SEGUNDO  TROVÁRIO

 

 

                      NO  AMOR  IDENTIFICA-ME  A  MATRIZ

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 135 e 275, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

                             135 - No amor identifica-me a matriz

 

                                    No amor identifica-me a matriz

                                    O verso regular no metro e forma,

                                    Com rima que de amor sempre nos diz

                                    O que entre dois amantes bem condiz

                                    Na harmonia que os ata, ambos conforma.

 

                                    No termo se une tudo e no real

                                    Tudo a ver tem com tudo, indiferente

                                    Ao que a palavra aprende, no final,

                                    Dum real que espicaça eterno a mente.

 

                                    Mas o conceito aponta aqui a dedo

                                    Onde afinal se encontra o nosso ninho

                                    Os ovos a chocar dum porvir ledo.

 

                                    Por entre os desencontros que adivinho

                                    Trio laços do verso com o ancinho.

 

 


136 - Trabalhei

 

Trabalhei a vida inteira

E o melhor que eu aprendi

É que a diária canseira

É dar-me bem por aqui,

Sem heróis nem adivinhos,

Com todos os meus vizinhos.

 

Juntos, quase sem nós vermos,

Continuamos a aliviar

As mazelas dos enfermos,

Qualquer dor de quem calhar,

O mal dos desamparados,

Indefesos, lesionados…

 

É que todos, bem no fundo,

Somos intrinsecamente

Bons, por todo o vasto mundo:

Aos milhões, diariamente,

Gente comum o comprova

Partilhando e pondo à prova

 

Sacrifício, compaixão,

Pelos mais amor de irmão.

 

 

137 - Relação

 

Não é nunca permanente

Nenhum relacionamento:

A relação que é virente

Evolui cada momento.

 

Permanente relação

Sempre é, pois, contradição.

 

 

138 - Casa

 

A casa não é só casa,

Vive cheia de memórias,

De momentos, duma brasa

Que incendeia antigas glórias,

 

Mil aventuras vividas.

Existe em mim a gaveta

Das lembranças bem queridas

Que torna deveras minha

A casa, numa secreta

Atadura de gavinha.

 

 

139 - Casamento

 

O casamento é viagem

Rumo a um destino ignorado,

Descoberta da coragem

De partilhar, denodado,

 

Tudo quanto não sabemos

Não só um doutro a respeito

Mas também o que não vemos

Em nós nos marcando o peito.

 

 

140 - Duvida

 

Se a jovem se crê bonita,

Nunca duvida dum homem

Que o amor por ela grita,

Pois se acredita que o domem

 

Dela os encantos, bastantes

Para enfeitiçar quenquer,

Não estranha, após nem antes,

Os efeitos que tiver

 

A acender qualquer chamiço

Dela o pretenso feitiço.

 

Não admira que a iluda

A mentira a que se gruda.

 

 

141 - Bolsa

 

Bolsa não satisfarei

Abandonando no chão,

Insatisfeito e sem lei,

O mísero coração.

 

Amo e então, ao me casar,

Pobre embora, tenho lar.

 

 

142 - Rapaz

 

Ao rapaz nunca ocorreu

Que ela fique mais ferida

Dele só com a partida

Do que a cura um cume seu.

 

Se a hora de ir se aproxima,

Dela uma angústia a apertar-se

Principia, sem disfarce,

É de desespero o clima.

 

Ama-o tanto, tanto, tanto,

Tem tanta esperança nele!

Quase vive, no que a impele,

Só para ele, de encanto.

 

Gosta de lhe fazer tudo:

Dar-lhe um café, um jantar,

A camisa lhe engomar,

Escovar-lhe o sobretudo…

 

E que alegria saber

Que ele adore ir, aprumado,

A seguir, por todo o lado

No fato que lhe escolher!

 

Ele agora já não volta

A fazê-lo: vai-se embora.

Sente-o sair em tal hora

Do peito a sangrar revolta.

 

Não continua a viver,

Parece, já dentro dela,

É o desgosto e a dor que a atrela

A um passado a fenecer.

 

Ele vai levar com ele

Dela tudo, a carne e a pele.

 

 

143 - Temeridade

 

Temeridade é vingança

Dum homem sobre a mulher:

No seu valor não a alcança

Nem conhecido é sequer,

Arrisca ser destruído,

- Dela a ser de vez perdido.

 

Reconhecimento parco

Leva à pedrada no charco.

 

E às vezes atrás da pedra

Se afoga o amor que não medra.

 

 

144 - Sós

 

Com a mãe, a sós, os filhos

Contam-lhe eventos do dia:

Nada ocorre nem tem brilhos

Para eles realmente

Antes daquela alegria

De à mãe o dar de presente.

 

 

145 - Noite

 

Depois da noite de amor

Ambos ficam mui calados,

Que acenderam o fulgor

Que inova todos os dados,

Conhecem a imensidão

Que vigora na paixão.

 

Sentem-se muito pequenos,

Temerosos, infantis

E de interrogações plenos,

Eva e Adão pueris

Quando a inocência perderam

E de vez compreenderam

 

O tamanho do poder

Que do Paraíso os fez

Sair para percorrer

A grande noite de pez

E também o grande dia

Do Homem que aí viria.

 

Foi mesmo uma iniciação

Para cada um dos dois,

Bem como satisfação,

E renasceram depois:

Ficaram a conhecer

O nada que é o de quenquer.

 

A vaga enorme de vida

Que sempre os propulsionava

Proporcionou, de seguida,

A paz que cada buscava.

Se a um poder tão grandioso,

Magnificente, me entroso

 

Que me pode dominar,

Me identifica comigo,

De modo que vislumbrar

Que sou grão de pó consigo

Naquela tremenda força

Que tudo torça e destorça,

 

Que levanta a folha de erva,

Árvore e tudo o que é vivo,

Então por que ter reserva,

Me preocupar, esquivo,

Comigo mesmo algum dia

Se sou nada em tal fasquia?

 

Podem deixar-se arrastar

Pela vida que vier,

Cada qual sentir, a par,

Paz no outro a que bem quer.

Viveram, de mão na mão,

Uma vivificação.

 

Nada mais pode apagá-la,

Nada lha pode tirar,

À verdade que os abala

E os finda a pacificar.

É a confiança na vida

Com que aqui cada qual lida.

 

 

146 - Começa

 

Começa o amor erótico,

A emoção fica tão forte

Que arrastará num caótico

Turbilhão tudo - alma, porte,

 

Razão, sangue - é uma voragem,

Um rio que, sem ruído,

Redemoinha na cofragem

Dos muros que houver aluído.

 

Vão-se as críticas miúdas,

As pequenas sensações,

Sofre o raciocínio mudas,

Arrastado nos baldões.

 

Não são homem e mulher

Com uma mente desperta,

Transformam-se num qualquer

Instinto que os acoberta.

 

As mãos, criaturas vivas,

Os membros, o corpo inteiro,

Adquirem vidas furtivas,

De consciência um luzeiro,

 

Absolutamente alheios

A qualquer vontade deles,

Vivendo por próprios meios

Deles por dentro das peles.

 

Pulsam ambos de igual fogo

E de igual prazer na força

Que mantém com desafogo

Tudo a que o Universo orça.

 

É como se eles, as ervas,

As estrelas, a folhagem

Se amalgamem sem reservas

Num fogaréu com vantagem

 

De puxá-los para diante,

De puxá-los para cima.

Tudo jorra doravante

E tudo queda num clima

 

Nele perfeito como eles.

A paz tranquila à chegada

Das coisas todas imbeles,

No êxtase vivo arrastada,

 

O ponto máximo alcança

Do que é bem-aventurança.

 

 

147 - Início

 

No início da relação

Há o melhor comportamento.

Às vezes, na ocasião,

Uma frescura de vento,

 

A pequena extravagância,

Vem a revelar-se após

O inferno atrás da fragrância

De já nunca andarmos sós.

 

Vale-nos a intuição:

Se incomoda, não devemos

Deixá-lo passar em vão;

Mas também não estraguemos

O que ao fim pode ser bom.

A intuição é o raro lume

Que pode elevar-me ao cume.

 

 

148 - Subestimo

 

Subestimo a repressão:

Que saudades de meu filho

Que voou numa ilusão

E da filha que um atilho

Deslaça a cada Verão!

 

Bato à porta ainda do quarto

Que os viu nascer e florir

A só recordar-me o parto

Neles da vida a fluir

E de que jamais me farto.

 

Nunca explicam nada disto

Quando eles nos nascem, não.

Que emprestados, está visto,

Afinal, é o que nos são,

Ou algo idêntico a isto.

 

Nunca ninguém no-lo diz

Para nem pestanejarmos.

Ainda bem, que ser feliz

Custa a dor de nós gostarmos:

Mais paga quem mais bem quis.

 

 

149 - Jantar

 

O jantar de nossa infância!

Não, não é o que lá comíamos

Que tem do encanto a pregnância,

Nos entretém a vigília:

- O pitéu que ali fruíamos

Foi jantarmos em família.

 

 

150 - Festins

 

Não são festins culinários

Que a memória nos povoam:

Comer juntos nos conforta

Os corações solitários.

As mesas que em nós ecoam

Dão-nos o que mais importa:

 

Laços fortes derivados

Da refeição previsível.

Findamos a acarinhar

Os alegres nós atados

Mesmo à mesa indigerível,

Imperfeita, de jantar.

 

 

151 - Pára

 

Pára de te preocupar

Em atingir o equilíbrio

Na vida a te balançar.

Se tens filhos, é um ludíbrio,

 

Levam-nos o tempo todo.

Tempo livre? Que saudade!

É a lei básica e o modo

De toda a paternidade.

 

O tempo que lhes dedicas,

Mesmo sendo o dia inteiro,

Sentes sempre que o aplicas

Escasso, vago e rasteiro.

 

 

152 - Gosta

 

Quem fizer parte de tua vida,

Quem para ti for importante,

Gosta de ti como és em lida,

Pelo que és tu, não pelo instante

Duma aparência que é ilusória

E que se perde na memória.

 

Nisto é que podes repousar,

O mais é perda de lugar.

 

 

153 - Nego

 

Não nego que o egoísmo

É uma busca de abundância

Nas asperezas do abismo

Dos corações da ganância.

 

E, todavia, o amor

Está muito mais presente

Do que imagino: é o pendor

Que da imprensa andar ausente.

 

Sempre o assassino aparece

No jornal, televisão,

Enquanto o amor emurchece,

Invisível no porão.

 

Se uma mãe massacra um filho,

Teremos conhecimento.

Se aos milhões cada sarilho

Deles solvem em tormento,

 

Sacrificadas demais,

Ninguém ouve falar delas.

Cuidamos, pelos jornais,

Não haver estas sequelas.

 

Se eu pudera contrapor

Actos egoístas num prato

Duma balança maior

Contra os de amor que constato,

 

A apostar me atreveria

Que ia ser para o segundo

Que sempre se inclinaria

Toda a balança do mundo.

 

Em qualquer caso, sensato

É pôr teu peso em tal prato.

 

 

154 - Incensar

 

Um perfume sempre igual

Pode ser bem diferente,

Incensar por todo o vale

Ou num recanto somente,

 

Vir num vaso de beleza

Ou no saltitar do vento,

A arregalar de surpresa

Ou sem deixar tomar tento…

 

O que eu estranho, mulher,

É que ao mesmo tempo sejas

Isto tudo, sem sequer

Eu ver mesmo que o almejas.

 

É tudo tão natural,

Um amor tão espontâneo!

Em mim pergunto o que vale

Que pise o teu supedâneo.

 

És minha gota de Deus

A orvalhar cada manhã,

Onde me espraias os céus

À minha soleira chã.

 

 

155 - Privado

 

Privado do outro igual,

Já que o feminino é visto

Como inferior, lateral,

Fica frustrado o que alisto

 

Do macho predominante

E acaba ao fim esgotado.

Onde o sol brilha constante

Há o deserto em todo o lado,

 

Secam florestas e rios,

O solo estala sedento,

Morre a terra nos pousios:

- É o mundo como hoje o invento.

 

E é o machismo em morte lenta:

Mata tudo onde ele assenta.

 

 

156 - Nasce

 

Quando nasce uma amizade,

Registo de nascimento

Ninguém lhe faz, em verdade,

Tangível não há elemento.

 

Apenas esta intuição

De que a vida é diferente,

Que o poder do coração

Foi miraculosamente

 

Expandido sem esforço

Algum cá de minha parte.

É ter duma casa o escorço

Minúsculo onde, com arte,

 

Alguém vem viver connosco.

E em vez de mais apertado,

Mais cheio ficar o tosco

Canto onde hei-me acomodado.

 

Logo se expande o lugar,

Quartos então descobrimos

De que nós nunca lograr

Pudemos até que haurimos

 

Do novo amigo presente,

Entre nós de vez assente.

 

 

157 - Terreno

 

É terreno movediço

Qualquer relação humana,

Mesmo na franqueza e viço.

Se me distraio, o que emana

É que fere e vai magoar

Aqueles a quem amar.

 

 

158 - Ajuda

 

Se a ajuda efectiva importa,

Basta que alguém disponível

A sinta, que logo a porta

De resistir, infalível,

Se abre contra a adversidade,

Miúdo a que olhar de soslaio

Os pais basta: a escuridade

Logo enfrenta sem desmaio.

 

 

159 - Aguardo

 

Que aguardo da relação?

Um naco de transcendência,

De sair a sensação

De mim e de minha ausência

 

Do quotidiano, rumo

Às nuvens onde me aprumo.

 

Alguns crêem que o amor

É religiosa vivência,

Num mundo laico o pendor

Que ela tem por excelência.

 

Só quando é repetição,

Mais do mesmo uma vez mais,

Do céu não nos cai ao chão

O novo em nenhuns sinais.

 

Mas na relação o sonho,

Crente ou ateu, sempre ponho.

 

 

160 - Paixão

 

A paixão é violenta,

Pedimos-lhe o céu na terra,

Não que, ao rés-do-chão atenta,

Solidária finde a guerra.

 

Os apaixonados são

Prontos a fugir do mundo,

A bater com o portão.

Só os amigos são, no fundo,

 

Capazes de transformar,

Armados de intimidade

Entre gente do lugar,

De sólida realidade,

 

Todos de defeitos cheios

Como de virtudes frágeis.

Ora, o amante aprende os meios

De nos devolver, mui ágeis,

 

Más imagens do que somos

Aos olhos dele: enganados,

Mentira em todos os gomos.

Mas o amigo facetados

 

Mistura espelhos compostos:

Uma limpidez cruel,

Grilos falantes a postos,

E cúmplice sempre fiel.

 

Na melhor e pior sorte

Companheiro até à morte.

 

 

161 - Caleidoscópios

 

Dos caleidoscópios através que a infância

Em nós construiu pelo passado fora

É que em toda a parte o teu povoado, em ânsia,

Lento abraçará qualquer aldeia agora,

 

É o metro-padrão doutras cidades, vilas,

A partir do qual as medirás, seguro.

Umas terão isto, aquilo a mais, senti-las

É que as tu não sentes, não lhes vês apuro,

Não serão a tua, o coração não tocam.

Quando retornado, vindo ao lar primevo,

Sentirás carinhos que a doçura evocam,

Que te invadirão: do tempo antigo és coevo.

 

Tua prole abraça e os locais aponta

Por onde em menino te passearam, ternos,

Os teus pais e avós, aos memoriais remonta

Que ali te trocaram, de azuis céus, infernos.

 

As crianças nunca agrilhoadas vivem

Ao concreto pobre, de bom grado trocam

O real razoável com o qual convivem

Por maravilhoso, a fantasia evocam.

 

Binóculos de alma para os filhos, netos,

Compra-lhes então e, pela aurora fria,

Quando a bruma lenta do chão trepa aos tectos,

Fá-los reparar no que ali já se via.

 

É o primeiro olhar. Fá-los depois quererem

Os olhos fechar, a finalmente verem.

 

 

162 - Apaixonados

 

A paixão esmoreceu,

Eles, porém, continuam

Apaixonados, de véu

E grinalda de que fruam,

 

Como água que, após fervida,

Não perde então o calor

Só porque, logo em seguida,

Da chama findo o fulgor,

 

Acabou de borbulhar.

Os anos cumplicidade

Vieram acarretar,

Carinho em serenidade,

 

Com tempo, não apressado,

Partilha de sonhos, fitos,

De preocupações um grado

Braçado além dos conflitos,

 

Sentimento de pertença

À história comum de vida.

É um laço que tudo vença:

Se nova paixão convida

 

Mesmo à margem da jornada,

Finda ignorada em caminho.

Eles esperam, de entrada,

Ficar juntos no igual ninho,

 

Aceitam inevitáveis

As mudas que o tempo traz

E não julgam, intratáveis,

À paixão que vem de trás

 

De num álbum relegar

De fotos amareladas,

Antes a vão embalar

Do empenho são nas jogadas.

 

 

163 - Porta-vozes

 

Sempre os pais transitarão

De porta-vozes dos deuses

A porto de salvação,

Cais eventual de adeuses,

 

De intrépidos marinheiros

Eventualmente ignorado.

Estes, sempre pioneiros,

Uma exigência arvorado

 

Terão sempre, inconsciente:

Que os pais se tenham por perto,

Já que a fortuna indecente

Não prega sempre em deserto.

 

Vamos então educá-los

Recuando aos bastidores,

Em cena então a deixá-los,

De seus caminhos autores,

 

Mas prontos sempre a pisar

O palco outra vez se as deixas

A tal nos vão obrigar,

Conforme o teor das queixas.

 

Se em tudo actuarmos bem

Os melhores secundários

Actores somos também,

Sem festas nem lampadários,

 

Mas com reconhecimento

De lhes ser reconfortante

Saber-nos, a cada evento,

Perto em gesto vigilante.

 

E depois nunca devemos

O espectáculo esquecer

Das vidas próprias que temos

Sempre em cartaz com quenquer.

 

Nunca se irão resumir

A acompanhamento deles.

Quem como tal se assumir,

Deles colando-se às peles,

 

De querido companheiro

De palco, passa a empresário

Egoísta e trapaceiro

Ou falhado mostruário

 

Duma estrela decadente

Perseguindo tarde a glória

Através deles jacente,

Fancaria de vanglória.

 

A nós não se abraçarão

Quando entre actos retomar

Vêm a respiração

Ao camarim que restar.

 

Cada qual é um condenado

O resto de sua vida

Na plateia a olhar de lado

Ou a escapar de fugida.

 

 

164 - Preço

 

Em vez de andar agarrado

A todo e qualquer poder,

Qualquer que seja o focado,

E de o procurar manter

 

Seja lá o preço qual for,

É de procurar ter antes

Disponível o valor

Do coração com que encantes

 

Diante de tudo e todos.

De amor ter uma atitude

E não do poder os modos

É conquistar a virtude

 

De respeitar os sinais

Que a vida nos vier dando,

Os vindos do imo, fulcrais,

E os que fora vão soando.

 

 

165 - Dor

 

A dor não é nunca má,

É uma forma de explorar

A profundidade que há

No sentimento a aflorar,

Na emoção por quem não volta

Nesta vida a andar à solta…

 

Cuida que a dor é um sinal

De amor, forma de lembrar

A todos que cada qual

É capaz, pedra angular,

De sentir uma emoção

Tão forte no coração.

 

Em última instância, a dor

É o outro lado do amor.

 

 

166 - Peso

 

Um amigo verdadeiro

É o que der a meu problema

O peso que lhe requeiro,

A importância que lhe tema,

E que a meu lado e com siso

Fica sempre que é preciso.

 

 

167 - Tanto

 

Do que nós mais precisamos

É de amor e de atenção.

E é tanto dos que nós damos

Como dos que vêm à mão:

 

Um cão que for cão fiel,

Que não embirre connosco,

É um bálsamo para a pele

Do solitário mais tosco.

 

Todo o amor nos toca fundo:

Nele assentamos o mundo.

 

 

168 - Brigar

 

Brigar com os irmãos será normal,

Problema é como os pais lidam com tal.

 

É nunca dar razão a nenhum deles,

Na discussão jamais, por mais que apeles,

 

Entrar para saber quem começou

O quê ou que mais justo se antolhou.

 

As brigas findem cerce, decididos,

Que o tempo se findou para ofendidos.

 

 

169 - Comprará

 

Jamais comprará o dinheiro

A felicidade, não.

Muitos engana o carreiro

De ter rico mealheiro

E que amealhando vão

 

Apenas para mais tarde

Andar às voltas num poço

De desejo que os albarde,

Frustrado da dor no alarde,

E que os afunda no fosso.

 

Qualquer infelicidade

Como a alegria, afinal,

Uma à outra sempre invade

Se é dinheiro em quantidade

Que em conta tem cada qual.

 

Felicidade o que a traz

São os que gostam de nós,

De quem gostar nos apraz,

São os afectos e a paz

Que partilhamos após.

 

Se houver dinheiro bastante

Para comprar um iate

E amigos não, adiante,

Que vão com o navegante

Tudo se afunda em dislate.

 

 

170 - Caminha

 

Do tempo através

Caminha o amor,

É, de lés a lés,

Terno povoador,

Gera companheiras

Almas pioneiras.

 

É tarefa tua

Dele amar a rua.

 

 

171 - Sofre

 

Não sofre quem não amar,

Contudo, em contrapartida,

Quem não sofrer, se calhar,

Também não ama em seguida.

 

Depois, não há garantia

De não sofrer quem não ama:

Sem amor, que vida fria,

Quanta dor sobre ela acama!

 

 

172 - Teia

 

Se o coração nos detecta

Que algo não estará certo

Em nossa vida concreta

 

E a teia de crenças, perto,

Acredita que não pode

Algum crédito decerto

 

Ao coração que me engode

Atribuir, como acordar?

- É a perda então que me acode!

 

A perda atraio ao lugar,

Dentro e fora me sacode

Até que eu aprenda a olhar.

 

 

173 - Simples

 

Amar é simples: sem códigos

Nem extremos sem porvir.

É existir, em gestos pródigos,

Do outro ao lado que surgir.

 

Doar-se, enfim, pelo que se é

E pelo que tem de ser-se:

Ao rever-se, fica em pé,

Inteiro no ser que exerce,

 

Existindo do outro ao lado.

Amar não é prescindir

Nem perder nenhum bocado,

É um dar que é dar-se a seguir.

 

Não dar só bens materiais,

Que muito mais fácil era.

É dar-se a si aos demais,

Sem temor de alguma espera.

 

E sem angústia, receio,

Sofrer quanto houver no meio.

 

 

174 - Querer

 

Há pais a querer que os filhos

Ou sejam isto ou aquilo

E filhos a atar atilhos

Dos pais ao ancestral silo,

A afinar por igual trilo,

Todos a sofrer sarilhos.

 

Como há filhos a tentar

Fugir ao que os pais quiserem,

A todo o custo a buscar

O que chamados a serem

Por eles próprios conferem

Que o coração quer gerar.

 

Às vezes enfrentam, duros,

Bem cruéis dificuldades.

Maridos tentam, impuros,

Domar personalidades

De esposas atrás das grades

Dum lar de quartos escuros.

 

Há tantos que tentam ser,

Afinal, o que não são!

Por mimetismo, quenquer

Não é quem é no desvão

De seu mais fundo porão

E a missão deixa de ver

 

Que veio cumprir à Terra.

E morrer irá, por fim,

Sem saber a que se aferra

O apelo de seu confim,

A chamada que é-lhe afim

E que, ao ignorá-la, enterra.

 

 

175 - Autonomia

 

Toda e qualquer separação

É uma proposta de evoluir:

Autonomia em formação.

O outro terá, rumo ao porvir,

A própria escolha que o chamar

E tu só tens que a respeitar.

 

Só respeitando sem limites

A escolha que ele quer fazer

Respeitarás (ficareis quites)

A ele inteiro, em todo o ser:

Não há respeito por alguém

Sem pela escolha haver também.

 

Na realidade nós seremos

Aquilo apenas que escolhemos.

 

Ser-escolher estão ligados

Intimamente: um ser, dois lados.

 

A escolha é forma de mostrares

Quem és deveras entre pares.

 

 

176 - Misturam

 

Não se amando loucamente,

Não se misturam nem colam.

Ao não colar-se, evidente,

É que o eu que tanto empolam

 

Não reduzem nem anulam.

Ao não reduzir o eu,

Logo ali não acumulam

Expectativas de seu

 

De um do outro receber

O que um eu já reduzido

Dar não consegue a quenquer:

Ninguém ser desiludido.

 

Como não se desiludem,

Já não ficarão carentes.

Como à carência não grudem,

Não esperam, entrementes.

 

Sem espera, não exigem

Receber nada que esperam.

Não exigindo, corrigem,

Não discutem, cooperam.

 

Ora, como não discutem,

Nunca então se distanciam.

Não distantes, eis que incutem:

- Nunca se separariam.

 

Eis como pode um casal

Unir-se vida adiante

Sem ter um laço ideal

Mas sendo gratificante.

 

 

177 - Atrair

 

O maior de nossos erros

Que vai atrair doença

É a falta de cume e cerros

De amor-próprio que convença,

 

Daquele amor verdadeiro

Que me acolhe tal qual sou,

No monte e desfiladeiro

Que me listo e donde vou

 

No topo das prioridades

Pôr-me, a levar-me a escolher

O que reflicta as verdades

Do que sou ao querer ser.

 

Não é isto o que acontece,

Nós agimos pelo medo,

É escolha do que apetece

A outrem que o quer de cedo,

 

Ou que as religiões mandam.

Andamos sempre a pensar

Nos outros, em como é que andam,

A viver em seu lugar,

 

Não as vidas que são nossas.

Focalizamo-nos fora,

A imitar sempre outras bossas,

Exemplar onde outrem mora.

 

Ora, imitar não é ser,

Ser dá muito mais trabalho,

À lógica a obedecer

Do que sou neste meu galho,

 

Do que sinto e ser intuo.

Ser é mais desconfortável

Que corresponder em duo

Ao que espere outrem, afável.

 

E que os outros correspondam

Esperar mais fácil é

Que compreender o que mondam,

O que a escolha põe de pé.

 

E custa mais defender

O que tua escolha enliça,

Consonante com teu ser,

Que ser na maré cortiça.

 

 

178 - Espelho

 

Quando alguém quer o melhor,

Se a outrem o melhor der,

O melhor que de si for

Vai-lhe o outro devolver.

Espelho da vida à solta,

O que além vai sempre volta.

 

Se uma pessoa quiser

Bem sucedida no afecto

Por uma vez lograr ser,

Cruzará neste trajecto

Com a leira sexual,

Ser arroteia e moral.

Um orgasmo é eternidade

Na matéria a semear-se,

Lá em cima capacidade

De estar e, sem que se esgarce,

Cá em baixo andar radicado,

Simultâneo, deste lado.

 

Desbloqueio da energia

A embeber-nos divinal,

É romper uma outra via,

Abertura do canal

Do lado de cá da vida

Para o que de além convida.

 

Êxtase em meditação,

Pode também ocorrer

Num orgasmo em comunhão,

Comportas a se romper.

Há quem vislumbre ali luzes,

O céu a que te conduzes

 

A acontecer, já liberto,

A conexão dos dois mundos.

É o princípio, o mapa aberto,

Da viagem com pés fecundos.

Aberto o canal, que fácil

Volitar em voo grácil!

 

 

179 - Conscientes

 

Do amor e do ódio o dual,

Quando não for superado,

Não é nunca o ideal.

O ideal é que o casal,

Conscientes ambos do fado,

 

De quem são, de seus limites,

Se apaixonem loucamente,

A produzir, nos palpites,

Pura energia, ambos quites

Ao cruzar todo o presente.

 

Quando juntos, tudo é intenso,

Porém, quando separados,

Cada qual, com todo o senso,

Reserva um tempo que é denso,

Para aos sonhos dar cuidados.

 

Quando juntos a estar voltam

Tr