PRIMEIRO  TROVÁRIO

 

 

 

              OS  CAMBIANTES  DA  VOZ  TODO  O  SER  ME  REGULA

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 1 e 134, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

                                    1 - Os cambiantes da voz

 

                                    Os cambiantes da voz todo o ser me regula,

                                    No amor identificando-me a matriz

                                    Donde o arvoredo da utopia pula,

                                    A regra respeitando do que a nunca anula,

                                    Para ao ser retornar, à raiz.

 

                                    Aqui vivificado, o amor

                                    De novo trepa ao sonho, à Infinidade,

                                    Da norma trilhando a via e o suor,

                                    Até que a ser amor de novo nos persuade.

 

                                    E a utopia à lei se funde

                                    E o amor mais ser devém

                                    E o dever com o sonho se confunde.

 

                                    Ser e amor, lei, utopia se unem além

                                    Na festa onde Tudo é o Infindo que nos foge e vem.

 

 

                                    2 - Os cambiantes da voz todo o ser me regula

                                   

                                    Os cambiantes da voz todo o ser me regula

                                    No verso regular de métrica acertada,

                                    Em poemas de rimas onde se rotula

                                    Cada pendor da vida que mais estimula

                                    A ver o que o ser for ao perpassar na estrada.

 

                                    Toco o ser com a ponta da palavra atenta,

                                    Desvendo-lhe a faceta mais inesperada,

                                    Tomando-lhe o sabor com que se condimenta,

                                    Ao ritmo duma incerta mas fiel passada.

 

                                    E aquilo que é de súbito se nos revela

                                    Em pendores estranhos a uma luz diversa

                                    Por trás de que entrevemos, por acaso, a estrela

 

                                    Que o viandante guia pela noite adversa,

                                    Cuja passada trôpega então torna tersa.

 


 


3 - Sai

 

Quando o filho sai de casa,

Ficam com mais tempo os pais,

Mais força que lhes apraza,

Laços criam com os mais

 

 

 

Familiares, amigos,

Atam novas relações…

O contacto oferta abrigos

De felizes comunhões,

 

Podem jogar para fora

Mil e uma irritações,

Vai o antigo stresse embora…

Tudo são ocasiões

 

De ser importante e ledo

Para os mais a que aproveite

Como, mais tarde ou mais cedo,

Para se sentir aceite.

 

 

4 - Murmura

 

Um ladrão, ante a caverna,

Murmura, convicto e rijo:

- Mas que belo esconderijo!

O artista, numa superna

 

Faísca de arroubos reais:

- Bom para pintar murais!

 

O avarento, a catar oiros:

- Cave de esconder tesoiros…

 

E só o sábio diz a eterna:

- Que bela, bela caverna!

 

 

5 - Silêncio

 

Importa mesmo anunciar

Que o silêncio uma ninhada

De feiuras vai criar:

A dúvida acumulada,

 

Qualquer desentendimento,

Auto-estima destruída,

Depois o ressentimento…

- E anoitece em toda a vida.

 

 

6 - Empírico

 

Se examino a natureza

Só com empírico olhar,

Descubro que na represa

Do corpo vem colocar

 

O imo do Homem tal num grande

Palácio onde raro ocupa,

Dos quartos por onde ele ande,

Os mais bonitos que agrupa.

 

 

7 - Sobrepõe

 

Se sobrepõe-se o interesse

A todo o tipo de afectos,

Honra e justiça se esquece,

Humanidade e projectos,

Para obter, a mal ou bem,

O que a quenquer lhe convém.

 

Na vida de engano, torto

Se finda o mundo assim morto.

 

 

8 - Caída

 

Quando a mulher desolada

Se encontra e sem conselheiro,

É uma bolsa de dinheiro,

Jóia caída na estrada,

Mesmo à mercê do primeiro

Que ali passe de jornada.

 

Se calha encontrá-la um homem

Virtuoso e de elevados

Princípios, estes achados

Manda apregoar que os tomem:

Talvez os bens encontrados

Busque alguém e ambos se somem.

 

Quantas vezes, ao contrário,

Sem escrúpulos alguém

É o adulador que advém

No caminho temerário.

Sempre este julga que tem

Direito à presa, sumário!

 

 

9 - Angústia

 

Os espíritos maiores,

Pela angústia avassalados,

Aos desânimos piores

Acabarão inclinados.

 

Serão os mais susceptíveis

De acaso desesperar

E das desgraças visíveis

Vencidos irão tombar.

 

E uma queda das alturas

É a pior que configuras.

 

 

10 - Chutada

 

Que é que eu tenho a ver com isto,

Com a vida que me atola?

Não fui tido em conta, existo,

Ao calhar chutada bola.

 

Por vezes duma pessoa

Se apodera a vida acaso,

Arrasta-a, jogando à toa,

Tece-a a história a que der azo.

 

E, contudo, não é real,

É a fantasia que a cria.

Mas deixa-nos, no final,

Espezinhados na via.

 

 

11 - Diferença

 

Não é estrato social

A diferença entre as gentes,

Mas o que foi cada qual,

São os corações e mentes.

 

De escalões médios ideias

Recolhemos dominantes;

Do povo comum, a meias,

A vida e calor constantes,

 

Sinto-lhe os ódios e amores.

Do que eu fizer de tais veios

É que talho meus pendores:

Cumes, vales e entremeios.

 

 

12 - Investigador

 

O investigador não basta

Aos factos se confinar,

Urge discernir a casta

Do que se repercutir,

Do que se ramificar

Dos dados com que bulir.

 

Mais se as ondas se estenderem

Pelos séculos além,

Se nos mitos se esconderem,

Em lendas com que encantar.

Distorce-os isto, porém,

Como eco a reverberar.

Não localizando a voz,

Qualquer eco, todavia,

Distorcido embora após,

Apontar-nos pode ainda

O rumo donde viria

Na direcção com que finda.

 

Qualquer facto é uma pedrinha

Lançada ao lago da história.

Mui rápida se adivinha

Que se afoga sem mais rasto:

Mas a ondulação memória,

Se na perspectiva a engasto,

 

Nos deixa que nos permite

O ponto localizar

Onde caiu que a desquite.

Guiados pela ondulação,

Ou mergulhar ou dragar

Poderemos sempre então.

 

O anel de ondas viabiliza

Descobrir o que podia

Doutro modo, a outra brisa,

De vez irrecuperável

Parecer à luz do dia

Ao mais persistente e fiável.

 

 

13 - Tratamos

 

A forma como entendemos,

Tratamos a informação

Depende de como a vemos,

Se nos diz sim ou diz não,

Positiva ou negativa:

Se ouves falar num pequeno

Rol de indivíduos que viva

Num terrível mal terreno,

 

Não ignores que maior

Será o número daqueles

Que, como tu, dão sabor

Ao bem-estar que interpeles.

 

Quase todas as terríveis

Histórias da informação

De algo de cruel visíveis

As escaras no-las dão,

 

Mas que apenas acontecem

A um pequeníssimo grupo.

Os demais, se desfalecem,

É da festa em que me ocupo.

 

 

14 - Falsa

 

A religião que é certa

É sempre a falsa questão

Que o coração nos aperta

Em vez da libertação.

 

O trigo, após a colheita,

Terá de ir para a moagem.

Poderá ser pela estreita

Via nortenha a viagem

 

Cujo piso está melhor,

Embora seja a mais longa.

Ou antes o sul propor

Que, mais curto, se prolonga

 

Por mil curvas e buracos.

Ou, se calhar, pelo leste,

Que custa mais uns patacos

Por trepar montanha agreste.

 

Ou, então, pelo ocidente,

Com perigo de atolar-nos,

Mas chega lá de repente,

Excepto quando afogar-nos.

 

Contudo, quando cheguemos

À moagem, quem atende

Não lhe importa donde viemos,

Pergunta a quem se lhe rende:

 

"Pois então, ó meu amigo,

É mesmo bom o teu trigo?"

 

 

15 - Caminho

 

O caminho da cidade

Com o do lar se confunde,

Tricotado idade a idade

Pelas gerações que funde.

 

Os artistas se esgueirando

Pelos bastidores, rumo

À noite escura, contando

Do palco o breve resumo,

 

Vão aos mais novos que virem

Pedir para os substituírem.

 

São séculos iludidos

Pedindo às urbes sentidos.

 

 

16 - Corpo

 

O meu corpo é um automóvel,

Pego nele para dar

A volta à volta do imóvel,

Para em forma o conservar.

 

Um coração rijo faz

Que os actos do dia-a-dia

Mais fácil e mais capaz

Logo os executaria.

 

A vida é boa, a saúde

Ainda a leva a ser melhor.

Das virtudes a virtude

É a de que eu não desafore.

 

 

17 - Cadeira

 

Na mesma cadeira nos sentemos dias

E dias a fio: logo ali veremos

Como nos sentimos proprietários, guias,

Como senhorios com o mais que temos.

 

Às vezes foi só no dia

Em que obrigam a mudarmos

Nossa vida onde se via

De tudo conta nos darmos.

 

Mudo de casa e relações humanas,

Mudo de emprego, muda a geografia:

Reparo então que enchi de mil praganas

Toda a gaveta do que em mim havia,

 

Tanto as de armários quanto as de alma,

Futilidades acabadas!

Mofo e bolor olho com calma:

- Como vi nisto asas de fadas?

Quando é preciso abandonar

Um território que fiz meu

É que em cigarra, se calhar,

Mais que em formiga, o camafeu

De minha vida cultivar

Vejo eu então que deveria:

Mais festa a vida ali vivia.

 

 

18 - Choro

 

Para o choro de mãos dadas

Entre as almas enlutadas

 

Importa encontrar com quem.

Os rituais que se tem

 

Religiosos ou não,

Mais quantos em frente vão

 

Para o que der e vier,

Ajudam-nos a fazer

 

A imprescindível viagem

Desde o estupor da paragem,

 

Da revolta inicial,

Até que ao fim cada qual

 

Reorganiza, fio a fio,

Nova teia do cotio.

 

Que tempo demora a rota,

Cada qual tem sua nota!

 

Sempre imperioso há-de ser

Respeitarmo-lo em quenquer.

 

 

19 - Dedo

 

Qualquer dedo acusador

De quem nos procura aponta,

Não o incompetente-mor,

Mas a falta que mais conta,

 

A indisponibilidade,

Quer de tempo, quer mental.

E, se a produtividade

Quer tempo, espaço e real

 

Estabilidade em ganhos,

Tem de privilegiar,

E com não menos tamanhos,

Como se relacionar

 

Com o público, clientes,

Todos e quaisquer utentes.

 

Saber e psicologia

É que colmatam a via.

 

 

20 - Instalou

 

O que é mais preocupante

É que subrepticiamente

Se instalou, como garante,

Que terei de ter em mente

 

As coisas, para aplacar

Angústias, necessidades

Básicas que eu enfrentar…

São dogmáticas verdades.

 

Isto é esforço de carteira

Mas de espírito, não, nunca.

Este pecado é a certeira

Machada que o chão me trunca.

 

À medida que os objectos

Perdem toda a novidade

E o primo prazer dejectos

Deixa da festividade,

 

Damos connosco obrigados

Por outros a substituí-los,

Sempre, sempre encadeados,

Cadeia donde, intranquilos,

 

Não escaparemos mais.

Sem preencher o vazio,

Dos alívios parciais

Nunca a sede mata o rio.

 

Um oco núcleo nos rói

Toda a vida aonde mói.

 

 

21 - Empurramos

 

Empurramos minorias

(Como seropositivos,

Idosos…) e maiorias

(Povos do sul tenebrosos…)

 

Para estatutos que são

Sociais mortes verdadeiras,

Que a todos reduzirão

A cavar da tumba as leiras,

 

Cadáveres ambulantes

Pela sombra envergonhados.

Pairarão longos instantes

Num limbo de tristes fados

 

Até que os corpos se fundam,

Com um alívio secreto,

Às almas que tanto abundam

Num mundo sem lar nem tecto,

 

Sangradas por solidões

Geradas por mãos alheias

Que negaram corações

Mantendo as carteiras cheias.

 

Mesmo ajuda monetária

É passaporte discreto

Para uma discricionária

Consciência não pôr veto,

 

Calma ficar sem rebate

Num egoísmo que se acate.

 

 

22 - Sonhámos

 

Sonhámos a Liberdade,

Até que um dia chegou,

Foi a festa na cidade,

Tudo cantou e dançou.

Ninguém, porém, se lembrou

Da responsabilidade

E ninguém nos ensinou

A guardá-la bem guardada,

À liberdade alcançada.

 

Soltam-se os recalcamentos:

Ignorámos o passado

E trancámos o futuro.

Liberdade de momentos,

Foi-se embora em todo o lado,

Já ninguém vive seguro.

 

Foi-se embora a liberdade,

Fica a liberdadezinha:

Vive o crime a impunidade,

Caluniam na cozinha,

Difamam na praça pública,

Prendem sem acusação

Em cada cela a República,

Sem provas acusarão

E a mentira ampliarão

Ao jornalista, ao leitor,

Ao juiz, seja a quem for…

 

- Seremos livre um país,

Não livre o povo que eu quis.

 

 

23 - Lado

 

O nosso lado criança

É aquele fundo de nós

Que viver permite. E alcança

Em intimidade, a sós,

 

Um genuíno entusiasmo,

Encantamento inocente

Pelo que a vida, com pasmo,

Nos proporciona em torrente.

 

É o que ajuda a não levar

A dificuldade a sério.

Aí vamos encontrar

Da criatividade o império,

 

Os nossos veros recursos.

Ninguém é mais limitado

De ser forte por discursos,

De vencer, sempre em cuidado,

 

De expectativas alheias

Ter de à força ir colmatando,

Prender-se nas mil correias

Dos papéis que à mão vão dando…

 

É ali que nos entregamos

Por inteiro ao que sentimos.

A criança estende os ramos,

Mergulha em quanto intuímos.

 

 

24 - Espírito

 

O sofrimento não pende

Só de eventos exteriores

Mas sempre em parte contende

Do espírito com humores.

 

A mesma doença pode

Ser vivida por tragédia

Por alguém a quem sacode

E ser bênção intermédia

 

Para outrem que, entretanto,

Vê nela uma mensageira.

E o mesmo dum outro manto

Irá recobri-la inteira

 

Se em momento diferente

Da vida a tiver presente.

 

É de espírito um estado

Que diz se sofro ou me evado.

 

 

25 - Completamente

 

Nem completamente mau,

Nem somente positivo,

Nem bom o convés da nau,

Nem tudo só negativo:

Amor e ódio são chegados:

Quando um deles forte versa

Por demais num só dos lados,

Muda no outro e vice-versa.

 

O extremo produz o inverso

Que, se extrema, dá o reverso.

 

E não há como fugir

À lei que tal infligir.

 

 

26 - Grão

 

Grão de areia é um microcosmo

Em relação a uma estrela

Que há-de ser um macrocosmo

Comparada à areia bela.

 

Mas então, por sua vez,

Um microcosmo será

Se o sistema solar vês

No tamanho que terá.

 

Este macro micro fica

Se à Galáxia o comparares.

Nesta o mesmo se pratica

Do total Cosmo se olhares.

 

Tudo é, pois, mui relativo.

O que importa na medida

É que a lei com que aqui vivo

Em tudo vive esculpida.

 

 

27 - Males

 

Muitos são os males grandes

De que as doenças injustas,

Inexplicáveis, com que andes

Nos afastam, quer nas custas,

 

Quer na prevenção, no alerta

De que algo importante a sério

Tem de alterar-se, em desperta

Vida de que tenho o império.

 

Ao de tal ser prevenido

Viro no rumo devido.

 

Se o mal me não prevenira

Como o abismo é que então vira?

 

 

28 - Surpresas

 

A doença é sempre um teste

Para quem nos rodear

E as surpresas que reveste

Acabam por revelar

O que é cada qual deveras

Além do papel que esperas,

 

Além do choro e da reza,

O que é que, de facto, preza.

 

 

29 - Somada

 

De estar doente a aflição

Somada à própria doença

Constitui a provação

Que, se amarga nos traz tença,

 

Revolta, também capaz

É de nos interiormente

Transmudar muito eficaz.

E aquilo que por ingente

 

Tomámos deixa de o ser,

Enquanto valorizamos

O que outrora nem sequer

Algo era em que reparámos.

 

Ao mergulharmos no fundo

De nós próprios cá por dentro,

Vamos entender que o mundo

De nosso imo onde me adentro

 

É ser transporte, na essência,

De algo que é superior.

E acatar esta evidência

É quanto basta propor

 

Para não me preocupar

Com qualquer situação

Que se vá desenrolar,

Seja qual for a questão.

 

 

30 - Rebentar

 

A doença é uma chamada

À nossa realidade

E à do mundo, uma morada

Em que vivo nesta idade.

 

Ao nos rebentar à frente

Recorda-nos que esta vida

Tem um fim e que é cogente.

Aproveitá-la convida,

 

Volta não volta, a alterar

Alguma coisa na forma

Como a andamos a levar.

Apanha-nos mesmo, em norma,

 

Em dia pouco oportuno,

A meio duma viagem

Onde ao sol e ao vento enfuno

Após anos de triagem,

 

Ou dum período a meio

De trabalho inadiável,

A todo o momento cheio,

Que ora se adia, inviável…

 

Irrompe na nossa vida,

Inoportuna visita

Que não vemos quem convida,

Mas que instalada nos fita

 

E, sem querer consultar-nos,

Dali passa a comandar-nos.

 

 

31 - Uno

 

Tudo é diferenciação

Dum Uno na Infinidade.

De Deus uns lhe chamarão,

Força Cósmica que invade

 

É o nome que outros lhe dão,

Energia Universal,

Poder Criador, senão

O Cosmos como total,

 

Ou até nem lhe irão dar

Qualquer nome, pouco importa.

E, num segundo lugar,

Tudo é sempre aberta porta

 

À constante mutação.

Depois, os antagonismos

Complementares serão.

Tudo, mesmo os cataclismos,

 

Tem um pólo positivo

E um negativo também:

Ante o branco, o preto arquivo,

Frente ao calor, frio vem,

 

Ao bom contrapõe-se o mau…

Encarar a realidade

É sempre transpor o vau

Para a oposta que a degrade.

 

Não há nada igual em si,

Tudo tem a frente e o dorso,

Quanto maior frente vi,

De dorso maior o escorço,

 

Tudo o que um princípio tem

Um fim terá fatalmente…

Tudo o que existe contém

Dois pólos num igual ente,

 

Nada existe sem o oposto.

Do contínuo movimento

Dos dois lados deste rosto,

Da energia vela o vento,

 

Ambos de igual importância,

É que ininterruptamente

Pode ir fluindo a elegância

Do Cosmos florindo em frente.

 

 

32 - Fechada

 

Nós morremos e depois

Somos a fotografia

Fechada numa moldura.

Deste lado os arrebóis

Nunca mostram a alegria

Do dia que Além perdura.

 

 

33 - Onda

 

Qual onda que chega à praia,

Choro no carro, na cama,

No trabalho ou onde à raia

Chega da memória a trama,

Da memória em que a dor fale

Que fundamente me abale.

 

A maré transporta os ecos,

Ensopa a praia varrida

Que absorve as águas e secos

Findam os leitos, volvida

Qualquer onda de memórias

Da nossa praia de histórias.

Ao chorarmos, libertamos

A parcela negativa

Da memória que tenhamos,

Homenageamo-la viva.

E a parte triste é mondada,

Ao mar interior tirada!

 

 

34 - Abandonam

 

Dos que morreram as almas

Andam sempre a nos dizer

Que os problemas como as palmas

Abandonam de quenquer.

 

A dor física findou,

Preocupações mundanas

Se esvaíram com o voo,

Não se ralam com que ganas

 

Alguém fica com a casa,

Nem se importam por não termos

Lá estado na morte rasa,

Quando faleceram ermos.

 

Nada disto importa agora

Que deveras estão bem.

E assim tal qual, sem demora,

Me devo sentir também.

 

 

35 - Ritmo

 

Marcham ao ritmo da descrença,

Dizem que querem científicas

Provas das quais uma os convença.

Mas é difícil as magníficas

 

Provas alguém ver quando tem

As vendas postas e voltadas

Costas e mentes, com desdém,

A tudo menos a antiquadas

 

Crendices ocas, preconceitos,

Em que ele sempre acreditou.

Terei de rir-me de tais preitos:

Que posição mais se fundou

 

De fé na falta ou na adesão,

Quem se baseia mais em provas?

Eles não vão, eles não vão

A lado algum: como os inovas?

 

 

36 - Lagarta

 

Como a lagarta, caminhando

Para o casulo que a transmuda,

A velha pele vai largando

E em borboleta então se muda,

 

Assim nós somos, vida fora,

Metamorfose no casulo,

Até que um dia, à final hora,

A borboleta deu o pulo,

 

Quando este corpo em pele morre

E do outro lado libertada

A flébil alma voa e corre

De luz enchendo a madrugada.

 

 

37 - Resíduo

 

Há um resíduo emocional

Que fica das obras de arte.

Um romance especial

Que personagens acarte

Vivas em minha memória,

Meses, anos fará história.

 

Aquilo que as personagens

Operam vive em nosso imo

Contando em novas imagens

Quem somos, do fundo ao cimo.

Poemas guardamos em mente

Para o porvir ser presente,

 

Ofusca-me uma pintura,

Uma música dotada…

É um projector que me apura

Da vida a leiva ignorada,

Recanto mal entrevisto,

Nunca olhado enquanto existo.

 

E, quando o museu se encerra,

A capa do livro fecha,

Cala a música na terra,

Do projector fica a flecha

De luz, permitindo olhar

Tudo dum outro lugar.

 

 

38 - Perdido

 

Quando tudo se podia

Ter perdido num segundo,

É que damos a valia

A quanto temos no mundo.

 

Prestamos mais atenção

Aos nadas do dia-a-dia,

Pela vida gratidão

Maior temos que a que havia,

 

Por quem para nós for bom…

É que estar morto devia

Mas não estou: canto em tom

Que em tudo canta a magia.

 

 

39 - Leitura

 

A leitura engrandece o pensamento,

As articulações mentais alarga,

Os músculos esforça em cada evento

Dos neurónios que aguentam toda a carga.

 

As nossas opiniões deita por terra

Intolerantes, frágeis, limitadas,

Com factos convincentes, sem mais guerra,

Pelas novas ideias anotadas.

Estimula a leitura o crescimento

E retarda à velhice o vil momento.

 

É um elixir, portanto, que dá vida

E lhe conserva após toda a medida.

 

 

40 - Temer

 

Por que é que os homens se agarram

Tanto ao passado já morto?

É do medo com que esbarram

De pensar seu próprio horto,

Por temer ser rejeitados

E sofrer, de vez chagados.

 

Então é doutrem versão

Que tomarão como sua,

Acolhem alheio chão,

Não escolhem própria rua.

O mapa alheio decoram,

Mais e mais o seu ignoram.

 

 

41 - Exigente

 

Exigente arte é viver,

Com os mais relacionar-se

Por igual arte há-de ser,

Mas nenhuma comparar-se

Pode à de se conseguir

Fruir seu imo a seguir

 

Que é jamais se perder pé

Em ser deveras quem se é.

 

 

42 - Impotência

 

A impotência é descobrir

Que o ego, afinal, não pode.

E a doença que surgir

É o sintoma que o sacode,

A ver se ele aprende a ler

E não se engana ao nos ver.

 

 

43 - Nasce

 

Um homem nasce e a emoção ganha.

Como não sabe resolvê-la,

Esta emoção que ali o apanha

Transformar-se-á na negra estrela

Duma emoção mal resolvida,

A densidade duma vida.

 

A densidade ali se prende

Ao encadear das gerações.

Dentro do espírito se aprende

Esta armadilha a que se rende

A limpidez dos corações.

 

Retorna sempre, sempre igual

Esta emotiva densidade.

Se nós quebrarmos a fatal

Repetição idade a idade,

Finda a vivência em tal matéria,

Paga de vez a coima e a féria.

 

Sobrepor vidas e mais vidas

São emoções presas cá dentro

De pais a filhos repetidas,

São mil pegadas renascidas,

Sempre a brotar do peito ao centro.

 

Como fugir? De vez quebrar

Repetições: o imo limpar!

 

 

44 - Religação

 

Da interioridade a fuga,

Da religação com o eu,

Com o Cosmos que madruga,

Universo, a olhar o céu,

 

É a maior fuga que lembra

A história da humanidade,

Que de sempre nos desmembra,

Que sempre nos persuade.

 

A religação pedida

Irá ser vezes sem conta

Vida fora e vida a vida,

Mas o ego sempre a remonta,

 

Pelo sistema de crenças

Tenta desviar a atenção

Por nulidades imensas,

Materiais, sem coração.

 

Até mesmo um sol intenso

Pode às vezes ser tapado

Pela peneira que penso

Que não sou por nenhum lado.

 

 

45 - Nó

 

Teu ego é um nó de sentidos

Que te leva a acreditar

Nas ilusões que, a lograr,

Apesar dos desmentidos,

Juram feliz te fazer,

Em todo o tempo e qualquer.

 

Quando és criança teu ego

Vai requerer a magia

Que dos adultos é o pego:

"Meu bebé de fantasia

Como é tão inteligente,

Ao rir, que pérola o dente!"

 

Acreditámos então

Ser mesmo o melhor do mundo.

Artimanha do ego à mão

Para impedir de ir ao fundo

Contactar a nostalgia,

Sem fim o abismo que havia

 

Duma dor que nós cá temos,

Que é de alma ausência, vazio

Do eu sublime que ignoremos.

Dele nos rói tal desvio,

Que unir-me impõe de verdade

Por dentro à sublimidade.

 

 

46 - Cremos

 

Tudo em que cremos é fruto

De nossa teia de crenças,

Nada tem da fé conduto,

Que a fé cobra outras avenças.

 

Com três anos, no que cremos

Foi que éramos uns heróis,

Da fé cá nem sombra vemos,

Tudo é luz de falsos sóis.

 

Alguns jovens acreditam

Que são adultos e sabem

Mais que os outros no que fitam.

De fé visos onde cabem?

 

Acreditam os adultos

No melhor que há para a vida

E acabam ao fim sepultos

Num desengano à medida.

 

Envolvida não há fé:

No que a pessoa acredita

É num ego a pôr-lhe ao pé

O que a sobreviver dita.

 

Perde ao fim toda a jogada

Que vida fora fizer.

A morte é a vida frustrada

Destas crenças de quenquer.

 

 

47 - Cai

 

Onde o ego cai, se desmonta,

É numa desilusão:

A certeza perde tonta

Que antes o erguera do chão.

 

Desmonta-se a intolerância,

Manifestações arcaicas,

Envelhecidas na infância

De pretensões farisaicas.

 

Na desilusão um homem

Fica em vazio, é um zero.

Ou às alturas que o tomem

Se conecta, um pólo mero,

 

Ou resiste e se revolta:

A escolha é dele de vez.

A desilusão à solta

Como nos vem do entremez?

 

É sempre através da perda:

Do trabalho, de estatuto,

De dinheiro que não se herda,

Por alguém querido um luto…

 

É perda, enfim, da ilusão.

Se o homem logra aceitar

Que a perda atraiu ao chão

Para o ego desmontar,

 

Para se desiludir,

Para, enfim, se conectar

Com seu íntimo e subir,

Que bom foi jornadear!

 

 

48 - Revolucionários

 

Um ego nunca permite

Revolucionários termos

Que o imo superno incite,

Deste no sábio palpite

Para devirmos e sermos.

 

Este tem uma estratégia:

Falar forte ao coração.