À LUZ DA CANDEIA




BARTOLOMEU VALENTE




Lisboa, 2011







AO SERÃO DOS CONTOS ANCESTRAIS



I


Ao serão de domingo







Contar


Não sou só contos e lendas.

Contudo, sem narrativas,

Sem de as contar oferendas,

Não sou nada. Arestas vivas

Restam só de minhas sendas.


É uma história o movimento

Dum lugar a um outro além,

Nunca deixa o seu fermento

No primeiro teor que tem.

Vivemos neste andamento.


Um princípio tenho, assim,

E terei então um fim.


Histórias


Todo o contador de histórias

É aquele que vem de fora,

Que na praça das memórias

Duma aldeia que ali mora

E que nunca dali sai

É o além que entre eles cai.


Dá-lhes a ver outros montes,

Outras luas e terrores,

Outras caras, outras pontes...

Metamórficos pendores.

É quem captou a atenção,

Que outro mundo traz na mão.


É um outro olhar, outra voz:

Deste era-uma-vez por meio

Supera este mundo a sós

E a metafísica em cheio

Introduz então na infância

De todos com elegância.



Habita-nos


Habita-nos o antiquíssimo,

Cada dia, e nos impele

Para agir, leve, levíssimo.

Haja embora o que o repele,

É assim: para começar,

Vimos de longe e luar.


Como a luz fóssil se observa

Em astrofísica em volta

De nós cintilando, serva,

Desde o nascimento à solta

Dos mundos, ouvir podemos,

Além e aqui, se mantemos


Os ouvidos bem abertos,

Murmúrios de antes da história,

Dos inícios encobertos

De que se perde a memória.

Os sonhos de outrora são

Parentes nossos então.




Repara


- ”Deus fez o mundo em seis dias

E tu minhas meras calças

Nem em seis meses farias?!”


- ”Mas, meu caro, a quanto é que alças?

Repara só, num segundo:

Vê tuas calças e vê o mundo...


Não têm comparação:

Tuas calças, que mundão!”



Pergunta


Quando alguém pergunta à Lua

O que é que ela mais deseja...

- ”É que o Sol que além flutua

Morra e mais ninguém o veja.”


- ”Também, Lua, o não verá...”

E ela confirma sem pena:

- ”Ora, tanto se me dá!”

...E à noite assim se condena.



Fome


Levada pela fome mais cruel,

Uma hiena olha atenta o seu filhote.

As ilhargas cavadas pelo bote

Das privações, achega-se ao farnel:


- ”Não é que um anho me pareces fiel?

Julgo ver um cordeiro como dote

Quando olho para ti. Um borregote

Suculento, a saber-me como mel.”


- ”Mãe, olha para mim, é lá possível

Parecer um cordeiro! Sou teu filho,

Não sou o anho que julgas comestível.”


- ”A prova que me livra do sarilho

É que estás a balir neste momento.”

E logo o devorou sem adiamento.



Sede


Um cão, a morrer de sede

Após mui longa corrida

Pelo deserto que fede

De estorricar nele a vida,

Chega, enfim, junto a um regato

Que corre muito pacato.


Inclina-se. Porém, quando

Se dispõe para matar

A sede que o vem matando,

Nas águas a se achegar

Vê que vem a própria imagem:

Doutro cão crê que que é mensagem


A impedi-lo de beber.

Deita-se o cão sequioso,

A arfar, aguardando, a ver...

Um nada após, momentoso,

Achega-se da má sina

E com prudência se inclina,


Mas o outro lá continua.

Retira e senta outra vez

E de morte a sede o acua.

Várias vezes o entremez

Repete até que, extenuado,

Sem reter-se haver logrado,


Atirou-se dentro de água

Para a limpo tirar tudo

Com o cão de tanta mágoa.

Grande surpresa, contudo:

Não encontra nenhum cão,

Chapinha, enfim bebe, então.


Saiu de água saciado

E, antes de tomar caminho,

Olha atrás o seu traslado

No espelho de água adivinho.

E lá o fantasma o encarava,

Só que então já o não entrava.



Caracol


Observava certo dia

Mui atento um caracol

Que pelas ervas seguia

Lento e mole, lento e mole,

Um filósofo entretido

A ver daquilo o sentido.


- ”Em que pensas?” - um passante

O questiona, oportuno.

- ”Tenho um caracol diante,

Penso nele: eu me coaduno

A que eu penso nele e, enfim,

Ele nunca pensa em mim.”


- ”Isso apenas?!” - o outro torna.

- ”Não, não é somente aquilo.”

- ”Que mais, para além da sorna

De olhar bicho tão tranquilo?”

- Ӄ que, se isto descamamos,

Julgo que nos completamos.”


- ”Completamos?! Em que lei

O homem com bicho cabe?”

- ”Sabe, é que eu sei que não sei

E ele não sabe o que sabe.”

O pensamento, de agudo,

Dum nada retira tudo.



Paraíso


No paraíso Adão mais Eva andavam,

Até que Adão de retirar-se teve,

Eva deixando, num momento breve,

A sós perante as tentações que entravam.


Satã vem logo mais o filho Esquivo

Contando a Eva: -”Tenho de ir-me embora.

Tomas-me conta de meu filho vivo

Até que eu torne? É uma ligeira hora...”


Eva aceitou. Adão, chegando, vê

O Satanás e o reconhece logo

E logo o mata destruindo o jogo

Ao pendurá-lo, retalhado, ao pé.


Quando ele sai, logo Satã retorna

E com magia reconstrói o filho.

Eva, culpada, uma vez mais, sem jorna,

Aceita o encargo mas prevê sarilho.


Quando Adão chega, furioso encara

O Esquivo ali bem retornado à vida.

-”Porque à palavra do inimigo, cara,

Tu dás ouvidos, enganada em lida?


Em mim apenas confiar-te deves.”

Mata o diabo e desta vez o crema,

Espalha as cinzas dele em gestos breves

Por mar e terra, que ninguém o tema.


Satã regressa e Eva logo conta

O que é que Adão empreendera ali.

Satanás chama: então, de ponta a ponta,

Recola o filho e após o encosta a si.


- ”Posso deixá-lo uma vez mais à guarda

De teu cuidado?” - perguntou a Eva.

- ”Leva-o contigo, de novo antes que arda!

Não quero mais. Onde é que isto me leva?”


Mas Satã usa de mil e uma manhas,

Lamenta humilde, sedutor devém.

Eva, à terceira, com pressões tamanhas

Aceita o filho que o diabo tem.


Adão, em fúria, quando volta, mata

Satanás-filho e a frigir o pôs,

Comeu metade e a outra parte acata

Eva comê-la, a dar-lhe fim, após.


Quando Satã reaparece é que Eva

Lhe conta tudo o que ocorreu no dia:

- ”É de nós parte, cada qual o leva

No próprio corpo.” Dali não fugia.


- ”É exactamente,” - diz o rei da treva -

Exactamente aquilo que eu queria.”



Astrofísico


Um astrofísico em papuas terras

Partilha os sonhos a que sonho empresta:

- ”...Por fim é Marte ver se vida encerra.”

- ”Porquê? A vossa vida então não presta?!”



Riquíssimo


Um riquíssimo ateniense

Quer Diógenes de visita

Ao paço dele imponente.

Mas este sofre a desdita

De estar com grande catarro:

Puxa, constante, um escarro.


O ricaço lhe pediu

Que não escarre a impecável

Morada a que o atraiu,

Que de asseio era intocável.

Diógenes, cordato, o encara

E escarra-lhe então na cara.



Fazendeiro


Um fazendeiro da América,

Muito mais do que abastado,

Visita um primo afastado,

Lavrador à escala ibérica,

Pouco mais que remediado.


- ”Pego o carro de manhã” -

Diz o americano inchado -

E, à noite, após ter andado,

Qualquer que seja o afã,

Nem ultrapassei um lado


Do meu rancho.” -”Estou a ver,”

- Comenta o primo, contente, -

Dantes também eu, demente,

Tive um carro assim qualquer...”

E eis como lhe ferra o dente.



Juntos


Um polaco e um judeu

Vão a pé, juntos, à feira.

De repente, um deles viu

Um monte de bosta à beira.


Diz o judeu ao polaco.

- ”Dez zlotys se tu comeres

De bosta aquele grão naco.”

Contas a teres e haveres


Faz o camponês, cuidando

Que intuito secreto tem

O judeu com que anda andando.

Por fim, aceita e retém


O engulho ao comer a bosta.

Recebe então o dinheiro,

Continuando, ganha a aposta.

Perde o judeu por inteiro


Mas medita que, afinal,

Comer bosta não há feito

Ao polaco nenhum mal.

Que bom!” - cuida, satisfeito.


Avista um segundo monte

De excremento e diz então

Ao polaco enquanto o aponte:

- ”Se eu comer este montão,


Devolves-me os dex zlotys?”

O camponês diz que sim.

Logo o judeu aprendiz

Come a bosta até ao fim.


Continuaram para a feira

E o camponês, meditando,

Pergunta, a ver se se inteira

Da razão de tal desmando:


- ”Como és esperto, judeu,

Explica-me o que é tal boda:

Porque é que a gente comeu

Aquela, enfim, bosta toda?”


Da resposta não há escrínio.

Muitos há sobreviventes

É dos campos de extermínio:

- Sabiam cerrar os dentes.



Passarinheiro


Ao fim da tarde, numa ruela de Damasco,

Fechou a loja, pôs às costas as gaiolas

De suas aves e ao caminho apronta o casco

Rude e grosseiro de seus pés, quais padiolas,


Pobre, infeliz passarinheiro, rumo a casa.

Cansado, avança lentamente, com bengala.

Vende umas aves: qual o ganho que isto apraza?

Traz meia dúzia a dormir já, de olhos em pala,


Às costas dele, pelas sombras do crepúsculo.

E eis que um dervixe de Tabris caminha ao lado,

Ouve-o falar com suas aves, som minúsculo:

- “De vós ter pena não importa, que eu traslado


Cada gaiola, trago e levo... Tudo trato,

De manhãzinha, água e sementes, pelo fresco,

Dou polimento ao bico, aliso com meu tacto

As penas breves, varro o chão, num arabesco


Lanço perfume e, pelo frio, junto ao fogo

Cada gaiola. No verão, à sombra as ponho.

Ah! Se eu tivera quem às costas, desde logo,

Me transportara de gaiola, mas que sonho!


Ah! Se eu tivera quem me dera de comer

E de beber todos os dias duma vida!”

Ora, o dervixe ouviu então, a se perder,

Uma vozinha a responder à queixa ouvida:


- ”Julgas que estamos na gaiola mas te enganas.

Nas minhas penas tenho insectos que o nem notam.

Também tu vives na gaiola e não te danas,

Gaiola é a casa, a tua rua e não se esgotam


Aqui as grades, que a cidade o é toda inteira.

Onde é que julgas da gaiola o fim das grades?

A Terra toda é para nós de jaula esteira.

A Lua, o Sol, todo o Universo ao qual agrades


Serão gaiola a balouçar pelo Infinito...”

De lassidão, passarinheiro nem responde

E, se calhar, nem mesmo ouviu o surdo grito.

Quando a sombria noite escura tudo esconde,


O vendedor a se queixar retoma o tema,

A desejar para si mesmo a sorte de ave.

Uma voz débil, de dormente mal atrema

No que dizer, faz-se entender à orelha suave


Do bom dervixe que se cola aos passarinhos:

-”Esquece tudo, fecha o espírito, eis a noite:

A fala de ave que ora escutas sem carinhos

És tu, teu imo, e tu, gaiola onde se acoite.


Teu pensamento o trancou forte em própria grade,

Dá-te trabalho a desmontar, nem o consegues.

Em casa pousa esta gaiola de inverdade.

Não penses mais, come e dormir vê quando adregues,


Que, adormecido, se abrirá tua gaiola

Ao mundo inteiro e então podemos falar mesmo.

Pois boa noite.” E só o dervixe tem a esmola

Desta mensagem que o silêncio espalha a esmo.



Monge


Monge cristão fundado havia, em canibais

Regiões, mosteiro organizado em solidez.

Os solitários, às dezenas, vivem mais

De seu trabalho e orações, em paz de vez.


Tem vastas terras muito férteis e rebanhos,

Hortas, pomares, galinheiros e um viveiro,

Produz compotas, vinho, leite, assados de anhos,

Fabrica pão, bolas de carne... É num ribeiro


Que, represado, águas recolhem para as lidas.

Sobre a região então se abate crua seca

Onde as colheitas são de todo destruídas.

Mas o mosteiro resistiu: irriga a peca


Semeadura, astucioso, controlando

De águas o débito conforme as precisões.

A dura seca entre as cubatas provocando

Vai entretanto letal fome aos aldeões.


Um dia, à porta do mosteiro, uma quinzena

De camponeses mui magrinhos pede ajuda.

O generoso abade-mestre, já com pena,

Mandou colher muitos legumes com que acuda,


Matar um porco dos mais gordos do cercado.

Logo uma sopa nutritiva é distribuída

A cada indígena, aos parentes que hão juntado,

E o que restou vai de farnel, à despedida.


Agradeceram os prendados, mas voltaram

Um dia após, quando eram já meia centena,

Pois o rumor do bem-querer longe espalharam

Todos aqueles que encontraram ceia plena.


O abade manda matar outro porco então

Como abater gordo carneiro a tanta fome.

Todo o selvagem come bem, se embora vão,

Sacos de nozes cada qual leva e consome.


Um dia após, são mais de cem com as crianças

Mais as mulheres, de sanzalas tão distantes

Que jamais antes nem ouvido, em tais andanças,

Tinham de haver mosteiros tais, de bens garantes.


O bom do abade pôs os monges a correr,

Um talhão colhem de legumes horta fora

E pescam trutas com a nassa e vão colher

Cestos de fruta e abater bodes agora.


Todos comeram, já por entre altercações.

Ao fim da tarde, uma oração rezam por chuva,

O monge e a selva de mãos dadas nas funções.

Mas de manhã nem do nevoeiro a branca luva


Responde às preces. Como a fome é mais cruel,

Já são duzentos visitantes por comida.

Alguns ajudam o convento no tropel

De abater carnes, refeição a ser servida.


Todos comeram, bem ou mal, e ao dispor tudo

Os monges põem, generosos, sem limite.

A oração cantam novamente e, sobretudo,

Ritos pagãos vão-lhe acrescer que a selva emite.


Tudo por nada, já que a seca persistiu.

São mais de mil, ao quinto dia, a vir famintos

E desde então os monges deixam de pousio

A quinta deles, já que os ovos, mesmo os pintos,


Legumes, frutos, tudo colhem, vão comer.

Toda a reserva é consumida, frutos secos,

Mel e compotas, as conservas, o que houver:

Os animais são abatidos, rincham ecos


Da mortandade dos cavalos do mosteiro,

Do burro velho que no prado tasquinava.

Tudo comeram, as galinhas, o viveiro,

Patos e cães e mesmo os ratos, se calhava.


Nada restou. E foi então que eles comeram

Os monges todos. E uns aos outros, logo após.

Um que ficou, depois que todos pereceram,

Morreu de gordo, em palermice tão atroz


Que, de ocioso, o rebentou a obesidade.

...E ali findou assim de vez a Humanidade!



Falcão


Adeja um falcão

Forte e ameaçador.

Domina, senhor,

Tudo o que há no chão.


Mas dum caçador

Uma flecha então

O trepassa e não

Tem mais vida e ardor.


Ao tombar, vê penas

De falcão nos nós

Que a frecha contém.


Viu, então apenas,

Que o que vem a nós

Sempre de nós vem.



Viajaste


Dois camponeses conversam,

Por ocasião da feira,

Das ditaduras que terçam

Armas contra o que as não queira.


- ”Conheci tantos países,

Rússia, Polónia, Alemanha,

Sei lá de quantos matizes!...”

-”Viajaste então com sanha.”


-”Qual o quê?! Nunca saí

Desta aldeia onde nasci.”


Hoje a comunicação

Põe o mundo todo à mão.



Piedosos


Dois piedosos muçulmanos

Seguiam pela montanha.

- ”Quando chegam os humanos

À perfeição que se ganha?”


-”Quando à montanha ordenarem

Que ande e ela então andar.”

De repente, ao repararem,

A montanha a começar


A mexer-se principia.

Vira-se o segundo então

Para ela e anuncia,

Com breve gesto da mão:


- ”Calma, montanha, é que eu não

Ordenei mesmo que andasses.

Era uma suposição,

Não percamos nisto as faces.”



Mercado


No mercado de Damasco

Hodja compra de algodão

Bela peça, após com asco

Regatear o preço em vão.


Vai depois a um alfaiate

Para que um bom albornoz

Talhe e cosa que acicate

Uma festa, um tempo após.


- ”Quando é que ele fica pronto?”

- ”Pois, com a ajuda de Deus,

Numa semana, é o que conto.”

Ela corrida, é de incréus


Que os olhos se lhe arregalam,

Pois do albornoz nem sinal.

As tesouras não se calam,

Tudo cortam, por seu mal,


Mas nem ao menos talhada

Foi do albornoz uma peça.

- ”Quando, então, vir de jornada?”

- ”Uma semana mais meça.”


- ”E então pronto de vez fica?”

- ”Pois, com a ajuda de Deus,

Pronto há-de estar, que se aplica

Nisto a vontade dos céus.”


Transcorreu outra semana,

Do albornoz, contudo, nada.

Adoeceu-lhe de esgana

Do alfaiate a filha amada.


- ”Quando devo tornar cá?”

- ”Dentro aí de quatro dias.”

- ”O albornoz pronto estará?”

- ”Com a ajuda em boas vias


De Deus ele há-de estar pronto.”

- ”Escuta, o dia da festa

Dentro de bem pouco aponto.

Não podes, de forma lesta,


Costurar-me este albornoz

De Deus sem ajuda após?”



Ofício


De sexta-feira no ofício,

Um imã, com eloquência,

Exclama, tenta um resquício

De sagrada eficiência:


- ”Ó Alá, senhor do mundo,

Dá-me a fé, dá-me a humildade,

A força de ser facundo,

Dá-nos a paz da verdade,


Dá-nos o amor da justiça,

Perdão, generosidade

Para o pobre que se enguiça,

Mais a luz da liberdade!”


Hodja, que estava presente,

Ergue-se e põe-se a clamar,

Mui convicto, de repente,

Crente de vir a alcançar:


- ”Ó Alá, senhor do mundo,

Dá-me doze potes de oiro,

Uma casa grande e, ao fundo,

Um lago, um jardim, com loiro


Cabelo de raparigas

Bem novas e sedutoras

Que a mui me agradar obrigas

A todas e quaisquer horas!”


O imã tentou calá-lo

E chamou-lhe de infiel

A blasfemar com regalo

Sacrílego e o repele.


- ”Mas porquê?!” - diz com espanto. -

Faço o que faz o imã...”

- ”Como assim?!” - gritam do canto.

- ”Bem, então! Cada manhã,


Cada qual, buscando o bem,

Pede aquilo que não tem.”



Machado


Um camponês perde um dia

Das freimas dele o machado.

Busca em casa, faz vigia,

Tudo em vão, em todo o lado.


Avista então um vizinho

A desviar, passando, o olhar.

Cara e gesto comezinho,

Atitudes, aquele ar,


Tudo nele revelava

Que era ladrão de machados.

Já quase o denunciava

Pondo a público tais dados


E levando-o ao juiz,

Quando recupera então

O machado: uma raiz

O esconde caído ao chão.


Voltou a ver o vizinho:

Afinal, não tem sinal

Do ladrão que ele, adivinho,

Nele presumira real.



Malhas


Acaso e necessidade

Tecem malhas do destino,

A sorte que nos persuade

E a que, queira ou não, me inclino,

Quando piso o chão que grade.


Roleta russa jogamos,

Uma bala no tambor,

Das seis com que o completamos:

Giramo-lo e é o que for,

Quando à fronte o disparamos.


Um actor polaco tinha

De interpretar um papel

Dum militar da marinha

Que, no meio do tropel,

Aquela bala sozinha


Jogava ao terceiro acto,

Numa aposta que ganhava:

Preme o gatilho e o impacto

Nunca o tiro disparava.

Com a vida mal, de facto,


Desanimado, introduz

Uma bala verdadeira

No tambor. E não traduz

A informação desta asneira

A ninguém, que o não seduz.


Pois por vinte e duas vezes,

Com sorte bem milagrosa,

Representa sem reveses.

A cena com ele goza

Com tiros secos, corteses.


Mas no dia vinte e três

Um febrão grave o abateu

E cai à cama de vez.

Quando o aviso recebeu,

Tapa o teatro o revés,


Dele chama o substituto.

E foi com grande alegria

Que este ensaiou o produto.

Quando o cano à fronte enfia,

Morre em cena, ao tiro bruto.


Ergueu-se dias depois

Aquele actor principal.

Foi ele que, dentre os dois,

Assistiu ao funeral...

Mas nunca mais meteu, pois,


No tambor balas daquelas,

Não vá o diabo tecê-las.



Viajante


Um viajante atravessa

A floresta solitária.

Uma quadrilha depressa

Despoja-o da indumentária,

De tudo o mais em seguida.

- ”Vamos deixá-lo com vida?”


O punhal dum salteador

Logo lhe aponta à garganta.

- ”Mas matá-lo que valor

Nos traz, de que é que adianta?”

Atam-lhe aos pés cada mão,

Da vala fica no chão.


Mais tarde outro salteador

Vem junto do viajante,

Desata-o, trata-lhe a dor,

Segue com ele adiante.

- ”Vem agora atrás de mim,

Vou guiar-te até ao fim.”


Caminharam pelo escuro

Noite fora, tempo além,

Até caminho seguro

Se vislumbrar que lá vem.

- ”Tua aldeia fica ali

Ao fundo, vai por aqui.”


- ”Acompanha-me até casa,

Quero-te recompensar.

Comerás do que te apraza,

Beberás lá no lugar.”

-”Não posso ir” - com pundonor

Respondeu o salteador.


- ”Mas porquê?” - o outro se espanta.

- ”Porque sou um salteador.

A polícia desencanta

Minha presença ao odor.

Viria logo a correr

Em tua casa me prender.”


Com isto deu meia volta,

Dali desapareceu.

Três forças andam à solta

Tecem da vida o mantéu:

Uma assalta, uma outra ajuda,

Na fuga a final se escuda.



Aldeia


Numa aldeia abandonada

Do mundo dos distraídos

Um rico tem a morada

E um pobre tem desvalidos.


Trepa um dia o rico ao monte

A mostrar com largo gesto

Ao filho todo o horizonte:

- ”Olha o nosso e olha o resto,


Será um dia tudo teu.”

Trepa ao monte por igual

O pobre, a fruir do céu.


De espanto ao filho em sinal,

Na emoção de quanto o acolha,

Murmura-lhe apenas: - ”Olha...”



Tundra


Na tundra siberiana

Um homem encontra um preto,

Julga mesmo que se engana:

Jamais um vira em concreto!


Perplexo, pergunta então

Quando com ele se cruza:

- ”És a noite? A noite ou não?”

Resposta, porém, recusa


O preto e dali se afasta.

Um dia após, no lugar,

A curiosidade basta,


Vendo o preto ali passar,

A fazer que mais se afoite:

- ”Quem és? És ontem à noite?”



Sonha


Sonha o santo: uma mulher

De incomparável beleza

Encara-o com bem-querer,

Sorri-lhe tal quem o preza.


- ”Donde é que te provém tão

Maravilhosa beleza?”

- ”Um dia” - diz-lhe ela então -

“Choravas tu de tristeza:


Lavei minhas faces duas

Naquelas lágrimas tuas.”



Cão


Um homem está sentado

Lá no público jardim,

Um cão pela trela ao lado,

Aos pés dormitando assim.


Uma dama se aproxima

E senta-se à beira dele,

Olha o cão, um ser que estima,

Pergunta, a apontar-lhe a pele:


- ”O seu cão é um cão mansinho?”

- ”É muito mansinho, muito.”

Ela a mão devagarinho

Estende, em gesto fortuito,


Ao animal. De repente,

Este salta, vai mordê-la

E deveras ferozmente.

- ”Mas que me disse?!” - a sequela


É que a mão lhe está sangrando. -

“Afirmou-me que o seu cão

Era manso e eis senão quando...”

- ”O meu é. Mas este não


É o meu, já que esta manhã

Passeio o da minha irmã.”



Asceta


Um asceta, na esperança

De atingir o bem supremo,

Vê se não dormir alcança

Dezenas de anos seguidos,

De noite, a vergar o demo,

Até perder os sentidos.


Para tal, regularmente,

Nos olhos aplica sal

Até que o sangue fermente.

Já no limite das forças

Adormeceu, afinal.

Ai, virtude, a quanto orças!


Durante o sono, eis-lhe vem

A visão do Paraíso,

De Deus, dos anjos também...

Quando acordou, ficou triste:

- ”Procurei com tanto siso

Isto que no Além existe


Quando acordado e, afinal,

Só dormindo é que vi tal.”



Selvajaria


Após uma ditadura

A selvajaria impera:

Tanto há ganho com fartura

Como se esvai em quimera.


Dois búlgaros a uma esquina

Se encontram a negociar.

- ”Dois camiões quis a sina

De cigarros vir-me dar,


Cigarros americanos,

Um milhão por eles quero.”

- ”Pois é teu” - nem pesa enganos

O segundo, com esmero.


Selam de aperto de mão,

Vai cada qual a seu lado:

Um ver se encontra um milhão,

Cigarros, o outro enganado.


A terra sem roque ou rei,

A sequela a que anda atreita

Esta será: não há lei

E ninguém mais a respeita.



Música


Há na música indiana

Harmonias para a noite,

Harmonias para o dia

E, quando ninguém se engana,

Não há verão que lhe acoite

Dum inverno a melodia.

E diversos sentimentos

Dão vários de canto alentos...


Um rei que era caprichoso

Chama um mestre do sitar,

Pede-lhe um canto da noite

Quando o sol brilha fogoso.

- ”Impossível” - se a queixar,

Sem que mais longe se afoite,

Começa o músico atento. -

“De manhã noite nem tento.”


- ”Toca na mesma!” - “Não posso...”

- ”Recusas? Mando cortar

Já tua cabeça aqui!”

Ante a ameaça, tenta o esboço

O melhor que ele alcançar,

Toca noite, um peso em si.

Faz que a luz empalideça:

- O Sol a pôr-se começa!



Saudá-lo


Quando um novo Papa é eleito,

Os chefes, por tradição,

Doutra qualquer religião

Vêm saudá-lo a preceito.


Entre eles vem um rabino,

O mais ancestral de Roma.

Após a praxe, ele toma

Um sobrescrito mui fino,


Lacrado, de antigamente.

Pega-lhe o Papa na ponta,

Logo um cardeal o aponta

E ao ouvido algo comenta.


Sem abrir o sobrescrito,

Logo o Papa o devolveu

Às mãos do rabi judeu,

Tratando-o como um proscrito.


Este ritual perdura

Há muitos séculos já.

Que é que aquela carta apura

E tais gestos porque os há?


É o segredo dum cardeal

Que à hora da morte o conta

A um vivo que o logo aponta

Para aos Papas dar sinal


Que no futuro vierem.

É assim sucessivamente,

De longe, imemorialmente.

Ora, há imprevistos que ferem:


Há um século atrás morreu

O cardeal, de repente,

Que o segredo tem presente

E a transmissão se partiu.


Contudo, no protocolo,

Todos os Papas seguintes,

Da tradição fiéis ouvintes,

Cumprem o ritual a solo


Sem nenhuma confidência:

A carta é de devolver,

Devolvem sem ver sequer

Se contém qualquer pendência.


Se havia, pois, um segredo,

Parecia estar perdido.

Mas o actual Papa, atrevido,

Quer limpar suspeita e medo.


Nada o proíbe de ver,

Consultas devidas feitas,

Da carta quais as receitas

Que decerto há-de conter.


Os cardeais de antigamente

Que falavam ao ouvido

Se calhar nem o sentido

Sabiam dali pendente.


O Papa logo aceitou,

Sem a devolver, a carta.

O rabino nem se aparta,

Do espanto que o alegrou.


Finda que foi a audiência,

Um cardeal e uns peritos,

A um recanto circunscritos,

Fecham-se com impaciência.


Abre o Papa o envelope

E descobre um documento

Muito antigo, bolorento,

Em língua que ninguém tope.


Vêm os epigrafistas,

Linguistas ao Vaticano,

Esventram a fundo o arcano

E descobrem que são listas:


É duma casa de pasto

A conta de Última Ceia

Por pagar há era e meia,

De Cristo e os Doze o repasto!


O Papa muito se admira:

Então Jesus convidado

Não foi ao festejo dado,

Com eucaristia em mira?


A conta indica o contrário.

O rabino atesta então:

- ”É o texto em primeira mão

Que, através do tempo vário,


De geração se transmite

Em geração, há bem mais

De vinte séculos, tais

Os que conta quem o emite.


A Ceia que não se apaga,

Entre todas fundadora

Mesmo após tanta demora,

Nunca de facto foi paga.


Os meios para pagar

A dívida, sem demora,

Talvez tenha a Igreja agora,

Nem há juros a cobrar!”



Krishna


Quando Krishna era criança,

Tinha fama de maroto,

Era o guloso que alcança

Sempre o que lhe deu no goto.


Era oitava encarnação

Do deus Vishnu, benfazeja

Força que segura o chão

Do mundo, tal se deseja.


Um dia foi acusado

De haver de terra engolido,

Bem escondido, um punhado,

No que foi repreendido


Por Yasoda, a mãe terrestre,

Que explica que em caso algum

- Ela tenta o que o amestre -

Coma a terra que é comum.


- ”Não comi” - diz o pequeno.

- ”Abre então a boca, a ver...”

Obedece e um cheiro a feno

Vem-se dele a desprender.


Debruça-se Yasoda e vê

Árvores, rios, montanhas,

Todo o Universo à mercê

Cheio de estrelas tamanhas,


Dos seres toda a existência,

O passado e o futuro,

Dos mortos parca a vivência,

As formas do nascituro.


Viu além toda a emoção

Que todo o ser vivo tem,

Medo, raiva e coração,

Deslumbramento também.


Viu as lágrimas, o riso,

Os estádios da matéria,

Nada lhe escapa ao aviso,

Do filho na boca séria.


As parcelas do Universo

Todas vão no seu lugar.

- ”Está bem, é um mundo terso,

Podes a boca fechar.”



Quarto


Dorme um frade sozinho num castelo antigo

Quando ouve à meia-noite alguém bater à porta.

Entra um maldito enorme, nariz inimigo,

Olhos de brilho azul, a língua negra e torta.


- ”Quem és e que procuras?” - diz ousado o frade,

A quem Deus dava forças, sem temor algum.

- ”Aquele que virá depois de mim é que há-de

Explicar-to” - responde o que é o fantasma um.


O segundo maldito entra então, eram dois.

- ”Quem és e que procuras?” - perguntou o frade.

- ”Aquele te dirá que vem de mim depois” -

Retorque-lhe o maldito que, segundo, o invade.


Entra então o terceiro dos malditos soezes.

- ”Quem és e que procuras?” - insistiu o frade.

- ”Aquele que após mim entrar diz quanto prezes.”

O frade não arreda, que tal nunca o enfade.


Ora, o quarto maldito que é que diz então?

- Pois o quarto maldito nunca veio, não.



Ilusão


Ramakrishna conta,

Ao falar de Maya,

A ilusão que aponta,

Na qual tudo caia.


Um homem pobre e sem labor

Saiu de junto da mulher,

Do filho doente (arde em calor),

Tenta, pedinte, o que puder.


Não conseguiu. Quando voltou,

Um dia após, o filho é morto.

Logo a mulher o lamentou,

Que ele morreu sem seu conforto.


Ficou a olhar para a mulher,

Para o cadáver, e sorria

O pobre do homem esmoler.

Por que razão, não se entendia.


- ”Porque sorris?” - diz a mulher,

Sem o abarcar, muito espantada.

- ”Minha razão vou-ta dizer:

É que sonhei, de madrugada,


Que eu era um rei com sete filhos

Todos saudáveis, e feliz

Com eles vivo. Os meus sarilhos

São que acordei (bem o eu não quis)


E todos eles se hão sumido.

Diz-me tu quem mais lamentar:

Se o que doente hemos perdido,
Se os sete em vão sumidos no ar.”



Teatro


Vai um homem assistir

Ao ar livre a um teatro.

Leva um cobertor ao ir,

Enrola-o, dobrado em quatro.


Quando chega, a peça ainda

Não havia começado.

Mas que modorra benvinda!

Deita-se e adormece ao lado.


Dorme tão profundamente

Que só acorda bem depois

De finda a função presente.

Dobra o cobertor em dois


E retorna para casa

Com risinho sinuoso

Murmurando, olhos em brasa:

- ”Muito bom! Maravilhoso!”



Lenhador


Um lenhador habitava

Numa aldeia e de manhã

Na floresta se adentrava

A trabalhar com afã.


À noite, quando voltava

Os aldeões reuniam

Em redor e ele contava

O que vira e eles ouviam.


Eram mais de mil inventos

Coloridos, variados,

A imaginários sedentos

Servidos, pratos cuidados.


Um dia encontrara um trol

Das raízes a sair,

Uma gigantesca mole

A falar do que há-de vir.


Outro dia foram ninfas

A mergulhar na cascata

E os faunos que nessas linfas

Armaram o nó que as ata.


Conhecia-os pelo nome,

Sabe querelas, amores,

A inveja que algum consome,

Canta deles os favores.


Crónica quotidiana

Da maga floresta erguida

Todas as noites emana

A uma aldeia embevecida.


Quando ia até junto ao mar,

Via sereias ao sol,

Tritões trompas a soprar,

Cavalgando a onda mole.


Uma que outra vez por ano

O bispo do mar lhe dava

Notícia do mundo arcano

Que na lonjura morava.


Também com elfos se via,

Gnomos, ogres e até fadas

E destas contos ouvia

Para as noitess encantadas.


Sílfides voavam no ar,

Criaturas plantas sendo,

Minhocas a vir falar

Com cobras tais que só vendo.


O lenhador inventava

Histórias mil destes seres

Que na aldeia em todos grava,

Nos homens e nas mulheres.


Emaranhado sem fim,

Com mil ramificações,

Mantinha em suspenso assim

Insaciáveis os aldeões.


Acabavam por julgar

Que não podiam viver

Sem a aventura estranhar

Que o relato lhes trouxer.


Desejos, preocupações

Deles lá reconheciam

Ou em longínquos torrões

Aportavam que nem viam.


Era o que mais divertia,

Acalmava e a dormir

Bem melhor serve de guia

Até o alvor do porvir.


Um dia tudo mudou.

O lenhador lá partiu

Para a selva onde suou,

Ao ombro o machado frio.


Mal tinha entrado no bosque

Viu, desta vez de verdade,

Onde o tojo mais se enrosque,

Dois sátiros, mãos em grade,


Uma ninfa a perseguir

Que pedia ajuda às plantas,

Aos gnomos, a quem ouvir,

E que só foi salva, às tantas,


Por um dragão voador

Que a uma nuvem a levou,

De enxofre em meio a um odor

Com que os ventos sufocou.


Ouviu também de elfos cantos,

Nítidos os viu dançar,

Das sereias os encantos

Vieram-no cumprimentar.


Pois até o bispo dos mares

Veio benzê-lo em latim

Numa vaga alçada aos ares

Com um trono de serrim.


Isto durou todo o dia...

Quando retornou à aldeia,

Todo o habitante que havia

Recolheu à sala cheia,


Que ao hábito ninguém foge,

À espera do que revele.

- ”Ora, então, que é que viste hoje?”

- ”Hoje? Nada!” - responde ele.



Cava


Um homem, torrando ao sol,

Cava, cava, no deserto.

Um beduíno com que bole

Pergunta, ao chegar-lhe perto:


- ”Que fazes?” -”Cavo um buraco.”

- ”Mas para quê?” -”Procurando

Ando moedas que num caco

Escondi já não sei quando.”


- ”Devias ter reparado,

A marcar o lugar onde,

Em algo que hajas fixado,

Rochedo, erva onde se esconde...”


- ”Reparei...” - diz o das moedas.

- ”No que foi?” E este então ri

Ante estas marcas tão ledas:

- ”Das nuvens na sombra ali.”



Acordou


O marido adormecido

Acordou mui bruscamente.

Dá mil voltas e um gemido,

Acorda a esposa dormente.


- ”Que agitação invulgar!

Vais transpondo um rio a vau?!”

- Ӄ que acabo de sonhar,

Tive um sonho muito mau!”


- ”Que sonho?” - ”Sonhei que a burra

Do nosso vizinho acaba

De à luz dar, enquanto zurra,

Um burrinho em que desaba


Esta má sorte sem nome:

O burro nasceu sem cauda!”

- ”Isso é o que aqui te consome?!

Estás à espera que aplauda?!”


- ”Imagina que o burrinho

Cai num buraco, uma vala...

Pede-me ajuda o vizinho

Para a cria então sacá-la.”


- ”Sim, vai pedir. E depois?”

- “E depois?! Depois é o diabo!

Como é que o apanho, pois

O burrico não tem rabo?”



Deitado


Uma noite em que a mulher

Jantou na sua família,

Volta a casa e que vem ver?

Um motivo de quezília:

Dorme o marido em sossego

Deitado com um borrego.


- ”Que é que é isto?!” - grita ela.

- ”Nada” - diz ele. - ”A questão...”

- ”Não contes outra balela!

Agora tens atracção

Por borregos?! Que borrada!”

- ”Não estás a entender nada!


Sonhei que me entrava o lobo

No redil e, logo à entrada,

Comia o borrego bobo,

Dentada atrás de dentada.

E ele é que, de medo, clama

Por abrigo em nossa cama.”



Sem-abrigo


Dois sem-abrigo dormiram

Mui vagamente abrigados

Na entrada que conseguiram

Duns prédios abandonados.

Despertam para a manhã

Dum inverno bem malsã.


Ambos tiritam de frio,

Nada têm que comer.

Os transeuntes, ao rocio,

Correm por eles sem ver,

Apressam os passos ante

A chuvada penetrante.


Um deles ao outro diz:

- ”Tive um sonho extraordinário.

Num paço vivo feliz

Com divãs de odor mui vário,

Bailarinas ao serviço,

Vinhos com sabor castiço,


Todos os frutos do mundo

Num pomar à discrição,

Cada canto o mais fecundo...

E tu, não sonhaste, não?”

- ”Eu não sonhei nada” - diz

Dos dois o outro infeliz.


- ”Tens sorte” - torna o primeiro,

Após vaga reflexão.

- ”Tu é que, num grau cimeiro,

A tens, o sonho é um condão.”

- ”Não, és tu: desiludido,

Não acordas destruído.”


Discutiram tempo além

Sem nunca chegar a acordo,

Como à miséria convém,

Sem barco onde entrar a bordo.

Qual o bem que o mal persuade:

O sonho ou a realidade?



Cura


Um homem religioso

Apaanhou doença grave.

Sonhou então, luminoso,

Que peregrinar é a chave

Da cura. Vai a Konya,

De Rumi na sacra via.


Em sonhos lhe garantira

Um célebre santo imã

Que há muito de nós partira:

Vira a cura de manhã.

Reuniu forças então,

Foi em peregrinação.


Custou-lhe cara a viagem,

Cansou-o, pois que as estradas,

Sem poiso nem estalagem,

Todas vão enlameadas,

Muitas tinham aluído

Das chuvadas que hão caído.


Em Konya, ele ficou,

Sujo, em caravanserai,

Mas as devoções orou,

Aos santos lugares vai.

Ao túmulo de Rumi

Voltas deu de dar aí.


Só depois se fez à estrada

Integrado em caravana.

Esta, a caminho, é atacada

Por bandos de mão profana

Que o doente maltrataram,

Todos os bens lhe roubaram.


Esgotado, regressou

Ao lar para repousar.

Dias após constatou

Que a doença, sem melhorar,

Afinal, mais parecia

Agravar-se dia a dia.


Então confronta o imã

Que em sonhos lhe aparecera:

- ”Prometeste, uma manhã,

Que em Konya a cura houvera.

Fiz o que disseste e sou

O morto em pé que aqui estou.”


O imã não deu resposta.

Porém, na noite seguinte,

Quando o doente se encosta

Na choupana sem requinte

E adormeceu para o lado,

- Sonhou que estava curado.



Virgem


Uma rapariga ainda virgem sonha

Que um príncipe mágico na aldeia pára,

Que por ela vem, para que o sol lhe imponha

Que nele rebrilha como jóia rara.


De manhã levanta-se e com pressa corre,

Deita-se à procura do encantado seu,

Mas ninguém ouviu onde esse amor ocorre.

Um velho sentado entre uma fonte e o céu,


Lhe diz quando passa lá por perto dele:

- ”O teu tempo perdes, o teu tempo perdes.”

Nem ouve o que diz, presa ao que além a impele,

Sai da aldeia e pula pelos campos verdes.


Ninguém viu tal nobre. Ao retornar, cansada,

Passa junto ao velho que de novo diz:

- ”O teu tempo perdes.” Mas não ouve nada,

Volta para casa; não, porém, feliz.


Tentam acalmá-la, que a razão lhe volte,

É apenas um sonho... São inúteis freimas,

Que o sonho é mais forte e faz com que ela solte

Novas correrias após muitas teimas,


Pois de novo o viu que lhe estendera os braços

Num sonho envolvente. Cruza junto ao velho,

Perto da nascente, com os mesmos traços:

- ”O teu tempo perdes.” Sempre igual conselho!...


Busca em toda a parte, fere pés e pernas

Nas pedras dos trilhos, no silvado agudo.

Não tem mais resposta, ralações supernas

São o que recolhe, conferido tudo.


Quando a cruzar volta pelo velho, à fonte,

Torna a dizer-lhe ele: - ”Pois teu tempo perdes.”

Na noite seguinte, o sonho estende a ponte:
O príncipe os braços abre, herança que herdes,


E a moça se lança na prisão que a enlaça.

Louca de esperança, a oposição venceu

De pais, de vizinhos, contra dela a traça,

Corre além do velho que já nem ouviu:


- ”O teu tempo perdes, o teu tempo perdes.”

Após vários dias de mil buscas vãs,

Retorna esgotada. Quanto dela houverdes

É roupa em farrapos, terra em jovens cãs,


Pernas a sangrar... Como não pode mais,

Senta-se na pedra junto ao velho e à fonte.

Ele nem diz nada. Nos fiéis caudais,

Onde à sede a vida mais saúde aponte,


Da nascente perto vai colher em mãos

Água que oferece à rapariga lassa.

Ela inclina o rosto, vê tais dedos sãos,

Tão juvenis mãos em quem por velho passa,


Mais um anel de oiro em que um diamante brilha,

Que levanta os olhos, sob a capa vê

Que lhe oculta o rosto de negror mantilha,

Que um jovem se esconde, de olhar onde lê


O brilho da aurora, lábios sorridentes:

É o que vira em sonhos e a tomara em braços!

- ”Eras tu aí?!” De gestos mui silentes

Ele nem responde, mas não há embaraços.


Ela torna ainda: - ”Porque não disseste

Que eras tu mais cedo?” E ele então responde:

- ”Como é que eu sabia, com saber que preste,

Que era quem buscavas, sei lá bem por onde?”



Dragão


Sonhou alguém com um dragão atroz,

Aterrador, com uma goela em chamas

Ameaçadoras, a urrar feroz.

Ora, assustado, lhe questiona as tramas:


- ”Que vai passar-se? Que aterrado estou!

Irá comer-me? Ai, meu Deus do céu!”

Diz-lhe o dragão, a suspender o voo:

- ”Que quer que diga? O sonho é todo seu!”



Rua


Numa pouco iluminada

Rua uma mulher caminha

Numa passada apressada,

Medrosa, que vai sozinha.


Mas é um sonho. E um homem sai

Da sombra, cola-se a ela,

Estende a mão, quase vai

Prender-lhe a cintura bela.


- ”Cavalheiro, que é que faz

Pare ou a polícia chamo!”

- ”Ora, vós é que sonhais

Seja o que for que eu reclamo...”



Noite


Uma noite, simplesmente

Numa camisa comprida,

Sai do leito, lentamente,

A mão à frente estendida.


Atravessou o jardim,

Deu volta completa à casa

E à porta de entrada assim

Retornou tal quem se atrasa.


Um vizinho, quando o viu,

Pergunta por sobre o muro:

- ”Que fazes?! Que é que te deu?!”

- ”Chiu! Cala-te! Só murmuro...”


- ”Diz-me então que é que se passa!”

- ”Minha mulher conta a todos

Que um sonâmbulo com graça

Sou. Confirmo-o com meus modos.”


- ”E então?” -”Chiu! Podes levar-me

A um mal com que nem concordes.

Há um risco de grande alarme:

Sobretudo não me acordes!”



Aborígenes


Aborígenes primevos

Australianos um dia

Caminhavam, de hoje coevos,

A um etnólogo por guia,


Por uma estéril paisagem

Dos desertos interiores.

O cientista em viagem

Anotava os pormenores


Dos actos deles e gestos.

Regularmente este grupo,

Gente de acordos honestos,

Sem ordens e sem apupo,


Parava um longo momento.

Não era para comer

Nem para ver um invento

Que a natura ali tiver,


Nem sequer para sentar

Nem descansar da fadiga.

Era somente parar

Sem nada que a tal obriga.


À segunda ou à terceira,

O etnólogo então pergunta

Que faz que desta maneira

Todos parados os junta.


- ”É bem simples: nós estamos

À espera de nossas almas.

As almas que nós tenhamos,

De vez em quando, mui calmas,


Param no trilho a cheirar,

Ver, ouvir algo escapado

Aos corpos com que hão-de andar.

As razões de haver parado,


Sendo no íntimo secretas,

São mui fortes, sedutoras.

Por isso, mesmo discretas,

Se os corpos correm por horas,


As almas param, por vezes,

Durante uma hora inteira.

Urge esperarmos, corteses,

Por elas, do trilho à beira.”



Bali


Em Bali contam que, à morte,

Almas há mui descontentes,

Recusam largar à sorte

Os corpos ali presentes,

Mormente quando eles vão

Queimar-se em pira no chão.


Almas há recalcitrantes.

Em pública cremação

Vestem os participantes

As vestes da tradição,

Cumprem rituais antigos

A exorcizar inimigos.


Uma dolente alma esquiva

Duma mulher morta cedo,

Cremação definitiva

Recusa ao corpo em degredo

Que lhe houvera pertencido,

Por um fado não cumprido.


Dela a irritação sussurra

De asas em roucos ruídos,

No toiro que salta e urra,

Que a carreta com gemidos

Puxava, tal como quem

Picado é de insectos cem.


Os oficiantes contam

Que os cabelos se moviam,

Os pêlos na barba apontam

Para onde não queriam.

Tentam pegar fogo à lenha,

Logo a apaga o ar que venha.


Foi preciso interromper

A cerimónia letal.

Dum celebrante vão ver

Que das almas o sinal

Descontente entenderia,

Ao que a voz comum dizia.


As almas que rejeitarem

Morte ao corpo que as alberga,

Conta o velho, é de enjeitarem

O karma que ao alto as erga:

O corpo não satisfez

O que devia, de vez.


Agitam-se loucamente

Na esperança apavorada

De que o morto, finalmente,

Retorne à vida passada

E cumpra a tarefa agora

Que a terra dele lhe implora.


Reuniram-se em conselho:

Que fazer? Saber das queixas

De alma que tem preso o artelho,

Remediá-las, com as deixas.

Mas o corpo estava morto:

Como da morte ir ao horto?


O ancião pede que o deixem

Sozinho uma noite inteira

Junto à morta. Que se queixem

Os do Além é o que requeira

Cada oração, cada reza

Cujo segredo ele preza.


Pela manhã declarou

Que das iras de tal alma

Já sabia: desejou

Dum amor colher a palma

Dum vizinho e tal prazer

Recusara o corpo ter.


O brâmane encarregado

Foi de visita a tal homem,

Explicar-lhe aquele fado

Cujas sequelas consomem

O espírito já partido.

O homem fica surpreendido,


Não tinha de tal ideia,

Pois conhecia a mulher

Desde miúdo, na aldeia,

Mas nem sonhara sequer

Que viver pôde tal sina

Duma paixão clandestina.


O religioso pede

Que receba a alma penada,

Se umas horas lhe concede

A mantê-la bem tratada.

Ele vai falar à esposa,

Que é casado e dum lar goza.


Ela fica surpreendida

E por demais inquieta,

Se há uma ligação vivida

Outrora e tida secreta

E que o brâmane informado

Do facto haverá ficado.


Demorou a convencê-la

Que não era nada disto,

Um adultério não vela

Um morto, mesmo benquisto,

O que ali se tem de pôr

Não é sexo mas amor.


O marido se dirige

À casa da mulher morta

(Onde tal alma o exige

E o segue), a ver se a conforta

Aquela friorenta noite

Que lhe oferta onde se acoite.


Amigos e conhecidos

Ficam até madrugada,

Fora apuram os ouvidos,

Mas ninguém logra ouvir nada.

De manhã, o homem saiu,

Ao lar retorna e dormiu.


O funeral recomeça,

A brisa é calma, mui suave,

Erguem-se as chamas depressa,

Sem peias, quais penas de ave...

Tudo finda calcinado

E de almas, mais nenhum dado.



Narciso


Quando Narciso morreu,

As margens, mui desoladas,

Pediram gotas ao rio

Para as lágrimas choradas.

- ”Nem todas as minhas águas

Chorariam tantas mágoas.


Como o amava!” - e o rio chora.

- ”Impossível não o amar!” -

Carpem as margens agora. -

“Como era belo, que olhar!”

- ”Era belo?!” - diz o rio.

- ”Quem melhor que tu tal viu?


Da margem se debruçava

Ele em ti todos os dias

E nas águas contemplava

Suas faces fugidias.”

- ”Ah! Se o amava não era

Por isso” - o rio assevera.


- ”Então porquê?” - ”Porque, quando

Ele ali se debruçava,

Eu podia ver, cantando,

A beleza que agitava

Minhas águas, sem escolhos,

Na fundura de seus olhos.”








































2


Ao Serão de Segunda-feira































Mendigo


Um homem andrajoso, miserável,

Como um mendigo penetrara um dia

De Bagdade no paço do califa.

Na ausência do venerável,

Se atira, sem cortesia,

Do trono para a alcatifa.


Adivinhando o insólito, a real guarda

Não se atrevera a expulsar o intruso.

O camareiro-mor acorre ao caso:

- ”Sabes que ocupas, sem farda,

Um lugar apenas de uso

Do califa em breve prazo?”


- ”Sim, sei.” - ”Sabes quem é o nosso califa?”

-”Estou acima dele.” - ”A inteligência

Perdeste, que a pobreza ta não dá.

Aqui não ganhas a rifa,

Por sobre Sua Excelência

É só Maomé que estará.”


- ”Sei” - disse o desgraçado. - ”E o Profeta

Saberás tu quem é?” - “Sei muito bem,

Estou acima dele.” Erguem as armas

Que o desplante despoleta

Os guardas que se mal têm.

- ”Deixem, que após ireis dar-mas” -


É o camareiro-mor que mais ajunta:

- ”Acima de Maomé só vive Deus.”

- “Sei” - responde o mendigo. - ”E Deus morreu?!”

- ”Acima estou, se é pergunta.”

- ”Pois nada acima há nos céus!”

- ”Claro! E tal nada sou eu!”



Odor


Um pobre come pão seco

Em frente dum grelhador

De avaro churrasco e peco.

Quer cobrar-lhe o dono o odor,


Recusa o pobre e um juiz

Vem decidir a querela.

Uma moeda que condiz

Com o custo da tabela


Joga ao chão do restaurante

E ao dono diz que ali queda:

- ”Paga-te com, doravante,

O barulho da moeda.”



S. Clemente


De Alexandria S. Clemente

Diz que um egípcio combinado

A soma certa, mui contente

Tinha por ter o favor grado


Da cortesã mais glamorosa.

As condições aceitam ambos,

Combinam bem hora amorosa,

Ele a fremir já de pés bambos.


Mas, entretanto, o jovem sonha

Que tinha obtido da moçoila

Todo o prazer que se suponha,

Drogado em sono de papoila.


Todo o prazer então gozou

Mui solitário, noite fora.

Já satisfeito, ele acordou,

Quer cancelar o encontro agora.


A cortesã disto discorda,

Manda intimá-lo e vai ao rei

Bocóris ver com quem concorda.

E ele decide em sábia lei:


A cortesã deve ser paga,

Porém de certa forma nova.

Ao sol a bolsa que o réu traga

Esvaziou, boa-fé prova:


- ”Mas ela fica, o mais lhe vedas,

Só com a sombra das moedas.”



Molho


No Zaire, um homem idoso

Avança penosamente

Por caminho pedregoso,

De lenha um molho pendente

Às costas, rumo à sanzala,

Apoiado na bengala.


Pára a recobrar alento

E pousa o molho no chão

Dele ao lado, lento e lento.

Diz na pausa ao molho então:

-”Não aguento... Toda a vida

Molhos carrego em seguida.


Contente, quando era jovem;

Sem esforço, homem maduro,

Agora, que mal me movem

Os meus passos, de inseguro,

Das forças este resquício,

Ao levar-te, é já um suplício.”


De repente, ouve uma voz

Que lhe vem da lenha e diz:

- ”Ouves-me? Ouves tu, a sós?”

- ”Quem fala? Será um juiz?!”

- ”Sou eu” - responde-lhe o molho. -

“Ao lado estou, não me encolho.”


- ”És um molho então falante?”

- ”Não muitas vezes, mas hoje

Ouvi-te, por um instante,

A queixa que de ti foge.

Um molho de lenha, a par

De tal, pode então falar.”


- ”E que me queres dizer?”

- ”Se tu, para me levar,

Cansado estás de morrer,

Às minhas costas trepar

Deves, que eu levo-te a ti,

Como a mim tu até aqui.”


- ”E tu podes fazer isso?!”

- ”Pois claro, se to proponho!”

E, como que por enguiço,

O velho vê, como em sonho,

O molho a se levantar,

Ficar de pé no lugar.


Apoia-se em quatro galhos

Que mexem debaixo dele

Como perninhas sem talhos.

- ”Vais a andar!” - o velho expele.

- ”Agarra-te a mim sem medo,

Que eu levo, fim do degredo.”


- ”Certo estás de me levar?”

- ”Muito tempo me levaste,

Está na vez de eu prestar

Serviço igual quanto baste.”

O molho ligeiramente

Se inclina então para a frente.


O velho, contra o receio,

Se instala o melhor que pode

Da ramagem pelo meio,

Pés num galho que não rode,

Braços a agarrar-se bem,

Face entre as folhas que tem.


- ”Estás bem?” - pergunta o molho.

- ”Muito bem!” - retruca o velho.

- ”Cuidado enquanto recolho

O bordão de bom conselho.”

Põe-se então a caminhar

Trilho fora sem parar.


Os ramos um pouco estalam

Mas o todo aguenta bem.

Os pés das lenhas abalam

Carregando o velho além.

Fecha os olhos, em repouso,

Sorrindo, o velho, com gozo.


Durante um tempo, avançaram.

De repente, há uma mudança

No andamento que levaram.

O velho olha e quanto alcança

É que não vão no caminho,

Mas no matagal vizinho.


- ”Não estamos no caminho!” -

Grita o velho ali, zarolho. -

“Já não vamos, adivinho,

Para a aldeia” - impreca ao molho.

- ”Porque iria para a aldeia?” -

Diz o molho. - “Qual a ideia?”


- ”Porque é na aldeia que eu moro,

Lá que vive a minha gente,

Que vê se não me demoro,

Que a noite cai de repente.

Estarão à minha espera

Antes da hora da fera.”


- ”Tu tens medo, tu, das feras?!”

- ”Naturalmente que tenho,

Todos, em todas as eras,

Temem o seu arreganho.”

- ”De feras não tenho medo” -

Murmura o molho em segredo.


- ”De que é que tens medo então?!”

- ”Tenho dos homens,” - responde -

“Do destino que me dão

Na sanzala, se for onde

Eu te levar. É que sei

O destino que terei:


Minhas folhas a comer

Dás às cabras e carneiros,

Vão-me em gravetos fazer,

Que queimam melhor que inteiros.

Isto é que os molhos de lenha

Temerão que lhes advenha.”


- ”Para onde então me levas?”

- ”Ias-me levar à aldeia.

Faço o mesmo, antes das trevas:

Levo-te, floresta meia,

Para o lar onde nasci:

Minha gente vive ali.”


- ”Que vais fazer? Vais queimar-me?!”

-”Porque havia de queimar?

Pegar fogo, se tal arme,

À minha família e lar?

Vou largar-te na floresta,

Que a fera faça o que resta.”


- ”Na floresta não me deixes,

Que das feras tenho medo.

Deixa-me descer dos feixes!”

Logo o molho pára quedo,

O velho desce depressa,

Pisa o chão, de mente avessa.


Fica olhando para o molho

E o molho a olhar para ele,

Olhos de pau sem sobrrolho,

Casca seca em vez de pele.

Cai lento o Sol no horizonte

E há já feras que se aponte.


- ”Que fazer?” - pergunta o velho.

- ”Agora?” - do molho a voz

É sopro a esvair do espelho,

Vida a se apagar a sós. -

“Já não sirvo para nada,

Leva-me em tua jornada.”


- ”Achas?” - o velho pergunta.

- ”Rápido!” - o molho responde.

O velho depressa junta

Os galhos, o medo esconde,

E às costas, com a bengala,

O leva para a sanzala.


O mais depressa que pode

Caminha nas velhas pernas.

No atraso ninguém lhe acode,

Adormece das luzernas

Com as pálpebras pesadas.

Mas não pára. A noite cai,

Vê cada estrela que sai.


Não vai pensar nos joelhos,

Vão cada vez mais doridos,

Arqueja, cedem artelhos,

Os ombros já vão feridos,

Porém, curiosamente,

Na fadiga segue em frente.


Sabe que o repouso o espera,

Ao longe viu uma luz,

A aldeia não é quimera,

Família e todos traduz,

Prontos para o receber

Quando além aparecer.


- ”Estás zangado comigo?” -

Pergunta ao molho silente. -

“Não estás? De eu pôr-me a abrigo?...”

O molho de lenha, ausente,

Dele às costas, já sem vida,

É o silêncio em despedida.



Hassidismo


Um rabino muito jovem

Foi a um mestre do hassidismo.

- ”Quem és tu?” - e mal se movem

Do mestre os lábios de abismo.


- ”O neto sou do rabino...”

- ”Não te perguntei quem era” -

Corta o mestre, de ar ladino -

“O avô que no lar te espera.


Pergunto então outra vez:

Quem és tu? Sabes quem és?...”



Apanha


Quando Nasredim passeia

Com o amigo, este se abaixa,

O espelho apanha que ameia

Num canto, partida a caixa.


- ”Julgo que conheço este homem” -

Ao se ver no espelho diz.

Logo leva a que as mãos tomem

De Nasredim, mui feliz,


O espelho em gesto adivinho.

Olha nele o rosto seu

E comenta: -”Que espertinho!...

Claro, conheces: sou eu!”



Génio


Salomão aprisiona

Num pote de cobre um génio,

Do fundo do mar o adona,

De ondas lhe cobre o proscénio.


O génio enriquecer

Jura quem o libertar.

Cem anos vão decorrer

E ninguém a o procurar.


Jura que ao libertador

De quanto tesoiro houver

No mundo fará senhor.

Cem anos: nada a ocorrer.


Jura então os três desejos

Do libertador cumprir.

Mais cem anos e dos brejos

Ninguém vem-lhe a tampa abrir.


Os séculos vão passando.

E o génio jura (é a verdade)

Que irá matar, judiando,

Quem lhe der a liberdade.



Encontram-se


Encontram-se dois um dia

Na praça duma cidade.

- Ӄs tu?! Mas quem o diria?!

Não vinha à espera, em verdade,


De te ver, mudaste tanto!

Tinhas o cabelo claro,

Hoje é moreno, que encanto!

É dum preto muito raro...”


O outro quer retorquir,

Este, porém, não o deixa

E continua, a sorrir:

-”Eras alto, uma fateixa,


Hoje ao meu ombro mal chegas!

Que aconteceu entretanto?”

O outro, em gestos de mãos cegas,

Tenta desfazer o encanto,


Mas o primeiro retoma:

- ”E a cicatriz aí na testa

Apagaste-a com a goma

Como a texto que não presta?”


E, sem esperar resposta,

Acrescentou: - ”Francamente,

Simão, queres uma aposta?

Mal te conheci, parente.”


- ”Eu não me chamo Simão” -

Consegue dizer, por fim,

O outro, interdito. - “Ai não?!

Também muda o nome assim?!”



Distraído


Era um homem distraído.

À hora de se deitar

É só roupa a se espalhar.

De manhã, sono volvido,

Já nada logra encontrar.


Anota então num papel

Os diversos cantos onde

Põe a roupa que se esconde

Como um rebanho em tropel.

Perde papéis quanto bonde...


Escreve em papel segundo

Qual o lugar do primeiro.

Perde o segundo, pioneiro

Doutros, encadeado fundo.

Nem com lembrete sineiro!


Combina os métodos todos

E, em manhã determinada,

É toda a roupa encontrada.

Do dia é o melhor dos bodos.

Da voz do imo há uma chamada,


Bem de dentro (quem responde?):

-”E tu? Onde estás tu, onde?”



Termos


Nasredim encontra um homem

Que não conhece na rua,

Que diz (termos que o consomem):

- ”Bênçãos na cabeça tua!”


Nasredim, surpreendido,

Pergunta ao homem, de lado:

- ”Quem é que tens no sentido?”

E o outro, desconcertado:


- ”Falo contigo, porquê?”

- ”Então sabes quem eu sou?”

- ”Não...” - admite o outro, ao pé.

- ”Nem quem sou nem onde vou


Sabes tu, na tua crença.

Que te faz pensar que actua,

Que haverá que te convença

Que é minha tal bênção tua?”



Porta


Nasredim, ao ir de casa,

Deixa sempre a porta aberta.

Mal torna, num golpe de asa,

Tranca tudo a hora certa.


Qual a razão da atitude?

- ”Muito simples. Nada tenho,

O bem de maior virtude

Sou eu próprio. Quando venho,


Seja o motivo qual seja,

É normal que me proteja.”



Sábio


Um sábio muito eminente

Do Afeganistão viera

Da invasão mongol premente

A fugir, tal duma fera.


Foi recebido em letrado

Círculo havido em Damasco.

Dele em honra organizado

Houve encontro, vinho em casco,


Com poetas, tradutores,

Com cristãos, maometanos,

Físicos, comentadores,

Judeus mesmo, até ciganos...


Discursou o presidente,

Louvou o labor insano,

Todo o saber eminente

Do grande homem, homem do ano.


E chegou mesmo a dizer:

- ”Eis entre nós o mais sábio

Dos sábios que o mundo houver

Desde Aristóteles. Sabe-o


Quem dele ouvir as lições.”

Pensa o sábio, lá com ele:

- ”Cá está. Já tem restrições...”

E fechou-se em sua pele.



Psiquiatra


Ao psiquiatra vai um homem

E fala de seus problemas.

Mil tristezas o consomem,

É abatido que ouve lemas,


Nada o retém nem importa

E a melancolia plena

Quem o rodeia a suporta,

Sempre a aturar-lhe tal cena.


- ”E viajar, já tentou?” -

Pergunta o médico após.

- ”A viajar sempre estou,

Viajo toda a vida a sós.”


- ”Não vejo nada de grave.

Preciso é dar-lhe o abanão,

A se interessar, suave,

No que toque o coração.


Olhe lá, se ao circo for?”

- ”Ao circo?!” - ”É que há lá um palhaço,

O Grock, um grande senhor,

É de rir a par a passo.


Decerto far-lhe-ia bem.”

- ”Não posso.” - ”Porquê? Já viu,

Ajude um pouco também...”

- ”É porque o Grock sou eu.”



Al-Mokri


Al-Mokri, o mestre islâmico,

Empreende longa viagem

Ao Egipto panorâmico,

Pérsia e África selvagem...


Uma década passou

Numa Ispahan, a mongol,

Que sufi sempre ficou.

Da poesia persa o rol,


A mais bela então do mundo,

Percorre em deslumbramento.

Em reputação fecundo,

Reclamam-lhe o ensinamento.


Da Pérsia vem à Turquia,

Aos dervixes rodopiantes,

Na cidade de Konya.

Auditórios expectantes


Vêm beber-lhe a palavra.

Escreveu vários relatos,

Selectas de sua lavra

Que os copistas, com recatos,


Transmitem mui fielmente

Ao mundo então conhecido.

De quem Rumi tem em mente

É exegeta preferido.


Chega a ser-lhe atribuído

Um saber super-humano

Já de magia tingido,

De fados de anjos arcano.


Com poderes invisíveis

Tem contacto permanente,

Curas pratica impossíveis,

É o milagre aqui presente.


Na Turquia, após seis anos,

O Bósforo atravessou,

Vive na Grécia sem danos,

Por fim à Itália chegou.


Vamos encontrá-lo em Roma,

Muito próximo da Cúria,

A ponto dos de Mafoma

O crerem converso, em fúria.


Mas não ficou por aqui,

A mais viagens procedeu.

Relatos, se houver daí,

O registo se perdeu.


Vinte e oito anos de ausente

Levam-no a casa, por fim.

Como incógnito é presente,

Sem se anunciar, assim,


Que não quer ajuntamentos

De curiosos vazios.

Mas no lar não há elementos,

Ninguém, os leitos são frios.


Mas, para grande surpresa,

Célebre é seu nome ali,

Em toda a parte ele pesa,

Referência ou alibi.


Todos os livreiros têm

Infinitas obras suas,

Ignotas dele também,

De terras, casas e ruas


Relatos imaginários,

Encontros inexequíveis

Com reis de Universos vários,

Com falecidos incríveis


De antes de ele ter nascido,

Travessias de dragões

Que um fantasma há percorrido...

Tentou chamar de ilusões


Aos manuscritos falseados,

Já que visitado tinha

Do mundo os cantos tratados,

Mas logo a resposta vinha:


- ”Al-Mokri foi quem o disse...”

Ir de cidade em cidade

Fez que isto se repetisse,

É o critério da verdade.


Até que ele perguntou:

- ”Mas onde mora Al-Mokri?

Posso ir vê-lo donde estou?”

Olham de surprresa ali,


Tal se a questão fora estranha.

Fica a saber que morrera

Anos atrás, quando apanha

Rumo à terra onde nascera.


Toda a gente o garantia,

De quê, ninguém sabe ao certo.

Alguém mesmo aventaria

Punhal ou veneno perto.


Por uns anjos, outros contam,

Elevado fora ao céu.

E o túmulo? Logo apontam

Da tumba o recanto seu,


Altamente venerado.

Ali vinha prosternar-se

O peregrino enfadado,

A flor lançando em disfarce.


Al-Mokri seguiu caminho.

Em qualquer outra cidade,

Tudo igual e ele sozinho:

Obra apócrifa, inverdade,


De milagres mil relatos,

Cantorias de louvores

E outra tumba com impactos

De visitas e penhores.


Só tumbas, vê mais de doze.

Quando quer informações

De si, retalhos que cose,

Nenhum traz recordações


Da vida que ele vivera,

Não há nenhuma verdade:

Na China até combatera

Demónios que a humanidade


Comem, como a sombra errante

De Alexandre um gole de água

Lhe pede, por um instante,

Para lhe esfriar a mágoa...


Vive ainda nesta era,

Porém, uma lenda viva

Da vida se lhe apodera,

Todos a falar de outiva.


A vida dele se torna

A dum sábio, a dum santo,

A dum milagreiro à jorna,

Quase divino, entretanto.


Várias cidades e aldeias

A honra entre si disputam

De berço dele, em mil teias.

Cantos, árias executam


A levar de terra em terra

Longínquos sonhos de viagem,

Tão longe que o santo aterra

Na fímbria que faz triagem


Entre abismo e fim do mundo,

Onde debruçado aspira

Do inferno o amargor profundo,

O enxofre em rajadas de ira.


Atribuem-lhe o que nunca

Pensara, factos e gestos

Milhentos que a lenda junca,

Ritos, orações, aprestos


Cantam longos dele o nome.

Há dezenas de famílias

Que a dele são, com renome,

Disputam-no em mil quezílias,


Chegam a tirar proveito,

Sem escrúpulo, dos laços,

Quando o assassínio dá jeito,

Matam sem mais embaraço.


Al-Mokri quer combater

Tal efeito irracional,

Discípulos a dizer

Que são dele, a bem ou mal.


Sem se atrever a afirmar

Que ele próprio é o Al-Mokri

(Quem iria acreditar?),

Diz: - ”Muitas vezes o vi,


Era notável, decerto,

Contudo era mais comum,

Mais banal, de nós mais perto

Que a imagem de lado algum.”


Aqueles a quem falava

Viravam costas, troçavam,

Ninguém ouvidos lhe dava,

Muitos até o insultavam,


Chamavam-no de blasfemo,

Gabarola ou invejoso:

É mesquinho como o demo

Apoucar ser tão grandioso.


Foi o que o mais perturbou.

Vai juntar-se aos peregrinos,

Tumba a tumba visitou

A salmodiar loas, hinos...


Cada vez falava menos.

Às vezes tinha a impressão

Duma memória com drenos

A esparramar-se no chão.


Tais pedras toscas dum muro

Que se desagregam, caem:

Konya não é seguro,

De Ispahan entram ou saem?


Na cabeça obnubilada

Os nomes se confundiam:

Em Roma fez uma estada,

Quem são os que lá viviam?


Os pontos de referência

Da existência vagabunda

Foram perdendo evidência,

Obras, nomes, tudo afunda.


Uma noite deslocou-se

Junto duma tumba sua,

Deu-lhe a volta, prosternou-se,

Ignora quem nele actua.


Voltou lá frequentemente.

Uma manhã encontraram

Rígido o corpo fremente

E de imediato o levaram


Para fora da cidade

Onde o enterraram num canto.

O deserto logo o invade,

Nada mais restou do santo.



Ladrão


Um ladrão introduziu-se

Em casa de Nasredim.

Nada encontrou que se visse

Para lá furtar, ao fim.


Numa qualquer arca a um canto

Repara, vai-a pilhar.

Mas lá dentro, em grande pranto,

Vê Nasredim a chorar.


- ”Que fazes aí?” - pergunta.

- ”Escondo a minha vergonha.”

- ”De que tens vergonha?” - junta.

- ”De não ter nada que ponha


De roubar em minha casa,

Onde encontres um bom porto.

Crê que a misériaa me arrasa,

Estou de vergonha morto!”



Conquistador


Um conquistador avança

Pela terra devastada.

Todos fogem do que alcança,

Senão cortam-nos à espada.


Em toda a parte, um vazio.

Entra à porta dum mosteiro,

Cruza o pátio com fastio,

Nas celas só resta o cheiro...


Mas, de repente, detém-se:

Eis um monge ali sentado,

Calmo, imóvel, tal quem vence.

O conquistador, irado,


Para o monge avança então

Que o parecia não ver,

Puxa o sabre com a mão,

Na garganta do esmoler


Assenta o gume e lhe diz:

- ”Querer-me-á desafiar?

Quem sou não sabe o infeliz?

E que o posso trespassar


Sem pestanejar sequer?”

O monge os olhos abriu,

Pronto ao que der e vier,

E tranquilo respondeu:


-”E tu não sabes quem sou?

Não vês que me trespassar

Posso deixar-me onde estou

Sem sequer pestanejar?”



Igual


Nasredim vai ao mercado,

Uma grande melancia

Sob cada braço arqueado.


À frente dele seguia,

Caminhando em passo igual,

Outro que também trazia


Duas melancias, qual

Delas a mais bem criada.

Dele a roupa é, por sinal,


Igual à do outro na estrada,

Tem a mesma corpulência...

- ”Quem é aquele?” - a si, de entrada


Espanta a coincidência,

Acelera o passo então

Mas o outro, em precedência,


Faz o mesmo pelo chão,

Nasredim só vê umas costas.

- ”E se for eu?” - é a questão. -


“É que, se não sou, que apostas

Há de quem poderá ser?”

Acelera nas congostas,


Tudo em vão. Parou a ver.

Renuncia a defrontar

Este ignoto que é quenquer.


A si finda a explicar:

- ”Frente a mim se ando a correr,

Que é que adianta me apanhar?”



Batem


Batem à porta. À pergunta

“Quem é?” - respondem - “Sou eu!”.

Hodja, abrindo a porta, assunta

Quem é aquele amigo seu.

Só que, interdito, lhe ajunta:

- ”Mas porque dizes que és eu?!”



Perderam


Dois iranianos se perderam no deserto,

Há vários dias caminham sob o ardor,

Comer não têm, de beber não há por perto,

Vão esgotados, tombam, erguem-se e, ao calor,


De novo tombam. Leva um saco ao ombro um deles

Que algo contém. - ”Que é que tu levas no teu saco?”

- ”Nada” - responde-lhe obstinado e com ar reles

O portador, nada propenso a dar cavaco.


Caem de novo, já se arrastam, já não podem

Mais levantar-se. Igual pergunta se repete:

- ”Que é que no saco, afinal, tens? Coisas que acodem?”

O homem do saco a confessar finda em falsete:


- ”É melancia...” - ”Melancia?! Uma deveras?!”

- ”Sim...” - ”Vá, depressa! Urge parti-la, é de comer!”

- ”Não!” - o do saco, olhos fechados, nas esperas,

“Estou guardando-a” - diz e mais: diz que não quer.


- ”Mas a guardá-la para quê?!” - quer o outro ver.

- ”Para um extremo caso” - diz ele ao morrer.



Diabetes


Preso por reincidente

De escândalo em via pública

E desrespeito ao agente

Que tentou, cordato, a súplica,


Um cinquentão ao juiz

É presente, mui bem posto,

Distinto, com ar feliz,

Óculos de oiro no rosto.


O magistrado, surpreso,

Comenta . - ”Não posso crer

Que alguém tão fino e tão teso

Desacate, ao fim, quenquer.”


-Ӄ porque, senhor juiz,

Eu diabético sou.”

- ”Não vejo o laço que diz

Haver ao que se passou.


Afinal, que é que a diabetes

Tem a ver com tudo isto?”

- ”Ah! Ladrão que me acometes,

Sacana de juiz malquisto!” -


Exclama, a bater o pé,

Aos berros, em fúria, o homem. -

“Besta de juiz é o que é,

Que as questões que me consomem


Retoma: como as repetes

Sobre a minha diabetes?!...”



Loucamente


Um adulto desejava

Loucamentte uma mulher.

A classe alta ele ostentava,

Mesmo assim ela enjeitava,

Tal se ele fora um qualquer.


Mensagem após mensagem,

Persistente, ele enviava,

Seguia-a toda a viagem,

Metia-se com coragem

Ao caminho onde a encontrava.


Mandou-lhe ela um mensageiro:

- ”De meu corpo por que parte

Te prendeste por inteiro?”

Responde ele, lisonjeiro:

- ”Por um olho a assinalar-te.”


Então ela um olho arranca,

Envia-o numa bandeja

Ao homem que o gesto espanca:

- ”Eis o olho, bem o tranca,

Olha-o com senso que o veja!”


Imediata foi a cura

Deste homem apaixonado

Cujo amor logo é secura.

De importunar não mais cura

Da indómita dama o fado.



Duquesa


Da duquesa a lengalenga

Afirma que a classe baixa

É preguiçosa, molenga.

(E ela nem um dia encaixa

De trabalho em toda a vida,

A comparar a medida...)


Que cada trabalhador

Tem um miúdo a ajudar

A transportar com suor

A ferramenta de obrar.

- ”Um homem pode, decerto,

Transportá-la sem aperto” -


Protesta, enquanto o criado

Segura a travessa de oiro

Para servi-la do enfado

Das batatas de tom loiro.

Ao beber o quarto copo

De vinho, então trepa ao topo:


- ”Bebem tanto ao meio-dia

Que incapazes são de tarde.

Esta gente o que queria

É apaparico covarde.”

Entretanto, dez criados

Servem doze cozinhados.


- ”O Governo não tem nada

Que auxiliar a pobreza.

Qual remédio, casa dada,

Qual pensão ao que a despreza?

Os pobres são mais frugais,

Virtude das principais.”


Isto após a refeição

Que teria alimentado

Quinze, com satisfação,

Uns dez dias por contado,

Da classe trabalhadora

Que a duquesa, claro, adora...


- ”As gentes devem contar

Com elas próprias apenas” -

E o mordomo a levantar

A ajuda, com mãos serenas,

E a se dirigir à sala:

Em seu trono nada a abala!



Pavlova


Anna Pavlova, a bailarina,

Teve um triunfo, em espectáculo,

Que foi lendário, como sina

Que a consagrou num tabernáculo:

A sala aplaude em frenesim

Por tempo, em pé, que não tem fim.


Agradecer veio mil vezes,

Recebe ramos às dezenas,

Sorriu, fez vénias mui corteses

Aos gentis fãs naquelas cenas.

O pano desce finalmente.

Ora, os amigos vão à frente


Do camarim, à espera dela

Para a rodear, mais aplaudir.

Um quarto passa, não há estrela,

Meia, uma hora, e ela sem vir!

Vai um amigo ao camarim.

Anna Pavlova, a sós, enfim,


Lavada em lágrimas encontra:

Chorando estava há uma hora.

- ”Não há razão, que é que tem contra?

Que grande noite! Porque chora?”

- ”É que não tenho em mim sentido

Tê-la deveras merecido.”



Bicicletas


Um judeuzito precisou

De ir a Mosscovo de comboio.

Preocupado se esgueirou

(Há muito que andam trigo e joio


A separar, ao persegui-los,

Aos judeus ditos), se aninhou

Num canto esconso, dos tranquilos:

- ”Despercebido a ver se vou...”


Pára o comboio na estação,

Trepa um cossaco à carruagem

Que, ao se sentar, exclama, chão:

- ”Fora os judeus! Que malandragem!


São sempre a causa dos problemas,

Deles por mor, há fome e guerra,

Traem-nos. Tiram oiro e gemas...

Com eles fora é o céu na terra!”


Avista então o judeuzito

Enfiado ao canto e lhe pergunta:

- ”Não é verdade o que aqui dito,

Que os judeus são desgraça junta?”


Com voz tremente, o judeu diz:

- ”São eles mais as bicicletas.”

Coça o cossaco o seu nariz,

Interdito ante estoutras setas.


Com um suspiro - “Mas porquê

As bicicletas?!” - olha os céus.

O judeuzito (mal se vê)

Pergunta então: - ”Porquê os judeus?”



Murmuram


- ”Murmuram que irão prender

Os judeus mais os barbeiros.”

- ”Porquê os barbeiros?!” - dizer

Ouves logo os teus parceiros.



Racista


- ”Racista?! Tenham decoro,

Que eu já sou avô de netos!

Mesmo até porque eu adoro

Os estúpidos dos pretos!”



Eczema


Sofre um homem dum eczema,

Vai a um dermatologista.

Examina-o, como é lema,

Diz-lhe ao fim, completa a lista:


- ”Vou livrá-lo de vez disto.

Irá pôr esta pomada

Três vezes por dia, insisto,

Fica a cura consumada.”


- ”De certeza?” - “Certamente.

O eczema numa semana

Desaparece, é um repente.”

Receita que o não engana


Dobra o doente e ao bolso a mete.

Contudo, sai descontente

E o médico se intromete:

- ”Algo está mal, é o que sente?”


- ”Está tudo muito bem.”

- ”Vá lá, diga, algum aspecto

Não ficou como convém...”

- ”É que...” - diz o doente, recto -

“Onde é que após vou buscar

O prazer de me coçar?”



Comunista


É na Rússia comunista,

País onde falta tudo.

Formam fila, em mãos a lista,

Frente a um armazém sortudo:

Acaba de anunciar

Que há carne mesmo a chegar.


Muito tempo a espera dura,

Até que, a dado momento,

O agente, má catadura,

Ordena sem sentimento:

- ”Judeus, fora! Judeus, fora!”

E vão-se os judeus embora.


Os outros ficam, batendo

Os pés por causa do frio,

Durante a noite. Mas vendo

Da manhã luzir um fio,

Logo - “Fora” - o agente diz -

“Aos não russos de raiz!”


Bielorrussos, ucranianos,

Georgianos e outros mais

Saem da fila de enganos.

No fim do dia os sinais

São que outra expulsão se apraza:

- ”Já podem ir para casa


Os que não são do Partido,

Não chegará para eles.”

Restam como que em sentido

Os puros e só aqueles.

Então vem um dirigente

E confessa-lhes de frente:


- ”Também podem ir-se embora,

Não há carne no armazém

Agora ou a qualquer hora,

E nenhum dia nos vem.

Foi tudo publicidade

A levantar, na verdade,


O moral da esfomeada

População do país.”

Da fila então dispersada

Diz alguém, torto o nariz:

- ”Os judeus, judeus danados,

Sempre privilegiados!”



Sufis


Em casa dum turco rico

Sete sufis se reúnem.

Ele tenta-lhes o bico,

Petiscos que se coadunem,

E eles em nada tocavam:

Meditação nova travam.


Jejuam diversos dias

De seguida, de tal modo

Que ao anfitrião porfias

Tais preocupam-no todo,

Até um amigo dizer:

- ”Sei como os pôr a comer.


Traz em grande quantidade

A necessária comida,

Depois esvazia a herdade,

Todos fora, de seguida.

E sai tu próprio de vez.”

Ora, o homem assim fez.


Serviu pratos variados,

De vinte ou trinta convivas,

A família e os criados

Manda embora, que as festivas

Horas pertencem aos santos,

Todos lhes deixa os recantos.


Porém, desaparecer

Não quis e, num quarto escuro,

Pôs-se a espiar para ver

Dos sufis qual é o apuro.

Quando cuidam que sozinhos

Estão, então quais cadinhos


De fé, de meditação!

Atiraram-se à comida,

Infrene empanturração,

Lambarice desmedida,

A ponto de os insensatos

Lamberem também os pratos!


Ora, com tal tratamento,

Um deles, em dor atroz,

Cai por terra e é o finamento.

Os mais, qual o mais veloz,

Continuam, sem ligar,

Somente a se empanturrar.


Um segundo cai por terra,

Depois um terceiro, ao lado,

Um quarto mais longe aterra,

Um após outro, enfartado,

Sem nunca soltar a garra,

Vítima da grande farra.


Quando só restava apenas

Deles um sobrevivente,

O dono que armou as cenas

Vem como da rua em frente.

Vê seis corpos lá no chão,

Pratos vazios, e então


Perguntou ao que escapou

Se a comida era bastante.

- ”Não” - o sufi retrucou -

“Faltou alguma, ao restante,

Senão eu, que a tantto exorto,

Também já estaria morto.”



Moradia


Uma bela moradia

Ergue na Índia um ricaço,

No cimo dum monte, um dia.

Quando fica pronto o espaço,


Rebenta uma tempestade

Com proporrções de ciclone.

O dono se persuade

A impetrar quem o abone,


Um sacrifício oferece

A Vayu, ao deus dos ventos.

A casa que ele estremece,

De sonho lugar de eventos,


Pede-lhe que não destrua.

Vayu, porém, não o ouviu

E a tempestade na rua

Ainda mais recrudesceu.


Lembra o homem que Hanuman,

O deus-macaco, era filho

Do deus do vento. A manhã

Rompe atando ele o cadilho


Das súplicas, garantindo

Que a casa era uma pertença

Do filho do deus tão lindo.

O deus é surdo à sentença.


De todo o lado batida,

Até o alicerce a casa

Estremecia, fendida,

De ave partida qual asa.


E o homem, em desespero:

- ”Senhor, Senhor, piedade!

Não destruas este esmero

De casa, propriedade


Do próprio Rama, o grão-mestre

De teu filho, de Hanuman.”

E ao vento nada há que amestre,

Tudo arrasa em terra chã,


Vai tudo desmoronar-se.

Então, a salvar a vida,

Corre o rico até que esgarce

A véstia feita à medida.


Maldisse todos os deuses

E, após meditar, exclama:

-”Que a arrasem estes reveses,

Que ma espalhem pela lama!


Bem vistas todas as coisas,

Bem ponderado este enguiço,

Não me inscrevo nestas loisas,

- Que tenho eu a ver com isso?”



Lágrimas


Hodja vê chegar a casa,

Toda em lágrimas, a filha

Que lhe conta como a arrasa

De pancada o bigorrilha


Do homem com quem casou.

Algo pede que o pai faça.

Logo ele a esbofeteou

E lhe impôs por nova traça:


- ”Volta agora a tua casa!”

Como não compreendia,

Perguntou-lhe, o rosto em brasa:

- ”Batem-me então todo o dia?!


Queixo-me de me baterem

E tu bates-me também?!

Queres que assim me venerem?!”

- ”Volta a casa, é o que convém!


Quem cuida o teu homem que é?

Em minha filha a bater?!

Vai-lhe dizer, bem ao pé,

Que eu lhe bati na mulher.”



Feira


Num dia de feira, à praça

Chega, tonto, Nasredim,

Onde a barafunda abraça

Carregadores sem fim,


Cambistas e carroceiros,

Compradores, vendedores...

É multidão de parceiros,

O rebotalho, os senhores,


Homens, animais, mulheres

Que vão e vêm, se cruzam,

Se acotovelam nos teres,

Se insultam quando se abusam...


Sacas de trigo se viram,

Carroças se desconjuntam,

Ladrões, escusos, retiram,

Balem cordeiros, mãos se untam...


No meio desta desordem,

Barulhenta actividade,

Nasredim que os gritos mordem

Se esgueira em dificuldade.


De repente, aos pés avista

Uma moeda perdida.

Apanha-a e, feito alpinista,

Trepa à casa ao lado erguida


E grita, brandindo a moeda:

- ”Ei! Parem com o alvoroço!

Não vale mais que suceda:

Eis a moeda: dá-la posso


A quem a tiver perdido.

Parem lá com o alarido!”



Mandarim


Em tempos que já lá vão

Na China houve um mandarim

Que de amor tombou em vão

Por cortesã nada afim.

Solicita ardentemente

Dela o favor. Renitente


Diz-lhe ela: -”Me entregarei

A ti depois de passares

Cem noites no jardim que hei,

À minha espera, e sentares

Num banco sob a janela

Que é minha, florida e bela.”


O mandarim conhecia

Da rapariga o feitio.

Aceitou e, de noite, ia

Sentar num banquinho, ao frio,

Sob a janela da dama.

Que é que não fará quem ama?


Ora, a cortesã se dava

A uma vida de folguedos,

Só futilidade amava.

De tal vida, sem segredos,

Se propagavam os ecos:

No jardim não eram pecos.


Age assim o mandarim

Por noventa e nove noites.

De manhã ergueu-se, enfim,

Pega o banco das sonoites,

Foi-se embora, ao dealbar,

Para nunca mais voltar.



Dante


É Dante um dia abordado

Por alguém desconhecido:

- ”Qual é o melhor cozinhado,

Mundo fora conseguido?”


- ”Um ovo” - sem se voltar

Dante respondeu, mui breve.

Cinco anos se vão passar...

O mesmo homem que lá esteve


Cruzou por perto de Dante

Em outra rua qualquer.

- ”Com quê?” - lhe pergunta, instante

- ”Com sal” - eis Dante a dizer.


De Dante não é uma glória,

É apenas boa memória.



Tédio


Um rei, muito aborrecido

Do tédio da vida fútil,

Pede que tomem sentido

Nalguma façanha útil,

Que encontrem alguém capaz

De algo que mais ninguém faz.


Os emissários procuram

E acabam trazendo um homem

Que de longe – é o que asseguram -

Lança um fio que as mãos domem,

Fá-lo passar, sem mais bulha,

No buraco duma agulha.


Portento inimaginável,

Tal homem o executou

Ante o rei, corte infindável,

Muitas vezes o provou...

Dá-lhe o rei cem moedas de oiro

Mais cem açoites de coiro.


- ”Mas porquê cem vergastadas?” -

Pergunta o homem, aflito.

- ”As moedas de oiro são dadas

À façanha que, acredito,

Ninguém, em nenhum lugar,

Será capaz de imitar.


As vergastadas, a par,

Que irás aqui receber

São para te castigar

De tanto tempo perder

A atingir com tal quilate

Semelhante disparate.”



Nichapur


Nichapur. Um mercador

Que teria de ir à China

Em negócios, por um ror

De tempo, a confiar se inclina

Uma escrava muito bela

A um amigo: - ”Tento nela!”


Tal amigo recebeu

A jovem (dezassete anos),

Do seu melhor procedeu,

A agradar, sem causar danos,

Porém, sempre a vigiar

Como prometera obrar.


A partir deste momento

Perdeu a calma e o sono.

Não pensa em nenhum evento,

Só na moça que tem dono.

Seu perfume persistente

Segue-o permanentemente.


Quanto admira dela a graça,

O sorriso, os finos pés,

O braço que o não abraça!

Ela olha-o triste, talvez,

O que a ele turva a reza,

Porém serve-o com destreza.


Como, contudo, era escrava,

Teria podido usá-la,

Dela abusar, nada o entrava.

Mas dele a fé não abala,

Licenciosidades, não

Tolera em seu coração.


Quando ocorria sonhar

Que à jovem rouba prazer,

Pelo alvor, ao levantar,

Por castigo merecer,

Fustiga-se à chicotada

Toda inteira a madrugada.


Um dia em que o massajava

Após o banho, ela viu

Os vergões que ele ostentava

Nos ombros e lhe inquiriu

Que era aquilo. Só um resmungo

Deu a entender que era um fungo.


A partir daí recusa

O cuidado corporal,

Perde o apetite, o que acusa

É uma magreza geral

E já sozinho falava,

Os mais dizem que variava.


Oito meses de tormento

Correram. A caravana

Retorna, a dado momento

Da China onde o sonho mana.

O mercador logo vem

Ver se tudo correu bem.


- ”Sim, correu.” - ”E de saúde?”

- ”Muito bem.” - ”E a escravazita?”

- ”Está boa.” - ”Só virtude?

Não deu problemas a dita?”

- ”Nenhum.” Mas o mercador

Viu-lhe da tez o palor,


Os braços mui descarnados,

Os tremores que agitavam

O corpo, toque a finados,

Parece até que o sugavam.

- ”Que tens tu? Estás doente?”

- ”Não tenho nada, é evidente.”


- ”Tens a certeza?” -”Garanto!”

O mercador retomou:

- ”Trouxe-te peças de encanto,

Algum jade, seda e vou

Mostrar-te a escrava chinesa,

Nova, uma flor de beleza.


Se te agrada, fazer podes

Dela tudo o que quiseres.”

O escanzelado os bigodes

Abre contra tais prazeres:

- ”Não, não quero os teus presentes,

Nem da escrava ver os dentes!


Fica com ela e também

Com a que deste a guardar.

Leva-a depressa dalém.”

- ”Não te veio contentar?

Faltou-te ao respeito acaso?”

- ”Leva-a sem mais nenhum prazo!


Nunca mais ouvir falar

Dela vou querer na vida,

Nem quero mais, em lugar,

Escrava jovem sortida.”

- ”Como queiras. Vou levá-la.”

- ”Fora daqui, que me abala!


Quero esquecê-la, me entendes?”

Fez a vénia o mercador

(“Vê o que perdes, vê o que rendes”)

Torna ao lar com o penhor

Daquelas duas escravas.

Há no outro saudades bravas:


Esquecer não esqueceu,

Ao invés, dentro morreu.


E apenas o tempo apura

Nele uma enfermiça cura.



José


José do Egipto, o mais belo,

Entra um dia numa sala

Onde as jovens, de escabelo,

Com olhar que se regala,

Estavam a descascar

Laranjas para o jantar.


Da beleza hipnotizadas,

Dele seguiam os gestos

A ponto de dar facadas

Sem dor sentir dos aprestos,

Dedos e mãos retalhando,

Nele os olhos represando.


José, dos irmãos vendido,

Escravo é do Faraó

Que à venda o pôs, despedido.

As damas metiam dó

Todas a se apresentar

Com o intuito de o comprar.


Trazem ricas oferendas,

Sacos de almíscar, essências,

Preciosidades, rendas...

Todas elas são carências.

Uma velha se aproxima,

Numa bengala se arrima.


Como era pobre, trazia,

Para a compra de José,

De cheiro erva com que enchia

Saca bem segura ao pé.

Fora aquilo que colhera

E preparara como era.


O que dirigia a venda

Comentou-lhe com desprezo:

- ”Como esperas, na contenda,

José comprar a tal peso?

O que trazes bem compara

Com doutras a prenda rara.”


- ”Sei tudo isso” - diz a velha.

- ”Então porque vens? Que queres?”

- ”Que me contem” - aconselha -

“Entre todas as mulheres

Que vieram ao teu pé

Tentar comprar o José.”



Bar


Um judeu americano

Entra num bar que ao balcão

Tem um negro com um pano.

Pede com resolução:


- ”Um café, preto de merda!”

- ”Preto de merda, porquê?” -

Sem se irritar, a voz lerda,

Diz o negro, de boa-fé. -


“Nada te fiz, nem conheço,

Podias ser educado,

Não me tratar sem apreço.”

Encolhe os ombros de enfado


O judeu, insiste em pressa.

Propõe-lhe o negro uma troca:

- ”Queres um gesto que meça

O que ouvi de tua boca?”


- ”Está bem, que é que tu queres?”

- ”Vem para trás do balcão,

É só mesmo para veres.”

O judeu segue a instrução,


O negro sai um momento,

Reentra no estaminé

E diz ao judeu atento:

- ”Judeu de merda, um café.”


- ”Não dou, não” - diz o judeu -

“Que debaixo destes tectos,

Enquanto é negócio meu,

Aqui não servimos pretos.”



Autocarro


Num autocarro, na América,

Os passageiros lugar

Tomam em fila colérica:

Ainda estava a vigorar

Que os negros vão na traseira

E os brancos, na dianteira.


Começam a aparecer

As tentativas primeiras

Contra o racismo que houver.

Os negros cerram fileiras,

Protestam veeementemente

Contra a afronta, de repente,


Como qualquer branco impante

Sentar-se querem à frente.

Mas estes seguem avante,

Nada cedem a tal gente:

- ”Eu sou branco, tu és negro,

É da lei em que me integro.”


Mas estes negros recusam

Os lugares lá de trás,

As altercações abusam,

Rebentam, que é que se faz?

O condutor do autocarro

Declara em jeito bizarro:


- ”Ouçam-me! Ninguém é preto

Nem branco, estão bem a ouvir?

São todos azuis, correcto?

Olhem-se bem, a seguir!”

Estacam, surpreendidos

E um diz, entre os aturdidos:


- ”Mas então que é que fazemos?

O motorista, pensando,

Crê por fim domar os demos:

- ”É fácil, a pensar ando:

Azuis-claros para a frente,

Escuros, atrás da gente.”



Ar


Nasredim recebe um dia

A visita dum dervixe.

Um ar santo o precedia,

Mal comeria uma quiche:

Costumes de santidade

E extrema frugalidade.


Hospitalidade oferta

Cuidando que ele queria

Comer algo, pela certa.

- ”Como bem pouco por dia”, -

Diz o santo homem então. -

“Ervas, a fruta do chão...


Dias há que me contento

Com água mais grãos de arroz.

Mas, se for de teu intento

Comer, como logo após

Contigo, é uma parceria

A fazer de companhia.


É que é bem desagradável

Ter de alguém comer sozinho.”

- ”É verdade insofismável

E agradeço-te o carinho.

Que queres então comer?”

- ”Seja lá o que for que houver.”


- ”Servem ovos estrelados?”

- ”Perfeitamente.” - ”E tu gostas

Deles bem ou mal passados?”

- ”Tanto faz. Mas são mal postas

As frituras em sertã

Com azeite, opção malsã.”


- ”Como então queres que os faça?”

- ”Simples, numa pedra quente.

No centro, a gema, com graça,

Cuidado, que não rebente.

Isto é que é o mais importante,

Tudo o mais passa adiante.”


- ”Ora, então, são bem passados?”

- ”Sim, porém, não em excesso.

A orla da clara, aos lados,

Dourada um pouco te peço.

Vês o que quero dizer?”

- ”Muito bem, é só querer.”


- ”No derradeiro momento

De vinagre umas gotinhas

Caíam que nem pão bento.

Tens vinagre do das vinhas?”

- ”Claro.” - ”Vinagre do bom?”

- ”Do melhor e de bom tom.


Mas diz-me, gostas dos ovos

Com muito ou com pouco sal?”

- ”Muitto, não. Porém, dos novos

Sais vindos do mar real,

Se de todo não te importas.

E, já que tanto me exortas,


De orégão umas folhinhas

A rematar, que delícia!

De alho duas dentadinhas

E é pronta a boa notícia!”

Nasredim então lhe diz:

- ”Passo a informar que a perdiz


Que os ovos pôs para a gente

Se chama Misa, afinal.

Não vês inconveniente?

E não te irão saber mal?”

E pensa: “Frugalidade!

Então que é voracidade?...”



Orgulho


Al-Saqati, o ancião,

No século nono vive

Em Bagdade, a mãe do pão.

Alguém lhe pergunta então:

- ”Se orgulha do que se prive?”


Reflectiu mui longamente

E respondeu no final:

- ”Me orgulho de ter em mente

Há decénios a insistente

De comer vontade real,


Comer mel nalgum ensejo,

Pois resisto a tal desejo!”



Negros


Três negros, com dons de Deus,

Alcançam falar com Ele.

Pedem um favor aos céus

Que lho dão tal qual se apele.


- ”Faz de mim branco” - é o primeiro.

- ”Concedido” - Deus responde.

Fica dum branco pioneiro.

De contente, nem o esconde.


- ”E tu?” - pergunta ao segundo.

- ”Também branco ser queria.”

- ”Concedido, em dons abundo.”

E o segundo agradecia.


Deus dirige-se ao terceiro:

- ”Ficar branco também queres?”

- ”Não,eu não!” - ”Bem, companheiro,

Diz-me, afinal, que preferes?”


- ”Que voltem a ficar pretos

Os outros que hás atendido.”

E, em seus mágicos decretos,

Deus responde: - ”Concedido!”



Cabeça


Na Casa Drouot, Paris,

Um homem desconhecido

Apresentou-se, feliz,

Num leilão descomedido,


Leilão de arte oriental,

Uma amálgama de objectos

De valor mui desigual,

Vindos de locais secretos,


Coreia, Egipto, Tibete...

Na véspera, os comissários

Tinham visto que repete

Os expositores vários


Tal homem desconhecido:

Dum para o outro ia,

Parava como em sentido

Nos fragmentos de magia


De esculturas indianas.

No decorrer do leilão

Levanta as mãos soberanas

No cinquenta e seis, talão


“Cabeça de divindade

Feminina, de Índia vinda,

Dos séculos, para a idade,

VIII a XIII.” Coisa linda!


Lança uma primeira oferta

Que é coberta pela mesa.

A segunda outrem desperta

Que estava na sala coesa.


Ao terceiro lance, ganha.

Por um preço razoável

Ele a velharia apanha.

Paga o custo inevitável,


Leva a cabeça indiana

Em plástico saco pobre

Que trouxera e nada engana,

Na bolsa que nada encobre.


Volta a casa de autocarro,

Ao modesto apartamento

Em Courbevoie, lar de barro.

Dos docentes elemento


Ou então dos funcionários,

Os ombros já descaídos,

Passos com tremores vários,

Cabelos ralos, perdidos,


Entre quarenta e cinquenta

Serão seus anos de idade

Em que ao fim ninguém atenta.

Óculos usa, em verdade.


Pousou o saco na mesa,

Dele a cabeça retira,

Com precaução, gentileza,

Pô-la à frente e fixo a mira.


Era um rosto de mulher

Com um ligeiro sorriso,

Pérolas a lá conter

Da cabeça, ao alto, o siso,


Restos de policromia...

Como muitas, arrancada

Ao suporte sido havia,

A punção, à martelada,


No século dezanove

Ou talvez século vinte.

Vendeu-a quem a remove,

Com clandestino requinte,


Por uns obscuros circuitos

Que sugam beleza ao mundo.

Alguns livros entre muitos

Abre o homem e um fecundo


Ficheiro de indicações,

Múltiplas fotografias.

A origem como as funções

Da cabeça por tais vias


Logra calmo precisar.

Pátina examina, estilo,

Aturado a comparar.

E conclui, por fim, tranquilo,


Que deve ter pertencido

A um templo Tamil Nadu,

De Índia no sudeste erguido.

De Estugarda a Katmandu


Meses depois ele voa,

Por fim aterra em Madrasta.

Sem meios, viaja à toa,

Do modo em que menos gasta,


Mas conservando consigo

Sempre de pedra a cabeça,

Num saco posto ao abrigo.

Num autocarro atravessa


Até Madurai, no sul.

Numa velha bicicleta

Lento faz que se acumule

Uma pesquisa completa.


Era simples a intenção:

Restituir a cabeça

Ao corpo donde o ladrão

Havia roubado a peça.


Ele, cidadão francês,

Desejava ter um gesto,

Mínimo embora, cortês,

Contra o intérmino, imodesto


Furto de que vinham sendo

Vítimas os templos mil

Do mundo de que dependo,

Séculos de hábito vil.


Optando por importar

Cabeças a revender,

Os ladrões decapitar

Vão decerto, sem rever,


Às centenas de milhar

As estátuas mundo fora.

Reconstituir no lugar

Quer ao menos uma agora.


Queria ter a certeza

De que sua vida tinha

Servido para uma empresa

Boa aqui, como convinha.


Pretendia uma acção justa,

De justeza indiscutível.

Desinteressada, custa

O que custa, inamovível.


Devagar, meteu-se à estrada

Na bicicleta queixosa

Com a cabeça cortada

Presa atrás, jóia valiosa.


Em todo o templo parava,

Fora modesto ou grandioso,

Nas estátuas atentava.

Decapitadas por gozo


À mão dos saqueadores,

A maior parte não tinha

Já cabeça e seus humores.

À procura da adivinha,


Elimina efígies de homem

Para só dar importância

Às femininas que assomem.

Às vezes, mesmo à distância,


Um relance já bastava:

Nem dimensão nem estilo

Dão resposta ao que buscava.

Para enfim ficar tranquilo,


Às vezes trepava a um muro,

Chega a pedir uma escada

Para pôr, pelo seguro,

A cabeça na entalhada


Estátua que é duvidosa.

Examina desta forma

Milhares: não cansa, goza.

Com pouco viveu, por norma,


Dormiu, de hábito, ao relento,

Atado por uma guita

À bicicleta do intento.

De arroz, fruta que concita


Se alimentava somente.

Baixote, magro, com pêlo,

As roupas rapidamente

Troca do europeu modelo


Por tanga, corpete e socos

E, com a barba crescida,

Ignorado é como poucos.

Mais de meio ano de vida


Após, encontra por fim

O corpo que respondia

À cabeça. Alegre, enfim,

Fecha os olhos, pensou que ia


Desmaiar com a alegria.

Tudo agora estava certo:

Dimensão, corte, a macia

Face com o áspero perto,


Até os restos de pintura...

Isto ocorreu em Trichi,

Num dos recintos que apura

De Ranganatha Suami


Ser parte do templo imenso,

Dedicado ao deus Vishnu.

Com seu bronzeado intenso

Por um peregrino hindu


Passou, penetrar logrando

Nos locais aos mais proibidos,

Com a guarda vigiando.

Em recantos escondidos


Conseguiu por lá dormir.

Com espátula e cimento,

À noite, ninguém a ouvir,

Na estátua põe o elemento


Da cabeça que faltava.

Não se lhe nota a fissura

A uns metros, quando se olhava.

É uma apsará tal figura,


Uma folha de palmeira

Ostenta na mão direita.

Única por ora inteira

Entre cada irmã desfeita.


Sorriso débil, graciosa,

Tem sempre um pé levantado

Numa postura teimosa

Que é da tradição o fado.


Olha para tudo e nada,

Tinha então voltado a casa.

A tarefa terminada,

Sentou-se na pedra rasa


O homem, não mexeu mais.

De vez em quando se lava,

Come, tem gestos que tais,

Depois volta à pose escrava.


Feliz, satisfeito, quem

O poderia saber?

De qualquer modo, porém,

É pobre, um mui pobre ser.


Peregrinos e turistas

Cruzavam em seu redor,

Incessantes, em mil pistas.

Um dia sente um calor


De moeda a cair na mão.

Um visitante deixado

A havia: toma-o então

Por mendigo consumado.


O homem ergue a cabeça

Para a imagem, nela viu

Que distintamente, a peça,

Ao olhá-lo, ali sorriu.


Então abriu mais a mão,

Estendeu-a para diante.

Muitas moedas cair vão,

Até rupias garante.


No alto, a estátua de apsará

Continua-lhe a sorrir.

Compreendeu que era acolá

O lugar de a seu fim ir,


De terminar os seus dias.

Muito descansado, pensa

Que valeu mais que as folias,

Quem quer melhor recompensa?



Nacionalidade


Quando Hodja foi tunisino,

Tomou-se de admiração

Por Inglaterra. O destino

Fê-lo requerer então


Dela a nacionalidade.

Foram empenhos, gorgetas,

Anos muitos de ansiedade

Para aproximar as metas.


Ao chegar o grande dia,

Quando a carta oficial

Em ordem tudo dizia,

Vestiu-se, em gala real,


Com o melhor albornoz

Para ir ao consulado

De Inglaterra, logo após,

Ao passaporte acabado.


Um amigo o acompanhou.

Quer que este o espere na rua

E no consulado entrou

Sozinho, que no ar flutua.


Mas meia hora mais tarde

Sai de lá, porém em pranto,

Abatido e sem alarde.

- ”Que se passa?” - com espanto


Pergunta-lhe então o amigo. -

“Recusam-te o passaporte

Por derradeiro castigo?”

- ”Não, deram-mo. Que má sorte!”


- ”Mas então de que te queixas?”

Abana a cabeça, cinde-a,

De dor , em duas madeixas,

Diz: -”Ai! Perdemos a Índia!”



Istambul


De Istambul um muçulmano,

Por um cristão convencido,

Converteu-se sem ter dano,

De olhar ingénuo, sentido,

A um claro cristianismo

E recebeu o baptismo.


A ler os livros sagrados

Do que é cristã tradição,

Evangelhos, Bíblia, grados

Padres de antes, pôs-se então.

No Evangelho de S. Marcos

Chega, ao fim de esforços parcos,


Chega a saber que Jesus,

Em vez de reconhecido

Inocente, o que traduz

Dos judeus o mau sentido

É que aos romanos o dão

Que crucificá-lo irão.


Furioso, o convertido

Agarra então num cutelo,

Corre a um judeu conhecido,

Com loja num cotovelo,

Derruba-o em curto espaço,

O cutelo no cachaço.


- ”Cão judeu, vou degolar-te!

Vou-te cortar a cabeça,

Dá-la aos cães, tal quem reparte.”

- ”Degolar-me?! Céus, homessa!

Mas porquê?!” - diz o lojista.

- ”Ainda te atreves, faquista,


A perguntar-me porquê?!

Quando foste tu e os teus

Que entregaram à mercê

Dos Romanos Deus dos céus,

Que mataram numa cruz

Ignobilmente Jesus?!”


- ”Mas isso” - diz o judeu -

“É velho e já não faz danos.

É muito velho, ocorreu

Já faz mais de dois mil anos.”

- ”Que importa toda a demora?

Eu por mim só soube agora.”



Cão


Lambe um cão napolitano

Uma lima. As asperezas

Rasgam-lhe a língua com dano,

Corre o sangue sem defesas.


O cão gosta do sabor

Do sangue e a lamber a lima

Mantém-se, apesar da dor

Que possa sentir por cima.


Nada, pois, o faz parar...

- Cão-homem: ambos a par!



Doenças


De todas as doenças sofre um homem,

Tem todos os sintomas, sua vida

São os mil sofrimentos que o consomem,

Angústias que jamais terão medida.


Que doença podia ser a sua?

Não sabia: cabeça, ventre, rins?...

Impossível dizer: todo ele sua,

Todo o corpo é uma dor em seus confins.


Um médico, porém, lhe diagnostica

Com rigor todo o mal que o atingia:
É doença incurável que ali fica

Arrastando-o na morte cada dia.


O estranho é que, informado, sente alívio:

Agradece ao bom médico e recebe

Amigos que hão tombado num oblívio.

A conversar e a rir, com eles bebe.


Um deles lhe pergunta que razões

Hão-de estar por detrás desta atitude.

- ”É que até agora foram mil lesões,

Agora só há uma que em mim grude.”



Sabedoria


Perguntam a Goha um dia

Donde é que a sabedoria


Que lhe conheciam todos

Lhe vinha assim tão a rodos.


Contou-lhes que possuía

O segredo e a magia


Do que é douta inteligência.

- ”De que forma?” - ”Bem, na essência,


De pílulas sob a forma.

Da receita tenho a norma.”


Instaram que revelara,

Afinal, tal jóia rara.


Em vão se furta à resposta:

A sério levam a aposta.


Foi apanhar, lavra a lavra,

Mil caganitas de cabra,


Cortou-as, moldou bolinhos,

Junta açúcar e cominhos,


Meteu-os num saco atado,

Foi vendê-los ao mercado.


Armou a pequena banca

E apregoa, alçada a anca:


- ”Pílulas da inteligência!

Dez dinares, é ciência,


Um grande segredo enfim

Revelado, vão por mim!


Minhas pílulas comprai,

Dez dinares e pasmai:


Sereis mesmo inteligentes,

Por tuta e meia contentes.”


Não há muito ajuntamento.

O descrente do argumento


Passa , os ombros encolhendo.

Mas há sempre um bronco crendo


Que o saco toma, examina:

- ”É eficaz? Isto é uma mina!”


- ”Duma eficácia tremenda!

E muito rápido, entenda!


- ”Ficarei inteligente

Como quem burro me sente?”


- ”Até muito mais do que eles” -

Diz Goha, a troçar daqueles.


O cliente compra um saco,

Abriu-o e provou um naco.


Mastigou por um bocado,

Depois cuspiu, enojado:


- ”Mas isto é bosta! É o que abona?!”

- ”Pois é! Vê como funciona?”


Escultor


Um escultor brasileiro,

Sem qualquer formação de artes,

Busca, madeiro a madeiro,

Esculpe de animais partes.

Uns são conhecidos dele,

Outros, não. Nada repele.


A girafa esculpe um dia

Sem nenhum modelo dela,

Sem imagem que veria:

Esculpe sem nunca vê-la.

Alguém lhe faz a pergunta

De como é que aquilo assunta


- ”Pego meu toco de pau

E começo a trabalhar.

O que não pertence e é mau

Para a girafa talhar

Então aí boto fora.

Findo o bicho não demora.”



Rumi


De Rumi os seguidores

Puseram-se a lamentar

Das ausências os temores:

Não os deve mais largar.

- ”Quando não estás, sentimos

Tua falta e logo vimos


Que o mundo ficou vazio,

Sem sabermos que fazer,

A tristeza corre em rio...”

Com tal maneira de ser

Rumi se irritou deveras,

Despede-os sem mais esperas.


O filho dele estranhou,

Pergunta ao pai a razão.

- ”É que a sério” - comentou -

“Nem gostarão de mim, não.”

- ”Mas sim, gostam, uma vez

Que estranham se aqui não és.”


- ”Cada qual diz-se mui triste

Todo o tempo em que me vou,

Constantemente, já viste?

Amas-me tu no que sou?”

- ”Sim, meu pai.” - “Diz-me, porém,

Se não estou, não advém


Às vezes uma alegria?”

- ”Sim, claro” - responde o filho.

- ”Tal alegria seria

Eu também, um meu cadilho.

Eles, alunos falazes,

De a sentir são incapazes.”



Asceta


Um asceta mui severo

No intuito de penetrar

Da natura o cerne vero,

Porque um dia ouviu falar


De Nasredim como sábio

Tão grande que dele a fama

Faz que inteiro o mundo gabe-o,

Uma longa viagem trama


Para se encontrar com ele.

Puseram-se a conversar.

O asceta diz que o impele

Uma procura sem par,


Que, ao cabo de anos de esforço,

Ouve as mensagens do vento,

Com aves fala um escorço,

Dos peixes entende o intento...


- ”Não me admira nada, não.

Conheço com animais

Tal jeito de relação.

Um dia um peixe dos tais


Até me salvou a vida.”

- ”Tua vida um peixe salvou?!” -

Julga o asceta em seguida

Que é um prodígio que ignorou.


- ”Aqui está” - diz ele - “a prova

De que todo o ser vivente

Se entende, língua que inova

Com os mais, com toda a gente.”


Era o que sempre afirmara.

- ”Explica-me o que ocorreu.”

- Ӄ dificuldade rara,

Como entender o que é meu?”


- ”Não faz mal e me esclarece.

Conheço os peixes mui bem.

Com tua ajuda com esse,

Talvez o entenda também.”


Ajoelha ali no pó,

Pronto a renúncia qualquer,

Todo o sacrifício e dó.

Nasredim põe-se a dizer:


- ”Aquilo que vou contar

Vai chocar, magoar-te até.”

- ”E que é que me há-de importar?

Diz-me, rogo, homem de fé!”


- ”Como queiras. Pois sabendo

Fica que eu um dia estava

A um passo, quase morrendo

De fome, quando pescava.


Um peixe então se prendeu

Ao meu anzol quando eu já

Levo semanas de meu

A pescar em vão por lá.


Pus o belo peixe ao lume

E comi-o de seguida.

Tudo a isto se resume:

Como vês, salvou-me a vida.”



Água


Um dia a Buda apresentam

Um homem que se dizia

Que há seis anos seus pés tentam

Sobre água andar por magia.


Pretendia ter, enfim,

Conseguido atravessar

Com esforço um rio assim.

- ”A tal dor porque se dar?” -


Diz-lhe Buda descansado. -

“Dei uma moeda à barqueira

Que levou-me ao outro lado

Do rio sem mais canseira.”































3


Ao Serão de Terça-feira























Tacanhos


Os espíritos tacanhos,

Com inteligência lenta,

Imolam-se, tais quais anhos

A que a fortuna não tenta.


Um homem e uma mulher,

Lá pelo norte do Irão,

Amavam-se, tal quenquer,

Viam-se com discrição


Apenas de vez em quando.

Ambos muito jovens eram,

Em casamento falando

Vão, contra os pais que o não creram.


Um dia os vizinhos foram

Encontrar a rapariga

Desolada. Como ignoram,

Perguntam por uma amiga:


- ”Que é que se passa, afinal?”

- ”Ora, está tudo acabado!”

- ”Mas porquê?” - “Além, no vale,

Disse-me ele: no sagrado


Dia que é na sexta-feira,

Vai lá a casa, que ninguém

Vai lá estar a tarde inteira.”

- ”E então? Isso que é que tem?...”


- ”Ora, eu fui por lá, porém,

Não estava lá ninguém...”



Cego


De Edo pelas cercanias,

No Japão, em ano novo,

Um monge cego houve uns dias

Que, convivendo entre o povo,

Foi a casa dum amigo

De criança, por abrigo.


Comeram até fartar,

Beberam na lauta ceia

Até o cego levantar

Indo embora, a noite meia.

- ”Leva esta minha lanterna,

Que a noite vai ter-te à perna.”


- ”De lanterna eu não preciso” -

Diz-lhe então o monge cego.

- ”Precisas, sim, tem lá siso.

Não te vendo num refego,

Os mais contigo chocar

Poderão e magoar.”


- ”Com efeito, tens razão” -

Diz o cego e na lanterna

Pega e parte, ela na mão.

Ruas adiante, eis que aderna

Contra ele brutalmente

Um homem subitamente.


- ”Vê se vês por onde é que andas!” -

Exclama o cego. - ”Não viste

Pela lanterna as locandas?”

- ”Não vi, não” - diz o homem, triste -

“É que ela, nesta jornada,

Vai por inteiro apagada.”



Recém-casados


Na Índia, uns recém-casados

Não param de discutir:

Em campo algum acordados

São rumos por que seguir.


Cada um recriminava

O outro da malfadada

Sorte com que deparava

Do dia em cada jornada.


Era uma existência amarga,

Uma vida barulhenta.

A superarem tal carga,

Um amigo deles tenta


Que um guru da vizinhança

Consultem, o que fizeram.

- ”Só uma solução alcança

A paz aos que a bem quiseram:


Para um casal harmonioso,

Que se tornem é preciso

Os dois, como cada esposo,

Um só. Tal é o meu juízo.”


Logo os dois, a uma só voz:

- ”De acordo, claro, afinal

Que um só fiquemos após,

Tornados num só. Mas qual?...”



Mercador


I


Nos Balcãs caminhava o mercador,

De cidade em cidade, aldeia a aldeia.

Viajava por países de Ásia meia,

Pelo norte da Índia, até o sol-pôr.


Mercador de palavras como um ror

Já fora dele o pai, colhia a teia

Das palavras à sorte, onde as semeia

Dele o trilho de acaso, horto maior.


Pagava-as quando assim alguém lho impunha,

Cedia-as se alguém delas precisava.

E muitas eram onde o ignoto punha.


Ondas, marés, ao montanhês levava,

Neve e glaciar, aos tórridos países...

Mas quantos a tal torcem os narizes!


II


Atenta o mercador no utilitário,

Com termos de bazar, de indústria leve.

Sem grande entusiasmo, busca breve

Com que ganhar a vida em mundo vário.


Por entre quem amou vocabulário

E linguagem, célebre se teve

O mercador de termos, pois reteve

Cuidada ocupação de amor sumário.


Ao comum ajuntava as emoções,

Deslumbramentos de alma, sentimentos,

O afecto peculiar dos corações.


E quantos nele buscam alimentos

Eis que falam por momentos língua tal

Que brilha num mosaico universal.


III


De Portugal levou-nos a saudade,

Tristeza duma ausência dirigida

A quem já não temos cá na vida,

Que já tivemos, pois, mas noutra idade.


De Áustria, a palavra kitsch, de verdade

É que o mercador prende, de seguida,

De Espanha é o termo curso, na medida

Em que é um fora de moda mas que agrade.


Quando chegava a um sítio, os habitantes

Com ele vinham ter, muito discretos,

Descobrem sentimentos hesitantes


Para os quais não terão termos correctos.

E o mercador atento lhes abria,

Num novo termo, um mundo de magia.


IV


Os ladrões de palavras o pilhavam,

Ao desbarato vendem-lhe os tesoiros.

Nos seus cadernos são pepitas de oiros

Os termos que dispunha e lhe agradavam.


Um libanês cliente diz que os loiros

Da classificação nunca bastavam:

Do mercador as práticas armavam

Ordens, rubrica, dum caderno em coiros.


Com o tempo a linguagem foi cifrada,

Mesmo em código duplo, que talvez

A ladroagem fuja assim de vez.


E o cuidado maior desta charada

Tem este mercador, para sossego,

Nos termos a que tem maior apego.


V


Os povos todos que na terra vivem

Pensam e sentem duma igual maneira,

Mas de termos a falta, numa ou noutra leira,

Pode o aparecimento que motivem


Bloquear dum sentimento que se abeira.

Por isso cuidaria que se esquivem

De nós os mil afectos que revivem

Quando de os nomear não ando à beira.


Já que o conhecimento da palavra

Mais facilmente acesso deu à coisa,

Se vais desembestado à tua lavra


Logo o desembaraço em ti repoisa.

Evoca na palavra heróis que apeles,

Serás rapidamente um qualquer deles.


VI


O mercador às vezes faz a troca,

Palavras por legumes, ovo, aveia

Para a mula do carro com que ameia

Na estrada que ao povoado desemboca.


Se for numa palavra que coloca

Troca por troca de que a terra é cheia,

Madruga à luz às vezes da candeia,

Pois a seu termo nenhum abre a boca,


Que desvalorizá-lo o outro iria.

E põe de parte, dele na reserva,

O termo favorito, que não ia


Ser o grosso da venda, mas o observa.

E, ao comparar, repara: há muitos termos

Comuns às línguas, a regar-lhes ermos.



VII


A palavra elegante é sempre a mesma

De línguas em dezenas: conseguida,

Há-de ter nela a ideia bem contida

Na sua própria forma, atada à resma.


Não será de estranhar que, feita lesma,

Se veja no passado, ermida a ermida,

A tantos povos, lenta, distendida,

Se tenha acomodado e agora lês-ma.


Melancolia é um termo que inventado

Foi por quem lhe deu tal sonoridade

De badalada triste como um fado


Que por europa viaja, idade a idade:
Ninguém sabe porque há mais conseguidas

Palavras, só que são as difundidas.


VIII


O que tem para os termos bom ouvido

Não será um bem-falante, longe disso.

Dum endrominador não tem feitiço,

É bastante lacónico, um sonido


É o que dele ouvem quantos lhe hão surgido.

A força da palavra é o seu chamiço,

A única riqueza a dar-lhe viço,

De beleza selvagem um sortido.


Uma palavra basta para pôr

O mundo em movimento e lhe extrair

Um segredo inovado, com calor


Acrescer-lhe a surpresa dum porvir.

Quem das palavras vive é que, fecundo,

As memórias encerra em si do mundo.


IX


Espanta o mercador que chocolate

Seja palavra igual em toda a língua,

Como se de mais sons houvera míngua.

Porém, já borboleta se rebate


Diversa em todas; a igualdade vingo-a

Mantendo sugestivo um som que bate

Asas leves, farfale, um tal quilate

Que papillon, butterfly, não sofrem íngua


Na carne do sentido por que voam.

Que dizer do entrañable que, espanhol,

No íntimo sofre perdas que atordoam?


É como a despedida que no rol

Dum adeus para sempre, desmedida,

É a vera imagem já da nossa vida.


X


O termo bem formado, bem sonoro,

Trazia ao mercador muita alegria.

Em paisagem caminha que infundia

Maravilhas intérminas por foro.


Em Babel, afinal, Deus não punia

Multiplicando as línguas sem decoro

Porque este mar de termos não dá choro

É uma oferenda e nada a igualaria.


No Irão tarif é o termo que descobre

Para uma oferta recusar que dá

Muito prazer, delicadeza encobre


Que, refalsada, mal dispõe-nos já.

Que tanta língua legue, no final,

Assim a Deus é que então levo a mal?


XI


Aumenta de ambição o mercador,

Cuidou que seu negócio já podia

Tornar qualquer pessoa bem melhor,

Ensinando a justiça o que seria


Ou mesmo a compaixão que compraria

Por uma mão de arroz a um vendedor

Que do Tibete volta por tal via

Que a morte a farejar-lhe anda em redor.


Sem conta nem medida os benefícios

Devidos a tal homem sempre são.

Inscrevem-se em segredos os resquícios


Das coisas que nas línguas constarão

E é o que, por conseguinte, nos invade

E que constrói a nossa humanidade.


XII


Durante a guerra a actividade encolhe,

Só depois dela desenvolve então.

Nas nações novas os mercados vão

Entusiasmar-se com quem termos colhe:


A bomba atómica, o radar acolhe

O mercador para negócio são,

Num contrato vendeu mesmo o neutrão,

Como o stalag encante o que o recolhe.


Só que pouco depois o abrandamento

Da curiosidade foi demais,

Já ninguém necessita dum aumento


De termos estrangeiros que acenais.

Cuidou que o retrocesso é passageiro,

Enganou-se, do mal é pioneiro.


XIII


Parking se espalha pelo mundo inteiro,

Weekend e shopping seguem logo atrás.

Conquistadoras, quem venceu as traz

Por marca sua, da conquista ao cheiro.


Mas já o kolkhoze russo a que me abeiro,

Como uma nave soyuz bem falaz,

Não logram nunca acatamento em paz,

Do mundo o resto não se quer herdeiro.


Quem não vender sua palavra ao mundo

A perda tem já nele programada.

Razões políticas há nesta estrada,


De vida estilo de que me eu fecundo.

É que a língua acabamos por falar

Daqueles que gostamos de imitar.


XIV


A Inglaterra espalhou por todo o mundo

Os termos ganster, dandy, mesmo snob,

Embora o derradeiro nunca adobe

Um Baluchistão pobre mas jucundo.


De acordo ninguém diz, é O. K., no fundo

Tomam um drink, jeans usa qualquer Job,

T-shirt, fast food e o mais que nisto englobe

A língua inglesa a passear no mundo.


Porém jihad e fatwa apareceram

Vindas dum mundo que não era inglês.

Ameaçadoras, muito já correram,


Os compradores fazem bicha aos pés.

Analfabeto era não ler francês

Ou inglês e hoje é nem ver que é que lês.


XV


Há palavras morrendo cada dia,

Aspiradas no abismo da ignorância,

O inferno duma língua a que a elegância

Se perdeu na preguiça que nos guia.


Cada vez menos termos haveria

Mundo fora a marcar predominância,

Embora cresça em números a infância,

Explosão sem limites se anuncia.


Os ouvidos humanos se fecharam

Às palavras subtis que outros houveram.

Banalidades cobrem o planeta,


Redes fáceis que a todos enredaram.

Palavras raras, belas se perderam,

O irrelevante as suga, de hoje meta.


XVI


Por mais inverosímil que pareça,

Atém-se a humanidade ao termo pobre.

Árvore imensa onde a ramagem sobre,

As folhas vai perdendo, peça a peça.


Até os ramos da língua em que tropeça

Se quebram ressequidos, sem alfobre

De folhas, de vergônteas, já que cobre

O chão de tronco seco onde esmoreça.


Em vez dum feixe de vital frescura,

A língua é quase de betão pilar.

Um universo que se assim figura


Será uma noite onde, ao ninguém olhar,

Ninguém querer saber como nem quando,

As estrelas se foram apagando.



Califa


O califa de Bagdade

Se admira de Nasredim,

Sábio maior da cidade,

Sempre desdenhar, ao fim,

Das reuniões mui faladas,

No palácio organizadas,


De filósofos e sábios.

Ordem lhe acaba por dar,

Vinda de seus próprios lábios,

De numa participar.

Como se obrigado a murro,

Nasredim vai no seu burro


No dia determinado.

Para a cauda do animal,

Contudo, monta virado.

Apontando feito tal,

A cidade dele troça

Abertamente e sem mossa,


Que ele bem deixa que o façam.

Neste preparo é que chega

Ao lugar onde entrelaçam

Dos ditos sábios a achega.

É a vez de, em coro sidéreo,

Rirem deste despautério.


- ”Montaste o burro às avessas!

Como não te deste conta?!”

Não liga às vozes travessas,

Olha-os bem, de ponta a ponta.

O califa toma então

A palavra e eis a questão:


- ”Porque é que tu nunca vens

A nossas reuniões?

Pelo saber que tu tens

Elogiam-te as nações...”

- ”Misturar-me é que não quero

Com parvos que não venero.”


- ”Toma-los por imbecis?”

- ”Tenho a certeza, califa.”

- ”Que é que a tal te leva? Diz!”

- Ӄ que a pergunta, na rifa,

Nunca dizem que for certa.”

- ”Que pergunta têm alerta?”


- ”Perguntam mui parvamente

Porque montei ao contrário.”

- ”Certa não é, certamente...”

- ”É um questionar arbitrário.”

- ”Dize-me então, por favor,

Qual a pergunta a propor?”


- ”Exactamente a seguinte:

Terá sido Nasredim

Que ao contrário, por acinte,

Montara no burro assim,

Ou é o burro que há virado

Antes para o lado errado?”


E, tal como tinha vindo,

Foi para casa seguindo.



Râbia


Amulher santa do Islão,

Râbia, respostas nos deu

Que a via apontam do chão

A trepar até ao céu.


- ”Donde vens?” - “Do outro mundo.”

- ”Vais aonde?” - “Ao outro mundo.”


- ”E neste mundo que fazes?”

- ”Eu? Pouco dele, por fases.”


- ”E como é que fazes pouco?”

- ”Como-lhe o pão: como um louco


Durante o mesmo segundo,

Faço a obra do outro mundo.”



Visita


Um homem sábio visita

Râbia e fala longamente

De ilusões que o mundo incita,

Miséria sempre presente.


- ”Muito deves gostar disso,” -

Râbia das falas repoisa -

“Para ter-te tanto o enguiço

De não falar doutra coisa!”



Corânica


Numa corânica escola

O mulá faz o final

Exame a ver quem se enrola.

A um aluno diz, leal:


- ”Dou-te a escolher: serão duas

Questões fáceis que eu quiser

Ou uma, se me insinuas

A difícil pretender.”


- ”Quero que a difícil tomem.”

- ”Sendo assim, tu me responde:

Como nasce o primeiro homem?”

- ”Do ventre da mãe, eis donde.”


- ”Seja. E como nasce a mãe?”

- ”Isso agora” - o aluno assunta -

“Vai do combinado além:

É já segunda pergunta!”



Zen


I

Ao budismo zen afectos,

Conversam dois japoneses.

Com mestre dos mais correctos

A retiros fora, às vezes,


Um deles. O outro pergunta:

- ”Que é que fizeste?” - ”Formei,

Após quanto ali se assunta,

A conclusão que é de lei:


Parti tal cheguei – sem nada.”

- ”Então para quê o retiro?”

- ”Sem ele, sem a empreitada,

Como é que ao fim eu confiro


Que sem nada partido hei

Tal sem nada aqui cheguei?”


II

Um asceta zen contava

Que o mestre-mor que tivera

Como Oshibu se chamava.

- ”E que é que viste que ele era?” -

Pergunta-lhe um outro monge

Que ali viera de longe.


- Ӄ muito simples: cheguei

Lá junto dele sem nada

E sem nada retornei.”

- ”Apenas isso?! E te agrada

Afirmar que era o maior

Dos mestres que vens propor?!”


- ”Sim, em verdade eu o digo.”

- ”Mas porquê?!” - ”Porque, sem ele

Como saberia, amigo,

Que sem nada à flor da pele

Tinha chegado e sem nada

De novo parto na estrada?”



Morte


Uns anos depois da morte

Dum inestimável poeta

Juntaram-se, um pouco à sorte,

Uns chineses com a meta

De à pergunta responder:

Quando se pode dizer


Que um poeta estará morto?

“Quando ele perder a vida”,

“Se de editar perde o porto”

- De alguns vai ser a medida.


“Poeta bom morrerá quando

Já não consiga escrever,

Nem por ele nem a mando.”


Mas o consenso se vê

Da poesia neste aborto:

- ”Só quando ninguém o lê

É o poeta deveras morto.”



Agartha


Agartha, o sábio, vivia

Numa floresta indiana.

A solidão que escolhia

Agrada-lhe, não o empana.

Conhecido é por ciência

Dos três mundos e da essência.


Um príncipe o visitou

De longe ido que começa

Por pedir-lhe: - “Que é que sou,

De alma imortal uma peça?

- “Nada te posso dizer,

De tal não tenho saber.”


- ”Fala-me dos outros mundos

Que escapam à nossa vista.”

- “Não posso. Mesmo fecundos,

Não constam da minha lista.”

- ”Dos deuses a natureza...”

- ”Nada sei: matéria ilesa.”


O príncipe que passado

Meses em viagem houvera

Sente-se então enganado

E enraivado vocifera:

- ”Ignorante! Célebre és?!

A tua fama não tem pés!”


-” Isso depende” - responde. -

“Sou famoso do que sei,

Não do que não sei. Nem donde

Às questões responderei

Que faça um desaguisado

Príncipe descontrolado.”



Horta


Nasredim penetra um dia

Na horta do seu vizinho.

Soprava uma ventania.

Pôs-se ele então, de mansinho,

A apanhar para a sacola

Nabo, cenoura, cebola...


O vizinho apareceu

Irritado e perguntou

Que faz no que era de seu.

- ”Nem vais crer” - Hodja contou. -

“Ia a passar lá na rua

E o vento ao ar me flutua,


Num turbilhão pega em mim,

Pôs-me aqui na tua horta.”

- ”E então?” Diz-lhe Nasredim:

- ”Vento assim ninguém suporta,

Agarrei-me ao que podia,

Nabo, alface, uma endivia...


Só que o vento até os levava!”

- ”Estou vendo” - o vizinho olha

O saco que abarrotava. -

“Explica-me esta recolha

Aqui tão bem arrumada

No teu saco de enfiada.”


- ”Ora aí tens!” - diz Nasredim. -

“É o que me há preocupado

Quando chegaste, por fim.

Mexe comigo há bocado.

Pões o dedo na ferida:

Vê só do vento a medida!”



Conquistador


Ao grande conquistador

Que é de todos aclamado

De ter vitória alcançado

Dum inimigo de horror


E que então se vangloria

Disto até mais não poder,

O pobre dum esmoler

Pergunta intrigado um dia:


- ”Quem era, afinal, mais forte?

Tu ou o teu inimigo?”

- ”Eu, é claro, que o persigo.”

- ”Porque então tentar a sorte


Duma vitória a gabar-te

Se dela nem fazes parte?”



Estudante


Um estudante em viagem

Pede ao barqueiro que o passe

A contento, como a um pajem,

Do largo rio ante a imagem,

À outra margem que abrace.


Ora, o barqueiro vivia

Deste labor. Fá-lo entrar,

Logo aos remos se prendia,

Com cuidado se metia,

Profissional, a remar.


De pássaros passa um bando,

No momento, sobre o rio.

- ”Sabe os hábitos e quando

Vêm tais aves voando

Por aqui com tal ousio?”


- ”Eu cá não sei nada disso” -

Diz o barqueiro aplicado.

- ”Pois perdeste, de submisso,

Da vida um quarto de esquisso.”

Tendo o barco após rodeado


De plantas de água um lençol,

O estudante perguntou:

- ”De plantas toda esta mole

Como vive? Que asa bole

Nela, que nome lhe dou?”


- ”Não, não sei de coisa alguma

Dessas” - responde o barqueiro.

- ”Então tu perdeste, em suma,

Meia vida que ressuma

Das águas neste viveiro.”


Chegando do rio ao meio,

Diz outra vez o estudante:

- ”E estas águas, todo o veio

Donde vem? O rio cheio

Vai até onde adiante?”


- ”Disso não sei nada, a sério.”

- ”Três quartos da tua vida

Perdeste” - diz, nada aéreo,

O rapaz, com todo o império.

A madeira apodrecida


Abre um buraco nocasco

E o barco desata a encher-se

Como na torneira um frasco.

O barqueiro, ante o fiasco,

Pára e, com o alarme a ver-se,


Diz, vendo o barco a afundar-se:

- ”Sabes nadar?” - ”Não, não sei...”

-”Nesse caso, sem disfarce,

A vida inteira a afogar-se

É que aqui perdes por lei.”


E para a margem distante

Mergulhou, indo a nadar,

Deixando o barco, o estudante,

Mais o seu orgulho impante,

Rapidamente a afundar.



Ouvido


Em tempos que já lá vão,

Na China um homem gozava

De ouvido tão fino, tão,

Que da margem reparava

No ruído que, a nadar,

Faz o peixe, água a sulcar.


Ao colar o ouvido à terra,

Ouve toupeiras, minhocas...

Quando à noite em sono ferra,

A aranha, ao sair das tocas,

Faz um barulho larvar

Que o leva sempre a acordar.


Um dia foi um prodígio:

Teria ouvido a eclosão

Duma rosa no fastígio

De ao mundo abrir o botão.

Vizinhos foram com ele

A um jardim: que feito aquele!


Até um botão de rosa

Aproximou o ouvido,

Horas e horas ali goza,

Meio sorriso, o ruído.

- ”Ouves mesmo alguma coisa?”

Nos lábios o dedo poisa,


Recomenda aos curiosos

Não perturbem o exercício,

Aparentava os gozosos

Êxtases, tal como um vício.

Ouve as pétalas da flor

Com lentidão, ao calor,


Todas a se descolar,

Ouvia a seiva a fluir,

Murmúrios quase a aflorar,

Roçagar a mal surdir.

Ele nem termos sabia

Para contar o que ouvia.


Após horas no jardim

Uma mulher perguntou:

- ”E o cheiro como é, por fim?”

- ”O cheiro?! Qual?!” - exclamou. -

“Explica-me bem primeiro:

As rosas também têm cheiro?”



Alexandre


Quando Índia fora avançava,

Alexandre da existência

Da feiticeira augurava

De grande reputação

Que o futuro via então


Sem se jamais enganar.

Ficou muito surpreendido

Ao ver a mulher sem par,

Jovem, bela, olhar medido,

Que pergunta, o falar puro:

- ”Queres saber teu futuro?”


- ”Meu futuro não existe” -

Responde o conquistador. -

“Construo-o eu, é o que viste.”

- ”Como tu queiras, senhor.”

E Alexandre, de seguida:

- ”Porém,em contrapartida,


Quero saber como fazes,

Para prever o futuro

Tão exacto, em suas fases,

Com o teu modo seguro.”

- ”Pois eu posso-to dizer” -

Respondeu logo a mulher. -


“É de erguer de certo jeito

Um monte de paus talhados

Duma madeira a preceito.

De incenso são polvilhados.

E, enquanto se pronunciam

Certos termos, se acendiam


As chamas desta fogueira.

No lume que então se eleva

Podemos ver a certeira

Figura vinda da treva,

Com pormenor, do futuro.

Então é que o prefiguro.”


- ”Não me estás mentindo?” - ”Não!”

- ”Dizes-me como se faz?”

- ”Claro. Dou-te a indicação

Do pau de que hás-de ir atrás,

Como talhar os gravetos,

Como dispô-los, secretos,


Como misturar o incenso

E como lhe deitar fogo.”

- ”E verei, é o teu consenso,

O porvir nas chamas logo?”

- “Sim. Mas há uma condição:

Não poderás nunca, não,


Nem sequer por um momento,

Reflectir dum crocodilo

No olho esquerdo. Lamento.

Só no direito, tranquilo.

Mas no esquerdo, um mero instante,

É a perdição tua adiante.”


Diz-lhe Alexandre: - ”Está bem,

Já percebi a evidência.

Jamais tentarei, também,

Indo além do que convém,

Essa tua experiência.”



Mestre


Era um jovem japonês

Que a um mestre se dirigiu

De artes marciais, certa vez.

Grande especialista o viu


Para a prática da espada.

O tempo lhe perguntou

Preciso para apurada

Ter tal arte que sonhou.


- ”Dez anos” - o mestre diz.

- ”Dez anos?! É demasiado,

Não há força de aprendiz

Por prazo tão dilatado.”


E o mestre, a evitar enganos:

- ”Se assim for, então vinte anos.”



Brâmane


Um brâmane muito culto

Vai ter uma vez ao rei.

Dezoito dias o oculto

Lhe tenta explicar da lei,

Dezoito cantos que cita

Do sacro Bhagavad-Gîta.


Escutou com atenção

O rei, contudo, no fim,

Ao brâmane com unção

Diz, numa dúvida, enfim:

- ”Tudo isso está muito bem,

Mas compreendeste também


Tudo quanto me explicaste?”

Responde o brâmane: - ”Não,

Mas importante que baste

É que tu, de coração,

Vislumbando-lhe sentido,

O tenhas compreendido.”



Xun Zi


Xun Zi conta que um famoso

Mestre tomou, certo dia,

A decisão, imperioso,

De que jamais falaria.


Um discípulo pergunta:

- ”Mestre, se não falas mais,

Como é que a assembleia junta

Transmite, com que sinais,


O teu grande ensinamento?”

O mestre explicou-lhe assim:

- ”Fala acaso o firmamento?

Ora, as estações, no fim,

Ocorrem e as criaturas

Multiplicam-se, seguras.


Que me respondes a isto?”

Nada tinha a responder

Este aprendiz, tudo visto.

Silenciam, até ver...

- Este é o silêncio que após

Dali nos chega até nós.



Buda


Quando Buda oferecia

Na Índia os ensinamenos,

Os cultos, em romaria,

Quem de pensar quer fermentos,

Acorriam a escutá-lo

Para tentar praticá-lo.


Porém, os menos dotados,

Desprovidos de altos voos,

Ouviam, mas desolados:

- ”Levar à prática vou-os,


Mas como, se os não entendo?”

Um deles tanto se queixa

Que Buda, a sofrer o vendo,

Lhe tomou então a deixa


E aconselhou-o a varrer

Criteriosamente o chão

E as sandálias que tiver,

A limpar, polir à mão.


Ora, o homem alcançou

Deste modo o despertar

Que há que tempos desejou

Sem sequer o vislumbrar.



Rumi


O poeta Rumi falava

De música aos seus alunos.

Do rebab perguntava,

(Do Afeganistão é um múnus),

Donde vem a força, o encanto

Da música de seu canto.


Quando um o questionou,

Retorquiu-lhe em melodia:

- ”Deveras quando soou,

Eu do paraíso ouvia

A portada em movimento

Por um mui longo momento.”


-”Também eu” - o aluno afirma. -

“Também da porta o barulho

Ouvi, mas não se confirma

O êxtase que ali vasculho.

Porquê?” - ”Simples é a razão” -

Diz Rumi, descendo ao chão. -


“Do paraíso ouço a porta

Quando ela se vai abrindo.

Vós, quando o som vos transporta,

É a fechar que ela vai indo.

É pequena a diferença,

Mas é inversa a recompensa!”



Passos


Havia em Àfrica um homem

Magro mas de olhar brilhante.

Pelas aldeias se somem

Seus passos para diante.


Na mão leva um balde água,

Na outra, uma tocha acesa.

Se lhe perguntam que mágoa

Ou que esperança represa


O levam a transportar

Os dois objectos, responde:

- ”A tocha é para atear

O paraíso sempre onde


O não encontrar eterno,

Como água é para apagar

Por onde calhar o inferno.”

- ”Mas queres iluminar


O céu e apagar o diabo

Porquê?” - ”Travo atento a guerra

Porque vejo, ao fim e ao cabo,

Que há tudo isto aqui na terra.”


E, seguro, no maninho,

Continuava o caminho.



Filho


Nasredim um filho tinha

Que perguntou curioso:

- ”Porque flutua uma pinha,

Não vai ao fundo lodoso?”


Nasredim profundamente

Pensa para responder

Com franqueza, limpa a mente.

- ”Nada sei de tal, sequer.”


- “E como fazem os peixes

Ao respirar dentro de água?”

- ”Não sei, não. Porém, não deixes

De perguntar, não traz mágoa.”


- ”E as marés a que se devem?

Porque é que o mar sobe e desce?”

- ”Sei lá bem porque se elevem

E porque minga o que cresce!”


- ”Não te incomodam, em suma,

As perguntas de rajada?”

- ”Mas, de maneira nenhuma!

Sem tal, nunca aprendes nada...”



Noviço


Um noviço ao mestre chega

E pergunta: - ”Tenho em mim

A natureza que adrega

Buda ter até ao fim?”


- ”Não!” - lhe diz o mestre, seco.

- ”Mas não disseste que todo

O ser vivo, forte ou peco,

De Buda, de qualquer modo,


Terá sempre a natureza,

Mesmo a planta ou o animal?”

- ”Sim” - responde, sem surpresa.

- ”Porque não eu, afinal?!”


Peremptório, o mestre junta:

- ”Porque fazes a pergunta.”



Prender-se


Um jovem muito dotado,

Cioso de não prender-se

A nada, por nenhum lado,

(Como um sábio deve haver-se)


Certo viajante encontrou

Que ali cachimbo fumava

E desde logo o imitou.

Mal sentiu que começava


A tomar gosto ao tabaco,

Rápido abandona o fumo.

Um astrólogo, a um pataco,

Nas estrelas, em resumo,


Ensinou-lhe a ler destinos

E a remendar desonesta

Vida nos termos mais finos.

Logo um astrólogo em festa



Se tornou, mas ao dar conta

Do prazer de encaminhar,

Logo o remorso desponta,

Finda a tarefa a largar.


Experto em caligrafia,

Quando exímio se tornou,

Logo a tudo renuncia,

Que ali o medo o agarrou.


Como monge num convento,

Recebeu do superior

Proposta dum nobre intento:

Suceder-lhe vem propor.


Rejeitou, que a promoção

Temeu que o ia prender

E logo ao convento então

Foge sem adeus sequer.


O mesmo com a pintura,

O sabre, o teatro, o canto...

Se no píncaro figura,

Renuncia, põe-no a um canto.


Quando o fim se lhe aproxima,

Chama um clínico afamado.

O doente, de tudo acima

Quer ver-se, em ânsias, curado.


- ”Que devo fazer?” - pergunta,

Com profunda ansiedade.

- ”Que quer que lhe diga?” - assunta

O outro com sobriedade. -


“Anda assim tão preso à vida,

Tanto então ela o regala,

Que de forma desmedida

Quer tanto, ao fim, conservá-la?”



Pesca


Vem da pesca o jovem monge

Com sete peixes na rede.

Um velho encontra, não longe

De morrer de fome e sede,


Estendendo a mão à beira

Do caminho onde prossegue.

O monge então, com canseira,

Explica como consegue


Escolher-se um bom bambu,

Talhar a cana de pesca

E prender, sem mais tabu,

Fio, anzol e, pela fresca,


A eleição do rio onde ir.

E foi assim por diante,

Que minhoca preferir,

Que peixe a quer, hesitante,


Quando ao velhinho faminto

Lhe tomba a mão estendida,

Cai-lhe a cabeça do plinto

E morreu-lhe à fome a vida.



Dibbuk


Um dibbuk, entre os judeus,

É um defunto que dum vivo

Se apodera, o faz dos seus,

Para atormentá-lo, esquivo.


Hoje narrá-lo rareia.

Perguntaram a Mendel:

- ”Porque é que o ninguém nomeia?”

- ”Porque hoje livrar-se dele


(Vê só o alcance que tem)

Já não o sabe ninguém.”



Confúcio


Confúcio recomendava

O exercício da poesia,

Leitura de odes que amava.


Tseu-Hi recitou-lhe um dia

Uma passagem que diz

Dum rosto que em mulher via:


“Enruga os cantos, feliz,

Da boca um riso trocista.

Olhos belos de raiz


Brilharão, a quem a avista,

No esplendor a preto e branco

Que um fundo branco revista.


Deste a cor diversa arranco.”

Tseu-Hi pergunta o sentido

Que um filósofo mui franco


Encontra no que foi lido.

Confúcio, a quem o poema

Diz além do que é entendido,


Respondeu que isto era o lema

Fiel da sinceridade

Que considerava um tema


Da primária qualidade

Requerida à aplicação

Dos ritos de toda a idade.


Tseu-Hi perguntou-lhe então:

-”Sinceridade porquê?”

Confúcio, com convicção:


- ”Seja lá o que for que vê,

Um fundo branco é questão

Antes de o pintar, não é?”



Guru


Um discípulo a um guru

Votava tal confiança

Que bastava, sem tabu,


Pronunciar-lhe o nome: alcança

A largura atravessar

Dum rio a pé sem tardança,


Sobre águas a caminhar.

O guru, disto informado,

Vem o prodígio testar


Que ante ele foi confirmado.

A si próprio diz então:

“Como santo abençoado


Devo ser para a menção

De mim gerar tal poder!”

Logo, sem hesitação,


Atira-se ao rio, a ver,

Gritando: “Eu! Eu!” Eis senão

Quando acaba por morrer.



Rumi


Rumi, grande poeta persa,

De invasões mongóis expulso,

Espalha a vida, dispersa


Terra em terra, a tomar pulso...

Por fim passou na Turquia.

Por não perder dele o impulso,


Em casa o acolhe, em Konya,

Chams de Tabriz, poeta velho,

Que mui dele divergia.


Rumi dum mestre é um espelho,

Muito rico, bem rodeado,

Pede-lhe o sultão conselho...


Chams era pobre, inflamado,

Um errante, imprevisível.

Quando viu Rumi sentado,


Absorto de modo incrível

Num poema, com paixão,

Pergunta, um pouco irascível:


- ”Que fazes?! Por que razão?!”

- ”Nada que entendas!” Responde

Rumi. Chams agarra à mão


O poema e ali é donde

À lareira o atira então.

Chams de Tabriz não esconde


Que a Rumi quer tirar vendas.

Este grita, a fúria em vão:

- ”Que fazes?!” - ”Nada que entendas!”



Indiana


Conta uma história indiana

Que um mui célebre guru

Que a uma floresta se irmana


Há tempos, já seminu,

Visitaram certo dia

Uns estranhos. Muito a cru,


Uma questão lhes bulia.

- ”As respostas serão duas

À questão que se enuncia:


A primeira, a abrir-nos ruas,

A segunda e a terceira.”

As visitas, mentes nuas,


Se admiram daquela asneira:

- ”Falou de duas respostas

Mas depois, muito à ligeira,


Contou-nos três. São supostas?”

- ”Deixem-me explicar então.

À pergunta, logo expostas


Duas saídas irão.

De imediato reparei

Que, mal vo-las ponha à mão,


Vem-me à mente e então terei

Uma terceira intuído.

Por isso é que a acrescentei,


Por não ser desprevenido.”



Japonesa


Uma lenda japonesa

Conta que um jovem pintor

Que aperfeiçoar a cor

Pretende, a um mestre que preza

Vai que tinha grande fama

Em tons, matizes e trama.


Quando chega ao personagem,

Que só lecciona lhe dizem

Por dia as horas que visem

Do Sol dois pontos da viagem,

Ao nascer e ao pôr-do-sol,

Enquanto no jardim bole.


O mestre recebe o jovem

Que longa romagem tinha

Feito, como se adivinha.

Logo às pretensões que o movem

Acolhe, para regalo,

Ao aceitar ensiná-lo.


Lado a lado no jardim,

O jovem se apercebeu,

Para grande espanto seu,

De que o mestre é cego, enfim.

Como é que um cego podia

Cor lhe ensinar algum dia?


Ficou tentado a partir,

Porém decidiu ficar,

O mistério a decifrar.

O mestre cego a pedir

Ao novo aluno começa

Que os olhos feche e que peça


Uma cor à fantasia.

- ”De olhos fechados só vejo

O preto” - diz-lhe, sem pejo.

- ”Eu” - pois o mestre anuncia -

“Consigo às rãs ver o azul

Como aos céus o véu de tule.


Tenho em mim todas as cores.

Como alguém diz que sou cego?”

O jovem, já sem apego

A estranhos que tais mentores,

Cuida que perde o juízo

O velho, não tem mais siso.


Para o não contrariar,

Mantendo os olhos fechados,

Diz-lhe em termos inventados:

- ”Já começo algo a notar.”

- ”Que vês tu?” - ”Vejo o vermelho

De árvores de tronco velho.”


O velho mestre estacou

E, com espanto na voz,

Remata, incrédulo, a sós:

- ”Impossível! Onde estou,

Nem mesmo longe acolá,

Nenhumas árvores há...”



Neve


No Japão, em pleno inverno,

Caminhava um jovem monge

Por neve fresca até longe.

Voltando-se, ao frio interno,

Viu que imprimia pegadas

Atrás de si afundadas,


A pureza destruindo

Da brancura do coberto.

Para bater tudo certo,

Volta atrás, vai espargindo

Com as mãos a neve solta

Sobre as pegadas em volta.


Mas no caminho em retorno

Novas pegadas imprime,

Sempre assim, por mais que arrime

Neve por sobre o contorno

Novas pegadas se aninham

Por onde os seus pés caminham.


Foi ao mosteiro, arranjou

Então uma vassourinha

E, ao caminhar, adivinha

Que para quanto intentou

O melhor é caminhar

Às arrecuas e, a par,


As marcas ir apagando

À medida que as fazia.

Isto é lento em demasia

E depressa vai cansando.

Um monge as idas e vindas

Viu cheias de intenções lindas


E perguntou ao noviço:

- ”Que é que buscas tu ao certo?”

- ”Nem de longe nem de perto

Perturbar todo este viço

Imaculado da neve,

Pretendo apagar-me breve.”


- ”Pela primavera aguarda.

A neve derrete ao sol

E a tua pegada mole

Desaparece, não tarda.”

E o velho monge sereno

Bebe a alvura, calmo, em pleno.



Bovnam


A Bovnam, rabi de fama,

Se apresenta um velho um dia:

- ”Quem foge duma honraria,

(É o que o Talmude proclama)

Faz com que ela, ao que a repele,

Venha a correr atrás dele.


Pois bem , toda a minha vida

Fugi de honrarias eu,

Nenhuma me perseguiu.”

- Ӄ que tu, na tua lida,

Sempre andaste, contumaz,

Ansioso a olhar para trás.”



Gigantesca


Uma estátua gigantesca,

Buda deitado de lado

No Nirvana quando há entrado,

Esconsa, ninguém repesca

Das areias entre os dedos

Lá dos afegões rochedos.


Trezentos metros medir

Deverá de comprimento.

De todo o deserto o vento

Por séculos a zunir

A pouco e pouco enterrado

A terá, pois, nalgum lado.


De arqueólogos equipas

Tentam um século inteiro

O colosso verdadeiro

Encontrar e nem farripas

Vislumbram de algum sucesso,

Antes lhes é tudo avesso.


Contam que uma expedição,

Quando o país era presa

De guerra e convulsão tesa,

Se perdeu numa região

Árida, pela canícula

Da estiagem, sem retícula


De mapa que lhes valera.

Esgotaram provisões,

Reservas de água, rações...

A pé vão, agora à espera

Dum bom reabastecimento,

Mas nem rádios, de momento.


As forças iam perdendo,

Limiar de sobrevivência.

Uma noite, uma evidência

Num terreno vai-se erguendo:

Reconhecem pelo fosso

Que era uma boca de poço.


Logo um deles se arrastou,

Um calhau deixa cair:

Rumor de água vão ouvir

Que um pouco abaixo ecoou.

Reanima-os o ruído

E o poço é desimpedido.


A uma rocha arredondada

Amarraram uma corda.

É o mais magro que concorda

Descer e fazer a aguada.

A escuridão é completa

Mas encher cantis é a meta.


Puderam dessedentar-se

Da missão os elementos.

Acabaram-se os tormentos,

A vida ao corpo a tornar-se.

Comeram o que encontraram:

Bagas que ao poço tiraram.


Dormiram algumas horas,

Marcharam antes do sol,

Fugindo ao calor que imole.

Mais tarde, muito a desoras,

Socorrem-nos camponeses

Hospitaleiros, corteses.


Nunca souberam que tinham

Naquela noite encontrado,

Providenciais, ao lado,

Boas águas que os sustinham

De Buda na orelha cheia

Enterrada sob a areia.



Hitchcock


Para Hitchcock o que importa

Era acção, não o motivo.

Que é que está por trás da porta?

Vale é que dela me esquivo.


O segredo do segredo

É por McGuffin tratado.

Dois homens, conta o enredo,

Num comboio, lado a lado,


Viajam, quando um aponta

Do outro a mala lá por cima

E faz a pergunta tonta:

- ”Que é que leva neste clima?”


- ”Um McGuffin” - o outro acode.

- ”Que é que é isso exactamente?”

- Ӄ um aparelho que pode

Capturar-nos, de repente,


Leões nos Adirondacks.”

(É cadeia montanhosa

Que nem sequer atabaques

Toca a quem lá férias goza.)


- ”Não há lá nenhum leão!” -

Diz o outro com desdém.

- ”McGuffin talvez então

Não seja o que a mala tem...”



Saco


Na estepe de Ásia central

Carrega um homem um saco

Às costas, piramidal,

Ao sol quente, feito um caco.


Cruza com outro que quer

Saber o que o saco tem.

- ”Toalhas” - diz-lhe, a sofrer,

O que do saco é refém.


- ”Para quê?” - ”Secar a cara.”

- ”Mas é de loucos! Pesado

É demais. É pilha rara

De cem toalhas no costado!”


- ”Mas não é gesto gratuito:

É que, enfim, eu suo muito...”



Bolos


Nasredim diz ao vizinho:

- ”Adoro bolos de mel

Com sêmola, mas definho

Por não conseguir daquele


Manjar nem um só comer.”

- ”Então porquê?” - ”Porque em dia

Em que mel em casa houver

Não há sêmola e, se havia,


Então é o mel que nos falta.”

- ”Ainda assim, alguma vez,

Onde um é já o outro salta,

Os dois juntos ali vês.”


- ”Pois, mas quando isso se apraza

Eu jamais estou em casa.”



Strudel


Numa família judia

O filho pergunta um dia


Ao pai, um homem letrado,

Porque o strudel é chamado


De strudel. O pai reflecte

E diz como lhe compete:


- ”Não tem o strudel a forma,

A espessura que o conforma,


A consistência daquele

Comer chamado strudel?”


- ”Tem” - o moço lhe confirma.

- ”E a canela não se afirma


Nele como no strudel?”

- ”Sabe a canela como ele.”


- ”Tem dentro maçãs cozidas,

Tal um strudel, bem medidas?”


- ”Sim” - o filho lhe responde.

- ”Se todos os pontos onde


O comparar com strudel

É tal e qual como ele


Porque havia de o chamar

Dum outro modo, em lugar?”



Buracos


Nasredim muito ocupado

Num campo anda a abrir buracos.

No fundo dispõe uns nacos

De queijo e com mui cuidado

Logo os fecha muito bem.

Um amigo que lá vem


Pergunta-lhe porque aquilo

Ele andava ali fazendo.

- ”Abro buracos. Defendo

Que apanho ratos, tranquilo,

Só com este estratagema.”

- ”Como assim?! Isso é um poema...”


- ”Atraído pelo cheiro

Do queijo, o rato se inclina,

Funga e entra, é dele a sina,

Para o buraco, lampeiro.”

- “E porque os fechas então?”

- ”É para que os ratos não


Possam voltar a sair,

Uma vez dentro ao cair.”



Espelho


Um homem há um bom pedaço

Estava perante o espelho:

Fecha os olhos. De embaraço,

Pede a mulher um conselho:


- ”Que é que fazes tu, de pé,

Ante o espelho aí plantado?

Porque estás de olho fechado?”

- ”Eu quero ver como é que é:

Como é que eu sou a seguir

Quando estiver a dormir.”



Brasil


Em S. Paulo, no Brasil,

Recebe um italiano

Um amigo: -”Não refile,

Não conduzo por engano.

Meu cunhado é motorista,

Ele é que me deu a pista.


Não se inquiete, já que eu faço

Tal como ele me ensinou:

Ao sinal vermelho, esgaço,

Melhor, acelero e voo.

É que, se não corro assim,

Qualquer ladrão vem a mim.”


Com efeito, noite fora,

O brasileiro ultrapassa

Sinais vermelhos agora.

O italiano se embaça,

Do carro preso ao assento,

Quase aterrado do intento.


De súbito, ao sinal verde,

Logo o brasileiro estaca,

Quase a chiar travões perde.

- ”Que se passa?” - o outro ataca. -

“No sinal verde paraste,

Não há um ladrão que te arraste?”


- Ӄ que pode do outro lado

Vir chegando o meu cunhado.”



Capelista


Nasredim foi capelista,

Anotava as encomendas

Guardando o lápis à vista

No turbante, após as vendas.


- ”Porque o pões atrás da orelha?” -

Diz-lhe um cliente que sai.

- ”O nariz não o aconselha,

Se o lá puser, ele cai.”



Passeio


Dois homens vão a passeio,

Leva guarda-chuva um deles.

Começa a chover a meio.

Já chuva lhes pinga as peles

E o homem não quer abrir

O guarda-chuva, a seguir.


Pergunta o outro porquê.

- ”Não serviria de nada” -

Diz o amigo, de boa-fé. -

“Cobertura esburacada...”

- ”Então porque trouxeste esse?”

- ”Nunca pensei que chovesse.”



Analfabeto


Um homem analfabeto

Vem pedir a Nasredim

Que carta escreva, correcto,

A Istambul, que a manda assim.


- ”Não posso! Bem gostaria...” -

Diz-lhe Nasredim em troca.

- ”Porquê?” - ”Porque todo o dia,

Calçado com esta soca,


Muito me doem os pés.”

- ”Mas escreves tu com eles?!”

- ”Não, mas sofro dum revés:

A escrita a que tu apeles


Em minha caligrafia

É tão má que até Istambul

De caminhar eu teria,

Cruzando de norte a sul,


Para ler ao teu amigo

A carta que não consigo.”



Disparatadas



Perguntas disparatadas

Faziam a Nasredim,

De longe até disparadas

Para ouvir dele algo enfim.


- ”Quantas patas de rã são

Para ir daqui à Lua?”

-”Uma só,” - diz o truão -

“Mas bem mais longa que a tua.”



Banana


Num restaurante, no Irão,

Ao meditar sobre o mal,

Um cliente pede então

Uma banana mais sal.


Salga cuidadosamente

A banana e deita-a fora.

- ”Porquê?” - dizem ao cliente

Circunstantes, sem demora.


- ”Porque odeio nas entradas

Quaisquer bananas salgadas.”



Rússia


Na Rússia o judeu Mendel

Pegou no cesto e o abriu,

No regaço e sobre a pele

Uma toalha estendeu


E, sob os olhos atentos

Dos parceiros de viagem,

Pega na faca e em momentos

Corta um frango sem paragem.


A seguir descasca um ovo,

Batatas e beterraba,

E um pouco de azeite novo

Acrescenta e não acaba:


Cebola, sal e mostarda,

Mais um raminho de salsa...

Fica o efeito a olhar, não tarda,

Mas logo sob os pés se alça,


Abre a janela ao comboio

E atira tudo lá fora.

Dúvida a um parceiro mói-o,

Pergunta-lhe, não demora:


- ”Mas que acaba de fazer?!”

- ”Frango em salada judia.”

- ”Joga-a fora sem comer?!”

- ”É que não há, juraria,


Coisa que eu deteste mais

Neste mundo que a salada

Judia de frango. Tais

As razões. E ei-la enjeitada.”



Tempo


Anda um grupo a passear

E pergunta a Nasredim:

- ”Quanto tempo vai levar

Da aldeia até ao confim?”


- ”Andem!” - disse-lhes. - ”Mas quanto?”

- ”Andem” - repete. Mais nada

Retiram dele. Entretanto,

Fazem-se lestos à estrada.


E meia hora mais tarde

Chegam ao lugar seguinte.

Ouvem passos com alarde

A correr, tal por acinte.


Nasredim vêem agora,

Sem fôlego, a parar junto.

- ”Demora uma meia hora.”

- ”Porque não falou do assunto?”


- ”Porque antes eu não sabia

Qual era a velocidade

A que o grupo seguiria.

Ou isto não é verdade?”



Fumar


Certa noite, Nasredim

Tem vontade de fumar.

Não consegue afugentar

Tal desejo. Então, assim,


À pressa se levantou,

Bate à porta do vizinho

Que pergunta, de mansinho,

Mui depois que o acordou:


- ”Que queres?” - ”Tenho vontade

Muito horrível de fumar.

Não tens fogo no teu lar?”

- ”Fogo?!” - ”Sim.” - ”Vens de verdade


Acordar-me em plena noite

Pedindo fogo e na mão

Tens aceso um lampião?!”

- ”Busco quem o lume acoite.


Vê se mui alto não gritas,

Que o apagas, acreditas?”



Filho


Nasredim, com convidados,

Manda o filho comprar chá:

- ”Depressa, pés despachados!”

Vai o filho a correr já.


Retorna muito mais tarde

A arrastar os pés de sorna,

Quando lume nenhum arde,

De vez já perdida a jorna.


Repreende-o, furioso,

O pai: - ”Eu disse depressa!”

- ”Mas não disseste, é curioso,

Nada a quando se regressa...”



Quântico


Niels Bohr, o quântico físico,

Em Tisvild conhecia,

Na casa de campo um tísico

Com uma ancestral mania:

Mantinha uma ferradura

Por cima da porta escura.


- Ӄs mesmo supersticioso?

Acreditas de verdade

Que a ferradura traz gozo,

Vai trazer felicidade?”

- ”Claro que não” - responde ele. -

“Porém parece que aquele


Ferro resulta se o fite

Mesmo quem não acredite...”



Suíça


Durante a guerra voavam

Sobre a Suíça os ingleses

Enquanto bombardeavam

A Itália múltiplas vezes.


Da bateria suíça

O comandante chamou

Um piloto que na liça

Sobre ele alto sobrevoou..


- ”Você acaba de entrar

Em suíço território.”

- ”Eu sei “ - diz o inglês lá do ar.

- ”Se de imediato este inglório


Voo não voltar atrás,

Então terei de abrir fogo.”

- ”Eu sei” - torna o inglês, veraz,

E em rota nem liga ao rogo.


A bateria dispara

Durante vários minutos,

Nem a recarregar pára.

- ”Do vosso fogo os produtos


Estão cem metros abaixo” -

Diz o inglês, calmo e castiço.

- ”Eu sei” - responde-lhe, baixo,

O comandante suíço.


















4


Ao Serão de Quarta-feira
































Naftali


Naftali, mestre judeu,

Estava a ralhar um dia

A um filho que o mal fez seu,

De idade em dez anos ia.


- ”O que tu fizeste não

Está mesmo nada bem.”

- ”Que fazer na ocasião,” -

O petiz mal se contém -


“Se empurra o instinto do mal?...

Foi bem mais forte do que eu.”

- ”Pois” - diz o pai - “faz igual,

O mal como mal agiu,


Faz tu bem tal deve ser.

Ao menos imita-o nisso.”

- ”É verdade, é o que se quer,

Só que ele não tem o enguiço


Que nós temos, por sinal,

E no pior momento vem:

Não tem o instinto do mal

Que obrigue a fazer o bem.”



Água


Um fio de água corrente

De Mohammed Aslam à porta

Lhe murmura permanente.


Nunca lhe o desejo importa

Que tem sempre de a provar,

Não lhe toca porque, exorta,


Decerto pertence a um lar.

O desejo foi mais forte

Um dia, ao se refrescar.


Mas Aslam não perde o norte,

Tira de seu próprio poço

De água a bilha de transporte,


Do rego a despeja ao fosso.

A seguir encheu a bilha

De regato neste esboço,


Com consciência ergue a vasilha,

Bebe em paz, refeito moço:

Ninguém vê que água partilha.



Bassorá


Um homem de Bassorá

Na Idade Média decide

Que há-de ver, ou cá ou lá,

Custe o custo a que convide,

Do mundo o fim que haverá.


Teria ouvido falar

Por filósofos e poetas

Que o fim do mundo é um lugar

Onde viajantes estetas

Do abismo vão se acercar


No fundo do qual, uivantes,

Correrão rios ferventes.

Vendeu os bens todos dantes,

Comprou camelos correntes,

De guarda armada e garantes


Se rodeou e de comida

Em bastante quantidade,

Partindo então, de seguida,

Numa noite em que a cidade

Via a Lua Cheia erguida,


A aproveitar a frescura

E a nocturna claridade.

Caminhou à desmesura

Sempre a leste, que, em verdade

Era onde há o fim que procura.


Trocou camelos por mulas,

Para atravessar montanhas.

E por camelos com gulas

De águas em oásis tamanhas

Quando por China além bulas.


Cruzou rios e cidades,

Embarcou num barco à vela,

Do oceano imensidades

Transpondo a olhar uma estrela,

Choca em perigosidades,


Aventuras tenebrosas,

Alguns guarda-costas perde.

Chega à América e frondosas

São gentes, paisagem verde,

Pirâmides fabulosas

Feitas por quem nem o ferro

Afinal conheceria.

À doença, traição, erro,

A custo sobrevivia.

Viu pinguins longe, no aterro,


Que por humanos tomou.

Atravessou noutro barco

Outro mar que o balançou,

Que quase o atirou ao charco,

Mas a Europa alcançou.


De terra em terra fugiu

Escapando a locais guerras

Que então, de fio a pavio,

Devastam campos e serras

De Espanha aos Balcãs, no ousio.


Chega ao fim a volta ao mundo,

Quatro anos de provações,

O arredor atinge, imundo,

De Bassorá, seus brasões,

Donde partira jucundo.


Reconheceu a paisagem

Bem familiar da infância.

Na cidade finda a viagem,

Busca o bairro, a casa, em ânsia,

O irmão busca com coragem.


Viu-o no mesmo lugar

Onde o houvera deixado,

A meia-noite ao soar.

- ”Do mundo o fim avistado

Houveste, acaso, ao calhar?”


- ”Não vi nada semelhante.

Cavalguei e naveguei

E eis que me encontro perante

O lugar donde arranquei.

Dilema decepcionante,


É tal se nem viajado,

Saído do mesmo sítio

Houvera para algum lado.

Todo o meu percurso, dite-o

Embora, eis que tu sentado


Estás bem à minha frente

No teu lugar. Que serviu

Tanto esforço? De repente,

Que nada mudou se viu.”


- ”Engano!” - comenta, ausente,


O irmão. - ”Pois algo mudou.”

- ”Então o quê?” - ”Olha!” - estende

O dedo à Lua que achou

Cheia à partida e que rende

Um quarto, ora que chegou.


- ”Mudou a Lua” - lhe diz.

- ”Não mudou por minha causa,

Muda sempre de cariz,

A viagem não lhe impôs pausa.”

- ”Não disse tal, o que fiz


Foi apontar-lhe a mudança.

Tu parado, em movimento,

Pouco importa, o que ela alcança

É que muda a seu contento.

Não podes, após tal dança,


Dizer que é tudo como antes.”

Fica o viajante a pensar

E após diz, de olhos brilhantes:

- ”Como antes anda a mudar!”

E o outro, após uns instantes:

- ”Ainda está por provar.”



Chofar


Um judeu testemunhar

Foi perante um juiz russo.

Pergunta-lhe hora e lugar

Do evento, a coçar o buço.


- ”Foi quando o chofar tocou” -

Lhe retrucou o judeu.

- ”Que é um chofar?” - lhe perguntou.

- ”É um chofar!” - lhe respondeu.


O chofar é um instrumento

Feito em corno de carneiro

Que é tocado no momento

Dumas festas, o ano inteiro.


- ”Se não dizes de imediato

O que é um chofar” - diz o juiz -

“Na prisão é o seguinte acto

Em que tombas por um triz!”


- ”Um chofar é uma corneta.”

- ”Porque não disseste logo,

Sem que ameaças cometa?

É tudo arrancado a rogo!”


E o judeu, fincado à meta:

- ”Porque não é uma corneta!”



Faminto


Um faminto caminhava

Só e perdido no deserto.

Só com pão quente sonhava,

Ovo fresco, azeite perto.


A meio da noite chega

A um acampamento em hora

Em que um ladrão escorrega

Com os roubos, indo embora.


Ora, os donos acordaram,

Tomaram o vagabundo

Pelo ladrão que assustaram.

Cem bastonadas no imundo


Dão antes de descobrir

Que se haviam enganado.

Pois desculpam-se a seguir,

Põem-no bem alimentado


De ovos frescos e pão quente,

Mesmo até dum bom azeite.

Matou a fome, contente.

Semanas após o aceite,


Fatigado e esfomeado

Chega a um outro acampamento.

Viram-no tão esgalgado

Da fome pelo tormento


Que lhe ofertam de comer.

- ”Aceito” - diz às guinadas. -

“Contudo quero sofrer

Primeiro as cem bastonadas.”



Chammai


Uma das mais rigorosas

Das escolas do Talmude,

A de Chammai, diz que gozas

De divórcio, já, em virtude

De a mulher só um cozinhado

Haver mal confeccionado.


Um jovem questiona um dia,

Então, célebre rabino:

- ”Mas quem é que aceitaria

Tal coisa como destino?

Que haja a divórcio direito

Por tal razão tãosem jeito?”


- ”Não percebes nada, a frase

É escrita a bem da mulher,

É uma defesa de base.”

- ”Não estou a compreender...”

- ”Quando um homem estiver

Disposto a largar mulher


Por uma razão tão fútil,

A mulher deve feliz

Sentir-se, de isto ser útil

A se livrar do cariz

Dum homem tal, tão sem jeito

Que o divórcio é um bom preceito.”



Buraco


Um dia, de manhã cedo,

Nasredim cava um buraco

Nas hortas. Logo, num credo,

Enche-o de pedras e caco.


Olha então à sua frente

O monte de terra e cava

Outro buraco onde tente

A terra enfiar que sobrava.


Um vizinho fica a olhar,

Espantado com tal acto.

Nasredim, suor a limpar,

A pensar põe-se, pacato.


- ”Que vais fazer do segundo

Monte de terra cavado?

É num terceiro mais fundo

Buraco que tens pensado?!”


- ”Pára aí!” - diz Nasredim. -

“Não há tempo nem num ano

De explicar até ao fim

O pormenor do meu plano.”



Fumar


Um amigo alguém encontra

Que dois cigarros fumando

Juntos está, como a montra

Das marcas que anda queimando.


-”Eu por mim um vou fumando

E outro pelo meu cunhado

Que não pode fumar quando

Hoje é um hospitalizado.”


Uma semana mais tarde

Voltam a encontrar-se os dois.

No amigo um só cigarro arde

E o porquê quer o outro, pois.


- ”Este é pelo meu cunhado,

Continua no hospital.

Eu, entretanto, hei deixado

Já de fumar, por sinal.”



Soviético


No regime soviético,

Dois oficiais frente a frente.

Um pergunta ao outro, céptico,

A pergunta mais urgente:


- ”Que pensas tu do regime?”

- ”O mesmo que tu, solerte.”

- ”Nesse caso, convenci-me,

O meu dever é prender-te.”



Cruel


Um cruel governador

Pilhava, aterrorizava

Do Império Otomano um ror,

Nas terras que governava,


Doutro governador filho,

Que, por sua vez, bem duro

Com o povo foi, rastilho

Da fereza que hoje apuro.


A divisa parecia

A de que o poder é feito

Para abusar cada dia

Dele a torto e a direito.


Ora, um dervixe vestido

Muito desgraçadamente,

De santidade investido,

Noite e dia, permanente,


Anda ao acaso das ruas

Apregoando, convicto,

Mil insanidades cruas,

Ao que crê qualquer perito:


- ”Viva o governador, viva!

Que ao governador Alá

Dê vida longa e festiva!”

Ao dervixe faz que vá


Alguém mui prudentemente

Murmurar: - ”Porque ao tirano

Desejas longa e decente

Vida um ano atrás dum ano?”


- ”Porque o pai dele era mau

E ele ainda é pior.”

- ”Não entendo. O varapau

É que era de se lhe impor...”


- ”Pois então pensa um bocado:

Se nos livrarmos daquele,

Que desgraças, por seu lado,

Nos traria o filho dele?”



Selos


Numa estação de correios

Da caída União Soviética

Protesta alguém, sem rodeios,

Ante a empregada, com ética:


- ”Camarada, os novos selos

Com a efígie de Lenine

Não colam nunca: os meus zelos

Não resultam. Que os define?”


Com ar de enfado, a sorrir

Diz o balcão de bem perto:

- ”Vê. Não estás a cuspir,

A cuspir do lado certo...”



Húngaro


Um húngaro no hospital

Dos olhos e dos ouvidos

Quer o serviço que igual

Os trata nos ofendidos.


O soviético legado

Diz: - ”São dois departamentos,

O dos olhos é dum lado,

Doutro, os ouvidos.” Momentos


Após diz o paciente:

- ”Então tenho de ir aos dois.”

- ”Porquê?” - ”Vê que estou doente,

De quê não entendo, pois,


De algum tempo a esta parte,

E eu bem descanso e retoiço,

Meus sentidos vão destarte:

Eu não vejo aquilo que oiço...”



Inadequado


Um poder inadequado,

Inoperante seguia,

Lenine, Estaline ao lado,

Krustchev e Brejnev à guia,


Todos no mesmo comboio

E, de repente, este pára.

Diz Lenine (a espera mói-o),

Quando naquilo repara:


- ”Chamem especializados

Engenheiros do lugar

E que sejam despachados

O comboio a reparar.”


Chamaram os engenheiros,

Meteram mãos ao trabalho,

Mas nem saber nem dinheiros

Mexem um comboio falho.


Estaline berra então:

- ”Fuzilem os engenheiros

E o maquinista que é vão,

Também, já agora, os fogueiros!”


Obedecem-lhe, mas fica

O comboio ali parado.

Krustchev é após quem se aplica

A rever o destinado:


- ”É fácil, há que arranjar

Engenheiros, maquinistas,

Fogueiros para o lugar.”

É o que fazem pelas listas,


Mas o trem mantém-se ali

Paralisado de vez.

Então Brejnev sorri,

Olhando-os nos canapés:


- ”Camaradas, as cortinas

Fechemos e faz de conta

Que o trem corre nas colinas

Normalmente, ponta a ponta.”



Ditador


Como em qualquer ditadura,

O ditador quer feliz

O povo. Um disfarce apura

A ver o que o povo diz.


A um vendedor ambulante

Pergunta-lhe o que é que pensa

Do querido governante

Que ao país lavra a sentença.


Diz o homem: - ”Que mudança!

Até que enfim temos quem

Se preocupa. O povo dança!

Há escolas como convém,


Hospitais, públicos banhos,

Até justos tribunais.

E os ricos, hoje, em rebanhos,

Seguem exemplos que tais.


De repente, o mundo inteiro

Nos respeita e nos inveja.

Deus deu-nos guia e sendeiro,

Não há melhor que se veja.”


O governante, encantado,

Revelou-se e ao ambulante

Vendedor diz num trinado:

- ”Sou eu o chefe brilhante.


A agradecer-te a franqueza,

Pede-me o que tu quiseres,

Que te é dado de certeza.”

- ”Sim?!” - “São os meus afazeres.”


- ”Então concede-me um visto

Para eu poder do nicho

Fugir que é, desde que existo,

Todo este país de lixo.”



Imperador


Um imperador que tinha

Poder absoluto em tudo

Ouve que alguém adivinha,

Por trás de qualquer escudo


Todo o segredo do mundo.

Dos animais entendia

Da língua o selo fecundo,

Nas nuvens mensagens lia,


Decifra o código ao vento,

Às ondas do mar também,

Diz dos trovões qual o intento,

Com animais fala tem.


Até mesmo o pensamento

Em funda mente escondido

Lia a qualquer elemento

Que lhe houvera tal pedido.


O imperador manda-o vir.

Mal ele se perfilou,

Pôs-lhe questões a seguir:

- ”É vero o que aqui chegou?”


Ele respondeu que sim,

Que entende quaisquer sinais

Que a terra ofertar por fim,

Que os interpreta tais quais.


- ”Ouve,” - diz-lhe o imperador -

“Fechado nas minhas mãos

Tenho um pássaro cantor.

Vivo ou morto? Ou serão vãos


Teus esforços desde agora?”

O homem silenciou,

Reflectia sem demora:

Se morto o disser, o voo


O imperadorsoltará;

Mas, se disser que está vivo,

Logo ele esmagá-lo irá.

- ”Então? Isto é muito esquivo?”


Pensa um pouco mais na aposta

E diz, para todos verem:

- ”Pois, majestade, a resposta

É a que as tuas mãos quiserem.”



Chinês


I

Um soberano chinês

Que vivia junto a um lago

Um belo junco uma vez

Mandou montar. Tudo pago,


São madeiras preciosas,

A maior parte, lacadas,

Velas e cordame, grosas

De oiro e prata polvilhadas,


Esculturas, ornamentos

De bronze, de incrustações

De madrepérola aos centos.

Uma vez pronto às funções,


Manda o rei lançá-lo às águas.

Começa o junco a vogar

E o rei vai curar as mágoas

Margem fora a cavalgar.


Muito quilómetro além,

Voltam o rei e o cortejo,

Bem como o barco, também,

De vez cumprido o desejo.


II

Uns dias depois tornaram

O caminho a refazer

Com olhos que se extasiaram

De tal junco poder ver.


E nas semanas seguintes

O mesmo se repetiu.

O irmão do rei tais requintes

Estranhou e lhe inquiriu:


- ”Porque não trepas a bordo?

É o melhor junco do mundo,

O mais belo, estou de acordo,

Mas só em terra o vês jucundo?”


O rei responde ao irmão:

- Ӄ de facto muito belo.

Mas, se dele piso o chão,

Como então fruirei de vê-lo?”


III

Mas, ante a pressão constante,

A bordo o rei trepa um dia

Com a corte hilariante

No junco de fantasia.


Largam amarras e o barco

Lento se alonga em viagem.

Olha o rei ao mundo parco

Correndo olhos na paisagem:


Nada de novo lhe traz,

Montes, bosques conhecidos...

Até o irmão, muito atrás,

A acenar, braços erguidos.


De repente, nuvens vêm,

A ventania soprou

Sobre o lago ali refém

Que logo se encapelou.


O junco cerimonial

Era pesado e não tinha

Como resistir a tal

Furacão como convinha.


Partiu-se, desintegrou-se,

Alguns marinheiros tentam

Nadar, o mais afundou-se

Com o rei. Todos lamentam...


O irmão, que há meses se ferra

Na viagem, cão sem dono,

Esperto ficara em terra:

- Então subiu logo ao trono!



Ásia


Na central Ásia um esperto

Conseguiu entrar um dia

Do xeque no paço aberto

E o cavalo logo avia


Tal como se fora em casa:

Lesto pensou a montada

E a arrumar nada o atrasa

Os bens logo de assentada.


Estendeu-se e adormeceu.

Os guardas, muito espantados

Da atitude do sandeu,

Quiseram, pois, destes lados


Expulsá-lo como intruso.

Mas como era muito forte,

O à-vontede, fora de uso,

Hesitaram com tal porte,


Preferem notificar

Quem lhes é superior.

O intendente do lugar,

Depois um alto senhor,


Mesmo um ministro vieram

Com ele parlamentar,

Que as atitudes dele eram

Um enigma singular.


Tudo em vão. Diz que partia

Quando o momento chegasse.

E pediu a simpatia

Dum sono que o sossegasse.


Tanto em volta comentavam

Que chega ao governador.

Este viu que é que pensavam,

Manda chamar o impostor.


O homem, de mau humor

De o sono lhe interromperem,

Chega após de tempo um ror.

- ”Porque sem to concederem


Deitas no chão a dormir?”

- ”Porque é um caravanserai.

Fiz como quem quiser ir

A uma hospedaria e vai.”


- ”Caravanserai aqui?!

Palácio do imperador

É o que pisas, ai de ti!”

- ”E a quem pertence, senhor?”


- ”A quem queres que pertença?

A mim, claro, é o meu palácio!”

- ”E antes de quem era tença?”

- ”De meu pai, que o céu agrace-o!”


- ”E antes? - ”Ao pai de meu pai.”

O homem, por um momento

Em silêncio fundo cai.

Todos observam o evento.


- ”E antes do pai de teu pai,

A quem é que pertencia?”

- ”Ao pai dele.” - ”E antes?” - ”Ai,

Ao pai do pai, esta é a via.”


- ”E dizes que isto não é

Um caravanserai mesmo?

A entrar e a sair de ao pé

É só gente, gente a esmo!...”



Iraque


Durante a guerra do Iraque

Saddam Hussein procuram

Por todo o canto em destaque:

Só fumos se configuram.


Diversos sósias havia

Que sempre ele utilizava

Quando bem lhe parecia.

Um dia alguém os chamava


Secretamente. Hoje diz:

-”Tenho a boa e a má notícia.

Começo com que cariz?”

- ”Boa, que não faz sevícia.”


- ”Muito bem: Saddam é vivo.”

São mil gritos de alegria

Ao anúncio, um bom motivo.

- ”Mas a má que noticia?” -


É um sósia, quer sorte eterna...

- ”Ele perdeu já uma perna.”



Akbar


Akbar era o imperador

Pela generosidade

Famoso, dado o pendor

De aos ascetas com vontade


Favorecer lautamente.

Um destes que, num casebre

Vive miseravelmente

E gostaria com febre


De algo ter para auxiliar

Quem venha pedir-lhe ajuda,

Decidiu apresentar

Petição que o não iluda.


Chegou junto do monarca

Quando ele estava a rezar

E viu que não era parca

A petição no lugar:


- ”Dá-me, senhor, territórios,

Mais recursos, mais riquezas...”

Metido em seus envoltórios,

O asceta nem quis mais rezas,


Tenta logo, de imediato,

Abandonar tal espaço.

Mas o imperador, pacato,

Acena, toma-lhe o passo.


- ”Vieste ver-me?” - ”Sim.” - ”E embora

Ias sem me ter falado?”

- ”Vinha pedir, mas agora...”

- ”E então?” - ”Tendo reparado,


Vi que és tu próprio mendigo...

Prefiro ir ao meu abrigo.”



Ego


Tento-lhes olhar os olhos,

Todos têm ar altivo,

Orgulho a franzir sobrolhos,

Ego activado, incisivo.


Dirão: - ”Sou mais importante

Porque eu é que estou aqui.”

Com que objectivo adiante,

De que serve o frenesi?


- ”Para ser melhor que os mais” -

Dirá o ego. E para quê?

- ”Conforto como jamais

E uma segurança até


De que nenhum mal advém.”

Mas porquê ficar seguro?

- ”Para não sofrer também.”

Mas para quê tanto apuro


Se é só para não sofrer?

- ”Porque, de contrário, dói.”

Orgulho então e poder

São defesas do que mói?


- ”Claro, que a minha função

Foi sempre afastar a dor.”

E se eu tombar neste chão

Vazio mas com um ror


De orgulho e em busca insistente

De poder, isto não vai,

A prazo, uma dor crescente

Provocar-me, onde não cai


Quem humilde for deveras

E com os céus conectado?

- ”Agora, não noutras eras,

Não te dói em nenhum lado.


Só me ocupo com o agora.

Depois, logo se verá...”

E o ego todo se enflora

Sobre a tumba onde ele está.



Polónia


Nos tempos do comunismo,

Na Polónia se contava,

Medindo em dureza o abismo,

Que num grupo se encontrava

O americano, o francês

Com um polaco, eram três.


Alguém lhes perguntaria:

- ”Tocam às três da manhã

À porta. Que é que seria?”

Logo, o americano: - ”É vã

Mais alguma expectativa.

É o meu banqueiro: - 'Ora viva!


Eu nem pude esperar mais:

Suas acções japonesas

Tiveram subidas tais

Que a uma fortuna estão presas!'”

Depois o francês responde:

- ”Olho à porta para onde


Me aguarda uma rapariga

De pouca roupa vestida

Que me diz, sorrindo à intriga:

- 'Há tanto que em minha lida

Desejava conhecê-lo!

Posso entrar um pouco e vê-lo?'”


Ante a pergunta, o polaco

Reflecte um instante e diz:

- “Abri apenas um naco,

Vejo três, de mau cariz,

Roupa escura e de chapéu.

Murmura um deles, do breu:


- 'Daniel Poltarsky é o senhor?'

- 'Não! Ao fim do corredor...'”



Checoslováquia


Checoslováquia invadida

Pelo Pacto de Varsóvia.

Entra um checo de corrida

Na polícia, razão óbvia:


- ”Comissário! Comissário!

Venha, um soldado suíço

Roubou, grande salafrário,

Meu relógio russo. Enguiço!”


- ”Espera aí! Quer dizer:

Soldado russo roubou

Relógio suíço, é de ver...”

Logo o homem exclamou:


- ”Pois o senhor é que disse,

Não eu! Não quero chatice!”



China


De receber uma oferta

Acaba um rei de oriente:

Um manto. A costura acerta

Fio de oiro e prata, assente


Entre pedras preciosas.

Era um sinal de amizade

Do imperador que às formosas

Regiões da China agrade.


O rei vestiu-o, se admira

A um grande espelho e pergunta

A Nasredim que o lá mira:

- ”Quanto valho? Tudo junta!”


Nasredim examinou

Longamente o vestuário,

Um caderno retirou,

Faz um cálculo sumário:


- ”Vales quinhentas moedas!”

- ”Quinhentas?! Nem penses nisso!

Só o manto, com estas sedas,

Isso vale. E o meu feitiço?...”


- ”É verdade, ó grande rei.

Quando perguntaste quanto,

Entendi, tudo somei:

Só vale o valor do manto!”



Rússia


Na Rússia do comunismo

Fala em aula um professor

Muito acerca de humanismo.

Um petiz perguntador


Levanta a mão, questionou:

- ”Mas humanismo é o quê?”

O mestre pensou, pensou

E depois conta-lhe ao pé:


- ”De manhã, Lenine ergueu-se,

Vai fazer a barba ao rio.

É no campo. Então muniu-se

De sabão, navalha e, ao frio,


Vai a um regato ali perto.

Senta e põe-se a barbear.

Uma menina, num certo

Momento, o vem contemplar.


Quando finda, ela pergunta:

-'Que é que estiveste a fazer?'

Lenine apenas assunta:

- 'A barba, como quenquer.'”


Era de humanismo o exemplo.

Fica a turma mui perplexa,

Tudo mudo como um templo.

Porém, o petiz indexa:


- ”Mas, professor, porque é que isto

É um exemplo de humanismo?!”

- ”Ai valha-me o Santo Cristo!

Desgraçado, olha o abismo:


Lenine tinha a navalha!

Podia ter degolado

Num instante, como palha,

A moça que lhe há falado!”



Estaline


Estaline, o ditador,

Envelhecido, uma escolha

Quer fazer do sucessor

Que os loiros todos recolha.


Malenkov e Bulganine

Para junto dele chama.

Cada qual quer que examine

Aves que em gaiola aclama.


Nelas os mandou pegar.

Bulganine pega numa

Mas, de tanto medo a par,

Demais a aperta e, em suma,


Finda matando tal ave.

Estaline, descontente,

Mostra na cara que é grave.

Malenkov então, tremente,


Pega na mão a segunda.

Não quer o erro repetir,

De mão mole, o espaço abunda

E eis o pássaro a fugir.


Pega Estaline o terceiro,

Diz aos outros: - ”Olhem bem!”

Mui delicado e ligeiro,

Pega as patas ao refém,


E uma a uma, lentamente,

Arranca-lhe as penas todas.

Depenado, o inocente

Na mão se aconchega, às rodas.


Diz Estaline: - ”Estão vendo?

Para mais ainda está grato

Do calor que vai sorvendo

De minha mão este rato.”



França


Ao rei Luís XI de França

Vira um criado um piolho

Do manto a passear na trança.

Levantou a mão e o olho


Ao rei a dar a entender

Que ia prestar-lhe um serviço.

O rei se achegou a ver,

O outro o livra logo disso,


Tira o piolho e deita-o fora.

Quando o rei lhe perguntou,

Tal homem quase que chora

Vergonha e medo. E contou.


- ”Ainda bem” - disse-lhe o rei. -

“É um presságio bem feliz,

Pois que, tanto quanto sei,

Tal bicheza sempre quis


Homens jovens atacar.

O que quer dizer então

Que homem sou e novo, a par.”

Qurenta coroas dão


De presente a tal criado.

Mais tarde um oportunista

Fez menção de ter tirado

Algo à roupa que o rei vista.


O rei perguntou o que era.

Com algumas reticências

Simuladas e uma espera

Informou das evidências:


- ”Há pulgas na real roupagem.”

Uma de lá retirara.

- ”Tomas-me por um cão?! Pagem,

Que é que melhor lhe assentara?


De começo, como entrada,

São quarenta bastonadas.”



Samarcanda


Tamerlão, em Samarcanda,

Ia à cabeça das tropas.

Aos portões da cidade anda

Um mendigo com que topas

A estender ali a mão,

Esfarrapado, no chão.


Vendo-o, o tirano o mandou

Decapitar de imediato.

De pronto se executou

Aquele arbitrário acto.

Diz Nasredim: -”Afinal,

Porquê ordem tão brutal?


O mendigo nem havia

Sequer mostrado arrogância

Perante quem lá seguia...

De risco não era instância.”


- ”É verdade” - é Tamerlão

Quem o diz. - ”Mas,como parto

Em campanha este verão,

É mau presságio. Estou farto.”

Mais adiante Nasredim

Murmurava então assim:


- ”Não sei bem a qual dos dois

Um deles pressagiou, pois.”



Tchao-Tchéu


Aos alunos que queriam

Saber de que material

Uma estátua deveriam

Fazer de Buda, afinal,

Para se prostrar ante ela,

Tchao-Tchéu disse, na sequela:


- ”Seja o que for, barro não.”

- ”Porquê” - ”De estátuas de barro

Só se engalana um verão.

À primeira chuva esbarro

Nelas desfeitas, que agoiro!”

- ”Faremos uma então de oiro?”


- ”Logo o fogo a derretia...”

-”De madeira?” - ”Também não,

Que um incêndio a queima um dia...”

Os discípulos então

Entendem que ele não quer

Nenhuma estátua que houver.


E por aí se ficaram,

Ao sábio se conformaram.



Testemunha


Num negócio de carneiros

Um tratante desonesto

Diz que dez vendeu lampeiros

A um vizinho que, de resto,

Só de cinco lhe pagara

Dos dez com que contratara.


O vizinho a Nasredim

Pede, em sinal de amizade,

Que testemunhe, por fim,

Por ele. Vê se o persuade.

- ”Todavia, eu não sei nada

De tal negócio, de entrada.”


- ”Não tem importância alguma.

Tu só terás de jurar

Que é vero o que digo, em suma.

É simples testemunhar.

Se litígios tens aí,

O mesmo eu farei por ti.”


O cadi, no dia certo,

Convocou as duas partes

E as testemunhas do acerto.

A Nasredim, sem apartes,

Pergunta a dado momento:

- ”Confirmas este elemento,


Que o teu vizinho pagou

Ao marchante de carneiros

Os dez mesmo que comprou,

Todos e não só os primeiros?”

- ”Por Alá que o eu confirmo.

E o vendedor mesmo afirmo


Que até umas pauladas deu

Ao meu amigo, a tal ponto

Que uma perna lhe partiu.”

- ”O quê?! Não estarás tonto?

Ninguém falou de pauladas,

São furto as questões tratadas!”


- ”E acrescento que esse infame -

Continua Nasredim -

“Ouvi que, ao bater, lhe chame

Mil blasfémias, um sem fim,

Que jamais me é permitido

Aqui ouvir repetido.”


- ”É muito grave o que contas” -

Observava-lhe o cadi. -

“Cuidado com o que apontas,

Pode acontecer-te a ti,

Se não contas a verdade,

Coisa que nunca te agrade.”


- ”Eu não tenho nada a ver,

Mesmo nada com verdade.

Vieram-me aqui trazer

Apenas na qualidade,

Que o que apontei bem realça,

Duma testemunha falsa.”



Condenado


Um homem foi condenado

De prisão perpétua à pena.

Um amigo dedicado

Lamenta a quanto o condena:


- ”É mesmo horrível, já viste?

Toda a vida na prisão!”

- ”Não é quanto em mim existe,

Estás enganado, não!


O melhor desta demora

É que é só a partir de agora.”



Shiraz


Nasredim foi contratado

No tribunal de Shiraz,

Num Irão desgovernado.

Ver quem é e que é que o traz

Ante qualquer visitante

É a função que tem diante.


Apresentou-se-lhe um dia

Um homem que lhe pediu

Se ao juiz falar podia

Principal que lá existiu.

- ”Isso não vai ser possível” -

Diz Nasredim, impassível.


- ”Mas porquê?” - ”Porque ele está

Agora num julgamento.”

- ”E quanto é que durará?

Não sai a qualquer momento?”

- ”Depende: se ele é julgado

Ou não é como culpado.”



Afeganistão


Hodja, no Afeganistão,

Foi ao rei pedir um cargo,

Um rendoso até mais não.

O rei não quer pôr-lhe embargo:


- ”Que cargo desejas tu?”

- ”Um de teus ministros ser,

Do petróleo, sem tabu.”

- ”Do petróleo?! Hás-de saber


Que não há petróleo algum...”

- ”E daí? Que é que isso enguiça?

Não tens por lá também um

Que é Ministro da Justiça?”



Salomão


Salomão vai à prisão,

Chama os presos um a um

E, a cada, pergunta então

Se cometeu crime algum.


E todos a responder:

- ”Qual o quê? Eu não fiz nada!

Agora um crime qualquer!

A sentença está enganada,


Sou vítima de injustiça!”

Mas o rei não acredita,

Adivinha, atrás da liça,

Que a mentira é que os agita.


No entanto, um dos presos diz:

- ”Cometi, meu rei, um crime.

Mereço, pelo que fiz

A prisão que me redime.


Causei muitas vezes mal

A muitos meus semelhantes.

É um pesadelo real,

Nem durmo já como dantes.”


O rei chama de imediato

Os guardas e logo ordena

- ”Antes de algum desacato,

Libertem de toda a pena


Este grande criminoso,

Senão irá corromper

De inocentes o pasmoso

Bando que aqui dentro houver.”



Índia


Na Índia o brâmane Astica

Foi em peregrinação

A um sacro local que fica

Do Ganges lá num covão.


No caminho, ao se entregar

Dele às rituais abluções

Doutro rio num algar,

Um crocodilo, aos sacões,


Veio dele se achegando

Que pretendia informar-se

Do rumo que ia levando.

O brâmane, sem disfarce,


Respondeu de boa-fé.

O crocodilo pediu

Que com ele o leve a pé,

Que o sonho que em vida viu


Foi do Ganges ver as águas

Que não tinham ligação,

Para grandes dele mágoas,

Com o rio em que estarão.


O brâmane, compassivo,

Aceitou e o foi levando.

Como, apesar de bem vivo,

Mau é o réptil caminhando,


Meteu-o num grande saco

E aos ombros o carregou,

Sem lhe cobrar nem pataco.

E muitas vezes parou


A descansar do penoso

Esforço a que se entregou.

Chegam ao rio gozoso,

O crocodilo chorou


De fé com que lhe agradece.

Mas diz-lhe que ressequida

Tem a pele, que fenece...

Não pode ele, de seguida,


Levá.lo um pouco mais dentro,

Para as águas mais profundas?

Condu-lo o brâmane ao centro,

Onde há maretas jucundas.


Quando vem a regressar

Para terra, o crocodilo

Vai-lhe logo abocanhar

O pé, como é seu estilo.


- ”Assim me agradeces, dás

O mal pelo bem que fiz?

Que virtude é a que te traz?”

E o crocodilo lhe diz


- ”Vens-me falar de virtude?

Hoje o que é da rectidão

É comer quem nos ajude,

Bons alimentos darão.


Este é que é do mundo o estado,

Quer o tu queiras, quer não.”

Discutem, sem resultado.

Convence o brâmane então


O crocodilo a apelar

A três árbitros, ao menos.

Uma mangueira a velar

Na margem com uns acenos


É o primeiro que lhes conta:

- ”Aos homens dou todo o fruto,

Nem com um fico por conta.

Dou sombra, folhas, produto


Que lhes serve, porta a porta.

Porém, ao envelhecer,

Cortam-me os ramos - 'que importa?' -

E fazem mesmo mister


De da terra me arrancar.

Para os homens a virtude

É quem os alimentar

Destruir. Nada isto ilude.”


Uma vaca, consultada,

Foi pelo mesmo discurso:

Dera leite e, afadigada,

Laborara como um urso.


Depois, quando envelheceu,

Foi largada junto ao rio,

Das feras ao escarcéu,

À morte, por desfastio.


Terceiro árbitro, a raposa

Não gaba benfeitorias

Que lhe devam e não goza.

Quer do pormenor as guias,


Obriga a recontar tudo

E pede confirmação.

- ”Num assunto tão agudo

Não posso decidir, não,


Levianamente, à ligeira.

Não serei tão categórica

Como a vaca ou a mangueira.

Não basta a forma alegórica,


Tenho de ver rectamente

Da viagem a condição.

Crocodilo, certamente

Não te importarás, pois não,


De entrar no saco um momento

Para eu ficar sabendo

Como aqui te trouxe o intento?”

O crocodilo, tal vendo,


Nem hesita, entra no saco.

O brâmane o pôs às costas,

Uns passos deu, sem cavaco,

E a raposa olha as congostas.


- ”Vem comigo” - diz-lhe então.

Condu-los, brâmane e carga,

Da margem e do fundão

Para longe, nada a embarga.


Manda o brâmane pousar

Depois tudo lá no chão.

Numa grande pedra, a par,

Pega e, sem hesitação,


Ao crocodilo esmagou

A cabeça, ainda no saco.

- ”És imbecil,” - regougou

Ao brâmane - “que um pataco


Não vale o que tens na mente.”

Depois chamou a família

E cada qual, mui contente,

Devorou, sem mais quezília,


O crocodilo feroz.

Brâmane é vegetariano?

Fez excepção logo após,

Da troca não sofreu dano.



Divórcio


Nasredim Hodja desposa

Mulher em núpcias segundas,

Viúva de muita prosa.

Recordações mui jucundas


Guardava de anterior lar,

Do morto, do irmão, da irmã,

Filhos, gente singular.

Do falecido, mui chã,


Acolhera os quatro filhos

Dum anterior casamento.

Atara-os com tais atilhos

Que hoje aguardam o momento


De vir com toda a família

Visitá-la o mês inteiro

Em sacrossanta vigília,

Alegria sem argueiro.


Ela tivera três filhos

Que continuava a educar,

Sempre em casa, sem sarilhos,

De Nasredim, novo lar.


Nasredim vai ter um dia

Com o cadi: foi pedir

O divórcio, pois queria

Da família prescindir.


- ”Por que motivo?” - o cadi,

Espantado, perguntou.

- ”Porque à noite, ao que já vi,

Sempre a mulher me expulsou.


Atira comigo fora

Da cama que é do casal.”

- ”Não venhas com essa agora,

Ela é grande, por sinal.”


- ”Parece grande, parece,

Mas com toda a gente dentro,

Garanto e juro uma prece,

Já não há lugar no centro,


Nem sequer lugar no fim,

Não há lugar para mim,”



Rublos


Um pobre judeu russo encontra, um dia,

Com uns quinhentos rublos, a carteira

Do mais rico da aldeia que dizia

Cinquenta dar a quem lha entregue inteira.


Foi o pobre levar-lhe a bolsa cheia.

O rico verifica o conteúdo,

Põe ar severo e diz, de cara feia:

- ”Da recompensa já tiraste tudo,


Quinhentos e cinquenta rublos tinha,

Aqui só estão quinhentos, nada devo.”

O pobre, mui zangado, se avizinha

Do rabino a quem narra o caso coevo.


- ”Confio que me diz mesmo a verdade” -

Comenta ao homem rico este rabino. -

“Um homem tal você para que é que há-de

Mentir, ainda por cima ao que é destino?”


Começava a alegrar-se