PRIMEIRO TROVÁRIO
OS CAMBIANTES DA VOZ TODO O SER ME REGULA
Escolha ao acaso um número entre 1 e 134, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1 - Os cambiantes da voz
Os cambiantes da voz todo o ser me regula,
No amor identificando-me a matriz
Donde o arvoredo da utopia pula,
A regra respeitando do que a nunca anula,
Para ao ser retornar, à raiz.
Aqui vivificado, o amor
De novo trepa ao sonho, à Infinidade,
Da norma trilhando a via e o suor,
Até que a ser amor de novo nos persuade.
E a utopia à lei se funde
E o amor mais ser devém
E o dever com o sonho se confunde.
Ser e amor, lei, utopia se unem além
Na festa onde Tudo é o Infindo que nos foge e vem.
2 - Os cambiantes da voz todo o ser me regula
Os cambiantes da voz todo o ser me regula
No verso regular de métrica acertada,
Em poemas de rimas onde se rotula
Cada pendor da vida que mais estimula
A ver o que o ser for ao perpassar na estrada.
Toco o ser com a ponta da palavra atenta,
Desvendo-lhe a faceta mais inesperada,
Tomando-lhe o sabor com que se condimenta,
Ao ritmo duma incerta mas fiel passada.
E aquilo que é de súbito se nos revela
Em pendores estranhos a uma luz diversa
Por trás de que entrevemos, por acaso, a estrela
Que o viandante guia pela noite adversa,
Cuja passada trôpega então torna tersa.
3 - Sai
Quando o filho sai de casa,
Ficam com mais tempo os pais,
Mais força que lhes apraza,
Laços criam com os mais
Familiares, amigos,
Atam novas relações…
O contacto oferta abrigos
De felizes comunhões,
Podem jogar para fora
Mil e uma irritações,
Vai o antigo stresse embora…
Tudo são ocasiões
De ser importante e ledo
Para os mais a que aproveite
Como, mais tarde ou mais cedo,
Para se sentir aceite.
4 - Murmura
Um ladrão, ante a caverna,
Murmura, convicto e rijo:
- Mas que belo esconderijo!
O artista, numa superna
Faísca de arroubos reais:
- Bom para pintar murais!
O avarento, a catar oiros:
- Cave de esconder tesoiros…
E só o sábio diz a eterna:
- Que bela, bela caverna!
5 - Silêncio
Importa mesmo anunciar
Que o silêncio uma ninhada
De feiuras vai criar:
A dúvida acumulada,
Qualquer desentendimento,
Auto-estima destruída,
Depois o ressentimento…
- E anoitece em toda a vida.
6 - Empírico
Se examino a natureza
Só com empírico olhar,
Descubro que na represa
Do corpo vem colocar
O imo do Homem tal num grande
Palácio onde raro ocupa,
Dos quartos por onde ele ande,
Os mais bonitos que agrupa.
7 - Sobrepõe
Se sobrepõe-se o interesse
A todo o tipo de afectos,
Honra e justiça se esquece,
Humanidade e projectos,
Para obter, a mal ou bem,
O que a quenquer lhe convém.
Na vida de engano, torto
Se finda o mundo assim morto.
8 - Caída
Quando a mulher desolada
Se encontra e sem conselheiro,
É uma bolsa de dinheiro,
Jóia caída na estrada,
Mesmo à mercê do primeiro
Que ali passe de jornada.
Se calha encontrá-la um homem
Virtuoso e de elevados
Princípios, estes achados
Manda apregoar que os tomem:
Talvez os bens encontrados
Busque alguém e ambos se somem.
Quantas vezes, ao contrário,
Sem escrúpulos alguém
É o adulador que advém
No caminho temerário.
Sempre este julga que tem
Direito à presa, sumário!
9 - Angústia
Os espíritos maiores,
Pela angústia avassalados,
Aos desânimos piores
Acabarão inclinados.
Serão os mais susceptíveis
De acaso desesperar
E das desgraças visíveis
Vencidos irão tombar.
E uma queda das alturas
É a pior que configuras.
10 - Chutada
Que é que eu tenho a ver com isto,
Com a vida que me atola?
Não fui tido em conta, existo,
Ao calhar chutada bola.
Por vezes duma pessoa
Se apodera a vida acaso,
Arrasta-a, jogando à toa,
Tece-a a história a que der azo.
E, contudo, não é real,
É a fantasia que a cria.
Mas deixa-nos, no final,
Espezinhados na via.
11 - Diferença
Não é estrato social
A diferença entre as gentes,
Mas o que foi cada qual,
São os corações e mentes.
De escalões médios ideias
Recolhemos dominantes;
Do povo comum, a meias,
A vida e calor constantes,
Sinto-lhe os ódios e amores.
Do que eu fizer de tais veios
É que talho meus pendores:
Cumes, vales e entremeios.
12 - Investigador
O investigador não basta
Aos factos se confinar,
Urge discernir a casta
Do que se repercutir,
Do que se ramificar
Dos dados com que bulir.
Mais se as ondas se estenderem
Pelos séculos além,
Se nos mitos se esconderem,
Em lendas com que encantar.
Distorce-os isto, porém,
Como eco a reverberar.
Não localizando a voz,
Qualquer eco, todavia,
Distorcido embora após,
Apontar-nos pode ainda
O rumo donde viria
Na direcção com que finda.
Qualquer facto é uma pedrinha
Lançada ao lago da história.
Mui rápida se adivinha
Que se afoga sem mais rasto:
Mas a ondulação memória,
Se na perspectiva a engasto,
Nos deixa que nos permite
O ponto localizar
Onde caiu que a desquite.
Guiados pela ondulação,
Ou mergulhar ou dragar
Poderemos sempre então.
O anel de ondas viabiliza
Descobrir o que podia
Doutro modo, a outra brisa,
De vez irrecuperável
Parecer à luz do dia
Ao mais persistente e fiável.
13 - Tratamos
A forma como entendemos,
Tratamos a informação
Depende de como a vemos,
Se nos diz sim ou diz não,
Positiva ou negativa:
Se ouves falar num pequeno
Rol de indivíduos que viva
Num terrível mal terreno,
Não ignores que maior
Será o número daqueles
Que, como tu, dão sabor
Ao bem-estar que interpeles.
Quase todas as terríveis
Histórias da informação
De algo de cruel visíveis
As escaras no-las dão,
Mas que apenas acontecem
A um pequeníssimo grupo.
Os demais, se desfalecem,
É da festa em que me ocupo.
14 - Falsa
A religião que é certa
É sempre a falsa questão
Que o coração nos aperta
Em vez da libertação.
O trigo, após a colheita,
Terá de ir para a moagem.
Poderá ser pela estreita
Via nortenha a viagem
Cujo piso está melhor,
Embora seja a mais longa.
Ou antes o sul propor
Que, mais curto, se prolonga
Por mil curvas e buracos.
Ou, se calhar, pelo leste,
Que custa mais uns patacos
Por trepar montanha agreste.
Ou, então, pelo ocidente,
Com perigo de atolar-nos,
Mas chega lá de repente,
Excepto quando afogar-nos.
Contudo, quando cheguemos
À moagem, quem atende
Não lhe importa donde viemos,
Pergunta a quem se lhe rende:
"Pois então, ó meu amigo,
É mesmo bom o teu trigo?"
15 - Caminho
O caminho da cidade
Com o do lar se confunde,
Tricotado idade a idade
Pelas gerações que funde.
Os artistas se esgueirando
Pelos bastidores, rumo
À noite escura, contando
Do palco o breve resumo,
Vão aos mais novos que virem
Pedir para os substituírem.
São séculos iludidos
Pedindo às urbes sentidos.
16 - Corpo
O meu corpo é um automóvel,
Pego nele para dar
A volta à volta do imóvel,
Para em forma o conservar.
Um coração rijo faz
Que os actos do dia-a-dia
Mais fácil e mais capaz
Logo os executaria.
A vida é boa, a saúde
Ainda a leva a ser melhor.
Das virtudes a virtude
É a de que eu não desafore.
17 - Cadeira
Na mesma cadeira nos sentemos dias
E dias a fio: logo ali veremos
Como nos sentimos proprietários, guias,
Como senhorios com o mais que temos.
Às vezes foi só no dia
Em que obrigam a mudarmos
Nossa vida onde se via
De tudo conta nos darmos.
Mudo de casa e relações humanas,
Mudo de emprego, muda a geografia:
Reparo então que enchi de mil praganas
Toda a gaveta do que em mim havia,
Tanto as de armários quanto as de alma,
Futilidades acabadas!
Mofo e bolor olho com calma:
- Como vi nisto asas de fadas?
Quando é preciso abandonar
Um território que fiz meu
É que em cigarra, se calhar,
Mais que em formiga, o camafeu
De minha vida cultivar
Vejo eu então que deveria:
Mais festa a vida ali vivia.
18 - Choro
Para o choro de mãos dadas
Entre as almas enlutadas
Importa encontrar com quem.
Os rituais que se tem
Religiosos ou não,
Mais quantos em frente vão
Para o que der e vier,
Ajudam-nos a fazer
A imprescindível viagem
Desde o estupor da paragem,
Da revolta inicial,
Até que ao fim cada qual
Reorganiza, fio a fio,
Nova teia do cotio.
Que tempo demora a rota,
Cada qual tem sua nota!
Sempre imperioso há-de ser
Respeitarmo-lo em quenquer.
19 - Dedo
Qualquer dedo acusador
De quem nos procura aponta,
Não o incompetente-mor,
Mas a falta que mais conta,
A indisponibilidade,
Quer de tempo, quer mental.
E, se a produtividade
Quer tempo, espaço e real
Estabilidade em ganhos,
Tem de privilegiar,
E com não menos tamanhos,
Como se relacionar
Com o público, clientes,
Todos e quaisquer utentes.
Saber e psicologia
É que colmatam a via.
20 - Instalou
O que é mais preocupante
É que subrepticiamente
Se instalou, como garante,
Que terei de ter em mente
As coisas, para aplacar
Angústias, necessidades
Básicas que eu enfrentar…
São dogmáticas verdades.
Isto é esforço de carteira
Mas de espírito, não, nunca.
Este pecado é a certeira
Machada que o chão me trunca.
À medida que os objectos
Perdem toda a novidade
E o primo prazer dejectos
Deixa da festividade,
Damos connosco obrigados
Por outros a substituí-los,
Sempre, sempre encadeados,
Cadeia donde, intranquilos,
Não escaparemos mais.
Sem preencher o vazio,
Dos alívios parciais
Nunca a sede mata o rio.
Um oco núcleo nos rói
Toda a vida aonde mói.
21 - Empurramos
Empurramos minorias
(Como seropositivos,
Idosos…) e maiorias
(Povos do sul tenebrosos…)
Para estatutos que são
Sociais mortes verdadeiras,
Que a todos reduzirão
A cavar da tumba as leiras,
Cadáveres ambulantes
Pela sombra envergonhados.
Pairarão longos instantes
Num limbo de tristes fados
Até que os corpos se fundam,
Com um alívio secreto,
Às almas que tanto abundam
Num mundo sem lar nem tecto,
Sangradas por solidões
Geradas por mãos alheias
Que negaram corações
Mantendo as carteiras cheias.
Mesmo ajuda monetária
É passaporte discreto
Para uma discricionária
Consciência não pôr veto,
Calma ficar sem rebate
Num egoísmo que se acate.
22 - Sonhámos
Sonhámos a Liberdade,
Até que um dia chegou,
Foi a festa na cidade,
Tudo cantou e dançou.
Ninguém, porém, se lembrou
Da responsabilidade
E ninguém nos ensinou
A guardá-la bem guardada,
À liberdade alcançada.
Soltam-se os recalcamentos:
Ignorámos o passado
E trancámos o futuro.
Liberdade de momentos,
Foi-se embora em todo o lado,
Já ninguém vive seguro.
Foi-se embora a liberdade,
Fica a liberdadezinha:
Vive o crime a impunidade,
Caluniam na cozinha,
Difamam na praça pública,
Prendem sem acusação
Em cada cela a República,
Sem provas acusarão
E a mentira ampliarão
Ao jornalista, ao leitor,
Ao juiz, seja a quem for…
- Seremos livre um país,
Não livre o povo que eu quis.
23 - Lado
O nosso lado criança
É aquele fundo de nós
Que viver permite. E alcança
Em intimidade, a sós,
Um genuíno entusiasmo,
Encantamento inocente
Pelo que a vida, com pasmo,
Nos proporciona em torrente.
É o que ajuda a não levar
A dificuldade a sério.
Aí vamos encontrar
Da criatividade o império,
Os nossos veros recursos.
Ninguém é mais limitado
De ser forte por discursos,
De vencer, sempre em cuidado,
De expectativas alheias
Ter de à força ir colmatando,
Prender-se nas mil correias
Dos papéis que à mão vão dando…
É ali que nos entregamos
Por inteiro ao que sentimos.
A criança estende os ramos,
Mergulha em quanto intuímos.
24 - Espírito
O sofrimento não pende
Só de eventos exteriores
Mas sempre em parte contende
Do espírito com humores.
A mesma doença pode
Ser vivida por tragédia
Por alguém a quem sacode
E ser bênção intermédia
Para outrem que, entretanto,
Vê nela uma mensageira.
E o mesmo dum outro manto
Irá recobri-la inteira
Se em momento diferente
Da vida a tiver presente.
É de espírito um estado
Que diz se sofro ou me evado.
25 - Completamente
Nem completamente mau,
Nem somente positivo,
Nem bom o convés da nau,
Nem tudo só negativo:
Amor e ódio são chegados:
Quando um deles forte versa
Por demais num só dos lados,
Muda no outro e vice-versa.
O extremo produz o inverso
Que, se extrema, dá o reverso.
E não há como fugir
À lei que tal infligir.
26 - Grão
Grão de areia é um microcosmo
Em relação a uma estrela
Que há-de ser um macrocosmo
Comparada à areia bela.
Mas então, por sua vez,
Um microcosmo será
Se o sistema solar vês
No tamanho que terá.
Este macro micro fica
Se à Galáxia o comparares.
Nesta o mesmo se pratica
Do total Cosmo se olhares.
Tudo é, pois, mui relativo.
O que importa na medida
É que a lei com que aqui vivo
Em tudo vive esculpida.
27 - Males
Muitos são os males grandes
De que as doenças injustas,
Inexplicáveis, com que andes
Nos afastam, quer nas custas,
Quer na prevenção, no alerta
De que algo importante a sério
Tem de alterar-se, em desperta
Vida de que tenho o império.
Ao de tal ser prevenido
Viro no rumo devido.
Se o mal me não prevenira
Como o abismo é que então vira?
28 - Surpresas
A doença é sempre um teste
Para quem nos rodear
E as surpresas que reveste
Acabam por revelar
O que é cada qual deveras
Além do papel que esperas,
Além do choro e da reza,
O que é que, de facto, preza.
29 - Somada
De estar doente a aflição
Somada à própria doença
Constitui a provação
Que, se amarga nos traz tença,
Revolta, também capaz
É de nos interiormente
Transmudar muito eficaz.
E aquilo que por ingente
Tomámos deixa de o ser,
Enquanto valorizamos
O que outrora nem sequer
Algo era em que reparámos.
Ao mergulharmos no fundo
De nós próprios cá por dentro,
Vamos entender que o mundo
De nosso imo onde me adentro
É ser transporte, na essência,
De algo que é superior.
E acatar esta evidência
É quanto basta propor
Para não me preocupar
Com qualquer situação
Que se vá desenrolar,
Seja qual for a questão.
30 - Rebentar
A doença é uma chamada
À nossa realidade
E à do mundo, uma morada
Em que vivo nesta idade.
Ao nos rebentar à frente
Recorda-nos que esta vida
Tem um fim e que é cogente.
Aproveitá-la convida,
Volta não volta, a alterar
Alguma coisa na forma
Como a andamos a levar.
Apanha-nos mesmo, em norma,
Em dia pouco oportuno,
A meio duma viagem
Onde ao sol e ao vento enfuno
Após anos de triagem,
Ou dum período a meio
De trabalho inadiável,
A todo o momento cheio,
Que ora se adia, inviável…
Irrompe na nossa vida,
Inoportuna visita
Que não vemos quem convida,
Mas que instalada nos fita
E, sem querer consultar-nos,
Dali passa a comandar-nos.
31 - Uno
Tudo é diferenciação
Dum Uno na Infinidade.
De Deus uns lhe chamarão,
Força Cósmica que invade
É o nome que outros lhe dão,
Energia Universal,
Poder Criador, senão
O Cosmos como total,
Ou até nem lhe irão dar
Qualquer nome, pouco importa.
E, num segundo lugar,
Tudo é sempre aberta porta
À constante mutação.
Depois, os antagonismos
Complementares serão.
Tudo, mesmo os cataclismos,
Tem um pólo positivo
E um negativo também:
Ante o branco, o preto arquivo,
Frente ao calor, frio vem,
Ao bom contrapõe-se o mau…
Encarar a realidade
É sempre transpor o vau
Para a oposta que a degrade.
Não há nada igual em si,
Tudo tem a frente e o dorso,
Quanto maior frente vi,
De dorso maior o escorço,
Tudo o que um princípio tem
Um fim terá fatalmente…
Tudo o que existe contém
Dois pólos num igual ente,
Nada existe sem o oposto.
Do contínuo movimento
Dos dois lados deste rosto,
Da energia vela o vento,
Ambos de igual importância,
É que ininterruptamente
Pode ir fluindo a elegância
Do Cosmos florindo em frente.
32 - Fechada
Nós morremos e depois
Somos a fotografia
Fechada numa moldura.
Deste lado os arrebóis
Nunca mostram a alegria
Do dia que Além perdura.
33 - Onda
Qual onda que chega à praia,
Choro no carro, na cama,
No trabalho ou onde à raia
Chega da memória a trama,
Da memória em que a dor fale
Que fundamente me abale.
A maré transporta os ecos,
Ensopa a praia varrida
Que absorve as águas e secos
Findam os leitos, volvida
Qualquer onda de memórias
Da nossa praia de histórias.
Ao chorarmos, libertamos
A parcela negativa
Da memória que tenhamos,
Homenageamo-la viva.
E a parte triste é mondada,
Ao mar interior tirada!
34 - Abandonam
Dos que morreram as almas
Andam sempre a nos dizer
Que os problemas como as palmas
Abandonam de quenquer.
A dor física findou,
Preocupações mundanas
Se esvaíram com o voo,
Não se ralam com que ganas
Alguém fica com a casa,
Nem se importam por não termos
Lá estado na morte rasa,
Quando faleceram ermos.
Nada disto importa agora
Que deveras estão bem.
E assim tal qual, sem demora,
Me devo sentir também.
35 - Ritmo
Marcham ao ritmo da descrença,
Dizem que querem científicas
Provas das quais uma os convença.
Mas é difícil as magníficas
Provas alguém ver quando tem
As vendas postas e voltadas
Costas e mentes, com desdém,
A tudo menos a antiquadas
Crendices ocas, preconceitos,
Em que ele sempre acreditou.
Terei de rir-me de tais preitos:
Que posição mais se fundou
De fé na falta ou na adesão,
Quem se baseia mais em provas?
Eles não vão, eles não vão
A lado algum: como os inovas?
36 - Lagarta
Como a lagarta, caminhando
Para o casulo que a transmuda,
A velha pele vai largando
E em borboleta então se muda,
Assim nós somos, vida fora,
Metamorfose no casulo,
Até que um dia, à final hora,
A borboleta deu o pulo,
Quando este corpo em pele morre
E do outro lado libertada
A flébil alma voa e corre
De luz enchendo a madrugada.
37 - Resíduo
Há um resíduo emocional
Que fica das obras de arte.
Um romance especial
Que personagens acarte
Vivas em minha memória,
Meses, anos fará história.
Aquilo que as personagens
Operam vive em nosso imo
Contando em novas imagens
Quem somos, do fundo ao cimo.
Poemas guardamos em mente
Para o porvir ser presente,
Ofusca-me uma pintura,
Uma música dotada…
É um projector que me apura
Da vida a leiva ignorada,
Recanto mal entrevisto,
Nunca olhado enquanto existo.
E, quando o museu se encerra,
A capa do livro fecha,
Cala a música na terra,
Do projector fica a flecha
De luz, permitindo olhar
Tudo dum outro lugar.
38 - Perdido
Quando tudo se podia
Ter perdido num segundo,
É que damos a valia
A quanto temos no mundo.
Prestamos mais atenção
Aos nadas do dia-a-dia,
Pela vida gratidão
Maior temos que a que havia,
Por quem para nós for bom…
É que estar morto devia
Mas não estou: canto em tom
Que em tudo canta a magia.
39 - Leitura
A leitura engrandece o pensamento,
As articulações mentais alarga,
Os músculos esforça em cada evento
Dos neurónios que aguentam toda a carga.
As nossas opiniões deita por terra
Intolerantes, frágeis, limitadas,
Com factos convincentes, sem mais guerra,
Pelas novas ideias anotadas.
Estimula a leitura o crescimento
E retarda à velhice o vil momento.
É um elixir, portanto, que dá vida
E lhe conserva após toda a medida.
40 - Temer
Por que é que os homens se agarram
Tanto ao passado já morto?
É do medo com que esbarram
De pensar seu próprio horto,
Por temer ser rejeitados
E sofrer, de vez chagados.
Então é doutrem versão
Que tomarão como sua,
Acolhem alheio chão,
Não escolhem própria rua.
O mapa alheio decoram,
Mais e mais o seu ignoram.
41 - Exigente
Exigente arte é viver,
Com os mais relacionar-se
Por igual arte há-de ser,
Mas nenhuma comparar-se
Pode à de se conseguir
Fruir seu imo a seguir
Que é jamais se perder pé
Em ser deveras quem se é.
42 - Impotência
A impotência é descobrir
Que o ego, afinal, não pode.
E a doença que surgir
É o sintoma que o sacode,
A ver se ele aprende a ler
E não se engana ao nos ver.
43 - Nasce
Um homem nasce e a emoção ganha.
Como não sabe resolvê-la,
Esta emoção que ali o apanha
Transformar-se-á na negra estrela
Duma emoção mal resolvida,
A densidade duma vida.
A densidade ali se prende
Ao encadear das gerações.
Dentro do espírito se aprende
Esta armadilha a que se rende
A limpidez dos corações.
Retorna sempre, sempre igual
Esta emotiva densidade.
Se nós quebrarmos a fatal
Repetição idade a idade,
Finda a vivência em tal matéria,
Paga de vez a coima e a féria.
Sobrepor vidas e mais vidas
São emoções presas cá dentro
De pais a filhos repetidas,
São mil pegadas renascidas,
Sempre a brotar do peito ao centro.
Como fugir? De vez quebrar
Repetições: o imo limpar!
44 - Religação
Da interioridade a fuga,
Da religação com o eu,
Com o Cosmos que madruga,
Universo, a olhar o céu,
É a maior fuga que lembra
A história da humanidade,
Que de sempre nos desmembra,
Que sempre nos persuade.
A religação pedida
Irá ser vezes sem conta
Vida fora e vida a vida,
Mas o ego sempre a remonta,
Pelo sistema de crenças
Tenta desviar a atenção
Por nulidades imensas,
Materiais, sem coração.
Até mesmo um sol intenso
Pode às vezes ser tapado
Pela peneira que penso
Que não sou por nenhum lado.
45 - Nó
Teu ego é um nó de sentidos
Que te leva a acreditar
Nas ilusões que, a lograr,
Apesar dos desmentidos,
Juram feliz te fazer,
Em todo o tempo e qualquer.
Quando és criança teu ego
Vai requerer a magia
Que dos adultos é o pego:
"Meu bebé de fantasia
Como é tão inteligente,
Ao rir, que pérola o dente!"
Acreditámos então
Ser mesmo o melhor do mundo.
Artimanha do ego à mão
Para impedir de ir ao fundo
Contactar a nostalgia,
Sem fim o abismo que havia
Duma dor que nós cá temos,
Que é de alma ausência, vazio
Do eu sublime que ignoremos.
Dele nos rói tal desvio,
Que unir-me impõe de verdade
Por dentro à sublimidade.
46 - Cremos
Tudo em que cremos é fruto
De nossa teia de crenças,
Nada tem da fé conduto,
Que a fé cobra outras avenças.
Com três anos, no que cremos
Foi que éramos uns heróis,
Da fé cá nem sombra vemos,
Tudo é luz de falsos sóis.
Alguns jovens acreditam
Que são adultos e sabem
Mais que os outros no que fitam.
De fé visos onde cabem?
Acreditam os adultos
No melhor que há para a vida
E acabam ao fim sepultos
Num desengano à medida.
Envolvida não há fé:
No que a pessoa acredita
É num ego a pôr-lhe ao pé
O que a sobreviver dita.
Perde ao fim toda a jogada
Que vida fora fizer.
A morte é a vida frustrada
Destas crenças de quenquer.
47 - Cai
Onde o ego cai, se desmonta,
É numa desilusão:
A certeza perde tonta
Que antes o erguera do chão.
Desmonta-se a intolerância,
Manifestações arcaicas,
Envelhecidas na infância
De pretensões farisaicas.
Na desilusão um homem
Fica em vazio, é um zero.
Ou às alturas que o tomem
Se conecta, um pólo mero,
Ou resiste e se revolta:
A escolha é dele de vez.
A desilusão à solta
Como nos vem do entremez?
É sempre através da perda:
Do trabalho, de estatuto,
De dinheiro que não se herda,
Por alguém querido um luto…
É perda, enfim, da ilusão.
Se o homem logra aceitar
Que a perda atraiu ao chão
Para o ego desmontar,
Para se desiludir,
Para, enfim, se conectar
Com seu íntimo e subir,
Que bom foi jornadear!
48 - Revolucionários
Um ego nunca permite
Revolucionários termos
Que o imo superno incite,
Deste no sábio palpite
Para devirmos e sermos.
Este tem uma estratégia:
Falar forte ao coração.