À LUZ DA CANDEIA
BARTOLOMEU VALENTE
Lisboa, 2011
AO SERÃO DOS CONTOS ANCESTRAIS
I
Ao serão de domingo
Contar
Não sou só contos e lendas.
Contudo, sem narrativas,
Sem de as contar oferendas,
Não sou nada. Arestas vivas
Restam só de minhas sendas.
É uma história o movimento
Dum lugar a um outro além,
Nunca deixa o seu fermento
No primeiro teor que tem.
Vivemos neste andamento.
Um princípio tenho, assim,
E terei então um fim.
Histórias
Todo o contador de histórias
É aquele que vem de fora,
Que na praça das memórias
Duma aldeia que ali mora
E que nunca dali sai
É o além que entre eles cai.
Dá-lhes a ver outros montes,
Outras luas e terrores,
Outras caras, outras pontes...
Metamórficos pendores.
É quem captou a atenção,
Que outro mundo traz na mão.
É um outro olhar, outra voz:
Deste era-uma-vez por meio
Supera este mundo a sós
E a metafísica em cheio
Introduz então na infância
De todos com elegância.
Habita-nos
Habita-nos o antiquíssimo,
Cada dia, e nos impele
Para agir, leve, levíssimo.
Haja embora o que o repele,
É assim: para começar,
Vimos de longe e luar.
Como a luz fóssil se observa
Em astrofísica em volta
De nós cintilando, serva,
Desde o nascimento à solta
Dos mundos, ouvir podemos,
Além e aqui, se mantemos
Os ouvidos bem abertos,
Murmúrios de antes da história,
Dos inícios encobertos
De que se perde a memória.
Os sonhos de outrora são
Parentes nossos então.
Repara
- ”Deus fez o mundo em seis dias
E tu minhas meras calças
Nem em seis meses farias?!”
- ”Mas, meu caro, a quanto é que alças?
Repara só, num segundo:
Vê tuas calças e vê o mundo...
Não têm comparação:
Tuas calças, que mundão!”
Pergunta
Quando alguém pergunta à Lua
O que é que ela mais deseja...
- ”É que o Sol que além flutua
Morra e mais ninguém o veja.”
- ”Também, Lua, o não verá...”
E ela confirma sem pena:
- ”Ora, tanto se me dá!”
...E à noite assim se condena.
Fome
Levada pela fome mais cruel,
Uma hiena olha atenta o seu filhote.
As ilhargas cavadas pelo bote
Das privações, achega-se ao farnel:
- ”Não é que um anho me pareces fiel?
Julgo ver um cordeiro como dote
Quando olho para ti. Um borregote
Suculento, a saber-me como mel.”
- ”Mãe, olha para mim, é lá possível
Parecer um cordeiro! Sou teu filho,
Não sou o anho que julgas comestível.”
- ”A prova que me livra do sarilho
É que estás a balir neste momento.”
E logo o devorou sem adiamento.
Sede
Um cão, a morrer de sede
Após mui longa corrida
Pelo deserto que fede
De estorricar nele a vida,
Chega, enfim, junto a um regato
Que corre muito pacato.
Inclina-se. Porém, quando
Se dispõe para matar
A sede que o vem matando,
Nas águas a se achegar
Vê que vem a própria imagem:
Doutro cão crê que que é mensagem
A impedi-lo de beber.
Deita-se o cão sequioso,
A arfar, aguardando, a ver...
Um nada após, momentoso,
Achega-se da má sina
E com prudência se inclina,
Mas o outro lá continua.
Retira e senta outra vez
E de morte a sede o acua.
Várias vezes o entremez
Repete até que, extenuado,
Sem reter-se haver logrado,
Atirou-se dentro de água
Para a limpo tirar tudo
Com o cão de tanta mágoa.
Grande surpresa, contudo:
Não encontra nenhum cão,
Chapinha, enfim bebe, então.
Saiu de água saciado
E, antes de tomar caminho,
Olha atrás o seu traslado
No espelho de água adivinho.
E lá o fantasma o encarava,
Só que então já o não entrava.
Caracol
Observava certo dia
Mui atento um caracol
Que pelas ervas seguia
Lento e mole, lento e mole,
Um filósofo entretido
A ver daquilo o sentido.
- ”Em que pensas?” - um passante
O questiona, oportuno.
- ”Tenho um caracol diante,
Penso nele: eu me coaduno
A que eu penso nele e, enfim,
Ele nunca pensa em mim.”
- ”Isso apenas?!” - o outro torna.
- ”Não, não é somente aquilo.”
- ”Que mais, para além da sorna
De olhar bicho tão tranquilo?”
- Ӄ que, se isto descamamos,
Julgo que nos completamos.”
- ”Completamos?! Em que lei
O homem com bicho cabe?”
- ”Sabe, é que eu sei que não sei
E ele não sabe o que sabe.”
O pensamento, de agudo,
Dum nada retira tudo.
Paraíso
No paraíso Adão mais Eva andavam,
Até que Adão de retirar-se teve,
Eva deixando, num momento breve,
A sós perante as tentações que entravam.
Satã vem logo mais o filho Esquivo
Contando a Eva: -”Tenho de ir-me embora.
Tomas-me conta de meu filho vivo
Até que eu torne? É uma ligeira hora...”
Eva aceitou. Adão, chegando, vê
O Satanás e o reconhece logo
E logo o mata destruindo o jogo
Ao pendurá-lo, retalhado, ao pé.
Quando ele sai, logo Satã retorna
E com magia reconstrói o filho.
Eva, culpada, uma vez mais, sem jorna,
Aceita o encargo mas prevê sarilho.
Quando Adão chega, furioso encara
O Esquivo ali bem retornado à vida.
-”Porque à palavra do inimigo, cara,
Tu dás ouvidos, enganada em lida?
Em mim apenas confiar-te deves.”
Mata o diabo e desta vez o crema,
Espalha as cinzas dele em gestos breves
Por mar e terra, que ninguém o tema.
Satã regressa e Eva logo conta
O que é que Adão empreendera ali.
Satanás chama: então, de ponta a ponta,
Recola o filho e após o encosta a si.
- ”Posso deixá-lo uma vez mais à guarda
De teu cuidado?” - perguntou a Eva.
- ”Leva-o contigo, de novo antes que arda!
Não quero mais. Onde é que isto me leva?”
Mas Satã usa de mil e uma manhas,
Lamenta humilde, sedutor devém.
Eva, à terceira, com pressões tamanhas
Aceita o filho que o diabo tem.
Adão, em fúria, quando volta, mata
Satanás-filho e a frigir o pôs,
Comeu metade e a outra parte acata
Eva comê-la, a dar-lhe fim, após.
Quando Satã reaparece é que Eva
Lhe conta tudo o que ocorreu no dia:
- ”É de nós parte, cada qual o leva
No próprio corpo.” Dali não fugia.
- ”É exactamente,” - diz o rei da treva -
“Exactamente aquilo que eu queria.”
Astrofísico
Um astrofísico em papuas terras
Partilha os sonhos a que sonho empresta:
- ”...Por fim é Marte ver se vida encerra.”
- ”Porquê? A vossa vida então não presta?!”
Riquíssimo
Um riquíssimo ateniense
Quer Diógenes de visita
Ao paço dele imponente.
Mas este sofre a desdita
De estar com grande catarro:
Puxa, constante, um escarro.
O ricaço lhe pediu
Que não escarre a impecável
Morada a que o atraiu,
Que de asseio era intocável.
Diógenes, cordato, o encara
E escarra-lhe então na cara.
Fazendeiro
Um fazendeiro da América,
Muito mais do que abastado,
Visita um primo afastado,
Lavrador à escala ibérica,
Pouco mais que remediado.
- ”Pego o carro de manhã” -
Diz o americano inchado -
“E, à noite, após ter andado,
Qualquer que seja o afã,
Nem ultrapassei um lado
Do meu rancho.” -”Estou a ver,”
- Comenta o primo, contente, -
“Dantes também eu, demente,
Tive um carro assim qualquer...”
E eis como lhe ferra o dente.
Juntos
Um polaco e um judeu
Vão a pé, juntos, à feira.
De repente, um deles viu
Um monte de bosta à beira.
Diz o judeu ao polaco.
- ”Dez zlotys se tu comeres
De bosta aquele grão naco.”
Contas a teres e haveres
Faz o camponês, cuidando
Que intuito secreto tem
O judeu com que anda andando.
Por fim, aceita e retém
O engulho ao comer a bosta.
Recebe então o dinheiro,
Continuando, ganha a aposta.
Perde o judeu por inteiro
Mas medita que, afinal,
Comer bosta não há feito
Ao polaco nenhum mal.
“Que bom!” - cuida, satisfeito.
Avista um segundo monte
De excremento e diz então
Ao polaco enquanto o aponte:
- ”Se eu comer este montão,
Devolves-me os dex zlotys?”
O camponês diz que sim.
Logo o judeu aprendiz
Come a bosta até ao fim.
Continuaram para a feira
E o camponês, meditando,
Pergunta, a ver se se inteira
Da razão de tal desmando:
- ”Como és esperto, judeu,
Explica-me o que é tal boda:
Porque é que a gente comeu
Aquela, enfim, bosta toda?”
Da resposta não há escrínio.
Muitos há sobreviventes
É dos campos de extermínio:
- Sabiam cerrar os dentes.
Passarinheiro
Ao fim da tarde, numa ruela de Damasco,
Fechou a loja, pôs às costas as gaiolas
De suas aves e ao caminho apronta o casco
Rude e grosseiro de seus pés, quais padiolas,
Pobre, infeliz passarinheiro, rumo a casa.
Cansado, avança lentamente, com bengala.
Vende umas aves: qual o ganho que isto apraza?
Traz meia dúzia a dormir já, de olhos em pala,
Às costas dele, pelas sombras do crepúsculo.
E eis que um dervixe de Tabris caminha ao lado,
Ouve-o falar com suas aves, som minúsculo:
- “De vós ter pena não importa, que eu traslado
Cada gaiola, trago e levo... Tudo trato,
De manhãzinha, água e sementes, pelo fresco,
Dou polimento ao bico, aliso com meu tacto
As penas breves, varro o chão, num arabesco
Lanço perfume e, pelo frio, junto ao fogo
Cada gaiola. No verão, à sombra as ponho.
Ah! Se eu tivera quem às costas, desde logo,
Me transportara de gaiola, mas que sonho!
Ah! Se eu tivera quem me dera de comer
E de beber todos os dias duma vida!”
Ora, o dervixe ouviu então, a se perder,
Uma vozinha a responder à queixa ouvida:
- ”Julgas que estamos na gaiola mas te enganas.
Nas minhas penas tenho insectos que o nem notam.
Também tu vives na gaiola e não te danas,
Gaiola é a casa, a tua rua e não se esgotam
Aqui as grades, que a cidade o é toda inteira.
Onde é que julgas da gaiola o fim das grades?
A Terra toda é para nós de jaula esteira.
A Lua, o Sol, todo o Universo ao qual agrades
Serão gaiola a balouçar pelo Infinito...”
De lassidão, passarinheiro nem responde
E, se calhar, nem mesmo ouviu o surdo grito.
Quando a sombria noite escura tudo esconde,
O vendedor a se queixar retoma o tema,
A desejar para si mesmo a sorte de ave.
Uma voz débil, de dormente mal atrema
No que dizer, faz-se entender à orelha suave
Do bom dervixe que se cola aos passarinhos:
-”Esquece tudo, fecha o espírito, eis a noite:
A fala de ave que ora escutas sem carinhos
És tu, teu imo, e tu, gaiola onde se acoite.
Teu pensamento o trancou forte em própria grade,
Dá-te trabalho a desmontar, nem o consegues.
Em casa pousa esta gaiola de inverdade.
Não penses mais, come e dormir vê quando adregues,
Que, adormecido, se abrirá tua gaiola
Ao mundo inteiro e então podemos falar mesmo.
Pois boa noite.” E só o dervixe tem a esmola
Desta mensagem que o silêncio espalha a esmo.
Monge
Monge cristão fundado havia, em canibais
Regiões, mosteiro organizado em solidez.
Os solitários, às dezenas, vivem mais
De seu trabalho e orações, em paz de vez.
Tem vastas terras muito férteis e rebanhos,
Hortas, pomares, galinheiros e um viveiro,
Produz compotas, vinho, leite, assados de anhos,
Fabrica pão, bolas de carne... É num ribeiro
Que, represado, águas recolhem para as lidas.
Sobre a região então se abate crua seca
Onde as colheitas são de todo destruídas.
Mas o mosteiro resistiu: irriga a peca
Semeadura, astucioso, controlando
De águas o débito conforme as precisões.
A dura seca entre as cubatas provocando
Vai entretanto letal fome aos aldeões.
Um dia, à porta do mosteiro, uma quinzena
De camponeses mui magrinhos pede ajuda.
O generoso abade-mestre, já com pena,
Mandou colher muitos legumes com que acuda,
Matar um porco dos mais gordos do cercado.
Logo uma sopa nutritiva é distribuída
A cada indígena, aos parentes que hão juntado,
E o que restou vai de farnel, à despedida.
Agradeceram os prendados, mas voltaram
Um dia após, quando eram já meia centena,
Pois o rumor do bem-querer longe espalharam
Todos aqueles que encontraram ceia plena.
O abade manda matar outro porco então
Como abater gordo carneiro a tanta fome.
Todo o selvagem come bem, se embora vão,
Sacos de nozes cada qual leva e consome.
Um dia após, são mais de cem com as crianças
Mais as mulheres, de sanzalas tão distantes
Que jamais antes nem ouvido, em tais andanças,
Tinham de haver mosteiros tais, de bens garantes.
O bom do abade pôs os monges a correr,
Um talhão colhem de legumes horta fora
E pescam trutas com a nassa e vão colher
Cestos de fruta e abater bodes agora.
Todos comeram, já por entre altercações.
Ao fim da tarde, uma oração rezam por chuva,
O monge e a selva de mãos dadas nas funções.
Mas de manhã nem do nevoeiro a branca luva
Responde às preces. Como a fome é mais cruel,
Já são duzentos visitantes por comida.
Alguns ajudam o convento no tropel
De abater carnes, refeição a ser servida.
Todos comeram, bem ou mal, e ao dispor tudo
Os monges põem, generosos, sem limite.
A oração cantam novamente e, sobretudo,
Ritos pagãos vão-lhe acrescer que a selva emite.
Tudo por nada, já que a seca persistiu.
São mais de mil, ao quinto dia, a vir famintos
E desde então os monges deixam de pousio
A quinta deles, já que os ovos, mesmo os pintos,
Legumes, frutos, tudo colhem, vão comer.
Toda a reserva é consumida, frutos secos,
Mel e compotas, as conservas, o que houver:
Os animais são abatidos, rincham ecos
Da mortandade dos cavalos do mosteiro,
Do burro velho que no prado tasquinava.
Tudo comeram, as galinhas, o viveiro,
Patos e cães e mesmo os ratos, se calhava.
Nada restou. E foi então que eles comeram
Os monges todos. E uns aos outros, logo após.
Um que ficou, depois que todos pereceram,
Morreu de gordo, em palermice tão atroz
Que, de ocioso, o rebentou a obesidade.
...E ali findou assim de vez a Humanidade!
Falcão
Adeja um falcão
Forte e ameaçador.
Domina, senhor,
Tudo o que há no chão.
Mas dum caçador
Uma flecha então
O trepassa e não
Tem mais vida e ardor.
Ao tombar, vê penas
De falcão nos nós
Que a frecha contém.
Viu, então apenas,
Que o que vem a nós
Sempre de nós vem.
Viajaste
Dois camponeses conversam,
Por ocasião da feira,
Das ditaduras que terçam
Armas contra o que as não queira.
- ”Conheci tantos países,
Rússia, Polónia, Alemanha,
Sei lá de quantos matizes!...”
-”Viajaste então com sanha.”
-”Qual o quê?! Nunca saí
Desta aldeia onde nasci.”
Hoje a comunicação
Põe o mundo todo à mão.
Piedosos
Dois piedosos muçulmanos
Seguiam pela montanha.
- ”Quando chegam os humanos
À perfeição que se ganha?”
-”Quando à montanha ordenarem
Que ande e ela então andar.”
De repente, ao repararem,
A montanha a começar
A mexer-se principia.
Vira-se o segundo então
Para ela e anuncia,
Com breve gesto da mão:
- ”Calma, montanha, é que eu não
Ordenei mesmo que andasses.
Era uma suposição,
Não percamos nisto as faces.”
Mercado
No mercado de Damasco
Hodja compra de algodão
Bela peça, após com asco
Regatear o preço em vão.
Vai depois a um alfaiate
Para que um bom albornoz
Talhe e cosa que acicate
Uma festa, um tempo após.
- ”Quando é que ele fica pronto?”
- ”Pois, com a ajuda de Deus,
Numa semana, é o que conto.”
Ela corrida, é de incréus
Que os olhos se lhe arregalam,
Pois do albornoz nem sinal.
As tesouras não se calam,
Tudo cortam, por seu mal,
Mas nem ao menos talhada
Foi do albornoz uma peça.
- ”Quando, então, vir de jornada?”
- ”Uma semana mais meça.”
- ”E então pronto de vez fica?”
- ”Pois, com a ajuda de Deus,
Pronto há-de estar, que se aplica
Nisto a vontade dos céus.”
Transcorreu outra semana,
Do albornoz, contudo, nada.
Adoeceu-lhe de esgana
Do alfaiate a filha amada.
- ”Quando devo tornar cá?”
- ”Dentro aí de quatro dias.”
- ”O albornoz pronto estará?”
- ”Com a ajuda em boas vias
De Deus ele há-de estar pronto.”
- ”Escuta, o dia da festa
Dentro de bem pouco aponto.
Não podes, de forma lesta,
Costurar-me este albornoz
De Deus sem ajuda após?”
Ofício
De sexta-feira no ofício,
Um imã, com eloquência,
Exclama, tenta um resquício
De sagrada eficiência:
- ”Ó Alá, senhor do mundo,
Dá-me a fé, dá-me a humildade,
A força de ser facundo,
Dá-nos a paz da verdade,
Dá-nos o amor da justiça,
Perdão, generosidade
Para o pobre que se enguiça,
Mais a luz da liberdade!”
Hodja, que estava presente,
Ergue-se e põe-se a clamar,
Mui convicto, de repente,
Crente de vir a alcançar:
- ”Ó Alá, senhor do mundo,
Dá-me doze potes de oiro,
Uma casa grande e, ao fundo,
Um lago, um jardim, com loiro
Cabelo de raparigas
Bem novas e sedutoras
Que a mui me agradar obrigas
A todas e quaisquer horas!”
O imã tentou calá-lo
E chamou-lhe de infiel
A blasfemar com regalo
Sacrílego e o repele.
- ”Mas porquê?!” - diz com espanto. -
“Faço o que faz o imã...”
- ”Como assim?!” - gritam do canto.
- ”Bem, então! Cada manhã,
Cada qual, buscando o bem,
Pede aquilo que não tem.”
Machado
Um camponês perde um dia
Das freimas dele o machado.
Busca em casa, faz vigia,
Tudo em vão, em todo o lado.
Avista então um vizinho
A desviar, passando, o olhar.
Cara e gesto comezinho,
Atitudes, aquele ar,
Tudo nele revelava
Que era ladrão de machados.
Já quase o denunciava
Pondo a público tais dados
E levando-o ao juiz,
Quando recupera então
O machado: uma raiz
O esconde caído ao chão.
Voltou a ver o vizinho:
Afinal, não tem sinal
Do ladrão que ele, adivinho,
Nele presumira real.
Malhas
Acaso e necessidade
Tecem malhas do destino,
A sorte que nos persuade
E a que, queira ou não, me inclino,
Quando piso o chão que grade.
Roleta russa jogamos,
Uma bala no tambor,
Das seis com que o completamos:
Giramo-lo e é o que for,
Quando à fronte o disparamos.
Um actor polaco tinha
De interpretar um papel
Dum militar da marinha
Que, no meio do tropel,
Aquela bala sozinha
Jogava ao terceiro acto,
Numa aposta que ganhava:
Preme o gatilho e o impacto
Nunca o tiro disparava.
Com a vida mal, de facto,
Desanimado, introduz
Uma bala verdadeira
No tambor. E não traduz
A informação desta asneira
A ninguém, que o não seduz.
Pois por vinte e duas vezes,
Com sorte bem milagrosa,
Representa sem reveses.
A cena com ele goza
Com tiros secos, corteses.
Mas no dia vinte e três
Um febrão grave o abateu
E cai à cama de vez.
Quando o aviso recebeu,
Tapa o teatro o revés,
Dele chama o substituto.
E foi com grande alegria
Que este ensaiou o produto.
Quando o cano à fronte enfia,
Morre em cena, ao tiro bruto.
Ergueu-se dias depois
Aquele actor principal.
Foi ele que, dentre os dois,
Assistiu ao funeral...
Mas nunca mais meteu, pois,
No tambor balas daquelas,
Não vá o diabo tecê-las.
Viajante
Um viajante atravessa
A floresta solitária.
Uma quadrilha depressa
Despoja-o da indumentária,
De tudo o mais em seguida.
- ”Vamos deixá-lo com vida?”
O punhal dum salteador
Logo lhe aponta à garganta.
- ”Mas matá-lo que valor
Nos traz, de que é que adianta?”
Atam-lhe aos pés cada mão,
Da vala fica no chão.
Mais tarde outro salteador
Vem junto do viajante,
Desata-o, trata-lhe a dor,
Segue com ele adiante.
- ”Vem agora atrás de mim,
Vou guiar-te até ao fim.”
Caminharam pelo escuro
Noite fora, tempo além,
Até caminho seguro
Se vislumbrar que lá vem.
- ”Tua aldeia fica ali
Ao fundo, vai por aqui.”
- ”Acompanha-me até casa,
Quero-te recompensar.
Comerás do que te apraza,
Beberás lá no lugar.”
-”Não posso ir” - com pundonor
Respondeu o salteador.
- ”Mas porquê?” - o outro se espanta.
- ”Porque sou um salteador.
A polícia desencanta
Minha presença ao odor.
Viria logo a correr
Em tua casa me prender.”
Com isto deu meia volta,
Dali desapareceu.
Três forças andam à solta
Tecem da vida o mantéu:
Uma assalta, uma outra ajuda,
Na fuga a final se escuda.
Aldeia
Numa aldeia abandonada
Do mundo dos distraídos
Um rico tem a morada
E um pobre tem desvalidos.
Trepa um dia o rico ao monte
A mostrar com largo gesto
Ao filho todo o horizonte:
- ”Olha o nosso e olha o resto,
Será um dia tudo teu.”
Trepa ao monte por igual
O pobre, a fruir do céu.
De espanto ao filho em sinal,
Na emoção de quanto o acolha,
Murmura-lhe apenas: - ”Olha...”
Tundra
Na tundra siberiana
Um homem encontra um preto,
Julga mesmo que se engana:
Jamais um vira em concreto!
Perplexo, pergunta então
Quando com ele se cruza:
- ”És a noite? A noite ou não?”
Resposta, porém, recusa
O preto e dali se afasta.
Um dia após, no lugar,
A curiosidade basta,
Vendo o preto ali passar,
A fazer que mais se afoite:
- ”Quem és? És ontem à noite?”
Sonha
Sonha o santo: uma mulher
De incomparável beleza
Encara-o com bem-querer,
Sorri-lhe tal quem o preza.
- ”Donde é que te provém tão
Maravilhosa beleza?”
- ”Um dia” - diz-lhe ela então -
“Choravas tu de tristeza:
Lavei minhas faces duas
Naquelas lágrimas tuas.”
Cão
Um homem está sentado
Lá no público jardim,
Um cão pela trela ao lado,
Aos pés dormitando assim.
Uma dama se aproxima
E senta-se à beira dele,
Olha o cão, um ser que estima,
Pergunta, a apontar-lhe a pele:
- ”O seu cão é um cão mansinho?”
- ”É muito mansinho, muito.”
Ela a mão devagarinho
Estende, em gesto fortuito,
Ao animal. De repente,
Este salta, vai mordê-la
E deveras ferozmente.
- ”Mas que me disse?!” - a sequela
É que a mão lhe está sangrando. -
“Afirmou-me que o seu cão
Era manso e eis senão quando...”
- ”O meu é. Mas este não
É o meu, já que esta manhã
Passeio o da minha irmã.”
Asceta
Um asceta, na esperança
De atingir o bem supremo,
Vê se não dormir alcança
Dezenas de anos seguidos,
De noite, a vergar o demo,
Até perder os sentidos.
Para tal, regularmente,
Nos olhos aplica sal
Até que o sangue fermente.
Já no limite das forças
Adormeceu, afinal.
Ai, virtude, a quanto orças!
Durante o sono, eis-lhe vem
A visão do Paraíso,
De Deus, dos anjos também...
Quando acordou, ficou triste:
- ”Procurei com tanto siso
Isto que no Além existe
Quando acordado e, afinal,
Só dormindo é que vi tal.”
Selvajaria
Após uma ditadura
A selvajaria impera:
Tanto há ganho com fartura
Como se esvai em quimera.
Dois búlgaros a uma esquina
Se encontram a negociar.
- ”Dois camiões quis a sina
De cigarros vir-me dar,
Cigarros americanos,
Um milhão por eles quero.”
- ”Pois é teu” - nem pesa enganos
O segundo, com esmero.
Selam de aperto de mão,
Vai cada qual a seu lado:
Um ver se encontra um milhão,
Cigarros, o outro enganado.
A terra sem roque ou rei,
A sequela a que anda atreita
Esta será: não há lei
E ninguém mais a respeita.
Música
Há na música indiana
Harmonias para a noite,
Harmonias para o dia
E, quando ninguém se engana,
Não há verão que lhe acoite
Dum inverno a melodia.
E diversos sentimentos
Dão vários de canto alentos...
Um rei que era caprichoso
Chama um mestre do sitar,
Pede-lhe um canto da noite
Quando o sol brilha fogoso.
- ”Impossível” - se a queixar,
Sem que mais longe se afoite,
Começa o músico atento. -
“De manhã noite nem tento.”
- ”Toca na mesma!” - “Não posso...”
- ”Recusas? Mando cortar
Já tua cabeça aqui!”
Ante a ameaça, tenta o esboço
O melhor que ele alcançar,
Toca noite, um peso em si.
Faz que a luz empalideça:
- O Sol a pôr-se começa!
Saudá-lo
Quando um novo Papa é eleito,
Os chefes, por tradição,
Doutra qualquer religião
Vêm saudá-lo a preceito.
Entre eles vem um rabino,
O mais ancestral de Roma.
Após a praxe, ele toma
Um sobrescrito mui fino,
Lacrado, de antigamente.
Pega-lhe o Papa na ponta,
Logo um cardeal o aponta
E ao ouvido algo comenta.
Sem abrir o sobrescrito,
Logo o Papa o devolveu
Às mãos do rabi judeu,
Tratando-o como um proscrito.
Este ritual perdura
Há muitos séculos já.
Que é que aquela carta apura
E tais gestos porque os há?
É o segredo dum cardeal
Que à hora da morte o conta
A um vivo que o logo aponta
Para aos Papas dar sinal
Que no futuro vierem.
É assim sucessivamente,
De longe, imemorialmente.
Ora, há imprevistos que ferem:
Há um século atrás morreu
O cardeal, de repente,
Que o segredo tem presente
E a transmissão se partiu.
Contudo, no protocolo,
Todos os Papas seguintes,
Da tradição fiéis ouvintes,
Cumprem o ritual a solo
Sem nenhuma confidência:
A carta é de devolver,
Devolvem sem ver sequer
Se contém qualquer pendência.
Se havia, pois, um segredo,
Parecia estar perdido.
Mas o actual Papa, atrevido,
Quer limpar suspeita e medo.
Nada o proíbe de ver,
Consultas devidas feitas,
Da carta quais as receitas
Que decerto há-de conter.
Os cardeais de antigamente
Que falavam ao ouvido
Se calhar nem o sentido
Sabiam dali pendente.
O Papa logo aceitou,
Sem a devolver, a carta.
O rabino nem se aparta,
Do espanto que o alegrou.
Finda que foi a audiência,
Um cardeal e uns peritos,
A um recanto circunscritos,
Fecham-se com impaciência.
Abre o Papa o envelope
E descobre um documento
Muito antigo, bolorento,
Em língua que ninguém tope.
Vêm os epigrafistas,
Linguistas ao Vaticano,
Esventram a fundo o arcano
E descobrem que são listas:
É duma casa de pasto
A conta de Última Ceia
Por pagar há era e meia,
De Cristo e os Doze o repasto!
O Papa muito se admira:
Então Jesus convidado
Não foi ao festejo dado,
Com eucaristia em mira?
A conta indica o contrário.
O rabino atesta então:
- ”É o texto em primeira mão
Que, através do tempo vário,
De geração se transmite
Em geração, há bem mais
De vinte séculos, tais
Os que conta quem o emite.
A Ceia que não se apaga,
Entre todas fundadora
Mesmo após tanta demora,
Nunca de facto foi paga.
Os meios para pagar
A dívida, sem demora,
Talvez tenha a Igreja agora,
Nem há juros a cobrar!”
Krishna
Quando Krishna era criança,
Tinha fama de maroto,
Era o guloso que alcança
Sempre o que lhe deu no goto.
Era oitava encarnação
Do deus Vishnu, benfazeja
Força que segura o chão
Do mundo, tal se deseja.
Um dia foi acusado
De haver de terra engolido,
Bem escondido, um punhado,
No que foi repreendido
Por Yasoda, a mãe terrestre,
Que explica que em caso algum
- Ela tenta o que o amestre -
Coma a terra que é comum.
- ”Não comi” - diz o pequeno.
- ”Abre então a boca, a ver...”
Obedece e um cheiro a feno
Vem-se dele a desprender.
Debruça-se Yasoda e vê
Árvores, rios, montanhas,
Todo o Universo à mercê
Cheio de estrelas tamanhas,
Dos seres toda a existência,
O passado e o futuro,
Dos mortos parca a vivência,
As formas do nascituro.
Viu além toda a emoção
Que todo o ser vivo tem,
Medo, raiva e coração,
Deslumbramento também.
Viu as lágrimas, o riso,
Os estádios da matéria,
Nada lhe escapa ao aviso,
Do filho na boca séria.
As parcelas do Universo
Todas vão no seu lugar.
- ”Está bem, é um mundo terso,
Podes a boca fechar.”
Quarto
Dorme um frade sozinho num castelo antigo
Quando ouve à meia-noite alguém bater à porta.
Entra um maldito enorme, nariz inimigo,
Olhos de brilho azul, a língua negra e torta.
- ”Quem és e que procuras?” - diz ousado o frade,
A quem Deus dava forças, sem temor algum.
- ”Aquele que virá depois de mim é que há-de
Explicar-to” - responde o que é o fantasma um.
O segundo maldito entra então, eram dois.
- ”Quem és e que procuras?” - perguntou o frade.
- ”Aquele te dirá que vem de mim depois” -
Retorque-lhe o maldito que, segundo, o invade.
Entra então o terceiro dos malditos soezes.
- ”Quem és e que procuras?” - insistiu o frade.
- ”Aquele que após mim entrar diz quanto prezes.”
O frade não arreda, que tal nunca o enfade.
Ora, o quarto maldito que é que diz então?
- Pois o quarto maldito nunca veio, não.
Ilusão
Ramakrishna conta,
Ao falar de Maya,
A ilusão que aponta,
Na qual tudo caia.
Um homem pobre e sem labor
Saiu de junto da mulher,
Do filho doente (arde em calor),
Tenta, pedinte, o que puder.
Não conseguiu. Quando voltou,
Um dia após, o filho é morto.
Logo a mulher o lamentou,
Que ele morreu sem seu conforto.
Ficou a olhar para a mulher,
Para o cadáver, e sorria
O pobre do homem esmoler.
Por que razão, não se entendia.
- ”Porque sorris?” - diz a mulher,
Sem o abarcar, muito espantada.
- ”Minha razão vou-ta dizer:
É que sonhei, de madrugada,
Que eu era um rei com sete filhos
Todos saudáveis, e feliz
Com eles vivo. Os meus sarilhos
São que acordei (bem o eu não quis)
E todos eles se hão sumido.
Diz-me tu quem mais lamentar:
Se o que doente hemos perdido,
Se os sete em vão sumidos no
ar.”
Teatro
Vai um homem assistir
Ao ar livre a um teatro.
Leva um cobertor ao ir,
Enrola-o, dobrado em quatro.
Quando chega, a peça ainda
Não havia começado.
Mas que modorra benvinda!
Deita-se e adormece ao lado.
Dorme tão profundamente
Que só acorda bem depois
De finda a função presente.
Dobra o cobertor em dois
E retorna para casa
Com risinho sinuoso
Murmurando, olhos em brasa:
- ”Muito bom! Maravilhoso!”
Lenhador
Um lenhador habitava
Numa aldeia e de manhã
Na floresta se adentrava
A trabalhar com afã.
À noite, quando voltava
Os aldeões reuniam
Em redor e ele contava
O que vira e eles ouviam.
Eram mais de mil inventos
Coloridos, variados,
A imaginários sedentos
Servidos, pratos cuidados.
Um dia encontrara um trol
Das raízes a sair,
Uma gigantesca mole
A falar do que há-de vir.
Outro dia foram ninfas
A mergulhar na cascata
E os faunos que nessas linfas
Armaram o nó que as ata.
Conhecia-os pelo nome,
Sabe querelas, amores,
A inveja que algum consome,
Canta deles os favores.
Crónica quotidiana
Da maga floresta erguida
Todas as noites emana
A uma aldeia embevecida.
Quando ia até junto ao mar,
Via sereias ao sol,
Tritões trompas a soprar,
Cavalgando a onda mole.
Uma que outra vez por ano
O bispo do mar lhe dava
Notícia do mundo arcano
Que na lonjura morava.
Também com elfos se via,
Gnomos, ogres e até fadas
E destas contos ouvia
Para as noitess encantadas.
Sílfides voavam no ar,
Criaturas plantas sendo,
Minhocas a vir falar
Com cobras tais que só vendo.
O lenhador inventava
Histórias mil destes seres
Que na aldeia em todos grava,
Nos homens e nas mulheres.
Emaranhado sem fim,
Com mil ramificações,
Mantinha em suspenso assim
Insaciáveis os aldeões.
Acabavam por julgar
Que não podiam viver
Sem a aventura estranhar
Que o relato lhes trouxer.
Desejos, preocupações
Deles lá reconheciam
Ou em longínquos torrões
Aportavam que nem viam.
Era o que mais divertia,
Acalmava e a dormir
Bem melhor serve de guia
Até o alvor do porvir.
Um dia tudo mudou.
O lenhador lá partiu
Para a selva onde suou,
Ao ombro o machado frio.
Mal tinha entrado no bosque
Viu, desta vez de verdade,
Onde o tojo mais se enrosque,
Dois sátiros, mãos em grade,
Uma ninfa a perseguir
Que pedia ajuda às plantas,
Aos gnomos, a quem ouvir,
E que só foi salva, às tantas,
Por um dragão voador
Que a uma nuvem a levou,
De enxofre em meio a um odor
Com que os ventos sufocou.
Ouviu também de elfos cantos,
Nítidos os viu dançar,
Das sereias os encantos
Vieram-no cumprimentar.
Pois até o bispo dos mares
Veio benzê-lo em latim
Numa vaga alçada aos ares
Com um trono de serrim.
Isto durou todo o dia...
Quando retornou à aldeia,
Todo o habitante que havia
Recolheu à sala cheia,
Que ao hábito ninguém foge,
À espera do que revele.
- ”Ora, então, que é que viste hoje?”
- ”Hoje? Nada!” - responde ele.
Cava
Um homem, torrando ao sol,
Cava, cava, no deserto.
Um beduíno com que bole
Pergunta, ao chegar-lhe perto:
- ”Que fazes?” -”Cavo um buraco.”
- ”Mas para quê?” -”Procurando
Ando moedas que num caco
Escondi já não sei quando.”
- ”Devias ter reparado,
A marcar o lugar onde,
Em algo que hajas fixado,
Rochedo, erva onde se esconde...”
- ”Reparei...” - diz o das moedas.
- ”No que foi?” E este então ri
Ante estas marcas tão ledas:
- ”Das nuvens na sombra ali.”
Acordou
O marido adormecido
Acordou mui bruscamente.
Dá mil voltas e um gemido,
Acorda a esposa dormente.
- ”Que agitação invulgar!
Vais transpondo um rio a vau?!”
- Ӄ que acabo de sonhar,
Tive um sonho muito mau!”
- ”Que sonho?” - ”Sonhei que a burra
Do nosso vizinho acaba
De à luz dar, enquanto zurra,
Um burrinho em que desaba
Esta má sorte sem nome:
O burro nasceu sem cauda!”
- ”Isso é o que aqui te consome?!
Estás à espera que aplauda?!”
- ”Imagina que o burrinho
Cai num buraco, uma vala...
Pede-me ajuda o vizinho
Para a cria então sacá-la.”
- ”Sim, vai pedir. E depois?”
- “E depois?! Depois é o diabo!
Como é que o apanho, pois
O burrico não tem rabo?”
Deitado
Uma noite em que a mulher
Jantou na sua família,
Volta a casa e que vem ver?
Um motivo de quezília:
Dorme o marido em sossego
Deitado com um borrego.
- ”Que é que é isto?!” - grita ela.
- ”Nada” - diz ele. - ”A questão...”
- ”Não contes outra balela!
Agora tens atracção
Por borregos?! Que borrada!”
- ”Não estás a entender nada!
Sonhei que me entrava o lobo
No redil e, logo à entrada,
Comia o borrego bobo,
Dentada atrás de dentada.
E ele é que, de medo, clama
Por abrigo em nossa cama.”
Sem-abrigo
Dois sem-abrigo dormiram
Mui vagamente abrigados
Na entrada que conseguiram
Duns prédios abandonados.
Despertam para a manhã
Dum inverno bem malsã.
Ambos tiritam de frio,
Nada têm que comer.
Os transeuntes, ao rocio,
Correm por eles sem ver,
Apressam os passos ante
A chuvada penetrante.
Um deles ao outro diz:
- ”Tive um sonho extraordinário.
Num paço vivo feliz
Com divãs de odor mui vário,
Bailarinas ao serviço,
Vinhos com sabor castiço,
Todos os frutos do mundo
Num pomar à discrição,
Cada canto o mais fecundo...
E tu, não sonhaste, não?”
- ”Eu não sonhei nada” - diz
Dos dois o outro infeliz.
- ”Tens sorte” - torna o primeiro,
Após vaga reflexão.
- ”Tu é que, num grau cimeiro,
A tens, o sonho é um condão.”
- ”Não, és tu: desiludido,
Não acordas destruído.”
Discutiram tempo além
Sem nunca chegar a acordo,
Como à miséria convém,
Sem barco onde entrar a bordo.
Qual o bem que o mal persuade:
O sonho ou a realidade?
Cura
Um homem religioso
Apaanhou doença grave.
Sonhou então, luminoso,
Que peregrinar é a chave
Da cura. Vai a Konya,
De Rumi na sacra via.
Em sonhos lhe garantira
Um célebre santo imã
Que há muito de nós partira:
Vira a cura de manhã.
Reuniu forças então,
Foi em peregrinação.
Custou-lhe cara a viagem,
Cansou-o, pois que as estradas,
Sem poiso nem estalagem,
Todas vão enlameadas,
Muitas tinham aluído
Das chuvadas que hão caído.
Em Konya, ele ficou,
Sujo, em caravanserai,
Mas as devoções orou,
Aos santos lugares vai.
Ao túmulo de Rumi
Voltas deu de dar aí.
Só depois se fez à estrada
Integrado em caravana.
Esta, a caminho, é atacada
Por bandos de mão profana
Que o doente maltrataram,
Todos os bens lhe roubaram.
Esgotado, regressou
Ao lar para repousar.
Dias após constatou
Que a doença, sem melhorar,
Afinal, mais parecia
Agravar-se dia a dia.
Então confronta o imã
Que em sonhos lhe aparecera:
- ”Prometeste, uma manhã,
Que em Konya a cura houvera.
Fiz o que disseste e sou
O morto em pé que aqui estou.”
O imã não deu resposta.
Porém, na noite seguinte,
Quando o doente se encosta
Na choupana sem requinte
E adormeceu para o lado,
- Sonhou que estava curado.
Virgem
Uma rapariga ainda virgem sonha
Que um príncipe mágico na aldeia pára,
Que por ela vem, para que o sol lhe imponha
Que nele rebrilha como jóia rara.
De manhã levanta-se e com pressa corre,
Deita-se à procura do encantado seu,
Mas ninguém ouviu onde esse amor ocorre.
Um velho sentado entre uma fonte e o céu,
Lhe diz quando passa lá por perto dele:
- ”O teu tempo perdes, o teu tempo perdes.”
Nem ouve o que diz, presa ao que além a impele,
Sai da aldeia e pula pelos campos verdes.
Ninguém viu tal nobre. Ao retornar, cansada,
Passa junto ao velho que de novo diz:
- ”O teu tempo perdes.” Mas não ouve nada,
Volta para casa; não, porém, feliz.
Tentam acalmá-la, que a razão lhe volte,
É apenas um sonho... São inúteis freimas,
Que o sonho é mais forte e faz com que ela solte
Novas correrias após muitas teimas,
Pois de novo o viu que lhe estendera os braços
Num sonho envolvente. Cruza junto ao velho,
Perto da nascente, com os mesmos traços:
- ”O teu tempo perdes.” Sempre igual conselho!...
Busca em toda a parte, fere pés e pernas
Nas pedras dos trilhos, no silvado agudo.
Não tem mais resposta, ralações supernas
São o que recolhe, conferido tudo.
Quando a cruzar volta pelo velho, à fonte,
Torna a dizer-lhe ele: - ”Pois teu tempo perdes.”
Na noite seguinte, o sonho estende a ponte:
O príncipe os
braços abre, herança que herdes,
E a moça se lança na prisão que a enlaça.
Louca de esperança, a oposição venceu
De pais, de vizinhos, contra dela a traça,
Corre além do velho que já nem ouviu:
- ”O teu tempo perdes, o teu tempo perdes.”
Após vários dias de mil buscas vãs,
Retorna esgotada. Quanto dela houverdes
É roupa em farrapos, terra em jovens cãs,
Pernas a sangrar... Como não pode mais,
Senta-se na pedra junto ao velho e à fonte.
Ele nem diz nada. Nos fiéis caudais,
Onde à sede a vida mais saúde aponte,
Da nascente perto vai colher em mãos
Água que oferece à rapariga lassa.
Ela inclina o rosto, vê tais dedos sãos,
Tão juvenis mãos em quem por velho passa,
Mais um anel de oiro em que um diamante brilha,
Que levanta os olhos, sob a capa vê
Que lhe oculta o rosto de negror mantilha,
Que um jovem se esconde, de olhar onde lê
O brilho da aurora, lábios sorridentes:
É o que vira em sonhos e a tomara em braços!
- ”Eras tu aí?!” De gestos mui silentes
Ele nem responde, mas não há embaraços.
Ela torna ainda: - ”Porque não disseste
Que eras tu mais cedo?” E ele então responde:
- ”Como é que eu sabia, com saber que preste,
Que era quem buscavas, sei lá bem por onde?”
Dragão
Sonhou alguém com um dragão atroz,
Aterrador, com uma goela em chamas
Ameaçadoras, a urrar feroz.
Ora, assustado, lhe questiona as tramas:
- ”Que vai passar-se? Que aterrado estou!
Irá comer-me? Ai, meu Deus do céu!”
Diz-lhe o dragão, a suspender o voo:
- ”Que quer que diga? O sonho é todo seu!”
Rua
Numa pouco iluminada
Rua uma mulher caminha
Numa passada apressada,
Medrosa, que vai sozinha.
Mas é um sonho. E um homem sai
Da sombra, cola-se a ela,
Estende a mão, quase vai
Prender-lhe a cintura bela.
- ”Cavalheiro, que é que faz
Pare ou a polícia chamo!”
- ”Ora, vós é que sonhais
Seja o que for que eu reclamo...”
Noite
Uma noite, simplesmente
Numa camisa comprida,
Sai do leito, lentamente,
A mão à frente estendida.
Atravessou o jardim,
Deu volta completa à casa
E à porta de entrada assim
Retornou tal quem se atrasa.
Um vizinho, quando o viu,
Pergunta por sobre o muro:
- ”Que fazes?! Que é que te deu?!”
- ”Chiu! Cala-te! Só murmuro...”
- ”Diz-me então que é que se passa!”
- ”Minha mulher conta a todos
Que um sonâmbulo com graça
Sou. Confirmo-o com meus modos.”
- ”E então?” -”Chiu! Podes levar-me
A um mal com que nem concordes.
Há um risco de grande alarme:
Sobretudo não me acordes!”
Aborígenes
Aborígenes primevos
Australianos um dia
Caminhavam, de hoje coevos,
A um etnólogo por guia,
Por uma estéril paisagem
Dos desertos interiores.
O cientista em viagem
Anotava os pormenores
Dos actos deles e gestos.
Regularmente este grupo,
Gente de acordos honestos,
Sem ordens e sem apupo,
Parava um longo momento.
Não era para comer
Nem para ver um invento
Que a natura ali tiver,
Nem sequer para sentar
Nem descansar da fadiga.
Era somente parar
Sem nada que a tal obriga.
À segunda ou à terceira,
O etnólogo então pergunta
Que faz que desta maneira
Todos parados os junta.
- ”É bem simples: nós estamos
À espera de nossas almas.
As almas que nós tenhamos,
De vez em quando, mui calmas,
Param no trilho a cheirar,
Ver, ouvir algo escapado
Aos corpos com que hão-de andar.
As razões de haver parado,
Sendo no íntimo secretas,
São mui fortes, sedutoras.
Por isso, mesmo discretas,
Se os corpos correm por horas,
As almas param, por vezes,
Durante uma hora inteira.
Urge esperarmos, corteses,
Por elas, do trilho à beira.”
Bali
Em Bali contam que, à morte,
Almas há mui descontentes,
Recusam largar à sorte
Os corpos ali presentes,
Mormente quando eles vão
Queimar-se em pira no chão.
Almas há recalcitrantes.
Em pública cremação
Vestem os participantes
As vestes da tradição,
Cumprem rituais antigos
A exorcizar inimigos.
Uma dolente alma esquiva
Duma mulher morta cedo,
Cremação definitiva
Recusa ao corpo em degredo
Que lhe houvera pertencido,
Por um fado não cumprido.
Dela a irritação sussurra
De asas em roucos ruídos,
No toiro que salta e urra,
Que a carreta com gemidos
Puxava, tal como quem
Picado é de insectos cem.
Os oficiantes contam
Que os cabelos se moviam,
Os pêlos na barba apontam
Para onde não queriam.
Tentam pegar fogo à lenha,
Logo a apaga o ar que venha.
Foi preciso interromper
A cerimónia letal.
Dum celebrante vão ver
Que das almas o sinal
Descontente entenderia,
Ao que a voz comum dizia.
As almas que rejeitarem
Morte ao corpo que as alberga,
Conta o velho, é de enjeitarem
O karma que ao alto as erga:
O corpo não satisfez
O que devia, de vez.
Agitam-se loucamente
Na esperança apavorada
De que o morto, finalmente,
Retorne à vida passada
E cumpra a tarefa agora
Que a terra dele lhe implora.
Reuniram-se em conselho:
Que fazer? Saber das queixas
De alma que tem preso o artelho,
Remediá-las, com as deixas.
Mas o corpo estava morto:
Como da morte ir ao horto?
O ancião pede que o deixem
Sozinho uma noite inteira
Junto à morta. Que se queixem
Os do Além é o que requeira
Cada oração, cada reza
Cujo segredo ele preza.
Pela manhã declarou
Que das iras de tal alma
Já sabia: desejou
Dum amor colher a palma
Dum vizinho e tal prazer
Recusara o corpo ter.
O brâmane encarregado
Foi de visita a tal homem,
Explicar-lhe aquele fado
Cujas sequelas consomem
O espírito já partido.
O homem fica surpreendido,
Não tinha de tal ideia,
Pois conhecia a mulher
Desde miúdo, na aldeia,
Mas nem sonhara sequer
Que viver pôde tal sina
Duma paixão clandestina.
O religioso pede
Que receba a alma penada,
Se umas horas lhe concede
A mantê-la bem tratada.
Ele vai falar à esposa,
Que é casado e dum lar goza.
Ela fica surpreendida
E por demais inquieta,
Se há uma ligação vivida
Outrora e tida secreta
E que o brâmane informado
Do facto haverá ficado.
Demorou a convencê-la
Que não era nada disto,
Um adultério não vela
Um morto, mesmo benquisto,
O que ali se tem de pôr
Não é sexo mas amor.
O marido se dirige
À casa da mulher morta
(Onde tal alma o exige
E o segue), a ver se a conforta
Aquela friorenta noite
Que lhe oferta onde se acoite.
Amigos e conhecidos
Ficam até madrugada,
Fora apuram os ouvidos,
Mas ninguém logra ouvir nada.
De manhã, o homem saiu,
Ao lar retorna e dormiu.
O funeral recomeça,
A brisa é calma, mui suave,
Erguem-se as chamas depressa,
Sem peias, quais penas de ave...
Tudo finda calcinado
E de almas, mais nenhum dado.
Narciso
Quando Narciso morreu,
As margens, mui desoladas,
Pediram gotas ao rio
Para as lágrimas choradas.
- ”Nem todas as minhas águas
Chorariam tantas mágoas.
Como o amava!” - e o rio chora.
- ”Impossível não o amar!” -
Carpem as margens agora. -
“Como era belo, que olhar!”
- ”Era belo?!” - diz o rio.
- ”Quem melhor que tu tal viu?
Da margem se debruçava
Ele em ti todos os dias
E nas águas contemplava
Suas faces fugidias.”
- ”Ah! Se o amava não era
Por isso” - o rio assevera.
- ”Então porquê?” - ”Porque, quando
Ele ali se debruçava,
Eu podia ver, cantando,
A beleza que agitava
Minhas águas, sem escolhos,
Na fundura de seus olhos.”
2
Ao Serão de Segunda-feira
Mendigo
Um homem andrajoso, miserável,
Como um mendigo penetrara um dia
De Bagdade no paço do califa.
Na ausência do venerável,
Se atira, sem cortesia,
Do trono para a alcatifa.
Adivinhando o insólito, a real guarda
Não se atrevera a expulsar o intruso.
O camareiro-mor acorre ao caso:
- ”Sabes que ocupas, sem farda,
Um lugar apenas de uso
Do califa em breve prazo?”
- ”Sim, sei.” - ”Sabes quem é o nosso califa?”
-”Estou acima dele.” - ”A inteligência
Perdeste, que a pobreza ta não dá.
Aqui não ganhas a rifa,
Por sobre Sua Excelência
É só Maomé que estará.”
- ”Sei” - disse o desgraçado. - ”E o Profeta
Saberás tu quem é?” - “Sei muito bem,
Estou acima dele.” Erguem as armas
Que o desplante despoleta
Os guardas que se mal têm.
- ”Deixem, que após ireis dar-mas” -
É o camareiro-mor que mais ajunta:
- ”Acima de Maomé só vive Deus.”
- “Sei” - responde o mendigo. - ”E Deus morreu?!”
- ”Acima estou, se é pergunta.”
- ”Pois nada acima há nos céus!”
- ”Claro! E tal nada sou eu!”
Odor
Um pobre come pão seco
Em frente dum grelhador
De avaro churrasco e peco.
Quer cobrar-lhe o dono o odor,
Recusa o pobre e um juiz
Vem decidir a querela.
Uma moeda que condiz
Com o custo da tabela
Joga ao chão do restaurante
E ao dono diz que ali queda:
- ”Paga-te com, doravante,
O barulho da moeda.”
S. Clemente
De Alexandria S. Clemente
Diz que um egípcio combinado
A soma certa, mui contente
Tinha por ter o favor grado
Da cortesã mais glamorosa.
As condições aceitam ambos,
Combinam bem hora amorosa,
Ele a fremir já de pés bambos.
Mas, entretanto, o jovem sonha
Que tinha obtido da moçoila
Todo o prazer que se suponha,
Drogado em sono de papoila.
Todo o prazer então gozou
Mui solitário, noite fora.
Já satisfeito, ele acordou,
Quer cancelar o encontro agora.
A cortesã disto discorda,
Manda intimá-lo e vai ao rei
Bocóris ver com quem concorda.
E ele decide em sábia lei:
A cortesã deve ser paga,
Porém de certa forma nova.
Ao sol a bolsa que o réu traga
Esvaziou, boa-fé prova:
- ”Mas ela fica, o mais lhe vedas,
Só com a sombra das moedas.”
Molho
No Zaire, um homem idoso
Avança penosamente
Por caminho pedregoso,
De lenha um molho pendente
Às costas, rumo à sanzala,
Apoiado na bengala.
Pára a recobrar alento
E pousa o molho no chão
Dele ao lado, lento e lento.
Diz na pausa ao molho então:
-”Não aguento... Toda a vida
Molhos carrego em seguida.
Contente, quando era jovem;
Sem esforço, homem maduro,
Agora, que mal me movem
Os meus passos, de inseguro,
Das forças este resquício,
Ao levar-te, é já um suplício.”
De repente, ouve uma voz
Que lhe vem da lenha e diz:
- ”Ouves-me? Ouves tu, a sós?”
- ”Quem fala? Será um juiz?!”
- ”Sou eu” - responde-lhe o molho. -
“Ao lado estou, não me encolho.”
- ”És um molho então falante?”
- ”Não muitas vezes, mas hoje
Ouvi-te, por um instante,
A queixa que de ti foge.
Um molho de lenha, a par
De tal, pode então falar.”
- ”E que me queres dizer?”
- ”Se tu, para me levar,
Cansado estás de morrer,
Às minhas costas trepar
Deves, que eu levo-te a ti,
Como a mim tu até aqui.”
- ”E tu podes fazer isso?!”
- ”Pois claro, se to proponho!”
E, como que por enguiço,
O velho vê, como em sonho,
O molho a se levantar,
Ficar de pé no lugar.
Apoia-se em quatro galhos
Que mexem debaixo dele
Como perninhas sem talhos.
- ”Vais a andar!” - o velho expele.
- ”Agarra-te a mim sem medo,
Que eu levo, fim do degredo.”
- ”Certo estás de me levar?”
- ”Muito tempo me levaste,
Está na vez de eu prestar
Serviço igual quanto baste.”
O molho ligeiramente
Se inclina então para a frente.
O velho, contra o receio,
Se instala o melhor que pode
Da ramagem pelo meio,
Pés num galho que não rode,
Braços a agarrar-se bem,
Face entre as folhas que tem.
- ”Estás bem?” - pergunta o molho.
- ”Muito bem!” - retruca o velho.
- ”Cuidado enquanto recolho
O bordão de bom conselho.”
Põe-se então a caminhar
Trilho fora sem parar.
Os ramos um pouco estalam
Mas o todo aguenta bem.
Os pés das lenhas abalam
Carregando o velho além.
Fecha os olhos, em repouso,
Sorrindo, o velho, com gozo.
Durante um tempo, avançaram.
De repente, há uma mudança
No andamento que levaram.
O velho olha e quanto alcança
É que não vão no caminho,
Mas no matagal vizinho.
- ”Não estamos no caminho!” -
Grita o velho ali, zarolho. -
“Já não vamos, adivinho,
Para a aldeia” - impreca ao molho.
- ”Porque iria para a aldeia?” -
Diz o molho. - “Qual a ideia?”
- ”Porque é na aldeia que eu moro,
Lá que vive a minha gente,
Que vê se não me demoro,
Que a noite cai de repente.
Estarão à minha espera
Antes da hora da fera.”
- ”Tu tens medo, tu, das feras?!”
- ”Naturalmente que tenho,
Todos, em todas as eras,
Temem o seu arreganho.”
- ”De feras não tenho medo” -
Murmura o molho em segredo.
- ”De que é que tens medo então?!”
- ”Tenho dos homens,” - responde -
“Do destino que me dão
Na sanzala, se for onde
Eu te levar. É que sei
O destino que terei:
Minhas folhas a comer
Dás às cabras e carneiros,
Vão-me em gravetos fazer,
Que queimam melhor que inteiros.
Isto é que os molhos de lenha
Temerão que lhes advenha.”
- ”Para onde então me levas?”
- ”Ias-me levar à aldeia.
Faço o mesmo, antes das trevas:
Levo-te, floresta meia,
Para o lar onde nasci:
Minha gente vive ali.”
- ”Que vais fazer? Vais queimar-me?!”
-”Porque havia de queimar?
Pegar fogo, se tal arme,
À minha família e lar?
Vou largar-te na floresta,
Que a fera faça o que resta.”
- ”Na floresta não me deixes,
Que das feras tenho medo.
Deixa-me descer dos feixes!”
Logo o molho pára quedo,
O velho desce depressa,
Pisa o chão, de mente avessa.
Fica olhando para o molho
E o molho a olhar para ele,
Olhos de pau sem sobrrolho,
Casca seca em vez de pele.
Cai lento o Sol no horizonte
E há já feras que se aponte.
- ”Que fazer?” - pergunta o velho.
- ”Agora?” - do molho a voz
É sopro a esvair do espelho,
Vida a se apagar a sós. -
“Já não sirvo para nada,
Leva-me em tua jornada.”
- ”Achas?” - o velho pergunta.
- ”Rápido!” - o molho responde.
O velho depressa junta
Os galhos, o medo esconde,
E às costas, com a bengala,
O leva para a sanzala.
O mais depressa que pode
Caminha nas velhas pernas.
No atraso ninguém lhe acode,
Adormece das luzernas
Com as pálpebras pesadas.
Mas não pára. A noite cai,
Vê cada estrela que sai.
Não vai pensar nos joelhos,
Vão cada vez mais doridos,
Arqueja, cedem artelhos,
Os ombros já vão feridos,
Porém, curiosamente,
Na fadiga segue em frente.
Sabe que o repouso o espera,
Ao longe viu uma luz,
A aldeia não é quimera,
Família e todos traduz,
Prontos para o receber
Quando além aparecer.
- ”Estás zangado comigo?” -
Pergunta ao molho silente. -
“Não estás? De eu pôr-me a abrigo?...”
O molho de lenha, ausente,
Dele às costas, já sem vida,
É o silêncio em despedida.
Hassidismo
Um rabino muito jovem
Foi a um mestre do hassidismo.
- ”Quem és tu?” - e mal se movem
Do mestre os lábios de abismo.
- ”O neto sou do rabino...”
- ”Não te perguntei quem era” -
Corta o mestre, de ar ladino -
“O avô que no lar te espera.
Pergunto então outra vez:
Quem és tu? Sabes quem és?...”
Apanha
Quando Nasredim passeia
Com o amigo, este se abaixa,
O espelho apanha que ameia
Num canto, partida a caixa.
- ”Julgo que conheço este homem” -
Ao se ver no espelho diz.
Logo leva a que as mãos tomem
De Nasredim, mui feliz,
O espelho em gesto adivinho.
Olha nele o rosto seu
E comenta: -”Que espertinho!...
Claro, conheces: sou eu!”
Génio
Salomão aprisiona
Num pote de cobre um génio,
Do fundo do mar o adona,
De ondas lhe cobre o proscénio.
O génio enriquecer
Jura quem o libertar.
Cem anos vão decorrer
E ninguém a o procurar.
Jura que ao libertador
De quanto tesoiro houver
No mundo fará senhor.
Cem anos: nada a ocorrer.
Jura então os três desejos
Do libertador cumprir.
Mais cem anos e dos brejos
Ninguém vem-lhe a tampa abrir.
Os séculos vão passando.
E o génio jura (é a verdade)
Que irá matar, judiando,
Quem lhe der a liberdade.
Encontram-se
Encontram-se dois um dia
Na praça duma cidade.
- Ӄs tu?! Mas quem o diria?!
Não vinha à espera, em verdade,
De te ver, mudaste tanto!
Tinhas o cabelo claro,
Hoje é moreno, que encanto!
É dum preto muito raro...”
O outro quer retorquir,
Este, porém, não o deixa
E continua, a sorrir:
-”Eras alto, uma fateixa,
Hoje ao meu ombro mal chegas!
Que aconteceu entretanto?”
O outro, em gestos de mãos cegas,
Tenta desfazer o encanto,
Mas o primeiro retoma:
- ”E a cicatriz aí na testa
Apagaste-a com a goma
Como a texto que não presta?”
E, sem esperar resposta,
Acrescentou: - ”Francamente,
Simão, queres uma aposta?
Mal te conheci, parente.”
- ”Eu não me chamo Simão” -
Consegue dizer, por fim,
O outro, interdito. - “Ai não?!
Também muda o nome assim?!”
Distraído
Era um homem distraído.
À hora de se deitar
É só roupa a se espalhar.
De manhã, sono volvido,
Já nada logra encontrar.
Anota então num papel
Os diversos cantos onde
Põe a roupa que se esconde
Como um rebanho em tropel.
Perde papéis quanto bonde...
Escreve em papel segundo
Qual o lugar do primeiro.
Perde o segundo, pioneiro
Doutros, encadeado fundo.
Nem com lembrete sineiro!
Combina os métodos todos
E, em manhã determinada,
É toda a roupa encontrada.
Do dia é o melhor dos bodos.
Da voz do imo há uma chamada,
Bem de dentro (quem responde?):
-”E tu? Onde estás tu, onde?”
Termos
Nasredim encontra um homem
Que não conhece na rua,
Que diz (termos que o consomem):
- ”Bênçãos na cabeça tua!”
Nasredim, surpreendido,
Pergunta ao homem, de lado:
- ”Quem é que tens no sentido?”
E o outro, desconcertado:
- ”Falo contigo, porquê?”
- ”Então sabes quem eu sou?”
- ”Não...” - admite o outro, ao pé.
- ”Nem quem sou nem onde vou
Sabes tu, na tua crença.
Que te faz pensar que actua,
Que haverá que te convença
Que é minha tal bênção tua?”
Porta
Nasredim, ao ir de casa,
Deixa sempre a porta aberta.
Mal torna, num golpe de asa,
Tranca tudo a hora certa.
Qual a razão da atitude?
- ”Muito simples. Nada tenho,
O bem de maior virtude
Sou eu próprio. Quando venho,
Seja o motivo qual seja,
É normal que me proteja.”
Sábio
Um sábio muito eminente
Do Afeganistão viera
Da invasão mongol premente
A fugir, tal duma fera.
Foi recebido em letrado
Círculo havido em Damasco.
Dele em honra organizado
Houve encontro, vinho em casco,
Com poetas, tradutores,
Com cristãos, maometanos,
Físicos, comentadores,
Judeus mesmo, até ciganos...
Discursou o presidente,
Louvou o labor insano,
Todo o saber eminente
Do grande homem, homem do ano.
E chegou mesmo a dizer:
- ”Eis entre nós o mais sábio
Dos sábios que o mundo houver
Desde Aristóteles. Sabe-o
Quem dele ouvir as lições.”
Pensa o sábio, lá com ele:
- ”Cá está. Já tem restrições...”
E fechou-se em sua pele.
Psiquiatra
Ao psiquiatra vai um homem
E fala de seus problemas.
Mil tristezas o consomem,
É abatido que ouve lemas,
Nada o retém nem importa
E a melancolia plena
Quem o rodeia a suporta,
Sempre a aturar-lhe tal cena.
- ”E viajar, já tentou?” -
Pergunta o médico após.
- ”A viajar sempre estou,
Viajo toda a vida a sós.”
- ”Não vejo nada de grave.
Preciso é dar-lhe o abanão,
A se interessar, suave,
No que toque o coração.
Olhe lá, se ao circo for?”
- ”Ao circo?!” - ”É que há lá um palhaço,
O Grock, um grande senhor,
É de rir a par a passo.
Decerto far-lhe-ia bem.”
- ”Não posso.” - ”Porquê? Já viu,
Ajude um pouco também...”
- ”É porque o Grock sou eu.”
Al-Mokri
Al-Mokri, o mestre islâmico,
Empreende longa viagem
Ao Egipto panorâmico,
Pérsia e África selvagem...
Uma década passou
Numa Ispahan, a mongol,
Que sufi sempre ficou.
Da poesia persa o rol,
A mais bela então do mundo,
Percorre em deslumbramento.
Em reputação fecundo,
Reclamam-lhe o ensinamento.
Da Pérsia vem à Turquia,
Aos dervixes rodopiantes,
Na cidade de Konya.
Auditórios expectantes
Vêm beber-lhe a palavra.
Escreveu vários relatos,
Selectas de sua lavra
Que os copistas, com recatos,
Transmitem mui fielmente
Ao mundo então conhecido.
De quem Rumi tem em mente
É exegeta preferido.
Chega a ser-lhe atribuído
Um saber super-humano
Já de magia tingido,
De fados de anjos arcano.
Com poderes invisíveis
Tem contacto permanente,
Curas pratica impossíveis,
É o milagre aqui presente.
Na Turquia, após seis anos,
O Bósforo atravessou,
Vive na Grécia sem danos,
Por fim à Itália chegou.
Vamos encontrá-lo em Roma,
Muito próximo da Cúria,
A ponto dos de Mafoma
O crerem converso, em fúria.
Mas não ficou por aqui,
A mais viagens procedeu.
Relatos, se houver daí,
O registo se perdeu.
Vinte e oito anos de ausente
Levam-no a casa, por fim.
Como incógnito é presente,
Sem se anunciar, assim,
Que não quer ajuntamentos
De curiosos vazios.
Mas no lar não há elementos,
Ninguém, os leitos são frios.
Mas, para grande surpresa,
Célebre é seu nome ali,
Em toda a parte ele pesa,
Referência ou alibi.
Todos os livreiros têm
Infinitas obras suas,
Ignotas dele também,
De terras, casas e ruas
Relatos imaginários,
Encontros inexequíveis
Com reis de Universos vários,
Com falecidos incríveis
De antes de ele ter nascido,
Travessias de dragões
Que um fantasma há percorrido...
Tentou chamar de ilusões
Aos manuscritos falseados,
Já que visitado tinha
Do mundo os cantos tratados,
Mas logo a resposta vinha:
- ”Al-Mokri foi quem o disse...”
Ir de cidade em cidade
Fez que isto se repetisse,
É o critério da verdade.
Até que ele perguntou:
- ”Mas onde mora Al-Mokri?
Posso ir vê-lo donde estou?”
Olham de surprresa ali,
Tal se a questão fora estranha.
Fica a saber que morrera
Anos atrás, quando apanha
Rumo à terra onde nascera.
Toda a gente o garantia,
De quê, ninguém sabe ao certo.
Alguém mesmo aventaria
Punhal ou veneno perto.
Por uns anjos, outros contam,
Elevado fora ao céu.
E o túmulo? Logo apontam
Da tumba o recanto seu,
Altamente venerado.
Ali vinha prosternar-se
O peregrino enfadado,
A flor lançando em disfarce.
Al-Mokri seguiu caminho.
Em qualquer outra cidade,
Tudo igual e ele sozinho:
Obra apócrifa, inverdade,
De milagres mil relatos,
Cantorias de louvores
E outra tumba com impactos
De visitas e penhores.
Só tumbas, vê mais de doze.
Quando quer informações
De si, retalhos que cose,
Nenhum traz recordações
Da vida que ele vivera,
Não há nenhuma verdade:
Na China até combatera
Demónios que a humanidade
Comem, como a sombra errante
De Alexandre um gole de água
Lhe pede, por um instante,
Para lhe esfriar a mágoa...
Vive ainda nesta era,
Porém, uma lenda viva
Da vida se lhe apodera,
Todos a falar de outiva.
A vida dele se torna
A dum sábio, a dum santo,
A dum milagreiro à jorna,
Quase divino, entretanto.
Várias cidades e aldeias
A honra entre si disputam
De berço dele, em mil teias.
Cantos, árias executam
A levar de terra em terra
Longínquos sonhos de viagem,
Tão longe que o santo aterra
Na fímbria que faz triagem
Entre abismo e fim do mundo,
Onde debruçado aspira
Do inferno o amargor profundo,
O enxofre em rajadas de ira.
Atribuem-lhe o que nunca
Pensara, factos e gestos
Milhentos que a lenda junca,
Ritos, orações, aprestos
Cantam longos dele o nome.
Há dezenas de famílias
Que a dele são, com renome,
Disputam-no em mil quezílias,
Chegam a tirar proveito,
Sem escrúpulo, dos laços,
Quando o assassínio dá jeito,
Matam sem mais embaraço.
Al-Mokri quer combater
Tal efeito irracional,
Discípulos a dizer
Que são dele, a bem ou mal.
Sem se atrever a afirmar
Que ele próprio é o Al-Mokri
(Quem iria acreditar?),
Diz: - ”Muitas vezes o vi,
Era notável, decerto,
Contudo era mais comum,
Mais banal, de nós mais perto
Que a imagem de lado algum.”
Aqueles a quem falava
Viravam costas, troçavam,
Ninguém ouvidos lhe dava,
Muitos até o insultavam,
Chamavam-no de blasfemo,
Gabarola ou invejoso:
É mesquinho como o demo
Apoucar ser tão grandioso.
Foi o que o mais perturbou.
Vai juntar-se aos peregrinos,
Tumba a tumba visitou
A salmodiar loas, hinos...
Cada vez falava menos.
Às vezes tinha a impressão
Duma memória com drenos
A esparramar-se no chão.
Tais pedras toscas dum muro
Que se desagregam, caem:
Konya não é seguro,
De Ispahan entram ou saem?
Na cabeça obnubilada
Os nomes se confundiam:
Em Roma fez uma estada,
Quem são os que lá viviam?
Os pontos de referência
Da existência vagabunda
Foram perdendo evidência,
Obras, nomes, tudo afunda.
Uma noite deslocou-se
Junto duma tumba sua,
Deu-lhe a volta, prosternou-se,
Ignora quem nele actua.
Voltou lá frequentemente.
Uma manhã encontraram
Rígido o corpo fremente
E de imediato o levaram
Para fora da cidade
Onde o enterraram num canto.
O deserto logo o invade,
Nada mais restou do santo.
Ladrão
Um ladrão introduziu-se
Em casa de Nasredim.
Nada encontrou que se visse
Para lá furtar, ao fim.
Numa qualquer arca a um canto
Repara, vai-a pilhar.
Mas lá dentro, em grande pranto,
Vê Nasredim a chorar.
- ”Que fazes aí?” - pergunta.
- ”Escondo a minha vergonha.”
- ”De que tens vergonha?” - junta.
- ”De não ter nada que ponha
De roubar em minha casa,
Onde encontres um bom porto.
Crê que a misériaa me arrasa,
Estou de vergonha morto!”
Conquistador
Um conquistador avança
Pela terra devastada.
Todos fogem do que alcança,
Senão cortam-nos à espada.
Em toda a parte, um vazio.
Entra à porta dum mosteiro,
Cruza o pátio com fastio,
Nas celas só resta o cheiro...
Mas, de repente, detém-se:
Eis um monge ali sentado,
Calmo, imóvel, tal quem vence.
O conquistador, irado,
Para o monge avança então
Que o parecia não ver,
Puxa o sabre com a mão,
Na garganta do esmoler
Assenta o gume e lhe diz:
- ”Querer-me-á desafiar?
Quem sou não sabe o infeliz?
E que o posso trespassar
Sem pestanejar sequer?”
O monge os olhos abriu,
Pronto ao que der e vier,
E tranquilo respondeu:
-”E tu não sabes quem sou?
Não vês que me trespassar
Posso deixar-me onde estou
Sem sequer pestanejar?”
Igual
Nasredim vai ao mercado,
Uma grande melancia
Sob cada braço arqueado.
À frente dele seguia,
Caminhando em passo igual,
Outro que também trazia
Duas melancias, qual
Delas a mais bem criada.
Dele a roupa é, por sinal,
Igual à do outro na estrada,
Tem a mesma corpulência...
- ”Quem é aquele?” - a si, de entrada
Espanta a coincidência,
Acelera o passo então
Mas o outro, em precedência,
Faz o mesmo pelo chão,
Nasredim só vê umas costas.
- ”E se for eu?” - é a questão. -
“É que, se não sou, que apostas
Há de quem poderá ser?”
Acelera nas congostas,
Tudo em vão. Parou a ver.
Renuncia a defrontar
Este ignoto que é quenquer.
A si finda a explicar:
- ”Frente a mim se ando a correr,
Que é que adianta me apanhar?”
Batem
Batem à porta. À pergunta
“Quem é?” - respondem - “Sou eu!”.
Hodja, abrindo a porta, assunta
Quem é aquele amigo seu.
Só que, interdito, lhe ajunta:
- ”Mas porque dizes que és eu?!”
Perderam
Dois iranianos se perderam no deserto,
Há vários dias caminham sob o ardor,
Comer não têm, de beber não há por perto,
Vão esgotados, tombam, erguem-se e, ao calor,
De novo tombam. Leva um saco ao ombro um deles
Que algo contém. - ”Que é que tu levas no teu saco?”
- ”Nada” - responde-lhe obstinado e com ar reles
O portador, nada propenso a dar cavaco.
Caem de novo, já se arrastam, já não podem
Mais levantar-se. Igual pergunta se repete:
- ”Que é que no saco, afinal, tens? Coisas que acodem?”
O homem do saco a confessar finda em falsete:
- ”É melancia...” - ”Melancia?! Uma deveras?!”
- ”Sim...” - ”Vá, depressa! Urge parti-la, é de comer!”
- ”Não!” - o do saco, olhos fechados, nas esperas,
“Estou guardando-a” - diz e mais: diz que não quer.
- ”Mas a guardá-la para quê?!” - quer o outro ver.
- ”Para um extremo caso” - diz ele ao morrer.
Diabetes
Preso por reincidente
De escândalo em via pública
E desrespeito ao agente
Que tentou, cordato, a súplica,
Um cinquentão ao juiz
É presente, mui bem posto,
Distinto, com ar feliz,
Óculos de oiro no rosto.
O magistrado, surpreso,
Comenta . - ”Não posso crer
Que alguém tão fino e tão teso
Desacate, ao fim, quenquer.”
-Ӄ porque, senhor juiz,
Eu diabético sou.”
- ”Não vejo o laço que diz
Haver ao que se passou.
Afinal, que é que a diabetes
Tem a ver com tudo isto?”
- ”Ah! Ladrão que me acometes,
Sacana de juiz malquisto!” -
Exclama, a bater o pé,
Aos berros, em fúria, o homem. -
“Besta de juiz é o que é,
Que as questões que me consomem
Retoma: como as repetes
Sobre a minha diabetes?!...”
Loucamente
Um adulto desejava
Loucamentte uma mulher.
A classe alta ele ostentava,
Mesmo assim ela enjeitava,
Tal se ele fora um qualquer.
Mensagem após mensagem,
Persistente, ele enviava,
Seguia-a toda a viagem,
Metia-se com coragem
Ao caminho onde a encontrava.
Mandou-lhe ela um mensageiro:
- ”De meu corpo por que parte
Te prendeste por inteiro?”
Responde ele, lisonjeiro:
- ”Por um olho a assinalar-te.”
Então ela um olho arranca,
Envia-o numa bandeja
Ao homem que o gesto espanca:
- ”Eis o olho, bem o tranca,
Olha-o com senso que o veja!”
Imediata foi a cura
Deste homem apaixonado
Cujo amor logo é secura.
De importunar não mais cura
Da indómita dama o fado.
Duquesa
Da duquesa a lengalenga
Afirma que a classe baixa
É preguiçosa, molenga.
(E ela nem um dia encaixa
De trabalho em toda a vida,
A comparar a medida...)
Que cada trabalhador
Tem um miúdo a ajudar
A transportar com suor
A ferramenta de obrar.
- ”Um homem pode, decerto,
Transportá-la sem aperto” -
Protesta, enquanto o criado
Segura a travessa de oiro
Para servi-la do enfado
Das batatas de tom loiro.
Ao beber o quarto copo
De vinho, então trepa ao topo:
- ”Bebem tanto ao meio-dia
Que incapazes são de tarde.
Esta gente o que queria
É apaparico covarde.”
Entretanto, dez criados
Servem doze cozinhados.
- ”O Governo não tem nada
Que auxiliar a pobreza.
Qual remédio, casa dada,
Qual pensão ao que a despreza?
Os pobres são mais frugais,
Virtude das principais.”
Isto após a refeição
Que teria alimentado
Quinze, com satisfação,
Uns dez dias por contado,
Da classe trabalhadora
Que a duquesa, claro, adora...
- ”As gentes devem contar
Com elas próprias apenas” -
E o mordomo a levantar
A ajuda, com mãos serenas,
E a se dirigir à sala:
Em seu trono nada a abala!
Pavlova
Anna Pavlova, a bailarina,
Teve um triunfo, em espectáculo,
Que foi lendário, como sina
Que a consagrou num tabernáculo:
A sala aplaude em frenesim
Por tempo, em pé, que não tem fim.
Agradecer veio mil vezes,
Recebe ramos às dezenas,
Sorriu, fez vénias mui corteses
Aos gentis fãs naquelas cenas.
O pano desce finalmente.
Ora, os amigos vão à frente
Do camarim, à espera dela
Para a rodear, mais aplaudir.
Um quarto passa, não há estrela,
Meia, uma hora, e ela sem vir!
Vai um amigo ao camarim.
Anna Pavlova, a sós, enfim,
Lavada em lágrimas encontra:
Chorando estava há uma hora.
- ”Não há razão, que é que tem contra?
Que grande noite! Porque chora?”
- ”É que não tenho em mim sentido
Tê-la deveras merecido.”
Bicicletas
Um judeuzito precisou
De ir a Mosscovo de comboio.
Preocupado se esgueirou
(Há muito que andam trigo e joio
A separar, ao persegui-los,
Aos judeus ditos), se aninhou
Num canto esconso, dos tranquilos:
- ”Despercebido a ver se vou...”
Pára o comboio na estação,
Trepa um cossaco à carruagem
Que, ao se sentar, exclama, chão:
- ”Fora os judeus! Que malandragem!
São sempre a causa dos problemas,
Deles por mor, há fome e guerra,
Traem-nos. Tiram oiro e gemas...
Com eles fora é o céu na terra!”
Avista então o judeuzito
Enfiado ao canto e lhe pergunta:
- ”Não é verdade o que aqui dito,
Que os judeus são desgraça junta?”
Com voz tremente, o judeu diz:
- ”São eles mais as bicicletas.”
Coça o cossaco o seu nariz,
Interdito ante estoutras setas.
Com um suspiro - “Mas porquê
As bicicletas?!” - olha os céus.
O judeuzito (mal se vê)
Pergunta então: - ”Porquê os judeus?”
Murmuram
- ”Murmuram que irão prender
Os judeus mais os barbeiros.”
- ”Porquê os barbeiros?!” - dizer
Ouves logo os teus parceiros.
Racista
- ”Racista?! Tenham decoro,
Que eu já sou avô de netos!
Mesmo até porque eu adoro
Os estúpidos dos pretos!”
Eczema
Sofre um homem dum eczema,
Vai a um dermatologista.
Examina-o, como é lema,
Diz-lhe ao fim, completa a lista:
- ”Vou livrá-lo de vez disto.
Irá pôr esta pomada
Três vezes por dia, insisto,
Fica a cura consumada.”
- ”De certeza?” - “Certamente.
O eczema numa semana
Desaparece, é um repente.”
Receita que o não engana
Dobra o doente e ao bolso a mete.
Contudo, sai descontente
E o médico se intromete:
- ”Algo está mal, é o que sente?”
- ”Está tudo muito bem.”
- ”Vá lá, diga, algum aspecto
Não ficou como convém...”
- ”É que...” - diz o doente, recto -
“Onde é que após vou buscar
O prazer de me coçar?”
Comunista
É na Rússia comunista,
País onde falta tudo.
Formam fila, em mãos a lista,
Frente a um armazém sortudo:
Acaba de anunciar
Que há carne mesmo a chegar.
Muito tempo a espera dura,
Até que, a dado momento,
O agente, má catadura,
Ordena sem sentimento:
- ”Judeus, fora! Judeus, fora!”
E vão-se os judeus embora.
Os outros ficam, batendo
Os pés por causa do frio,
Durante a noite. Mas vendo
Da manhã luzir um fio,
Logo - “Fora” - o agente diz -
“Aos não russos de raiz!”
Bielorrussos, ucranianos,
Georgianos e outros mais
Saem da fila de enganos.
No fim do dia os sinais
São que outra expulsão se apraza:
- ”Já podem ir para casa
Os que não são do Partido,
Não chegará para eles.”
Restam como que em sentido
Os puros e só aqueles.
Então vem um dirigente
E confessa-lhes de frente:
- ”Também podem ir-se embora,
Não há carne no armazém
Agora ou a qualquer hora,
E nenhum dia nos vem.
Foi tudo publicidade
A levantar, na verdade,
O moral da esfomeada
População do país.”
Da fila então dispersada
Diz alguém, torto o nariz:
- ”Os judeus, judeus danados,
Sempre privilegiados!”
Sufis
Em casa dum turco rico
Sete sufis se reúnem.
Ele tenta-lhes o bico,
Petiscos que se coadunem,
E eles em nada tocavam:
Meditação nova travam.
Jejuam diversos dias
De seguida, de tal modo
Que ao anfitrião porfias
Tais preocupam-no todo,
Até um amigo dizer:
- ”Sei como os pôr a comer.
Traz em grande quantidade
A necessária comida,
Depois esvazia a herdade,
Todos fora, de seguida.
E sai tu próprio de vez.”
Ora, o homem assim fez.
Serviu pratos variados,
De vinte ou trinta convivas,
A família e os criados
Manda embora, que as festivas
Horas pertencem aos santos,
Todos lhes deixa os recantos.
Porém, desaparecer
Não quis e, num quarto escuro,
Pôs-se a espiar para ver
Dos sufis qual é o apuro.
Quando cuidam que sozinhos
Estão, então quais cadinhos
De fé, de meditação!
Atiraram-se à comida,
Infrene empanturração,
Lambarice desmedida,
A ponto de os insensatos
Lamberem também os pratos!
Ora, com tal tratamento,
Um deles, em dor atroz,
Cai por terra e é o finamento.
Os mais, qual o mais veloz,
Continuam, sem ligar,
Somente a se empanturrar.
Um segundo cai por terra,
Depois um terceiro, ao lado,
Um quarto mais longe aterra,
Um após outro, enfartado,
Sem nunca soltar a garra,
Vítima da grande farra.
Quando só restava apenas
Deles um sobrevivente,
O dono que armou as cenas
Vem como da rua em frente.
Vê seis corpos lá no chão,
Pratos vazios, e então
Perguntou ao que escapou
Se a comida era bastante.
- ”Não” - o sufi retrucou -
“Faltou alguma, ao restante,
Senão eu, que a tantto exorto,
Também já estaria morto.”
Moradia
Uma bela moradia
Ergue na Índia um ricaço,
No cimo dum monte, um dia.
Quando fica pronto o espaço,
Rebenta uma tempestade
Com proporrções de ciclone.
O dono se persuade
A impetrar quem o abone,
Um sacrifício oferece
A Vayu, ao deus dos ventos.
A casa que ele estremece,
De sonho lugar de eventos,
Pede-lhe que não destrua.
Vayu, porém, não o ouviu
E a tempestade na rua
Ainda mais recrudesceu.
Lembra o homem que Hanuman,
O deus-macaco, era filho
Do deus do vento. A manhã
Rompe atando ele o cadilho
Das súplicas, garantindo
Que a casa era uma pertença
Do filho do deus tão lindo.
O deus é surdo à sentença.
De todo o lado batida,
Até o alicerce a casa
Estremecia, fendida,
De ave partida qual asa.
E o homem, em desespero:
- ”Senhor, Senhor, piedade!
Não destruas este esmero
De casa, propriedade
Do próprio Rama, o grão-mestre
De teu filho, de Hanuman.”
E ao vento nada há que amestre,
Tudo arrasa em terra chã,
Vai tudo desmoronar-se.
Então, a salvar a vida,
Corre o rico até que esgarce
A véstia feita à medida.
Maldisse todos os deuses
E, após meditar, exclama:
-”Que a arrasem estes reveses,
Que ma espalhem pela lama!
Bem vistas todas as coisas,
Bem ponderado este enguiço,
Não me inscrevo nestas loisas,
- Que tenho eu a ver com isso?”
Lágrimas
Hodja vê chegar a casa,
Toda em lágrimas, a filha
Que lhe conta como a arrasa
De pancada o bigorrilha
Do homem com quem casou.
Algo pede que o pai faça.
Logo ele a esbofeteou
E lhe impôs por nova traça:
- ”Volta agora a tua casa!”
Como não compreendia,
Perguntou-lhe, o rosto em brasa:
- ”Batem-me então todo o dia?!
Queixo-me de me baterem
E tu bates-me também?!
Queres que assim me venerem?!”
- ”Volta a casa, é o que convém!
Quem cuida o teu homem que é?
Em minha filha a bater?!
Vai-lhe dizer, bem ao pé,
Que eu lhe bati na mulher.”
Feira
Num dia de feira, à praça
Chega, tonto, Nasredim,
Onde a barafunda abraça
Carregadores sem fim,
Cambistas e carroceiros,
Compradores, vendedores...
É multidão de parceiros,
O rebotalho, os senhores,
Homens, animais, mulheres
Que vão e vêm, se cruzam,
Se acotovelam nos teres,
Se insultam quando se abusam...
Sacas de trigo se viram,
Carroças se desconjuntam,
Ladrões, escusos, retiram,
Balem cordeiros, mãos se untam...
No meio desta desordem,
Barulhenta actividade,
Nasredim que os gritos mordem
Se esgueira em dificuldade.
De repente, aos pés avista
Uma moeda perdida.
Apanha-a e, feito alpinista,
Trepa à casa ao lado erguida
E grita, brandindo a moeda:
- ”Ei! Parem com o alvoroço!
Não vale mais que suceda:
Eis a moeda: dá-la posso
A quem a tiver perdido.
Parem lá com o alarido!”
Mandarim
Em tempos que já lá vão
Na China houve um mandarim
Que de amor tombou em vão
Por cortesã nada afim.
Solicita ardentemente
Dela o favor. Renitente
Diz-lhe ela: -”Me entregarei
A ti depois de passares
Cem noites no jardim que hei,
À minha espera, e sentares
Num banco sob a janela
Que é minha, florida e bela.”
O mandarim conhecia
Da rapariga o feitio.
Aceitou e, de noite, ia
Sentar num banquinho, ao frio,
Sob a janela da dama.
Que é que não fará quem ama?
Ora, a cortesã se dava
A uma vida de folguedos,
Só futilidade amava.
De tal vida, sem segredos,
Se propagavam os ecos:
No jardim não eram pecos.
Age assim o mandarim
Por noventa e nove noites.
De manhã ergueu-se, enfim,
Pega o banco das sonoites,
Foi-se embora, ao dealbar,
Para nunca mais voltar.
Dante
É Dante um dia abordado
Por alguém desconhecido:
- ”Qual é o melhor cozinhado,
Mundo fora conseguido?”
- ”Um ovo” - sem se voltar
Dante respondeu, mui breve.
Cinco anos se vão passar...
O mesmo homem que lá esteve
Cruzou por perto de Dante
Em outra rua qualquer.
- ”Com quê?” - lhe pergunta, instante
- ”Com sal” - eis Dante a dizer.
De Dante não é uma glória,
É apenas boa memória.
Tédio
Um rei, muito aborrecido
Do tédio da vida fútil,
Pede que tomem sentido
Nalguma façanha útil,
Que encontrem alguém capaz
De algo que mais ninguém faz.
Os emissários procuram
E acabam trazendo um homem
Que de longe – é o que asseguram -
Lança um fio que as mãos domem,
Fá-lo passar, sem mais bulha,
No buraco duma agulha.
Portento inimaginável,
Tal homem o executou
Ante o rei, corte infindável,
Muitas vezes o provou...
Dá-lhe o rei cem moedas de oiro
Mais cem açoites de coiro.
- ”Mas porquê cem vergastadas?” -
Pergunta o homem, aflito.
- ”As moedas de oiro são dadas
À façanha que, acredito,
Ninguém, em nenhum lugar,
Será capaz de imitar.
As vergastadas, a par,
Que irás aqui receber
São para te castigar
De tanto tempo perder
A atingir com tal quilate
Semelhante disparate.”
Nichapur
Nichapur. Um mercador
Que teria de ir à China
Em negócios, por um ror
De tempo, a confiar se inclina
Uma escrava muito bela
A um amigo: - ”Tento nela!”
Tal amigo recebeu
A jovem (dezassete anos),
Do seu melhor procedeu,
A agradar, sem causar danos,
Porém, sempre a vigiar
Como prometera obrar.
A partir deste momento
Perdeu a calma e o sono.
Não pensa em nenhum evento,
Só na moça que tem dono.
Seu perfume persistente
Segue-o permanentemente.
Quanto admira dela a graça,
O sorriso, os finos pés,
O braço que o não abraça!
Ela olha-o triste, talvez,
O que a ele turva a reza,
Porém serve-o com destreza.
Como, contudo, era escrava,
Teria podido usá-la,
Dela abusar, nada o entrava.
Mas dele a fé não abala,
Licenciosidades, não
Tolera em seu coração.
Quando ocorria sonhar
Que à jovem rouba prazer,
Pelo alvor, ao levantar,
Por castigo merecer,
Fustiga-se à chicotada
Toda inteira a madrugada.
Um dia em que o massajava
Após o banho, ela viu
Os vergões que ele ostentava
Nos ombros e lhe inquiriu
Que era aquilo. Só um resmungo
Deu a entender que era um fungo.
A partir daí recusa
O cuidado corporal,
Perde o apetite, o que acusa
É uma magreza geral
E já sozinho falava,
Os mais dizem que variava.
Oito meses de tormento
Correram. A caravana
Retorna, a dado momento
Da China onde o sonho mana.
O mercador logo vem
Ver se tudo correu bem.
- ”Sim, correu.” - ”E de saúde?”
- ”Muito bem.” - ”E a escravazita?”
- ”Está boa.” - ”Só virtude?
Não deu problemas a dita?”
- ”Nenhum.” Mas o mercador
Viu-lhe da tez o palor,
Os braços mui descarnados,
Os tremores que agitavam
O corpo, toque a finados,
Parece até que o sugavam.
- ”Que tens tu? Estás doente?”
- ”Não tenho nada, é evidente.”
- ”Tens a certeza?” -”Garanto!”
O mercador retomou:
- ”Trouxe-te peças de encanto,
Algum jade, seda e vou
Mostrar-te a escrava chinesa,
Nova, uma flor de beleza.
Se te agrada, fazer podes
Dela tudo o que quiseres.”
O escanzelado os bigodes
Abre contra tais prazeres:
- ”Não, não quero os teus presentes,
Nem da escrava ver os dentes!
Fica com ela e também
Com a que deste a guardar.
Leva-a depressa dalém.”
- ”Não te veio contentar?
Faltou-te ao respeito acaso?”
- ”Leva-a sem mais nenhum prazo!
Nunca mais ouvir falar
Dela vou querer na vida,
Nem quero mais, em lugar,
Escrava jovem sortida.”
- ”Como queiras. Vou levá-la.”
- ”Fora daqui, que me abala!
Quero esquecê-la, me entendes?”
Fez a vénia o mercador
(“Vê o que perdes, vê o que rendes”)
Torna ao lar com o penhor
Daquelas duas escravas.
Há no outro saudades bravas:
Esquecer não esqueceu,
Ao invés, dentro morreu.
E apenas o tempo apura
Nele uma enfermiça cura.
José
José do Egipto, o mais belo,
Entra um dia numa sala
Onde as jovens, de escabelo,
Com olhar que se regala,
Estavam a descascar
Laranjas para o jantar.
Da beleza hipnotizadas,
Dele seguiam os gestos
A ponto de dar facadas
Sem dor sentir dos aprestos,
Dedos e mãos retalhando,
Nele os olhos represando.
José, dos irmãos vendido,
Escravo é do Faraó
Que à venda o pôs, despedido.
As damas metiam dó
Todas a se apresentar
Com o intuito de o comprar.
Trazem ricas oferendas,
Sacos de almíscar, essências,
Preciosidades, rendas...
Todas elas são carências.
Uma velha se aproxima,
Numa bengala se arrima.
Como era pobre, trazia,
Para a compra de José,
De cheiro erva com que enchia
Saca bem segura ao pé.
Fora aquilo que colhera
E preparara como era.
O que dirigia a venda
Comentou-lhe com desprezo:
- ”Como esperas, na contenda,
José comprar a tal peso?
O que trazes bem compara
Com doutras a prenda rara.”
- ”Sei tudo isso” - diz a velha.
- ”Então porque vens? Que queres?”
- ”Que me contem” - aconselha -
“Entre todas as mulheres
Que vieram ao teu pé
Tentar comprar o José.”
Bar
Um judeu americano
Entra num bar que ao balcão
Tem um negro com um pano.
Pede com resolução:
- ”Um café, preto de merda!”
- ”Preto de merda, porquê?” -
Sem se irritar, a voz lerda,
Diz o negro, de boa-fé. -
“Nada te fiz, nem conheço,
Podias ser educado,
Não me tratar sem apreço.”
Encolhe os ombros de enfado
O judeu, insiste em pressa.
Propõe-lhe o negro uma troca:
- ”Queres um gesto que meça
O que ouvi de tua boca?”
- ”Está bem, que é que tu queres?”
- ”Vem para trás do balcão,
É só mesmo para veres.”
O judeu segue a instrução,
O negro sai um momento,
Reentra no estaminé
E diz ao judeu atento:
- ”Judeu de merda, um café.”
- ”Não dou, não” - diz o judeu -
“Que debaixo destes tectos,
Enquanto é negócio meu,
Aqui não servimos pretos.”
Autocarro
Num autocarro, na América,
Os passageiros lugar
Tomam em fila colérica:
Ainda estava a vigorar
Que os negros vão na traseira
E os brancos, na dianteira.
Começam a aparecer
As tentativas primeiras
Contra o racismo que houver.
Os negros cerram fileiras,
Protestam veeementemente
Contra a afronta, de repente,
Como qualquer branco impante
Sentar-se querem à frente.
Mas estes seguem avante,
Nada cedem a tal gente:
- ”Eu sou branco, tu és negro,
É da lei em que me integro.”
Mas estes negros recusam
Os lugares lá de trás,
As altercações abusam,
Rebentam, que é que se faz?
O condutor do autocarro
Declara em jeito bizarro:
- ”Ouçam-me! Ninguém é preto
Nem branco, estão bem a ouvir?
São todos azuis, correcto?
Olhem-se bem, a seguir!”
Estacam, surpreendidos
E um diz, entre os aturdidos:
- ”Mas então que é que fazemos?
O motorista, pensando,
Crê por fim domar os demos:
- ”É fácil, a pensar ando:
Azuis-claros para a frente,
Escuros, atrás da gente.”
Ar
Nasredim recebe um dia
A visita dum dervixe.
Um ar santo o precedia,
Mal comeria uma quiche:
Costumes de santidade
E extrema frugalidade.
Hospitalidade oferta
Cuidando que ele queria
Comer algo, pela certa.
- ”Como bem pouco por dia”, -
Diz o santo homem então. -
“Ervas, a fruta do chão...
Dias há que me contento
Com água mais grãos de arroz.
Mas, se for de teu intento
Comer, como logo após
Contigo, é uma parceria
A fazer de companhia.
É que é bem desagradável
Ter de alguém comer sozinho.”
- ”É verdade insofismável
E agradeço-te o carinho.
Que queres então comer?”
- ”Seja lá o que for que houver.”
- ”Servem ovos estrelados?”
- ”Perfeitamente.” - ”E tu gostas
Deles bem ou mal passados?”
- ”Tanto faz. Mas são mal postas
As frituras em sertã
Com azeite, opção malsã.”
- ”Como então queres que os faça?”
- ”Simples, numa pedra quente.
No centro, a gema, com graça,
Cuidado, que não rebente.
Isto é que é o mais importante,
Tudo o mais passa adiante.”
- ”Ora, então, são bem passados?”
- ”Sim, porém, não em excesso.
A orla da clara, aos lados,
Dourada um pouco te peço.
Vês o que quero dizer?”
- ”Muito bem, é só querer.”
- ”No derradeiro momento
De vinagre umas gotinhas
Caíam que nem pão bento.
Tens vinagre do das vinhas?”
- ”Claro.” - ”Vinagre do bom?”
- ”Do melhor e de bom tom.
Mas diz-me, gostas dos ovos
Com muito ou com pouco sal?”
- ”Muitto, não. Porém, dos novos
Sais vindos do mar real,
Se de todo não te importas.
E, já que tanto me exortas,
De orégão umas folhinhas
A rematar, que delícia!
De alho duas dentadinhas
E é pronta a boa notícia!”
Nasredim então lhe diz:
- ”Passo a informar que a perdiz
Que os ovos pôs para a gente
Se chama Misa, afinal.
Não vês inconveniente?
E não te irão saber mal?”
E pensa: “Frugalidade!
Então que é voracidade?...”
Orgulho
Al-Saqati, o ancião,
No século nono vive
Em Bagdade, a mãe do pão.
Alguém lhe pergunta então:
- ”Se orgulha do que se prive?”
Reflectiu mui longamente
E respondeu no final:
- ”Me orgulho de ter em mente
Há decénios a insistente
De comer vontade real,
Comer mel nalgum ensejo,
Pois resisto a tal desejo!”
Negros
Três negros, com dons de Deus,
Alcançam falar com Ele.
Pedem um favor aos céus
Que lho dão tal qual se apele.
- ”Faz de mim branco” - é o primeiro.
- ”Concedido” - Deus responde.
Fica dum branco pioneiro.
De contente, nem o esconde.
- ”E tu?” - pergunta ao segundo.
- ”Também branco ser queria.”
- ”Concedido, em dons abundo.”
E o segundo agradecia.
Deus dirige-se ao terceiro:
- ”Ficar branco também queres?”
- ”Não,eu não!” - ”Bem, companheiro,
Diz-me, afinal, que preferes?”
- ”Que voltem a ficar pretos
Os outros que hás atendido.”
E, em seus mágicos decretos,
Deus responde: - ”Concedido!”
Cabeça
Na Casa Drouot, Paris,
Um homem desconhecido
Apresentou-se, feliz,
Num leilão descomedido,
Leilão de arte oriental,
Uma amálgama de objectos
De valor mui desigual,
Vindos de locais secretos,
Coreia, Egipto, Tibete...
Na véspera, os comissários
Tinham visto que repete
Os expositores vários
Tal homem desconhecido:
Dum para o outro ia,
Parava como em sentido
Nos fragmentos de magia
De esculturas indianas.
No decorrer do leilão
Levanta as mãos soberanas
No cinquenta e seis, talão
“Cabeça de divindade
Feminina, de Índia vinda,
Dos séculos, para a idade,
VIII a XIII.” Coisa linda!
Lança uma primeira oferta
Que é coberta pela mesa.
A segunda outrem desperta
Que estava na sala coesa.
Ao terceiro lance, ganha.
Por um preço razoável
Ele a velharia apanha.
Paga o custo inevitável,
Leva a cabeça indiana
Em plástico saco pobre
Que trouxera e nada engana,
Na bolsa que nada encobre.
Volta a casa de autocarro,
Ao modesto apartamento
Em Courbevoie, lar de barro.
Dos docentes elemento
Ou então dos funcionários,
Os ombros já descaídos,
Passos com tremores vários,
Cabelos ralos, perdidos,
Entre quarenta e cinquenta
Serão seus anos de idade
Em que ao fim ninguém atenta.
Óculos usa, em verdade.
Pousou o saco na mesa,
Dele a cabeça retira,
Com precaução, gentileza,
Pô-la à frente e fixo a mira.
Era um rosto de mulher
Com um ligeiro sorriso,
Pérolas a lá conter
Da cabeça, ao alto, o siso,
Restos de policromia...
Como muitas, arrancada
Ao suporte sido havia,
A punção, à martelada,
No século dezanove
Ou talvez século vinte.
Vendeu-a quem a remove,
Com clandestino requinte,
Por uns obscuros circuitos
Que sugam beleza ao mundo.
Alguns livros entre muitos
Abre o homem e um fecundo
Ficheiro de indicações,
Múltiplas fotografias.
A origem como as funções
Da cabeça por tais vias
Logra calmo precisar.
Pátina examina, estilo,
Aturado a comparar.
E conclui, por fim, tranquilo,
Que deve ter pertencido
A um templo Tamil Nadu,
De Índia no sudeste erguido.
De Estugarda a Katmandu
Meses depois ele voa,
Por fim aterra em Madrasta.
Sem meios, viaja à toa,
Do modo em que menos gasta,
Mas conservando consigo
Sempre de pedra a cabeça,
Num saco posto ao abrigo.
Num autocarro atravessa
Até Madurai, no sul.
Numa velha bicicleta
Lento faz que se acumule
Uma pesquisa completa.
Era simples a intenção:
Restituir a cabeça
Ao corpo donde o ladrão
Havia roubado a peça.
Ele, cidadão francês,
Desejava ter um gesto,
Mínimo embora, cortês,
Contra o intérmino, imodesto
Furto de que vinham sendo
Vítimas os templos mil
Do mundo de que dependo,
Séculos de hábito vil.
Optando por importar
Cabeças a revender,
Os ladrões decapitar
Vão decerto, sem rever,
Às centenas de milhar
As estátuas mundo fora.
Reconstituir no lugar
Quer ao menos uma agora.
Queria ter a certeza
De que sua vida tinha
Servido para uma empresa
Boa aqui, como convinha.
Pretendia uma acção justa,
De justeza indiscutível.
Desinteressada, custa
O que custa, inamovível.
Devagar, meteu-se à estrada
Na bicicleta queixosa
Com a cabeça cortada
Presa atrás, jóia valiosa.
Em todo o templo parava,
Fora modesto ou grandioso,
Nas estátuas atentava.
Decapitadas por gozo
À mão dos saqueadores,
A maior parte não tinha
Já cabeça e seus humores.
À procura da adivinha,
Elimina efígies de homem
Para só dar importância
Às femininas que assomem.
Às vezes, mesmo à distância,
Um relance já bastava:
Nem dimensão nem estilo
Dão resposta ao que buscava.
Para enfim ficar tranquilo,
Às vezes trepava a um muro,
Chega a pedir uma escada
Para pôr, pelo seguro,
A cabeça na entalhada
Estátua que é duvidosa.
Examina desta forma
Milhares: não cansa, goza.
Com pouco viveu, por norma,
Dormiu, de hábito, ao relento,
Atado por uma guita
À bicicleta do intento.
De arroz, fruta que concita
Se alimentava somente.
Baixote, magro, com pêlo,
As roupas rapidamente
Troca do europeu modelo
Por tanga, corpete e socos
E, com a barba crescida,
Ignorado é como poucos.
Mais de meio ano de vida
Após, encontra por fim
O corpo que respondia
À cabeça. Alegre, enfim,
Fecha os olhos, pensou que ia
Desmaiar com a alegria.
Tudo agora estava certo:
Dimensão, corte, a macia
Face com o áspero perto,
Até os restos de pintura...
Isto ocorreu em Trichi,
Num dos recintos que apura
De Ranganatha Suami
Ser parte do templo imenso,
Dedicado ao deus Vishnu.
Com seu bronzeado intenso
Por um peregrino hindu
Passou, penetrar logrando
Nos locais aos mais proibidos,
Com a guarda vigiando.
Em recantos escondidos
Conseguiu por lá dormir.
Com espátula e cimento,
À noite, ninguém a ouvir,
Na estátua põe o elemento
Da cabeça que faltava.
Não se lhe nota a fissura
A uns metros, quando se olhava.
É uma apsará tal figura,
Uma folha de palmeira
Ostenta na mão direita.
Única por ora inteira
Entre cada irmã desfeita.
Sorriso débil, graciosa,
Tem sempre um pé levantado
Numa postura teimosa
Que é da tradição o fado.
Olha para tudo e nada,
Tinha então voltado a casa.
A tarefa terminada,
Sentou-se na pedra rasa
O homem, não mexeu mais.
De vez em quando se lava,
Come, tem gestos que tais,
Depois volta à pose escrava.
Feliz, satisfeito, quem
O poderia saber?
De qualquer modo, porém,
É pobre, um mui pobre ser.
Peregrinos e turistas
Cruzavam em seu redor,
Incessantes, em mil pistas.
Um dia sente um calor
De moeda a cair na mão.
Um visitante deixado
A havia: toma-o então
Por mendigo consumado.
O homem ergue a cabeça
Para a imagem, nela viu
Que distintamente, a peça,
Ao olhá-lo, ali sorriu.
Então abriu mais a mão,
Estendeu-a para diante.
Muitas moedas cair vão,
Até rupias garante.
No alto, a estátua de apsará
Continua-lhe a sorrir.
Compreendeu que era acolá
O lugar de a seu fim ir,
De terminar os seus dias.
Muito descansado, pensa
Que valeu mais que as folias,
Quem quer melhor recompensa?
Nacionalidade
Quando Hodja foi tunisino,
Tomou-se de admiração
Por Inglaterra. O destino
Fê-lo requerer então
Dela a nacionalidade.
Foram empenhos, gorgetas,
Anos muitos de ansiedade
Para aproximar as metas.
Ao chegar o grande dia,
Quando a carta oficial
Em ordem tudo dizia,
Vestiu-se, em gala real,
Com o melhor albornoz
Para ir ao consulado
De Inglaterra, logo após,
Ao passaporte acabado.
Um amigo o acompanhou.
Quer que este o espere na rua
E no consulado entrou
Sozinho, que no ar flutua.
Mas meia hora mais tarde
Sai de lá, porém em pranto,
Abatido e sem alarde.
- ”Que se passa?” - com espanto
Pergunta-lhe então o amigo. -
“Recusam-te o passaporte
Por derradeiro castigo?”
- ”Não, deram-mo. Que má sorte!”
- ”Mas então de que te queixas?”
Abana a cabeça, cinde-a,
De dor , em duas madeixas,
Diz: -”Ai! Perdemos a Índia!”
Istambul
De Istambul um muçulmano,
Por um cristão convencido,
Converteu-se sem ter dano,
De olhar ingénuo, sentido,
A um claro cristianismo
E recebeu o baptismo.
A ler os livros sagrados
Do que é cristã tradição,
Evangelhos, Bíblia, grados
Padres de antes, pôs-se então.
No Evangelho de S. Marcos
Chega, ao fim de esforços parcos,
Chega a saber que Jesus,
Em vez de reconhecido
Inocente, o que traduz
Dos judeus o mau sentido
É que aos romanos o dão
Que crucificá-lo irão.
Furioso, o convertido
Agarra então num cutelo,
Corre a um judeu conhecido,
Com loja num cotovelo,
Derruba-o em curto espaço,
O cutelo no cachaço.
- ”Cão judeu, vou degolar-te!
Vou-te cortar a cabeça,
Dá-la aos cães, tal quem reparte.”
- ”Degolar-me?! Céus, homessa!
Mas porquê?!” - diz o lojista.
- ”Ainda te atreves, faquista,
A perguntar-me porquê?!
Quando foste tu e os teus
Que entregaram à mercê
Dos Romanos Deus dos céus,
Que mataram numa cruz
Ignobilmente Jesus?!”
- ”Mas isso” - diz o judeu -
“É velho e já não faz danos.
É muito velho, ocorreu
Já faz mais de dois mil anos.”
- ”Que importa toda a demora?
Eu por mim só soube agora.”
Cão
Lambe um cão napolitano
Uma lima. As asperezas
Rasgam-lhe a língua com dano,
Corre o sangue sem defesas.
O cão gosta do sabor
Do sangue e a lamber a lima
Mantém-se, apesar da dor
Que possa sentir por cima.
Nada, pois, o faz parar...
- Cão-homem: ambos a par!
Doenças
De todas as doenças sofre um homem,
Tem todos os sintomas, sua vida
São os mil sofrimentos que o consomem,
Angústias que jamais terão medida.
Que doença podia ser a sua?
Não sabia: cabeça, ventre, rins?...
Impossível dizer: todo ele sua,
Todo o corpo é uma dor em seus confins.
Um médico, porém, lhe diagnostica
Com rigor todo o mal que o atingia:
É doença
incurável que ali fica
Arrastando-o na morte cada dia.
O estranho é que, informado, sente alívio:
Agradece ao bom médico e recebe
Amigos que hão tombado num oblívio.
A conversar e a rir, com eles bebe.
Um deles lhe pergunta que razões
Hão-de estar por detrás desta atitude.
- ”É que até agora foram mil lesões,
Agora só há uma que em mim grude.”
Sabedoria
Perguntam a Goha um dia
Donde é que a sabedoria
Que lhe conheciam todos
Lhe vinha assim tão a rodos.
Contou-lhes que possuía
O segredo e a magia
Do que é douta inteligência.
- ”De que forma?” - ”Bem, na essência,
De pílulas sob a forma.
Da receita tenho a norma.”
Instaram que revelara,
Afinal, tal jóia rara.
Em vão se furta à resposta:
A sério levam a aposta.
Foi apanhar, lavra a lavra,
Mil caganitas de cabra,
Cortou-as, moldou bolinhos,
Junta açúcar e cominhos,
Meteu-os num saco atado,
Foi vendê-los ao mercado.
Armou a pequena banca
E apregoa, alçada a anca:
- ”Pílulas da inteligência!
Dez dinares, é ciência,
Um grande segredo enfim
Revelado, vão por mim!
Minhas pílulas comprai,
Dez dinares e pasmai:
Sereis mesmo inteligentes,
Por tuta e meia contentes.”
Não há muito ajuntamento.
O descrente do argumento
Passa , os ombros encolhendo.
Mas há sempre um bronco crendo
Que o saco toma, examina:
- ”É eficaz? Isto é uma mina!”
- ”Duma eficácia tremenda!
E muito rápido, entenda!
- ”Ficarei inteligente
Como quem burro me sente?”
- ”Até muito mais do que eles” -
Diz Goha, a troçar daqueles.
O cliente compra um saco,
Abriu-o e provou um naco.
Mastigou por um bocado,
Depois cuspiu, enojado:
- ”Mas isto é bosta! É o que abona?!”
- ”Pois é! Vê como funciona?”
Escultor
Um escultor brasileiro,
Sem qualquer formação de artes,
Busca, madeiro a madeiro,
Esculpe de animais partes.
Uns são conhecidos dele,
Outros, não. Nada repele.
A girafa esculpe um dia
Sem nenhum modelo dela,
Sem imagem que veria:
Esculpe sem nunca vê-la.
Alguém lhe faz a pergunta
De como é que aquilo assunta
- ”Pego meu toco de pau
E começo a trabalhar.
O que não pertence e é mau
Para a girafa talhar
Então aí boto fora.
Findo o bicho não demora.”
Rumi
De Rumi os seguidores
Puseram-se a lamentar
Das ausências os temores:
Não os deve mais largar.
- ”Quando não estás, sentimos
Tua falta e logo vimos
Que o mundo ficou vazio,
Sem sabermos que fazer,
A tristeza corre em rio...”
Com tal maneira de ser
Rumi se irritou deveras,
Despede-os sem mais esperas.
O filho dele estranhou,
Pergunta ao pai a razão.
- ”É que a sério” - comentou -
“Nem gostarão de mim, não.”
- ”Mas sim, gostam, uma vez
Que estranham se aqui não és.”
- ”Cada qual diz-se mui triste
Todo o tempo em que me vou,
Constantemente, já viste?
Amas-me tu no que sou?”
- ”Sim, meu pai.” - “Diz-me, porém,
Se não estou, não advém
Às vezes uma alegria?”
- ”Sim, claro” - responde o filho.
- ”Tal alegria seria
Eu também, um meu cadilho.
Eles, alunos falazes,
De a sentir são incapazes.”
Asceta
Um asceta mui severo
No intuito de penetrar
Da natura o cerne vero,
Porque um dia ouviu falar
De Nasredim como sábio
Tão grande que dele a fama
Faz que inteiro o mundo gabe-o,
Uma longa viagem trama
Para se encontrar com ele.
Puseram-se a conversar.
O asceta diz que o impele
Uma procura sem par,
Que, ao cabo de anos de esforço,
Ouve as mensagens do vento,
Com aves fala um escorço,
Dos peixes entende o intento...
- ”Não me admira nada, não.
Conheço com animais
Tal jeito de relação.
Um dia um peixe dos tais
Até me salvou a vida.”
- ”Tua vida um peixe salvou?!” -
Julga o asceta em seguida
Que é um prodígio que ignorou.
- ”Aqui está” - diz ele - “a prova
De que todo o ser vivente
Se entende, língua que inova
Com os mais, com toda a gente.”
Era o que sempre afirmara.
- ”Explica-me o que ocorreu.”
- Ӄ dificuldade rara,
Como entender o que é meu?”
- ”Não faz mal e me esclarece.
Conheço os peixes mui bem.
Com tua ajuda com esse,
Talvez o entenda também.”
Ajoelha ali no pó,
Pronto a renúncia qualquer,
Todo o sacrifício e dó.
Nasredim põe-se a dizer:
- ”Aquilo que vou contar
Vai chocar, magoar-te até.”
- ”E que é que me há-de importar?
Diz-me, rogo, homem de fé!”
- ”Como queiras. Pois sabendo
Fica que eu um dia estava
A um passo, quase morrendo
De fome, quando pescava.
Um peixe então se prendeu
Ao meu anzol quando eu já
Levo semanas de meu
A pescar em vão por lá.
Pus o belo peixe ao lume
E comi-o de seguida.
Tudo a isto se resume:
Como vês, salvou-me a vida.”
Água
Um dia a Buda apresentam
Um homem que se dizia
Que há seis anos seus pés tentam
Sobre água andar por magia.
Pretendia ter, enfim,
Conseguido atravessar
Com esforço um rio assim.
- ”A tal dor porque se dar?” -
Diz-lhe Buda descansado. -
“Dei uma moeda à barqueira
Que levou-me ao outro lado
Do rio sem mais canseira.”
3
Ao Serão de Terça-feira
Tacanhos
Os espíritos tacanhos,
Com inteligência lenta,
Imolam-se, tais quais anhos
A que a fortuna não tenta.
Um homem e uma mulher,
Lá pelo norte do Irão,
Amavam-se, tal quenquer,
Viam-se com discrição
Apenas de vez em quando.
Ambos muito jovens eram,
Em casamento falando
Vão, contra os pais que o não creram.
Um dia os vizinhos foram
Encontrar a rapariga
Desolada. Como ignoram,
Perguntam por uma amiga:
- ”Que é que se passa, afinal?”
- ”Ora, está tudo acabado!”
- ”Mas porquê?” - “Além, no vale,
Disse-me ele: no sagrado
Dia que é na sexta-feira,
Vai lá a casa, que ninguém
Vai lá estar a tarde inteira.”
- ”E então? Isso que é que tem?...”
- ”Ora, eu fui por lá, porém,
Não estava lá ninguém...”
Cego
De Edo pelas cercanias,
No Japão, em ano novo,
Um monge cego houve uns dias
Que, convivendo entre o povo,
Foi a casa dum amigo
De criança, por abrigo.
Comeram até fartar,
Beberam na lauta ceia
Até o cego levantar
Indo embora, a noite meia.
- ”Leva esta minha lanterna,
Que a noite vai ter-te à perna.”
- ”De lanterna eu não preciso” -
Diz-lhe então o monge cego.
- ”Precisas, sim, tem lá siso.
Não te vendo num refego,
Os mais contigo chocar
Poderão e magoar.”
- ”Com efeito, tens razão” -
Diz o cego e na lanterna
Pega e parte, ela na mão.
Ruas adiante, eis que aderna
Contra ele brutalmente
Um homem subitamente.
- ”Vê se vês por onde é que andas!” -
Exclama o cego. - ”Não viste
Pela lanterna as locandas?”
- ”Não vi, não” - diz o homem, triste -
“É que ela, nesta jornada,
Vai por inteiro apagada.”
Recém-casados
Na Índia, uns recém-casados
Não param de discutir:
Em campo algum acordados
São rumos por que seguir.
Cada um recriminava
O outro da malfadada
Sorte com que deparava
Do dia em cada jornada.
Era uma existência amarga,
Uma vida barulhenta.
A superarem tal carga,
Um amigo deles tenta
Que um guru da vizinhança
Consultem, o que fizeram.
- ”Só uma solução alcança
A paz aos que a bem quiseram:
Para um casal harmonioso,
Que se tornem é preciso
Os dois, como cada esposo,
Um só. Tal é o meu juízo.”
Logo os dois, a uma só voz:
- ”De acordo, claro, afinal
Que um só fiquemos após,
Tornados num só. Mas qual?...”
Mercador
I
Nos Balcãs caminhava o mercador,
De cidade em cidade, aldeia a aldeia.
Viajava por países de Ásia meia,
Pelo norte da Índia, até o sol-pôr.
Mercador de palavras como um ror
Já fora dele o pai, colhia a teia
Das palavras à sorte, onde as semeia
Dele o trilho de acaso, horto maior.
Pagava-as quando assim alguém lho impunha,
Cedia-as se alguém delas precisava.
E muitas eram onde o ignoto punha.
Ondas, marés, ao montanhês levava,
Neve e glaciar, aos tórridos países...
Mas quantos a tal torcem os narizes!
II
Atenta o mercador no utilitário,
Com termos de bazar, de indústria leve.
Sem grande entusiasmo, busca breve
Com que ganhar a vida em mundo vário.
Por entre quem amou vocabulário
E linguagem, célebre se teve
O mercador de termos, pois reteve
Cuidada ocupação de amor sumário.
Ao comum ajuntava as emoções,
Deslumbramentos de alma, sentimentos,
O afecto peculiar dos corações.
E quantos nele buscam alimentos
Eis que falam por momentos língua tal
Que brilha num mosaico universal.
III
De Portugal levou-nos a saudade,
Tristeza duma ausência dirigida
A quem já não temos cá na vida,
Que já tivemos, pois, mas noutra idade.
De Áustria, a palavra kitsch, de verdade
É que o mercador prende, de seguida,
De Espanha é o termo curso, na medida
Em que é um fora de moda mas que agrade.
Quando chegava a um sítio, os habitantes
Com ele vinham ter, muito discretos,
Descobrem sentimentos hesitantes
Para os quais não terão termos correctos.
E o mercador atento lhes abria,
Num novo termo, um mundo de magia.
IV
Os ladrões de palavras o pilhavam,
Ao desbarato vendem-lhe os tesoiros.
Nos seus cadernos são pepitas de oiros
Os termos que dispunha e lhe agradavam.
Um libanês cliente diz que os loiros
Da classificação nunca bastavam:
Do mercador as práticas armavam
Ordens, rubrica, dum caderno em coiros.
Com o tempo a linguagem foi cifrada,
Mesmo em código duplo, que talvez
A ladroagem fuja assim de vez.
E o cuidado maior desta charada
Tem este mercador, para sossego,
Nos termos a que tem maior apego.
V
Os povos todos que na terra vivem
Pensam e sentem duma igual maneira,
Mas de termos a falta, numa ou noutra leira,
Pode o aparecimento que motivem
Bloquear dum sentimento que se abeira.
Por isso cuidaria que se esquivem
De nós os mil afectos que revivem
Quando de os nomear não ando à beira.
Já que o conhecimento da palavra
Mais facilmente acesso deu à coisa,
Se vais desembestado à tua lavra
Logo o desembaraço em ti repoisa.
Evoca na palavra heróis que apeles,
Serás rapidamente um qualquer deles.
VI
O mercador às vezes faz a troca,
Palavras por legumes, ovo, aveia
Para a mula do carro com que ameia
Na estrada que ao povoado desemboca.
Se for numa palavra que coloca
Troca por troca de que a terra é cheia,
Madruga à luz às vezes da candeia,
Pois a seu termo nenhum abre a boca,
Que desvalorizá-lo o outro iria.
E põe de parte, dele na reserva,
O termo favorito, que não ia
Ser o grosso da venda, mas o observa.
E, ao comparar, repara: há muitos termos
Comuns às línguas, a regar-lhes ermos.
VII
A palavra elegante é sempre a mesma
De línguas em dezenas: conseguida,
Há-de ter nela a ideia bem contida
Na sua própria forma, atada à resma.
Não será de estranhar que, feita lesma,
Se veja no passado, ermida a ermida,
A tantos povos, lenta, distendida,
Se tenha acomodado e agora lês-ma.
Melancolia é um termo que inventado
Foi por quem lhe deu tal sonoridade
De badalada triste como um fado
Que por europa viaja, idade a idade:
Ninguém sabe porque há
mais conseguidas
Palavras, só que são as difundidas.
VIII
O que tem para os termos bom ouvido
Não será um bem-falante, longe disso.
Dum endrominador não tem feitiço,
É bastante lacónico, um sonido
É o que dele ouvem quantos lhe hão surgido.
A força da palavra é o seu chamiço,
A única riqueza a dar-lhe viço,
De beleza selvagem um sortido.
Uma palavra basta para pôr
O mundo em movimento e lhe extrair
Um segredo inovado, com calor
Acrescer-lhe a surpresa dum porvir.
Quem das palavras vive é que, fecundo,
As memórias encerra em si do mundo.
IX
Espanta o mercador que chocolate
Seja palavra igual em toda a língua,
Como se de mais sons houvera míngua.
Porém, já borboleta se rebate
Diversa em todas; a igualdade vingo-a
Mantendo sugestivo um som que bate
Asas leves, farfale, um tal quilate
Que papillon, butterfly, não sofrem íngua
Na carne do sentido por que voam.
Que dizer do entrañable que, espanhol,
No íntimo sofre perdas que atordoam?
É como a despedida que no rol
Dum adeus para sempre, desmedida,
É a vera imagem já da nossa vida.
X
O termo bem formado, bem sonoro,
Trazia ao mercador muita alegria.
Em paisagem caminha que infundia
Maravilhas intérminas por foro.
Em Babel, afinal, Deus não punia
Multiplicando as línguas sem decoro
Porque este mar de termos não dá choro
É uma oferenda e nada a igualaria.
No Irão tarif é o termo que descobre
Para uma oferta recusar que dá
Muito prazer, delicadeza encobre
Que, refalsada, mal dispõe-nos já.
Que tanta língua legue, no final,
Assim a Deus é que então levo a mal?
XI
Aumenta de ambição o mercador,
Cuidou que seu negócio já podia
Tornar qualquer pessoa bem melhor,
Ensinando a justiça o que seria
Ou mesmo a compaixão que compraria
Por uma mão de arroz a um vendedor
Que do Tibete volta por tal via
Que a morte a farejar-lhe anda em redor.
Sem conta nem medida os benefícios
Devidos a tal homem sempre são.
Inscrevem-se em segredos os resquícios
Das coisas que nas línguas constarão
E é o que, por conseguinte, nos invade
E que constrói a nossa humanidade.
XII
Durante a guerra a actividade encolhe,
Só depois dela desenvolve então.
Nas nações novas os mercados vão
Entusiasmar-se com quem termos colhe:
A bomba atómica, o radar acolhe
O mercador para negócio são,
Num contrato vendeu mesmo o neutrão,
Como o stalag encante o que o recolhe.
Só que pouco depois o abrandamento
Da curiosidade foi demais,
Já ninguém necessita dum aumento
De termos estrangeiros que acenais.
Cuidou que o retrocesso é passageiro,
Enganou-se, do mal é pioneiro.
XIII
Parking se espalha pelo mundo inteiro,
Weekend e shopping seguem logo atrás.
Conquistadoras, quem venceu as traz
Por marca sua, da conquista ao cheiro.
Mas já o kolkhoze russo a que me abeiro,
Como uma nave soyuz bem falaz,
Não logram nunca acatamento em paz,
Do mundo o resto não se quer herdeiro.
Quem não vender sua palavra ao mundo
A perda tem já nele programada.
Razões políticas há nesta estrada,
De vida estilo de que me eu fecundo.
É que a língua acabamos por falar
Daqueles que gostamos de imitar.
XIV
A Inglaterra espalhou por todo o mundo
Os termos ganster, dandy, mesmo snob,
Embora o derradeiro nunca adobe
Um Baluchistão pobre mas jucundo.
De acordo ninguém diz, é O. K., no fundo
Tomam um drink, jeans usa qualquer Job,
T-shirt, fast food e o mais que nisto englobe
A língua inglesa a passear no mundo.
Porém jihad e fatwa apareceram
Vindas dum mundo que não era inglês.
Ameaçadoras, muito já correram,
Os compradores fazem bicha aos pés.
Analfabeto era não ler francês
Ou inglês e hoje é nem ver que é que lês.
XV
Há palavras morrendo cada dia,
Aspiradas no abismo da ignorância,
O inferno duma língua a que a elegância
Se perdeu na preguiça que nos guia.
Cada vez menos termos haveria
Mundo fora a marcar predominância,
Embora cresça em números a infância,
Explosão sem limites se anuncia.
Os ouvidos humanos se fecharam
Às palavras subtis que outros houveram.
Banalidades cobrem o planeta,
Redes fáceis que a todos enredaram.
Palavras raras, belas se perderam,
O irrelevante as suga, de hoje meta.
XVI
Por mais inverosímil que pareça,
Atém-se a humanidade ao termo pobre.
Árvore imensa onde a ramagem sobre,
As folhas vai perdendo, peça a peça.
Até os ramos da língua em que tropeça
Se quebram ressequidos, sem alfobre
De folhas, de vergônteas, já que cobre
O chão de tronco seco onde esmoreça.
Em vez dum feixe de vital frescura,
A língua é quase de betão pilar.
Um universo que se assim figura
Será uma noite onde, ao ninguém olhar,
Ninguém querer saber como nem quando,
As estrelas se foram apagando.
Califa
O califa de Bagdade
Se admira de Nasredim,
Sábio maior da cidade,
Sempre desdenhar, ao fim,
Das reuniões mui faladas,
No palácio organizadas,
De filósofos e sábios.
Ordem lhe acaba por dar,
Vinda de seus próprios lábios,
De numa participar.
Como se obrigado a murro,
Nasredim vai no seu burro
No dia determinado.
Para a cauda do animal,
Contudo, monta virado.
Apontando feito tal,
A cidade dele troça
Abertamente e sem mossa,
Que ele bem deixa que o façam.
Neste preparo é que chega
Ao lugar onde entrelaçam
Dos ditos sábios a achega.
É a vez de, em coro sidéreo,
Rirem deste despautério.
- ”Montaste o burro às avessas!
Como não te deste conta?!”
Não liga às vozes travessas,
Olha-os bem, de ponta a ponta.
O califa toma então
A palavra e eis a questão:
- ”Porque é que tu nunca vens
A nossas reuniões?
Pelo saber que tu tens
Elogiam-te as nações...”
- ”Misturar-me é que não quero
Com parvos que não venero.”
- ”Toma-los por imbecis?”
- ”Tenho a certeza, califa.”
- ”Que é que a tal te leva? Diz!”
- Ӄ que a pergunta, na rifa,
Nunca dizem que for certa.”
- ”Que pergunta têm alerta?”
- ”Perguntam mui parvamente
Porque montei ao contrário.”
- ”Certa não é, certamente...”
- ”É um questionar arbitrário.”
- ”Dize-me então, por favor,
Qual a pergunta a propor?”
- ”Exactamente a seguinte:
Terá sido Nasredim
Que ao contrário, por acinte,
Montara no burro assim,
Ou é o burro que há virado
Antes para o lado errado?”
E, tal como tinha vindo,
Foi para casa seguindo.
Râbia
Amulher santa do Islão,
Râbia, respostas nos deu
Que a via apontam do chão
A trepar até ao céu.
- ”Donde vens?” - “Do outro mundo.”
- ”Vais aonde?” - “Ao outro mundo.”
- ”E neste mundo que fazes?”
- ”Eu? Pouco dele, por fases.”
- ”E como é que fazes pouco?”
- ”Como-lhe o pão: como um louco
Durante o mesmo segundo,
Faço a obra do outro mundo.”
Visita
Um homem sábio visita
Râbia e fala longamente
De ilusões que o mundo incita,
Miséria sempre presente.
- ”Muito deves gostar disso,” -
Râbia das falas repoisa -
“Para ter-te tanto o enguiço
De não falar doutra coisa!”
Corânica
Numa corânica escola
O mulá faz o final
Exame a ver quem se enrola.
A um aluno diz, leal:
- ”Dou-te a escolher: serão duas
Questões fáceis que eu quiser
Ou uma, se me insinuas
A difícil pretender.”
- ”Quero que a difícil tomem.”
- ”Sendo assim, tu me responde:
Como nasce o primeiro homem?”
- ”Do ventre da mãe, eis donde.”
- ”Seja. E como nasce a mãe?”
- ”Isso agora” - o aluno assunta -
“Vai do combinado além:
É já segunda pergunta!”
Zen
I
Ao budismo zen afectos,
Conversam dois japoneses.
Com mestre dos mais correctos
A retiros fora, às vezes,
Um deles. O outro pergunta:
- ”Que é que fizeste?” - ”Formei,
Após quanto ali se assunta,
A conclusão que é de lei:
Parti tal cheguei – sem nada.”
- ”Então para quê o retiro?”
- ”Sem ele, sem a empreitada,
Como é que ao fim eu confiro
Que sem nada partido hei
Tal sem nada aqui cheguei?”
II
Um asceta zen contava
Que o mestre-mor que tivera
Como Oshibu se chamava.
- ”E que é que viste que ele era?” -
Pergunta-lhe um outro monge
Que ali viera de longe.
- Ӄ muito simples: cheguei
Lá junto dele sem nada
E sem nada retornei.”
- ”Apenas isso?! E te agrada
Afirmar que era o maior
Dos mestres que vens propor?!”
- ”Sim, em verdade eu o digo.”
- ”Mas porquê?!” - ”Porque, sem ele
Como saberia, amigo,
Que sem nada à flor da pele
Tinha chegado e sem nada
De novo parto na estrada?”
Morte
Uns anos depois da morte
Dum inestimável poeta
Juntaram-se, um pouco à sorte,
Uns chineses com a meta
De à pergunta responder:
Quando se pode dizer
Que um poeta estará morto?
“Quando ele perder a vida”,
“Se de editar perde o porto”
- De alguns vai ser a medida.
“Poeta bom morrerá quando
Já não consiga escrever,
Nem por ele nem a mando.”
Mas o consenso se vê
Da poesia neste aborto:
- ”Só quando ninguém o lê
É o poeta deveras morto.”
Agartha
Agartha, o sábio, vivia
Numa floresta indiana.
A solidão que escolhia
Agrada-lhe, não o empana.
Conhecido é por ciência
Dos três mundos e da essência.
Um príncipe o visitou
De longe ido que começa
Por pedir-lhe: - “Que é que sou,
De alma imortal uma peça?
- “Nada te posso dizer,
De tal não tenho saber.”
- ”Fala-me dos outros mundos
Que escapam à nossa vista.”
- “Não posso. Mesmo fecundos,
Não constam da minha lista.”
- ”Dos deuses a natureza...”
- ”Nada sei: matéria ilesa.”
O príncipe que passado
Meses em viagem houvera
Sente-se então enganado
E enraivado vocifera:
- ”Ignorante! Célebre és?!
A tua fama não tem pés!”
-” Isso depende” - responde. -
“Sou famoso do que sei,
Não do que não sei. Nem donde
Às questões responderei
Que faça um desaguisado
Príncipe descontrolado.”
Horta
Nasredim penetra um dia
Na horta do seu vizinho.
Soprava uma ventania.
Pôs-se ele então, de mansinho,
A apanhar para a sacola
Nabo, cenoura, cebola...
O vizinho apareceu
Irritado e perguntou
Que faz no que era de seu.
- ”Nem vais crer” - Hodja contou. -
“Ia a passar lá na rua
E o vento ao ar me flutua,
Num turbilhão pega em mim,
Pôs-me aqui na tua horta.”
- ”E então?” Diz-lhe Nasredim:
- ”Vento assim ninguém suporta,
Agarrei-me ao que podia,
Nabo, alface, uma endivia...
Só que o vento até os levava!”
- ”Estou vendo” - o vizinho olha
O saco que abarrotava. -
“Explica-me esta recolha
Aqui tão bem arrumada
No teu saco de enfiada.”
- ”Ora aí tens!” - diz Nasredim. -
“É o que me há preocupado
Quando chegaste, por fim.
Mexe comigo há bocado.
Pões o dedo na ferida:
Vê só do vento a medida!”
Conquistador
Ao grande conquistador
Que é de todos aclamado
De ter vitória alcançado
Dum inimigo de horror
E que então se vangloria
Disto até mais não poder,
O pobre dum esmoler
Pergunta intrigado um dia:
- ”Quem era, afinal, mais forte?
Tu ou o teu inimigo?”
- ”Eu, é claro, que o persigo.”
- ”Porque então tentar a sorte
Duma vitória a gabar-te
Se dela nem fazes parte?”
Estudante
Um estudante em viagem
Pede ao barqueiro que o passe
A contento, como a um pajem,
Do largo rio ante a imagem,
À outra margem que abrace.
Ora, o barqueiro vivia
Deste labor. Fá-lo entrar,
Logo aos remos se prendia,
Com cuidado se metia,
Profissional, a remar.
De pássaros passa um bando,
No momento, sobre o rio.
- ”Sabe os hábitos e quando
Vêm tais aves voando
Por aqui com tal ousio?”
- ”Eu cá não sei nada disso” -
Diz o barqueiro aplicado.
- ”Pois perdeste, de submisso,
Da vida um quarto de esquisso.”
Tendo o barco após rodeado
De plantas de água um lençol,
O estudante perguntou:
- ”De plantas toda esta mole
Como vive? Que asa bole
Nela, que nome lhe dou?”
- ”Não, não sei de coisa alguma
Dessas” - responde o barqueiro.
- ”Então tu perdeste, em suma,
Meia vida que ressuma
Das águas neste viveiro.”
Chegando do rio ao meio,
Diz outra vez o estudante:
- ”E estas águas, todo o veio
Donde vem? O rio cheio
Vai até onde adiante?”
- ”Disso não sei nada, a sério.”
- ”Três quartos da tua vida
Perdeste” - diz, nada aéreo,
O rapaz, com todo o império.
A madeira apodrecida
Abre um buraco nocasco
E o barco desata a encher-se
Como na torneira um frasco.
O barqueiro, ante o fiasco,
Pára e, com o alarme a ver-se,
Diz, vendo o barco a afundar-se:
- ”Sabes nadar?” - ”Não, não sei...”
-”Nesse caso, sem disfarce,
A vida inteira a afogar-se
É que aqui perdes por lei.”
E para a margem distante
Mergulhou, indo a nadar,
Deixando o barco, o estudante,
Mais o seu orgulho impante,
Rapidamente a afundar.
Ouvido
Em tempos que já lá vão,
Na China um homem gozava
De ouvido tão fino, tão,
Que da margem reparava
No ruído que, a nadar,
Faz o peixe, água a sulcar.
Ao colar o ouvido à terra,
Ouve toupeiras, minhocas...
Quando à noite em sono ferra,
A aranha, ao sair das tocas,
Faz um barulho larvar
Que o leva sempre a acordar.
Um dia foi um prodígio:
Teria ouvido a eclosão
Duma rosa no fastígio
De ao mundo abrir o botão.
Vizinhos foram com ele
A um jardim: que feito aquele!
Até um botão de rosa
Aproximou o ouvido,
Horas e horas ali goza,
Meio sorriso, o ruído.
- ”Ouves mesmo alguma coisa?”
Nos lábios o dedo poisa,
Recomenda aos curiosos
Não perturbem o exercício,
Aparentava os gozosos
Êxtases, tal como um vício.
Ouve as pétalas da flor
Com lentidão, ao calor,
Todas a se descolar,
Ouvia a seiva a fluir,
Murmúrios quase a aflorar,
Roçagar a mal surdir.
Ele nem termos sabia
Para contar o que ouvia.
Após horas no jardim
Uma mulher perguntou:
- ”E o cheiro como é, por fim?”
- ”O cheiro?! Qual?!” - exclamou. -
“Explica-me bem primeiro:
As rosas também têm cheiro?”
Alexandre
Quando Índia fora avançava,
Alexandre da existência
Da feiticeira augurava
De grande reputação
Que o futuro via então
Sem se jamais enganar.
Ficou muito surpreendido
Ao ver a mulher sem par,
Jovem, bela, olhar medido,
Que pergunta, o falar puro:
- ”Queres saber teu futuro?”
- ”Meu futuro não existe” -
Responde o conquistador. -
“Construo-o eu, é o que viste.”
- ”Como tu queiras, senhor.”
E Alexandre, de seguida:
- ”Porém,em contrapartida,
Quero saber como fazes,
Para prever o futuro
Tão exacto, em suas fases,
Com o teu modo seguro.”
- ”Pois eu posso-to dizer” -
Respondeu logo a mulher. -
“É de erguer de certo jeito
Um monte de paus talhados
Duma madeira a preceito.
De incenso são polvilhados.
E, enquanto se pronunciam
Certos termos, se acendiam
As chamas desta fogueira.
No lume que então se eleva
Podemos ver a certeira
Figura vinda da treva,
Com pormenor, do futuro.
Então é que o prefiguro.”
- ”Não me estás mentindo?” - ”Não!”
- ”Dizes-me como se faz?”
- ”Claro. Dou-te a indicação
Do pau de que hás-de ir atrás,
Como talhar os gravetos,
Como dispô-los, secretos,
Como misturar o incenso
E como lhe deitar fogo.”
- ”E verei, é o teu consenso,
O porvir nas chamas logo?”
- “Sim. Mas há uma condição:
Não poderás nunca, não,
Nem sequer por um momento,
Reflectir dum crocodilo
No olho esquerdo. Lamento.
Só no direito, tranquilo.
Mas no esquerdo, um mero instante,
É a perdição tua adiante.”
Diz-lhe Alexandre: - ”Está bem,
Já percebi a evidência.
Jamais tentarei, também,
Indo além do que convém,
Essa tua experiência.”
Mestre
Era um jovem japonês
Que a um mestre se dirigiu
De artes marciais, certa vez.
Grande especialista o viu
Para a prática da espada.
O tempo lhe perguntou
Preciso para apurada
Ter tal arte que sonhou.
- ”Dez anos” - o mestre diz.
- ”Dez anos?! É demasiado,
Não há força de aprendiz
Por prazo tão dilatado.”
E o mestre, a evitar enganos:
- ”Se assim for, então vinte anos.”
Brâmane
Um brâmane muito culto
Vai ter uma vez ao rei.
Dezoito dias o oculto
Lhe tenta explicar da lei,
Dezoito cantos que cita
Do sacro Bhagavad-Gîta.
Escutou com atenção
O rei, contudo, no fim,
Ao brâmane com unção
Diz, numa dúvida, enfim:
- ”Tudo isso está muito bem,
Mas compreendeste também
Tudo quanto me explicaste?”
Responde o brâmane: - ”Não,
Mas importante que baste
É que tu, de coração,
Vislumbando-lhe sentido,
O tenhas compreendido.”
Xun Zi
Xun Zi conta que um famoso
Mestre tomou, certo dia,
A decisão, imperioso,
De que jamais falaria.
Um discípulo pergunta:
- ”Mestre, se não falas mais,
Como é que a assembleia junta
Transmite, com que sinais,
O teu grande ensinamento?”
O mestre explicou-lhe assim:
- ”Fala acaso o firmamento?
Ora, as estações, no fim,
Ocorrem e as criaturas
Multiplicam-se, seguras.
Que me respondes a isto?”
Nada tinha a responder
Este aprendiz, tudo visto.
Silenciam, até ver...
- Este é o silêncio que após
Dali nos chega até nós.
Buda
Quando Buda oferecia
Na Índia os ensinamenos,
Os cultos, em romaria,
Quem de pensar quer fermentos,
Acorriam a escutá-lo
Para tentar praticá-lo.
Porém, os menos dotados,
Desprovidos de altos voos,
Ouviam, mas desolados:
- ”Levar à prática vou-os,
Mas como, se os não entendo?”
Um deles tanto se queixa
Que Buda, a sofrer o vendo,
Lhe tomou então a deixa
E aconselhou-o a varrer
Criteriosamente o chão
E as sandálias que tiver,
A limpar, polir à mão.
Ora, o homem alcançou
Deste modo o despertar
Que há que tempos desejou
Sem sequer o vislumbrar.
Rumi
O poeta Rumi falava
De música aos seus alunos.
Do rebab perguntava,
(Do Afeganistão é um múnus),
Donde vem a força, o encanto
Da música de seu canto.
Quando um o questionou,
Retorquiu-lhe em melodia:
- ”Deveras quando soou,
Eu do paraíso ouvia
A portada em movimento
Por um mui longo momento.”
-”Também eu” - o aluno afirma. -
“Também da porta o barulho
Ouvi, mas não se confirma
O êxtase que ali vasculho.
Porquê?” - ”Simples é a razão” -
Diz Rumi, descendo ao chão. -
“Do paraíso ouço a porta
Quando ela se vai abrindo.
Vós, quando o som vos transporta,
É a fechar que ela vai indo.
É pequena a diferença,
Mas é inversa a recompensa!”
Passos
Havia em Àfrica um homem
Magro mas de olhar brilhante.
Pelas aldeias se somem
Seus passos para diante.
Na mão leva um balde água,
Na outra, uma tocha acesa.
Se lhe perguntam que mágoa
Ou que esperança represa
O levam a transportar
Os dois objectos, responde:
- ”A tocha é para atear
O paraíso sempre onde
O não encontrar eterno,
Como água é para apagar
Por onde calhar o inferno.”
- ”Mas queres iluminar
O céu e apagar o diabo
Porquê?” - ”Travo atento a guerra
Porque vejo, ao fim e ao cabo,
Que há tudo isto aqui na terra.”
E, seguro, no maninho,
Continuava o caminho.
Filho
Nasredim um filho tinha
Que perguntou curioso:
- ”Porque flutua uma pinha,
Não vai ao fundo lodoso?”
Nasredim profundamente
Pensa para responder
Com franqueza, limpa a mente.
- ”Nada sei de tal, sequer.”
- “E como fazem os peixes
Ao respirar dentro de água?”
- ”Não sei, não. Porém, não deixes
De perguntar, não traz mágoa.”
- ”E as marés a que se devem?
Porque é que o mar sobe e desce?”
- ”Sei lá bem porque se elevem
E porque minga o que cresce!”
- ”Não te incomodam, em suma,
As perguntas de rajada?”
- ”Mas, de maneira nenhuma!
Sem tal, nunca aprendes nada...”
Noviço
Um noviço ao mestre chega
E pergunta: - ”Tenho em mim
A natureza que adrega
Buda ter até ao fim?”
- ”Não!” - lhe diz o mestre, seco.
- ”Mas não disseste que todo
O ser vivo, forte ou peco,
De Buda, de qualquer modo,
Terá sempre a natureza,
Mesmo a planta ou o animal?”
- ”Sim” - responde, sem surpresa.
- ”Porque não eu, afinal?!”
Peremptório, o mestre junta:
- ”Porque fazes a pergunta.”
Prender-se
Um jovem muito dotado,
Cioso de não prender-se
A nada, por nenhum lado,
(Como um sábio deve haver-se)
Certo viajante encontrou
Que ali cachimbo fumava
E desde logo o imitou.
Mal sentiu que começava
A tomar gosto ao tabaco,
Rápido abandona o fumo.
Um astrólogo, a um pataco,
Nas estrelas, em resumo,
Ensinou-lhe a ler destinos
E a remendar desonesta
Vida nos termos mais finos.
Logo um astrólogo em festa
Se tornou, mas ao dar conta
Do prazer de encaminhar,
Logo o remorso desponta,
Finda a tarefa a largar.
Experto em caligrafia,
Quando exímio se tornou,
Logo a tudo renuncia,
Que ali o medo o agarrou.
Como monge num convento,
Recebeu do superior
Proposta dum nobre intento:
Suceder-lhe vem propor.
Rejeitou, que a promoção
Temeu que o ia prender
E logo ao convento então
Foge sem adeus sequer.
O mesmo com a pintura,
O sabre, o teatro, o canto...
Se no píncaro figura,
Renuncia, põe-no a um canto.
Quando o fim se lhe aproxima,
Chama um clínico afamado.
O doente, de tudo acima
Quer ver-se, em ânsias, curado.
- ”Que devo fazer?” - pergunta,
Com profunda ansiedade.
- ”Que quer que lhe diga?” - assunta
O outro com sobriedade. -
“Anda assim tão preso à vida,
Tanto então ela o regala,
Que de forma desmedida
Quer tanto, ao fim, conservá-la?”
Pesca
Vem da pesca o jovem monge
Com sete peixes na rede.
Um velho encontra, não longe
De morrer de fome e sede,
Estendendo a mão à beira
Do caminho onde prossegue.
O monge então, com canseira,
Explica como consegue
Escolher-se um bom bambu,
Talhar a cana de pesca
E prender, sem mais tabu,
Fio, anzol e, pela fresca,
A eleição do rio onde ir.
E foi assim por diante,
Que minhoca preferir,
Que peixe a quer, hesitante,
Quando ao velhinho faminto
Lhe tomba a mão estendida,
Cai-lhe a cabeça do plinto
E morreu-lhe à fome a vida.
Dibbuk
Um dibbuk, entre os judeus,
É um defunto que dum vivo
Se apodera, o faz dos seus,
Para atormentá-lo, esquivo.
Hoje narrá-lo rareia.
Perguntaram a Mendel:
- ”Porque é que o ninguém nomeia?”
- ”Porque hoje livrar-se dele
(Vê só o alcance que tem)
Já não o sabe ninguém.”
Confúcio
Confúcio recomendava
O exercício da poesia,
Leitura de odes que amava.
Tseu-Hi recitou-lhe um dia
Uma passagem que diz
Dum rosto que em mulher via:
“Enruga os cantos, feliz,
Da boca um riso trocista.
Olhos belos de raiz
Brilharão, a quem a avista,
No esplendor a preto e branco
Que um fundo branco revista.
Deste a cor diversa arranco.”
Tseu-Hi pergunta o sentido
Que um filósofo mui franco
Encontra no que foi lido.
Confúcio, a quem o poema
Diz além do que é entendido,
Respondeu que isto era o lema
Fiel da sinceridade
Que considerava um tema
Da primária qualidade
Requerida à aplicação
Dos ritos de toda a idade.
Tseu-Hi perguntou-lhe então:
-”Sinceridade porquê?”
Confúcio, com convicção:
- ”Seja lá o que for que vê,
Um fundo branco é questão
Antes de o pintar, não é?”
Guru
Um discípulo a um guru
Votava tal confiança
Que bastava, sem tabu,
Pronunciar-lhe o nome: alcança
A largura atravessar
Dum rio a pé sem tardança,
Sobre águas a caminhar.
O guru, disto informado,
Vem o prodígio testar
Que ante ele foi confirmado.
A si próprio diz então:
“Como santo abençoado
Devo ser para a menção
De mim gerar tal poder!”
Logo, sem hesitação,
Atira-se ao rio, a ver,
Gritando: “Eu! Eu!” Eis senão
Quando acaba por morrer.
Rumi
Rumi, grande poeta persa,
De invasões mongóis expulso,
Espalha a vida, dispersa
Terra em terra, a tomar pulso...
Por fim passou na Turquia.
Por não perder dele o impulso,
Em casa o acolhe, em Konya,
Chams de Tabriz, poeta velho,
Que mui dele divergia.
Rumi dum mestre é um espelho,
Muito rico, bem rodeado,
Pede-lhe o sultão conselho...
Chams era pobre, inflamado,
Um errante, imprevisível.
Quando viu Rumi sentado,
Absorto de modo incrível
Num poema, com paixão,
Pergunta, um pouco irascível:
- ”Que fazes?! Por que razão?!”
- ”Nada que entendas!” Responde
Rumi. Chams agarra à mão
O poema e ali é donde
À lareira o atira então.
Chams de Tabriz não esconde
Que a Rumi quer tirar vendas.
Este grita, a fúria em vão:
- ”Que fazes?!” - ”Nada que entendas!”
Indiana
Conta uma história indiana
Que um mui célebre guru
Que a uma floresta se irmana
Há tempos, já seminu,
Visitaram certo dia
Uns estranhos. Muito a cru,
Uma questão lhes bulia.
- ”As respostas serão duas
À questão que se enuncia:
A primeira, a abrir-nos ruas,
A segunda e a terceira.”
As visitas, mentes nuas,
Se admiram daquela asneira:
- ”Falou de duas respostas
Mas depois, muito à ligeira,
Contou-nos três. São supostas?”
- ”Deixem-me explicar então.
À pergunta, logo expostas
Duas saídas irão.
De imediato reparei
Que, mal vo-las ponha à mão,
Vem-me à mente e então terei
Uma terceira intuído.
Por isso é que a acrescentei,
Por não ser desprevenido.”
Japonesa
Uma lenda japonesa
Conta que um jovem pintor
Que aperfeiçoar a cor
Pretende, a um mestre que preza
Vai que tinha grande fama
Em tons, matizes e trama.
Quando chega ao personagem,
Que só lecciona lhe dizem
Por dia as horas que visem
Do Sol dois pontos da viagem,
Ao nascer e ao pôr-do-sol,
Enquanto no jardim bole.
O mestre recebe o jovem
Que longa romagem tinha
Feito, como se adivinha.
Logo às pretensões que o movem
Acolhe, para regalo,
Ao aceitar ensiná-lo.
Lado a lado no jardim,
O jovem se apercebeu,
Para grande espanto seu,
De que o mestre é cego, enfim.
Como é que um cego podia
Cor lhe ensinar algum dia?
Ficou tentado a partir,
Porém decidiu ficar,
O mistério a decifrar.
O mestre cego a pedir
Ao novo aluno começa
Que os olhos feche e que peça
Uma cor à fantasia.
- ”De olhos fechados só vejo
O preto” - diz-lhe, sem pejo.
- ”Eu” - pois o mestre anuncia -
“Consigo às rãs ver o azul
Como aos céus o véu de tule.
Tenho em mim todas as cores.
Como alguém diz que sou cego?”
O jovem, já sem apego
A estranhos que tais mentores,
Cuida que perde o juízo
O velho, não tem mais siso.
Para o não contrariar,
Mantendo os olhos fechados,
Diz-lhe em termos inventados:
- ”Já começo algo a notar.”
- ”Que vês tu?” - ”Vejo o vermelho
De árvores de tronco velho.”
O velho mestre estacou
E, com espanto na voz,
Remata, incrédulo, a sós:
- ”Impossível! Onde estou,
Nem mesmo longe acolá,
Nenhumas árvores há...”
Neve
No Japão, em pleno inverno,
Caminhava um jovem monge
Por neve fresca até longe.
Voltando-se, ao frio interno,
Viu que imprimia pegadas
Atrás de si afundadas,
A pureza destruindo
Da brancura do coberto.
Para bater tudo certo,
Volta atrás, vai espargindo
Com as mãos a neve solta
Sobre as pegadas em volta.
Mas no caminho em retorno
Novas pegadas imprime,
Sempre assim, por mais que arrime
Neve por sobre o contorno
Novas pegadas se aninham
Por onde os seus pés caminham.
Foi ao mosteiro, arranjou
Então uma vassourinha
E, ao caminhar, adivinha
Que para quanto intentou
O melhor é caminhar
Às arrecuas e, a par,
As marcas ir apagando
À medida que as fazia.
Isto é lento em demasia
E depressa vai cansando.
Um monge as idas e vindas
Viu cheias de intenções lindas
E perguntou ao noviço:
- ”Que é que buscas tu ao certo?”
- ”Nem de longe nem de perto
Perturbar todo este viço
Imaculado da neve,
Pretendo apagar-me breve.”
- ”Pela primavera aguarda.
A neve derrete ao sol
E a tua pegada mole
Desaparece, não tarda.”
E o velho monge sereno
Bebe a alvura, calmo, em pleno.
Bovnam
A Bovnam, rabi de fama,
Se apresenta um velho um dia:
- ”Quem foge duma honraria,
(É o que o Talmude proclama)
Faz com que ela, ao que a repele,
Venha a correr atrás dele.
Pois bem , toda a minha vida
Fugi de honrarias eu,
Nenhuma me perseguiu.”
- Ӄ que tu, na tua lida,
Sempre andaste, contumaz,
Ansioso a olhar para trás.”
Gigantesca
Uma estátua gigantesca,
Buda deitado de lado
No Nirvana quando há entrado,
Esconsa, ninguém repesca
Das areias entre os dedos
Lá dos afegões rochedos.
Trezentos metros medir
Deverá de comprimento.
De todo o deserto o vento
Por séculos a zunir
A pouco e pouco enterrado
A terá, pois, nalgum lado.
De arqueólogos equipas
Tentam um século inteiro
O colosso verdadeiro
Encontrar e nem farripas
Vislumbram de algum sucesso,
Antes lhes é tudo avesso.
Contam que uma expedição,
Quando o país era presa
De guerra e convulsão tesa,
Se perdeu numa região
Árida, pela canícula
Da estiagem, sem retícula
De mapa que lhes valera.
Esgotaram provisões,
Reservas de água, rações...
A pé vão, agora à espera
Dum bom reabastecimento,
Mas nem rádios, de momento.
As forças iam perdendo,
Limiar de sobrevivência.
Uma noite, uma evidência
Num terreno vai-se erguendo:
Reconhecem pelo fosso
Que era uma boca de poço.
Logo um deles se arrastou,
Um calhau deixa cair:
Rumor de água vão ouvir
Que um pouco abaixo ecoou.
Reanima-os o ruído
E o poço é desimpedido.
A uma rocha arredondada
Amarraram uma corda.
É o mais magro que concorda
Descer e fazer a aguada.
A escuridão é completa
Mas encher cantis é a meta.
Puderam dessedentar-se
Da missão os elementos.
Acabaram-se os tormentos,
A vida ao corpo a tornar-se.
Comeram o que encontraram:
Bagas que ao poço tiraram.
Dormiram algumas horas,
Marcharam antes do sol,
Fugindo ao calor que imole.
Mais tarde, muito a desoras,
Socorrem-nos camponeses
Hospitaleiros, corteses.
Nunca souberam que tinham
Naquela noite encontrado,
Providenciais, ao lado,
Boas águas que os sustinham
De Buda na orelha cheia
Enterrada sob a areia.
Hitchcock
Para Hitchcock o que importa
Era acção, não o motivo.
Que é que está por trás da porta?
Vale é que dela me esquivo.
O segredo do segredo
É por McGuffin tratado.
Dois homens, conta o enredo,
Num comboio, lado a lado,
Viajam, quando um aponta
Do outro a mala lá por cima
E faz a pergunta tonta:
- ”Que é que leva neste clima?”
- ”Um McGuffin” - o outro acode.
- ”Que é que é isso exactamente?”
- Ӄ um aparelho que pode
Capturar-nos, de repente,
Leões nos Adirondacks.”
(É cadeia montanhosa
Que nem sequer atabaques
Toca a quem lá férias goza.)
- ”Não há lá nenhum leão!” -
Diz o outro com desdém.
- ”McGuffin talvez então
Não seja o que a mala tem...”
Saco
Na estepe de Ásia central
Carrega um homem um saco
Às costas, piramidal,
Ao sol quente, feito um caco.
Cruza com outro que quer
Saber o que o saco tem.
- ”Toalhas” - diz-lhe, a sofrer,
O que do saco é refém.
- ”Para quê?” - ”Secar a cara.”
- ”Mas é de loucos! Pesado
É demais. É pilha rara
De cem toalhas no costado!”
- ”Mas não é gesto gratuito:
É que, enfim, eu suo muito...”
Bolos
Nasredim diz ao vizinho:
- ”Adoro bolos de mel
Com sêmola, mas definho
Por não conseguir daquele
Manjar nem um só comer.”
- ”Então porquê?” - ”Porque em dia
Em que mel em casa houver
Não há sêmola e, se havia,
Então é o mel que nos falta.”
- ”Ainda assim, alguma vez,
Onde um é já o outro salta,
Os dois juntos ali vês.”
- ”Pois, mas quando isso se apraza
Eu jamais estou em casa.”
Strudel
Numa família judia
O filho pergunta um dia
Ao pai, um homem letrado,
Porque o strudel é chamado
De strudel. O pai reflecte
E diz como lhe compete:
- ”Não tem o strudel a forma,
A espessura que o conforma,
A consistência daquele
Comer chamado strudel?”
- ”Tem” - o moço lhe confirma.
- ”E a canela não se afirma
Nele como no strudel?”
- ”Sabe a canela como ele.”
- ”Tem dentro maçãs cozidas,
Tal um strudel, bem medidas?”
- ”Sim” - o filho lhe responde.
- ”Se todos os pontos onde
O comparar com strudel
É tal e qual como ele
Porque havia de o chamar
Dum outro modo, em lugar?”
Buracos
Nasredim muito ocupado
Num campo anda a abrir buracos.
No fundo dispõe uns nacos
De queijo e com mui cuidado
Logo os fecha muito bem.
Um amigo que lá vem
Pergunta-lhe porque aquilo
Ele andava ali fazendo.
- ”Abro buracos. Defendo
Que apanho ratos, tranquilo,
Só com este estratagema.”
- ”Como assim?! Isso é um poema...”
- ”Atraído pelo cheiro
Do queijo, o rato se inclina,
Funga e entra, é dele a sina,
Para o buraco, lampeiro.”
- “E porque os fechas então?”
- ”É para que os ratos não
Possam voltar a sair,
Uma vez dentro ao cair.”
Espelho
Um homem há um bom pedaço
Estava perante o espelho:
Fecha os olhos. De embaraço,
Pede a mulher um conselho:
- ”Que é que fazes tu, de pé,
Ante o espelho aí plantado?
Porque estás de olho fechado?”
- ”Eu quero ver como é que é:
Como é que eu sou a seguir
Quando estiver a dormir.”
Brasil
Em S. Paulo, no Brasil,
Recebe um italiano
Um amigo: -”Não refile,
Não conduzo por engano.
Meu cunhado é motorista,
Ele é que me deu a pista.
Não se inquiete, já que eu faço
Tal como ele me ensinou:
Ao sinal vermelho, esgaço,
Melhor, acelero e voo.
É que, se não corro assim,
Qualquer ladrão vem a mim.”
Com efeito, noite fora,
O brasileiro ultrapassa
Sinais vermelhos agora.
O italiano se embaça,
Do carro preso ao assento,
Quase aterrado do intento.
De súbito, ao sinal verde,
Logo o brasileiro estaca,
Quase a chiar travões perde.
- ”Que se passa?” - o outro ataca. -
“No sinal verde paraste,
Não há um ladrão que te arraste?”
- Ӄ que pode do outro lado
Vir chegando o meu cunhado.”
Capelista
Nasredim foi capelista,
Anotava as encomendas
Guardando o lápis à vista
No turbante, após as vendas.
- ”Porque o pões atrás da orelha?” -
Diz-lhe um cliente que sai.
- ”O nariz não o aconselha,
Se o lá puser, ele cai.”
Passeio
Dois homens vão a passeio,
Leva guarda-chuva um deles.
Começa a chover a meio.
Já chuva lhes pinga as peles
E o homem não quer abrir
O guarda-chuva, a seguir.
Pergunta o outro porquê.
- ”Não serviria de nada” -
Diz o amigo, de boa-fé. -
“Cobertura esburacada...”
- ”Então porque trouxeste esse?”
- ”Nunca pensei que chovesse.”
Analfabeto
Um homem analfabeto
Vem pedir a Nasredim
Que carta escreva, correcto,
A Istambul, que a manda assim.
- ”Não posso! Bem gostaria...” -
Diz-lhe Nasredim em troca.
- ”Porquê?” - ”Porque todo o dia,
Calçado com esta soca,
Muito me doem os pés.”
- ”Mas escreves tu com eles?!”
- ”Não, mas sofro dum revés:
A escrita a que tu apeles
Em minha caligrafia
É tão má que até Istambul
De caminhar eu teria,
Cruzando de norte a sul,
Para ler ao teu amigo
A carta que não consigo.”
Disparatadas
Perguntas disparatadas
Faziam a Nasredim,
De longe até disparadas
Para ouvir dele algo enfim.
- ”Quantas patas de rã são
Para ir daqui à Lua?”
-”Uma só,” - diz o truão -
“Mas bem mais longa que a tua.”
Banana
Num restaurante, no Irão,
Ao meditar sobre o mal,
Um cliente pede então
Uma banana mais sal.
Salga cuidadosamente
A banana e deita-a fora.
- ”Porquê?” - dizem ao cliente
Circunstantes, sem demora.
- ”Porque odeio nas entradas
Quaisquer bananas salgadas.”
Rússia
Na Rússia o judeu Mendel
Pegou no cesto e o abriu,
No regaço e sobre a pele
Uma toalha estendeu
E, sob os olhos atentos
Dos parceiros de viagem,
Pega na faca e em momentos
Corta um frango sem paragem.
A seguir descasca um ovo,
Batatas e beterraba,
E um pouco de azeite novo
Acrescenta e não acaba:
Cebola, sal e mostarda,
Mais um raminho de salsa...
Fica o efeito a olhar, não tarda,
Mas logo sob os pés se alça,
Abre a janela ao comboio
E atira tudo lá fora.
Dúvida a um parceiro mói-o,
Pergunta-lhe, não demora:
- ”Mas que acaba de fazer?!”
- ”Frango em salada judia.”
- ”Joga-a fora sem comer?!”
- ”É que não há, juraria,
Coisa que eu deteste mais
Neste mundo que a salada
Judia de frango. Tais
As razões. E ei-la enjeitada.”
Tempo
Anda um grupo a passear
E pergunta a Nasredim:
- ”Quanto tempo vai levar
Da aldeia até ao confim?”
- ”Andem!” - disse-lhes. - ”Mas quanto?”
- ”Andem” - repete. Mais nada
Retiram dele. Entretanto,
Fazem-se lestos à estrada.
E meia hora mais tarde
Chegam ao lugar seguinte.
Ouvem passos com alarde
A correr, tal por acinte.
Nasredim vêem agora,
Sem fôlego, a parar junto.
- ”Demora uma meia hora.”
- ”Porque não falou do assunto?”
- ”Porque antes eu não sabia
Qual era a velocidade
A que o grupo seguiria.
Ou isto não é verdade?”
Fumar
Certa noite, Nasredim
Tem vontade de fumar.
Não consegue afugentar
Tal desejo. Então, assim,
À pressa se levantou,
Bate à porta do vizinho
Que pergunta, de mansinho,
Mui depois que o acordou:
- ”Que queres?” - ”Tenho vontade
Muito horrível de fumar.
Não tens fogo no teu lar?”
- ”Fogo?!” - ”Sim.” - ”Vens de verdade
Acordar-me em plena noite
Pedindo fogo e na mão
Tens aceso um lampião?!”
- ”Busco quem o lume acoite.
Vê se mui alto não gritas,
Que o apagas, acreditas?”
Filho
Nasredim, com convidados,
Manda o filho comprar chá:
- ”Depressa, pés despachados!”
Vai o filho a correr já.
Retorna muito mais tarde
A arrastar os pés de sorna,
Quando lume nenhum arde,
De vez já perdida a jorna.
Repreende-o, furioso,
O pai: - ”Eu disse depressa!”
- ”Mas não disseste, é curioso,
Nada a quando se regressa...”
Quântico
Niels Bohr, o quântico físico,
Em Tisvild conhecia,
Na casa de campo um tísico
Com uma ancestral mania:
Mantinha uma ferradura
Por cima da porta escura.
- Ӄs mesmo supersticioso?
Acreditas de verdade
Que a ferradura traz gozo,
Vai trazer felicidade?”
- ”Claro que não” - responde ele. -
“Porém parece que aquele
Ferro resulta se o fite
Mesmo quem não acredite...”
Suíça
Durante a guerra voavam
Sobre a Suíça os ingleses
Enquanto bombardeavam
A Itália múltiplas vezes.
Da bateria suíça
O comandante chamou
Um piloto que na liça
Sobre ele alto sobrevoou..
- ”Você acaba de entrar
Em suíço território.”
- ”Eu sei “ - diz o inglês lá do ar.
- ”Se de imediato este inglório
Voo não voltar atrás,
Então terei de abrir fogo.”
- ”Eu sei” - torna o inglês, veraz,
E em rota nem liga ao rogo.
A bateria dispara
Durante vários minutos,
Nem a recarregar pára.
- ”Do vosso fogo os produtos
Estão cem metros abaixo” -
Diz o inglês, calmo e castiço.
- ”Eu sei” - responde-lhe, baixo,
O comandante suíço.
4
Ao Serão de Quarta-feira
Naftali
Naftali, mestre judeu,
Estava a ralhar um dia
A um filho que o mal fez seu,
De idade em dez anos ia.
- ”O que tu fizeste não
Está mesmo nada bem.”
- ”Que fazer na ocasião,” -
O petiz mal se contém -
“Se empurra o instinto do mal?...
Foi bem mais forte do que eu.”
- ”Pois” - diz o pai - “faz igual,
O mal como mal agiu,
Faz tu bem tal deve ser.
Ao menos imita-o nisso.”
- ”É verdade, é o que se quer,
Só que ele não tem o enguiço
Que nós temos, por sinal,
E no pior momento vem:
Não tem o instinto do mal
Que obrigue a fazer o bem.”
Água
Um fio de água corrente
De Mohammed Aslam à porta
Lhe murmura permanente.
Nunca lhe o desejo importa
Que tem sempre de a provar,
Não lhe toca porque, exorta,
Decerto pertence a um lar.
O desejo foi mais forte
Um dia, ao se refrescar.
Mas Aslam não perde o norte,
Tira de seu próprio poço
De água a bilha de transporte,
Do rego a despeja ao fosso.
A seguir encheu a bilha
De regato neste esboço,
Com consciência ergue a vasilha,
Bebe em paz, refeito moço:
Ninguém vê que água partilha.
Bassorá
Um homem de Bassorá
Na Idade Média decide
Que há-de ver, ou cá ou lá,
Custe o custo a que convide,
Do mundo o fim que haverá.
Teria ouvido falar
Por filósofos e poetas
Que o fim do mundo é um lugar
Onde viajantes estetas
Do abismo vão se acercar
No fundo do qual, uivantes,
Correrão rios ferventes.
Vendeu os bens todos dantes,
Comprou camelos correntes,
De guarda armada e garantes
Se rodeou e de comida
Em bastante quantidade,
Partindo então, de seguida,
Numa noite em que a cidade
Via a Lua Cheia erguida,
A aproveitar a frescura
E a nocturna claridade.
Caminhou à desmesura
Sempre a leste, que, em verdade
Era onde há o fim que procura.
Trocou camelos por mulas,
Para atravessar montanhas.
E por camelos com gulas
De águas em oásis tamanhas
Quando por China além bulas.
Cruzou rios e cidades,
Embarcou num barco à vela,
Do oceano imensidades
Transpondo a olhar uma estrela,
Choca em perigosidades,
Aventuras tenebrosas,
Alguns guarda-costas perde.
Chega à América e frondosas
São gentes, paisagem verde,
Pirâmides fabulosas
Feitas por quem nem o ferro
Afinal conheceria.
À doença, traição, erro,
A custo sobrevivia.
Viu pinguins longe, no aterro,
Que por humanos tomou.
Atravessou noutro barco
Outro mar que o balançou,
Que quase o atirou ao charco,
Mas a Europa alcançou.
De terra em terra fugiu
Escapando a locais guerras
Que então, de fio a pavio,
Devastam campos e serras
De Espanha aos Balcãs, no ousio.
Chega ao fim a volta ao mundo,
Quatro anos de provações,
O arredor atinge, imundo,
De Bassorá, seus brasões,
Donde partira jucundo.
Reconheceu a paisagem
Bem familiar da infância.
Na cidade finda a viagem,
Busca o bairro, a casa, em ânsia,
O irmão busca com coragem.
Viu-o no mesmo lugar
Onde o houvera deixado,
A meia-noite ao soar.
- ”Do mundo o fim avistado
Houveste, acaso, ao calhar?”
- ”Não vi nada semelhante.
Cavalguei e naveguei
E eis que me encontro perante
O lugar donde arranquei.
Dilema decepcionante,
É tal se nem viajado,
Saído do mesmo sítio
Houvera para algum lado.
Todo o meu percurso, dite-o
Embora, eis que tu sentado
Estás bem à minha frente
No teu lugar. Que serviu
Tanto esforço? De repente,
Que nada mudou se viu.”
- ”Engano!” - comenta, ausente,
O irmão. - ”Pois algo mudou.”
- ”Então o quê?” - ”Olha!” - estende
O dedo à Lua que achou
Cheia à partida e que rende
Um quarto, ora que chegou.
- ”Mudou a Lua” - lhe diz.
- ”Não mudou por minha causa,
Muda sempre de cariz,
A viagem não lhe impôs pausa.”
- ”Não disse tal, o que fiz
Foi apontar-lhe a mudança.
Tu parado, em movimento,
Pouco importa, o que ela alcança
É que muda a seu contento.
Não podes, após tal dança,
Dizer que é tudo como antes.”
Fica o viajante a pensar
E após diz, de olhos brilhantes:
- ”Como antes anda a mudar!”
E o outro, após uns instantes:
- ”Ainda está por provar.”
Chofar
Um judeu testemunhar
Foi perante um juiz russo.
Pergunta-lhe hora e lugar
Do evento, a coçar o buço.
- ”Foi quando o chofar tocou” -
Lhe retrucou o judeu.
- ”Que é um chofar?” - lhe perguntou.
- ”É um chofar!” - lhe respondeu.
O chofar é um instrumento
Feito em corno de carneiro
Que é tocado no momento
Dumas festas, o ano inteiro.
- ”Se não dizes de imediato
O que é um chofar” - diz o juiz -
“Na prisão é o seguinte acto
Em que tombas por um triz!”
- ”Um chofar é uma corneta.”
- ”Porque não disseste logo,
Sem que ameaças cometa?
É tudo arrancado a rogo!”
E o judeu, fincado à meta:
- ”Porque não é uma corneta!”
Faminto
Um faminto caminhava
Só e perdido no deserto.
Só com pão quente sonhava,
Ovo fresco, azeite perto.
A meio da noite chega
A um acampamento em hora
Em que um ladrão escorrega
Com os roubos, indo embora.
Ora, os donos acordaram,
Tomaram o vagabundo
Pelo ladrão que assustaram.
Cem bastonadas no imundo
Dão antes de descobrir
Que se haviam enganado.
Pois desculpam-se a seguir,
Põem-no bem alimentado
De ovos frescos e pão quente,
Mesmo até dum bom azeite.
Matou a fome, contente.
Semanas após o aceite,
Fatigado e esfomeado
Chega a um outro acampamento.
Viram-no tão esgalgado
Da fome pelo tormento
Que lhe ofertam de comer.
- ”Aceito” - diz às guinadas. -
“Contudo quero sofrer
Primeiro as cem bastonadas.”
Chammai
Uma das mais rigorosas
Das escolas do Talmude,
A de Chammai, diz que gozas
De divórcio, já, em virtude
De a mulher só um cozinhado
Haver mal confeccionado.
Um jovem questiona um dia,
Então, célebre rabino:
- ”Mas quem é que aceitaria
Tal coisa como destino?
Que haja a divórcio direito
Por tal razão tãosem jeito?”
- ”Não percebes nada, a frase
É escrita a bem da mulher,
É uma defesa de base.”
- ”Não estou a compreender...”
- ”Quando um homem estiver
Disposto a largar mulher
Por uma razão tão fútil,
A mulher deve feliz
Sentir-se, de isto ser útil
A se livrar do cariz
Dum homem tal, tão sem jeito
Que o divórcio é um bom preceito.”
Buraco
Um dia, de manhã cedo,
Nasredim cava um buraco
Nas hortas. Logo, num credo,
Enche-o de pedras e caco.
Olha então à sua frente
O monte de terra e cava
Outro buraco onde tente
A terra enfiar que sobrava.
Um vizinho fica a olhar,
Espantado com tal acto.
Nasredim, suor a limpar,
A pensar põe-se, pacato.
- ”Que vais fazer do segundo
Monte de terra cavado?
É num terceiro mais fundo
Buraco que tens pensado?!”
- ”Pára aí!” - diz Nasredim. -
“Não há tempo nem num ano
De explicar até ao fim
O pormenor do meu plano.”
Fumar
Um amigo alguém encontra
Que dois cigarros fumando
Juntos está, como a montra
Das marcas que anda queimando.
-”Eu por mim um vou fumando
E outro pelo meu cunhado
Que não pode fumar quando
Hoje é um hospitalizado.”
Uma semana mais tarde
Voltam a encontrar-se os dois.
No amigo um só cigarro arde
E o porquê quer o outro, pois.
- ”Este é pelo meu cunhado,
Continua no hospital.
Eu, entretanto, hei deixado
Já de fumar, por sinal.”
Soviético
No regime soviético,
Dois oficiais frente a frente.
Um pergunta ao outro, céptico,
A pergunta mais urgente:
- ”Que pensas tu do regime?”
- ”O mesmo que tu, solerte.”
- ”Nesse caso, convenci-me,
O meu dever é prender-te.”
Cruel
Um cruel governador
Pilhava, aterrorizava
Do Império Otomano um ror,
Nas terras que governava,
Doutro governador filho,
Que, por sua vez, bem duro
Com o povo foi, rastilho
Da fereza que hoje apuro.
A divisa parecia
A de que o poder é feito
Para abusar cada dia
Dele a torto e a direito.
Ora, um dervixe vestido
Muito desgraçadamente,
De santidade investido,
Noite e dia, permanente,
Anda ao acaso das ruas
Apregoando, convicto,
Mil insanidades cruas,
Ao que crê qualquer perito:
- ”Viva o governador, viva!
Que ao governador Alá
Dê vida longa e festiva!”
Ao dervixe faz que vá
Alguém mui prudentemente
Murmurar: - ”Porque ao tirano
Desejas longa e decente
Vida um ano atrás dum ano?”
- ”Porque o pai dele era mau
E ele ainda é pior.”
- ”Não entendo. O varapau
É que era de se lhe impor...”
- ”Pois então pensa um bocado:
Se nos livrarmos daquele,
Que desgraças, por seu lado,
Nos traria o filho dele?”
Selos
Numa estação de correios
Da caída União Soviética
Protesta alguém, sem rodeios,
Ante a empregada, com ética:
- ”Camarada, os novos selos
Com a efígie de Lenine
Não colam nunca: os meus zelos
Não resultam. Que os define?”
Com ar de enfado, a sorrir
Diz o balcão de bem perto:
- ”Vê. Não estás a cuspir,
A cuspir do lado certo...”
Húngaro
Um húngaro no hospital
Dos olhos e dos ouvidos
Quer o serviço que igual
Os trata nos ofendidos.
O soviético legado
Diz: - ”São dois departamentos,
O dos olhos é dum lado,
Doutro, os ouvidos.” Momentos
Após diz o paciente:
- ”Então tenho de ir aos dois.”
- ”Porquê?” - ”Vê que estou doente,
De quê não entendo, pois,
De algum tempo a esta parte,
E eu bem descanso e retoiço,
Meus sentidos vão destarte:
Eu não vejo aquilo que oiço...”
Inadequado
Um poder inadequado,
Inoperante seguia,
Lenine, Estaline ao lado,
Krustchev e Brejnev à guia,
Todos no mesmo comboio
E, de repente, este pára.
Diz Lenine (a espera mói-o),
Quando naquilo repara:
- ”Chamem especializados
Engenheiros do lugar
E que sejam despachados
O comboio a reparar.”
Chamaram os engenheiros,
Meteram mãos ao trabalho,
Mas nem saber nem dinheiros
Mexem um comboio falho.
Estaline berra então:
- ”Fuzilem os engenheiros
E o maquinista que é vão,
Também, já agora, os fogueiros!”
Obedecem-lhe, mas fica
O comboio ali parado.
Krustchev é após quem se aplica
A rever o destinado:
- ”É fácil, há que arranjar
Engenheiros, maquinistas,
Fogueiros para o lugar.”
É o que fazem pelas listas,
Mas o trem mantém-se ali
Paralisado de vez.
Então Brejnev sorri,
Olhando-os nos canapés:
- ”Camaradas, as cortinas
Fechemos e faz de conta
Que o trem corre nas colinas
Normalmente, ponta a ponta.”
Ditador
Como em qualquer ditadura,
O ditador quer feliz
O povo. Um disfarce apura
A ver o que o povo diz.
A um vendedor ambulante
Pergunta-lhe o que é que pensa
Do querido governante
Que ao país lavra a sentença.
Diz o homem: - ”Que mudança!
Até que enfim temos quem
Se preocupa. O povo dança!
Há escolas como convém,
Hospitais, públicos banhos,
Até justos tribunais.
E os ricos, hoje, em rebanhos,
Seguem exemplos que tais.
De repente, o mundo inteiro
Nos respeita e nos inveja.
Deus deu-nos guia e sendeiro,
Não há melhor que se veja.”
O governante, encantado,
Revelou-se e ao ambulante
Vendedor diz num trinado:
- ”Sou eu o chefe brilhante.
A agradecer-te a franqueza,
Pede-me o que tu quiseres,
Que te é dado de certeza.”
- ”Sim?!” - “São os meus afazeres.”
- ”Então concede-me um visto
Para eu poder do nicho
Fugir que é, desde que existo,
Todo este país de lixo.”
Imperador
Um imperador que tinha
Poder absoluto em tudo
Ouve que alguém adivinha,
Por trás de qualquer escudo
Todo o segredo do mundo.
Dos animais entendia
Da língua o selo fecundo,
Nas nuvens mensagens lia,
Decifra o código ao vento,
Às ondas do mar também,
Diz dos trovões qual o intento,
Com animais fala tem.
Até mesmo o pensamento
Em funda mente escondido
Lia a qualquer elemento
Que lhe houvera tal pedido.
O imperador manda-o vir.
Mal ele se perfilou,
Pôs-lhe questões a seguir:
- ”É vero o que aqui chegou?”
Ele respondeu que sim,
Que entende quaisquer sinais
Que a terra ofertar por fim,
Que os interpreta tais quais.
- ”Ouve,” - diz-lhe o imperador -
“Fechado nas minhas mãos
Tenho um pássaro cantor.
Vivo ou morto? Ou serão vãos
Teus esforços desde agora?”
O homem silenciou,
Reflectia sem demora:
Se morto o disser, o voo
O imperadorsoltará;
Mas, se disser que está vivo,
Logo ele esmagá-lo irá.
- ”Então? Isto é muito esquivo?”
Pensa um pouco mais na aposta
E diz, para todos verem:
- ”Pois, majestade, a resposta
É a que as tuas mãos quiserem.”
Chinês
I
Um soberano chinês
Que vivia junto a um lago
Um belo junco uma vez
Mandou montar. Tudo pago,
São madeiras preciosas,
A maior parte, lacadas,
Velas e cordame, grosas
De oiro e prata polvilhadas,
Esculturas, ornamentos
De bronze, de incrustações
De madrepérola aos centos.
Uma vez pronto às funções,
Manda o rei lançá-lo às águas.
Começa o junco a vogar
E o rei vai curar as mágoas
Margem fora a cavalgar.
Muito quilómetro além,
Voltam o rei e o cortejo,
Bem como o barco, também,
De vez cumprido o desejo.
II
Uns dias depois tornaram
O caminho a refazer
Com olhos que se extasiaram
De tal junco poder ver.
E nas semanas seguintes
O mesmo se repetiu.
O irmão do rei tais requintes
Estranhou e lhe inquiriu:
- ”Porque não trepas a bordo?
É o melhor junco do mundo,
O mais belo, estou de acordo,
Mas só em terra o vês jucundo?”
O rei responde ao irmão:
- Ӄ de facto muito belo.
Mas, se dele piso o chão,
Como então fruirei de vê-lo?”
III
Mas, ante a pressão constante,
A bordo o rei trepa um dia
Com a corte hilariante
No junco de fantasia.
Largam amarras e o barco
Lento se alonga em viagem.
Olha o rei ao mundo parco
Correndo olhos na paisagem:
Nada de novo lhe traz,
Montes, bosques conhecidos...
Até o irmão, muito atrás,
A acenar, braços erguidos.
De repente, nuvens vêm,
A ventania soprou
Sobre o lago ali refém
Que logo se encapelou.
O junco cerimonial
Era pesado e não tinha
Como resistir a tal
Furacão como convinha.
Partiu-se, desintegrou-se,
Alguns marinheiros tentam
Nadar, o mais afundou-se
Com o rei. Todos lamentam...
O irmão, que há meses se ferra
Na viagem, cão sem dono,
Esperto ficara em terra:
- Então subiu logo ao trono!
Ásia
Na central Ásia um esperto
Conseguiu entrar um dia
Do xeque no paço aberto
E o cavalo logo avia
Tal como se fora em casa:
Lesto pensou a montada
E a arrumar nada o atrasa
Os bens logo de assentada.
Estendeu-se e adormeceu.
Os guardas, muito espantados
Da atitude do sandeu,
Quiseram, pois, destes lados
Expulsá-lo como intruso.
Mas como era muito forte,
O à-vontede, fora de uso,
Hesitaram com tal porte,
Preferem notificar
Quem lhes é superior.
O intendente do lugar,
Depois um alto senhor,
Mesmo um ministro vieram
Com ele parlamentar,
Que as atitudes dele eram
Um enigma singular.
Tudo em vão. Diz que partia
Quando o momento chegasse.
E pediu a simpatia
Dum sono que o sossegasse.
Tanto em volta comentavam
Que chega ao governador.
Este viu que é que pensavam,
Manda chamar o impostor.
O homem, de mau humor
De o sono lhe interromperem,
Chega após de tempo um ror.
- ”Porque sem to concederem
Deitas no chão a dormir?”
- ”Porque é um caravanserai.
Fiz como quem quiser ir
A uma hospedaria e vai.”
- ”Caravanserai aqui?!
Palácio do imperador
É o que pisas, ai de ti!”
- ”E a quem pertence, senhor?”
- ”A quem queres que pertença?
A mim, claro, é o meu palácio!”
- ”E antes de quem era tença?”
- ”De meu pai, que o céu agrace-o!”
- ”E antes? - ”Ao pai de meu pai.”
O homem, por um momento
Em silêncio fundo cai.
Todos observam o evento.
- ”E antes do pai de teu pai,
A quem é que pertencia?”
- ”Ao pai dele.” - ”E antes?” - ”Ai,
Ao pai do pai, esta é a via.”
- ”E dizes que isto não é
Um caravanserai mesmo?
A entrar e a sair de ao pé
É só gente, gente a esmo!...”
Iraque
Durante a guerra do Iraque
Saddam Hussein procuram
Por todo o canto em destaque:
Só fumos se configuram.
Diversos sósias havia
Que sempre ele utilizava
Quando bem lhe parecia.
Um dia alguém os chamava
Secretamente. Hoje diz:
-”Tenho a boa e a má notícia.
Começo com que cariz?”
- ”Boa, que não faz sevícia.”
- ”Muito bem: Saddam é vivo.”
São mil gritos de alegria
Ao anúncio, um bom motivo.
- ”Mas a má que noticia?” -
É um sósia, quer sorte eterna...
- ”Ele perdeu já uma perna.”
Akbar
Akbar era o imperador
Pela generosidade
Famoso, dado o pendor
De aos ascetas com vontade
Favorecer lautamente.
Um destes que, num casebre
Vive miseravelmente
E gostaria com febre
De algo ter para auxiliar
Quem venha pedir-lhe ajuda,
Decidiu apresentar
Petição que o não iluda.
Chegou junto do monarca
Quando ele estava a rezar
E viu que não era parca
A petição no lugar:
- ”Dá-me, senhor, territórios,
Mais recursos, mais riquezas...”
Metido em seus envoltórios,
O asceta nem quis mais rezas,
Tenta logo, de imediato,
Abandonar tal espaço.
Mas o imperador, pacato,
Acena, toma-lhe o passo.
- ”Vieste ver-me?” - ”Sim.” - ”E embora
Ias sem me ter falado?”
- ”Vinha pedir, mas agora...”
- ”E então?” - ”Tendo reparado,
Vi que és tu próprio mendigo...
Prefiro ir ao meu abrigo.”
Ego
Tento-lhes olhar os olhos,
Todos têm ar altivo,
Orgulho a franzir sobrolhos,
Ego activado, incisivo.
Dirão: - ”Sou mais importante
Porque eu é que estou aqui.”
Com que objectivo adiante,
De que serve o frenesi?
- ”Para ser melhor que os mais” -
Dirá o ego. E para quê?
- ”Conforto como jamais
E uma segurança até
De que nenhum mal advém.”
Mas porquê ficar seguro?
- ”Para não sofrer também.”
Mas para quê tanto apuro
Se é só para não sofrer?
- ”Porque, de contrário, dói.”
Orgulho então e poder
São defesas do que mói?
- ”Claro, que a minha função
Foi sempre afastar a dor.”
E se eu tombar neste chão
Vazio mas com um ror
De orgulho e em busca insistente
De poder, isto não vai,
A prazo, uma dor crescente
Provocar-me, onde não cai
Quem humilde for deveras
E com os céus conectado?
- ”Agora, não noutras eras,
Não te dói em nenhum lado.
Só me ocupo com o agora.
Depois, logo se verá...”
E o ego todo se enflora
Sobre a tumba onde ele está.
Polónia
Nos tempos do comunismo,
Na Polónia se contava,
Medindo em dureza o abismo,
Que num grupo se encontrava
O americano, o francês
Com um polaco, eram três.
Alguém lhes perguntaria:
- ”Tocam às três da manhã
À porta. Que é que seria?”
Logo, o americano: - ”É vã
Mais alguma expectativa.
É o meu banqueiro: - 'Ora viva!
Eu nem pude esperar mais:
Suas acções japonesas
Tiveram subidas tais
Que a uma fortuna estão presas!'”
Depois o francês responde:
- ”Olho à porta para onde
Me aguarda uma rapariga
De pouca roupa vestida
Que me diz, sorrindo à intriga:
- 'Há tanto que em minha lida
Desejava conhecê-lo!
Posso entrar um pouco e vê-lo?'”
Ante a pergunta, o polaco
Reflecte um instante e diz:
- “Abri apenas um naco,
Vejo três, de mau cariz,
Roupa escura e de chapéu.
Murmura um deles, do breu:
- 'Daniel Poltarsky é o senhor?'
- 'Não! Ao fim do corredor...'”
Checoslováquia
Checoslováquia invadida
Pelo Pacto de Varsóvia.
Entra um checo de corrida
Na polícia, razão óbvia:
- ”Comissário! Comissário!
Venha, um soldado suíço
Roubou, grande salafrário,
Meu relógio russo. Enguiço!”
- ”Espera aí! Quer dizer:
Soldado russo roubou
Relógio suíço, é de ver...”
Logo o homem exclamou:
- ”Pois o senhor é que disse,
Não eu! Não quero chatice!”
China
De receber uma oferta
Acaba um rei de oriente:
Um manto. A costura acerta
Fio de oiro e prata, assente
Entre pedras preciosas.
Era um sinal de amizade
Do imperador que às formosas
Regiões da China agrade.
O rei vestiu-o, se admira
A um grande espelho e pergunta
A Nasredim que o lá mira:
- ”Quanto valho? Tudo junta!”
Nasredim examinou
Longamente o vestuário,
Um caderno retirou,
Faz um cálculo sumário:
- ”Vales quinhentas moedas!”
- ”Quinhentas?! Nem penses nisso!
Só o manto, com estas sedas,
Isso vale. E o meu feitiço?...”
- ”É verdade, ó grande rei.
Quando perguntaste quanto,
Entendi, tudo somei:
Só vale o valor do manto!”
Rússia
Na Rússia do comunismo
Fala em aula um professor
Muito acerca de humanismo.
Um petiz perguntador
Levanta a mão, questionou:
- ”Mas humanismo é o quê?”
O mestre pensou, pensou
E depois conta-lhe ao pé:
- ”De manhã, Lenine ergueu-se,
Vai fazer a barba ao rio.
É no campo. Então muniu-se
De sabão, navalha e, ao frio,
Vai a um regato ali perto.
Senta e põe-se a barbear.
Uma menina, num certo
Momento, o vem contemplar.
Quando finda, ela pergunta:
-'Que é que estiveste a fazer?'
Lenine apenas assunta:
- 'A barba, como quenquer.'”
Era de humanismo o exemplo.
Fica a turma mui perplexa,
Tudo mudo como um templo.
Porém, o petiz indexa:
- ”Mas, professor, porque é que isto
É um exemplo de humanismo?!”
- ”Ai valha-me o Santo Cristo!
Desgraçado, olha o abismo:
Lenine tinha a navalha!
Podia ter degolado
Num instante, como palha,
A moça que lhe há falado!”
Estaline
Estaline, o ditador,
Envelhecido, uma escolha
Quer fazer do sucessor
Que os loiros todos recolha.
Malenkov e Bulganine
Para junto dele chama.
Cada qual quer que examine
Aves que em gaiola aclama.
Nelas os mandou pegar.
Bulganine pega numa
Mas, de tanto medo a par,
Demais a aperta e, em suma,
Finda matando tal ave.
Estaline, descontente,
Mostra na cara que é grave.
Malenkov então, tremente,
Pega na mão a segunda.
Não quer o erro repetir,
De mão mole, o espaço abunda
E eis o pássaro a fugir.
Pega Estaline o terceiro,
Diz aos outros: - ”Olhem bem!”
Mui delicado e ligeiro,
Pega as patas ao refém,
E uma a uma, lentamente,
Arranca-lhe as penas todas.
Depenado, o inocente
Na mão se aconchega, às rodas.
Diz Estaline: - ”Estão vendo?
Para mais ainda está grato
Do calor que vai sorvendo
De minha mão este rato.”
França
Ao rei Luís XI de França
Vira um criado um piolho
Do manto a passear na trança.
Levantou a mão e o olho
Ao rei a dar a entender
Que ia prestar-lhe um serviço.
O rei se achegou a ver,
O outro o livra logo disso,
Tira o piolho e deita-o fora.
Quando o rei lhe perguntou,
Tal homem quase que chora
Vergonha e medo. E contou.
- ”Ainda bem” - disse-lhe o rei. -
“É um presságio bem feliz,
Pois que, tanto quanto sei,
Tal bicheza sempre quis
Homens jovens atacar.
O que quer dizer então
Que homem sou e novo, a par.”
Qurenta coroas dão
De presente a tal criado.
Mais tarde um oportunista
Fez menção de ter tirado
Algo à roupa que o rei vista.
O rei perguntou o que era.
Com algumas reticências
Simuladas e uma espera
Informou das evidências:
- ”Há pulgas na real roupagem.”
Uma de lá retirara.
- ”Tomas-me por um cão?! Pagem,
Que é que melhor lhe assentara?
De começo, como entrada,
São quarenta bastonadas.”
Samarcanda
Tamerlão, em Samarcanda,
Ia à cabeça das tropas.
Aos portões da cidade anda
Um mendigo com que topas
A estender ali a mão,
Esfarrapado, no chão.
Vendo-o, o tirano o mandou
Decapitar de imediato.
De pronto se executou
Aquele arbitrário acto.
Diz Nasredim: -”Afinal,
Porquê ordem tão brutal?
O mendigo nem havia
Sequer mostrado arrogância
Perante quem lá seguia...
De risco não era instância.”
- ”É verdade” - é Tamerlão
Quem o diz. - ”Mas,como parto
Em campanha este verão,
É mau presságio. Estou farto.”
Mais adiante Nasredim
Murmurava então assim:
- ”Não sei bem a qual dos dois
Um deles pressagiou, pois.”
Tchao-Tchéu
Aos alunos que queriam
Saber de que material
Uma estátua deveriam
Fazer de Buda, afinal,
Para se prostrar ante ela,
Tchao-Tchéu disse, na sequela:
- ”Seja o que for, barro não.”
- ”Porquê” - ”De estátuas de barro
Só se engalana um verão.
À primeira chuva esbarro
Nelas desfeitas, que agoiro!”
- ”Faremos uma então de oiro?”
- ”Logo o fogo a derretia...”
-”De madeira?” - ”Também não,
Que um incêndio a queima um dia...”
Os discípulos então
Entendem que ele não quer
Nenhuma estátua que houver.
E por aí se ficaram,
Ao sábio se conformaram.
Testemunha
Num negócio de carneiros
Um tratante desonesto
Diz que dez vendeu lampeiros
A um vizinho que, de resto,
Só de cinco lhe pagara
Dos dez com que contratara.
O vizinho a Nasredim
Pede, em sinal de amizade,
Que testemunhe, por fim,
Por ele. Vê se o persuade.
- ”Todavia, eu não sei nada
De tal negócio, de entrada.”
- ”Não tem importância alguma.
Tu só terás de jurar
Que é vero o que digo, em suma.
É simples testemunhar.
Se litígios tens aí,
O mesmo eu farei por ti.”
O cadi, no dia certo,
Convocou as duas partes
E as testemunhas do acerto.
A Nasredim, sem apartes,
Pergunta a dado momento:
- ”Confirmas este elemento,
Que o teu vizinho pagou
Ao marchante de carneiros
Os dez mesmo que comprou,
Todos e não só os primeiros?”
- ”Por Alá que o eu confirmo.
E o vendedor mesmo afirmo
Que até umas pauladas deu
Ao meu amigo, a tal ponto
Que uma perna lhe partiu.”
- ”O quê?! Não estarás tonto?
Ninguém falou de pauladas,
São furto as questões tratadas!”
- ”E acrescento que esse infame -
Continua Nasredim -
“Ouvi que, ao bater, lhe chame
Mil blasfémias, um sem fim,
Que jamais me é permitido
Aqui ouvir repetido.”
- ”É muito grave o que contas” -
Observava-lhe o cadi. -
“Cuidado com o que apontas,
Pode acontecer-te a ti,
Se não contas a verdade,
Coisa que nunca te agrade.”
- ”Eu não tenho nada a ver,
Mesmo nada com verdade.
Vieram-me aqui trazer
Apenas na qualidade,
Que o que apontei bem realça,
Duma testemunha falsa.”
Condenado
Um homem foi condenado
De prisão perpétua à pena.
Um amigo dedicado
Lamenta a quanto o condena:
- ”É mesmo horrível, já viste?
Toda a vida na prisão!”
- ”Não é quanto em mim existe,
Estás enganado, não!
O melhor desta demora
É que é só a partir de agora.”
Shiraz
Nasredim foi contratado
No tribunal de Shiraz,
Num Irão desgovernado.
Ver quem é e que é que o traz
Ante qualquer visitante
É a função que tem diante.
Apresentou-se-lhe um dia
Um homem que lhe pediu
Se ao juiz falar podia
Principal que lá existiu.
- ”Isso não vai ser possível” -
Diz Nasredim, impassível.
- ”Mas porquê?” - ”Porque ele está
Agora num julgamento.”
- ”E quanto é que durará?
Não sai a qualquer momento?”
- ”Depende: se ele é julgado
Ou não é como culpado.”
Afeganistão
Hodja, no Afeganistão,
Foi ao rei pedir um cargo,
Um rendoso até mais não.
O rei não quer pôr-lhe embargo:
- ”Que cargo desejas tu?”
- ”Um de teus ministros ser,
Do petróleo, sem tabu.”
- ”Do petróleo?! Hás-de saber
Que não há petróleo algum...”
- ”E daí? Que é que isso enguiça?
Não tens por lá também um
Que é Ministro da Justiça?”
Salomão
Salomão vai à prisão,
Chama os presos um a um
E, a cada, pergunta então
Se cometeu crime algum.
E todos a responder:
- ”Qual o quê? Eu não fiz nada!
Agora um crime qualquer!
A sentença está enganada,
Sou vítima de injustiça!”
Mas o rei não acredita,
Adivinha, atrás da liça,
Que a mentira é que os agita.
No entanto, um dos presos diz:
- ”Cometi, meu rei, um crime.
Mereço, pelo que fiz
A prisão que me redime.
Causei muitas vezes mal
A muitos meus semelhantes.
É um pesadelo real,
Nem durmo já como dantes.”
O rei chama de imediato
Os guardas e logo ordena
- ”Antes de algum desacato,
Libertem de toda a pena
Este grande criminoso,
Senão irá corromper
De inocentes o pasmoso
Bando que aqui dentro houver.”
Índia
Na Índia o brâmane Astica
Foi em peregrinação
A um sacro local que fica
Do Ganges lá num covão.
No caminho, ao se entregar
Dele às rituais abluções
Doutro rio num algar,
Um crocodilo, aos sacões,
Veio dele se achegando
Que pretendia informar-se
Do rumo que ia levando.
O brâmane, sem disfarce,
Respondeu de boa-fé.
O crocodilo pediu
Que com ele o leve a pé,
Que o sonho que em vida viu
Foi do Ganges ver as águas
Que não tinham ligação,
Para grandes dele mágoas,
Com o rio em que estarão.
O brâmane, compassivo,
Aceitou e o foi levando.
Como, apesar de bem vivo,
Mau é o réptil caminhando,
Meteu-o num grande saco
E aos ombros o carregou,
Sem lhe cobrar nem pataco.
E muitas vezes parou
A descansar do penoso
Esforço a que se entregou.
Chegam ao rio gozoso,
O crocodilo chorou
De fé com que lhe agradece.
Mas diz-lhe que ressequida
Tem a pele, que fenece...
Não pode ele, de seguida,
Levá.lo um pouco mais dentro,
Para as águas mais profundas?
Condu-lo o brâmane ao centro,
Onde há maretas jucundas.
Quando vem a regressar
Para terra, o crocodilo
Vai-lhe logo abocanhar
O pé, como é seu estilo.
- ”Assim me agradeces, dás
O mal pelo bem que fiz?
Que virtude é a que te traz?”
E o crocodilo lhe diz
- ”Vens-me falar de virtude?
Hoje o que é da rectidão
É comer quem nos ajude,
Bons alimentos darão.
Este é que é do mundo o estado,
Quer o tu queiras, quer não.”
Discutem, sem resultado.
Convence o brâmane então
O crocodilo a apelar
A três árbitros, ao menos.
Uma mangueira a velar
Na margem com uns acenos
É o primeiro que lhes conta:
- ”Aos homens dou todo o fruto,
Nem com um fico por conta.
Dou sombra, folhas, produto
Que lhes serve, porta a porta.
Porém, ao envelhecer,
Cortam-me os ramos - 'que importa?' -
E fazem mesmo mister
De da terra me arrancar.
Para os homens a virtude
É quem os alimentar
Destruir. Nada isto ilude.”
Uma vaca, consultada,
Foi pelo mesmo discurso:
Dera leite e, afadigada,
Laborara como um urso.
Depois, quando envelheceu,
Foi largada junto ao rio,
Das feras ao escarcéu,
À morte, por desfastio.
Terceiro árbitro, a raposa
Não gaba benfeitorias
Que lhe devam e não goza.
Quer do pormenor as guias,
Obriga a recontar tudo
E pede confirmação.
- ”Num assunto tão agudo
Não posso decidir, não,
Levianamente, à ligeira.
Não serei tão categórica
Como a vaca ou a mangueira.
Não basta a forma alegórica,
Tenho de ver rectamente
Da viagem a condição.
Crocodilo, certamente
Não te importarás, pois não,
De entrar no saco um momento
Para eu ficar sabendo
Como aqui te trouxe o intento?”
O crocodilo, tal vendo,
Nem hesita, entra no saco.
O brâmane o pôs às costas,
Uns passos deu, sem cavaco,
E a raposa olha as congostas.
- ”Vem comigo” - diz-lhe então.
Condu-los, brâmane e carga,
Da margem e do fundão
Para longe, nada a embarga.
Manda o brâmane pousar
Depois tudo lá no chão.
Numa grande pedra, a par,
Pega e, sem hesitação,
Ao crocodilo esmagou
A cabeça, ainda no saco.
- ”És imbecil,” - regougou
Ao brâmane - “que um pataco
Não vale o que tens na mente.”
Depois chamou a família
E cada qual, mui contente,
Devorou, sem mais quezília,
O crocodilo feroz.
Brâmane é vegetariano?
Fez excepção logo após,
Da troca não sofreu dano.
Divórcio
Nasredim Hodja desposa
Mulher em núpcias segundas,
Viúva de muita prosa.
Recordações mui jucundas
Guardava de anterior lar,
Do morto, do irmão, da irmã,
Filhos, gente singular.
Do falecido, mui chã,
Acolhera os quatro filhos
Dum anterior casamento.
Atara-os com tais atilhos
Que hoje aguardam o momento
De vir com toda a família
Visitá-la o mês inteiro
Em sacrossanta vigília,
Alegria sem argueiro.
Ela tivera três filhos
Que continuava a educar,
Sempre em casa, sem sarilhos,
De Nasredim, novo lar.
Nasredim vai ter um dia
Com o cadi: foi pedir
O divórcio, pois queria
Da família prescindir.
- ”Por que motivo?” - o cadi,
Espantado, perguntou.
- ”Porque à noite, ao que já vi,
Sempre a mulher me expulsou.
Atira comigo fora
Da cama que é do casal.”
- ”Não venhas com essa agora,
Ela é grande, por sinal.”
- ”Parece grande, parece,
Mas com toda a gente dentro,
Garanto e juro uma prece,
Já não há lugar no centro,
Nem sequer lugar no fim,
Não há lugar para mim,”
Rublos
Um pobre judeu russo encontra, um dia,
Com uns quinhentos rublos, a carteira
Do mais rico da aldeia que dizia
Cinquenta dar a quem lha entregue inteira.
Foi o pobre levar-lhe a bolsa cheia.
O rico verifica o conteúdo,
Põe ar severo e diz, de cara feia:
- ”Da recompensa já tiraste tudo,
Quinhentos e cinquenta rublos tinha,
Aqui só estão quinhentos, nada devo.”
O pobre, mui zangado, se avizinha
Do rabino a quem narra o caso coevo.
- ”Confio que me diz mesmo a verdade” -
Comenta ao homem rico este rabino. -
“Um homem tal você para que é que há-de
Mentir, ainda por cima ao que é destino?”
Começava a alegrar-se o homem rico
Como a indignar-se o pobre e eis que o rabino
Para este se vira: - “Verifico
Que não és desonesto (pois me inclino
Perante a tua entrega), que, se o foras,
Com a bolsa ficado tu terias.”
E então ao rico torna sem demoras:
- ”Logo, não foi a bolsa que perdias
Que ele encontrou. Fique ele então com ela,
À espera de que o dono verdadeiro
Lha venha após pedir, disto em sequela.
Fica com a carteira e o dinheiro.”
Discussão
Durante discussão das mais acesas
Um pobre esbofeteado é de mão rica.
Insultado, recorre, as garras presas,
Ao cadi que entre os justos pontifica.
Os dois ouve o cadi, cara sisuda,
E manda ao ofensor que ao ofendido
Dê uma malga de arroz, para que muda
Indemnização seja ao ocorrido.
Ao ouvir a sentença, o pobre vem
Esmurrar o cadi com toda a força.
- ”Estás doido?” - o cadi mal se contém.
- ”Nem por sombras!” - o pobre o tom reforça.
- ”Não ficaste contente da sentença?”
- ”Fiquei” - responde o pobre. -”Agora vou
Embora. Fica tu (que te convença!)
Com a tigela de arroz que me ficou.”
Destrinçar
Um rei que todos os dias
A justiça administrava
De destrinçar não vê vias
Sinceridade que lava
De mentira que escurece,
Até os culpados esquece.
A justiça parecia
Actividade confusa,
Aleatória mania
De que quenquer usa e abusa.
Um dia vem-lhe falar,
Mas sem se identificar,
Um homem com o remédio
Para tantas incertezas.
- ”Posso dar-te, sem assédio,
A faculdade que prezas
De sem falhas distinguir
Justo de injusto a seguir.”
- ”Sabes ler os pensamentos?”
- ”Precisamente, até o fim.”
- ”Que é que lês desde há momentos?”
- ”Que não confias em mim.”
Viu que ele tinha razão,
Era o diabo em questão.
O rei, pois, desconfiou,
Começou por recusar,
Pouco depois aceitou
Uma experiência tentar.
Se não gostar, findaria
O tentame em qualquer dia.
Nas audiências seguintes
O mundo e seus habitantes
Têm luminosos requintes.
Vê logo, em poucos instantes,
A culpa deste ou daquele
Como a sombra que os impele.
Vê pensamentos de amigos,
Dos filhos e das mulheres,
Dos secretários ambíguos
Que o ajudam nos mesteres
De deslindar o que enliça
Sempre quem fizer justiça.
Vê que em toda a parte havia
Crime, inveja, cupidez,
Esconsa malfeitoria
Que aos justos fazem revés.
Hesita, mas reparou
Que a mente se lhe turvou.
Dorme mal, até suspeita
Dos próprios filhos que tem,
Castiga alguém que uma peita
Aceitou que lhe convém
Quando dantes confiara,
Bem imprudente, em tal cara.
Volta a chamar o diabo:
- ”Que experiência dolorosa!
Não vou levar isto a cabo.”
- ”Mas não é fastidiosa
E é útil, é bem de ver,
Terás de o reconhecer.”
- ”Já agora, não me pediste
O que te hei-de dar em troca.”
- ”Não pedi nada, já viste?”
- ”O diabo sempre invoca
As almas a quem concede
Tal favor. E logo as pede:
Quando morrem é no inferno
Que assam para a eternidade.”
- Ӄ o costume desde o eterno,
É o costume, é bem verdade.”
- ”Põe-me como eu era dantes,
Com meus olhos hesitantes.”
- ”É o que desejas deveras?”
- ”Clarividência suprema
Não é humana, é doutras eras.
Não poderei por sistema
Muito tempo suportá-la.
É um tormento que me abala.
Não quero ser infalível,
Antes dúvidas prefiro,
Mesmo a hesitação terrível,
Frente a frente, de que aufiro,
Com os homens, da verdade.
Isso, enfim, é o que me agrade.”
- ”A tua situação
Não é das mais confortáveis.
Contudo, quem é que não
Quer juízos confiáveis?
Alguém há que me refila
Contra poder adquiri-la?”
- ”Os que têm tal desejo
Não sabem a dor que traz
De conhecer este ensejo.
Castigou Deus o capaz
Juizo de Adão e Eva
Que retirou toda a treva
Que existe entre o bem e o mal.
Volta a enevoar o meu
Discernimento, afinal.
Que a justiça tenha um véu
E duro me dê labor
Como sempre, aonde eu for.”
- ”Não posso” – diz-lhe o diabo.
- ”Mas prometeste, aceitaste
Que uma experiência a cabo
Eu fizesse, por contraste.”
- ”Não tinhas, quando acordei,
Este poder que te dei.
Não podias ver, portanto,
Que eu te estaria a mentir.”
- ”Mentira?!” - ”Mentira e tanto!”
- ”Pois claro. E de mim a rir!
Vejo em toda a claridade
E que hoje falas verdade.
Não posso voltar a ser
Quem era outrora, portanto.”
- ”Não está no meu poder
Volver ao incerto encanto.
O que propus aceitaste,
Voltar atrás renegaste.”
- ”E não há nada a fazer?”
- ”Nada a fazer.” E, ao sair,
Voltou-se para dizer:
- ”Quanto a pagar, há-de vir,
Não te preocupe tal.
Interesse não há igual
Em almas iguais à tua.
Nunca te irei pedir nada
Além da morte que actua,
A acompanhar-te na estrada.
O inferno que mais aterra
É o que vais viver na terra.”
Persa
Um persa chora, em plena noite,
Ante uma porta ali fechada.
Um outro passa e que o acoite
Não há recanto nem entrada.
- ”Porque é que choras?” - ”Eu perdi
A minha chave desta porta.”
- ”Ao menos tu, bem pressenti,
A porta tens, que é só o que importa.”
Marselheses
Marius e Olive, os marselheses,
Compram dois carros contrapostos:
Olive é o lento e com reveses,
Marius, o bólido, bons gostos.
Um dia chega uma surpresa:
Olive tem um acidente!
Marius acorre à cama lesa,
Só ligadura no outro assente.
- ”Que te ocorreu? Demais depressa
Por uma vez ias na vida?”
- ”Pelo contrário, o que interessa
É que eu seguia calmo à ida.
Ultrapassaste-me, um tornado!
Numa certeza então esbarro:
Julguei que estava ali parado
E, ao julgar, saí do carro!”
Corrida
Marius e Olive se inscrevem
Numa pedestre corrida.
Os mais desistem, não devem
Comparecer à partida.
São só dois e Olive ganha.
Tempos depois, um amigo
Que Marius na rua apanha
Quis saber do feito antigo.
- ”Então, que tal a corrida?”
- ”Já foi...” - ”Como te correu?”
- ”Fui segundo. É à medida.”
- ”Nada mal, amigo meu!
E o Olive se aguentou?”
- ”Em penúltimo acabou.”
Alfaiates
Conversam dois alfaiates
No Bronx, Estados Unidos.
Um diz de Einstein que quilates
Tem tais que nem são medidos.
- ”Einstein...quem é?” - ”Não conheces?!”
- ”Não...” - ”És idiota ou quê?!
Génio que o mundo enaltece,
A maior cabeça é o que é!”
- ”Mas é tão célebre assim?!”
- ”Tem o nome nas canetas,
Cigarros, cerveja, enfim,
Não há onde o tu não metas.”
- ”Tão célebre é assim porquê?”
- ”Pela relatividade.”
- ”Está bem... Mas isso que é?”
- ”Pois, pois... Que é que te persuade?”
- ”Não me podes explicar?”
- ”Imagina que uma velha,
A cheirar mal, vem sentar
Ao teu colo e se aconselha
Aí durante um minuto:
Vai parecer-te uma hora.
Mas é um tempo diminuto,
Se, em vez daquela senhora,
É uma linda rapariga
Que se sentar ao teu colo:
Na hora que aí se abriga,
Que minuto é desconsolo?
Tudo finda de repente,
Parece que mal sentou...”
-”É disso que fala à gente?”
- ”Mais ou menos tal soou.”
- ”Relatividade então...”
- ”Explico-a mal entendida,
Que os sábios é que a dirão.”
- ”E a dar colo ganha a vida?” -
Pergunta, após um momento,
O ignorante, agora atento.
Diminuta
À mulher que se queixava
De ter casa diminuta
Um homem aconselhava,
Após convicta disputa:
- “Pega nas tuas galinhas,
Mete-as lá dentro contigo.”
-”Nas divisões que são minhas?!”
- ”Vai lá, faz o que te digo!”
Deixou-se ela convencer,
Transportou para o interior,
Vociferando a valer,
O galinheiro, um horror!
-”Agora as tuas ovelhas
Vai buscar, mete-as em casa.”
- Ӄ mesmo isto que aconselhas?
De cheia. Vai ficar rasa...”
Mais uma vez, transportou
O rebanho para dentro
E todo ele ali ficou
Muito apertado, no centro.
Com o burro foi o mesmo
E, depois, com o camelo.
Fica tudo tão a esmo
Que lá não entra um cabelo.
Vários dias decorreram.
O conselheiro à mulher
Disse, então que findos eram:
- ”Esta noite – ouves sequer? -
Pelas três da madrugada,
Tira os animais de casa,
Vai pô-los duma assentada
No lugar. Nada te atrasa!”
O que o homem lhe ordenou
Fez a mulher, expedita.
Quando a manhã clareou,
Andava, com muita dita,
Divisão em divisão,
Exclamando, olhos em brasa:
- ”Mas que enorme casarão!
Como é grande a minha casa!”
Dinamarquês
Num trem, o dinamarquês
Victor Borge, certa vez
Vai com Einstein viajar.
Não sabe de que falar,
Que o que viu de seu trabalho
Tudo nele é só um baralho,
Sem cartas para jogar,
Que nada está no lugar.
Após muita hesitação,
Se encoraja e diz então:
- ”Boston, a terra de apoio,
Parará neste comboio?”
Rómulo
Rómulo, aquele lendário
Fundador de Roma mítico,
Não bebia vinho. O erário
Era, ao tempo, mui somítico.
Alguém lhe comenta um dia
Que o preço bate no fundo
Se, como ele não bebia,
Não bebera todo o mundo.
-”Não,” - responde ele - “ao contrário.
Os preços iam subir
Se todo o mundo, sumário,
Como eu bebera a seguir:
É que eu bebo, não te esqueça,
O vinho que me apeteça.”
Anarquismo
Na Guerra Civil de Espanha
O anarquismo catalão
Suprime, em primeira apanha,
A anterior legislação.
Liberdade para todos
Como a partilha dos bens
E amor livre, de mil modos,
Sem pecado e sem reféns.
Uma mulher que enganava
Dela o marido em segredo
Olha, enquanto se esquivava,
Da aldeia o padre com medo,
Em traje civil blindado.
Propõe-se ele então ouvir
A confissão, nalgum lado,
Dela para a bem servir.
Ela, porém, recusou,
Nada tinha a confessar.
- ”Já não enganas” - fitou -
“Teu marido com um par?”
-”Não. Renunciei a tudo isso.”
- ”E que é que te fez mudar?”
- ”Perdeu de todo o feitiço
E gozo deixou de dar:
Eu tive de o pôr de lado
Por deixar de ser pecado.”
Príncipe
Um príncipe andava à caça,
Disparou a um javali,
Mas falhou. E se embaraça
Vendo a fuga em frenesi.
Alguém entre a criadagem
Gritou então: - ”Bravo!Bravo!”
- ”Porquê bravo?!” - no nobre agem
Mil espantos no tom cavo.
- “Não, não lhe falava a si,
Era com o javali...”
Muçulmana
Na tradição muçulmana,
Jesus caminhava um dia
Com discípulos, savana
Fora, quando, em meio à via,
Dum cão a carcaça topam.
O cadáver já fedia,
Vermes, insectos galopam.
O que é que o mestre diria
Curiosos aguardavam
Os discípulos, ao lado.
Jesus, enquanto paravam,
Ao passar, há comentado,
Sem se atrasar uma linha:
- ”Que dentes brancos que tinha!”
Turco
Um turco gabava um dia
A estatura de seu pai:
- ”É muito alto! Quem diria?”
- ”Mas, de alto, até onde vai?”
- ”Nunca conheci ninguém
Tão alto, tão alto ele é.
Chega às nuvens, vejam bem,
Quando ele se põe de pé!”
Nasredim ouve, discreto,
A conversa e então pergunta:
_ ”Quando ele ultrapassa o tecto,
Se a mão, à cabeça junta,
Ele erguer, não sentirá
Uma coisa suave e quente,
Como uma carícia lá?”
- ”Se calhar...” - diz o outro, crente.
- ”Não sabes o que é, pois não?”
- ”Não...” - responde-lhe o farsante.
- ”Os meus testículos são
E não sabes, ignorante!”
Empurrados
Dois judeus, depois da guerra,
Depois de muito empurrados,
Como sempre, terra em terra,
Reencontram-se, arrumados:
- ”Olha, tenho aqui um visto!”
- ”Visto para que país?”
- ”Para a Argentina me alisto.”
- ”Vós para longe fugis!”
O outro pára um pouco, até:
- ”Longe?! Mas longe de quê?!”
5
Ao Serão de Quinta-feira
Lendária
O amor de Leila e Majnum
Correu todo o Oriente,
Não houve recanto algum
Que o não ouvira, insistente,
Com imagens à beleza
Muito lendária da jovem
Cuja perda tanto lesa
Que errância e loucura movem
O jovem Majnum que a perde.
O califa os elogios
Ouviu desde a idade verde,
Quis conhecer tais feitios.
Chama Leila até Bagdade,
Mandou-a sentar em frente.
Fica, de curiosidade,
Horas a olhá-la presente.
Uma chávena de chá
Toma, muda a posição.
A olhá-la mantém-se lá,
Perplexo, no almofadão.
Diz o califa por fim:
- ”Como é possível que contem
Tanta maravilha, enfim?
Olho-te a ver o que apontem
E não logro compreender
Tudo o que dizem de ti.”
- Ӄ que olhas para me ver,
Mas falta uma coisa aí
E que é uma falta comum:
São os olhos de Majnum.”
Japão
Era uma vez no Japão
A cordada de alpinistas
Equipados, nada é vão,
A atacar, mesmo sem pistas,
Um cume a pique talhado,
Até então inviolado.
Longamente preparada,
Anunciada na imprensa,
A expedição, à largada,
Teve a directa presença
Dos jornais e da TV,
Da rádio, sei lá do quê...
Logo nos primeiros dias
Viu-se o percurso penoso
De perigo em demasias
Que a vários, extinto o gozo
Ou de força limitada,
Leva a fugir da escalada.
Um deles finda morrendo
Dos efeitos duma queda.
Vão-se nas névoas perdendo,
Na neve que lhes suceda.
Telefones avariam
E os rádios se lhes seguiam.
Muita vez vêm atrás,
Trepam com enorme esforço
O contraforte tenaz,
Donde irão, nem um escorço.
Exaustos, roupas rasgadas
E de mãos ensanguentadas,
Conseguem chegar ao cume.
E, para grande surpresa,
Encontram, ateando o lume,
Um grupo que se reveza,
Homens, mulheres, em roda,
Bebendo o chá, como em boda.
Sorriem tranquilamente,
Alguns deles reclinados
Em coxins comodamente.
A custo os recém-chegados
O fôlego recuperam
E, de espantados, ponderam:
- ”Então estão mesmo aqui?!”
- ”Estamos” - diz um do chá. -
“Sirvam-se. Agora o fervi.”
- ”Mas como puderam já
Ter chegado aqui ao cume
Sem ver aonde se rume?!”
Os em roda lá sentados
Uns para os outros olharam
Como que um pouco espantados
Até que ao fim perguntaram:
- Ӄ deveras o que ouvi?!
Isto é o cume? É mesmo aqui?!”
Deserto
Ao deserto, a meditar
Vai um homem e passou
Dos anos quarenta a par
Da solidão que traçou.
Tornando ao mundo habitado,
Veio de reputação
Imparável aureolado.
Tinha, em meio à solidão,
Mil e um mistérios sondado
Da natureza, da vida,
Do coração que é-nos dado.
A multidão o convida,
Todos vão falar com ele.
Um jovem foi admitido,
Perguntou-lhe à flor da pele:
- ”A vida o que é, faz sentido?”
Após longa reflexão,
Respondeu-lhe: - ”Ora, é uma fonte.”
- ”Fonte? De certeza então?”
- ”Se quiser, não é uma fonte.”
E, a saborear o horizonte,
Num adeus, ondeia a mão.
Rabino
Encontra o rabino novo
O que era o velho rabino.
Diz o velho: - ”Não aprovo
O que ouvi, que é bem cretino:
Que andas a afirmar há dias
Que tu é que és o Messias.”
- ”Quem to disse?” - ”Toda a gente,
Nos campos e na cidade,
Em todo o lado igualmente.
Agora diz-me: é verdade?”
- ”É verdade” - diz o novo. -
“Perante ti o renovo,
Que a ti posso bem dizê-lo:
Sou deveras o Messias.”
- ”És?” - ”Sou. De borla e capelo.”
- ”Quem to disse, dir-mo-ias?”
- ”Claro! Foi o próprio Deus.”
Arregala os olhos seus
O velho, todo enfermiço,
A gemer: - ”Eu?! Eu disse isso?!”
Criar
Quando Deus anunciou
Que iria criar o homem,
Muito arcanjo protestou
Quantas razões o consomem:
- ”Ó meu Deus, não faças isso!
O homem são rivalidades,
Querelas por um chamiço,
Mortes por quaisquer vaidades...”
Deus escuta e suspendeu
O gesto da criação.
Mas depois os anjos viu
Que todos discutir vão
Lá numa esquina do céu,
Muito, muito acalorados.
E cada qual diz de seu:
- ”Como podem ser falados
Do homem tantos defeitos
Se nem criado é sequer,
Não existe, pelos jeitos?”
Respondia outro qualquer
Que tinha ouvido rumores
De Deus sobre as intenções,
Sabia bem os humores
Da criatura, os senões...
Armaram tal reboliço
Que Deus, que os bem escutava
Às escondidas, o liço
Pega em mãos, já reatava
A obra que há programado.
- Sabemos o resultado...
Faraó
Quando o Mar Vermelho fecha
Do Faraó sobre a tropa,
Um anjo canta uma endecha,
Seráfico em sua opa.
- ”Mas que é isto?!” - exclama Deus. -
“Estão criaturas minhas
A afogar-se e aqui nos céus
Cantas tu?! Não os detinhas?!”
- ”Mas não foste tu, Senhor,
Que ordenaste àquele mar
Que se fechasse em redor
Dos guerreiros a afogar?”
Ramakrishna
Diz a Ramakrishna um dia
Certo discípulo atento:
- ”Sempre que um elefante ia
Pela estrada fora ao vento
Houve sempre mil rafeiros
Que atrás dele vão correndo
A ladrar, muito lampeiros.
O elefante, parecendo
Nem mesmo os ouvir sequer,
Continua o seu caminho.
Dum homem de Deus qualquer
Parece ser o adivinho.”
Diz Ramakrishna: - ”Atenção,
Acerta bem teus ponteiros!
Deus, é a minha opinião,
Também é Deus nos rafeiros.”
Estacionar
Gira o homem de negócios
Ao volante de seu carro,
Dos escritórios nos ócios,
A sonhar com um chaparro,
Pois não consegue encontrar
Lugar para estacionar.
Dirige-se a Deus: - ”Suplico,
Faz com que encontre um recanto.
Vais ver como então me aplico,
Da mulher vou ser o encanto,
Dos filhos irei cuidar
E aos pobres muito vou dar...
Mas depressa, tem piedade,
Deixa-me um lugar vazio!”
Logo à frente um carro à grade
Do parque sai com ousio.
O homem diz a Deus, com jeito:
- ”Pronto, pronto! Já foi feito.
Não precisas mais de estar,
Portanto, a te incomodar.”
Existência
Dois rabinos, de repente,
Sobre a existência de Deus
Discutem veementemente,
Um pró e outro contra os céus.
Esgrimem mil argumentos
Quando, às tantas da manhã,
Concluem de seus intentos:
- “Deus não é, mas coisa vã.”
Um deles, de manhã cedo,
Vai procurar o confrade
Que no jardim reza o credo
A que o ritual persuade.
Pergunta, surpreendido:
- ”Que fazes?!” - ”Rezo a oração.”
- ”Então que foi concluído
Com tanta argumentação,
Não foi que Deus não existe?
E agora, porque é que rezas?”
E o outro, com todo o chiste,
Surpreso, escondendo as presas:
- ”Demos cabo do toutiço...
Que tem Deus a ver com isso?”
Itália
Francesco, homem mui piedoso,
No norte de Itália, um dia,
Viu-se imbuído com tal gozo
De Deus que não conseguia
Pensar mesmo em nada mais.
Um sinal particular
De Deus quer, dos mais reais,
Gesto, palavra, um luar,
Nem que para tal levara
O resto de sua vida.
Com tal fito não poupara
Jejum, oração seguida,
Muita mortificação
E até peregrinações.
Do deserto soube então
Que os Padres tinham menções
De Deus, que era um bom retiro.
Foi anos para a montanha,
Comeu bolota, deu tiro
E devorou a castanha.
Correu descalço na rocha,
Cantou hinos, reza o terço,
Flagelou-se, acendeu tocha,
De espírito a devir terso...
E resultado: nenhum!
De Deus, tão solicitado,
Nem visão, nem rosto algum,
Nem termo algum formulado.
Já que Deus não se mostrou
Sensível à tentativa,
Francesco o rumo mudou:
Não terá o inverso esquiva.
Pôs-se então a insultar Deus,
A profanar o sagrado,
A infâmia a gritar dos céus,
Cruzeiros a ter quebrado.
Panfletos escrevinhou,
Foi mesmo à televisão
Onde o ódio reafirmou
Por um Deus que é um aldrabão.
Alimentava a esperança
Que insultos, provocações,
Sacrilégio algum alcança
A resposta às pretensões.
Nada, porém, ocorreu.
O grande ausente do mundo
Ninguém o viu nem ouviu,
Indiferente, infecundo.
Francesco então longamente
Reflectiu numa cabana:
“Se Deus não responde à gente
Quer louve, quer malhe em gana,
É porque eu é que sou Deus.
Isto é que explica o mistério
Que consome os sonhos meus.
Não responde do sidéreo
Porque quem é Deus sou eu.
Como mostrar-me podia
Eu a mim próprio? Sandeu!
Impossível tal mania.”
Quando, após meditação,
Concluiu que era a correcta,
Partilhar a conclusão
Decidiu por nova meta.
Foi buscar a velha mota
Guardada antes de partir
E conseguiu pô-la em rota,
Rumo a Milão, a seguir.
De prática tinha falta,
Porém, e a direcção solta.
Em curva derrapou alta,
Caiu, volta atrás de volta,
Por uma ravina abaixo.
Esmagou-se nuns rochedos,
Corpo desfeito num cacho.
Nunca ninguém, nos seus credos,
Soube que na ribanceira,
Por ela abaixo caído
Por desleixo e por asneira,
Deus, enfim, tinha morrido!
New York
Numa família abastada
De New York, o pai, burguês,
De visão muito alargada,
Ateu convicto e cortês,
Decidiu mandar o filho
Para uma escola cristã
Mui reputada, com brilho,
Onde o inscreve, uma manhã.
Após dois meses de estudos,
O filho chega da escola,
Pergunta ao pai, por miúdos,
Pousada ao lado a sacola:
- ”Que é que quer dizer Trindade?”
- ”Não me chateies com isso!”
- ”Mas então porque é que invade
Toda a escola este feitiço:
Pai, filho, Espírito Santo?”
O pai arrasta, furioso,
O filho lá para um canto,
Sacode-o, diz desgostoso:
- ”Ouve bem o que te digo
E mete-o dentro da pele:
Deus há só um – que castigo! -
E nós, nós nem cremos nele!”
Sábio
A um sábio mui reputado
Um rapaz fez a pergunta:
- ”Deus existe?” Olha-o de lado
O sábio que os trapos junta.
- ”Para a questão ter sentido
É preciso que a resposta
Tua vida haja mexido.”
- ”É disso a causa suposta.”
- ”Se eu te garantir que Deus
Existe, isso irá mudar
Em tua vida os modos teus?”
- ”Julgo que não, se calhar.”
- ”Então” - e o sábio se ajeita -
“Tua escolha já está feita.”
Cartas
Certa noite, de repente,
Morre um homem ao jogar
Às cartas, a um café rente.
Os amigos anunciar
Não sabem como a notícia
Súbita e triste à viúva.
Um deles vai, sem letícia,
Entanguido, como à chuva,
A casa dela. Ele sabe
Que é muito religiosa.
- ”Boa noite. Não me cabe
Iniciativa gozosa.
Venho aqui, repare bem,
Da parte de seu marido.”
- ”Pois. Há-de estar mais além
No jogo, vício perdido!”
- ”Pois, sim...” - ”E perdeu dinheiro?”
- ”Claro, precisamente.”
- ”Perdeu tudo por inteiro?”
- ”Foi muito, claro. É indecente.”
- ”Fulmine-o Deus num ataque,
Mate-o naquela cadeira!”
E o homem, como num baque:
- ”Deus ouviu-a! Toda inteira!”
Samaritana
Jesus a samaritana
Vê sentada numa pedra
À beira da estrada insana.
Não pede água. A ver se medra,
Olha-a com severidade
E diz-lhe assim: - ”Filha, estás
No mau caminho, em verdade.”
- ”Nem me fales!” - e olha atrás. -
“Desde manhã cá presente
E nem sequer um cliente!”
Padre
Um velho padre atravessa
Um subúrbio perigoso.
Um grupo encontra sem pressa
De jovens fumando o gozo
Da marijuana e tabaco,
Bebendo álcool e revendo
Pornografia a pataco
Num aparelho contendo
Uma ilegal ligação.
Detém-se o padre, admoesta:
- ”Vossos pais não vos dirão
Que isto de fumar não presta?”
- ”Dizem” - responde-lhe um jovem.
- ”E que não devem beber?”
- ”Também, mas não nos demovem.”
- ”E que filmes destes ver,
Tanta indecência, é pecado
Que a mulher fica humilhada
E o desejo, emporcalhado?”
- ”Claro que a rapaziada
Ouviu bem já disso tudo.”
Murmura o padre, indo embora:
- ”Graças, meu Deus, sobretudo:
Não sabem mentir, por ora.”
Criou
Deus criou o paraíso,
Diz ao anjo Gabriel
Para o visitar com siso.
Mas que espanto todo ele!
Vem de lá maravilhado,
As criaturas humanas
Não queriam outro lado.
Por isso Deus de praganas
Lhe cobriu qualquer acesso,
Deveres e obrigações
Bem penosos no processo.
Gabriel viu tais funções,
Retornou apavorado:
Ninguém queria ou podia
Entrar lá por nenhum lado.
Então Deus o inferno cria.
Gabriel foi visitá-lo
E voltou com mais pavor:
Ninguém teria regalo
Em viver num tal horror.
Deus aí fez o contrário
Do que fez no paraíso:
Todo o atractivo sumário,
A tentação sem juízo
Pôs o inferno a rodear,
De modo que Gabriel
Com ele até vem sonhar,
Qualquer via a ele impele.
Se Gabriel não caiu,
Entre humanas criaturas
A lista de quem ouviu
A chamada às vis venturas
É longa e sempre em aumento,
À medida que aparecem
Tentações em acrescento
E as antigas nunca esquecem.
Golfe
Um judeu que é um novo-rico
Pelo golfe tem paixão,
Dá-lhe em tempo cada nico,
Pensa em cada reunião,
De a cabeça ter tão cheia
Não dorme, com cefaleia.
Ora, de Kippur no dia,
A festa da tradição
Mais importante judia,
Ele, que nunca à oração
Na sinagoga tem falta,
Não resiste ao que o assalta:
Aproveitando a inacção
Que entre todos é geral,
Deixa então que os pés lhe vão
A um campo de golfe tal
Que é só de judeus usado,
Desata a jogar, viciado.
Mal o avista, Satanás,
Ávido de denunciar,
De Deus corre logo atrás
O que se passa a contar:
Joga golfe um insolente
Em dia de Deus somente.
Deus ouve e a Satanás diz:
- ”Muito bem, eu trato disso.”
Cá em baixo, o homem, feliz,
Bate a bola e, num enguiço,
No buraco entra à primeira.
Ele, eufórico, se abeira,
Nunca logrou tal façanha.
Coloca a segunda bola,
Bate-a e tal efeito ganha
Que noutro buraco atola.
E assim sempre de seguida,
Cada buraco à medida.
- ”Mas então que é que se passa?” -
Diz o diabo desnorteado. -
“Disseste-me, em tua graça,
Que era um assunto tratado.
Explica-me, pois, te rogo,
Porque lhe acertas o jogo.”
- ”Porque ele está ali sozinho.”
- ”E daí, que é que isso tem?”
- ”Quando ele quiser, tontinho,
Gabar-se por aí além
Deste jogo singular
Quem o vai acreditar?”
Prova
Um estrangeiro a Nasredim
Pergunta um dia: - ”Crês em Deus?”
- ”Creio” - responde, firme, assim.
- ”Então porquê? Nos feitos teus
Tens uma prova da existência?”
- ”A prova é simples: é que eu rezo
Todos os dias.” - ”E na essência
Há um só Deus? Que prova prezo?”
- ”Só rezo a ele!” - ”E omnipotente
Também o provas com acções?”
- ”Pois! E que prova convincente:
Nunca me ele ouve as orações!”
Avisa-me
A um amigo Nasredim
Um dia pede assim:
- ”Avisa-me, se morreres.
Que queres?
Não gostaria de saber
Por outra pessoa qualquer...”
Apagado
Um homem muito apagado
Junto a Nasredim morava.
Morreu e foi enterrado,
Ninguém em tal reparava.
Um vizinho perguntou
De que é que tinha morrido.
Nasredim obtemperou:
- ”Como posso ter sabido?
Se nem sei de que viveu,
Como ver de que morreu?!”
Amigas
Duas amigas de ouvido
Encontram-se à porta dum horto.
Diz uma: -”E o teu marido?”
E a outra: - ”Continua morto.”
Grave
Falam com todo o sentido
Duas amigas que o tempo esqueceu.
- ”Como está o teu marido?”
- ”Não sabes? Morreu.”
- ”Que doença danada
Te impôs tal entrave?”
- ”Uma rinite complicada.”
- ”Vá lá, que ao menos não foi coisa grave...”
Gata
Nasredim, ainda criança,
Regressando de viagem
Vê que na rua o alcança
Um vizinho, com bagagem,
No burro dele montado,
E que logo o há saudado.
Pediu-lhe novas da aldeia,
Em particular da gata
De que gostava e que ameia,
Sempre que mal se precata.
- ”A gata morreu” - lhe diz.
- ”Porque é que a nova infeliz
Dum modo tão brutal dás?”
- ”Como a havia de anunciar?”
- ”Olha: vê o calor que faz,
Ela uma volta quis dar
Mas, como escaldava a telha,
Saltou e, como era velha...
Era qualquer coisa assim,
A dar tempo a preparar-me.”
- ”Desculpe” - diz Nasredim.
- ”Não faz mal. Cantar-lhe um carme
Nada adianta sequer...
Como vai minha mulher?”
- ”Ora bem, precisamente,
Veja só o calor que faz,
Quis tomar ar, de repente,
Trepou ao telhado e zás!...
Não que ela já fosse velha...
É isto assim que aconselha?”
Mekki
Abbu Hâchim Mekki foi
Um dia pelo bazar.
No magarefe olha o boi
Que ele estava a esquartejar.
- ”Leva esta carne” - ofertou
Ao santo homem o talhante.
- ”Não há dinheiro” - objectou
O outro que era um mendicante.
- ”Não faz mal, leva e me pagas
Depois, quando tu puderes.
Confio, não comas bagas.”
- ”Eu é que em mim, para veres,
Não confio mesmo nada.”
- ”Vá lá, vejo-te as costelas...”
- ”Isto basta à jantarada
Dos vermes que, nas sequelas,
À cova irão que me acoite.”
De facto, morreu à noite.
Bater
- ”Porque bateu no meu filho?”
- ”Porque ele é um mal-educado:
'Gorda!' - diz-me o peralvilho.”
- ”E então há-de ter achado
Que será por lhe bater
Que ao fim logra emagrecer?!”
Jesus
Jesus entra no hospital,
Vai à cadeira de rodas,
Impõe mãos e, a um sinal,
As mazelas cura todas.
- ”Como é que é o médico novo?” -
Dirá quem fora esperou.
Nem vê o curado o renovo:
- ”Como os mais. Nem me auscultou...”
Chaqiq
O homem santo muçulmano
Chaqiq recebe um dia
Um velho no desengano
Que, penitente, diria:
- ”Cometi muitos pecados,
Vim penitenciar-me aqui.”
- ”Tarde vens a estes lados.”
- ”Mas, afinal, consegui.”
- ”Conseguiste ou foi da sorte?”
- ”Consegui porque cheguei
Aqui mesmo antes da morte.”
Chaqiq vê fé, vê lei,
Junto de si o ancião
Escolhe acolher então.
Pobre
Era um homem muito pobre,
Estava para morrer,
Mas, antes que o sino dobre,
Chama o médico a mulher.
Este examina o doente
Que no catre arfa em esforço,
À luz da vela tremente,
Uma só, magra, um escorço.
Nenhuma esperança resta.
Então o homem, parca a fala,
Diz da vela que mal presta:
-”É inútil desperdiçá-la...”
Sopra-a logo. Sem escopro
Talhou o dito que abala:
“Foi o seu último sopro.”
Doente
A mulher de Nasredim
Cai gravemente doente.
E ele ali geme sem fim,
Chora copiosamente.
Os vizinhos lhe disseram:
- ”De nada serve chorar.
Quantos doentes se ergueram!
Ainda te vai preparar
Amanhã uma jantarada.”
- ”Não é por isso que eu choro.”
-”Sim?! Porquê? Não há mais nada...”
- Ӄ que aquilo que eu adoro
É que, aquando de eu morrer,
Quero que ela me recorde
Como o homem que há-de ver
Que a chorar bate o recorde.”
Preguiça
Foi num tempo de preguiça
Que a Nasredim diz alguém:
- ”Que fazes tu, não tens liça,
De manhã à noite sem
Ter qualquer ocupação?”
Nasredim responde então:
- ”O meio de não morrer
Procuro o meu dia inteiro.”
- ”E funciona? - quis saber
O intrometido, lampeiro.
E Nasredim, sempre à tona:
- ”De momento funciona.”
Ásia
Na central Ásia um proprietário
Mui generoso diz a um pobre
(Que o ajudara num agrário
Duro labor) que os passos dobre:
- ”Caminha tanto quanto possas
E toda a terra que os teus passos
Hajam rodeado vai sem mossas
Ser sempre tua e de teus laços.”
O homem pôs-se a caminhar,
Tendo o cuidado de correr
Primeiro um círculo a traçar
Muito pequeno que após quer
Ir alargando a cada volta.
Caminha sempre, dia e noite,
Cansa-se, perde a desenvolta
Noção do que há que ao fim o acoite,
Pois não queria, enfim, parar.
No termo, exausto, cai no chão
E morre logo, um ai sem dar.
Quem o encontrou abre o covão
Com o tamanho do que enterra:
- Dele a parcela foi de terra.
Daud Tai
O santo xeque Daud Tai
Que viveu no século VIII
Pede que, quando se esvai
Do corpo a vida, o introito
É que o corpo depositem
Atrás dum muro qualquer:
“Para que os peões evitem
Minha cara ver sequer.”
Morrer
Uma senhora de idade
Que a uma disputa assistia
Chama um padre à puridade
E, aparte, então lhe confia:
- ”Quando eu morrer, pelo menos,
Num canto bem sossegado
Me ponha onde nem acenos
Me cheguem de nenhum lado
Das disputas que são notas
De todos estes idiotas.”
Egipto
Quando o Egipto era romano,
Do século quarto em volta,
De Alexandria o engano
É da cortesã a escolta
Que de Aminta se chamava.
Os poetas a elegiam,
E de amor artes que usava
Em boatos se estendiam
Por África e Ásia funda.
Príncipes núbios lá vinham
Dela à benesse jucunda,
Paga a fortunas que tinham.
Também Aminta é versada
De música e dança em artes.
Vive em sumptuosa morada,
Escravos são baluartes.
Um faustoso que provinha
Lá das margens do mar Negro
Alexandria maninha
Encontra: dele o que integro
É que só quer impetrar
Entrevista com aquela
Que era a imperatriz de amar,
Só vinha por causa dela.
Nem pirâmides do Cairo,
Nem sarcófagos de antigos:
É tão grande seu desvairo
Que só nela busca abrigos.
Com dura negociação
Fixa para o encontro o preço.
Uma entrevista lhe dão.
Uma alcoviteira o ingresso
Recebe, como é costume.
No dia e hora marcada,
Com véstia com que se aprume,
De Aminta se posta à entrada.
Ao chegar, porém, repara
Numa silhueta escura
Que na casa se prepara
Para entrar, má catadura.
Reconhece de imediato
Que era a morte, não se engana.
A silhueta, com recato,
Passa junto, a porta abana,
Pronta para entrar na casa.
Crítias (ele assim se chama)
Com um gesto breve a atrasa:
- ”És a morte?” - ”Sou” - proclama.
- ”Que é que vens fazer aqui?”
- ”Buscar nesta casa alguém.”
- ”Não!” E, já fora de si:
- ”Dá um pouco de tempo além.
Dar-te-ei o que quiseres,
Caminhei dias e meses
Em busca destes prazeres.
É o supremo, sem reveses,
Sonho duma vida inteira,
Única felicidade
Que na terra se me abeira.
Deixa-a viver, que me agrade
Durante mais duas horas.
Que o sonho se realize
E o desejo, sem demoras,
Se me aplaque em quanto vise!”
Falou algum tempo mais,
A silhueta escutou,
Virou costas e os sinais
São que a entrar renunciou.
Crítias segue, era aguardado,
Entrega o resto da paga.
Após banho e perfumado,
A Aminytas vai que o afaga
Dos segredos com tal arte
Que as duas horas correram,
Num encanto, como aparte.
Mas as emoções valeram.
Quando, no fim, se vestia,
Disse a Aminta: - ”Te agradeço,
Meu sonho foi real um dia.
É certo, jamais te esqueço.
Mas também tu poderás,
Creio eu, estar-me grata.”
- ”Porquê?!” - cortesã sagaz
Tudo apura em cada data.
- ”É que hoje salvei-te a vida.”
- ”Que queres dizer?” - ”Ao menos,
Prolonguei-a, na medida
Em que os momentos pequenos
De estar contigo logrei.”
Crítias conta à cortesã
Da morte a entrar lá sem lei,
Como afastara a malsã.
- ”Ela vinha aqui?” - Aminta
Pergunta com atenção.
- ”Aqui, sim. E, quanto eu sinta,
Ia pisar já teu chão,
A atravessar o jardim.”
- ”Caminhava à tua frente?”
- ”À minha frente, pois sim.”
- ”Que disse ela, exactamente?”
- ”Buscar nesta casa alguém.”
- ”Disse quem? Citou meu nome?”
- ”Não, não disse o de ninguém...”
Cai em si e se consome
Crítias, as feições geladas,
De olhar fixo, de repente.
À morte as questões cobradas
Foram sem rigor premente.
A respiração findou,
Já não vê, não pensa em nada
Quando para trás tombou
Nos braços duma criada.
Índia
Do norte da Índia o rei,
Aos quarenta e cinco anos,
No dia em que era de lei
Receber ele os decanos
E mais os embaixadores,
Se aborrecia de morte.
Pois então, com tais humores,
Não foi capaz, ante a corte,
De segurar a cabeça,
Deixa-a cair sobre o peito
A meio daquela peça
Dos cumprimentos de preito
Que um diplomata apresenta.
O rei, muito surpreendido,
Deu consigo numa lenta
Passagem por um florido
Campo verde onde avançava
De jovem com a leveza,
Com uma moça cruzava
De encantadora beleza
Que lhe sorriu ao passar
E a quem devolve o sorriso.
Ela pertencia a um lar
De camponeses com siso.
Levou-o até à casa
Onde com os pais vivia.
Ali não há rei que apraza,
Ele próprio se esquecia
Do título e condição.
Ela apresenta o rapaz,
Diz que lhe quer dar a mão,
Consentem-lho logo em paz.
Casaram-se pelos ritos,
Tiveram filhos robustos.
Cumpre o ex-rei os requisitos,
Às ordens do sogro os custos
Paga com trabalho duro.
Morre este e deixa-o senhor
De casa e terras, seguro.
Os filhos crescem no amor,
Casaram por sua vez.
Quando ele tinha já netos,
A desgraça, duma vez,
Se abate sobre seus tectos.
Secas constantes o solo
Empobrecem e as colheitas
Emagreceram o bolo.
Ele lutou nas estreitas
Condições, mas a mulher
Morreu, bem como um dos filhos,
Dum relâmpago qualquer
Fulminado em letais brilhos.
Quando o raio o fulminou,
Ergueu a cabeça o rei,
Os olhos abriu, voltou
A si no trono de lei,
Escutou, aí sentado,
O final dos cumprimentos.
No dia, antes de findado,
Audiências e lamentos,
Propostas, reclamações,
Mil petições recebeu
E respondeu com tenções
Do melhor que conseguiu.
Retornara a sua vida,
a seu ofício de rei.
Chegada a noite, a dormida
A favorita (é da lei)
Lha garantiu sossegada.
Ao cabo de vários meses
Desta vida retomada,
Quando, com vénias corteses,
Por um corredor seguia,
Veio-lhe à memória a aldeia,
Uma casa, um rosto-guia...
A emoção breve se alteia.
Um desejo inexplicável
De rever o lugarejo.
Só partiu, indetectável,
Encontra, fácil, num brejo,
O lugar onde vivido,
Trabalhado anos e anos
Dantes houve, desmedido.
Vizinhos, com seus arcanos,
Lhe perguntam: -”Por onde é
Que tens andado? Buscámos
Por toda a parte. Porquê
Te escapulir como os gamos?”
Não soube que responder,
Nem sequer fazia ideia
Que ausência findara a ter.
No lar dali que lhe ameia
O lugar vai ocupar,
Junto à neta que às desgraças
Sobreviveu singular.
Vivendo os dois vidas baças
Foram tal como podiam.
Pouco antes do pôr-do-sol,
Um dia em que o invadiam
Torpores em vasto rol,
Sentou-se então frente à casa,
Sem poder nem respirar.
Olha as flores, plantas, brasa
De estival calor e, a olhar,
Tudo é da primeira vez.
Rumo a ele avista a neta
Que um colar de flores fez
De luto que ao colo meta.
Então ele arranja forças
Para perguntar-lhe, brando:
- ”Tanta flor que em colar torças
São para quem, para quando?...”
A menina se aproxima,
Sorria, detém-se à frente.
Ele tem tempo, em tal clima,
De a ouvir, antes que rente
Lhe descaia o queixo ao peito,
A jamais se levantar:
- ”Porquê flores deste jeito?!
O rei morreu. Ando a par.”
El Centauro
El Centauro, o ditador,
República de Miranda,
De qualquer opositor
Se livra, pondo-o de banda.
Reina, senhor absoluto,
Com, na polícia secreta,
Um terço do povo bruto
E um outro terço a completa,
A vigiar o primeiro
E assim sucessivamente.
Tudo depende, certeiro,
Do ditador tão somente.
Cognomes se atribuía
De El Unico, El Generoso,
El Cercadedios um dia,
Purificador de Gozo.
Execuções às centenas,
Nas prisões não cabem mais,
Nem liberdades pequenas
Na educação, nos jornais...
No décimo aniversário
Da tomada do poder
El Centauro vai, sumário,
Glorificar-se a valer.
Uma semana, porém,
Antes das celebrações,
Uma carta às mãos lhe vem
Que diz só, sem mais razões:
“Morrerás no teu discurso.”
Ficou tudo em polvorosa
A seguir da carta o curso
Mas, do autor, nem uma prosa.
Medidas de segurança
Tomam-se extraordinárias.
Cada convidado alcança
A sala das honras várias
Só depois de três controlos.
Todo o edifício guardado
É de regimentos. Rolos
Cercam de arame farpado.
El Centauro entra na sala
Com meia hora de atraso.
Outra meia é para a gala
De aplausos que vêm ao caso,
Bênçãos, felicitações...
Depois, tudo a seu lugar,
São do discurso os borrões.
El Centauro, ainda a acenar,
Abre a pasta e lá encontrou,
Escrito em termos argutos,
Um papel que o transtornou:
“Daqui a vinte minutos.”
Hesita, pensa anular
A cerimónia, mas nota
Que o excita ir enfrentar
Deste desafio a rota.
Tinha experiência da morte,
Ao menos da morte alheia.
“Companheira de meu norte,
Convivemos volta e meia.”
Olhou longamente a sala
Onde havia homens armados,
Pouco espaço os intervala.
Irão traí-lo os soldados?
Impossível. Escolhidos
E formados são a dedo,
São robôs de outrem movidos,
Seguros que nem um credo.
Limpa a testa com um lenço
E começa. Recordou
De benesses rol extenso,
Persistir em tal jurou.
Mas não falou da miséria
Que assola campo e cidade.
Quinze minutos de léria,
Páginas de insanidade.
Na sala, nem uma mosca,
Apenas do ditador
O elogio a si se enrosca.
Mas, uma lauda ao transpor,
Um bocado de papel,
De novo uns termos enxutos
Pingando a gota de fel:
“Daqui a cinco minutos.”
Novamente perturbado,
Fez uma pausa e tentou
Ver que astúcia imaginado
Terá o mentor. E cuidou
Se agiria só, em grupo,
Como iriam atacar...
E como, após tanto apupo,
Há oposição no lugar.
Uma página após leu,
Dois minutos lhe levou,
Outra a seguir, suspendeu,
A fronte então enxugou.
Pega o copo de cristal,
Serve-se dum pouco de água.
Pensativo, um gole mal
Deu, duma fogueira a frágua
O estômago dilacera.
O sangue a arder, entendeu
Que água envenenada era
E que morrendo se viu
Perante os olhos de todos.
Cinco segundos mais tarde
Já nada mexe em seus modos.
Ninguém se atreve nem arde,
Agora que está tranquilo,
A pensar em aplaudi-lo.
França
Em França, uma professora,
No final do ano lectivo,
Anuncia, sem demora,
Que um dia depois, ao vivo,
Vem um fotógrafo à escola.
A os convencer a posar,
Retira duma sacola
Uma foto singular
Do ano anterior em que posa
Ela entre os outros alunos.
- ”Verão mais tarde o que goza
Quem a olhar e, no seu múnus,
Puder dizer: olha a Linda,
É vedeta de cinema,
E aquele ali, mal vê-se ainda,
É um político de gema,
E o João Paulo, o cientista...”
Um dos miúdos põe o dedo
Na fotografia, alista:
- ”E esta é a professora, credo!
Nunca mais ninguém a viu,
Há muito que já morreu...”
Emissário
Manda a morte um emissário
A buscar um eremita:
Era a hora do sudário.
Porém, ele em si concita
Decénios numa floresta
De Índia ao sul, o que habilita
O monge a escapar na fresta
Dum poder que ninguém tem.
Ele é capaz desta gesta:
Só por vontade mantém
De si múltiplas imagens.
O emissário se detém
Ao entregar as mensagens,
Pois em redor vê centenas
De monges de iguais montagens:
Não vê qual, entre tais cenas,
É a quem deve dirigir-se.
Fala à morte: - ”Mal acenas,
E o prodígio a produzir-se.”
A morte fica a pensar,
Murmura ao ouvido, a rir-se.
Volta o criado ao lugar,
A ter com o velho asceta
Logo a se multiplicar.
De espanto a cara correcta,
Diz o emissãrio, convicto:
- ”Que maravilha! Cometa
Alguém tal, não acredito.
Nada vi que se compare!
É milagre o que aqui fito!
Que pena um nada faltar,
Que haja uma pequena falha...”
- ”Falha?!” - logo a perguntar
O ermitão nem se atrapalha.
Só que é o próprio quem falou.
O emissário logo, à gralha,
Rápido o identificou,
Levou-o sem mais palavras.
As mais imagens olhou
A esvaírem-se nas lavras,
Até que nada restou
Da selva nas terras glabras.
Condolências
Nasredim detesta tudo
O que tem a ver com morte,
Das cerimónias o entrudo,
Das orações o transporte,
Como todos os rituais,
Mormente os tradicionais.
Um imã censura-o um dia
Por mor disto e Nasredim
Defendeu como podia:
- ”O profeta nunca, enfim,
Fez daquilo obrigação,
Glória à morte é de dar? Não!”
- ”Ao menos faz um esforço” -
Diz-lhe o imã. - “Nem que só seja
Por respeito, sem remorso,
À família que o deseja.”
- ”Tens razão” - diz bruscamente
Nasredim com algo em mente. -
“Escuta aqui: por respeito
Para com minha família
Prometo tomar a peito
Comparecer na vigília
De meu próprio funeral.
Dou-te a palavra formal.
Chego à hora combinada,
Ficarei até ao fim
Do enterro, é coisa aprazada.
Só há um pormenor, enfim,
Que não posso prometer.”
- ”O quê?” - quer o imã saber.
- ”Não irei poder ficar
Depois para as condolências.
Sempre detestei, a par,
Essa parte em tais pendências.”
Cavaleiro
Um cavaleiro parou
Ante o lar de Nasredim
E diz-lhe, quando o chamou:
- ”Tenho uma notícia, enfim,
Bem triste para te dar.
Venho de Damasco. É assim:
Acaba de se finar,
Na cidade, o teu irmão.”
A nova vem-no abalar,
Deixa-se tombar no chão,
Lá no meio do jardim,
A cabeça numa mão,
E põe-se a chorar sem fim.
A mulher e os vizinhos
Reconfortam Nasredim.
O cavaleiro os caminhos,
Entretanto, volta atrás
E diz-lhe, ao ver os carinhos:
- ”Perdoa, tirei-te a paz.
Quem morreu não foi o teu,
Mas do Kacem lá de trás
Um irmão. Foi erro meu,
Que me enganei com a casa.”
E a galope então partiu.
Nasredim, que o sol abrasa,
Endireita-se e suspira:
- ”Já estou bem, já não me arrasa.”
- ”Tinhas um ar!... Quem te mira
Vê-te aí bem abalado” -
Diz um vizinho que o vira.
- ”E razões de tal estado
Bem as tinha, que a notícia
Deixou-me como sangrado.”
- ”Mas porquê? Foi sem malícia...”
- ”Não é isso. Esta é a questão:
É que eu nunca tive irmão!”
Qirguízia
Da Quirguízia algumas tribos
Guardam dum texto a memória
Que, em momento certo, cibos
Dão dum medo contra a escória
Da morte, a porem-na em fuga,
Que ela então nunca madruga.
Testemunhas tinham visto
A morte ao vivo, vestida
De preto e rubro registo,
Silente, no leito erguida,
Um moribundo a levar,
Quando este, ao brusco acordar,
Lograva lembrar o texto
E recitá-lo a contento.
Garantem que, em tal contexto,
A morte, em terror do intento,
Fugia, escondendo o rosto
Atrás das mãos de osso exposto.
A natureza, porém,
De tal texto qual seria?
Oração, reza ao além,
Imprecação ou magia?
Que é que metia, afinal,
Medo à morte que é fatal?
É de supor e convir
Que a morte pode ter medo,
Que emoções há-de sentir
Tais que roubam o sossego.
Pode ficar revoltada
E depois ser castigada.
Já nas lendas indianas
De deuses morte escolhida
Recusa matar humanas
Vidas na missão pedida,
Quando vergá-la conseguem
Com palavras como seguem:
“Nos séculos que hão-de vir
Glória tua é sem igual.
E descansa, estás a ouvir?
Morte não mata, afinal.
Não te aflijas com os danos,
Não farás mal aos humanos.
Uns aos outros todos matam,
Mesmo os deuses são mortais.”
Medos à morte não atam,
Dizem uns, se o bem cuidais.
Tudo era teatro ou jogo:
Adeus, que voltarei logo.
Outros, que o texto é dum deus
Ou dum arcanjo caído:
Vingam-se de algum dos seus
Dando ao homem destemido
Este poder clandestino
Com que emular o divino.
Nesta tradição, a morte
Arma suma era dos deuses,
Do poder deles suporte
E dum culto sem adeuses.
Se o homem sem morrer vive,
Religiões leva a que arquive.
Por isso os chefes supremos
Das grandes religiões
Mandaram, até os extremos,
Missionários com missões:
Ou recolhem as palavras
Ou extirpam-nas das lavras.
Um chinês, príncipe grande,
Enviou um velho astuto
Que uma idosa lá demande
Que da montanha em reduto
Há tantos anos vivia
Que suspeitam que sabia
O texto que espanta a morte.
Quis-lhe comprar o segredo.
Ela recusou: - ”De sorte
Que é vender-te, tarde ou cedo,
Aquilo que nunca tenho?”
- ”Diz os termos. São teu ganho.”
- ”Porque é que eu hei-de dizer
Umas palavras à toa?
Este é um momento qualquer
Em que a morte me atordoa?”
- ”Das falas pões-te ao abrigo
Só se de morte em perigo?”
- ”Mas de que falas me falas?!”
Ela afirmava, insistente,
Que não sabe de tais galas
E ao chinês sempre desmente.
Este envia homens armados
A ameaçá-la assanhados.
Ameaçada e ferida,
Ela muda se manteve.
- ”Porque nem por tua vida
Ouço o que a morte susteve?”
- ”Pois é porque não sei nada
Que nada digo, à chegada.
Desde que entraste na gruta
Que sei bem que irei morrer.”
- ”Não há aqui quem o discuta,
Como podes tal saber?”
- ”Se não falar, tu me matas
Com os homens com que tratas.
Se eu falar, matar-me-ias
Por só teu ser o segredo
Com que então sobrevivias.
Vieste por esse credo.”
- ”E não te importa morrer?”
-”Na longa vida hei-de ter
Algo aprendido que importa:
Morrer é bem menos grave
Que matar, fechar a porta.
Se há palavras com que trave
A morte e protejo alguém,
Não as há para quem vem
Matar, para vir salvá-lo.”
Calou-se por uns instantes.
O chinês vê com abalo,
Fascinado, a velha de antes:
Parece estar frente a frente
Com o imortal é o que sente.
A mulher volta a falar:
- ”Se tais palavras houvera
Que impedissem de matar,
Que precioso bem era!
Se as souberas nestes dias,
Tu pronunciá-las-ias?”
O chinês se levantou,
Fez brusco sinal aos guardas,
Um logo a sabre cortou
Da velha o pescoço às sardas.
Ela teve um sobressalto
E tentou pronunciar alto
Umas palavras decerto,
Talvez para se salvar
Por fim no momento certo.
Tarde demais, ao findar:
A cabeça cai no chão
Da gruta, num repelão.
O chinês desce a montanha
Com os seus guardas armados.
Mais adiante, com manha,
São por um bando atacados
Que pacientes esperaram
E a todos os massacraram.
Habitantes da região,
Pensavam que o chinês tinha
A senha mágica à mão.
Queriam tal adivinha.
Prenderam-no, interrogaram
E, ante o não, o degolaram.
Entre eles também havia
Uns cavaleiros de oeste
Cobertos de ferro e a guia
(Que não sabem a que preste
E que os nem veste com jeito)
Duma cruz vermelha ao peito.
Africana
Conta uma lenda africana
Que uma pedrinha do chão
Apanha um homem à mão.
Diz a um outro, a ver se engana:
- ”Que é que aqui tenho? Adivinhas?”
- ”Uma bicicleta!” - ”Ora!
Fizeste batota agora
Quando a escondi nas mãos minhas.”
Irão
No Irão, na revolução
Islâmica, a interdição
É permanente e arbitrária.
Alguns, de forma sumária,
Conseguem que os internassem
Por que por malucos passem.
Ao menos podem gritar
Sempre naquele lugar:
- ”Abaixo o Islão! E ao Profeta,
Morte, que não se intrometa!”
Quando queriam sair,
Bastava o grito banir,
Confessar que eram errados,
Pedir perdão dos pecados.
Na actividade proibida
Era a música mantida,
Mesmo a mais tradicional.
Quem era profissional,
Por perícia não perder,
Tem de às esconsas manter
Treino à sua conta e risco.
Houve quem fugiu do aprisco,
Orquestras em plena noite
No deserto que as acoite
Tocando, à luz das estrelas,
As melodias mais belas.
Um pianista à prisão
Cai por crime de opinião.
Pratica todos os dias
Na mesa, em mudas porfias,
Para os dedos adestrar
E flexíveis conservar.
Ao director da prisão
Foi chamado. Eis a questão:
- ”Que faz com as mãos na mesa
Da cela, qual sua empresa?”
Disse que se aborrecia
E então na mesa batia
Deixando o tempo passar.
Logo o outro, a gargalhar:
- ”Não me venha com histórias!
Um pianista tem memórias
E, apesar da proibição,
Treina a futura função.”
O pianista nega e nega
Mas ocorre – diz – que adrega,
Às vezes, contra-vontade,
Que os dedos têm saudade,
Lembram alguma sonata
E a pauta, mal se precata,
É a superfície da mesa.
Mas ele até que a despreza...
- ”Está bem, pode voltar
Para a cela, ao seu lugar.”
Quando o pianista saía
E entre os guardas se espremia,
O director o chamou,
Irónico acrescentou:
- ”Cuidado com as dedadas:
Só peças autorizadas...”
Bagdade
A Bagdade um estranho chega um dia.
Ninguém o conhecia, é de aparência
Pobre, como um dervixe se anuncia.
Porém, não mendigava e a estridência
Do canto não usou nenhuma vez.
Nunca ninguém o viu comer talvez
Senão algumas tâmaras do chão
Da feira, que esfregava dentre os dedos.
Não era esburacado o seu gibão,
Nem era roupa usada dos degredos.
Calçava umas sandálias, mui decente,
De cajado robusto, em mãos pendente.
Era muito bonito, o rosto magro,
Cabeça levantada, limpo olhar
De verde cintilando, flor num agro,
Com laivos de cinzento a contrastar.
Este olhar maravilha, dentre o escuro
Olhar dos habitantes, negro muro.
Só de noite era visto, após a uma.
Ia de casa em casa onde batia
Com o cajado à porta, em grita suma:
- ”Vem alvorada aí!” - mas repetia
O mesmo em casas nobres, do Governo,
Na mesquita, no albergue... Acorda o inferno!
Duas ou três semanas tal durou,
Reputação estranha anda a envolvê-lo:
Seus olhos são dum tigre quando olhou,
Corta pau à dentada, salta em pêlo
Aos terraços mais altos a que chega
Sem trampolim de apoio, sem ter pega...
Pergunta uma mulher porque anuncia
Em plena noite o alvor quando faltavam
Umas cinco ou seis horas para o dia.
Então o anunciador que embaraçavam
Estas questões, afasta-a do caminho
Com um gesto do braço comezinho:
- ”Anuncio alvorada quando é noite
Porque à noite é que falta-nos a luz.”
E a mulher a insistir como um açoite:
- ”Mas toda a gente sabe que reluz
Toda a manhã o alvor. Porque insistir
A dizer o banal? Deixa-os dormir!”
- ”Se sabem que alvorada vem aí
Porque é que dormem todos os que dormem?”
- ”Pois não te compreendo” - pensa em si
Que era bêbedo ou louco e, ao que a informem,
Os despertados já por tal o tomem.
- ”Ninguém me compreende” - disse o homem. -
“Não é quando houver fome que é preciso
Anunciar a chegada de comida?”
- ”Isso é” - disse a mulher com todo o siso.
- ”Quando se está doente é que a medida
De o médico chamar é que convém?”
- ”Pois é.” - ”Que serventia para alguém
Teria uma alvorada lhe anunciar
Quando ela está chegando de oriente?
Quando a mulher acorda já no lar,
Da capoeira o galo era estridente...”
- ”Isso eu entendo” - diz a mulher, calma.
- ”Não parece que entendas” - com a palma
Afasta-a do caminho e bate à porta
Posterior a gritar pela alvorada.
Tornou-se impopular. O povo exorta
A que o prendam e expulsem para a estrada.
Mas semanas mais tarde ele voltou
E novamente às portas cutucou.
Novamente o prenderam e entregaram
A uma caravana: é de o levar
Bem longe de Bagdade. Abandonaram,
Sem consideração mais lhe mostrar,
O pregoeiro à aridez de algum deserto,
Não pôde mais voltar para mais perto.
Alguns dias depois desta partida
Chegaram os primeiros cavaleiros
Mongóis às cercanias da perdida
Cidade de Bagdade. E aos luzeiros
Da manhã, quando acordam, os vizinhos
Tendas de invasor vêem como ninhos
Erguidas no exterior já das muralhas.
O assalto foi lançado em poucos dias
E foi de madrugada, hora em que as gralhas
Um pouco antes troçavam das manias.
Dormiam sossegadas no seu leito
E viram-lhes depois punhais no peito.
Louco
Fazia um louco as orações a sós.
Alguns amigos o convencem, logo,
A ir na sexta à comum reza. Após,
Numa mesquita, ei-lo a assistir a rogo.
O imã começa a levantar a voz,
Pôs-se a mugir com toda a força o louco.
- ”Não tens vergonha?! Deus não temes, pois?!” -
Dizem-lhe alguns num comentário rouco.
- ”Estive apenas a imitar o imã.
Quando ele disse 'seja Deus louvado',
Estava um boi comprando então no afã.
Pus-me a mugir, por igual, eu, ao lado.”
Pergunta alguém ao pregador que se ia
Ali passando. - ”Bem” - disse ele - “enquanto
Rezava, estava a meditar que um dia
De tratar tenho dum terreno, um canto
Longe daqui. Comigo disse, é certo,
De comprar tenho um boi. E ouvi mugir...”
- É com respeito que sairá de perto
Do louco o louco que anda a nada ouvir.
Resposta
Havia em Bagdade
Um louco que nada
Dizia, em verdade,
À fala escutada.
Perguntam-lhe um dia:
- ”Não dizes palavra?”
- ”A quem o diria?
Não vejo na lavra,
Nem com alta aposta,
Quem me dê resposta...”
Varredor
Diziam a um varredor:
- ”Procuras tu sem parar.
No entanto, és já sabedor
De que não vais encontrar.”
- ”É verdade, tens razão.
Não hei-de encontrar jamais
O que não perdi, no chão,
Sei-o tão bem como os mais.
Mas o que é mais curioso
É que isto me põe furioso.”
Febre
Alguém diz a um louco:
- ”Sabes que tens febre?”
- ”Morra eu um pouco
E, duma assentada,
Foge como lebre
A febre, curada.”
Mulá
Nasredim, vendo um mulá
A pôr uns óculos grossos,
A um oculista de lá
Iletrado até aos ossos
Pede uns óculos de ler,
Tal se bastam a o aprender.
Um rádio tendo comprado,
A um emissor estrangeiro
O liga. Mal hão falado,
Nada entende. Então, ligeiro,
Corre à loja: que um lhe ceda
Que à língua dele lhe aceda.
Um dia estava a serrar
O ramo em que se sentava.
Avisa alguém, ao passar,
Que cairia, se não trava.
Nasredim não lhe ligou,
Cede o ramo e ele tombou.
Uma espécie de profeta
Concluiu que era o vizinho.
Pergunta a hora correcta
Da morte a tal adivinho:
- ”Quando morro em meus achaques?”
- ”Quando o burro der três traques!”
E assim, pois, se livrou dele.
Nasredim vigia o burro.
Quando ia à feira com ele,
Ouve um traque, com um zurro,
E depois segunda vez.
Treme da cabeça aos pés,
À espera então do terceiro
Que devia ser fatal.
Logo ouve outro que, certeiro,
Provou mesmo ser letal:
Na estrada, ao lado dum horto,
Nasredim tomba ali morto.
Logo uns homens o levaram
Para casa e as mulheres
Do cadáver se ocuparam,
São da tradição deveres.
E mais alguém decidia
Enterrá-lo nesse dia.
Breve se forma o cortejo
Que à margem chega dum rio
Que é de atravessar no brejo.
O cemitério se viu
Que era na margem de lá
Onde ninguém chega já.
Era mui forte a corrente.
Como a ponte utilizada
Pelo povo normalmente
Das águas fora arrastada,
Perguntavam por onde ir.
Uns diziam que a subir,
Outros julgavam que não,
Discutiam com calor.
Houve quem, na confusão,
Julgue que um barco é o melhor.
Nasredim, na padiola,
Lépido se desenrola
E proclama com voz clara:
- ”Há uma ponte mais abaixo,
Sólida, coisa bem rara,
Nela é que melhor encaixo.
Um barco?! Era o que faltava!
Eu ainda me afogava!...”
Lago
Um lago vinha bater
Na base dum muro em pedra.
Sentado em cima, um qualquer,
Fatigado, se requebra,
Uma a uma tira ao muro
As pedras que ao lago lança.
- ”Que fazes aí seguro?! -
Diz mulher que o lago alcança
Para de água encher a bilha.
- ”Ao muro tiro umas pedras,
Lanço-as ao lago que brilha.”
- “É tarefa em que não medras.
Porque estás a fazer isso?”
- ”Porque tenho sede” - diz.
- ”Não entendo o teu enguiço.”
Logo o outro contradiz:
- ”Se atirar pedras ao lago,
Faço o lago então subir.
Tarde ou cedo, alcanço um trago,
Que as águas hão-de aqui vir.”
- ”Vai levar um tempo louco!”
- ”Não creias nisso. Olha bem.
Jogo a pedra, sobe um pouco
O lago e baixo também
Um pouco a altura do muro.
Assim é que os aproximo.”
- ”Se desces, é mais seguro,
Debruças-te de água ao cimo.”
- ”Talvez, mas eu tenho medo
De cair e me afogar.”
- ”Aqui, no ponto onde acedo,
Não é fundo, é um bom lugar.”
- ”Como sabes?” - ”Vou mostrar
Como é que sei” - e a mulher
Vem-se, lesta, então postar
Atrás do muro. Vai ter
De dar um grande empurrão
Ao homem que cai no lago,
Com um enorme chapão
Mais um grito, de olhar vago.
Nem chega o lago aos joelhos.
- ”Venho aqui todos os dias
Água buscar, molho artelhos,
Sei dos fundos as manias.”
- ”Deste-me cabo das contas” -
Diz ele, com ar zangado. -
“Assim as pedras que apontas
Não sei se haviam bastado
Para o lago a mim chegar.”
- ”De que é que isso te servia?”
- ”De nada. Mas lá gostar
De saber bem gostaria.”
Sacudiu-se como um cão,
Saiu de água e se afastou,
Deixando um rasto no chão
De água que dele pingou.
- ”Disseste que tinhas sede
E não bebeste, afinal.”
- ”Não quero as águas que cede
Um lago de mau sinal.”
- ”Mesmo se eu teoferecer?”
A mulher colhe um bocado
Para a bilha, dá a beber.
Ele hesitou. Agachado,
Bebe por fim longamente.
Morta a sede, se levanta,
Porém fugiu, de repente,
Como quem se desencanta.
6
Ao Serão de Sexta-feira
Hospício
Num hospício um judeu não
Parava de requerer
Comida kosher, senão
Mais nenhuma ia comer.
Grita tanto e barafusta,
Escreve tanto e tão bem
Que por favor se lhe ajusta
O prato que lhe convém.
Mas no sábado seguinte
O psiquiatra reparou
Que ele de aves era ouvinte
No jardim e ali fumou,
Tranquilo, um gordo charuto.
- ”Está fumando?” - pergunta,
Espantado do produto.
- ”É como vê” - o outro assunta.
- ”Então fez tanto chinfrim,
Incomodou tanta gente
Para ter comida ao fim
E agora fuma contente
Do sabbat em dia. Como?!”
- ”Ora, como lhe retruco?
Senão, que prémio de tomo
Havia de estar maluco?”
Muçulmano
Foi num país muçulmano
Que um pobre maluco deu
Com conhaque, por engano,
E à noite, a esconsas, bebeu,
De grande árvore por baixo.
Rebenta uma tempestade,
Sacode os ramos em cacho
Um vento que tudo invade,
Relâmpagos iluminam,
Os trovões nos ensurdecem...
Do louco a Deus se destinam
Os gritos que o estremecem:
- ”Que é que Te deu? É uma estafa!
Como nisto crer não posso!...
Eu é que bebo a garrafa
E Tu é que ficas grosso?!”
Sevilha
Havia em Sevilha um louco
Que adoptou a extravagância
Que a ninguém lembra tão-pouco,
Nem por ânsia nem ganância:
Arranja um tubo de cana
Dum dos ladoa aguçado.
Se um cão da rua lhe abana
A cauda, é logo apanhado,
No pé prende-lhe uma pata
E segura a outra à mão,
Mete-lhe, mal se precata,
No ânus o tal tubo então,
Põe-se a soprar do outro lado
Até que o pobre animal
Fique em bola arredondado.
Após pô-lo em forma tal,
Dava-lhe umas palmadinhas
E largava-o comentando,
De conduta ante tais linhas,
Dos circunstantes ao bando:
- ”Cuidarão vossas mercês
Que é coisa de pouca monta
Inchar este cão, talvez?
Não é, não, É coisa tonta...”
Córdoba
Em Córdoba um louco havia
Que trazia na cabeça
Um pedregulho. A mania
Tinha um fito para a peça.
Sempre que encontrava um cão
Que não estivesse alerta,
Aproximava-se e então,
Antes da atenção desperta,
Deixava cair o peso
Em cheio por cima dele.
O cão urrava mui leso,
Fugia a salvar a pele.
Ora, um dia aconteceu
Que, entre os cães tão maltratados,
Do chapeleiro um caiu
Que ao dono é dos mais amados.
A pedra, ao cair, bateu
Na cabeça. O agredido
Mui lancinante ganiu.
O dono, tendo-o ouvido,
Fica furioso deveras.
Pega numa vara e espanca
O doido sem mais esperas.
À paulada que o desanca,
Gritava-lhe: - ”Era o meu galgo!
Não vês que é um galgo o meu cão?”
Galgo repete como algo
Que não pode olhar-se em vão.
Dava bordoada no louco
Como quem malhara trigo.
Desterra-se o doido um pouco,
Pois dava efeito o castigo,
E, durante mais dum mês,
Não aparece na rua.
Voltou por fim outra vez
Ainda sob a pedra sua.
Aproxima-se dum cão,
Apontava com cuidado,
Mas não se atreve à função.
Sem a haver nunca largado,
Diz ele: - ”Este é um galgo, não!”
De todos os cães comenta
Que eram galgos. Desde então
Contra nenhum cão atenta.
Campónio
Um campónio muito rico
Foi vender a uma feira
Sete burros com fanico
Tal quem nem lavram a jeira.
Monta o mais robusto deles,
Atrela os outros atrás
E segue, coberto a peles,
Chega e, sem se apear, faz
A conta aos burros que tem.
Aquele esquece que monta,
Só descobre seis além.
Volta a contar: mesma conta.
Aflito e bem convencido
De um burro lhe ser roubado
Ou então de o ter perdido,
Volta à quinta desvairado.
Chama a mulher e lhe diz:
- ”Não sei o que se passou,
Com sete à estrada me fiz,
Só meia dúzia restou.
Ajuda-me, por favor.
Quantos burros contas tu?”
Vai-se a mulher, calma, pôr
A contá-los, tu mais tu,
Sem esquecer o montado
Ali pelo seu marido.
Com dedo a ele apontado,
Diz com sorriso fingido:
- ”Esquisito o teu introito.
Pois olha, eu cá conto oito.”
Estrelas-do-mar
Uma forte tempestade
Lança na praia milhares
De estrelas-do-mar: invade
As areias e os palmares
Delas todo inteiro o rol
Ali a morrer ao sol.
Passam dois homens. Um deles
Baixa-se de vez em quando,
Apanha uma estrela reles,
Ao mar a atira, em tom brando.
O outro, que tinha pressa,
Diz-lhe, abanando a cabeça:
- ”Que fazes?! Irás deitá-las
Todas ao mar? É impossível,
Estás maluco! Não falas?”
Diz o primeiro, credível:
- ”Das que deito ao mar, retruco,
Acha-me alguma maluco?!
Espanha
Um viúvo pobre, em Espanha,
Cria com dificuldade
Dois filhos. Gasta o que ganha,
Nada poupa que lhe agrade.
Um filho era jovial,
Um optimista por lema.
O outro é uma sombra letal,
Sempre infeliz, toda a cena.
Ante as festas natalícias,
O pai pensa nos presentes
Que pode, como primícias,
Dar aos filhos dependentes.
Ante a magra economia,
Pede dinheiro emprestado
E compra, em segunda via,
A seu filho desgraçado
Um relógio. Mas não tem
Nada para o optimista.
Quando numa rua vem,
Eis que um burro, à sua vista,
Desatou a defecar.
Apanha a bosta, embrulhou
Num papel prata a imitar
Que na lixeira encontrou,
Atou-lhe uma fita em volta,
No presépio de Natal
A aconchegou bem envolta
Junto ao relógio real.
Chegada a noite das prendas,
O filho que é taciturno
Retira ao embrulho as vendas.
Vê o relógio, porseu turno,
Pô-lo no pulso, automático,
Sem demonstrar alegria.
- ”Então?” - Um vizinho, prático,
Pergunta no outro dia. -
- ”Viste que relógio belo
Te comprou teu pai?Ao menos
Estás contente por tê-lo?”
Faz que não com uns acenos.
- ”Mas porquê?!” - ”De cada vez
Que no pulso pouso os olhos,
Vejo as horas, dias, mês
A passar. Baixo os sobrolhos,
Que o que me resta a viver
Encolhe, aproxima a morte.”
- ”E tu tiveste um qualquer
Presente melhor da sorte?” -
Ao outro irmão perguntou
O vizinho muito atento.
- ”Um cavalo?” - retrucou
O rapaz, cheio de alento,
Acrescentando na hora:
- ”Só que foi-se logo embora!”
Nasredim
Nasredim fica senhor
De dinheiro apreciável.
Vem-lhe um camponês propor
Se lhe não era emprestável
A soma de mil dinares,
Que lhos paga, sem engano
E com juros singulares,
No prazo dali a um ano.
Ele empresta-lhe o dinheiro,
Julga-o perdido de vez.
Mas, corrido um ano inteiro,
Paga tudo o camponês.
Nasredim perplexo fica.
Dois ou três anos mais tarde,
O mesmo homem embica
Aonde a fortuna guarde
E pede-lhe a mesma soma.
- ”Ah, não! De mim nunca mais
Tua lábia algo me toma.”
- ”Mas porquê recusas tais?
Reembolsei-te o prometido,
Juros de todos os meses...”
- ”Precisamente! É o cumprido.
Não me enganam duas vezes!”
Avarento
Um rico muito avarento
Um dia caiu a um rio.
Arrastava-o lento e lento
A corrente, em desfastio.
Como não sabe nadar,
Acorrem várias pessoas
Margem fora a lhe gritar:
- ”Dá cá a mão, que te atordoas!”
Mas ele não a estendia
E deixava-se afundar.
A vida ao fim deveria
A Nasredim que, ao chegar,
Das águas se aproximou
E gritou do coração:
- ”Vá, homem, sem hesitar,
Toma, toma a minha mão!”
Marselhesa
Um retornado da Argélia,
Rei do merguez em Marselha,
Tem fortuna (quer revele-a
Como nova quer por velha)
Que é por incontável tida.
Um condiscípulo acolhe
Certo dia, doutra vida,
De Oran, do liceu e molhe.
Algum tempo conversaram
Trocando recordações,
Os colegas evocaram,
Professores e lições...
O que veio de visita
Um empréstimo pediu
Ao outro a quem bem concita.
O abastado reflectiu,
Levou-o a uma janela,
Mostrou-lhe fora, na rua,
Da agência bancária a tela.
- ”Vês o pendão que flutua?
Fiz um acordo cortês
E que dura o ano inteiro:
Eles não vendem merguez
E eu não empresto dinheiro.”
Glacial
Viajavam lado a lado
Por um tempo glacial
Um rico e um pobre coitado.
O rico sente-se mal
Embrulhado em dez camadas
De roupa, vai tiritando.
O pobre traz apertadas,
Nunca aos frios se entregando,
Umas roupas de algodão,
Insensível fica ao gelo.
- ”Como fazes tu então
Para o não sentir no pêlo?”
- Ӄ que tu sofres de frio
Porque tens no teu roupeiro
Botas e xailes, um rio
De sobretudos inteiro.
Ao passo que eu, pobretão,
Só tenho isto de algodão.”
Índia
No centro de Índia, um asceta
Mendicante se instalou
À porta que dá directa
Para um bordel que ignorou.
No chão se senta, a escudela
Estendida a quem passar.
Veste pobre, tanga em tela,
Barba grisalha a abanar,
Cabelos em carrapito.
O sinal de Vishnu tem
Na fronte bem circunscrito,
Os ombros cinza contêm.
Quando soube por quem passa
Que uma prostituta actua
Na casa a distância escassa,
Uma fúria lhe deu crua.
Insulta a porta, as paredes,
Quis fazer queixa, mas dizem
Que de lei não há cá redes
Para os que por lá deslizem.
Ele alerta a quem passar,
Dizem que o que a fazer tem
Era mudar de lugar.
É o que jamais lhe convém,
Tão movimentada é a zona,
Tão favorável à esmola.
Os clientes, numa fona,
Insulta, à má-fama imola,
Tenta atacar à paulada...
Uma tarde, ao dormitar,
Um cliente, junto à entrada,
Uma moeda faz tombar
De prata lá na escudela.
Ao despertar do barulho,
O asceta retira dela
A moeda com orgulho.
Nos dias que se seguiram
O mesmo gesto ocorreu,
Dezenas o repetiram.
A crítica esmoreceu
Do asceta, agora acalmando.
Os clientes satisfeitos
Lá o iam esportulando,
Como a tal mendigo afeitos.
Foi o hábito crescendo,
Os vizinhos deste asceta
Pela calada dizendo
Que era um mero proxeneta.
Mas um dia a prostituta
Decidiu mudar de casa.
As carroças, em disputa,
Cada qual a carga apraza.
Móveis, tapetes transportam,
Candeeiros, roupas, tudo
E nas carroças se exortam
A atulhar miúdo e graúdo.
Ora, o asceta olhava aquilo
Com um ar muito inquieto.
No fim sai, em grande estilo,
A mulher, saco repleto.
As carroças já partiram,
Vinha agora um palanquim.
As criadas reagiram
A ajudar a dona ao fim.
O asceta então a chamou
E perguntou: - ”Vais-te embora?”
- ”O insulto me azucrinou,
Contente deves agora
Estar da minha partida.”
Trepa para o palanquim,
Fecha a cortina em seguida.
O asceta, num frenesim,
Correu atrás a clamar,
Pisando os calhaus da estrada:
- ”Não me poderás tu dar
A tua nova morada?”
Haim
O judeu Haim dormia
Com sua mulher, à tarde,
Quando um barulho se ouvia
Na casa que tão mal guarde.
Um ladrão de introduzir-se
Acabava em casa deles.
Cheios de medo, a esvair-se,
Ficam imóveis aqueles.
O ladrão busca a correr
Por toda a parte e encontrou
Um lindo anel de mulher
E foi o que ele levou.
Haim, que estava a espiá-lo
Pela porta entreaberta,
Foi atrás até caçá-lo.
Ao voltar, ainda desperta,
A mulher lhe perguntou:
- ”Recuperaste o anel?”
- ”Não, não!” - ele retrucou.
- ”Correste... Não foi por ele?!”
- ”Só lhe queria dizer
Que o anel tinha custado
Muito mais que outro qualquer,
Para não ser enganado:
Quando ele tentar a alguém
Vender, venda, ao menos, bem.”
Rabino
Um rabino viajante
Oferecia os serviços
Cidade a cidade adiante.
Das etapas nos sumiços,
Chega sempre a Berditchev,
Se aloja no lar dum pobre,
Que outro convite não teve
Que em tal terra ali lhe sobre.
Mas tornou-se popular,
Ganhou dinheiro o rabino,
Reuniu, a o rodear,
Mil discípulos de tino.
Chega um dia a Berditchev,
Agora em coche doirado
Que os cavalos puxam leve.
Um dos ricos, anafado,
Logo se lhe apresentou,
Para seu lar o convida.
E o rabino retrucou:
- ”Com sua licença, a ida
É ao pobre do costume.
Porém, se lhe dá regalos,
Tudo a isto se resume:
Convide então meus cavalos.”
Colectas
Um padre mais um rabino
Falam da parte que têm
Para seu próprio destino
Das colectas que retêm.
O padre: - ”Traço no chão
Da igreja uma linha recta
E, no fim da missa, então
Atiro ao ar a colecta.
O que cair à direita
Guardo inteiro para mim.
O que à esquerda ali se ajeita
Será para Deus, enfim.”
E o rabino: - Ӄ mais ou menos
O que eu faço, mas sem linha.
Grandes atiro e pequenos
Dinheiros ao ar. A minha
Decisão é feita assim:
De Deus é o que fica no ar;
O que cai é para mim.
Ninguém se pode queixar.”
Fato
Um judeu com um amigo
À loja vai por um fato.
No alfaiate encontra abrigo:
Um lhe agrada e quer contrato.
Discute, porém, o preço
Durante três quartos de hora.
- ”Regateaste! Não esqueço
Que o não vais pagar agora...”
O outro diz-lhe: - Ӄ que assim
Perde ele menos, ao fim...”
Ética
Um judeu ensina ao filho
O que é que ética será:
- ”Queres ver com todo o brilho
Um problema onde isso está?
Um cliente vem à loja
E, ao sair, esquece o troco
No balcão que a caixa aloja.
Problema no qual eu toco
A ética mais profunda
Que me faz perder meu ócio:
Se o dinheiro não abunda,
Divido com o meu sócio
Ou guardarei por inteiro
Para mim todo o dinheiro?”
Fome
Sobre a região a fome
Tremenda ali se abatera,
A população não come,
Mata a miséria qual fera.
Porém, os ricos cuidado
Tinham de encher os celeiros
E adegas, tudo atulhado,
Fartos são meses inteiros.
A mulher de Nasredim
Diz-lhe então: - ”É uma vergonha!
O rico foi sempre assim,
Tudo tem de que disponha.
E meio povo não tem
Nem sequer de que comer.
As crianças morrem também,
Até o rato anda a morrer.
Não poderás fazer nada?”
- ”Mas que queres tu que eu faça?”
- ”A riqueza partilhada
Com os pobres nos congraça.
Não poderás convencer
Os ricos à entreajuda?”
- ”Tens toda a razão, mulher,
Vou já tentar se isto muda.”
Saiu de casa e só volta
Cinco ou seis dias mais tarde.
Esgotado, a voz mal solta
Num murmúrio sem alarde.
- ”Então,” - pergunta a mulher -
“Cumpriste e tua missão?”
- ”Sim” - mal se ouve responder.
- ”Conseguiste, pois, então,
Convencê-los a aceitar
Uma partilha dos bens?”
- ”Consegui metade, a par.”
- ”Metade?! Mas que é que tens,
Que é que é isso que me encobres?”
- ”Convenci mas foi os pobres.”
Damasco
Nasredim saiu um dia
De viagem a Damasco.
Logo o imã longo escrevia
Que de lá lhe traga um frasco,
Várias peças de brocado,
Mais duas tapeçarias,
Serviço de chá talhado
Em porcelana de estrias
Com a chinesa embutida,
Cem obras encadernadas,
Miniaturas à medida,
Mais luxos para as jornadas...
E anotava: - ”Não te inquietes,
Pago-te mal aqui voltes.”
Mal torna e pisa as carpetes,
Logo o imã: - ”Que enfim te soltes!
Correu-te bem a viagem?”
-”Correu” - disse Nasredim,
No descanso da paragem. -
“Damasco, um mundão assim,
Que grande, grande cidade!
Contar-te-ei até ao fim
Tudo o que vi que te agrade,
Se tens paciência, enfim...
Mas antes, algo em contraste
Tenho-te a dizer a ti:
A carta que me mandaste
Eu cá nunca a recebi.”
Cinema
Um produtor de cinema
Célebre por seus calotes
Os Champs-Élysées atrema
Em subir, um dia, aos trotes,
Quando sentiu uma mão
Pousar-lhe no braço então.
Sem, contudo, se voltar,
Diz a quem tenta detê-lo:
- ”Também a mim, se calhar,
Me chegas a roupa ao pêlo.
Ora, a mim próprio, parceiro,
Também me devem dinheiro...”
Sacha Guitry de finados
Solta deste canto os dobres:
“Conheci-os arruinados,
Mas nunca os conheci pobres...”
Polónia
Na Polónia dois judeus
Viajam no mesmo comboio
A Varsóvia, rumo aos seus.
São como o trigo e o joio.
Não se conhecem. O novo
Diz ao velho, de repente:
- ”Para si sei que reprovo,
Mas diz-me a hora presente?”
O velho, numa olhadela,
De imediato lhe responde:
- ”Não!” E ao canto, sentinela,
Se encolhe todo, se esconde.
O rapaz, surpreendido,
Aguarda então uns minutos:
- ”Porquê o não tão decidido
E com uns modos tão brutos?”
O velho hesita um instante
Até depois responder:
- ”Ouve cá, ó meu tratante,
A Varsóvia vamos ter.
Cidade que não conheces,
Disseste-o ao revisor.
É o sabbat, não te esqueces,
Este é o dia do Senhor.
Vais perguntar-me, portanto,
O rumo da sinagoga.
Eu recusar-me, no entanto,
Não posso, que a fé o advoga.
Levo-te lá pessoalmente.
À saída, como vejo
Teus meios (são de indigente),
Perguntas-me se entrevejo
Alguma pensão barata.
Como nenhuma conheço,
Num jogo de desempata,
Minha casa, no começo
Vais aceitar, com certeza,
Poderei prever que sim.
Tenho filha, uma beleza,
Dezoito anos de marfim.
Vai-te agradar, pela certa,
Não tardam a apaixonar-se
Um do outro, em casa aberta.
Uns meses, para disfarce,
E pedes-ma em casamento.
- E achas bem se eu a concedo
A quem nem tem, de momento,
Nem para um relógio?! Credo!”
Bagdade
Em Bagdade houvera outrora
Uma longa discussão
Entre a gente pensadora,
A responder à questão:
Há duas categorias
De homens cá todos os dias?
De acordo era a maior parte
Mas discordavam acesos
Sobre a razão que os reparte:
Como dividir os coesos?
O muçulmano convicto
Diz: fiéis e infiéis.
O cristão, não: é o maldito
E o salvo, sem mais papéis.
Para o grego, é o dominante
E, a seu lado, o dominado.
Noutros termos: grego impante
Contra bárbaro iletrado.
Noutros era a inteligência
Que havia de dominar:
Os que sabem, a ciência,
E os que ignoram, logo a par.
Instruídos – ignorantes.
Mas há mais nestes alfobres,
Que aqueles dizem pedantes:
Bastam-lhes ricos e pobres.
Há o que manda, o que obedece.
Há o vencedor e o vencido.
De Índia um há que não esquece
Divisões noutro sentido:
A dos vivos e a dos mortos.
Para alguns, são bons e maus,
Embora, nos nossos hortos,
Onde, entre os dois, talhar vaus?
Ao fim do mês foi forçoso
Separar sem solução
Tanto sábio portentoso,
Que vã fora a discussão.
Encontram então na rua
Nasredim que ia a passar
Calmo na montada sua.
Vai-lhe um sábio perguntar:
- ”Nasredim, categorias
Será que de homens há duas?”
- ”Claro que há, não o sabias?”
- ”Quais e como as encafuas?”
- ”Os que pensam que do Homem
Há duas categorias
E os outros, os que nos tomem
Por irmãos todos os dias.”
Zen
Uma velha abastada decidiu
Auxiliar um jovem monge zen
Em estado famélico que viu
Penitente na rua, ali perene.
Alojamento deu-lhe na cabana
A meio situada, em parque imenso
Em torno à residência onde se fana
E alimentou-o então, com todo o senso.
Ora, o monge aceitou, não vendo nisso
Mal algum e alguns anos decorreram.
Ele ganhava peso mas serviço
Fez sempre, que orações sempre correram.
A dama apreciava tal presença
Que, tranquila e devota, a apaziguava.
O eremita cuidava da sentença,
Em seu lugar pecados lhe lavava.
Aos amigos falava e o exibia,
Que trocavam com ele algumas falas.
Com o tempo ninguém estranharia
Tal presença: o melhor era das galas.
Uma sobrinha a dama, porém, tinha
A quem vida monástica atraía.
Mas antes do convento o que a detinha
É que conhecer quer toda a alegria,
Ao menos uma vez, do amor carnal.
Pensa consolidar a vocação
Se aprende a apreciar pelo total
Aquilo que depois larga no chão:
Senão, qualquer renúncia que valia?
Não ousando ela aos pais, à tia fala
Que, depois de hesitar, admitiria
Como era pertinente o que a regala.
- ”Tenho justamente o que é preciso,
Ao menos creio ter” - confidenciou.
À rapariga disse, com juizo,
Que à cabana a acompanhe, onde explicou
Ao eremita o acto que esperavam.
Mas este recusou veementemente
Qualquer sexual contacto. Renunciavam
Os monges ao prazer, coração quente
Já não tem e não quer correr o risco...
A velha se irritou e pôs na rua
Imediatamente aquele cisco,
Que a vista já lhe turva, negra e crua.
- ”Como dei eu guarida ao imbecil?!” -
Exclama, a verter fel, raivosa esponja. -
“Com certeza não há mais um em mil!”
E a rapariga foge de ser monja.
Hassan
Hassan ia desposar
Do sultão a filha única,
Mas tem um jogo de azar:
Tirar do bolso da túnica,
À escolha, um de dois papéis.
Num se escreveria “vida”
E o consórcio troca anéis.
Noutro, “morte” e, de seguida,
Era morto o pretendente.
Apesar deste contrato
(Que assina Hassan, de repente),
O sultão perde o bom trato,
De aflito. Pensava ele:
Tenho uma hipótese em duas
De a filha dar para aquele
Zé-ninguém de andar nas ruas,
Mais a parte da fortuna.
O risco é grande, cuidava.
Do biltre a morte se coaduna
(E só ela) ao que o magoava.
Dá parte da inquietação
Ao grão-vizir, um escroque.
Aconselha-o este então
A ter de génio este toque:
Escrever nos dois papéis
A fatal palavra “morte”.
É o privilégio dos reis:
Mudam a seu gosto a sorte.
Mas Hassan é inteligente
E prevê toda a armadilha.
Chega o dia e, sorridente,
Entra à sala da pandilha,
Onde o aguardam o sultão,
O vizir e toda a corte,
Mais um carrasco. No chão,
O cepo e o sabre do corte
Do pescoço que pretendem.
Hassan avança. Um criado
Põe na bolsa que lhe estendem
Os dois papéis. Descuidado,
Hassan logo agarra num,
Enrola-o, sem mais o engole.
- ”Porque quebras o jejum
Comendo esse nojo mole?” -
Exclama brusco o sultão.
- ”Fiz a escolha e engoli-a.
Se meus fados onde vão
Queres saber, pois a via
É ler o outro papel.”
Ora, neste havia “morte”,
Pelo que deduz-se dele
Que o que engolira reporte
Nele escrito o termo “vida”.
O sultão já não podia
Tirar-lha e é-lhe cedida
Mais a filha que queria.
Indiano
Tinha um sábio indiano
A fama de preferir
Silêncio a todo o engano
De ensinança que existir.
Uma pequena cidade
Convidou-o, no entanto,
Decidindo que o persuade
A falar, usando o encanto.
Ante a centena de parvos
Pergunta a primeira vez:
- ”Sabeis de que irei falar-vos?”
- ”Não!” - respondem no entremez.
- ”Então nada vos direi.
Sois por demais ignorantes,
Com que podia não sei
Entreter-vos ums instantes.”
E retirou-se. O auditório,
Desapontado, voltou
Segunda vez, em velório.
De novo ele perguntou:
- ”Sabeis do que irei falar-vos?”
- ”Sim!” - responderam em coro.
- ”Nada então tenho a ensinar-vos.”
E lá se foi, com decoro.
Não se dando por vencidos,
Os interessados voltam
Um dia após, decididos
A um ardil que aos pés lhe soltam.
- ”Sabeis de que que falar vou?”
- ”É que uns sabem e outros não.”
- ”Nesse caso, donde estou
Os que sabem o dirão
Aos que não sabem.” E, a par,
Foi-se, sem mais retornar.
Senhorio
- ”Padre, chamo-lhe a atenção
Para o terrível flagelo duma pobre família:
Pai desempregado e a mãe não
Pode trabalhar, dada a vigília
Pelas nove crianças que tem de sustentar.
Têm fome e em breve irão para a rua,
Salvo se alguém lhes pagar
Os 500 euros da renda sua.”
- ”Que horror!” - diz o padre, tocado
Pela preocupação do homem de brio. -
“E o senhor quem é? Conheço-o de algum lado?”
- ”Sou deles o senhorio.”
Crêem
Desde sempre os homens crêem
Que haja um mistério no mundo
Que só os iniciados vêem
Após um rito profundo.
Um califa encarregou
Nasredim de o descobrir.
- ”Queres” - este interrogou -
“Do esoterismo que ouvir
Que eu lhe descubra o segredo?”
- ”Sim e que após mo reveles.”
- ”Mas, supondo que lhe acedo,
Não és acaso daqueles
Que, após to haver confiado,
Mandas cortar-me a cabeça?”
- ”Mas para quê tal mandado?!”
- ”Para o único da peça
Ser que tem conhecimento.”
O califa trejurou
E Nasredim, no momento,
Logo a casa retornou
Prometendo sem demora
Do esoterismo informar-se.
Mas nem antes nem agora
Da vida altera o disfarce.
Vai no burro colher figos,
Ocupa-se do negócio,
Conversa com os amigos
Em redor dum chá, em ócio
Discute com a mulher,
Com os filhos, com o burro...
Rotina, como quenquer.
Findo o tempo, mui casmurro,
O califa o convocou,
Pergunta, no encontro a sós:
- ”Do que tanto se falou
Descobriste alguma voz?”
- ”Descobri” - diz Nasredim.
- ”Mas o que é? Conta-me então!”
Lançando um olhar sem fim
Em redor, pelo salão,
A assegurar que sozinho
Está com o soberano,
Ao ouvido, em burburinho,
Do mistério tira o pano:
- ”O que é que é o esoterismo?
Descobri que é uma cenoura.”
- ”Uma cenoura?! O que crismo
De mistério é o que me agoura?
Mas porquê?!” - ”Ao que parece,” -
Nasredim que o não impeçam
Garante, a salvar-se em prece -
“Muitos burros se interessam
Por ele, não é verdade?”
E, com isto, ele se evade.
Glicínia
Um ingénuo camponês
Depõe toda a confiança
Dum monge zen em mercês,
O qual em gruta se alcança
Distante mais duma hora
Duma aldeia aonde mora.
Quando um problema sofria,
Filho doente, má colheita,
Até à gruta subia
E ao monge, para a maleita,
Um conselho então lhe pede
E logo este lho concede,
Sempre com igual resposta,
Fosse qual fosse a pergunta:
- ”Para a questão que é proposta,
De glicínia um pouco junta
E, na chávena servida,
Bebe glícínia fervida.”
Com uma só diferença:
Se era animal ou pessoa
Doente, então a sentença
Dita que a tisana é boa
Só quando, evidentemente,
É bebida pelo doente.
O campónio, uma manhã,
Procura em vão o cavalo
Pela aldeia, em busca vã.
Constata, com muito abalo,
Que anda desaparecido
E, sem ele, se há sumido
Todo o trabalho da terra.
Trepa à gruta do eremita
Lá bem no cume da serra,
Explica-lhe o que o agita.
Reflecte profundamente
O eremita, em chão assente.
Meia hora bem contada
Após, diz com toda a gana:
- ”Pois de glicínia apanhada
Vai beber uma tisana.”
- ”Em que me vai ajudar
Uma tisana emborcar?!”
O eremita se recusa
A dizer mais e voltou
Para a sua gruta escusa.
O camponês retornou
Para a aldeia onde a mulher
Diz mais glicínia não ter.
Devia haver noutro vale,
Onde se chega transpondo
Uma escarpa sem igual.
Mas para quê ir, supondo,
Se não diz coisa com coisa
O monge que no alto poisa?
Sem saber mui bem porquê,
O camponês tem confiança
No eremita que além vê.
Põe-se a caminho e alcança
O outro vale. E eis que o cavalo
Ali pasta que é um regalo!
Dougxan
Em pleno século XIII
Andavam Xengha e Dougxan
Pelo campo, sem que os lese
Nada, até que uma manhã,
Couves chocas, de repente,
Vêem a ir na corrente.
Dougxan diz que um eremita
Budista ter-se instalado
Devia lá na territa,
Pois o resto rejeitado
Duma refeição seria
A couve que ali se via.
Procuram, acham-no logo.
Mal os vê, pergunta ele:
- ”Caminho nenhum advogo
Nesta montanha. Que impele
Minhas visitas então?
Vieram, mas por que chão?”
- ”Pouco importa” - diz Dougxan.-
“E o senhor onde passou?”
- ”Não vim atrás da manhã
Nem do rio que escoou.”
- ”E há quanto tempo aqui vive?”
- ”Anos não há que eu arquive.”
- ”Quem vivia aqui primeiro,
O senhor ou a montanha?”
Diz o monge pioneiro:
- ”Sei lá bem qual de nós ganha!”
- ”Mas como, como não sabe?!”
- ”A conta em homens não cabe
E nem nos deuses também.”
- ”Mas, sendo assim, porque veio?...”
- ”Vi dois bois de lama além
Que lutavam, num enleio,
Entrarem pelo mar fora.
Depois, nada. Até agora.”
Sandália
Ao discípulo curioso
Que da vera natureza
De Buda quer ter o gozo
Responde o mestre que preza:
- ”Uma sandália do pé
Tira, põe-na na cabeça
E sai sem dizer até
Logo, como quem tem pressa.”
Um
Um jovem pergunta ao mestre:
- ”Tudo a um é redutível.
E o Um não há quem amestre?
Ele é mesmo irredutível?”
Responde o mestre Tchau-Tcheu:
- ”Antigamente, quando eu
Morei na zona de Tching
A pesar uns sete kin
Mandei fazer uma veste
Que assim bem a mim me preste.”
Istambul
Um homem, em Istambul,
Andando já nos sessenta,
Por amor, com véu de tule,
Casa com jovem que assenta,
Uma bonita mulher,
Dos amigos contra o crer.
Era um homem reputado,
Rico e mui bom conselheiro:
Cada assunto delicado
Ponderava o ano inteiro.
Ocorreu-lhe o que acontece
A quem de quem é se esquece:
A sua jovem esposa
Amante da idade dela
Toma e clandestina goza
Duma alcoviteira em cela.
Por mais hábil que mantida
Seja, acaba conhecida.
Una amigos do enganado
Acharam-se no dever
De tudo lhe ter contado.
O homem manda rever
Toda aquela informação,
Ouve inteira a confissão.
Mandou chamar a mulher,
Não nega o que era evidente.
Ante acusação qualquer,
Chora desoladamente,
Impetra todo o perdão,
Que as leis a morte lhe dão.
Remete-a o homem ao quarto,
A decisão a aguardar.
Sozinho fica, refarto,
Noite inteira a ponderar.
Orou muito e reflectiu,
Até que a decisão viu.
Bem cedo, saiu de casa.
Viram-no em diversos cantos
Da cidade. Tudo o atrasa.
Ao fim da manhã, sem prantos,
Manda preparar depois
Uma refeição a dois.
Quando a refeição foi pronta,
Mandou descer a mulher,
Que em frente se sente aponta.
Ela faz o que ele quer.
- ”Comamos” - diz ele então.
E, durante a refeição,
Recorda à sua mulher
Que, um dia após, convidados
Terão para receber
E que ela preste os cuidados
Requeridos a que bem
Corra tal serão também.
Mais informou que viriam
Reparar parte do tecto
Onde já brechas se abriam
E que contava, em concreto,
Com ela para acertar
Tudo e para vigiar.
Comportava-se tal como
Num outro dia qualquer,
Sem perturbação de tomo.
Admirava-se a mulher,
Inquieta desta atitude
Que qualquer castigo ilude.
Mal começam a comer,
Diz-lhe o homem: - ”Não desdobras
Teu guardanapo sequer?”
Da confusão entre as sobras,
Ela esqueceu de pegar
O seu guardanapo a par.
Ao desdobrá-lo, descobre
Lá dentro o estojo da marca
Do joalheiro que cobre
O melhor que a urbe abarca.
Abre o estojo e a jóia viu
Brilhando que ele lhe deu.
- ”É para quem?!” - perguntou
Num espanto bem profundo.
-”Para ti” - lhe retrucou
O marido, em baixo fundo.
Ela, sem compreender,
Nem toca a jóia sequer.
Por fim diz, trémula a voz:
- ”Não mereço recebê-la.”
- “Não” - diz o marido após,
Meditando na sequela.-
“Mas eu é que, de alma aberta,
Eu mereço oferecer-ta.”
Nasredim
Nasredim ia a passar
Numa rua quando alguém
Tão violento vem chocar
Com ele que quase tem
De ir ao chão recuperar
O equilíbrio dele além.
Nasredim, muito abalado,
Atrás do homem correu
E perguntou-lhe, açodado:
- ”Este encontrão que me deu
Foi por mero acaso dado
Ou brincando aconteceu?”
- ”Por acaso” - diz-lhe o homem.
- ”Ainda bem, fico aliviado.”
- ”Mas que coisas te consomem?”-
Diz o outro, por seu lado.
- ”É que, se encontrões se tomem
Por brincadeira de agrado,
Uma brincadeira assim
Era nova para mim.”
Índia
Na Índia, certo homem santo
Caminhava na cidade,
A escudela canto a canto
Recorrendo à caridade,
Quando foi doutro atacado,
Desta atitude irritado.
Violentamente agredido,
Deixa-o, tal morto, no chão.
Do convento, o aviso ouvido,
Os monges, de supetão,
Vêm logo ali buscá-lo,
Para a cela a transportá-lo.
Dispensam todo o cuidado,
Lhe arejam todo o ambiente,
Água fresca, leite coado...
Quando abre os olhos, em frente,
Um monge, a verificar
Se a mente tem no lugar
Perguntou: - ”Tu me conheces?
Saberás dizer-me a quem
Este leite que apeteces
Deverás por fim também?”
- ”Sim, sim,” - logo o enfermo anuiu -
“Àquele que me bateu.”
Trolha
Houve certa vez um trolha
Que, se um bocado de massa
Cai no nariz donde a colha,
Logo a um colega, com graça,
Pede que com a colher
Lha tire em golpe a correr.
O companheiro cumpria,
Sem olhar, sem apontar,
No ar a colher assobia
O bocadinho a arrancar.
O trolha não há mexido,
Nem sequer estremecido.
Foi um príncipe informado
Desta proeza inaudita.
Ao trolha envia um mandado
E pede-lhe que repita
Perante ele a habilidade
De que se mal persuade.
-”Lamento, mas é impossível.”
- ”Porquê?” - ”Porque já morreu
Aquele trolha impassível
Que sempre a mim mo pediu.
Hoje mais ninguém alcança
Que eu tenha tal confiança.”
Zen
Um mestre zen com mais dois
Dos discípulos caminha
Pelas veredas de sóis
Dum jardim florido e vinha,
Num insecto a reparar,
Um perfume a respirar...
Chega ao termo do carreiro,
Voltou-se para o jardim
E afirmou com ar matreiro:
- ”Sem pisar caminho, assim
Caminhei, sem pisar terra,
Só agora é que o pé me aterra.”
- ”Eu também” - disse o primeiro
Dos discípulos, facundo.
- ”Eu também não” - justiceiro,
Completa assim o segundo.
Sesta
Nasredim dormia a sesta
Num jardim perto de casa,
Costume a que bem se apresta.
A vizinha, olhos em brasa,
Acorreu alvoroçada,
Sacode-o, descontrolada:
- ”Depressa, vem! De cacetes
Entraram homens armados
Em casa. Pagam-lhes fretes,
Que golpeiam os costados,
Sem paragem nem sentido,
Do pobre do meu marido.”
- ”E então? Fracote como é,
Não vão precisar de mim...”
Nem sequer se pôs de pé,
Adormeceu logo assim.
Filhos
Perguntam a Nasredim:
- ”Um homem de oitenta anos
Pode ter filhos ao fim?
-”Na condição...” - quentes panos
Quer Nasredim aplicar.
- ”Que condição tem lugar?”
- Ӄ que ele tenha em caminho
De vinte anos um vizinho.”
Enganar
A Nasredim vem contar
Um vizinho que a mulher
Dele o andaria a enganar
Com um padeiro qualquer.
Nasredim, que jovem era,
Mal a fúria contivera.
Agarrou logo um punhal
E atrás das árvores foi
Colocar-se ante o rival,
Junto à loja que lhe dói.
Da ira fúrias lhe dão,
Bate os pés, punhal na mão.
Cai a chuva miudinha.
Ao sentir gotas na cara,
Da verdade comezinha
Se lembra que em si dispara:
- Há muito não tem mulher,
Vive só, nenhuma quer!
Frango
A mulher de Nasredim
Um belo frango assa à noite,
Lume em lenha e alecrim,
Senta-se à mesa onde a acoite
O marido bem disposto,
Com ele a comer com gosto.
- ”É bem pena” - diz então
Nasredim tal para si -
“Sermos tantos ao quinhão,
Tão numerosos aqui.”
- ”Numerosos?!” - a mulher
Não está mesmo a entender.
- ”Preferia – vè, não mango -
Ser apenas eu e o frango...”
Gato
A solteirona sozinha
Vive apenas com um gato.
Dispende horas na cozinha
Matando o tempo pacato,
Em frente à televisão
Que vê distraída então.
O gato acariciando
Às vezes junto à lareira,
Vai memórias recordando,
Devaneios de solteira.
De vez em quando murmura:
- ”Se mudasses de figura...
Se pudesses transformar-te
Já no príncipe encantado
Que espero de qualquer parte,
Há tanto tempo contado!”
Um dia, o milagre opera:
A transformação se dera.
O gato desaparece.
Diante da solteirona
Está um jovem que esclarece
Que é um príncipe vindo à tona.
Soberbo, respandecente,
Veste magnificamente.
Olha-a com sorriso amargo
E diz-lhe, como a hesitar:
- ”Que bom seria este encargo!
Mas mandaste-me capar...”
Erudito
Era um homem erudito,
De grande reputação.
Recebe um outro, esquisito,
Que o nunca larga de mão,
Serve um pretexto qualquer
Seu conselho a recolher.
- ”Posso ir a tua casa?”
- ”Podes, claro” - ele responde.
- ”Um problema que me arrasa
Tenho, vindo não sei donde.
Esta tarde posso ir?”
- ”Se quiseres, é só vir...”
O homem não se coibia
De o visitar, cada vez
Mais frequentemente iria,
Por razões de tal jaez
E por tão fúteis motivos,
Tão vazios, tão esquivos
Que um certo dia o erudito
Perdeu mesmo a paciência,
A ponto de lhe ter dito:
- ”E se tu, na minha ausência,
Em vez de vir todo o dia,
Em prol duma ninharia,
Procurar-me em minha casa,
Resolvesses, ao contrário,
Por quanto, afinal, te arrasa,
Procurar, antes, sumário,
Vir-me a casa em tua casa?
Findava-se-te o calvário...”
Bascos
Vão dois bascos num comboio.
Durante um grande bocado,
A cada o silêncio mói-o,
Frente a frente ali sentado,
Olhando de vez em quando
Paisagens que vão cruzando.
A dada altura, o primeiro
Pergunta: - ”Tu, tu donde és?”
- ”De Bilbau. E tu, parceiro?”
- ”De San Sebastian, já vês.”
- ”E que fazes de trabalho?”
- ”Sou músico quando calho.”
- ”Também eu. E que instrumento
É que tocas, afinal”
- ”Violino é quanto tento.”
- ”Também eu, é o principal.”
Fica um nada a meditar
E torna então a falar.
- ”Ao tocar na catedral,
As lágrimas vão correndo
Da imagem, da principal
Da Virgem, no altar se vendo.”
Após um silêncio curto,
Responde o outro, num surto:
- ”Quando na igreja toquei,
Cristo até desceu da cruz,
Veio até mim. Quando dei
Por ele, diz-me Jesus:
'Deixa-me, irmão, abraçar-te!
Tocas com uma tal arte
Que és mesmo muito melhor
Que o estúpido que põe
Minha mãe chorando um ror
Em Bilbao, ao que supõe!'”
Burros
Um homem que burros vende
Lá no terreiro da feira
Vê que o mesmo, ao fim, pretende
Nasredim à sua beira,
De metros a umas centenas
Já de venda a encenar cenas.
Só que os vende mais baratos
Do que o mercador consegue.
Descontente com tais tratos,
Comprar em conta persegue,
A roubar aos criadores,
Dos preços baixando os teores.
Mas burro de Nasredim
Sempre é de preços mais baixos.
Furioso, o outro, enfim,
Corta na aveia, nos sachos...
E os de Nasredim, nos tratos,
Continuam mais baratos.
Reduz paga aos empregados,
Despede uns, batota faz...
Nasredim, nos burros dados,
Nunca, porém, fica atrás.
O mercador já vender
Não consegue, é só perder.
Quando acaba a paciência,
Vai ter com o afortunado
Rival e diz-lhe, na essência:
- ”Como é que fazes, danado?
Não logro vender os meus
Burros ao preço dos teus.
Roubei os fornecedores,
Os criadores roubei
E também os mercadores
De aveia que lhes tirei...
Como é? Trata-los a murros?...”
- ”É simples: eu roubo burros.”
Turco
Um turco tenta evitar
Desesperado que caia
Um burro por um algar,
A cauda a agarrar sem baia.
O burro agitadamente
Bate os cascos que mal sente,
Sem nada a que segurar-se.
Tal homem, com toda a força,
Agarra-se até que esgarce,
Pedindo ajuda que torça
O destino malfadado,
Que os santos olhem seu fado.
Chama em auxílio os profetas,
Moisés, Abraão, Jesus,
Que importam de igreja as setas?
Aqui não há mais tabus:
- ”Acudam! Se o burro cai,
Atrás a vida me vai...”
Os músculos crispa, as mãos
Cedem, que já não aguenta,
Vai ter de largar, são vãos
Os esforços que ele tenta.
No instante em que o burro cai:
-”Santos, ai, vos abrigai,
Que eu aqui, mesmo casmurro,
Eu findei largando o burro!”
Parteira
Quando à luz dava a mulher,
Nasredim se preparava
A sair, como quem quer
Passear na terra brava,
Mas a parteira lhe disse
Que não, não, que não saísse.
- ”A ajudante está doente,
Anda,vais substituí-la.”
Nasredim quer, veemente,
Protestar, mesmo à má fila.
Fez que a parteira ordenasse,
Cogente, que ali ficasse.
Na mão pôs-lhe a vela acesa
E disse-lhe, autoritária:
- ”Tens só de mantê-la presa,
Dar-me dela a luz sumária.”
Trémulo, então, Nasredim
Viu chegar o serafim
Do primogénito filho.
Ia-se logo afastar
Mas a mulher diz, com brilho:
- ”Não, não! Terás de esperar.
Vem outro aí, acho eu...”
E Nasredim então viu
O gémeo vir do primeiro.
Rápido a vela soprou.
- ”Que fazes, ó mau parteiro?
Alumia! Cega estou...”
- ”Desgraçada! Daqui sai,
Que esta luz é que os atrai!”
António
António, pândego alegre,
Inventor de patacoadas,
Qual a melhor que se integre
Em refeições bem regadas,
Enfrenta a questão que sobre:
Que é que no homem é o mais nobre?
Um dos parceiros sustenta
Que eram olhos, outro, a fronte,
No coração outro assenta,
Outro à mente abre horizonte...
Depois cada qual explica
As razões de sua dica.
António prefere a boca,
Logo outro o ânus escolhe.
Porque este tal parte invoca
O espanto de todos colhe:
- ”Por uso, tal honra assenta
No primeiro que se senta.”
Aplaude então toda a gente,
Fica António derrotado.
Remói no caso pendente
E, após um tempo passado,
Voltam a ser convidados
A um banquete os dois visados.
Encontra António o rival
Que estava ali de conversa
Enquanto não vem sinal
Do jantar que a reunião versa.
Vira costas, ergue o fraque
E solta um sonoro traque.
O rival fica indignado,
Diz de António: - ”Grosseirão,
Rústico mal engendrado!
São tais modos teus então?!”
- ”Porque te zangas?” - responde -
“És mais nobre, afinal, onde?
Se a boca, o mais nobre em mim,
É que em mim te cumprimenta,
Respondes-me amável, sim.
Cumprimenta-te o que assenta,
Que é para ti o mais nobre
E ficas zangado?! Pobre!”
Alemanha
Na Alemanha, um mestre-escola,
Finda a guerra mundial,
Na turma a questão recola:
- ”Porque a perdem, no final?”
Um aluno, o mais reguila,
Responde, do fim da fila:
- ”Pelos generais judeus!”
- ”Mas nós nem tínhamos cá,
Nos crentes nem nos ateus,
Judeus generais, se os há!...”
- ”Pois não, nem cá se adivinham.
Eram os outros que os tinham!”
Indiana
Na tradição indiana,
Dos tempos lá pela origem,
O deus do sexo, o deus Kama,
Mãos à obra, com vertigem,
Deita pela criação,
A moldar o mundo à mão.
De sábios uns delegados
Vêm trazer-lhe oferendas,
Cantos em louvor entoados.
Porém Kama, em meio às prendas,
Desatou a rir com gosto.
Os sábios, a contragosto,
Surpresos, desiludidos,
Perguntaram-lhe a razão
Dos risos descomedidos.
- ”Os que aqui vêm e vão
Tentando agradar com ritos,
É de rir, na cara fitos.”
- ”Então e quanto aos demais?”
- ”Se alguém que for ponderado
Do mundo busca os sinais,
Da razão-saber armado,
Rio-me na cara dele.”
- ”E se é o amor que o impele?”
- ”Se um sensato ou insensato,
Malévolo ou virtuoso,
Me diz que busca num acto
De amor o mais fundo gozo,
Na cara dele me rio,
Tal com os mais, de fastio.”
- ”Mas porquê?!” - estupefactos,
Perguntam os sábios todos. -
“Por que razão a tais actos
Reages tu com tais modos?!”
E Kama, ante as questões dadas,
Desatou às gargalhadas.
Judeu
David, o judeu, dá voltas
Na cama e não adormece.
A mulher perguntas soltas
Lança a ver que é que acontece
E ele acaba a confessar:
Um dia após, de entregar
Tem uma soma ao vizinho
Jacob, pois lha deve, e não
A tem, nem nada a caminho.
A mulher ergue-se então,
Abre a janela e, sem dó,
Chama na noite: -”Jacob!”
Do outro lado da rua
Acende-se a luz então,
Abre-se a janela à Lua,
Jacob grita à negridão:
- ”Que foi, mulher? Que é que queres?”
- ”É melhor já tu saberes:
O David não vai dar
O teu dinheiro amanhã.”
Volta a janela a fechar,
Vai deitar-se até manhã
E a David há murmurado:
- ”O Jacob fica acordado.
Tu podes, pois, meu rapaz,
Tu podes dormir em paz.”
Africana
Um missionário cristão
(Conta uma história africana)
Repreendia a tradição
Dum soba de terra arcana
Por, entre crenças e haveres,
Ter sempre duas mulheres.
Um dia encontrou o soba
E logo este vem dizer:
- ”Descansa, acabou a boba,
Já só tenho uma mulher.”
- ”Ainda bem” - o missionário
Diz, palpando o seu rosário. -
“E da outra que fizeste?”
- ”Comi-a” - retruca o chefe.
- ”O quê?! Comeste-a?! Comeste?!”
- ”Comi” - torna o magarefe.
- ”Mas porquê?! (Ai que é que eu fiz!)”
- ”Porque era a mais tenra” - diz.
7
Ao Serão de Sábado
Acordo
Era um homem que de acordo
Estava sempre com todos,
“Senhor-sim” em todo o bordo.
Sendo fraqueza de modos,
Um amigo diz-lhe um dia,
Contra tão tola mania:
- ”Vê lá se tomas emenda!
Devias não dizer “sim”
A evitar toda a contenda,
Nem tudo o merece assim.”
- ”Um sim eu nem sempre digo” -
Retorquiu ele ao amigo.
- ”Achas tu!” - ”Tenho a certeza!
Quando a minha mulher “não”
Afirma em algo que preza,
Também “não” eu digo então.”
Nápoles
Em Nápoles, uma dona
Insulta, insulta o marido.
Que é um cretino é o que lhe abona,
Cretino enorme e sabido,
Dos cretinos é o cretino.
- ”És tanto, que eu desatino!” -
Grita-lhe ela, a briga em curso, -
“Pois, se houvera de cretinos
Por acaso algum concurso,
Não irias cantar hinos,
Ficarias em segundo.”
- ”E porquê?” - diz-lhe, jucundo,
O sujeito a tal destino.
- ”Ora, porque és um cretino!”
Além
Morre um homem, ao Além
Chega e dá com um amigo
Que uma jovem bela tem
Do colo dele ao abrigo.
- ”Olha-me esta!” - diz e pensa: -
”Ela é tua recompensa?”
- ”Não, não! Vês mal a sequela:
Eu sou o castigo dela!”
Conversa
Nasredim tagarelava
Com vários amigos dele.
A conversa em breve dava
Num sábio que a culto apele,
Mas que era muito emproado...
Nasredim não há gostado.
- ”Porque é que dele não gostas?”
- ”Não gosto porque ele é parvo.”
-”Parvo?! Perdes as apostas.
Quanto mais por ele escarvo,
Mais vejo que sofres mínguas:
Ele fala sete línguas!”
- ”Está bem, vejo ao que apelas,
Mas é parvo em todas elas.”
Áustria
Nos tempos da guerra fria,
Uma cortina de ferro
A Europa dividia,
O comunismo no aferro,
Sempre encerrando a fronteira,
Não vá escapar algo à joeira.
Mas um jovem checo obteve
Milagrosa permissão
Para, em Viena de Áustria, breve
Ter uns dias de verão.
Logo na primeira noite
Foi a um bordel que o acoite.
Uma madame arrogante
Dá uma olhadela à roupinha
Que é socialista o bastante
Perguntando-lhe ao que vinha:
- ”Como é que estás de dinheiro?”
- ”Cinquenta coroas cheiro.”
- ”Cinquenta coroas checas?!
Dá para te masturbares
Sob a ponte para as cuecas...”
E a porta, nos alizares,
Lhe fechou logo na cara.
Minutos após, repara
Que o jovem lá retornou.
Abre-lhe a porta outra vez.
A mulher lhe perguntou:
- ”Que vais querer tu, freguês?”
Responde ele, humildemente:
- ”Vim só pagar, no presente.”
Mobilizado
Nasredim mobilizado
Foi com a mais soldadesca.
Quando à batalha hão marchado.
Um soldado, cara fresca,
Que ao lado dele seguia,
Viu que a aljava ia vazia.
- ”Não tens flechas?” - perguntou.
- ”Não.” - ”E para a guerra vais
Sem flechas quando soou
A batalha? Com que sais
A combate?” - ”É que inimigo
Dispara flechas. Consigo
Apanhá-las. Vou servir-me
Delas para lhe atirar.”
- ”E se ele as não lança, firme?”
- ”Então hás-de reparar” -
Diz Nasredim, não se aterra -
“Que em tal caso não há guerra.”
Acampamento
Nasredim, no acampamento,
À noite, numa campanha,
Ouve os comparsas atento
A gabar muita façanha:
Este tinha derrubado,
Seis cavaleiros matado,
Apesar dos ferimentos,
Tinha o outro no seu rasto
Quinze mortos, uns portentos,
Um terceiro aumenta o pasto
E assim todos por diante,
Não há quem lhes passe avante.
- ”E tu?” - perguntou alguém.
- ”Eu cá cortei uma perna
A um guerreiro mais além,
Mas era a besta superna...”
- ”Não lhe cortaste a cabeça?”
- ”Tinham cortado tal peça.”
Cairo
No Cairo, em pleno mercado,
Lado a lado estão três lojas
Que vendem por atacado
Tudo igual quando as despojas.
A um egípcio pertencia
A da esquerda, a olhar da via;
A do meio, a um judeu;
A direita, a um libanês.
O egípcio lá conseguiu
Ser primeiro certa vez,
Nem sequer comera os caldos,
Mas na montra escreve: “Saldos”.
Chega o libanês mais tarde,
Vê o cartaz, escreve à entrada,
Sem dar parte de cobarde,
Em letras de mor fachada:
É “Liquidação Total”.
O judeu apareceu,
Viu então os dois cartazes,
Pensa um pouco e lá escreveu,
Em caracteres capazes,
Sobre a porta, a dar sinal,
Isto: “Entrada Principal.”
Judias
Se encontram duas judias
Que há que tempos se não vêem,
Aos abraços de alegrias
Como há muito já não têm.
- ”Então, Sara, novidades?”
- ”Ai, Raquel as necedades
Que tenho por te contar!
Para já, duas notícias
Terei, para começar,
Boa e má, mas sem malícias.”
- ”Qual a má?” - diz a Raquel,
Arrepiada logo a pele.
- ”Tu lembras-te do meu filho,
Do Samuel?” - ”Que idade tem?”
- ”Trinta e dois. E vê o sarilho:
Homossexual é também.”
- ”Oh desgraça das desgraças!
Em teu lugar como passas?
Mas diz-me lá então, ó Sara,
Tens uma notícia boa?
Na boa melhor repara,
Senão ficamos à toa.
Dela posso saber eu?”
- ”O namorado é judeu.”
Anos
A judia oferta ao filho
Que hoje faz dezassete anos
Duas gravatas de brilho,
Rubros e amarelos panos.
Logo o filho experimenta
A vermelha que o mais tenta.
Faz o nó, vê-se ao espelho
E a mãe logo, na sequela,
Vendo-o todo de vermelho:
- ”Que tens tu contra a amarela?”
Mães
Em cena, três mães judias
Falam de seus filhos ternos.
- ”Pois o meu, todos os dias
Me retira a meus infernos.
Busca-me cada semana,
Dá presentes, não se ufana...”
- ”O meu” - a segunda diz -
“Duas vezes por semana
Me visita mui feliz,
De pele que não engana
Me ofertou um bom casaco,
Todos os dias um naco
De belas flores me envia,
É mesmo um amor de filho.”
- ”Ora, o que é isso, hoje em dia?
O meu atou um cadilho:
Vai por semana três vezes
A um amigo com reveses
A quem pagará sem fim,
Só para falar de mim...”
Moisés
Um mestre-escola pergunta:
-”Quem é Moisés?” E um aluno
Logo a resposta lhe junta:
- ”Era o filho que coaduno
Com uma egípcia princesa,
É dela o filho que preza.”
- ”Não é, não” - diz o docente. -
“A mãe dele era judia.
Encontrou, benevolente,
A princcesa, certo dia,
O bebé numa cestinha,
Na correnteza maninha.”
E o outro, erguendo o nariz:
- ”Isso é o que a princesa diz...”
Casada
Uma judia casada
Há cerca dum ano ou mais
Vivia desesperada
Por ter atenções reais
Do esposo que só na mãe
Pensava que perto tem.
A mãe era a referência
E a esposa, apesar do esforço
Por distrair com veemência,
Vestir bem e sem remorso,
Cozinhar bem o que ganha,
Sente-se sempre uma estranha.
Por sua mãe vive o marido,
Vive para a mãe também.
A jovem não vê sentido,
Confessa a amigas que tem.
- ”Vê se tentas seduzi-lo,
Arma nossa, em grande estilo.
Calças umas meias pretas,
Bem como um preto espartilho,
Combinação, curvas, rectas,
Tudo de negro e com brilho,
A luzir e, então, deitada,
Aguardas dele a chegada.”
A esposa segue os conselhos
Das amigas, se prepara.
Do marido eis os artelhos,
Abre a porta, olha e dispara:
- ”De preto?! Coisa malsã
Aconteceu à mamã!”
Cincinnati
De Cincinnati a judia
Velha dirigiu-se um dia
De viagens a uma agência
Por um bilhete de urgência
Para Katmandu, Nepal,
Seu destino principal.
Quer da agência o director
Dissuadi-la, custa um ror,
Falou-lhe até da distância,
Das deslocações, com ânsia,
Mesmo do preço elevado
E tudo sem resultado.
Foi-se. Em Katmandu apanha
Transporte que a custo ganha
Um mosteiro lá bem alto,
Da montanha num ressalto.
E, no fim, ainda teve
A caminhada na neve.
Um guru muito famoso
Era do mosteiro o gozo,
Até previa o futuro,
Em milagres tinha apuro,
Palavras de compaixão
Que a vida iluminarão.
A judia americana
Quer-lhe a presença com gana.
Espera pacientemente
Na mole imensa de gente.
Pauzinhos de incenso queimam
Os que numa audição teimam.
Quando ao fim alguém a leva
Por um corredor de treva
Onde os monges, sem engano,
Salmodeiam tibetano,
Dizem-lhe que só uma frase
Lhe pode falar, de base.
Ela aceitou, descuidada,
Fique a turba descansada.
Levaram-na então diante
Do guru, estátua infante.
E, de olhos semi-cerrados,
Tira-se ela de cuidados:
-”Basta, Salomão! Agora
Vamo-nos daqui embora!”
Cegonha
A cegonha é uma ave impura,
Numa tradição judaica.
Mas, hassida, o afecto a cura,
Ama os seus, nada prosaica.
- ”Como é que se explica” - um dia
Pergunta uma mãe judia -
“Que se diga que a cegonha
Ama os seus e, no entanto, ela
Se conte dentre a vergonha
De aves impuras na tela?”
Diz o rabi, mãos aos céus:
- ”Porque ela só ama os seus.”
Herança
Um judeu lá da Polónia
Recebe de herança casa
Rodeada, com cerimónia,
Dum prado com que bem casa.
Para imitar os vizinhos,
Mesmo sem ver os caminhos
Nada sendo camponês,
Começa comprando um toiro
Que no prado põe: é a rês.
À feira, com algum oiro,
De Minsk foi comprar vaca
Que no prado pôs de estaca.
O toiro, mal viu, se atira
À vaca, mas ela o evita
E foge, se o tem na mira.
Vezes sem conta, igual fita,
Ele sempre a persegui-la
Sem a apanhar à má fila.
O homem fala ao rabino,
Desistindo de juntá-los,
Conta-lhe o caso mofino:
- ”Mal das patas ouve estalos,
Se ele investe da direita,
Logo a vaca à esquerda é atreita,
Mas se é da esquerda que vem,
Pela direita se escapa.”
O rabino então se atém
Longo tempo a pôr a capa
E, por fim, sereno, diz:
- ”Compraste a vaca, infeliz,
Em Minsk onde tens o tino?”
- ”Como vieste a saber?!”
E responde-lhe o rabino:
- ”De Minsk é a minha mulher.”
Israel
De Israel Chefe de Estado,
Ben Gurion pelo Mar morto
Caminhava, encabulado,
Quando uma garrafa, absorto,
Pousada avista na areia,
Dum velho mistério cheia.
Nela pegou, abre-a e jorra
De lá um fumo que se eleva
Para o céu, forma uma gorra,
Depois um génio de treva,
Enquanto em voz de trovão
A bem Gurion diz então:
- ”Livras-me dum cativeiro.
Formula, pois, um desejo,
Concedo-to por inteiro..”
- ”Só não vejo algum ensejo
De haver a paz verdadeira
Com povos à nossa beira.”
Pensa o génio no problema
Que lhe era posto e, por fim:
- ”Perdoa, mas esse tema
Excede quanto haja em mim.
Formula um outro desejo,
Que eu concedo-to, prevejo.”
- ”Faz com que a minha mulher
O prazer da felação
Me venha à noite a fazer,
Quando eu chegar, ao serão.”
O génio fica a pensar
E acabou por perguntar:
- ”O teu desejo, afinal,
O primeiro, fora qual?”
Cão
No cinema um homem fica
Sentado ao lado dum cão.
Do outro lado pontifica
Deste o dono, na sessão.
O cão segue o filme inteiro
Com interesse cimeiro,
Ele ri quando é de rir,
Chora quando é comovente.
No fim é vê-lo a aplaudir
Com duas patas da frente.
O homem se inclina então
Dizendo ao dono do cão:
- ”O seu cão é formidável!
Como ele o filme seguiu
E apreciou! Admirável!”
- ”Pois, o espanto” - o dono anuiu -
“É que do livro, de entrada,
Ele não gostava nada.”
Maesh Das
Traça pelo chão, a giz,
Uma linha um cortesão.
A Maesh Das lhe diz
Que encurte essa linha então
Sem a tocar e apagar.
Limita-se ele a traçar
Uma linha mais comprida
Junto à primeira, em seguida.
- Se em tal tempo Einstein vivera
Que prazer isto lhe dera!
País de Gales
Nos finais da Idade Média
Houve no País de Gales,
Na selva de caça nédia,
Uma fonte em fundos vales
Tal que o que a mira mudara
De imediato ali de cara.
Às vezes nem davam conta,
Seguiam pela floresta
Tendo a sede morto à tonta,
Só que então já ninguém resta
Que os possa reconhecer.
Vinham após então ver
Que tinham perdido o aspecto:
A fonte havia roubado
Olhos, orelhas, o recto
Cabelo, o nariz talhado
E por outros os trocara
Agora na nova cara.
O fenómeno durou
Por cerca de dois decénios,
Muito tempo perpassou
Até notar-se-lhe os génios,
Tanto mais que inofensivas
Há por lá nascentes vivas.
Quando foi assinalada,
Um número muito grande
De gente desengraçada
Lá foi, à espera que mande
Trocar-lhe pela beleza
A feiura que despreza.
Tanto pode acontecer
Como acontece o contrário:
Um homem mirou-se, a ver,
E o que viu foi um sudário,
A cara virou caveira,
Os dentes alvos à beira.
O dono de tal floresta
Mandou chamar os doutores,
Teólogos, quem mais presta...
Dissertam, graves, penhores
Compram com mil orações
E vão-se sem soluções.
Nenhum deles se debruça
Sobre tal água que pode
Mostrar o inferno que embuça.
A aparência lhes acode
Como bem satisfatória,
Doutra não querem a glória.
Há curas miraculosas
Mas crassos também fracassos.
Recomendam-se-lhe as glosas
Ou proíbem-se os espaços?
A fonte detém caprichos
Conforme o humor de seus nichos.
Padres fazem exorcismos,
Invocam lugares santos...
Tudo em vão, ante os abismos
Donde corre a fonte em prantos.
Vem um dia um saltimbanco,
Veste andrajos, mas de branco,
Vende poções milagrosas,
Poemas recita escuros,
Anedotas escabrosas,
A saltitar pelos muros
E que ninguém conhecia,
Nem sequer donde viria.
Antes de se debruçar
Por sobre as águas da fonte,
Lembrou-se de afivelar
Uma máscara que conte
Com nariz, lábios espessos,
Dentes pretos, podres gessos...
Debruçou-se sem temor
Sobre as águas, levantou-se:
Tem a máscara o palor
Dum Apolo, embelezou-se.
Quanto à cara do bufão,
Por baixo, nem beliscão.
O homem jogou a caraça
Ao regato que a levou,
Vai-se embora, achando graça,
À gargalhada abalou.
Perdeu a fonte o poder,
Já ninguém mais a vai ver.
Tuaregues
As saarianas lendas,
Entre os tuaregues mormente,
Narram que, por entre as tendas,
Apareceu, de repente,
Um estrangeiro à ventura
Que, pela areia insegura,
Quer ir só, com um camelo,
Mais algumas provisões,
Um odre de água com selo,
Mapa, bússula, ilusões.
Seguro de seu caminho,
Dos poços quer-se adivinho.
Qualquer conselho prudente
Despreza e, certa manhã,
Parte à sorte, para a frente.
No princípio, com afã,
Assaz tudo corre bem,
Solidão nunca o detém.
Porém, ao terceiro dia,
Começa a preocupar-se,
Duna a rocha sucedia
Sem que horizonte o disfarce.
Não parece progredir:
“Ando às voltas sem sair?”
Ao quarto dia não tinha
Víveres e no cantil
O fundo já se adivinha
E a ração nem vale um til.
No quinto dia, as imagens
São vertigens e miragens.
Sentiu então, de repente,
Atrás a respiração
De alguém posto, ali presente,
Do camelo na armação.
Voltou-se, sem crer na intriga,
E ali estava a rapariga
Atrás dele bem sentada,
Sorridente, mui morena,
Véstia de brancura armada,
Pés descalços, que lhe acena.
- ”Quem és tu?” - pergunta ele.
- ”Que importa?” - a questão repele. -
“Não te quero incomodar.”
- ”Nada. Viajas sozinha?”
- ”Sempre só. Pode levar
Teu camelo os dois em linha.
Eu sei disto e sou leveira.”
- ”Teu nome?” - já se ele abeira.
- ”Nunca costumo dizer
O meu nome, vai andando.
Daqui a pouco vais ver
Quem eu sou, adivinhando.”
A marcha o homem prossegue
Que mais deserto lhe agregue.
O camelo parecia
Pouco sensível à carga
Suplementar que trazia.
A passada desembarga
Parando de vez em quando
Comendo ervas que há secando.
Ao homem tolda-se a vista,
Tosse, cospe, procurava
As referências da lista
Em redor. Nada acertava.
Admite, em palavras meias,
Que se perdeu nas areias.
- ”Tu bem vês que estou perdido
E cantas despreocupada.
Não tens alforge provido?”
- ”Não, não preciso de nada.”
- ”Diz-me quem és, por favor,
Que eu nada tenho. É um horror!”
- ”Agora posso dizer.
Tu não me reconheceste?
Sou a sede. De beber
Se um viajante não se ateste,
Quando já não tiver nada,
Eu faço a minha chegada,
Dou-lhe minha companhia,
Tal é sempre o meu papel.”
- ”Mas és viva?! Quem diria?!”
- ”Aquele a quem seca a pele
Poderá dizer que sim:
Sou dos vivos, mesmo assim...”
- ”Podes viver sem beber?”
- ”A sede não bebe, dá
De beber ânsia a quenquer,
Constante lembrando-a está.
Porque havia de beber?
Também a fome não come,
Nem frio fogo há que tome.”
Garganta de areia e sal
Já tolhia lentamente
O viajante terminal,
Já compreensão nem sente...
...Vê só a moça se escapando
E o camelo tasquinhando.
Guatemala
Diz a antiga crença maia
De aldeias da Guatemala
Que, à morte, o corpo desmaia,
Desintegra-se na vala,
A nossa sombra, porém,
Continua terra além.
E, sobretudo de noite,
Vagueia meia perdida,
Meia incônscia do que a acoite,
De ameaças perseguida:
De sombras um caçador
Pode vir delas dispor.
Tais caçadores ferozes
Às sombras recalcitrantes
Encurralam-nas, atrozes,
Contra a vontade que hão dantes
Levam a presa forçada
Lá para a terra do nada.
Mas neste mundo há um lugar,
Da Guatemala num monte,
Onde as sombras encontrar
Refúgio podem na fonte:
É gruta profunda, escura,
A quilómetros de altura.
Quando qualquer corpo morre
Em qualquer lugar da terra,
Separa-se a sombra e corre,
Buscando a gruta na serra.
Tal qual ave migratória,
Segue indícios de memória.
Ao longo deste caminho
Que pode demorar anos,
O caçador adivinho
Usa armadilhas e arcanos
E muitas vezes consegue:
Captura então quem persegue.
Umas chegam a bom porto,
Juntam-se às que se escaparam.
Montanhês que, por desporto,
Trepe à gruta que visaram
Ouve um roçagar nos pegos,
Como milhões de morcegos.
Sombra às sombras se amontoa
Naquele lugar do mundo.
Há tempo ou tudo anda à toa?
É um eterno antro infecundo,
Purgatório de verdade,
A pausa da eternidade.
Na mais vulgar armadilha,
O caçador escurece
O Sol que pelo céu brilha
Antes que a noite aparece,
Leva as sombras a pensar
Que podem sair, passear...
Uma vez um caçador,
Entre os ferozes feroz,
Duma africana o fulgor
Cobiçou de amor atroz.
Logrou, com um sortilégio,
Tirá-la ao refúgio régio
Quando o sol alto escandia.
Ela aproveita a paragem
Para se lavar na ria.
Fica nua nesta viagem.
O caçador, deslumbrado,
A fera em si põe de lado.
As regras viola do Além,
Tratando então de a salvar.
Roupas berrantes convêm,
Chega-lhe o rosto a velar,
Levou-a, no tempo certo,
Para um canto do deserto.
É mulher toda velada
No Iémen, ruas de Sana,
Sombra como as mais na estrada
Que o véu cobre, não engana.
Convence a sombra ao raptor
De a qualquer perseguidor
Escaparem juntamente.
O mar então atravessam
Da caçada sempre à frente,
Escapam aos que aparecem,
Na corrida sem escala
Alcançam a Guatemala.
Chegados perto da gruta,
Está o caçador cansado,
A sombra já não disputa,
Quer um canto sossegado:
Para a gruta ela fugiu
E ele atrás logo a seguiu.
Roménia
Em Bukovice, Roménia,
Contam muitos viajantes,
Com atestado e com vénia,
Que cruzaram, hesitantes,
Uma aldeia sem fim que há
Em terras de algures lá.
São casas tradicionais
Dum lado e doutro da estrada,
Com uns motivos florais
Pela madeira pintada.
Por trás há um quintal plantado,
Fruteiras, tudo arroteado.
De carruagem ou a pé,
De automóvel hoje em dia,
Na aldeia tomamos pé
Como em qualquer se faria.
Avistam-se aqui, além,
Habitantes, sempre alguém.
Passados alguns minutos,
O viajante repara
Que a aldeia, além dos produtos,
Tem uma lonjura rara,
Alonga-se sem parar,
Parece nunca acabar.
Para cruzá-la há turistas
Que demoram mais dum mês.
Mesmo os automobilistas,
Quando ao fim chegam de vez,
Reparam que a luz do dia
Foi-se e a noite se anuncia.
Muitos param, admirados,
A pedir informações.
Porém, de todos os lados,
Sorriem a tais tenções
E, com simpáticos gestos,
Não falam de seus aprestos.
Muitos buscam encontrar
Nome e localização
De aldeia tão singular
Nos mapas da região.
Ninguém identificá-la
Logrou em nenhuma escala.
Há testemunhos aos centos
De que, num ponto da aldeia,
De “déjà vu” sentimentos
Fica-nos a mente cheia.
Os viajantes reconhecem
Casas que lhes aparecem,
Tal se a aldeia recomeça
Várias vezes ou sucede
Uma a outra, peça a peça,
Sempre igual à que a antecede.
Fotografias tiradas
Saem sempre desfocadas.
Mais estranho é que nalgumas
Só vejamos terra arada,
Árvores, casas nenhumas...
Muita comissão nomeada
Foi para ver do mistério:
Nenhuma o resolve a sério.
Os últimos escolheram
Fugir de vez da Europa.
Um não fez o que fizeram
E a estrela sob esta copa
É que acabou internado
Numa clínica, acabado.
Por fim, muitos, concordantes,
Dizem que a aldeia sem fim
Não se encontra como dantes
No mesmo lugar assim,
Que, ao sabor das estações,
Se desloca entre nações:
Um a viu em Bukovice,
Outro, porém, na Moldávia,
Na Transilvânia alguém disse
Que a viu dum cesto de gávea
E um, enfim, até veria
Tal aldeia em meio à Hungria...
Parvati
A jovem adoradora
De Parvati, par de Shiva,
Na Índia proposta fora
Para o serviço da diva
Num dos templos consagrados.
Dos deuses no panteão dados
Punha Parvati acima,
O tempo dava à oração,
Cuida de altares, se arrima
Às estátuas desde o chão,
A colher e arranjar flores,
Varrendo o templo de odores,
Distribui pão aos mendigos,
Observa todo o ritual.
Nas festas, sai dos abrigos
Dos bailados ao sinal,
Junta-se às mais bailarinas,
É Ambalika em nome e sinas.
Ao fazer vinte e três anos,
Conheceu lá no recinto
Um peregrino. Fez danos
Seu olhar onde pressinto
Das profundezas o brilho:
Foi da paixão o rastilho.
Ambalika bem lutou
Contra a emoção que sentia
Mas depressa adivinhou
Que o rapaz a compartia.
O jovem persuadiu
E Ambalika consentiu.
Antes da noite da fuga
Dirige à deusa a oração,
Que entenda porque madruga,
Perdoe-lhe o coração.
Jeito arruma clandestino,
Vai ter com o peregrino.
Viveram juntos seis anos,
Têm dois filhos e a usura
Da vida provocou danos,
Vai matando com secura.
A atracção já se esboroa
E ele vai-se embora à toa.
Sozinha com os dois filhos
Ambalika enfrenta a vida,
Do campo lavra os sarilhos,
Perde um filho de seguida,
Outro homem que a conquistou
Meses após a largou,
Roubou-lhe o pouco dinheiro
Que ela lograra poupar...
A vida inscreveu-lhe inteiro
O inferno que tem vulgar.
Decidiu voltar então
Ao templo deixado em vão.
Quando ao templo após chegou,
Já tantos anos mais tarde,
Algo estranho constatou:
Todos, sem qualquer alarde,
Brâmanes e sacerdotes
A acolhem com os seus dotes,
Como se a tivessdem visto
Somente umas horas antes.
Saúdam-na, tal previsto,
Chamam-lhe o nome, constantes.
Ausência ninguém a sente,
Tudo é como antigamente.
Ambalika não pergunta
Mas a deusa interrogou.
Parvati ao sonho junta
Uma apsará que falou:
-”Parvati bem conhecia
Que voltarias um dia.
Assumiu tua aparência
E cumpriu tuas funções.
Varreu, perfumou de essência,
Engrinaldou os balcões,
Dançou, acolheu com hinos
E orientou peregrinos.
Ninguém da substituição
Se pudera aperceber.
Retomas tua função,
Ela, a sua e a correr
Tudo, enfim, ficará bem.”
Ambalika acorda e vem
O milagre agradecer
Em segredo realizado.
Retoma o que haja a fazer.
Porém, ao varrer um lado
Duma das salas a cargo
Notou que um tapete largo,
Num recanto mais escuro,
Parece inchado, uma bossa
Grande ali subia em muro.
Levanta o tapete a moça
E vê que há muito que alguém,
Por preguiça ou por desdém,
Se limita a empurrar lixo
Por baixo do tal tapete
Que ali só já cria bicho,
Em lugar, como compete,
De com a pá o apanhar
E para fora o levar.
De cólera então fremente,
Pousa Ambalika a vassoira,
Despe a bata competente,
Sem olhar quem a desdoira
Abandonou, com a ira,
De vez templos de mentira.
África
Havia duas aldeias
Frente a frente, junto a um rio,
Em África, como ameias
Que se olham em desafio.
Os remoinhos constantes
Impedem os habitantes
De fazer a travessia.
Crocodilos e serpentes
Venenosas de vigia,
Maus espíritos presentes
Aumentam o isolamento
De quem ali toma assento.
Quando algum audacioso
Tenta dum ao outro lado
Ir do rio tenebroso,
A verdade é que voltado
Nem sequer houve jamais
Nenhum de partida ao cais.
A aldeia de Ogadaú
Olha ao longe Uadagô,
Aceitam, pois, o tabu,
Do terreiro vêem pó,
Fumo a subir das cubatas,
Do tal rio além das pratas.
Uma ou outra silhueta,
Barcos ao longo do rio,
Luzeiros na noite preta
E das relações o fio
Ficava, ao fim, por aí.
De Ogadaú, Bakari
De muito novo sentiu
O fascínio duma aldeia
Que nunca alguém atingiu,
Horizonte a braça e meia,
E deu consigo a sonhar
I-la um dia visitar.
Aos dezoito anos chegado,
Decidiu que é a sua vez
De desafiar o fado,
Cortar o rio através.
Muito cuidadosamente
Prepara o que tem em mente.
De noite cava a piroga,
Leva uma pagaia a mais,
Uma catana que advoga
Contra ataques eventuais,
Bem como alguns amuletos
Contra espíritos secretos.
Treinou o melhor que pôde
Na margem onde habitava,
Aos remoinhos acode
Onde o perigo rondava,
Adquire vera destreza
Nestes domínios que preza.
Ao sentir-se preparado,
De manhã, rompendo o dia,
Saiu do lar, açodado,
Lança-se ao que o atraía
E, para sua surpresa,
Foi a travessia ilesa.
Os rápidos e correntes
São menos assustadores
Que quando os vêem as gentes
Da margem sonhando horrores.
Houve umas sacudidelas
Que dominou sem sequelas,
Desembarca do outro lado,
Puxa a piroga na areia,
Caminha para o povoado:
É-lhe familiar a aldeia.
A mesma vegetação,
Iguais cubatas no chão,
Iguais árvores e terra,
As mesmas redes de pesca
Ao sol, sem sinais de guerra,
- É uma magia grotesca!
Os aldeões a sair
Começam, ao campo a ir,
Enquanto a mulher sacode
A esteira à porta de casa.
Bakari vê que então pode
Conhecer do lar a brasa:
Tais habitantes maninhos
São todos os seus vizinhos.
Um cão de pata partida
Que havia na sua aldeia
Ali vive a mesma vida.
Virou-se, deu volta e meia:
Será que ele se enganou
E ao mesmo lado voltou?
Um habitante da aldeia
Cumprimentou-o ao passar
Com seu nome em boca cheia.
Conhece-o bem, era o par
Mais antigo do pai dele.
Arrepia-se-lhe a pele.
Cada vez mais espantado,
Sente-se mesmo à vontade
Na ruela, em todo o lado.
É a vez primeira, é verdade,
Mas Bakari, de repente,
Entra em casa de sua gente,
Na que tinha abandonado
Umas poucas horas antes.
Hesitou em ter entrado,
Que a mãe viu, mãos bem constantes,
A varrer o chão em frente
E que o olhou, sorridente.
Perguntou-lhe donde vinha.
Bakari, num gesto vago,
Olha o rio da adivinha.
Para beber de água um trago
Entra na cubata então.
Dá com seu bebé chorão,
Sua esposa a dar-lhe o peito.
Não parece surpreendida
De o homem ver deste jeito.
Foi quem lhe trouxe a bebida.
O copo de água sorvido,
Ele adormece aturdido.
Bakari fica na aldeia
Que é de nome Uadagô,
Retoma o labor, semeia
Campos de que sabe o pó.
Reencontrou o seu cão,
As alfaias, dele o chão.
Está mais velho, há momentos
Em que pára, imóvel fica,
Os olhos presa dos ventos
Da aldeia que o mistifica.
Voltar lá por vezes pensa...
Mas o risco o rio adensa.
Sudão
No Sudão, as caravanas
Perdidas aparecer
Vêem, dentre as secas canas,
Quando esgotamento houver,
Uma enorme fortaleza,
A seco, em pedra e beleza.
Basta então bater à porta
Para abrir-se hospitaleira
E a entrar como que exorta.
Dentro, de alguma maneira,
Os viajantes fatigados
São logo retemperados,
Há uma fonte de água fresca,
Fruta, carne de carneiro,
Leite, chá, do rio pesca,
Tâmaras, figos – viveiro
De coxins, tapetes, loiças
Onde noite além retoiças.
Um único pormenor
Preocupa aos que o elegem
Para fugir do calor
Para os repousos que o regem:
Faltam quaisquer animais
E, de humanos, nem sinais.
Não se encontra castelão
Nem criado de servir,
Nem mulher vinda ao serão,
Nem criança a brincar, rir...
Nem sequer um cão se apanha,
Nem um lagarto ou aranha.
O local parece ter
Sido por um batalhão
Preparado para ser
De fantasmas um desvão:
Nem sombra, sopro ou ruído,
Nem de música um gemido.
E, quando os caravaneiros
Acordam de madrugada,
Estão no deserto inteiros,
De arbustos a cama armada.
De tapetes, vitualhas,
Nem sinal, nem de muralhas...
Contudo, tempos mais tarde,
Outros grupos noutros cantos
Contam com algum alarde
Ter vivido, em meio a espantos,
No desespero da viagem,
Aquela mesma miragem.
Conto
Ao avô que muito preza
A criança diz, cordata:
- ”Porque é que do conto a reza
Em 'era uma vez' sempre ata?”
- ”Para eu ter a certeza
De não me enganar na data.”
Majun
Majun, o louco de amor,
Dum dervixe é questionado:
- ”Que idade tens tu, senhor?”
- ”Mais de mil hei já contado...”
- ”Que dizes?! Estás mais louco
Do que antes quando o eras pouco?”
- ”Estes mil anos não foram
Mais do que um sopro de nada.
Mas nesse sopro é que moram
Traços do rosto da amada:
Vejo Leila que perpassa...
Podes entender tal graça?”
Idade Média
Na Idade Média europeia
Partiu um monge à procura,
A manhã nem ia meia,
De plantas que davam cura,
Na floresta do lugar.
De repente ouve cantar
Um pássaro encantador
De canto maravilhoso.
Um momento, com fervor,
Ouve, arrebatado em gozo,
Depois retorna ao convento.
Vê que é o mesmo monumento,
Mas ele não reconhece
O irmão porteiro que atende.
O arvoredo em redor tece
Uma altura que surpreende
E, por fim, a sua cela
Outro monge habita nela.
Pretende, inquieto, ir falar
Com o superior da casa:
Era um outro, singular,
Não conhece a fronte rasa,
Nem o outro mostra saber
Quem é que ele venha a ser.
Compreendeu então que o canto
O teria enfeitiçado:
No feitiço desse encanto
Cem anos terão passado!
Volta então para a floresta
- Mas canto nenhum já resta.
Velho
Retorna um velho duma longa viagem,
Sai da estação e a pé regressa à aldeia,
Atravessando da floresta a aragem.
Quando julgava andar sozinho, ameia
Um outro homem e da mesma idade,
Caminha ao lado e mui silente em frente.
Cumprimentaram, num sorrir que agrade,
Não se conhecem, conclui ele, ausente.
Finda uma hora de caminho, o velho,
Cansado, viu que o outro, enfim, havia
Ficado jovem, a mexer o artelho
Bem mais depressa do que o que antes ia.
Toma de avanço metros mais de dez,
Volta-se após para esperar por ele.
Tal não o turba: -”Eu me enganei talvez...”
Ambos avançam, a apressar impele
O tempo curto. Só que o velho viu
Que o companheiro está na meia idade,
Caminha agora sem qualquer desvio
Bem mais do que ele, sem que nada o enfade.
Como enganar-se tanto já podia
Na idade dele? Não entende, não.
Passa uma hora e o velho então veria
Algo de estranho a lhe ocorrer à mão:
Detém-se o outro um pouco além, se volta,
Distintamente ele deveio jovem,
Além dos vinte pouco mais e, à solta,
Os gestos dele juvenis se movem.
Não se tratava de nenhum error,
Nenhuma dúvida já tem de tal.
- ”Quem és?” - pergunta com algum temor. -
“Entre nós dois que a correr anda mal?”
Responde o outro só sorrindo e avança.
No mais cerrado da floresta estavam,
O companheiro às vezes não alcança,
Reaparece longe donde andavam.
Seriam vários? Perturbar-me querem?
Mas porque haviam de querer? “Que fiz?” -
Tenta perguntar, nada mais lhe auferem
E o par caminha tal qual um petiz,
Adolescente, quando muito, agora.
- ”Não corras tanto, que eu estou cansado,
Por mim espera, que isto a mim demora.”
E, paciente, o outro espera ao lado,
Durante um tempo irão no mesmo passo,
Depois se afasta e a aguardá-lo torna,
Senta-se às vezes, após mais espaço.
- ”Mas que me queres? Andas nisto à jorna?
Trazes amigos confundindo um velho?”
E o companheiro só um sorriso tem.
É uma criança de tomar conselho,
De dez anos, cinco, já nem anda bem.
É que aos três anos lentamente vai,
É-lhe difícil em floresta andar,
O velho guia, ajuda quando cai,
Pega-lhe ao colo quando urgir saltar.
O mais estranho é que tudo é normal,
Sem saber como, recupera forças.
Mas de repente, sem qualquer sinal,
Quando entre os troncos passeavam corças,
Desaparece o bebé dentre o mato.
O velho o chama, o procurou em vão.
Desamparado, retomou, pacato,
A caminhada da floresta em chão.
Pouco depois outro barulho ouviu,
Como de passos, ali perto a andar.
Vira a cabeça e uma jovem viu,
Grávida andando de si quase a par.
Com uma mão o ventre inchado apoia
E num cajado apoia os lentos passos.
- ”Como te chamas?” - antevê tramóia
O velho, olhando-a com seus olhos lassos.
Por mais perguntas que fizer, a moça
Não lhe responde, fica a olhar, sorri.
Ao caminhar, então do ventre a mossa
Diminui lenta e o passo é leve ali.
- ”Que me acontece?” - o velho a si pergunta.
Um pouco após, de gravidez cintura
Desaparece e o velho as forças junta,
Revitaliza, perdeu anos, jura.
Caminha atrás, começa a achá-la bela,
Um sentimento há muito já perdido.
- ”Vamos falar” - diz - “um bocado” - a ela.
- ”Quase a chegar. Há que tomar sentido.” -
Até que enfim que já lhe ouvira a fala.
Vai-a seguindo, já não via mais
Que seu vestido de amarelo em gala.
A selva acaba, um rio dá sinais,
Macacos saltam como as aves cantam.
A rapariga pára junto às águas,
Solta o vestido, juvenis encantam
As curvas suas de esquecerem mágoas.
O homem cuida que jamais tal vira,
Um sangue novo se agita nas veias,
Do corpo a idade já de si saíra,
Todo o cansaço, da fadiga as teias...
Quis perguntar à rapariga ali,
Raio de sol em frente ao rio manso,
Mas ela tempo não tem mais em si
E diz-lhe então, com ancestral descanso:
- ”Não foi aqui que combinámos nós
Vir encontrar-nos em segredo, amor?”
Nesse momento reconhece-a. Após,
Braços abertos, tudo é só fulgor.
Mesopotâmia
Foi no século XIV,
Em plena Mesopotâmia,
Que mui alto às turbas orce
O custo de certa infâmia.
Hoje um estranho acrimónia
Daquilo olha em cerimónia.
Numa praça, seminus,
Homens o corpo fustigam,
Látegos de coiros crus
Com ferros que se lhes ligam.
Jorra o sangue e cai no chão.
Lúgubres, em cantochão,
Em redor batem no peito
Assistentes em lamentos.
Choram crianças em preito,
Da desolação aos ventos,
Tal se de ocorrer findara
O que em dor os arrasara.
O estranho pergunta a um velho
Que é que se passa, afinal.
- ”Dobramos nosso joelho
Ao passamento final
Do nosso emir Hossein
Que à vida o rumo define.”
- ”Quem foi?” - ”Não sabes?!” - ”Eu não...”
- Ӄ o fundador do xiismo,
O modelo da nação,
Quem nos dá lições de abismo.
Mas foi traído e deixado,
Em batalha se há finado.”
- ”E quando é que ele morreu?”
- ”Terá sido há pouco mais
De quatro, ao que contei eu,
Quatro séculos atrás.”
-”Só agora” - diz o outro a rir -
É que o estão a carpir?!”
Salvatore
Aos vinte anos, Salvatore
Deixa a povoação lenta
Onde nada é de supor
Que aconteça e implementa,
Negociando flor de dália,
Nova vida pela Austrália.
Fica lá quatro decénios.
Depois, com a vida feita,
Arrumados mil convénios,
Volta à terra, anciã colheita,
A reviver trigo e joio,
Num ronceirão dum comboio.
Ao pôr o pé na estação,
Questiona se um velho amigo
O irá conhecer ou não,
Se alguém quer relato antigo
De aventuras solitárias
Por longínquas terras várias...
Ao se apear, logo vê
Um homenzinho curvado,
Funcionário. Nele lê
Que é Giovanni, o do lado
Colega em turma da escola.
Acena e ali se lhe cola,
Apontando, a mão tremente,
Para a sua própria cara.
Olha-o Giovanni, indulgente,
E, sem surpresa, declara:
- ”Olá, Salvatore! Agora
Por aqui? Quê, vais-te embora?!”
Iraniano
O espanhol e o iraniano
Conversam da relação
Com o tempo: traz-nos dano
De horários com precisão,
De acção com imperativo,
Por vezes sem ter motivo.
- ”De 'amanhã' a noção temos
Que cómoda nos é bem.
Entre vós algo veremos
Semelhante a tal também?” -
Comentava o espanhol,
Já de mente muito mole.
- ”Temos” - diz o iraniano -
“Temos 'oxalá', Deus queira.
Mas creio que, a evitar dano,
Vendo-a por minha joeira,
No que respeita a premência,
Não tem nunca a vossa urgência.”
Émulo
Pergunta o émulo ao mestre
Que é que afinal é verdade.
Para que nela se adestre
Diz o mestre: - ”Ah, mocidade!
Traz-me de água uma bacia,
Mete a cabeça em tal pia.”
Feito isto, com toda a força
Segura-lha dentro e funda.
Enquanto ele se contorça,
Mantém-no, que o ar abunda.
Se rareiam bolhas de ar,
Deixa o mestre de empurrar.
Quando, quase sufocado,
Retira a cabeça de água,
Diz-lhe o mestre, ponderado:
- ”A verdade, é certo, trago-a.
Porém, só se a desejares
Como quando, ao sufocares,
Desejaste ar ao teu pé,
Saberás o que ela é.”
Religiões
De diversas religiões
Eminências soberanas
Conversam, nalguns serões,
Sobre estas crenças humanas.
O budista celebrou
Paz íntima que entoou,
A renúncia, a compaixão,
A anulação do desejo.
E os mais dizem , com unção:
- ”Que maravilhoso ensejo!
Se funciona para si,
É fantástico, bem vi.”
O hinduísta ciclos de vida
Traz por ele à colação,
Subtil trama de subida.
E os mais dizem com unção:
- ”Maravilha! Opera em si?
É fantástico, bem vi.”
O católico Jesus
Diz que traz a redenção
No sacrifício da cruz.
E os mais dizem com unção:
- ”Maravilha! Opera em si?
É fantástico, bem vi.”
Só que ele fica furioso:
- ”Mas aqui não é questão
De em mim obrar o amoroso
Deus, de todos coração!
É a verdade universal:
Se não credes, fareis mal!”
E os outros, todos em coro:
- Ӄ mesmo maravilhoso!
Se em si opera, o que ignoro,
É fantástico e que gozo!”
Rei
Um rei sincero buscava
Justiça e verdade e via
Que só lisonja imperava,
Corrupção, miséria fria.
Ouvira falar dum sábio,
Conselho quis de seu lábio.
- ”Como é que se pode o homem
Tornar melhor algum dia?”
- ”Leis não bastam, que o consomem,
Clareza e paz são o guia.
Tem de obrar com compaixão,
De ignorar-se. E aos outros, nâo.”
- ”Como, porém, consegui-lo?”
- ”Só com verdade lá chega.”
- ”Como no vero o perfilo?”
- ”Manda o que o vero congrega.”
Irritado, manda embora
O palavroso na hora.
Para ele, o que é verdade
Há-de estar de certo lado
E do outro, a falsidade,
O erro a ser extirpado.
O que mais apreciava
É o que é simples e bastava.
Faz uma forca instalar
Logo da cidade à entrada.
- ”Quenquer que deseje entrar
À pergunta formulada
A verdade há-de dizer
Ou há-de enforcado ser.”
Ora, alguns dias mais tarde,
É o sábio que se apresenta:
- ”Onde vais?” - diz, sem alarde,
O chefe, mal nele atenta.
- ”Para a forca vou, aquela,
Por que me pendures nela,”
- ”No que tu dizes não creio” -
Diz, de espanto, o comandanta.
- ”Enforca-me sem receio,
Se menti” - diz o impetrante.
- ”Contudo, se eu te enforcar,
Falas verdade, em lugar.”
- ”É verdade” - diz o sábio.
- ”Então não te enforcaria
Por me mentir o teu lábio
Mas porque a verdade envia.
Isto é, porém, o contrário
Das instruções ao sumário.”
- ”É verdade” - repetiu
O sábio segunda vez.
Logo o capitão correu
Ao palácio, que talvez
O rei encontre saída...
- Mas nem sombra de medida!
Universo
Ao ser criado o Universo,
Imenso e respandecente,
Tinha um segredo no verso
Cujo saber imprudente
Perigoso é tanto e agudo
Que pode destruir tudo:
Aniquila-se no instante
O que passara a existir.
Escondê-lo era importante
O mais que se conseguir.
Ora, os deuses indianos
Prestam a tal seus arcanos.
Shiva, o grão destruidor,
Acredita que é num poço,
Bem junto ao templo maior:
Quem buscaria em tal fosso?
Mas os mais não concordaram:
Sempre em redor caminmharam
Infinitos peregrinos,
Pode um cair por descuido...
Krishna quer outros destinos:
- ”Na manteiga de que eu cuido.”
Pode sempre derreter
E o segredo se perder,
Foi a opinião dos mais.
A ideia foi rejeitada.
A Jagannath, o das reais
Fúrias temíveis, agrada
Na sua estátua escondê-lo:
De terror, quem quer sabê-lo?
Mas um deus a envelhecer,
Com a estátua a esboroar-se,
Se ela se quebra, quenquer
Ao segredo pode alçar-se.
Ganesh, o deus-elefante
Propôs a Lua distante.
Mas os homens são tão loucos,
Com tamanha agitação
Que acabam trepando aos poucos,
Ainda à Lua chegarão.
Diz Vishnu: -”Precisamente,
Que o segredo fundo assente
Dos homens no coração!”
Acham a ideia excelente.
Os demais deuses então
Enterraram, má semente,
O segredo em nós bem fundo,
Não vá vir o fim do mundo!
Depressão
De crónica depressão
Mui sofria uma mulher.
Ao terapeuta vai ter
A lhe confessar então:
- ”Doutor, tenho um bom marido,
Ele ama-me, desvalido,
Sempre a encher-me de presentes.
Os filhos têm saúde.
O trabalho, os pés assentes,
Nunca me ele desilude,
Até tenho, por excesso,
Considerável sucesso.
Nunca sofri, de raiz,
De qualquer grave doença.
Em suma, sou infeliz.”
Para tal não há sentença.
O terapeuta, após prazo
Longo, encontra-a por acaso
Em festa muito animada.
Conta-lhe ela que o marido
A deixara abandonada,
Trocara-a, ao fim, ressentido,
E agora os filhos se drogam,
Perdeu o emprego e se afogam
Em dívidas doravante
E um cancro receia ter...
- ”Pois então, nalgum instante
Já infeliz não sente ser?”
- ”Sinto” - diz ela, de pé. -
“Mas agora sei porquê.”
Marselhesa
Numa história marselhesa
Um homem entra num bar,
Viu um peixe, com surpresa,
Pendurado, singular,
Grande, enorme, embalsamado.
Tendo a cabeça abanado,
Diz: - ”Que grande mentiroso
Pescou um tão fabuloso!”
Europa
Na Europa, um bebé nasce.
No instante de vir ao mundo,
Um anjo que ali perpasse
Pousa-lhe um dedo fecundo
Na boca, para impedi-lo
De revelar o sigilo
Que ele então ainda conhece.
A cova ao centro do queixo
Do apoio provém neste eixo
Dum dedo de anjo, parece.
Bombardeada
É bombardeada a cidade.
Cada qual, conforme pode,
Foge, já sem liberdade,
Por onde melhor lhe acode.
Não têm mortos e feridos
Mais conta, pois os vencidos
Tudo saqueiam, de fome.
Pior, chuvas incessantes
Destroem quanto se come
Com inundações constantes.
São levadas casas, pontes,
São desgraça os horizontes.
Correm só por toda a parte
Pegadas de desgraçados.
Do canibal a vil arte
Aflora em todos os lados.
Eis que um monge zen caminha
Por entre quanto definha,
Sem pressa, muito sereno.
Dizem-lhe: - ”Isto não o aflige?!”
- ”Não” - responde num aceno.-
“Aparte o nada que exige
Esta agitação, está
Tudo bem calmo por cá.”
Deserto
Um pedregoso deserto
Mui raramente recebe
Uma nuvem que, no acerto,
Águas deixa de que bebe
A terra e a seca areia,
Então da benesse cheia.
Podiam sobreviver
Animais e vegetais.
Não cansa de agradecer
O deserto gestos tais
A cada nova visita
Que a morte total desquita.
Lamentava não poder
Ofertar-lhe nada em troca.
- ”Pára de me agradecer” -
Diz-lhe um dia a nuvem louca.
- ”Então porquê?!” - perguntou
O deserto que a escutou.
- ”Dizes que não me dás nada
Em troca de te regar.
Nada vale, então, de entrada,
Este meu prazer de dar?
A minha rega se apaga,
Isto, não e não tem paga!”
Hakuã
O mestre zen dito Hakuã
Vive junto à peixaria.
Do peixeiro a filha sã,
Nova e que de encanto ardia,
Grávida um dia aparece.
Os pais querem que confesse
De quem. E ela a revelar:
- ”Foi o mestre Hakuã, é dele.”
O monge vive a esmolar
Em cabana de osso e pele.
Não vão a filha querer
Dar-lhe o peixeiro e a mulher.
Não lhe falaram de nada.
Quando a criança nasceu,
Ponderaram na jornada
E dizem-lhe: - ”Já que é seu,
O melhor será tratar
Mas é de no-lo criar.”
- ”Está bem” - disse Hakuã,
Sem mais qualquer comentário.
A criança, de manhã,
Dele vive igual fadário,
Atada às costas, nas ruas
Quando pede de mãos nuas.
Um dia, a mãe da criança
Confessa que o vero pai
É do merceeiro a frança
Do filho que perto vai
Andando, antes reticente
E agora aceite e presente.
O peixeiro e a mulher
Conferenciaram então,
Com mestre Hakuã foram ter,
Mil desculpas pedirão,
Ofertam-lhe alguns presentes,
De vergonha reticentes.
Iam buscar a criança
Que não era filha dele.
- ”Está bem” - Hakuã lhes lança
E a criança lhes impele.
- E, tal como antes do acinte,
Continua a ser pedinte.
Hindu
Um jovem inteligente
E sábio mais que o credível
Se apaixonou de repente
Pela princesa invisível
Que é filha do rei dos génios
Que nunca aceitou convénios.
Sonhava constantemente
Com ela sem a ter visto.
O pai do rapaz consente
Que vá ter, dado o imprevisto,
Com o hindu sábio que ao mundo
Conhece o segredo fundo.
Que dele fique ao serviço,
Passando por surdo-mudo,
Para ver, como um noviço,
Dele as práticas em tudo.
Talvez aprenda um segredo
Que importe para o seu credo.
O jovem foi ter com ele,
Já bom fogo lhe acendia,
Água lhe traz, jarro em pele,
O cabelo escovaria,
Até lhe prepara a cama
Como o respeito reclama.
O sábio, por várias vezes,
Pô-lo à prova, a confirmar
Enfermidades soezes.
O jovem, no seu lugar,
Resistiu mesmo à picada
De sovela que enterrada
Lhe foi num pé, certa noite,
Enquanto ele ali dormia.
Da dor ao sentir o açoite
Abre a boca e gritaria,
Mas lembra a prova, o jejum,
Não sai de lá som algum.
Passam anos. Pouco a pouco,
O rapaz foi aprendendo
Segredos (têm-no por mouco)
E anotou-os, como a medo,
Excepto os que eram contidos
Num cofre à chave escondidos.
E, tal como antes, pensava
Numa princesa sem cara
Cuja presença palpava
Mas que nunca vislumbrara.
Adoece o rei um dia
Pois qualquer coisa bulia
Sempre dele na cabeça.
Nenhum médico entendeu
Que era aquilo e onde começa.
O sábio se dirigiu
Ao palácio com a ajuda
Da criança surda-muda.
A cabeça enorme inchaço
Apresentava do rei.
Um bicho encerrar lá crasso
Parece ser que é de lei.
O mestre rapa o cabelo
E lanceta sem apelo.
O bicho logo encontrou,
Tal e qual um caranguejo,
E de o retirar tratou
Com a pinça, num arquejo.
Mas o bicho se agarrava
À cabeça e o rei urrava.
O discípulo exclamou,
Após anos de silêncio:
- ”Cuidado, mestre, escapou!
É que assim a pinça vence-o,
Mas ele se agarra mais.
Queima-lhe as costas atrás,
Que ele tira logo as patas!”
Ao ouvir dum surdo-mudo
Tais palavras tão sensatas,
Tem o mestre ataque agudo,
Cai morto em pleno salão,
Nada o reanima então.
Logo delicadamente
Trata o rapaz de queimar
As costas do repelente
Bicho na cabeça a andar.
O carvão a arder o solta,
É retirado de volta.
O rei, restabelecido,
Por título sartapeck
Ao jovem dá e um sortido
De presentes, mais, no leque,
De seu mestre toda a herança
Que ele nem sabe o que alcança.
O seu primeiro cuidado
É abrir o cofre-mistério.
Encontra ali, num traslado,
Aquele rosto sidéreo
Duma princesa invisível
Com que sonha, inesquecível.
Desenha uma figurinha
Que a representava inteira,
Recita uma ladainha,
Magos termos, chama à beira.
Quarenta dias mais terde,
Ela aparece-lhe. Ele arde.
Sartapeck não encontra
Palavras de a descrever.
Contudo, saiu da montra
De dentro de si, ao ser.
- ”Como conseguiste, enfim,
Penetrar dentro de mim?”
- Ӄ desde o primeiro dia
Que eu estou sempre contigo.
Sou alma tua: a porfia
Com que em mim buscas abrigo,
O que buscas com ardor
É a ti próprio, o teu pendor.
Olha, pois, com atenção
E verás que o mundo inteiro
Mais não é que tu então.
Sou alma tua, pioneiro.
Vê, pois, que o que buscarás
Só em ti encontrarás.
E não sejas preguiçoso
Na tua longa demanda.
Se procurares teimoso
Descobres o que em ti anda,
Afinal, que tu és tudo,
Aberto ao infindo mudo.”
- ”E porque em mim procurar
Devo?” - pergunta o rapaz,
Os ouvidos a zoar,
De entender ainda incapaz.
E a moça, um olhar agreste:
- ”É porque tu te perdeste.”
Suma
Pergunta um noviço ao mestre:
- ”Como pode um ser humano,
Ao fim de quanto se adestre,
Reconhecer, sem engano,
Que por fim atingiria
A suma sabedoria?”
- ”Quando ele, por fim, deixar
Tal questão de colocar.”
Sabedor
Questionam um sabedor
Que muito mundo viajara
Se por acaso encontrara
Pessoas de algum fulgor
De que, com algum vagar,
Goste mesmo de falar.
- ”Só encontrei homem e meio.”
- ”Quem era a metade homem?”
- ”Antes que fúrias o tomem,
Um que, de prudência cheio,
Só doutrem dizia bem.”
- ”E o homem inteiro é quem?”
O sabedor olha a estrada:
- ”Um que não dizia nada.”
Índia
Transportava um aguadeiro,
Na Índia, duma nascente,
Água para o povo inteiro.
Sempre o carrego ia assente
Em duas bilhas atadas,
Muito bem emparelhadas.
Nos ombros, de cada lado
Duma barra de madeira.
A da direita chegado
Sempre havia toda inteira,
Pois era uma bilha intacta
De parede bem compacta.
Mas a da esquerda, rachada,
Perdia metade de água
Pelo caminho pingada.
Durou isto anos de mágoa,
Que o aguadeiro nem tinha
Com que comprar uma linha.
Um dia, a bilha rachada
Diz, penando, ao aguadeiro:
- ”Tenho vergonha aumentada,
Só da imperfeição me abeiro.
Perco água por minha culpa,
Por isso peço desculpa.”
Olha para o recipiente
O aguadeiro e então lhe diz:
- ”Ao voltarmos da nascente
Vais olhar, tal quem não quis,
O lado esquerdo sozinho,
O teu lado do caminho.”
- ”E que verei?” - diz a bilha.
- ”Verás as ervas e as flores,
A pequena maravilha
De verduras e de odores
A que a tua água perdida,
A todo o tempo, deu vida.”
Bombaim
Na Índia, um Jain, Vijaya,
Comerciante em Bombaim,
Tinha fortuna de praia,
De porto e transporte afim.
Por antiga tradição,
A meio da vida, então,
Fez renúncias sucessivas
Para atingir a sageza.
Neste método uma arquivas
Por ano, a que mais se preza.
No primeiro, renuncia
À fortuna que teria.
Distribui bens em redor,
Guardando para viver
Só o que imprescindível for.
No segundo ano o que quer,
Ao carro é renunciar,
No terceiro é dispensar
De vez dele o motorista,
Conservado inutilmente
Durante um ano na lista.
Tabaco é no quarto assente:
Bem difícil pareceu
Mas ele, enfim, conseguiu.
São bebidas no seguinte
E, no sexto, o leite e o queijo.
É, no sétimo, o requinte
Dos temperos, no desejo.
Um ano após já depura
Da cabeça a cobertura.
No nono ano renuncia
Ao guarda-chuva que usava.
No décimo o sexo adia,
Que nunca mais o activava.
Veio depois o cinema,
O teatro e segue o esquema
Com a música e a dança,
Por fim a televisão.
No décimo sexto alcança
A animal degustação.
E, antes de ir a campos novos,
Renuncia após aos ovos.
O décimo oitavo é duro,
Teve de o recomeçar:
Tenta pensar com apuro,
O erótico a recusar.
Se renuncio a uma meta,
Levo a que a força a acometa.
Largou a religião:
Mais fácil lhe pareceu
Que quanto, em compensação,
Antes, nisto, ele previu.
Renunciou aos jornais
Como às outras formas mais
De conversa e relações
Com parentes ou amigos.
Recusou as abluções
Sem mais ligar aos perigos,
Um ano os pés, outro os dentes,
Outro o cabelo sem pentes.
Renunciou ao orgulho,
À cobiça e à vaidade,
Dos defeitos todo o entulho
Que pesa na humanidade.
Até que desaparece
E o mundo quase que esquece.
Sessenta e tal anos tem,
Ninguém sabe onde encontrá-lo,
Dele novas não advêm.
De súbito, com regalo,
Reaparece, sorridente,
Bem vestido, mui contente,
Guiando um descapotável,
De radiosa dama ao lado,
Um havano insofismável
Fumegando incendiado.
Um amigo o reconhece,
Pergunta-lhe o que acontece.
- ”És tu mesmo, tu, Vijaya?!”
- ”Sou eu, pois claro, sou eu.”
- ”Voltaste a uma vida gaia
Ou que foi que aconteceu?”
- ”Não, de maneira nenhuma,
Continuo tudo, em suma,”
- ”A que é que renunciaste
Agora, na tua lei?”
- ”Bem vês tu, já reparaste:
À renúncia renunciei.”
E de Vijaya a esperança
A suma sageza alcança.
À Lareira do Amor Divinatório
1
Primeira Lareira
Primata
Bem mais primata que lobo
É o homem,
Quando o confiro:
Feito bobo,
Deixou de ser lobisomem
Para tornar-se vampiro.
Porém,
É nossa a perda que houver
Se alguém
Deixar o lobo morrer.
Do pimata a artimanha
Não dá em nada
Quando o fim te apanha
Da jornada:
A esperteza trai-nos um dia
De vez
E a sorte que nos fez
Acaba então, vazia.
Depois é que descobrimos a medida
Do que é importante na vida.
Nada tem a ver
Com o que estratagemas, esperteza e sorte
Nos proporcionaram.
Deste primata norte,
Nem as sombras sequer
Ficaram.
Antes, é o que resta
Quando tudo isso (que então não presta)
Acabou
E na cinza ficou.
Muitas coisas somos!
Mas o eu mais importante
Que não referem os tomos,
Não é o que conspira vida adiante,
- É aquele que fica preso à calha
Quando a conspiração falha.
Não é o que se delicia
Com a artimanha,
É o que fica em agonia
Quando ela o apanha
Como a quenquer
E o abandona para morrer.
O eu mais importante
Não é o que goza dele a sorte,
É o que continua para diante
Quando ela se vai embora
E, em tal hora,
Finta a morte.
O primata
Há-de sempre falhar-nos, ao fim.
Quando o fio se desata,
Assim,
A pergunta que ecoa
É que responde ao que presta:
- Quem é a pessoa
Que resta?
Rumos
Disciplina e liberdade
Não seguem rumos contrários:
Disciplina é que persuade
O ser livre, em trilhos vários,
A ser possibilidade
Que desafia os fadários.
Sem a disciplina não
Há deveras liberdade:
Apenas, na ocasião,
Ao acaso para os que agem,
Aquilo que sofrerão
É mera libertinagem.
Amizade
A amizade familiar,
A que nos entrosa ao grupo,
Tem vontade de actuar
Em prol de quem eu me ocupo.
Por mais que o não queiramos fazer mesmo,
Por mais que até nos deixe horrorizados,
Mesmo doentes vagueando a esmo,
Mesmo que ao fim os preços elevados
Acabem mais pesados, no lugar,
Que o que nós lograremos suportar
Fá-lo-emos, que o melhor é para eles,
Fá-lo-emos porque havemos de o fazer.
De o fazer talvez nunca nós, imbeles,
Tenhamos, mas impõe-nos o dever
Que estejamos, fiéis, já preparados
Para tal, sejam quais forem os dados.
O amor às vezes dá-nos muita raiva,
Amaldiçoar-nos pode eternamente,
Leva-nos ao inferno que nos caiba.
Porém, a melhor sorte em nós presente
É o amor, na atitude desenvolta
Que a nos trazer nos finda a nós de volta.
Temporais
Por sermos criaturas temporais,
Daqui sofremos cruas desvantagens:
Matuto num passado, o nunca-mais,
E um porvir que vazias tem as vagens.
O passado recordado
E o desejado futuro
O agora-aqui hão moldado
No irreversível conjuro.
As temporais criaturas
Neuróticas são, de modo
Que do presente as figuras
Jamais fruirão de todo.
No passado e porvir tanto vivemos
Que há-de uma maldição nos controlar.
Porque “através” melhor a olhar nos vemos,
Através dos momentos, em lugar
De a eles os olhar: queremos vidas
Que contenham sentido e, em simultâneo,
Não entendemos como nossas lidas
Possam sentido ter no supedâneo.
Nossa temporalidade
É para nós o desejo
Daquilo que nos invade
Sem de o compreender o ensejo.
Melhor
Vou morrer e o meu melhor
É que me sinto aqui bem.
Vou fazer seja o que for
Que me apetece e convém.
Este momento se inteira
Nele mesmo e não precisa
De justificar-se à beira
Doutro qualquer que desliza
Do passado ou do futuro:
- Inteiro aqui me inauguro!
Lápides
Lendo as lápides, revejo
Quem há perdido o combate,
Da vida somado o ensejo
Numas linhas para abate.
Deviam enaltecer
Como é que tinham vivido,
A diferença a insvrever
No mundo ao jeito esculpido.
Senão, para quê tentar,
Se tudo, ao fim, reduzido
É, na pedra tumular,
A palavras sem sentido?
Recuperar
Agora que entre nós vive,
Deus anda a recuperar
Das coisas o estado antigo.
Ao visível o que esquive
É uma oferta por que ansiar:
Um coração para abrigo,
Invisível, onde quero
Viver eterno em seguida.
Por ele é que me supero:
- É o que me dá peso à vida!
Passado
Quão mais nos dissociamos
Do passado, à nossa volta
A viver bem disfarçado,
Mais difíceis são os ramos,
Entre os caminhos à solta,
Do retorno ao lar sagrado.
A recusa em aceitar
O que foi nosso passado
É a maneira mais segura
De a nossa vida tombar,
Ceder de antanho ao traslado:
- E de mim perco a figura!
Problema
Um problema de imediato
Nunca nos desaparece,
Ou até, de nenhum modo,
E, quando mal me precato,
Ao parecer que me esquece,
Não o aniquilei de todo.
Imperfeição e tristeza
São sempre o preço a pagar
Por isto de estarmos vivos.
Se calhar demais nos pesa
E há horas em que lutar
Tem, por únicos motivos
Da resistência ofertada
Sem recompensas cabais,
A hipótese de lutar
Nestas barreiras da estrada
Apenas um pouco mais
Ante a derrota a chegar.
É um fardo muito pesado
Mas é sempre um bom passeio
Isto de andar deste lado
Um outro sempre a rasar
E, às vezes, cá pelo meio,
Conseguirmos ver o mar.
Olhar
Por vezes temos de olhar
Para trás e não faz mal.
Tornar-me estátua de sal
Só mesmo se, incompetente,
Eu então nunca voltar,
Não voltar a olhar em frente.
Pior
O pior, pior dos gestos
É que acorrentaram Deus
Em infindos manifestos
De palavras, quais ateus.
Tornaram-nO tão concreto
Que tem então de viver
Entre nós, nada secreto:
O invisível a morrer,
De viajante inconformado
Carne efémera tornado.
Assim é uma instituição:
Do sonho é sempre prisão.
E, quando nela o captura,
Tanto faz que o desfigura.
Realidade
A realidade da vida:
Não posso ter dito ou feito
Sempre o que é certo, à medida,
Nem sequer sempre me ajeito
A ajudar todo e quenquer,
Nem a levar nunca alguém
A disponível se haver
Para quenquer que aí vem.
Há sempre o que não ocorre,
O amor desarticulado.
Diferente enquanto corre
É o presente ante o passado,
Quando a luz de o recordar
Através dele brilhar.
A vida não tem que ver
Com a perfeição jamais
Mas com aquilo fazer
Que puder em dias tais.
Tal como havia de ser
É que tudo foi então.
De confiar hei-de ter
No instinto que tenho à mão
E após terei de esquecer...
O passado há-de-me ter
Sempre o seu dedo apontado,
Conserve-o ou não conserve.
Como quer que eu vá jogado,
É o grilhão de que se serve.
E mantém-me prisioneiro
Se além não saltar pioneiro.
Eventos
Os eventos do passado
Endureceram, ficaram
Cacos dum vidro intocado
Em nossa mente espetado,
Corpos que estranhos nos aram,
Se deslocam e nos ferem,
Profundos demasiado
Para alguma vez poderem
Sugar-se onde se esconderem,
E é tudo tão aguçado
Que nos cortam o presente
E nos sangram, de repente.
Más
As coisas más acontecem:
Às vezes nós as fazemos,
Outras outros no-las tecem.
Nada importa que as neguemos,
Não vão desaparecer.
Que importa a profundidade
No lixo em que as esconder?
Continuam de verdade
A fazer parte de nós.
Se uma carta nos destroça,
Que importa queimá-la após?
Dar tréguas encurta a mossa:
Não damos voltas à faca
Durante a noite e tentamos
Impedi-la, por mais fraca,
De nos arruinar os tramos
Com que alinhamos o dia.
Mas tentar a perfeição
É só de quem se iludia
Contra o real em acção,
Dando mais valor acaso
Ao que estiver na cabeça
Que o que em redor eu aprazo
Que é o que sempre me atravessa.
O lugar onde viver,
Também com sombras erguido,
Sempre é o lar para quenquer:
O mobiliário partido,
Dedadas no interruptor
- É o que faz dele o que for.
Sinais
Olha os sinais,
Não forces a conjuntura.
Tenta ver, quando tu vais,
Onde leva a água pura.
Importa boiar agora,
Respeitar das ondas a frequência,
Entender do céu onde o rumo mora.
A seguir,
Ao fulgor da evidência,
Agir.
Cá em baixo, então,
Abrirás caminhos.
Lá de cima abençoarão
Das veredas todos os ninhos.
Acordo
De acordo estás com o céu
E o céu, de acordo contigo.
Escuta-lo ao teu postigo,
Fala-te ele atrás do véu.
O fruto que isto te deu
É maduro em teu abrigo,
Rio que flui mas consigo
Leva dois mundos de seu.
Tal é, pois, tua verdade,
Vais onde fores levado
E és feliz por ter tal fado.
Trilho de sublimidade,
Na terra de parto em dor
És de céu um semeador.
Felicidade
Era uma vez toda a glória
Duma pessoa feliz
Com planos e com memória
Para a vida que ela quis.
A felicidade foi
Há muito tempo, entretanto.
Agora, distante, dói.
Não houve culpa, no entanto,
Mas responsabilidade:
Tu criaste uma distância
Do céu à terra, em verdade.
Do Além a fala, com ânsia,
Deixaste de ouvir na vida
E crês então que a atitude
Se justifica em seguida.
O céu fala em quanto mude,
Na chuva que rega e molha,
No sol que brilha e bronzeia,
No murete que se antolha
E que à frente nos ameia
Para ao céu erguermos olhos...
Encurta, pois, a distância,
Olha acima dos escolhos,
Apreende o céu da infância,
Que ele te vai ficar grato
Para toda a eternidade.
Que sentido há, se desato
Céu de terra que ele grade,
Que sentido há neste chão
Se não for a comunhão?
Convicção
A convicção no caminho
É um poder espiritual,
Tão poderoso cadinho
Que enquanto vir o esteval,
Enquanto souber onde ando,
Porque acontece um sinal,
O que é que aprendo, onde e quando,
- O percurso luminoso
Irradiante vai ficando.
Convicto de que me entroso
No caminho verdadeiro,
Atraio, para meu gozo,
Energia em grau cimeiro,
De tamanho imensurável.
E o caminho, mais ligeiro,
Com destreza inigualável
Assim então percorrido,
Vai ficando mais estável,
De vencer vou convencido.
A chave é a meditação
Feita da vida o tecido.
E, mesmo que a estrada então
Não aparente harmonia,
Tal caos é ocasião
Para religar o dia,
Trepar ao céu a buscar
Mais informação que urgia.
E a vida há-de prosperar
Para além da fantasia,
Mais abundante que o mar.
Medo
Um medo fundamental
Leva-te à compensação:
Medo tens de algo real
E compensas logo então.
Não vais enfrentar o medo,
Vivenciá-lo, tarde ou cedo?
Vivenciar uma emoção
É permitir-lhe ir-se embora.
Se o medo te tem à mão,
Leva-te a fazer agora
Outra coisa, longe ou perto,
O que nunca dará certo.
Quando algo queiras fazer
Por te trazer bem-estar
Contra o mal-estar que houver,
Por medo de o enfrentar,
Um tal acto, apenas teu,
Não tem o acordo do céu.
Se estás mal, fica-te aí,
Sofre o que tens de sofrer,
Chora a mágoa que haja em ti.
Com certeza que a quenquer
Daqui vai advir a luz,
Que ir ao fundo se traduz
Numa clarificação
Sempre em todos os sentidos.
Ao mergulhar no cachão,
No fim, os medos volvidos,
Irás sentir-te melhor.
Depois, se ainda então for
De algo fazer com vontade,
Se persiste o chamamento,
Já quebrada a opacidade,
Já transposto o fingimento,
Em tal caso então avança,
Que o céu quer o que te alcança.
Comando
Certas alturas da vida
Há que assumir o comando.
Não é sempre que é devida
Uma atitude de mando.
Quando, porém, acontece,
Nem importa se apetece.
Comandar implica agir
Mas não é somente acção.
Também provoca a seguir
Qualquer um outro à função,
Gera exército, estratégia
E avança em passada régia.
Não há muito espaço aqui
Para o coração vibrar,
Sentimentalismos vi
Sempre nisto a soçobrar.
O que houver para fazer
É só fazê-lo quenquer.
É faceta da matéria,
Nem tudo é exacto, de vez.
Pede uma conexão séria
Normalmente o céu que vês,
Sentimento, coração
E mui profunda intuição.
Raramente o que nos pede
É um exército a avançar
Porque é o que a hora antecede,
Não há mais tempo ou lugar.
Contudo, se isto é o de agora
O céu diz-nos: é a hora!
Culpa
Quem és tu, tão importante
Para crer-te imprescindível?
Culpa é um ego petulante.
Quem és tu, para, impossível,
Crer que sem ti nada roda,
Jamais anda a vida toda?
A culpa é uma tentativa
Inconsciente do ser
Para ter poder que arquiva,
A imprescindível se ver.
Culpa quem sente, por norma,
Faz um lugar tomar forma
Mas julga que deveria
Ser outro noutro lugar.
Por isso a culpa o atrofia,
Em conflito sempre a andar.
Não relaxa as mãos que ararem
Nem deixa os mais relaxarem.
O culpado sofre muito
Mas tem a grande tendência
De outrem culpar desse intuito.
“Não cumpro minha apetência?
Então outrem também não
E, se cumpro uma função
Contra quanto me apetece,
Então outrem também tem
De cumpri-la, não me esquece.”
A exigência donde vem
Contigo e com os demais?
Atitudes porquê tais?
A culpa nunca te deixa
Viver nem te deixa olhar
Para ti mesmo e te enfeixa,
Sem evoluir, a te atar.
Culpas-te do que fizeste,
De não ter feito que preste,
Culpas-te de não fazer
O que os mais de ti precisam...
Ora, àquele que sofrer
Dele as carências avisam
Que escolheu a situação
Para, através da lição,
Da solução que procura,
Poder evoluir por dentro.
Dele que cuides da cura
Precisa,mas não é o centro.
Se extremo for teu cuidado,
Prejudica o que hás curado.
Ora, tu também terás