O  TRILHO  IRREGULAR

 

 

 

 

 

Segunda

 

Os casados segunda vez,

Segunda vez se divorciam.

Não é fado este entremez

Que de tão má cara aviam.

 

Vem a maleita

De que usam a mesma receita:

 

Se igual passo dão,

Ao mesmo beco chegarão.

 

- É tão difícil mudar o rumo

A fim de a vida ganhar sumo?

 

 

Mulher

 

Qualquer mulher nasceu para ser magoada

Em todo o mundo e muito mais.

Quem mete pés à estrada

Para jamais ser assim, jamais?

 

O problema aqui

É que cada um tem de começar por si...

 

Ora, ninguém confessa

Que faz parte da peça.

 

 

Discernir

 

Discernir entre o bem e o mal...

Mas entre um e outro há tantas variáveis, tantas!

Tolhido em meu canto,

Sei lá bem, no fundo, afinal,

Em que lado te implantas

Ou me implanto.

 

Num mundo tão incerto,

Nem sequer andando sempre desperto.

 

O absoluto, mudo,

Escapa-nos sempre em tudo.

 

 

Assumir

 

Assumir riscos

Ajuda a triunfar.

Anos de esforço, fracasso, frustração

E só depois, enfim, alguns petiscos,

Como que a experimentar

 

Finalmente, a consumação,

Desde que tenha aprendido

A lição:

Correr o risco, sim, mas bem medido,

Senão...

 

 

Relação

 

Uma relação amorosa:

O momento mágico

Virando tantas vezes trágico,

Poesia feita prosa...

 

Esperar a ver se dura?

Não é hora de passividade:

Ou lutas por consolidá-la na realidade

Ou murcha de secura.

 

Se requer paciência, sê paciente,

Se requer acção, toma a iniciativa.

Fá-la funcionar, viva,

E, se for de a inventar, trata do que a invente.

 

Então terá feitiço:

Ora, o que queres é isso.

 

 

Fizeram

 

Fá-los arrepender-se

De tudo o que te fizeram

A ti mais a teus irmãos,
Até ao derradeiro que pelo mundo se disperse.

 

Que teu mundo verse

Os arrebóis que nasceram

Ao darem-se as mãos.

 

Mas que os inimigos nunca se apercebam

De que és tu,

Que nunca concebam,

Que lhes seja tabu,

Bêbados de quanto bebam,

Que a Força és tu.

 

Sê esperto,

Aprende a ganhar de dia para dia,

Sempre discretamente.

Apenas então o deserto

Em seara converto:

De repente

É energia.

Com tal arte

Nunca mais ninguém volta a dominar-te.

 

 

Ponderar

 

Na guerra, ponderar nos efeitos, só depois.

Porém, pensar depois não vale nada:

Um evento não são dois,

Nunca se refaz a caminhada.

 

O já feito, feito está

Irremediável,

Só a morte é acolá

Equiparável.

 

Mede, pois,

Que noites antecedem os arrebóis.

 

 

Invejado

 

Ser invejado, intrigado,

É o efeito inelutável

Do êxito na gesta alcançado.

E mais se inigualável

 

For o respeito e a admiração

Dos que o idolatram do coração.

 

Dos medíocres a intriga

Sempre com o valoroso briga.

 

O insigne apenas à sombra

Repousa ma alfombra.

 

Mal aflore à luz,

Logo tudo em tiroteio se traduz.

 

Daí que ao silêncio tão amiúde

Se grude.

 

 

Supérfluo

 

Tudo termina na morte,

É supérflua, pois, a vingança:

Esforço inútil, desta sorte,

Deveras nada alcança.

 

Um dia todos serão apenas ossos na poeira,

Eu, tu, o santo, o criminoso,

A realidade inteira

No abismo tenebroso.

 

Perante os céus,

Vingança, só de Deus.

 

 

Blasfémia

 

De blasfémia o pecado

É sempre paradoxal:

Que deus tão rebaixado

Se deixa turbar por humano palavreado,

Afinal?

 

Reverência não merecera, em nenhuma hora,

Se deveras fora

Tal.

 

Quem inventou tão enorme sandice

De espiritualidade nunca entendeu nada que se visse.

 

 

Derradeira

 

A derradeira esperança

Que nos garante a sobrevivência:

A crença que alcança

A íntima evidência,

Bem funda dentro de nós,

De que não estamos sós.

 

É o que, no risco extremo, abre a porta

A um Além que nos exorta,

 

Quer venha de dentro de mim,

Quer rompendo a fronteira sem fim:

 

O meu grito

Ecoa sempre no Infinito

 

E na resposta indubitavelmente Alguém

Então vem.

 

 

Fronteira

 

A longínqua fronteira escolhida,

Eis o meu alvo.

Todavia, não é possível salvar a vida

De quem não quer ser salvo.

 

A escolha é minha:

Ou acolho ou repudio a vinha,

 

Da vindima com o transporte

Que me couber em sorte.

 

Se acolho, então sim, depois,

Já não serei um, seremos sempre dois:

 

É que o caminho

É mais vivo do que eu próprio adivinho.

 

E, nas conjunturas-limite,

Personifica-se para que, calmo, O fite.

 

 

Cultura

 

Numa cultura consumista,

Fruto da ganância de multinacionais

Cuja pista

É o lucro, sem atender a nada mais,

 

A paisagem é miserável,

Dia a dia mais alienante,

Vazia de significado identificável

E logo, adiante,

Confirmando o rumo estólido,

Sem qualquer objectivo sólido.

 

É sempre em rebelião

Que nos vamos restituindo o chão.

 

É um diálogo impossível,

O único, porém, vivível.

 

 

Limite

 

No limite da exaustão,

Foca-te no passo à tua frente.

Na meta, não,

Que é por demais exigente.

Então,

Mesmo na falta de abrigo,

A meta virá lentamente ter contigo.

 

 

Nativo

 

O povo rapanui,

Nativo da Ilha de Páscoa,

Já pelo mar não flui,

Nem por terra acende qualquer áscua.

 

De vez extinto,

Nem uma imagem lhe pinto...

 

Construíram as estátuas moai.

Para rolarem cada uma,

Palmeira a palmeira toda a floresta cai,

Até

Que, de pé,

Não resta nenhuma.

 

Com as palmeiras findaram os ninhos

E as aves,

Findaram-lhes os barcos nos mares, ora maninhos,

E o pior dos entraves:

- Findou-lhes a comida

Que das aves e barcos era sortida.

 

Vida extinta, até à derradeira,

Após a extinção da palmeira...

 

Que lhes passou pela cabeça?

Ninguém protestou

Nem avisou

Daquele escolho onde a vida tropeça?

 

Ilha de Páscoa, planeta inteiro,

Quem nos abre os olhos para o escolho derradeiro?

 

Quem o evita,

Para que a história se não repita?

 

 

Nunca

 

Nunca queiras ser

Aquilo que não és.

E não porque outrem to impuser,

A requerer-te à classe alta os rapapés,

Ou do país dominante

 À bota imperante...

 

Não.

Aquilo que sonhas

É o que ainda não és então,

O que de ti não disponhas

Ainda.

A lonjura de ti a ti,

Uma vez finda,

Aí és o que és, aí.

 

Sonha, pois, com força bastante,

Poderás obtê-lo adiante.

 

Contra ventos e marés,

Não aceites nunca ser quem não és.

 

 

Porto

 

O céu não é porto seguro

Para alguém

Que tem

Uma perícia que apuro e desapuro

Conforme de espírito o estado

Que lhe é dado.

 

Porto de abrigo,

Só para quem é o mesmo na calma e no perigo.

 

 

Queres

 

Queres a democracia?

Mas, se tens hoje a ditadura,

Fá-la-ás ditatorial.

Não há futurologia

Mais segura:

É um pesadelo fatal.

 

É que a meio duma canção

Não se pode mudar uma nota:

A primeira alteração

Logo outra requer

E, mal se anota,

Não há como não percorrer

A melodia

Inteira:

- E uma nova cantoria

Se abeira.

 

A nova nação independente

Do colonialismo

Repete, renitente,

Daquele o mesmo explorador abismo,

Apenas do mando o centro

Migrou de fora para dentro.

 

E tudo recomeça

Na sorte avessa.

 

Porque tudo tem a ver com tudo,

Ao mudar uma nota,

Tem de mudar todo o conteúdo

Da cantoria que nos talhar a rota.

 

Senão, é só fachada

E, por trás, a mesma estrada.

 

Na ponte

Para o horizonte

Não leva a nada.

 

 

Importa

 

Não deves escrever

Para a outrem agradar,

Nem sequer

Para te agradar a ti.

 

O que importa é te exprimires:

Tudo o que encontrares aí,

Na funda chávena de teu diário pires,

O mistério da lonjura a propalar

Da intimidade quente de teu lar

- É que és tu a ires.

 

 

Procurando

 

Se andas procurando a Lua,

Aprende

Que jamais a encontrarás.

Correr, porém, pela rua

Rende

Que ficas menos para trás.

 

Ao fim de três milhões de anos,

Afinal,

Levámos até lá os nossos planos:

- Começou a tornar-se real!

 

 

Contra

 

O problema do tecto

É que, quando nos cai em cima,

Logo a pergunta nos arrima:

- Viver contra nós próprios é correcto?

 

Tecto da família, da moral dominante,

Da ordem estabelecida,

Da regra por hábito cumprida,

De nossos usos e costumes,

Das crenças onde me implante...

Sou comido por tantos destes carnívoros cardumes

 

Que urge questionar:

- Não haverá

Para ser eu próprio nenhum lugar

Aqui ou acolá?

 

E vale eternamente a pena

Viver mascarado para sempre em cena?

 

 

Inimigos

 

Quando se vêem inimigos por todo o lado,

Nasce a lógica do extermínio

Para o domínio

Do conflito desatado.

Então nunca se vê doutrem o fascínio

Do avesso vislumbrado.

 

Ora, há sempre um pouco de lua

Deste outro lado da rua.

 

 

Nunca

 

Nunca perdoamos

Às boas

Pessoas

Que enganámos.

 

Isto é o inferno

Que a culpa

Nos inculca

Eterno.

 

Na vida e na morte,

Com menoscabo,

Assim damos cabo

Da sorte.

 

 

Todos

 

Somos todos aparentados,

Uns dos outros comungamos,

O mesmo ar respiramos,

De igual água dessedentados,

Da mesma terra comemos:

- Dentro uns dos outros vivemos...

 

O que não podemos é querer

A vida um dum outro viver,

A vida de quenquer...

 

Quem através dos outros vive

Já não vive, não, sobrevive.

 

É mais um que da própria vida

Por ele poluída

Se esquive.

 

Um morto-vivo de pé

É o que ele é.

 

Fantasma

De que mal ouvimos a débil asma.

 

Arrepia

O cemitério por onde talha a via.

 

 

Antes

 

A vida onde mergulho

É uma elevada meda

Armada com as canas salvas do entulho.

E das alturas antes da minha queda

Vem sempre o orgulho.

 

O degrau de segurança da humildade

Quando é que de vez nos persuade?

 

 

Pobres

 

Os pobres andam demasiado

Ocupados a trabalhar,

A manter-se, esquivos,

Meramente vivos,

Para algum, abnegado,

Se preocupar

Em se preservar

Após a morte,

Por muito que o conforte.

 

Como previsíveis

Fantasias,

Desaparecem aos milhões, invisíveis,

Todos os dias.

 

Que importa, na morte, a vaidade?

Apenas não é reconfortante...

Adiante,

Que a hora de laborar nos invade,

Agrade ou não agrade!

 

 

Queres

 

Queres o carro topo de gama,

O relógio de diamantes,

O palácio da fama...

- É o engano de todos os instantes.

 

Queres é respeito e admiração

E cuidas que virão com o dinheiro.

Ilusão

Por inteiro.

 

Quando vês o carro grande nunca pensas:

“Que grande é dele o dono!”

Ao invés, de ti ditas as sentenças:

“Se o tiver em meu abono,

Que grande dirão

Que sou eu, ao tê-lo à minha mão!”

 

Como tu, ninguém

Liga ao dono do carro que se tem.

 

O que todos querem é respeito

E é a humildade,

Não a vaidade,

Que lhe presta preito.

 

 

Valor

 

Não há maneira de aprender

O valor do dinheiro

Sem sentir o poder

Da falta dele, leveiro.

 

Ensina a distinguir

O imprescindível do desejável

E a saber gerir,

Maleável.

 

Aprendo a apreciar o que tenho,

A reparar o estragado,

A procurar as oportunidades com empenho,

O mundo saldado.

É a ferramenta

À sobrevivência atenta.

 

 

Maioria

 

A maioria pensa:

“Quando conseguir poupar,

Que espectacular!”

E, mal poupa, muda a sentença

Rumo a um novo patamar.

Vira a lauda

E continua a perseguir a própria cauda.

 

Nossa adaptabilidade

É maior do que o imaginário nos persuade.

 

Deve ser maior o nosso objectivo

Do que apenas o dinheiro vivo.

 

 

Aprende

 

Aprende a mudar de ideias,

A descartar velhas crenças,

A substituí-las, por inteiro ou a meias,

Pela verdade de novas sentenças.

 

É duro, mas imperativo.

Não te sintas mal por mudar de arquivo.

 

O poder de mudar de ideias, afinal,

Quando estamos errados na pendência,

É um sinal

De inteligência.

 

 

Ganhas

 

Quanto ganhas não determina

Quanto tens.

Quanto tens não determina

Em que bens

Teu apetite culmina.

Com menos aprender

A viver

 

É a maneira eficiente

De ganhar o controlo presente

 

Que hoje apuro

Sobre o meu futuro.

 

 

Prisão

 

O mundo que outros desenharam

Para o próprio benefício

É uma prisão para a maioria,

Onde desde sempre sangraram

O sacrifício

Que a vida lhes imporia...

 

- Escapar dela

Pela adequada saída

É que é a verdadeira sequela

Da vida.

 

 

Assegurar

 

O mundo é imprevisível,

Ninguém pode assegurar o dia vindoiro:

Não somos donos do destino,

Inextinguível

Agoiro

Em perene desatino.

 

Daí que, em momentos de crise,

Procuremos um letreiro:

“Por aqui deslize,

A escapar do atoleiro!”

 

Que alguém nos ajude,

Pois não vemos como não nos afogar no açude.

 

- Melhor, porém, para todos nós

É se, afinal, anoto

Que na matéria tenho sempre alguma voz

E voto.

 

 

Lavra

 

Quem lavra a história bendita ou maldita

Duma terra

É quem

Nela habita,

Mais ninguém,

Pois é quem do porvir os portões descerra,

Embora de tal se tenha esquecido

Ou se tenha do contrário convencido.

 

Não haverá nunca mais ninguém

A quem atribuí-lo, porém.

 

Em tuas mãos, em ti,

Está da terra inteira o bisturi.

 

 

Dinheiro

 

Com dinheiro compram a vontade,

Desde o camponês ao presidente.

Mas porque é que o dinheiro há-de

Ser o valor primo,

Tão contundente

Lá no cimo?

 

Seguindo-lhe a rota,

Atinjo a fonte da corrupção:

Uma social

E mundial

Organização

Cuja pedra angular conota:
Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu...

E assim indefinidamente,

A talhar o inferno em frente

Em tudo em que, afinal, bem podia ser o céu.

 

 

Actos

 

Meus actos afectam o meio

E aqueles de que me rodeio.

 

Como os actos doutrem têm repercussão

Na lavra em que arroteio

Este meu chão.

 

Muitos só têm andado a receber

O impacto do que outrem quer

 

Sem que a este importe minimamente

Se afecta milhões ou toda a gente.

 

A crise mundial obriga-nos a tomar a rédea

Para mudar de rota

E de tudo o que importa tomar nota,

A fim de pôr fim à tragédia.

 

Que ninguém se conforme com a ideia

De que alguém decidiu por nós a teia

 

E não nos resta outra opção

Senão acatar ordens, desde então!

 

Ao invés, depois disto, o porvir

É só ir clarificando o caminho a seguir

 

E rasgá-lo em frente,

A bem de toda a gente.

 

 

Ninguém

 

Que ninguém fique à margem,

Feito Bela Adormecida,

Em que os mais o sarjem

Em sangueira desmedida!

 

Que ninguém esteja sem estar,

Ninguém escute sem ouvir,

Nem intervenha sem intervir

Em nenhum tempo nem lugar!

 

Findou a presença

Passiva, letárgica, incapacitada...

- A libertadora sentença

É que chegou a madrugada.

 

 

Encheu-nos

 

O mundo civilizado

Encheu-nos de obrigações:

As lesões

De nossa chaga do lado.

 

Não nos dão bem-estar

Nem aos demais.

A que título preservar

Tal caminho de sinais?

 

Importa outros descobrir

Por onde sem lesões possamos ir.

 

Onde não fruamos planetariamente em conjunto

É falido o rumo, podre o assunto.

 

 

Conjuntura

 

A conjuntura a mudar

Foi gerada

Doutrem por má decisão?

Então,

Poderás também modificar

Dos demais a vida transviada

Por tua acção.

 

O que opera num sentido vário

Opera também no contrário.

 

Vivemos num mundo interligado,

Cada qual parte dum todo

Integrado

Com relação entre si,

De tal modo

Que, onde um estiver,

Todos estão ali,

Todos e quenquer.

 

Doutro modo, do mundo a maquinaria

Operar não poderia.

 

Causaram-te um dano permanente,

Um dano permanente causaste contra alguém?

És um ser humano, como toda a gente,

Efeito dum outrora que até hoje vem.

 

Se alguém foi capaz de fazer mal,

Então alguém é capaz de o curar.

Nada é permanente, afinal,

No rumo de navegar:

 

É só rodar o leme

Para a aurora que no horizonte já treme.

 

 

Transformar

 

Transformar urgentemente o mundo

Requer

Mais que ampla participação social,

Mais que afastar do poder

Um governo infecundo,

Trocando-o por outro que, afinal,

É apenas de supor

Acaso um pouco melhor.

 

A meta apenas a alcança

Uma generalizada interior

Mudança.

 

Transformação

A impor

A contenção

De tudo o que for

Criminoso, mormente a generalização

Do anterior

Padrão

Que nos trouxe à beira do abismo

Dum mundial cataclismo.

 

E depois a mudança de consciência

Com nova maneira de pensar,

A remodelar

Todo o agir,

Para, a seguir,

Inovar toda a vivência.

 

Só tal

Gigantesco e lento

Fermento

Fermentará toda a massa mundial

Do nosso comportamento.

 

Gigantesca paciência

De que nem há memória,

Gigantesca persistência

E no fim, gradualmente,

Para toda a gente,

Mais e mais, um pouco de glória.

 

 

Escolher

 

Escolher novamente,

Corrigir,

Organizar diariamente

O meu ninho de agir

Com um ovo cuja pinta

Tem uma forma distinta

De bulir.

 

O modo de reordenar

Marca a diferença

Entre o que a viver hei-de estar

E o que desejar

Que vença.

 

 

Via

 

Escolher

É renunciar

Quanto eleger

Com que ficar.

 

Irei na via que me apetece,

A outra desaparece.

 

Ao mudar de direcção,

Mudo a história de rumo

Por minha mão.

 

Qualquer alternativa, porém,

Se mantém,

 

Não falece

Nem esquece

 

Quando da fruta o sumo,

Na via escolhida,

Trair, em resumo,

A esperança nela investida,

 

Poderei sempre retomar a utopia

Abandonada

E fazer dela nascer o dia

A cada nova jornada.

 

 

Creias

 

Não te creias infecundo,

Num deserto em que nem chuva recolhas.

Somos nós que vamos criando o mundo

Com nossas escolhas.

 

Sem nos apercebermos,

Andamos vivendo a história

Que outros escreveram para nós vivermos,

Deles mera vanglória.

 

Só mudamos

A partir do momento em que disto conta damos.

 

 

Fabricante

 

O fabricante de armas quer vender,

O que muito inimigo

Requer,

Muita zona de conflito,

A fim de cada qual buscar abrigo

Contra o mundial atrito

Comprando a pistola

A que a busca de segurança o imola.

 

A partir deste momento cumpre o guião

Que aquele prescreveu,

Não o seu,

Doravante tornado uma ilusão.

 

Vivemos num mundo unificado:

Tudo o que fere uma parte,

O todo fere,

Como, por outro lado,

O que benefício a um acarte

A todos o confere.

 

Quão mais rápido isto entendermos,

Mais rápido, para a maioria,

O desejado reajustamento tomaria

Termos.

 

 

Competir

 

Para competir terei de me separar:

Compito contra, não a par

 

E muito menos com.

Perderei o apreço, a admiração

 

E o respeito

Por aqueles a quem devia prestar preito.

 

Com aqueles que aprecio,

Com quem partilho afecto

Não entendo aquele desvio

Que no fim me apaga o calor deste tecto:

 

Custa-me a ver

Que não perco

Aquilo que lhes oferecer

E que não merco.

 

Há quem cuide que ao dar amor

O perde

E aguarde o favor

Que das dádivas herde.

 

É o princípio da corrupção

Proveniente da separação.

 

Tudo era

Muito diferente

Se se convencera

De que, ao dar a toda a gente,

O que der acolá

A si próprio também dá:

Dá um bem e recebe a alegria

Da festa que desencadearia,

 

Mais os afectos e laços

Dos abraços

Que são da felicidade

Sem idade

Os indeléveis traços.

 

 

Detém

 

Um por cento da humanidade

Detém noventa e nove por cento da riqueza.

Noventa e nove, por muito que desagrade,

Tem um por cento: é miséria, pior que pobreza.

 

O mais grave, porém,

É que aquele centésimo de ricos se mantém

A competir

Para que o centésimo de bens que os pobres sustém

Lhes extorquir.

 

- Quem nos retira a venda

Para impedir

A derradeira contenda?

 

Só a redescoberta da gratuita prenda,

Afinal,

Nos pode evitar o colapso final,

Com a planetária festa que nos renda.

 

 

Inviável

 

Donde vem o medo,

A insegurança

Que nos leva ao credo

De que é inviável qualquer mudança?

 

Perante o mundo em que tudo muda,

Que é que me mantém parado,

Ao que me gruda

Agrilhoado?

 

Sou cadáver adiado

De quanto vida além me iluda.

 

 

Dono

 

O facto de eu estar marcado,

Separado,

 

Só tem o enguiço

De eu acreditar nisso.

 

De facto, na verdade,

Nalgum recanto,

É sempre uma falsidade

Que só dura por enquanto.

 

Se me separo

Para me juntar a quem sofre,

Quando reparo,

Perdi a chave do cofre:

 

Quer me agrade

Ou não,

Não há unidade

A partir da separação.

 

O passado,

Por mais cogente,

Não é senhor de nosso estado,

Não é dono do presente.

 

Resta sempre uma franja,

Onde poderei cultivar a minha granja.

 

 

Moramos

 

Todos moramos aqui, no planeta.

Só de nós depende que a estadia

Completa

Seja leve e prazenteira, dia após dia,

Ou antes morosa

De tão dolorosa.

 

A festa que nos agrade,

Em vez da desilusão,

Advirá de cuidarmos da unidade

E não da separação.

 

Nossa consciente

Pessoal transmutação,

Em interligação

Do Cosmos com as forças,

Automaticamente

Beneficia todos por quem o mundo torças.

 

Sou vítima das circunstâncias.

E daí?

Tenho em mãos o bisturi

De mil outras mais instâncias.

 

 

Requerida

 

É requerida coragem

Para extinguir violência, dor,

Mentira, traição,

Agressão...

- Da triagem

De nosso interior.

 

Mais fácil é repetir

À exaustão

Histórias de denegrir

E purificá-las

Com eternas cabalas:

 

“Sou violento

Porque em criança

Fui batido a cem por cento

Como vulgar piso de dança”;

 

“Mulherengo sou,

Que de meu pai venho que tal me inculcou”...

 

Nada, porém, justifica

A perversão que teu gesto pontifica:

 

- Tua margem de liberdade

Para onde é que se te evade?

 

 

Livres

 

As livres nações,

Para controlarem milhões e milhões,

 

Criam medos

Que sejam da ordem os segredos.

 

“Viajem à vontade

Mas reparem no perigo

Do país que o fanático degrade,

Onde o terrorista encontre abrigo.”

 

“Ah! E lá fora tudo são doenças,

Vírus e parasitas

São as sentenças

Das visitas.”

 

“Temos liberdade de pensamento:

Até o racista sentimento,

A escolha discriminatória

São um momento

De nossa glória.

 

Geram ódios e divisões

Do país entre os cantões?

 

E então?

Pelo menos nunca articularão

 

Acções colectivas nem movimentos

Dos interesses implantados contra os fundamentos.”

 

Índio, negro, judeu,

Árabe, imigrante,

Qualquer minoria, até um vírus, lhes cai do céu

Para a aproveitarem no instante.

 

São o inimigo a vencer

Pelo governante que nos “tem de defender”.

 

 

Risco

 

Ante o risco de perder a vida

Todos ficam confinados

Do lar à parede comedida,

Em toda a volta barricados.

 

Não há mais outra paisagem,

Outro cheiro, outro sabor,

Outra forma de dançar numa viagem,

De amar e celebrar seja o que for.

 

Doutras formas de ver o mundo

Já não me inundo.

 

Ora, todos aprendemos

Conforme aquilo que vemos,

Sentimos

E fazemos.

 

Amar ou odiar

Se vem da fundura dos limos,

Também

Vem

Da luz dos cimos.

 

Daí que valorizo

Do mundo inteiro a cultura

Ou antes a ridicularizo.

Farei valer com desenvoltura

Os direitos humanos

Ou, ao invés, os piso.

Cuido da terra os danos

Como ser vivo em grande escala

Ou perco a vida a contaminá-la.

 

Do risco o medo

É o nosso eterno degredo.

 

 

Crianças

 

Desde muito cedo

As crianças aprendem o medo:

 

Podem ser raptadas,

Assassinadas,

Exploradas,

Utilizadas,

Enquanto até o lar se afoga,

Como vendedores de droga...

 

Terão de ter cuidado, de todos os modos,

Com tudo e todos.

 

Que caminho, então, sem abalo,

Para ao medo superá-lo?

 

É falar de nossos medos sem receio,

Enfrentemo-los,

Estudemo-los.

Ali, do mundo no meio,

Mostremo-los:

- Então o que se alcança

É a viabilidade da mudança.

 

 

Sou

 

Sou como sou por desejo de pertença,

Por escolha, lealdade:

Um afecto pela terra de nascença,

Pela mãe que me gera, idade a idade...

 

Desta raiz abraço o mundo

E dele me fecundo:

 

A nacionalidade

Cega

Nega

A universalidade,

 

Presa ao ninho de partida,

Sem mais voo de saída.

 

 

Mudar

 

Quero mudar e não mudo,

Mas me havia transformado...

- É que ao passado me grudo

Do outro lado.

 

Mudo na pele a aparência,

Mas a carne que há por baixo

Aceito mudar, em permanência,

Quando o meu canteiro sacho?

 

É fácil à superfície

O que lhe cobro,

Mas na fundura a imundície

Em que me redobro,

 

Isso requer outra intenção...

- E, no fundo, não é a minha, não!

 

 

Somos

 

Somos de nosso pensamento o reflexo

Vivo,

Como um povo é, conexo,

O do pensamento colectivo.

 

Ora, o pensamento que arvoramos

Fomos nós que, mais ou menos arbitrariamente,

O fabricámos

Para cada um e toda a gente.

 

Fica, pois, à nossa mão

Mantê-lo ou não:

 

Ou se justifica, fruto maduro, ou tem bicho

E é melhor deitá-lo ao lixo.

 

 

Ilusão

 

A ilusão de óptica comprova

Que me posso convencer do que não existe

Como realidade nova

Que despiste.

 

Não poderei basear

Meu conhecimento de coisas e pessoas

Em imagens que delas alcançar,

Pois nem sempre, por mais que sejam boas,

Serão verdade

Que persuade.

 

O mundo é ilusionista,

O real por trás da capa

Sempre me escapa,

Por mais que apure a vista

Ou qualquer outro sentido

Envolvido.

 

Por mais longe que lance

Minha linha de pesca,

A pescaria fresca

Que alcance

Mostra sempre a quanto mar alto,

Afinal, eu falto.

 

 

História

 

A história de mim que quero contar,

O perfil de mundo que vejo,

O que pretendo recriar,

O que projectar,

Para que fim tudo isto almejo?

 

É que, embora eu mal acredite,

O mundo vai seguindo clandestino o meu palpite.

 

 

Vícios

 

Os vícios emocionais

São muralhas

E nelas as falhas

São os portais

Que terei de transpor

Se algum dia quiser ser de mim senhor.

 

Senão, ao me repetir

Eternamente,

Deixei de ir

Em frente,

Nunca mais serei semente

De porvir.

 

Serei tronco caído na corrente,

A tolhê-la permanentemente,

Até a corrente me partir.

Em estilhas então irei seguir,

Mal serei gente.

 

 

Alcoólico

 

O alcoólico em recuperação,

Ao sair da reabilitação,

 

Os hábitos e amizades muda

Ou, se a eles se gruda,

 

A saída

É para uma recaída.

 

Nisto, como em tudo,

Nada muda se não mudo.

 

O homem novo

Requer renascimento a partir do ovo.

 

 

Hábitos

 

Maus hábitos pôr de lado,

Que difícil desafio!

O costume enraizado,

Ao findar-lhe o fio,

Finda a emoção

Que nos produziu

E o corpo protesta

Em vão

Contra o fim daquela festa.

 

Por este pendor inclinado

Não somos mais do que qualquer drogado.

 

 

Tendemo-nos

 

Tendemo-nos a fixar na imagem

De nossa carência emocional.

O ecologista que goza a romagem

Ao parque municipal

Pode tanto ouvir o violino

E relaxar

Como, ao invés, vigiar

O homem que passeia o cão sem destino,

A se assegurar

Que atrás não larga, em nenhum momento,

Qualquer excremento.

 

Tende a vigiar, por íntima compulsão,

O dono do cão.

 

Se a adrenalina tiver alta

E o cão defecar

Sem o dono as fezes apanhar,

Logo aquele salta

 

Enfurecido,

Interpelando o dono do cão,

Então,

Deveras tão enraivecido

Que até pode passar

Do insulto à agressão

Sem hesitar,

Tal é a paixão.

 

E depois guardará na cabeça

O porco cãozinho

Mais do dono a má peça

Dum mundo que é de porcaria um campo maninho.

 

Ei-lo no ponto

Acabado

Em que se sentirá pronto

A ficar indignado,

Em qualquer tempo e lugar

Em que de adrenalina vier a precisar.

 

E nem se dará conta

Do círculo vicioso,

Tamanho para ele próprio é o gozo

Que disto apronta!

 

E o violino

É que acolá

Continuará

Sem atingir o destino...

 

O outro lado

Cada vez finda menos abordado.

 

 

Todos

 

Todos coleccionamos

O que nos fez mal.

Ignoramos,

Afinal,

Que tudo podemos reformular

A partir dum contrário lugar:

 

Reordenemos a memória daqui para a frente

De modo a produzir emoção diferente.

 

Basta centrá-la no pendor

Que, no meio do mal, nos serviu melhor.

 

No mínimo, ali aprendemos

O que definitivamente não queremos.

 

Seja qual for do resto o tom,

Isto, pelo menos, é bom.

 

 

Relembra

 

Relembra o momento da grande humilhação:

- Que baque no coração!

 

Relembra o momento do amor intenso:

- Que baque no coração, quando o repenso!

 

Por ambas as vias

É o coração que atrofias

Ou irradias.

 

Uma emoção

O oprime,

Outra o expande.

Aquela que o desanime

Leva a que mais lento ande,

Diminui-lhe a pressão,

O encéfalo é menos irrigado,

Como resultado.

 

Ao invés,

No coração apaixonado,

Tudo flui, da cabeça aos pés.

A cara rosada,

O olhar brilhante,

O corpo que relaxa na empreitada

Mais empolgante.

 

Quem quer andar deprimido

Em tempo de escolhas de sentido?

 

Em tempo de escolhas decisivas

Quem quer o cérebro irrigado por umas gotas esquivas?

 

 

Imagem

 

Se a imagem da memória,

Em vez de posição debilitada

Me der a de força,

A glória

De entrada

É que me esforça,

A varrer o que me impede o desenvolvimento

Para o enfrentamento

Do presente

Com o adequado para ir em frente.

 

 

Mensagens

 

Ouvimos

O coração

De verdade?

As mensagens que emitimos,

À força de repetição,

Devêm realidade,

Para o bem ou para o mal,

Com peso igual.

 

Que porvir

Então decidir?

 

 

Logra

 

Quem não logra evocar

Nem um momento feliz,

Terá de imaginar

O que quer e o que quis.

 

Ao pai tirano

Imagina que o abraças

E o congraças

Sem dano.

 

Ele não o merece

Sequer.

É por ti, o filho, que o irás fazer

E acontece.

 

É que o observador

Determina aquilo que for

Observado.

O sentimento evocado

 

É que irá curar

Ou causar dano.

Crer é criar

E à caravela da vida armará de novo pano.

 

 

Aprisionado

 

Aprisionado no passado

Não poderei ver a luz.

Só desligado,

O novo estado

Me conduz,

Com nova sintonia,

A vislumbrar a luz do dia.

 

Ao palor da madrugada,

Inauguro então nova jornada.

 

Mas terei de ajudar a liberdade

Ou a passada mantém-me atrás da grade:

 

Revejo antigas ligações

Com traumáticas imagens,

Retenho o que importar em meus balcões

E o resto deito fora nas triagens.

 

 

Reordenar

 

Reordenar o trauma que me lesionou

Requer meu sonho:

Nele me proponho

Levantar voo

Para a ilha

Do mundo de maravilha.

 

O trauma me bloqueou

E fiquei aí atado,

Prisioneiro do passado.

 

A memória continua lá

Mas não acedo a ela.

Repito erros para aqui, para acolá,

Obcecado com a sequela.

 

É urgente a libertação,

Alterar a sintonia,

Sonhar a nova emoção

Onde apenas noite havia,

Trocando-a por aquela onde tudo refulgia.

 

Entre passado e futuro

Que diferença haveria

Se tudo inauguro

A pensar, sentir e agir

Da mesma maneira a seguir?

 

Sonhemos outro mundo,

Que assim já o vislumbramos, lindo,

A vir vindo,

Lá do fundo!

 

 

Sonhemos

 

Sonhemos, que a imagem que nos vem à mente

Apura permanentemente

 

Inesperadas ligações

Que redundam noutras emoções.

 

É uma oportunidade

De desvendar qualquer nova possibilidade

 

De resolver convenientemente

O desafio do presente.

 

Prisioneiro duma imagem

Ou lembrança,

Nenhuma nova ligação na viagem

Se alcança,

Só a contínua repetição,

O eterno senão.

 

 

Canteiro

 

Sonhemo-nos melhores

Num mundo melhor,

Seja cada imagem um canteiro de flores

A ressumar amor.

 

Cada uma vai-se reflectir

Na comunidade, a seguir.

 

A curto ou longo prazo,

Cada escolha a um mundo novo vai dar azo.

 

 

Poderoso

 

O poderoso sabe que na política,

Quanto mais alguém precisa,

Mais convém ter mão somítica,

Que maior concessão o carente lhe disponibiliza.

 

Aproveita-se da miséria

Para reafirmar o poder que lhe paga a féria.

 

Enfraquecem a vontade duma pessoa

Que se compra e vende, mercadoria à toa.

 

Apenas o emocionalmente doente

Vota no partido que o despreza,

Que lhe espezinha os direitos, indiferente,

Como de caça a uma presa.

 

Que é que leva, equivocado,

Ao voto menos indicado?

 

O mesmo que a um cônjuge buscar

Que nos irá maltratar, anular, dominar.

 

O mesmo que nos leva a repetir

Histórias dolorosas

Sem nunca mais redimir

As estradas pedregosas.

 

Quando compactuamos com o sofrimento

Como é que há-de mudar o vento?

 

 

Equidade

 

Porque nunca tem

De equidade sinal,

Ninguém pode estar bem

Se o vizinho estiver mal.

 

Mundo norte, mundo sul,

Um só deles monopoliza da vida o azul?...

 

Mundo leste, mundo oeste,

Em qual há direito humano que preste?

 

Depois há guerra, há terrorismo...

- Como é que não vi a tempo o abismo?

 

O cataclismo pode vir de muitas fontes.

Oxalá que a principal,

Entre todos os fatídicos horizontes,

Não tenha humano sinal.

 

 

País

 

Sonhemos,

A dormir ou acordados,

Com o país que é sempre belo!

Despertemos,

Por uma vez bem despertados,

Do pesadelo!

Ponhamo-lo a correr,

A caminho de vir a ser.

 

 

Mobilizamos

 

Quando memória e desejo convergem,

Aí mobilizamos a vontade.

Só quando quem é e o que quer nalguém emergem,

No rumo certo correr há-de.

 

Quando alguém cuida que o motor

É o dinheiro,

Cuida dele com fervor

O dia inteiro.

 

Lista aquilo de que precisas:

É com dinheiro que o obténs?

Para ser feliz, do que visas

Que é que compras a vinténs?

 

Repara no que te importa

E nenhum dinheiro compra nem suporta.

 

Se o dinheiro tivera tanto poder

Como se pretende ele ter,

 

Qualquer milionário poderia

Exorcizar da morte a hora e o dia.

 

O dinheiro não muda o Sol nem a Lua,

Nem a soalheira ou a invernia

Da tua rua...

 

Nem sequer da trajectória da Terra a correria

Pode travar. Só por fantasia...

Pode mudar horários de trabalho,

Negociatas celebrar com a nação,

Espalhar drogas a retalho

Ou esmagá-las a malho,

Acabar com a vida numa explosão...

 

- Mas por dinheiro ninguém vai saber

A hora destinada para morrer:

 

Pode comprar a vontade do cidadão,

A do Universo, não.

 

 

Planetária

 

Sofremos efeitos devastadores

Por ausência

De planetária consciência.

 

Demoram os fervores

Efeitos a surtir,

Das mobilizações

De milhões,

Mundo fora a reagir.

 

Em vez de unificado,

No mundo vive cada qual para seu lado.

 

Continuamos a insistir

Em ver-nos como separados,

Mal lembrados

Do tempo comum

Em que todos éramos um.

 

O Universo é um todo indivisível
De que partilhamos,

Totalidade mal discernível

Que nos abarca, ramos

Interligados com ela

Como em árvore que abranjo da minha janela.

 

Nosso coração bate, converso,

Em uníssono com o do Universo.

 

 

Crise

 

Enfrentamos uma crise mundial

Devido ao egoísmo extremo.

Quando não trabalhamos para todos, afinal,

É um cancro o que temo:

 

A célula rara,

No corpo individual

Como no social,

Se não une, separa.

 

 

Curvar-se

 

Apenas a vontade enfraquecida

Poderia escolher a obediência

Como essência

Da verdadeira forma de vida.

Curvar-se com fervor

À ordem dum superior.

 

O carrasco do extermínio,

Sendo embora um ser humano

Incapaz de qualquer dano,

Declarará, no escrutínio,

Que o que fez foi do domínio,

Sem réplica a contrapor,

Duma ordem superior.

 

A estrutura de poder

Tem base piramidal:

Opera se mantiver

Obediência total:

 

O de baixo é que suporta

Quem estiver lá por cima.

Se um dia trancar a porta,

Se esbarronda ao chão a rima.

 

Sem tal colaboração

Nenhuma organização

 

Opera correctamente,

Tomba em frente.

 

Nem político partido,

Instituição religiosa,

Nem quadrilha criminosa...

O motor que há permitido

A cúpula no poder

É só quem a sustiver.

 

É nosso gesto passivo

De tudo deixar correr

Que aquilo mantém no activo.

 

Temos nas mãos o poder

De a tudo vir contrapor

O melhor:

É só o melhor escolher.

 

 

Contra

 

Para alguém contra vontade

Agir, mais tarde ou mais cedo,

Só quando o persuade

O medo.

 

É nesta medida

Que chega a matar

Para a própria vida

Salvar.

 

A quadrilha criminosa

De traficantes de droga, terroristas ou banqueiros

Goza do poder que goza

Por serem todos no medo pioneiros

E parceiros.

 

Denunciar ou não,

Roubar ou não,

Matar ou não...

- Por trás de tudo a se esconder,

É apenas a questão

De ser ou não ser.

 

E cada um tem então

De escolher,

 

Mesmo que o preço contra a vida encurralada

Seja a morte que lhe é dada.

 

 

Droga

 

A droga arruína vidas.

Mas então o modelo económico

Que leva uns a vendê-la às escondidas

E outros a consumi-la

É um mero chiste cómico

Para contar na vila?

 

Há uma crise alimentar

Mas quase metade da comida

É desperdiçada a engordar

Meio mundo para além da medida

Ou a despejar na lixeira

O que outro meio mundo não come,

À beira

De morrer de forme.

 

Se sou um dos noventa e nove

Que suporta o centésimo que é rico,

Que credo

Me tolhe e me demove,

Tão hirto que por aqui me fico?

- É o medo, é tudo por medo.

 

E, paralisado,

Então é que não chego a nenhum lado.

 

 

Dentro

 

O mal que me vem de fora

De dentro de mim me vem,

Pela mão que mora

Além.

 

Faço parte do todo.

Deste modo,

Dentro e fora não convêm,

 

Sou eu que me firo a mim,

Por este pendor, assim,

 

Por mais que seja alheia

A mão que me esfaqueia.

 

Ainda por cima busco

O castigo que julgo merecer,

Brusco,

Pela mão de quenquer:

 

Há quem se empenhe em estabelecer

Afectos que o farão sofrer,

 

A fim de pagar, sem demora,

 A culpa, agora.

 

O argumento justificativo é a conformidade

Sentida.

E assim arruína com tranquilidade

A vida.

 

 

Apontar

 

Apontar culpados

É um entretenimento universal.

Ignoramos,

Desviados,

As culpas que carregamos,

Da estrada

Real

A desviar-nos a pegada.

 

Levam-nos a escolher

O pior futuro,

Desde o lar a promover

À presidência nacional que inauguro.

 

O resultado

É um modelo de vida enganado

 

Em que ninguém detém

A chave que convém.

 

São os meninos de rua,

As prostitutas com fome,

A criança seminua,

A baleia a extinguir-se que inda se consome,

O aquecimento global,

A destruição ecológica...

- A lógica

Do mal.

 

Sente-se impotente

Cada qual.

Um passo à frente,

Não demora,

Joga a culpa fora,

Para cima de toda a gente.

 

Quando, no fundo, é por mim

Que tudo principia ou não, por fim.

 

 

Outro

 

Do outro lado,

O desprotegido,

O abandonado,

O sub-humano escondido,

O que vê o filho morrer desnutrido,

 

O que findou sem trabalho,

Sem salário,

De saúde sem um negalho,

De educação sem horário,

Nem calendário

À mão,

Sem alimentação...

 

Não existem para ninguém,

Passam-nos ao lado,

Não valem um vintém

Furado.

 

Quem os vai convencer, urgentemente,

De que merecem tratamento diferente?

 

 

Culpas

 

Há culpas herdadas

Que se instalaram culturalmente

Tão fundo no inconsciente

Que, sem nos apercebermos de suas dedadas,

Nos controlam a todo o momento

O nosso comportamento.

 

Viver é o maior castigo,

Nem procuro melhor existência,

Dada a imaginária evidência

Da culpa que abrigo.

 

Entretanto, ninguém faz ideia do porquê

De tudo ser tão mau como é.

 

Ninguém cometeu o pecado

Que ao inferno nos há condenado.

 

Todos poderíamos daqui sair...

- Ninguém acredita, todavia, nem quando o vir.

 

 

Atirou

 

Quem atirou a primeira pedra?

Ninguém agride o que considera seu.

Só quem cresceu

E medra

Alheio a um grupo social

O ataca como rival.

 

Só quem se concebe

Como separado,

Desamparado,

Desterrado,

Recebe

Os irmãos como inimigos

E desata a matá-los,

De consciência sem abalos,

Que são verdadeiros perigos.

 

Só o mutilado

Tem fúria de mutilar,

Embora o vá evocar

Como negro fado.

 

É o posto de lado

Que do esquecimento se rebela,

Finalmente acordado

Na escassez da gamela.

 

Corpos separados,

Bons e maus,

Inocentes e culpados:

Eis como germinam os varapaus.

 

A energia suprema, todavia, nos habita,

Uma só alma,

Uma só mente que nos solicita,

Um só impulso da fundura do coração,

Um som de calma,

Em uníssono uma vibração...

 

- Todos somos um no Universo que no seio nos acarte,

Um único Todo de que fazemos parte.

 

Que nada,

Portanto, aparte

O que é uma única fornada

De pão que o Infinito nos reparte.

 

 

Tira

 

Tira o seres culpado de tua cabeça

Porque és mesmo é responsável.

Explica a atitude em que a vida te tropeça,

Mostra tudo quanto ainda for viável.

 

Se andar tudo equivocado,

Pede desculpa e clarifica o teu lado.

 

Repara o mal que fizeste

Até onde for exequível.

Reintegra-te sem culpa, para que preste,

Na comunidade disponível.

E canta liberto a festa

Que o atesta.

 

 

Peça

 

Peça de encaixe

Do Universo,

Se eliminar o que me rebaixe,

Elimino-o do Todo, pelo infindo disperso.

 

Continuarão os criminosos,

Políticos corruptos,

Negociantes vorazes...

Mas abri a porta a que, fogosos,

Saltem de mim ininterruptos

Caudais de energia capazes

De virar do avesso

O mundo escuro que atravesso.

 

A ideia do não-merecimento

É um obstáculo a travar

O colectivo bem-estar,

Momento a momento.

 

Se digno me não considerar,

A implantação irei tolerar

 

De escolas, partidos, tribunais anedóticos,

De governos, organismos, chefes despóticos,

 

De pais, irmãos, maridos,

Esposas, vizinhos mantidos

 

De nós a abusar,

Nós, as vítimas por todo o lugar

 

Espalhadas

Para serem exploradas.

 

Se há vítima, há culpado:

E eis o mundo separado.

 

Quando para nós apenas unido

O mundo alguma vez

Fez

Algum sentido.

 

 

Condenamos

 

Condenamos o acto violento.

Não reparamos, com olhar atento,

 

Se o primeiro lesionado

Não foi o violento agora visado.

 

Os gangues juvenis

De bairros marginais

Cresceram entre as misérias mais vis,

Sem atenção, nem amor, nem ocasionais

 

Gestos de acolhimento,

Sem oportunidades de desenvolvimento.

 

Às vezes até lhes mataram

Quem mais amaram...

 

Depois vem a frustração, o ressentimento, a ira,

O ódio que de todos transpira.

 

Permitimos que se repita

A lei de causa-efeito

Sem que nada reflicta

Que a tomámos deveras a peito.

 

Será o efeito, algum dia, de tolher

Sem a causa remover?

 

A não ser quem quiser, anos e anos,

Enfrentar os mesmos danos...

 

 

Diferença

 

A diferença entre quem me agride

E eu que o não agredi...

A fome que contra ele colide

Não agride ali?

 

A precariedade

Só é uma agressão

Quando me invade

O meu torrão?

 

A doença,

A carência,

A violação...

- Que sentença

Sobre ele dita delas a premência

E sobre mim, não?

 

Disto não sou o responsável efectivo

A nível individual

Mas somo-lo todos a nível colectivo

Por omissão total.

 

Permitimos um sistema

Que não emprega mas acumula,

- É o lema

Que o regula.

 

Não é para ninguém desenvolver

Um projecto de vida

Qualquer

À própria medida.

 

Gera distâncias brutais

Dos  elevados tronos

Aos arraiais

De crianças, jovens e velhos, animais

De que aqueles são os donos.

 

Se ainda não saí à rua

Contra a comum infecção,

É que a pua

Ainda não feriu meu coração.

 

Vivo separado,

Isolado,

Sem deitar a nada a mão.

 

Até ao dia

Em que farei parte da maioria

E o meu alheamento

No isolamento

Qualquer mão solidária de mim desvia...

 

 

Perdão

 

Perdão não é desculpar,

Ignorar,

Fingir que não ocorreu.

Quem o crime cometeu,

Por ele paga.

Por este motivo ninguém o afaga.

 

Não lhe vou

É conceder

O poder

De determinar quem sou.

 

Fui por seu acto afectado

Mas não sou eternamente

Defraudado,

Violado,

Roubado,

Abandonado inocente,

Mutilado,

Sequestrado,

Humilhado ante toda a gente,

Magoado...

- Outro sou, seguindo em frente.

 

Sou eu,

Livre, enfim, em todo o sonho que é meu.

 

 

Jogar

 

Tudo aquilo que de nós se lança,

Tarde ou cedo nos alcança.

 

Se sinto não ser amado,

Para quê jogá-lo em redor, para todo o lado?

 

Para quê jogar ao céu

Pensamentos de violência num escarcéu?

 

Porquê dar novamente de caras

Do ódio com as escaras?

 

Porque não erradicá-lo,

Deixando então de vez de apontá-lo?

 

Do mundo a violência

Não derivará de nossa existência

 

Com uma e outra sequela

Das imagens dela?

 

Como outra coisa cobrar do mundo

Se é disto que o inundo?

 

É que, mesmo mentalmente,

Esta é a semente

Que mundo fora

Espalho a toda a hora,

Infatigavelmente.

 

Que outro porvir

De tal sementeira poderá provir?

 

 

Evitando

 

Como matar a violência sem violência?

Evitando repeti-la.

Trocando-a pela existência

Que o consenso nos perfila.

 

A prática indesejada

Não se expandirá mais em nossa estrada.

 

Não lhe apagamos o traço

Por completo,

Mas o fermento com que a fornada amasso

Terá, não tarda, todo o bolo repleto.

 

 

Unir

 

Unir palavra e pensamento

É criar mundo além o que incremento.

 

Imaginar,

No fundo,

É criar

Um novo mundo.

 

Seja lá vítima quem outra coisa for,

Eu por mim sou um criador!

 

- Oh! Meu Deus,

Mas que longe estão os Céus!

 

 

Importa

 

Que importa quão profundo

Foi teu sofrimento?

Chegaste até aqui, neste momento,

Facundo.

 

O passado

Já passou. De seguida,

Denodado,

Podes retomar a tua vida.

 

 

Termos

 

A ti próprio te dirige

Em termos de aprovação,

Sem juízo que te aflige,

Te abata raso no chão,

Sem tua vulnerabilidade,

Endémica fragilidade.

 

Releva o que conservar te importa,

Te dignifica, engrandece

E abre a porta

Ao caminho que te apetece.

 

 

Escuridão

 

Sê o espelho

Onde outrem se reconheça, renasça, se liberte.

A escuridão que iluminaste no quelho

Abriu caminho à luz que com todos finalmente o mundo acarte.

 

A luz que em ti teve efeito

Abriu a um rio o leito

 

Onde os bodos

Poderão algum dia ser de todos.

 

 

Lembra-te

 

Quando vires um deficiente,

Lembra-te de que utilizas aparelhos

Como ele, frequentemente.

 

Não nos diminui, à toa,

Não nos torna mais novos nem mais velhos,

Nem mais nem menos pessoa.

 

No fundo, sejam quais forem os sinais,

Somos todos iguais.

 

 

Gente

 

Toda a gente consumida

Por ninharias.

 

Uns, de engripados há dias,

Outros, de fartos da lida

Dos políticos,

Ou de sobrecarregados de trabalho,

Sob o vergalho

De patrões somíticos...

 

Não reparam que estão vivos?!

Cada dia é glorioso,

Da formosura dele ao ficarmos cativos,

Numa entrega cheia de fervores

De fé,

Por lograrmos andar de pé

E sem dores.

 

O mais, em juízo sumário,

É definitivamente secundário.

 

 

Feita

 

A vida é feita de riscos.

Uns aceitam-nos e continuam a viver,

Outros escondem-se nos apriscos,

Num mesmo canto a permanecer.

 

Aqueles abrem portas de amanhã,

As de hoje acaso perdendo.

Estes acordam cada manhã

O sonho perdido remordendo.

 

Queiras ou não queiras, terás de escolher,

A cada momento,

Ora o sol que o dia seguro te acender,

Ora o vento.

 

 

Nuas

 

Com as mãos nuas amasso

E modelo à vontade

Cada pedaço

De barro que me agrade.

 

Fazemo-lo frequentemente

Com cada indivíduo, ao calhar,

E com cada criança inocente,

Em particular.

 

Sem entre ambos os mundos diferença

Medir que nos convença.

 

Que espanta que, depois

Destes irresponsáveis impulsos,

As algemas nos prendam os dois

Pulsos?

 

Os de fora,

Mas mais os da desgraça

Que mundo fora grassa

E por dentro de nós demora.

 

 

Tenta

 

Vê o que queres

E tenta ir além

Do que de ti próprio esperes.

Melhora permanentemente, que nada te retém,

 

Treina, interminável,

Propondo-te um objectivo nas alturas,

Viável

Mas dificílimo de atingir.

É a missão que procuras

Seguir:

Que em ti concites

Ir além de teus próprios limites.

 

Quem pouco deseja

Acaba por o conseguir:

Falhou a vida infinda que quenquer almeja.

 

 

Repetir

 

Vivemos na roda infernal

De repetir o mesmo erro,

Geração a geração,

Afinal.

Na mesma prisão

Sempre eu com os mais me encerro.

 

Nem uma guerra mundial

Sempre iminente

Gritará um berro

Suficiente?

 

Só a morte

Nos acordará

De vivermos ao deus-dará?

Maldita sorte!

 

 

Demasiado

 

O mundo é demasiado grande,

O amor, demasiado perigoso,

Deus não liga ao que míope lhe demande,

Por mais que me faça de miúdo amoroso...

 

Resta-me apenas a saída:

Pôr-me na mão dele para toda a vida.

 

Venha o que vier,

Seja o que Deus quiser.

 

 

Atinge

 

Incho e encorpo

Com as palmas?

Mas quantas vezes quem toca no corpo

Não atinge as almas

E quem atinge as almas

Não toca no corpo!

 

Mais valia

Não me fiar destas ondas na maresia.

 

 

Itinerário

 

Poderei sempre escolher

Entre uma vítima do mundo

Ser

Ou um aventureiro moiro,

Ali-babá de itinerário fecundo

Em busca do tesoiro.

 

É tudo questão de que olhar

À vida deitar.

 

 

Cheirar

 

Forte,

Declina

O que, a cada esquina,

Te cheirar a morte.

 

A vida ensina

Que a sorte

É por demais esquiva,

Daí que apenas o forte

Sobreviva.

 

E não há, para o desnorte,

Alternativa.

 

 

Vendes

 

Um corpo com alma dentro

Ou alma com corpo fora?

Qual o centro

Onde cada mora?

 

Vendes-te por tuta e meia

E no fim queres a mancheia?

 

Ou não te vendes e sofres

O vazio de teus cofres?

 

Quando os enches,

Esvazias-te ou te preenches?

 

A escolha é sempre tua

De qual o rumo na rua.

 

 

Encontro

 

Há muito quem me paga

Para eu fazer o que ele quer.

Nenhum me afaga

Sequer,

Ao impor-me a triaga,

Antes me apaga.

Ora, encontro vero,

É o de eu fazer o que da fundura quero.

 

 

Experiências

 

As experiências mais importantes

São as que nos levam ao extremo.

Só nelas aprendemos, relevantes,

Onde mora nosso demo.

E requerem-nos toda a coragem

Para seguir viagem.

 

Tal é com qualquer guerra

Ou revolução

Que nos aterra

No chão,

Ou com um natural cataclismo

Que nos mergulha no abismo.

 

Aí atingimos o nosso limite.

Só quem pisou tal fronteira

De seu próprio mistério se abeira,

Aí, onde o toiro da vida cite.

 

A partir de então pode prevenir

A desgraça:

Vislumbra por onde o porvir

Passa.

 

Antecipa-se e abre-lhe a porta

Antes que a terra inteira seja morta.

 

 

Importante

 

Não é tão importante assim

Que saiba tudo acerca de mim.

Até porque, no fim,

Nada saberei deveras, enfim...

 

Não é só buscar sabedoria,

É também arar a terra,

Aguardar a chuva e a acalmia,

Plantar trigo, colher lenha na serra,

Ceifar o grão,

Cozer o pão...

 

Somos sempre dois lados

Interligados:

 

Quando se tocam,

Sempre se chocam.

 

Se de algum houver falta de respeito,

Destroem-se um ao outro a eito.

 

 

Simples

 

A vida de coisas simples é feita.

Andamos todos cansados

De tantos anos em busca duma colheita

Do que ninguém de boa fé

Sabe o que é,

Mas a que, cegos, nos jogam os fados.

 

Melhor é voltar ao início,

Disto eliminando o lixo do resquício,

 

Reencontrar o equilíbrio

Sem de mais acasos o ludíbrio.

 

 

Comentários

 

Comentários não matam,

Fazem parte da vida

De qualquer entidade bem sucedida.

Melhor se sentem os que os acatam

De maneira desprendida

E aos ombros nunca os acartam,

Antes, se inócuos, os descartam,

Ignorando-os de seguida.

 

 

Fico

 

É quando eu não sou ninguém

Que fico apenas um sonho.

Porém,

De nenhum corpo lhe disponho.

 

Então, basta uma faísca

E do mapa estoutro mundo todo o actual mundo risca.

 

Cataclismo?

Claro, se então é nele que cismo...

 

 

Temer

 

Não temer a dor

É bom

Porque para meu interior

Em mim tudo iluminar,

Do corpo marcar o tom,

Só se o corpo eu dominar.

Ora, sem dor

A me fustigar,

Nunca tal terá lugar.

 

Depois, com a dor bem fisgada,

Então já ganhei toda a jogada.

 

 

Procura

 

O sofrimento é amigo

E este é o perigo:

 

À procura de desquite,

Poderei torná-lo meu abrigo.

O sofrimento, porém, tem um limite.

 

Então,

Esta é a salvação:

 

Não poderei enquistar-me

Naquilo que definitivamente me desarme.

 

 

Momento

 

O momento de parar...

O enguiço

É que muito pouca gente sabe decifrar

Isso.

 

Desde o marido turbulento

Que inferniza o lar,

Ao ditador bolorento

Que tomba da cadeira ao sentar,

 

Ao país que no topo toma assento

E os mais desata a subjugar,

Ao mundo rico a cobrar do pobre o emolumento

Até de inanição o ameaçar...

 

Depois,

Sem o momento de parar,

Estoiram das bombas os arrebóis:

Muito perder para pouco ganhar.

 

Morrem as gerações, muda cada era,

E o momento de parar sempre em sala de espera.

 

 

Cabo

 

Para quê os ateus?

Não são precisos

Para dar cabo de Deus,

Bastam os juízos

 

Das religiões,

De todas em todas as ocasiões:

 

De Deus se apoderaram

E o transformaram

 

Num boneco de trapos

Coberto de nossos farrapos.

 

O dogma mais sublime

É o mais refinado crime,

 

A vender o Inefável

Como produto transaccionável.

 

Não é uma fresta

Por onde espreitar a Grande Festa.

 

Não é a flecha na ponte

A apontar do Infinito o horizonte,

 

Como deveria,

Se a Deus servia.

 

É a seta derrubada a apontar o chão

Onde ali finda a peregrinação:

 

Todos de joelhos

A adorar um montão de velhos

 

Que há muito deixaram de ser porta-vozes

Para se tornarem de Deus nos algozes.

 

Não vale a pena ter ilusão:

Toda e qualquer institucionalização,

Mais tarde ou mais cedo,

Perverte o credo

Naquele aleijão.

 

Não vale a pena atirar pedras duma à outra,

Que em todas se encontra,

Só muda a cor da podridão.

 

Não há reforma que valha

À fruta que os dentes nos talha:

 

É a excomunhão,

A guerra de religião,

O Estado confessional,

Islâmico ou não,

(Já foi cristão

Até aprendermos, pelo sangue, a não cair em tal),

É a perseguição,

A Inquisição,

É a mordaça fatal

Na boca de quem recuse adoração

Ao imperadorzinho feito deus, afinal,

Em todo e qualquer nível de qualquer organização

Religiosa.

É o poder, na forma mais gloriosa,

A matar o coração.

 

É o pecado,

Afinal,

Por todo o lado

Consagrado,

No cômputo total,

Como sagrado:

A terra fornecida como céus,

A mascarada de Deus.

 

Para isto

Não preciso de ateus,

Nem Jesus Cristo

De fiéis tão incréus.

 

Basta a religiosa trapaça

Que mundo fora grassa.

 

É o que é predominante,

Por muito que nos incomode,

E nada a conversão nos garante,

Nada nos acode.

 

Até alguém ter a coragem

De cortar a energia ao motor

Deste horror

E de lhe parar de vez a viagem.

 

Instituir, não:

Só enquanto durar o primitivo fogo sagrado,

Depois, extinção

Para o germe poder brotar das cinzas renovado.

 

Hierarquia, só a de servir:

A de poder, não,

Que não há como não reproduzir,

No poder, a escravidão.

 

Perdemos a eficácia?

Evidentemente.

É que a fé só se vive na audácia

Da infinitamente

Humilde semente.

 

Por muito que nos custe,

Não pode haver com o pecado qualquer ajuste.

 

Ou somos fermento

Ou enganámo-nos na estrada,

A todo o momento,

Do Espírito na jornada.

 

Deus é o Outro infinitamente

E assim será eternamente.

 

Petrificá-lo

Numa qualquer conquista humana,

Qualquer que seja, religiosa ou profana,

É mistificá-lo

Dentro de quenquer que então se engana.

 

Deus, em qualquer dimensão

Que seja da terra,

Nunca se encerra.

 

Toda a religião

Tem tal pretensão

Num ou noutro domínio

(Dogma, teologia, crença, tradição,

Rito...)

E, qualquer que seja o fascínio

Com que aí substitui o desmentido do Infinito,

Torna-se a irrisão

Justa dos ateus.

 

Estes, quando ética e humanamente exigentes,

É que acabam por ser os verdadeiros crentes.

Só lhes falta Deus.

 

O que, aliás,

Não lhes faz

 

Falta nenhuma,

Como a ninguém que integral se assuma:

 

É assim qualquer amor cimeiro,

- Gratuito por inteiro.

 

 

Fruto

 

Uma religião sem mundo

Gera um mundo sem religião.

Caímos todos no fundo

Dum vulcão.

 

O ateísmo generalizado

É o fruto duma fé

Que não caiu de pé,

Resvalou de lado.

 

No fundo do abismo

Escavo ancestrais fósseis

Dóceis

Ou na fuga cismo?

 

Para a tumba vou

Ou para o voo?

 

O meu guia

É um cadáver ambulante

Ou a magia

Da eternidade num instante

Que me surpreende à esquina de cada dia?

 

 

Graça

 

A graça de Deus

Actua em crentes e ateus,

 

A ninguém discrimina,

A todos ilumina.

 

Em qualquer religião ou sem ela,

Por tudo e todos vela.

 

A bispos, padres, monges ou leigos,

Por igual fornece os taleigos.

 

A cada qual pertence acolher ou recusar

Os dons com que o dotar.

 

Quem não estiver atento ao multiforme caminho,

Crendo que é o único da verdade adivinho

 

E dela, portanto, monopolista,

A influência do Espírito perdeu de vista.

 

Anda definitivamente enganado

E a arrastar o mundo inteiro atrelado.

 

O povo de Deus, ante arautos tais,

Não escuta do Espírito os apelos reais.

 

 

Mania

 

Quem tem a mania de deter a verdade,

Tomba no abismo

Do facilitismo:

Para quê buscar outra, se o não persuade?

 

Não tem mais nenhuma urgência,

Tudo é negligência.

 

A doença derradeira

É de vez:

Finda vítima de ideológica cegueira

E surdez.

 

 

Missão

 

Missão de qualquer de nós,

Ao recriar um mundo novo do velho que até hoje se fez,

É dar voz a quem não tem voz,

Dar a vez a quem não tem vez.

 

Pôr no centro a periferia

Que até hoje mal vivia.

 

Este é o ovo

Que, bem acalentado, nos trará um Mundo Novo.

 

No País, em cada continente, no mundo:

Quanto mais longe e vasto, mais fecundo.

 

 

Criado

 

O domingo foi criado para o homem,

Não o homem para o domingo.

Sem a festa, não vingo,

Que os afazeres me consomem.

Nunca, pois, o inverso,

Sagração do perverso.

 

É o mesmo, porém, em tudo.

Na economia pública e privada

Em que é permanente o cortejo de entrudo

Da humanidade escravizada.

 

No direito

Em que à norma se presta preito

 

Em detrimento da equidade

Que a nenhum juiz persuade.

 

Na religião

Em que o rito,

Em lugar de impelir pela amplidão,

Cria, no incumpridor, o precito.

 

E assim é por todo o lado...

A inversão do primado

 

Humano

A todos nos leva ao engano,

 

Gorando o ninho

Donde nasceriam asas para o caminho.

 

 

Amigo

 

Um amigo lá de casa

Questiona-me se me instalo no dinheiro

Ou no poder.

É quem

Me abrasa

E me arrasa

Por bem

Também,

Que eterno caminheiro

Me quer.

O meu perigo

É não reconhecer neste amigo

O meu amigo verdadeiro.

 

 

Ferida

 

Uma religião enlameada,

Ferida de espinhos,

Por se ter jogado à estrada,

Em busca da pegada

Enjeitada

Dos caminhos,

É bem melhor que a doente,

De tão fechada,

Acomodada

E agarrada

À própria estéril semente.

 

A procura de segurança

É fatal:

Mata, afinal,

O que a mal alcança.

 

Devemos ter medo

De continuar encerrados

Numa falsa protecção,

Enquanto lá fora (é segredo...)

À faminta multidão

Sem credo

Ninguém ouve os brados.

 

 

Notícia

 

Morre enregelado

Um idoso sem-abrigo?

Não é notícia em nenhum lado.

Mas a bolsa em perigo

Caiu dois pontos?

“Aqui d’el-rei!” – grita a comunicação.

 

Ficam logo os exércitos prontos

A conter a sublevação.

 

E continuam a acreditar

Que isto não é uma exclusão

Elementar.

 

Tal e qual como num lar

Ninguém ligar

À basilar falta de pão.

 

 

Concorrência

 

Concorrência de corta-pescoço,

Competitividade

Com a lei do mais forte a roer o osso

Da identidade

De cada qual...

 

O mais forte engole o mais fraco

Sem sinal

De que valha um pataco.

 

Tanto quanto de pés e mãos nos ata,

Esta economia mata.

 

Nos países ricos

Tudo aquilo é por lei proibido,

Desde que bastaram uns salpicos

Para o rumo ir no sentido

De gorar todos os ovos

Do porvir dos povos.

 

Oligopólios, monopólios,

Não.

Aplicam-se-lhes os santos óleos

Da extrema-unção.

 

O mais estranho, porém,

É ninguém ter ido com isto mundo além.

 

As antigas colónias, todo o mundo dos pobres,

Não conta com gestos nobres

 

Tudo ali se sacrifica

Do lucro ao deus que se multiplica,

 

Cortando o pescoço aos povos escravos

Para contar de lucro mais uns avos.

 

99% da riqueza mundial

É apropriada por 1% da humanidade total.

 

E o estrangulamento continua,

Sem a agulha mudar a tropeada de rua.

 

Agora cortamos o pescoço ao mundo pobre.

Amanhã ele aprende, num gesto nobre,

 

Connosco, a vir, logo após,

Cortar-nos o pescoço a nós.

 

Não aprendemos com a Revolução Francesa,

Com as duas Guerras Mundiais...

A Humanidade preza

As estupidezes mais abismais!

 

Vem aí a Terceira Guerra Mundial, disfarçadamente,

Lenta, lentamente...

 

Será mesmo preciso

O colapso total

Para alguém, afinal,

Ganhar juízo?

 

Alguém...

Quando, se calhar,

Já nem restar

Ninguém!

 

 

Enquanto

 

Enquanto a economia

Ficar nas prioridades à frente,

Como hoje em dia,

Das pessoas,

As pessoas não são gente,

São peças razoavelmente

Boas

Para produzir

(A seguir

Aos domésticos animais,

Muito atrás da maquinaria,

Ainda mais

Dos robôs geniais

Da era que se inicia...).

 

E as pessoas são indispensáveis

Para consumir,

Portanto devem ser manipuláveis

O mais que alguém conseguir.

 

Com a economia à frente

Que resta da gente?

 

Esvaziados de conteúdo,

Tiram-nos tudo...

 

De repente

Explodem bombas,

Prolifera o terrorismo...

Da paz as pombas

Despejadas no abismo,

A germinal

Guerra mundial

Anda espalhada por aí.

 

Ninguém a quer ver,

De olhos distraídos à procura de alibi.

 

E nem sequer

Se denuncia

A perversão de valores daquela hierarquia...

Ninguém a combate?

Seremos mesmo

Carne para abate

Pelo mundo a esmo?

 

 

Abstracto

 

Quanto mais abstracto for um ideal,

Mais eterno se mantém

E, por igual,

Mais inútil também.

 

O sonho,

Ou na realidade

O ponho

Ou é mera insanidade.

 

 

Orlada

 

A humanidade

Dos humanos

É toda orlada de insanidade

E de enganos.

Como tolher a contabilidade dos danos?

 

Era bom, era

Que racionais fôramos nalguma era!

 

Não diviso

Quando, sem chicote

A aguilhoar-nos o trote,

Ganharemos juízo.

 

 

 

Desenvolvimento

 

Desenvolvimento sustentável

Sem paixão por uma humanidade solidária,

Indefinidamente aproximável,

Que cuide da renovação planetária

De mil e um avisados modos,

Como casa comum de todos,

Estiola, logo na infância,

Ante os dedos da ganância.

 

Quem a paixão incendeia

A afugentar a alcateia?

 

Alcateia que lá fora

Mora

 

E a que mora cá dentro

De cada qual no escondido centro.

 

 

Surpresas

 

Com Deus

Converso

Neste inseguro tom:

Uma habitual prontidão

Para as surpresas do Universo

Que são as mensagens crípticas dos Céus

E que vêm cada dia

Virar-me sempre para outra via.

 

 

Passagem

 

Verdadeiro salvador

É o que souber fazer do diferendo

Entre sexos, povos, culturas, religiões...

- Lugares de passagem dum teor

Para outro que mal estou vendo,

Num porvir de colaborações

Onde não há vencido nem vencedor.

 

É que, melhor

Que tais celebrações,

É que cada um ali é um ganhador.

 

E é porque a nossa razão

Ainda é muito pobre de razões

Que não atingimos já a cumeeira do Verão

No cume das estações.

 

 

Muralhas

 

Muralhas ideológicas erigidas

Para defender

Uma fé qualquer

Podem ser eficazes, com tais medidas,

Mas matam, a prazo, a fé que se tiver.

Só o diálogo livre e libertador com o mundo

Pode ser de vez fecundo.

 

 

Chefias

 

Chefias que ignoram a historicidade

De modalidades e organizações religiosas

Confundem fidelidade

Com idolatrias dogmáticas tenebrosas,

Sem vislumbrarem o anacronismo

Dos mortos que os mortos enterram no abismo.

Os vivos, porém, andam cá por fora

A passear com Deus a toda a hora.

 

Como o pior cego

É o que não quer ver,

Aqueles caíram no pego,

Andam por aí de todo mortos antes de morrer.

 

 

Berma

 

Ai dos que já têm tudo

E não olham, na berma da estrada,

Para os que não têm nada!

São mascarados de entrudo,

De arca a ser-lhes, tarde ou cedo, esvaziada:

Na hora da morte

Qual a sorte

De tal arca encoirada?

Para o lado de lá não levam nada,

Senão o amor, amizade,

A solidariedade

Que, afinal, não viveram na terrena jornada.

Continuarão a ser aquele sortudo

Que quer tudo...

Só que aí não terão nada!

O inferno nem precisa doutras vias:

Como aguentar o vazio de mãos vazias?

 

 

Problema

 

O problema de qualquer religião

É que se apropriou dum naco dos Céus

E só pensa na lição

Que tem a dar de Deus,

De tal modo empertigada

Que não tem de acolher nem aprender nada.

 

Ignoram o mundo

E o que nele Deus esboça.

Assim, quanto ao que é humano, todas caem no fundo

Da fossa.

 

Os mercenários predominantes no activo

São Deus em negativo.

 

É o pecado

Que prolifera por todo o lado,

A esmo.

Atirá-lo sobre os outros nem vale a pena.

Mais vale, com uma consciência dia a dia mais plena,

Atirá-lo sobre si mesmo.

 

 

Rotina

 

Quando a celebração se degrada

Em rotina esvaziada,

 

O ritualismo vazio

É um litúrgico fastio.

 

Então só de mim sou dono

No abandono.

 

Os ancestrais

Bonzos rituais

 

Quanto mais insistem

Mais no cancro persistem.

 

Só atinge espiritual saúde

Quem deles se não ilude.

 

É do açaimo deles quando me liberto

Que Deus em mim aflora, em meu íntimo desperto,

 

Para ser partilha de vida

Com quem a vida não agrida.

 

- Chega de morte,

Deus é Deus doutra sorte!

 

 

Excede

 

De deus tanto mais sabemos

Quanto mais nos dermos conta

De que excede quanto vemos,

Todo o conhecimento de ponta.

 

E assim será eternamente.

Nunca será prisioneiro, afeito

Obedientemente

A qualquer nosso conceito.

 

Porque se eternizam

Instituições,

Legislações,

Tradições...

- Que, em nome de Deus,

Apenas nos infernizam,

Em lugar de nos vislumbrarem os Céus?

 

 

Prioridade

 

A família não é da escola o complemento,

A escola é que é complemento da família.

Quando esta prioridade não implemento,

Quebro do lar toda a mobília.

 

E nada adianta

Toda a manta

De especialistas

Que pela escola se implanta.

Apenas aumentam farmacêuticas listas

Que nem curam sequer uma dor de garganta.

 

 

Abriu

 

Jesus abriu um caminho,

Não acabou com a história humana.

É o cadinho

Donde qualquer religião emana

E com que cada uma sistematicamente se engana,

Perdida em litúrgico terreno maninho.

 

Cristianismo de múltiplas igrejas,

Judaísmo de tantas sensibilidades,

Muçulmanismo de correntes e de invejas,

Budismo de contratantes espiritualidades,

Hinduísmo de tantos deuses

Aflorados em mil enfiteuses...

- Todos acabam com a história, enfim,

Quando julgam que detêm e pretendem fornecer a chave do fim.

 

Ora, cada história individual,

Do íntimo iluminada,

É um laboratório pessoal

De conversão permanentemente inacabada,

A tecer externos

Laços fraternos.

 

Podemos diariamente nascer de novo,

Da vida em cada covo.

 

O mais, quando para isto tiver préstimo,

Virá por acréscimo.

 

 

Enriquecimento

 

A diferença,

Factor

De enriquecimento da comunidade,

No pendor

Que mais convença:

A solidariedade.

 

Construir comunidades

Sem barreiras,

Com iguais oportunidades

Para cada um, nas divergentes fileiras.

 

Comunidade activa:

Todos com uma presença

Positiva

Perante a diferença.

 

E, no fim, a maravilha

De haver mil pontes para cada ilha.

 

 

Canse

 

Que ninguém canse no caminho,

Com a tentação da pegada definitiva,

Perante a insondável infinidade que adivinho

No horizonte humano por que viva.

 

Há sempre novas fronteiras a transpor,

Mais portas para abrir.

Ninguém é nem será nunca senhor

Do porvir.

 

 

Filhos

 

Filhos de Deus sendo todos,

Todos somos chamados a fazer do mundo

Uma família de famílias

De povos, culturas e modos,

Num fermento fecundo,

Através de vigílias,

Quezílias,

Até inventar novas mobílias

Para a casa do Homem de cujo sonho tanto abundo.

 

Somos já o que seremos em tais chãos:

- Todos irmãos.

 

 

Servir-se

 

Menoridade

Do entendimento

É a incapacidade

De servir-se dele, a todo o momento,

Sem doutrem a mão

Duma orientação.

Tudo por falta de coragem

E decisão.

Segue por teu pé tua viagem!

 

Tua preguiça

É que tua vida te enguiça.

 

Não alimentes o infantilismo

Do obscurantismo

 

De quem alimente

Tua vida inteira como um dependente.

 

Ouve todos,

Ausculta o teu coração

E, da riqueza de todos os bodos,

Escolhe e segue a tua própria orientação.

 

 

Tornar-se

 

A felicidade

É tão individual

Que nenhum conselho persuade,

É mesmo com cada qual:

Cada qual deve, pois, de raiz,

Tornar-se feliz.

Solitariamente

Com toda a gente.

 

 

Turismo

 

Turismo dos santuários:

Visitar os armários

 

Onde selaram os cadáveres da religião,

Em lugar da peregrinação

 

A um qualquer de esperança alimento,

A fontes de encorajamento.

 

Como andamos distraídos

Do passado com os ossos corroídos!

 

Em todos os sentidos,

Em todos,

Sem bodos,

Mal nutridos.

 

 

Problema

 

O problema do admirador

É de quando ele admira tanto

Que, a boca aberta de espanto,

Se esquece de ser seguidor.

 

Jesus Cristo

É a milenária maior vítima disto:

 

Tudo é incenso,

O resto dispenso...

 

Para quê o Calvário?

Já tenho comigo o Santo Sudário!

 

 

Suportam

 

Os pobres suportam a injustiça

E também lutam contra ela.

Promessas ilusórias, desculpas, pretextos – tudo enguiça

E cerra cada janela.

 

Não esperam de braços cruzados

A ajuda, o plano assistencial ou a solução

Que nunca chegam ou chegam para pô-los anestesiados,

Ou para, domesticados,

Os ter à mão.

 

Os pobres com outras vistas

Querem ser protagonistas.

 

Organizam-se, estudam, trabalham, reivindicam,

A solidariedade entre os doridos

Praticam

De que andamos tão esquecidos

Ou que o mundo tanto quer

Esquecer.

 

Lutam contra as causas estruturais,

Desigualdade, desemprego,

Falta de terra, de morada para os casais,

A recusa do sossego

Dos direitos laborais

E sociais...

 

Enfrentam os efeitos destrutivos de cada caseiro

Império do dinheiro:

Deslocamentos

Violentos,

Migrações

De partidos corações,

Tráfico de gente,

Droga, guerra, violência permanente...

 

Os pobres não trabalham com ideias,

Trabalham com realidade,

Os pés na lama e as mãos cheias

Da carne e sangue de cada atrocidade.

 

Cheiram a bairro de lata,

À espezinhada prostituta,

Ao povo do desempata,

À luta!

 

 

Nenhuma

 

Nenhuma família sem casa,

Nenhum camponês sem terra,

Nenhuma brancura de asa

Sem a leveza do sol que o ar lhe descerra!

 

Nenhum trabalhador sem direitos,

Ninguém sem a dignidade do trabalho,

Todos afeitos

E atreitos

A cerrar as mãos a cada golpe do malho!

 

 

Mundialmente

 

Temos mundialmente de crescer

Numa solidariedade

Que permita a qualquer povo, a qualquer

Que se não degrade,

Tornar-se o artífice fino

Do próprio destino.

 

Uma liberalidade

Que coloque bens e serviços

Ao serviço de quem o mundo grade,

De modo que fermente a liberdade

Sem mais ser tolhido por enguiços

De feitiços.

 

A função comunitária da propriedade,

O destino universal dos bens,

Eis a anterior realidade

Ante a privada propriedade

Que há-de libertar os até hoje reféns.

 

Uma economia que tal não respeite

Não pode ser economia aceite.

 

Apropriar-me só tem um sentido

Ou não tem sentido nenhum:

É para melhor por mim ser servido

O bem comum.

 

 

Caminhos

 

Os Apóstolos sempre foram depravados

Pela vontade de poder.

Nunca entenderam os caminhos trilhados

Por Jesus, a Palestina ao percorrer.

Nem depois de ressuscitado

Entenderam o legado.

 

Tanto assim

Que hoje andamos bem mais onde eles nos quiseram

E não onde Jesus apontou o fim

Aos que o pretenderam.

 

Tudo é pompa de poder e domínio,

Não da fraternidade o fascínio.

 

Até um Estado a Igreja quer...

- Não há mesmo maneira de aprender!

 

 

Mataram

 

Do poder as ambições,

Do dinheiro e do prestígio

Mataram as igrejas e as religiões,

No inferno tombadas quando se creram no fastígio.

 

Apenas a vida ao dar

As pode ressuscitar.

 

Retornar da morte à vida,

Só dando o coração

E a mão

Aos afogados na maré batida

Da solidão,

Do desânimo ante o mundial destempero,

Do desespero.

 

 

Porvir

 

O porvir da humanidade vem de resolver

Apenas este assunto:

Aprendermos a viver

Em conjunto.

 

O que jamais é possível

Entre o rico e o miserável com um letal desnível.

 

No lar, na comunidade e no País, primeiro,

E, ao mesmo tempo, no planeta inteiro,

 

Ou o mundo é comum

Ou não vai haver mundo nenhum.

 

 

Perdeu-se

 

Uma Igreja que se quer salvar

Perdeu-se de Cristo:

Isolamento e proselitismo é o lugar

Disto.

 

Quando cada uma pretende ser a única via,

Fechou do Céu a portaria.

 

Quando seu dogma é o único salutar,

Então Deus, o inefável, perdeu o lugar.

 

Entende-o qualquer patego...

- Nas igrejas, porém, que desassossego!

 

Em todas as religiões é o mesmo:

Transformam o mundo num torresmo.

 

Sem verem que a vívida espiritualidade

É exactamente o contrário de tal brutalidade.

 

Quem é que de todas na chefia

Põe tantos castrados de sabedoria?

 

Quem é que não vê que, ao institucionalizar,

Anda a montar

As proibidas tendas do Monte Tabor,

Em lugar

De descer a montanha

Com os olhos a arder, do fulgor

Do Outro Mundo, em revelação tamanha

Que de vez a vida inteira lhe apanha?

 

Qualquer religião

É apenas isto.

E o culminar de Cristo

É apenas que todas rumam à ressurreição.

 

Quem o não entendeu

Ainda nem tocou no Céu.

 

Anda por aí perdido

À procura de sentido,

Quando, afinal, o tem ali sempre à mão...

- Mas anda tudo sempre tão distraído!

 

 

Irmã

 

Sinagoga, igreja, mesquita,

Cada qual mãe e mestra,

Nenhuma a irmã que me desquita,

Antes me adestra

A defender-lhe a parede humana

Com que a si própria e a todo o mundo engana.

 

Nenhuma caminha

Com a humanidade, antes sozinha.

 

Tem sempre muito a dizer...

Do que tem,

Porém,

A aprender

Não há ninguém

Que a logre convencer.

 

Para reencontrar

Das águas vivas a torrente,

Só se de escutar

Desenvolver uma nova frente

Permanente.

 

O diálogo fica sempre em falta,

Obrigatoriamente,

Em quem pretenda colocar Deus na ribalta,

Pois Deus fala pelo Universo e toda a gente,

Inesgotavelmente.

 

Deus transcende,

Sempre mais além:

Nada de vez o apreende,

Nada o contém

Nem retém.

 

Quem julga que dele guarda o depósito

Em Escrituras e tradições

Perdeu a chave do multímodo compósito:

Do eterno a colheita do fermento

No afloramento

De Deus na história de cada um, do mundo e das multidões.

 

É que os céus e a Terra

Clamam permanentemente a glória de Deus

A quem deles se não desterra

Pretendendo que guardou no bolso os Céus.

 

 

Fraternidade

 

Sem práticas

De fraternidade irrestrita,

Vêm aí dores ciáticas

Nas pegadas de cada visita.

 

E então

O mundo inteiro se dana:

Não há salvação

Para a aventura humana.

 

 

Negar

 

De Deus nada podemos dizer

Sem negar o dito,

Que quem no dito se prender

Impede o salto para o Infinito.

 

O mistério é inabarcável.

Deus não cabe na ilusão

Do conceito do que for aproximável

Nos gérmenes do eterno em nosso chão.

 

São vestígios duma passagem

Que as artes mal apontam, na nossa intérmina viagem.

 

Quem na passagem passa,

Porém,

Infinitamente nos ultrapassa,

Caminhada além.

 

Por isso é que dogmas, Tradição,

Escrituras,

Tomados como de Deus revelação

Em formas puras

Intocáveis, definitivas,

São novos ídolos que arquivas,

Pejados de alienação:

 

Deus, deste crente,

Continua de vez ausente,

 

Mais ainda se isto for a religião

Integral da instituição.

 

É tudo, inadvertidamente,

Mas absolutamente,

Uma traição.

 

E é o ateísmo mais traiçoeiro:

Com isto Deus peneiro

E jogo fora de meu coração,

Tudo em nome duma religião,

Acaso bem-intencionada

Mas definitivamente mal formada.

 

Tudo, ao invés, são setas no caminho

A indicar, na infindável treva luminosa,

O que na lonjura do Infinito adivinho

E me provoca a gostosa

Caminhada infatigável,

Sempre, da vida na prosa,

Viável.

 

Deus, pois,

Livra-me de Deus,

Que de ti todos os conceitos, nomes, religiões,

Instituições...

- São ateus

A pretender prender nas mãos os arrebóis.

 

Esta idolatria

É que, história além,

Abate os deuses, em nome da magia

Duma nova utopia

Que um novo falso deus instaurará também.

 

Repetidamente

O mesmo muro a vedar-nos de ir em frente.

 

 

Servir

 

Não podemos servir a dois senhores: a Deus e ao dinheiro.

Mas o rico é das religiões sempre o parceiro...

 

O rico é o sinal

Da bênção de Deus,

O pobre é o mal,

Abandonado dos céus?

 

Não há maneira de entendermos nada:

Quem em nós manda, se for o dinheiro,

Já temos dono, de entrada.

Seremos o escravo prisioneiro,

A escravizar os mais que vejo,

Duma assentada,

Ao meu desejo.

 

Se quero ser livre e ajudar

A libertar o oprimido,

Continuo a precisar

Do dinheiro deste mundo,

Porém, o sentido

É o outro que é fecundo:

O dinheiro é dono

Ou instrumento?

Se dele me abono

Como de equidade fermento,

Não irei criar

Sistemas para dominar.

 

Pô-lo-ei ao serviço,

Quebrando do pobre todo o enguiço,

 

No indivíduo, região ou país,

Irei até à raiz.

 

Aí é que o mundo caminha de verdade

Rumo à liberdade.

 

 

Defeito

 

A Igreja, como qualquer religião,

Tem o defeito pecador

De olhar demasiado para o próprio torrão,

Como se de luz própria tivera o fulgor.

 

Nenhuma, porém,

O tem.

 

Cada uma tem de recolhê-lo na fonte

Melhor

Que lhe couber no horizonte.

 

Todas são mistério da Lua

Que só reflecte a luz do Sol.

Quando assim nenhuma actua,

Não nos traz nenhum arrebol.

 

Baralhados na escuridão,

Todos nos matamos, uns dos outros à mão.

 

Quando qualquer uma apenas se refira a si,

Nenhuma luz brota dali.

 

Inevitável,

Então,

É a imparável

Divisão.

 

Cada qual defende,

De armas na mão,

O torrão

Que pretende.

 

Perdeu de vez o fito

De caminhar terra além

No rumo que diz que tem

Do Infinito.

 

 

Escutar

 

Temos de escutar do mundo as vozes.

A voz dos pobres,

Cujas fomes atrozes

Repicam do sino os dobres,

Morta a dignidade

Na miséria que os degrade.

 

A voz das vítimas dos conflitos

Que tantas vezes são

Os gritos

Aflitos

De confrontos de religião.

 

A voz dos jovens sem esperança,

Desanimados

Da vida e resignados

Ao sonho que não se alcança,

A viverem o tormento

Sem horizonte do momento.

 

Todo o grito

É a semente disfarçada

Duma estrada

Para o Infinito.

 

 

Permanente

 

É permanente a tentação

De ao Espírito resistir,

Que ele perturba, revolve, faz trilhar o chão,

Incita a Igreja e qualquer religião

A avançar, a prosseguir...

 

Quão mais fácil e confortável

É acomodarmo-nos numa posição

Estática, inalterável!

 

Ora, fiel,

Só quem desiste de o regular,

Domesticar,

Preso a cordel

Ao seu próprio umbigo,

Como escravo amigo.

 

Quem apostar na defesa

Bloqueia do Espírito qualquer proeza:

 

Ele é criatividade,

Novidade

 

E cura

Por mil águas inesperadas de frescura.

 

 

Acordo

 

Basta o acordo no pão, vinho e nos untos

A dar ao faminto em frente.

Podemos todos avançar juntos

Sem renunciar

Nem ninguém repudiar

A crença diferente.

 

A crença é apenas,

No bastidor das cenas,

 

O que motiva o coração de cada um

A juntar-se ao projecto fraternal comum.

 

 

Diário

 

Todos somos responsáveis

Pelo diário de más notícias.

Porque não as agradáveis

Provirem de nossas blandícias?

Só sevícias, só sevícias?!

 

A nossa vida interior

Semeia sempre a semente

Do que vai ser o mundo exterior:

Se eu mudar profundamente,

Posso mudar toda a gente

E arrastar o mundo inteiro

Para a frente,

No meu sendeiro.

 

Porque não para melhor?

É só a tal me propor...

 

 

Minha

 

A minha religião é a melhor para mim.

Os outros têm outros modos.

Assim,

A minha não é a melhor para todos.

Aliás, então,

Nem é preciso terem qualquer religião.

Basta a si serem fiéis,

Ao próprio imo atando os próprios cordéis.

 

 

Diálogo

 

O diálogo não bastaria

Para nos salvar,

Que a raiz não erradicaria

De nosso desejo de dominar.

 

Sem ele, porém, o caminho

É o abismo de que me avizinho.

 

Se quiser deveras uma saída,

Não há outro trilho para a mundial ida.

 

 

Miúdo

 

Pede o miúdo mendigo:

“Não dê nada a Nossa Senhora,

Que já tem muito ao abrigo.

Eu é que preciso agora...”

 

Do Santuário, porém, todos preferem o cofre.

Ora, o miúdo é que sofre...

 

Dos Céus o teste

Há-de ser perpetuamente este:

O que fizeste ao mais pequeno,

A mim o fizeste;

Ele é que é Deus no terreno.

 

Como ninguém olha para ele,

Afinal que crente

Vai ao Santuário?

 

Arrepia-se-me a pele,

De repente:

Todos olham para o sacrário,

Ninguém olha para a gente...

 

Ora,

Deus mora

No fundo do coração inocente

Que bate, mesmo impotente,

Até no fundo do fulgor

Do pior

Sicário.

 

Do Santuário

Qual é, afinal, o melhor

Fadário?

 

À procura dos Céus,

Vamos até aos extremos.

Depois passamos por Deus

E não o vemos!

 

 

Pára

 

Religião que religa

Não pára em nenhuma porta,

Senão tudo com tudo briga,

Horta a horta.

 

Une a minha casa aos Céus

Que são o Outro totalmente,

O eterno indizível Deus

Nunca dominado à frente.

 

Une-me a mim na fundura

De meu mundo interior,

A me orientar no que apura

De calor.

 

Une-me aos demais humanos

No altruísmo benfazejo,

No remedeio dos danos

Mal os vejo.

 

Une-me ao Cosmos inteiro,

À natureza que apraza

O fado de que me abeiro,

Minha casa.

 

 

Muda

 

O mundo tem de mudar?

Então muda tu, muda,

Que o mundo muda a par.

Já tem quem lhe acuda...

 

Um dia uma guerra qualquer

Há-de haver

E verás

Que ninguém vai aparecer...

Que paz!

 

 

Escuta

 

Pára,

Escuta a voz

No interior do coração:

Diz-nos ela a verdade rara

Sobre nós

E sobre a vida – a comunhão.

 

Antes de perguntar

Quem disparou a seta

Ou quem é o ferido,

Vai-o curar.

Que o tempo não comprometa

O sentido,

Que, com o alarde,

Não fique demasiado tarde.

 

 

Violência

 

A violência do oprimido

Contra a violência do opressor

É o mundo da violência revivido,

É o comércio de armas no esplendor.

 

Corrompe e desgraça

De ambos a humanidade.

Ali não grassa,

Viva,

Nenhuma novidade,

Nenhuma alternativa.

 

É urgente quebrar o padrão.

Doutro modo, aliás,

Então,

Não haverá nunca paz.

 

 

Consentir

 

Nenhum crente

Pode consentir na idolatria,

Todo o dia

Em todo o mundo renascente,

Do poder, da finança, da economia,

Da política, da técnica, da religião...

- Tudo deuses de ocasião!

 

E, quanto mais ateus,

Mais os homens incensam dali um qualquer deus...

 

Tamanha é a inconsciência

Que nem dão conta de tão idolátrica dependência!

 

 

Primeiro

 

Ou a religião

É o primeiro grito

Contra a miséria, a opressão,

Ou denuncio-a, contrito,

Por, em busca do louvor,

Ignorar o amor:

- Ignorar a indignação.

 

 

Temer

 

A sabedoria

A quem provoca temor?

Àquele a quem o sabor

Faz temer que haja outra via...

 

Os caminhos caminhados

Já não são do amor lavrados:

 

Enterram-nos o coração

No seco chão.

 

Contudo, há sempre uma aurora

Que na contra-encosta mora.

 

Quanto orvalho a rorejar!...

- Toca a apressar, a apressar!

 

 

Pergunte

 

Para que a vida regale

O mais que puder

Nalgum lugar,

Que ninguém se instale:

Pergunte pelo que deve ser

E que é que falta realizar.

 

E ponha-se a caminho,

Não importa

Se depressa ou devagarinho:

- Abra uma porta!

 

 

Arruma

 

Pensamento estabelecido

Não é uma fortaleza

De defesa

(Que o por ele protegido

Tanto preza),

É o convite ao pensamento demitido.

 

Que ninguém admita

Que outrem pense, investigue, escolha

Por si, na bendita

Tradição que tudo arrolha

Na garrafeira

E arruma, a criar pó, da vida na prateleira.

 

Não se demita

Quenquer

De pensar,

De o caminho investigar,

- De viver!

 

 

Vedes

 

Vedes o mundo e perguntais:

Porquê?

Para trás olhais

A ver o que é que dali se vê.

 

Eu sonho para a frente

Com o que nunca existiu, então,

E pergunto, de repente:

- Porque não?

 

 

Poder

 

O poder que tem

Quem se reconverte permanentemente

E tal se projecta, coerente,

Vida além!

 

Sem nem reparar é, fecundo,

Semente

De mundo.

 

 

Estado

 

Arder e iluminar,

Com o estado actual do mundo

Jamais se conformar

Em tudo o que tiver de infecundo...

 

- Então de lar

A proliferar

O Cosmos inundo.

 

 

Manipulada

 

Sendo a religião o maior bem,

Manipulada para humilhar

E torturar

É o maior mal também.

 

Urge então defender

Homem e mulher

 

Contra a prepotência desumana

Que dela emana.

 

O pior pecado

Que nos mata por dentro

É o que anda dissimulado

Aqui no centro.

 

 

Quando

 

Quando o mundo corre para o abismo,

Quando o país corre para o abismo,

Quando o vizinho nele já está caindo,

Cismo:

A indiferença com que na vida vou indo,

Da vida pela estrada,

A abstenção na hora de votar na urna selada,

Não são aquilo de que as crismo,

São esfiado cobertor na noite gelada.

 

Se tenho um meio de fazer nascer o sol,

Como é que isto comigo não bole?

 

 

Continuaremos

 

Continuaremos a ser os que vêem, chorando,

Atrás dos cortinados espreitando,

 

Mas, perante a desgraça desatada,

Não fazem nada?

 

No ajuste de contas,

Quando chegar a nossa vez,

Não admira que ninguém ate as soltas pontas

Do nosso entremez.

 

Quem mexe um dedo por gente de tal jaez?

 

 

Baixa

 

Há tanta gente

Que baixa a cabeça e vai à sua vida

Enquanto crianças, em frente,

Olham para eles, a vista sentida,

Por trás do malfadado

Arame farpado!

 

Que é preciso para a gente boa

Deixar de ir à toa

 

E praticar, então,

Qualquer boa acção?

 

 

Fará

 

Não sei o que fará de alguém uma boa

Pessoa.

 

Sei que, se olharmos todos para o lado

Ante o crime descarado,

 

Então, embora com a melhor boa fé,

Nenhum de nós o é.

 

Levou uma vez ao holocausto.

Será que o mundo não ficou de vez daquilo exausto?

 

 

Abaixo

 

Como é que alguém

Pode deitar abaixo um filho,

Empurrá-lo para um caminho que ele não quer

(Mas “tanto que lhe convém!”),

E depois, mesmo sem sinal de sarilho,

Virar-se contra ele por se não ter

Conformado?!

 

Que amor mais atraiçoado!

 

É só poder e domínio,

Não há ternura

Nem fascínio.

Tudo é uma infecção que supura.

Qual amor!

Entramos nos domínios do terror...

 

 

Vazia

 

A tua estrada vazia de ti

Como a manténs!

Os nadas que vagueiam por aí

São bem piores que os zés-ninguéns.

 

Estes um dia acordam

E então

Pode ser que mordam...

Aqueles, não!

 

 

Acreditar

 

Difícil é acreditar apenas,

Confiar numa crença,

Sem nunca saber.

 

Até que, minhas horas finalmente plenas,

Tarde demais vem a sentença

E acabei já por morrer.

 

É, porém, a única via

Até que um dia, até que um dia...

 

 

Menos

 

Mundo além, menos de nós são pobres,

Menos têm fome,

Menos crianças morrem, da vida nos alfobres,

Mais homens e mulheres sabem ler

E escrever

Da vida que os consome.

 

Cada vez mais toma forma

Dos direitos da mulher

E de toda e qualquer

Minoria

A norma

Que os respeita a cada dia.

 

Há esperança

E progresso

Nesta histórica ponta de lança

Onde hoje no mundo ingresso.

 

Então porquê tanta raiva,

Tanto descontentamento

A enregelar-nos, fustigante saraiva,

Com em nenhum outro momento?

 

Tanta desesperança

Entre quem mais tudo alcança?

 

O idoso que inútil se sentir

Três vezes mais prematuro irá morrer

Que o que útil se vir

Os demais a socorrer.

 

É para cada qual o aviso

De precisar de ser preciso.

 

Dentro de cada um só se abrem os portais

Se servir os mais.

 

Se acender uma luminária para alguém,

Ela ilumina, do lume no cadinho,

Também

O meu próprio caminho.

 

Trabalhar dos outros em prol

É o píncaro mais alto da vida humana:

Dali dimana

Da vida feliz todo o rol.

 

Quem der a prioridade

A fazer aos mais o bem

Aumenta a probabilidade

De sentir-se feliz também.

 

Quanto mais nos unimos

Ao resto da humanidade

Melhor nos sentimos

Em toda a profundidade.

 

Não há falta de bens materiais,

Há gente demais

 

Que não faz falta,

Que dos males da vida já teve alta:

 

Inútil, desnecessário, desunido,

Como é que isto para alguém fará sentido?

 

Sentir-se supérfluo, descartável

É um golpe rude:

Um isolamento social inevitável,

Dor emocional, se nada mude.

 

Todos temos algo de valor

A partilhar.

Cada dia terei de me propor:

- Que irei dar?

 

A irmandade

E a unidade

 

Globais

São compromissos pessoais.

 

Tudo se resume

Em tornar isto um costume.

 

O que nos une não é uma ideologia

Nem uma religião,

É crer que cada um tem a função

De contribuir para um mundo de magia

 

E que esta identidade

É intrínseca a cada personalidade.

 

Não se contentar

Com a segurança física e material

É revelar

A fome universal

De ser necessário,

Tendo cada qual o mundo inteiro por destinatário.

 

Trabalhemos juntos,

Numa unidade em que ninguém se consome,

Todos e quaisquer assuntos

Que saciem esta fome.

 

 

Tímidas

 

Há verdades tão tímidas, tão frágeis

Que só se nos revelam após nos termos afastado,

Ágeis,

De nossa rotina habitual e passado

Uns dias em contemplação.

 

A maravilha,

Então,

É que até o negro chão

Brilha.

 

 

Provar

 

Que leis quebrarias,

Que costumes,

Para provar que a ninguém pertencias

Senão aos lumes

Que em ti próprio acendes,

Únicos a que te rendes,

Únicos onde vislumbras as vias

Que encherias

Do que aprendes

E rendes

Todos os dias,

Quando os pedregulhos fendes

Que te tolhem do Infinito os guias?

 

 

Todos

 

Todos estamos vencidos,

Todos estamos maculados.

Quem pode ser juiz dos pecados

Cometidos?

Todos os juízes são culpados:

Ou condenam e são todos condenados,

Ou absolvem e somos todos absolvidos.

 

 

Redor

 

Os que vivem no alto deserto

Nunca viram o mar,

Mas sabem que existe, que é certo.

Podem confiar,

Ao redor do lume das toscas fráguas,

Nos que viram grandes águas.

 

Delas separado,

Nalguma medida

Sentes-te abandonado

Da fonte de vida?

Bate à porta deserta:

- Ser-te-á aberta.

 

 

Contas

 

Ser especial,

Quando com os mais em comunhão

Total,

Que bênção então!

Mas também que isolamento

Isto de ser único, afinal!

E, portanto, que tormento,

Que maldição!

E quantos o pretendemos

Sem deitar contas ao que pagaremos!

 

 

Sacerdote

 

Um sacerdote professaria

Ter transposto a porta da sabedoria

 

Mas depois não tem a coragem

De tal viagem?

 

O pior, após,

É que esconde a chave do resto de nós.

 

Pavoneia-se por todo o lado

Com o peito inchado?

 

Cuidado com quem se exibe!

É o perigo

Que nos inibe

De algum dia atingirmos o pascigo.

 

Mesmo que ele nos acoite,

Todo ele é noite.

 

Ora, só à luz da madrugada

Deita o rebanho pés à estrada.

 

 

Terrível

 

Uns aos outros temos de nos ajudar,

Que o terrível evento

Pode ocorrer a qualquer momento.

Temos de ir

Pelo menos dele a par,

Se o não lográmos de véspera prevenir.

 

Se não for de mãos dadas,

Amanhã nem restarão sepulturas caiadas.

 

 

Castigo

 

Somos formados

Por actos e desejos de pais e avós.

O castigo por não vivermos criticamente reconciliados

Com o que nos deram, nesta teia de cipós,

 

E por não assumirmos a responsabilidade