velho amigo

O irá conhecer ou não,

Se alguém quer relato antigo

De aventuras solitárias

Por longínquas terras várias...


Ao se apear, logo vê

Um homenzinho curvado,

Funcionário. Nele lê

Que é Giovanni, o do lado

Colega em turma da escola.

Acena e ali se lhe cola,


Apontando, a mão tremente,

Para a sua própria cara.

Olha-o Giovanni, indulgente,

E, sem surpresa, declara:

- ”Olá, Salvatore! Agora

Por aqui? Quê, vais-te embora?!”



Iraniano


O espanhol e o iraniano

Conversam da relação

Com o tempo: traz-nos dano

De horários com precisão,

De acção com imperativo,

Por vezes sem ter motivo.


- ”De 'amanhã' a noção temos

Que cómoda nos é bem.

Entre vós algo veremos

Semelhante a tal também?” -

Comentava o espanhol,

Já de mente muito mole.


- ”Temos” - diz o iraniano -

“Temos 'oxalá', Deus queira.

Mas creio que, a evitar dano,

Vendo-a por minha joeira,

No que respeita a premência,

Não tem nunca a vossa urgência.”



Émulo


Pergunta o émulo ao mestre

Que é que afinal é verdade.

Para que nela se adestre

Diz o mestre: - ”Ah, mocidade!

Traz-me de água uma bacia,

Mete a cabeça em tal pia.”


Feito isto, com toda a força

Segura-lha dentro e funda.

Enquanto ele se contorça,

Mantém-no, que o ar abunda.

Se rareiam bolhas de ar,

Deixa o mestre de empurrar.


Quando, quase sufocado,

Retira a cabeça de água,

Diz-lhe o mestre, ponderado:

- ”A verdade, é certo, trago-a.

Porém, só se a desejares

Como quando, ao sufocares,


Desejaste ar ao teu pé,

Saberás o que ela é.”



Religiões


De diversas religiões

Eminências soberanas

Conversam, nalguns serões,

Sobre estas crenças humanas.

O budista celebrou

Paz íntima que entoou,


A renúncia, a compaixão,

A anulação do desejo.

E os mais dizem , com unção:

- ”Que maravilhoso ensejo!

Se funciona para si,

É fantástico, bem vi.”


O hinduísta ciclos de vida

Traz por ele à colação,

Subtil trama de subida.

E os mais dizem com unção:

- ”Maravilha! Opera em si?

É fantástico, bem vi.”


O católico Jesus

Diz que traz a redenção

No sacrifício da cruz.

E os mais dizem com unção:

- ”Maravilha! Opera em si?

É fantástico, bem vi.”


Só que ele fica furioso:

- ”Mas aqui não é questão

De em mim obrar o amoroso

Deus, de todos coração!

É a verdade universal:

Se não credes, fareis mal!”


E os outros, todos em coro:

- Ӄ mesmo maravilhoso!

Se em si opera, o que ignoro,

É fantástico e que gozo!”



Rei


Um rei sincero buscava

Justiça e verdade e via

Que só lisonja imperava,

Corrupção, miséria fria.

Ouvira falar dum sábio,

Conselho quis de seu lábio.


- ”Como é que se pode o homem

Tornar melhor algum dia?”

- ”Leis não bastam, que o consomem,

Clareza e paz são o guia.

Tem de obrar com compaixão,

De ignorar-se. E aos outros, nâo.”


- ”Como, porém, consegui-lo?”

- ”Só com verdade lá chega.”

- ”Como no vero o perfilo?”

- ”Manda o que o vero congrega.”

Irritado, manda embora

O palavroso na hora.


Para ele, o que é verdade

Há-de estar de certo lado

E do outro, a falsidade,

O erro a ser extirpado.

O que mais apreciava

É o que é simples e bastava.


Faz uma forca instalar

Logo da cidade à entrada.

- ”Quenquer que deseje entrar

À pergunta formulada

A verdade há-de dizer

Ou há-de enforcado ser.”


Ora, alguns dias mais tarde,

É o sábio que se apresenta:

- ”Onde vais?” - diz, sem alarde,

O chefe, mal nele atenta.

- ”Para a forca vou, aquela,

Por que me pendures nela,”


- ”No que tu dizes não creio” -

Diz, de espanto, o comandanta.

- ”Enforca-me sem receio,

Se menti” - diz o impetrante.

- ”Contudo, se eu te enforcar,

Falas verdade, em lugar.”


- ”É verdade” - diz o sábio.

- ”Então não te enforcaria

Por me mentir o teu lábio

Mas porque a verdade envia.

Isto é, porém, o contrário

Das instruções ao sumário.”


- ”É verdade” - repetiu

O sábio segunda vez.

Logo o capitão correu

Ao palácio, que talvez

O rei encontre saída...

- Mas nem sombra de medida!



Universo


Ao ser criado o Universo,

Imenso e respandecente,

Tinha um segredo no verso

Cujo saber imprudente

Perigoso é tanto e agudo

Que pode destruir tudo:


Aniquila-se no instante

O que passara a existir.

Escondê-lo era importante

O mais que se conseguir.

Ora, os deuses indianos

Prestam a tal seus arcanos.


Shiva, o grão destruidor,

Acredita que é num poço,

Bem junto ao templo maior:

Quem buscaria em tal fosso?

Mas os mais não concordaram:

Sempre em redor caminmharam


Infinitos peregrinos,

Pode um cair por descuido...

Krishna quer outros destinos:

- ”Na manteiga de que eu cuido.”

Pode sempre derreter

E o segredo se perder,


Foi a opinião dos mais.

A ideia foi rejeitada.

A Jagannath, o das reais

Fúrias temíveis, agrada

Na sua estátua escondê-lo:

De terror, quem quer sabê-lo?


Mas um deus a envelhecer,

Com a estátua a esboroar-se,

Se ela se quebra, quenquer

Ao segredo pode alçar-se.

Ganesh, o deus-elefante

Propôs a Lua distante.


Mas os homens são tão loucos,

Com tamanha agitação

Que acabam trepando aos poucos,

Ainda à Lua chegarão.

Diz Vishnu: -”Precisamente,

Que o segredo fundo assente


Dos homens no coração!”

Acham a ideia excelente.

Os demais deuses então

Enterraram, má semente,

O segredo em nós bem fundo,

Não vá vir o fim do mundo!



Depressão


De crónica depressão

Mui sofria uma mulher.

Ao terapeuta vai ter

A lhe confessar então:

- ”Doutor, tenho um bom marido,

Ele ama-me, desvalido,


Sempre a encher-me de presentes.

Os filhos têm saúde.

O trabalho, os pés assentes,

Nunca me ele desilude,

Até tenho, por excesso,

Considerável sucesso.


Nunca sofri, de raiz,

De qualquer grave doença.

Em suma, sou infeliz.”

Para tal não há sentença.

O terapeuta, após prazo

Longo, encontra-a por acaso

Em festa muito animada.

Conta-lhe ela que o marido

A deixara abandonada,

Trocara-a, ao fim, ressentido,

E agora os filhos se drogam,

Perdeu o emprego e se afogam


Em dívidas doravante

E um cancro receia ter...

- ”Pois então, nalgum instante

Já infeliz não sente ser?”

- ”Sinto” - diz ela, de pé. -

“Mas agora sei porquê.”



Marselhesa


Numa história marselhesa

Um homem entra num bar,

Viu um peixe, com surpresa,

Pendurado, singular,

Grande, enorme, embalsamado.

Tendo a cabeça abanado,


Diz: - ”Que grande mentiroso

Pescou um tão fabuloso!”



Europa


Na Europa, um bebé nasce.

No instante de vir ao mundo,

Um anjo que ali perpasse

Pousa-lhe um dedo fecundo

Na boca, para impedi-lo

De revelar o sigilo


Que ele então ainda conhece.

A cova ao centro do queixo

Do apoio provém neste eixo

Dum dedo de anjo, parece.



Bombardeada


É bombardeada a cidade.

Cada qual, conforme pode,

Foge, já sem liberdade,

Por onde melhor lhe acode.

Não têm mortos e feridos

Mais conta, pois os vencidos


Tudo saqueiam, de fome.

Pior, chuvas incessantes

Destroem quanto se come

Com inundações constantes.

São levadas casas, pontes,

São desgraça os horizontes.


Correm só por toda a parte

Pegadas de desgraçados.

Do canibal a vil arte

Aflora em todos os lados.

Eis que um monge zen caminha

Por entre quanto definha,


Sem pressa, muito sereno.

Dizem-lhe: - ”Isto não o aflige?!”

- ”Não” - responde num aceno.-

“Aparte o nada que exige

Esta agitação, está

Tudo bem calmo por cá.”



Deserto


Um pedregoso deserto

Mui raramente recebe

Uma nuvem que, no acerto,

Águas deixa de que bebe

A terra e a seca areia,

Então da benesse cheia.


Podiam sobreviver

Animais e vegetais.

Não cansa de agradecer

O deserto gestos tais

A cada nova visita

Que a morte total desquita.


Lamentava não poder

Ofertar-lhe nada em troca.

- ”Pára de me agradecer” -

Diz-lhe um dia a nuvem louca.

- ”Então porquê?!” - perguntou

O deserto que a escutou.


- ”Dizes que não me dás nada

Em troca de te regar.

Nada vale, então, de entrada,

Este meu prazer de dar?

A minha rega se apaga,

Isto, não e não tem paga!”



Hakuã


O mestre zen dito Hakuã

Vive junto à peixaria.

Do peixeiro a filha sã,

Nova e que de encanto ardia,

Grávida um dia aparece.

Os pais querem que confesse


De quem. E ela a revelar:

- ”Foi o mestre Hakuã, é dele.”

O monge vive a esmolar

Em cabana de osso e pele.

Não vão a filha querer

Dar-lhe o peixeiro e a mulher.


Não lhe falaram de nada.

Quando a criança nasceu,

Ponderaram na jornada

E dizem-lhe: - ”Já que é seu,

O melhor será tratar

Mas é de no-lo criar.”


- ”Está bem” - disse Hakuã,

Sem mais qualquer comentário.

A criança, de manhã,

Dele vive igual fadário,

Atada às costas, nas ruas

Quando pede de mãos nuas.


Um dia, a mãe da criança

Confessa que o vero pai

É do merceeiro a frança

Do filho que perto vai

Andando, antes reticente

E agora aceite e presente.


O peixeiro e a mulher

Conferenciaram então,

Com mestre Hakuã foram ter,

Mil desculpas pedirão,

Ofertam-lhe alguns presentes,

De vergonha reticentes.


Iam buscar a criança

Que não era filha dele.

- ”Está bem” - Hakuã lhes lança

E a criança lhes impele.

- E, tal como antes do acinte,

Continua a ser pedinte.



Hindu


Um jovem inteligente

E sábio mais que o credível

Se apaixonou de repente

Pela princesa invisível

Que é filha do rei dos génios

Que nunca aceitou convénios.


Sonhava constantemente

Com ela sem a ter visto.

O pai do rapaz consente

Que vá ter, dado o imprevisto,

Com o hindu sábio que ao mundo

Conhece o segredo fundo.


Que dele fique ao serviço,

Passando por surdo-mudo,

Para ver, como um noviço,

Dele as práticas em tudo.

Talvez aprenda um segredo

Que importe para o seu credo.


O jovem foi ter com ele,

Já bom fogo lhe acendia,

Água lhe traz, jarro em pele,

O cabelo escovaria,

Até lhe prepara a cama

Como o respeito reclama.


O sábio, por várias vezes,

Pô-lo à prova, a confirmar

Enfermidades soezes.

O jovem, no seu lugar,

Resistiu mesmo à picada

De sovela que enterrada


Lhe foi num pé, certa noite,

Enquanto ele ali dormia.

Da dor ao sentir o açoite

Abre a boca e gritaria,

Mas lembra a prova, o jejum,

Não sai de lá som algum.


Passam anos. Pouco a pouco,

O rapaz foi aprendendo

Segredos (têm-no por mouco)

E anotou-os, como a medo,

Excepto os que eram contidos

Num cofre à chave escondidos.


E, tal como antes, pensava

Numa princesa sem cara

Cuja presença palpava

Mas que nunca vislumbrara.

Adoece o rei um dia

Pois qualquer coisa bulia


Sempre dele na cabeça.

Nenhum médico entendeu

Que era aquilo e onde começa.

O sábio se dirigiu

Ao palácio com a ajuda

Da criança surda-muda.


A cabeça enorme inchaço

Apresentava do rei.

Um bicho encerrar lá crasso

Parece ser que é de lei.

O mestre rapa o cabelo

E lanceta sem apelo.


O bicho logo encontrou,

Tal e qual um caranguejo,

E de o retirar tratou

Com a pinça, num arquejo.

Mas o bicho se agarrava

À cabeça e o rei urrava.


O discípulo exclamou,

Após anos de silêncio:

- ”Cuidado, mestre, escapou!

É que assim a pinça vence-o,

Mas ele se agarra mais.

Queima-lhe as costas atrás,


Que ele tira logo as patas!”

Ao ouvir dum surdo-mudo

Tais palavras tão sensatas,

Tem o mestre ataque agudo,

Cai morto em pleno salão,

Nada o reanima então.


Logo delicadamente

Trata o rapaz de queimar

As costas do repelente

Bicho na cabeça a andar.

O carvão a arder o solta,

É retirado de volta.


O rei, restabelecido,

Por título sartapeck

Ao jovem dá e um sortido

De presentes, mais, no leque,

De seu mestre toda a herança

Que ele nem sabe o que alcança.


O seu primeiro cuidado

É abrir o cofre-mistério.

Encontra ali, num traslado,

Aquele rosto sidéreo

Duma princesa invisível

Com que sonha, inesquecível.


Desenha uma figurinha

Que a representava inteira,

Recita uma ladainha,

Magos termos, chama à beira.

Quarenta dias mais terde,

Ela aparece-lhe. Ele arde.


Sartapeck não encontra

Palavras de a descrever.

Contudo, saiu da montra

De dentro de si, ao ser.

- ”Como conseguiste, enfim,

Penetrar dentro de mim?”


- Ӄ desde o primeiro dia

Que eu estou sempre contigo.

Sou alma tua: a porfia

Com que em mim buscas abrigo,

O que buscas com ardor

É a ti próprio, o teu pendor.


Olha, pois, com atenção

E verás que o mundo inteiro

Mais não é que tu então.

Sou alma tua, pioneiro.

Vê, pois, que o que buscarás

Só em ti encontrarás.


E não sejas preguiçoso

Na tua longa demanda.

Se procurares teimoso

Descobres o que em ti anda,

Afinal, que tu és tudo,

Aberto ao infindo mudo.”


- ”E porque em mim procurar

Devo?” - pergunta o rapaz,

Os ouvidos a zoar,

De entender ainda incapaz.

E a moça, um olhar agreste:

- ”É porque tu te perdeste.”



Suma


Pergunta um noviço ao mestre:

- ”Como pode um ser humano,

Ao fim de quanto se adestre,

Reconhecer, sem engano,

Que por fim atingiria

A suma sabedoria?”


- ”Quando ele, por fim, deixar

Tal questão de colocar.”



Sabedor


Questionam um sabedor

Que muito mundo viajara

Se por acaso encontrara

Pessoas de algum fulgor

De que, com algum vagar,

Goste mesmo de falar.


- ”Só encontrei homem e meio.”

- ”Quem era a metade homem?”

- ”Antes que fúrias o tomem,

Um que, de prudência cheio,

Só doutrem dizia bem.”

- ”E o homem inteiro é quem?”


O sabedor olha a estrada:

- ”Um que não dizia nada.”



Índia


Transportava um aguadeiro,

Na Índia, duma nascente,

Água para o povo inteiro.

Sempre o carrego ia assente

Em duas bilhas atadas,

Muito bem emparelhadas.


Nos ombros, de cada lado

Duma barra de madeira.

A da direita chegado

Sempre havia toda inteira,

Pois era uma bilha intacta

De parede bem compacta.


Mas a da esquerda, rachada,

Perdia metade de água

Pelo caminho pingada.

Durou isto anos de mágoa,

Que o aguadeiro nem tinha

Com que comprar uma linha.


Um dia, a bilha rachada

Diz, penando, ao aguadeiro:

- ”Tenho vergonha aumentada,

Só da imperfeição me abeiro.

Perco água por minha culpa,

Por isso peço desculpa.”


Olha para o recipiente

O aguadeiro e então lhe diz:

- ”Ao voltarmos da nascente

Vais olhar, tal quem não quis,

O lado esquerdo sozinho,

O teu lado do caminho.”


- ”E que verei?” - diz a bilha.

- ”Verás as ervas e as flores,

A pequena maravilha

De verduras e de odores

A que a tua água perdida,

A todo o tempo, deu vida.”



Bombaim


Na Índia, um Jain, Vijaya,

Comerciante em Bombaim,

Tinha fortuna de praia,

De porto e transporte afim.

Por antiga tradição,

A meio da vida, então,


Fez renúncias sucessivas

Para atingir a sageza.

Neste método uma arquivas

Por ano, a que mais se preza.

No primeiro, renuncia

À fortuna que teria.


Distribui bens em redor,

Guardando para viver

Só o que imprescindível for.

No segundo ano o que quer,

Ao carro é renunciar,

No terceiro é dispensar


De vez dele o motorista,

Conservado inutilmente

Durante um ano na lista.

Tabaco é no quarto assente:

Bem difícil pareceu

Mas ele, enfim, conseguiu.


São bebidas no seguinte

E, no sexto, o leite e o queijo.

É, no sétimo, o requinte

Dos temperos, no desejo.

Um ano após já depura

Da cabeça a cobertura.


No nono ano renuncia

Ao guarda-chuva que usava.

No décimo o sexo adia,

Que nunca mais o activava.

Veio depois o cinema,

O teatro e segue o esquema


Com a música e a dança,

Por fim a televisão.

No décimo sexto alcança

A animal degustação.

E, antes de ir a campos novos,

Renuncia após aos ovos.


O décimo oitavo é duro,

Teve de o recomeçar:

Tenta pensar com apuro,

O erótico a recusar.

Se renuncio a uma meta,

Levo a que a força a acometa.


Largou a religião:

Mais fácil lhe pareceu

Que quanto, em compensação,

Antes, nisto, ele previu.

Renunciou aos jornais

Como às outras formas mais


De conversa e relações

Com parentes ou amigos.

Recusou as abluções

Sem mais ligar aos perigos,

Um ano os pés, outro os dentes,

Outro o cabelo sem pentes.


Renunciou ao orgulho,

À cobiça e à vaidade,

Dos defeitos todo o entulho

Que pesa na humanidade.

Até que desaparece

E o mundo quase que esquece.


Sessenta e tal anos tem,

Ninguém sabe onde encontrá-lo,

Dele novas não advêm.

De súbito, com regalo,

Reaparece, sorridente,

Bem vestido, mui contente,


Guiando um descapotável,

De radiosa dama ao lado,

Um havano insofismável

Fumegando incendiado.

Um amigo o reconhece,

Pergunta-lhe o que acontece.


- ”És tu mesmo, tu, Vijaya?!”

- ”Sou eu, pois claro, sou eu.”

- ”Voltaste a uma vida gaia

Ou que foi que aconteceu?”

- ”Não, de maneira nenhuma,

Continuo tudo, em suma,”


- ”A que é que renunciaste

Agora, na tua lei?”

- ”Bem vês tu, já reparaste:

À renúncia renunciei.”

E de Vijaya a esperança

A suma sageza alcança.











































À Lareira do Amor Divinatório




1


Primeira Lareira



























Primata


Bem mais primata que lobo

É o homem,

Quando o confiro:

Feito bobo,

Deixou de ser lobisomem

Para tornar-se vampiro.


Porém,

É nossa a perda que houver

Se alguém

Deixar o lobo morrer.


Do pimata a artimanha

Não dá em nada

Quando o fim te apanha

Da jornada:

A esperteza trai-nos um dia

De vez

E a sorte que nos fez

Acaba então, vazia.


Depois é que descobrimos a medida

Do que é importante na vida.


Nada tem a ver

Com o que estratagemas, esperteza e sorte

Nos proporcionaram.

Deste primata norte,

Nem as sombras sequer

Ficaram.


Antes, é o que resta

Quando tudo isso (que então não presta)


Acabou

E na cinza ficou.


Muitas coisas somos!

Mas o eu mais importante

Que não referem os tomos,

Não é o que conspira vida adiante,


- É aquele que fica preso à calha

Quando a conspiração falha.


Não é o que se delicia

Com a artimanha,

É o que fica em agonia

Quando ela o apanha

Como a quenquer

E o abandona para morrer.


O eu mais importante

Não é o que goza dele a sorte,

É o que continua para diante

Quando ela se vai embora

E, em tal hora,

Finta a morte.


O primata

Há-de sempre falhar-nos, ao fim.

Quando o fio se desata,

Assim,


A pergunta que ecoa

É que responde ao que presta:

- Quem é a pessoa

Que resta?



Rumos


Disciplina e liberdade

Não seguem rumos contrários:

Disciplina é que persuade

O ser livre, em trilhos vários,

A ser possibilidade

Que desafia os fadários.


Sem a disciplina não

Há deveras liberdade:

Apenas, na ocasião,

Ao acaso para os que agem,

Aquilo que sofrerão

É mera libertinagem.



Amizade


A amizade familiar,

A que nos entrosa ao grupo,

Tem vontade de actuar

Em prol de quem eu me ocupo.


Por mais que o não queiramos fazer mesmo,

Por mais que até nos deixe horrorizados,

Mesmo doentes vagueando a esmo,

Mesmo que ao fim os preços elevados

Acabem mais pesados, no lugar,

Que o que nós lograremos suportar


Fá-lo-emos, que o melhor é para eles,

Fá-lo-emos porque havemos de o fazer.

De o fazer talvez nunca nós, imbeles,

Tenhamos, mas impõe-nos o dever

Que estejamos, fiéis, já preparados

Para tal, sejam quais forem os dados.


O amor às vezes dá-nos muita raiva,

Amaldiçoar-nos pode eternamente,

Leva-nos ao inferno que nos caiba.

Porém, a melhor sorte em nós presente

É o amor, na atitude desenvolta

Que a nos trazer nos finda a nós de volta.



Temporais


Por sermos criaturas temporais,

Daqui sofremos cruas desvantagens:

Matuto num passado, o nunca-mais,

E um porvir que vazias tem as vagens.


O passado recordado

E o desejado futuro

O agora-aqui hão moldado

No irreversível conjuro.


As temporais criaturas

Neuróticas são, de modo

Que do presente as figuras

Jamais fruirão de todo.


No passado e porvir tanto vivemos

Que há-de uma maldição nos controlar.

Porque “através” melhor a olhar nos vemos,

Através dos momentos, em lugar


De a eles os olhar: queremos vidas

Que contenham sentido e, em simultâneo,

Não entendemos como nossas lidas

Possam sentido ter no supedâneo.


Nossa temporalidade

É para nós o desejo

Daquilo que nos invade

Sem de o compreender o ensejo.



Melhor


Vou morrer e o meu melhor

É que me sinto aqui bem.

Vou fazer seja o que for

Que me apetece e convém.


Este momento se inteira

Nele mesmo e não precisa

De justificar-se à beira

Doutro qualquer que desliza


Do passado ou do futuro:

- Inteiro aqui me inauguro!



Lápides


Lendo as lápides, revejo

Quem há perdido o combate,

Da vida somado o ensejo

Numas linhas para abate.


Deviam enaltecer

Como é que tinham vivido,

A diferença a insvrever

No mundo ao jeito esculpido.


Senão, para quê tentar,

Se tudo, ao fim, reduzido

É, na pedra tumular,

A palavras sem sentido?



Recuperar


Agora que entre nós vive,

Deus anda a recuperar

Das coisas o estado antigo.

Ao visível o que esquive

É uma oferta por que ansiar:

Um coração para abrigo,


Invisível, onde quero

Viver eterno em seguida.

Por ele é que me supero:

- É o que me dá peso à vida!



Passado


Quão mais nos dissociamos

Do passado, à nossa volta

A viver bem disfarçado,

Mais difíceis são os ramos,

Entre os caminhos à solta,

Do retorno ao lar sagrado.


A recusa em aceitar

O que foi nosso passado

É a maneira mais segura

De a nossa vida tombar,

Ceder de antanho ao traslado:

- E de mim perco a figura!



Problema


Um problema de imediato

Nunca nos desaparece,

Ou até, de nenhum modo,

E, quando mal me precato,

Ao parecer que me esquece,

Não o aniquilei de todo.


Imperfeição e tristeza

São sempre o preço a pagar

Por isto de estarmos vivos.

Se calhar demais nos pesa

E há horas em que lutar

Tem, por únicos motivos


Da resistência ofertada

Sem recompensas cabais,

A hipótese de lutar

Nestas barreiras da estrada

Apenas um pouco mais

Ante a derrota a chegar.


É um fardo muito pesado

Mas é sempre um bom passeio

Isto de andar deste lado

Um outro sempre a rasar

E, às vezes, cá pelo meio,

Conseguirmos ver o mar.



Olhar


Por vezes temos de olhar

Para trás e não faz mal.

Tornar-me estátua de sal

Só mesmo se, incompetente,

Eu então nunca voltar,

Não voltar a olhar em frente.



Pior


O pior, pior dos gestos

É que acorrentaram Deus

Em infindos manifestos

De palavras, quais ateus.


Tornaram-nO tão concreto

Que tem então de viver

Entre nós, nada secreto:

O invisível a morrer,


De viajante inconformado

Carne efémera tornado.


Assim é uma instituição:

Do sonho é sempre prisão.


E, quando nela o captura,

Tanto faz que o desfigura.



Realidade


A realidade da vida:

Não posso ter dito ou feito

Sempre o que é certo, à medida,

Nem sequer sempre me ajeito


A ajudar todo e quenquer,

Nem a levar nunca alguém

A disponível se haver

Para quenquer que aí vem.


Há sempre o que não ocorre,

O amor desarticulado.

Diferente enquanto corre

É o presente ante o passado,


Quando a luz de o recordar

Através dele brilhar.


A vida não tem que ver

Com a perfeição jamais

Mas com aquilo fazer

Que puder em dias tais.


Tal como havia de ser

É que tudo foi então.

De confiar hei-de ter

No instinto que tenho à mão


E após terei de esquecer...

O passado há-de-me ter


Sempre o seu dedo apontado,

Conserve-o ou não conserve.

Como quer que eu vá jogado,

É o grilhão de que se serve.


E mantém-me prisioneiro

Se além não saltar pioneiro.



Eventos


Os eventos do passado

Endureceram, ficaram

Cacos dum vidro intocado

Em nossa mente espetado,

Corpos que estranhos nos aram,



Se deslocam e nos ferem,

Profundos demasiado

Para alguma vez poderem

Sugar-se onde se esconderem,

E é tudo tão aguçado


Que nos cortam o presente

E nos sangram, de repente.



Más


As coisas más acontecem:

Às vezes nós as fazemos,

Outras outros no-las tecem.

Nada importa que as neguemos,


Não vão desaparecer.

Que importa a profundidade

No lixo em que as esconder?

Continuam de verdade


A fazer parte de nós.

Se uma carta nos destroça,

Que importa queimá-la após?

Dar tréguas encurta a mossa:


Não damos voltas à faca

Durante a noite e tentamos

Impedi-la, por mais fraca,

De nos arruinar os tramos


Com que alinhamos o dia.

Mas tentar a perfeição

É só de quem se iludia

Contra o real em acção,


Dando mais valor acaso

Ao que estiver na cabeça

Que o que em redor eu aprazo

Que é o que sempre me atravessa.


O lugar onde viver,

Também com sombras erguido,

Sempre é o lar para quenquer:

O mobiliário partido,


Dedadas no interruptor

- É o que faz dele o que for.



Sinais


Olha os sinais,

Não forces a conjuntura.

Tenta ver, quando tu vais,

Onde leva a água pura.


Importa boiar agora,

Respeitar das ondas a frequência,

Entender do céu onde o rumo mora.


A seguir,

Ao fulgor da evidência,

Agir.


Cá em baixo, então,

Abrirás caminhos.

Lá de cima abençoarão

Das veredas todos os ninhos.



Acordo


De acordo estás com o céu

E o céu, de acordo contigo.

Escuta-lo ao teu postigo,

Fala-te ele atrás do véu.


O fruto que isto te deu

É maduro em teu abrigo,

Rio que flui mas consigo

Leva dois mundos de seu.


Tal é, pois, tua verdade,

Vais onde fores levado

E és feliz por ter tal fado.


Trilho de sublimidade,

Na terra de parto em dor

És de céu um semeador.



Felicidade


Era uma vez toda a glória

Duma pessoa feliz

Com planos e com memória

Para a vida que ela quis.


A felicidade foi

Há muito tempo, entretanto.

Agora, distante, dói.

Não houve culpa, no entanto,


Mas responsabilidade:

Tu criaste uma distância

Do céu à terra, em verdade.

Do Além a fala, com ânsia,


Deixaste de ouvir na vida

E crês então que a atitude

Se justifica em seguida.

O céu fala em quanto mude,


Na chuva que rega e molha,

No sol que brilha e bronzeia,

No murete que se antolha

E que à frente nos ameia


Para ao céu erguermos olhos...

Encurta, pois, a distância,

Olha acima dos escolhos,

Apreende o céu da infância,


Que ele te vai ficar grato

Para toda a eternidade.

Que sentido há, se desato

Céu de terra que ele grade,


Que sentido há neste chão

Se não for a comunhão?



Convicção


A convicção no caminho

É um poder espiritual,

Tão poderoso cadinho


Que enquanto vir o esteval,

Enquanto souber onde ando,

Porque acontece um sinal,


O que é que aprendo, onde e quando,

- O percurso luminoso

Irradiante vai ficando.


Convicto de que me entroso

No caminho verdadeiro,

Atraio, para meu gozo,


Energia em grau cimeiro,

De tamanho imensurável.

E o caminho, mais ligeiro,


Com destreza inigualável

Assim então percorrido,

Vai ficando mais estável,


De vencer vou convencido.

A chave é a meditação

Feita da vida o tecido.


E, mesmo que a estrada então

Não aparente harmonia,

Tal caos é ocasião


Para religar o dia,

Trepar ao céu a buscar

Mais informação que urgia.


E a vida há-de prosperar

Para além da fantasia,

Mais abundante que o mar.



Medo


Um medo fundamental

Leva-te à compensação:

Medo tens de algo real

E compensas logo então.

Não vais enfrentar o medo,

Vivenciá-lo, tarde ou cedo?


Vivenciar uma emoção

É permitir-lhe ir-se embora.

Se o medo te tem à mão,

Leva-te a fazer agora

Outra coisa, longe ou perto,

O que nunca dará certo.


Quando algo queiras fazer

Por te trazer bem-estar

Contra o mal-estar que houver,

Por medo de o enfrentar,

Um tal acto, apenas teu,

Não tem o acordo do céu.


Se estás mal, fica-te aí,

Sofre o que tens de sofrer,

Chora a mágoa que haja em ti.

Com certeza que a quenquer

Daqui vai advir a luz,

Que ir ao fundo se traduz


Numa clarificação

Sempre em todos os sentidos.

Ao mergulhar no cachão,

No fim, os medos volvidos,

Irás sentir-te melhor.

Depois, se ainda então for


De algo fazer com vontade,

Se persiste o chamamento,

Já quebrada a opacidade,

Já transposto o fingimento,

Em tal caso então avança,

Que o céu quer o que te alcança.



Comando


Certas alturas da vida

Há que assumir o comando.

Não é sempre que é devida

Uma atitude de mando.

Quando, porém, acontece,

Nem importa se apetece.


Comandar implica agir

Mas não é somente acção.

Também provoca a seguir

Qualquer um outro à função,

Gera exército, estratégia

E avança em passada régia.


Não há muito espaço aqui

Para o coração vibrar,

Sentimentalismos vi

Sempre nisto a soçobrar.

O que houver para fazer

É só fazê-lo quenquer.


É faceta da matéria,

Nem tudo é exacto, de vez.

Pede uma conexão séria

Normalmente o céu que vês,

Sentimento, coração

E mui profunda intuição.


Raramente o que nos pede

É um exército a avançar

Porque é o que a hora antecede,

Não há mais tempo ou lugar.

Contudo, se isto é o de agora

O céu diz-nos: é a hora!



Culpa


Quem és tu, tão importante

Para crer-te imprescindível?

Culpa é um ego petulante.

Quem és tu, para, impossível,

Crer que sem ti nada roda,

Jamais anda a vida toda?


A culpa é uma tentativa

Inconsciente do ser

Para ter poder que arquiva,

A imprescindível se ver.

Culpa quem sente, por norma,

Faz um lugar tomar forma


Mas julga que deveria

Ser outro noutro lugar.

Por isso a culpa o atrofia,

Em conflito sempre a andar.

Não relaxa as mãos que ararem

Nem deixa os mais relaxarem.



O culpado sofre muito

Mas tem a grande tendência

De outrem culpar desse intuito.

Não cumpro minha apetência?

Então outrem também não

E, se cumpro uma função


Contra quanto me apetece,

Então outrem também tem

De cumpri-la, não me esquece.”

A exigência donde vem

Contigo e com os demais?

Atitudes porquê tais?


A culpa nunca te deixa

Viver nem te deixa olhar

Para ti mesmo e te enfeixa,

Sem evoluir, a te atar.

Culpas-te do que fizeste,

De não ter feito que preste,


Culpas-te de não fazer

O que os mais de ti precisam...

Ora, àquele que sofrer

Dele as carências avisam

Que escolheu a situação

Para, através da lição,


Da solução que procura,

Poder evoluir por dentro.

Dele que cuides da cura

Precisa,mas não é o centro.

Se extremo for teu cuidado,

Prejudica o que hás curado.


Ora, tu também terás