SEGUNDO TROVÁRIO
NO AMOR IDENTIFICA-ME A MATRIZ
Escolha ao acaso um número entre 135 e 275, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
135 - No amor identifica-me a matriz
No amor identifica-me a matriz
O verso regular no metro e forma,
Com rima que de amor sempre nos diz
O que entre dois amantes bem condiz
Na harmonia que os ata, ambos conforma.
No termo se une tudo e no real
Tudo a ver tem com tudo, indiferente
Ao que a palavra aprende, no final,
Dum real que espicaça eterno a mente.
Mas o conceito aponta aqui a dedo
Onde afinal se encontra o nosso ninho
Os ovos a chocar dum porvir ledo.
Por entre os desencontros que adivinho
Trio laços do verso com o ancinho.
136 - Trabalhei
Trabalhei a vida inteira
E o melhor que eu aprendi
É que a diária canseira
É dar-me bem por aqui,
Sem heróis nem adivinhos,
Com todos os meus vizinhos.
Juntos, quase sem nós vermos,
Continuamos a aliviar
As mazelas dos enfermos,
Qualquer dor de quem calhar,
O mal dos desamparados,
Indefesos, lesionados…
É que todos, bem no fundo,
Somos intrinsecamente
Bons, por todo o vasto mundo:
Aos milhões, diariamente,
Gente comum o comprova
Partilhando e pondo à prova
Sacrifício, compaixão,
Pelos mais amor de irmão.
137 - Relação
Não é nunca permanente
Nenhum relacionamento:
A relação que é virente
Evolui cada momento.
Permanente relação
Sempre é, pois, contradição.
138 - Casa
A casa não é só casa,
Vive cheia de memórias,
De momentos, duma brasa
Que incendeia antigas glórias,
Mil aventuras vividas.
Existe em mim a gaveta
Das lembranças bem queridas
Que torna deveras minha
A casa, numa secreta
Atadura de gavinha.
139 - Casamento
O casamento é viagem
Rumo a um destino ignorado,
Descoberta da coragem
De partilhar, denodado,
Tudo quanto não sabemos
Não só um doutro a respeito
Mas também o que não vemos
Em nós nos marcando o peito.
140 - Duvida
Se a jovem se crê bonita,
Nunca duvida dum homem
Que o amor por ela grita,
Pois se acredita que o domem
Dela os encantos, bastantes
Para enfeitiçar quenquer,
Não estranha, após nem antes,
Os efeitos que tiver
A acender qualquer chamiço
Dela o pretenso feitiço.
Não admira que a iluda
A mentira a que se gruda.
141 - Bolsa
Bolsa não satisfarei
Abandonando no chão,
Insatisfeito e sem lei,
O mísero coração.
Amo e então, ao me casar,
Pobre embora, tenho lar.
142 - Rapaz
Ao rapaz nunca ocorreu
Que ela fique mais ferida
Dele só com a partida
Do que a cura um cume seu.
Se a hora de ir se aproxima,
Dela uma angústia a apertar-se
Principia, sem disfarce,
É de desespero o clima.
Ama-o tanto, tanto, tanto,
Tem tanta esperança nele!
Quase vive, no que a impele,
Só para ele, de encanto.
Gosta de lhe fazer tudo:
Dar-lhe um café, um jantar,
A camisa lhe engomar,
Escovar-lhe o sobretudo…
E que alegria saber
Que ele adore ir, aprumado,
A seguir, por todo o lado
No fato que lhe escolher!
Ele agora já não volta
A fazê-lo: vai-se embora.
Sente-o sair em tal hora
Do peito a sangrar revolta.
Não continua a viver,
Parece, já dentro dela,
É o desgosto e a dor que a atrela
A um passado a fenecer.
Ele vai levar com ele
Dela tudo, a carne e a pele.
143 - Temeridade
Temeridade é vingança
Dum homem sobre a mulher:
No seu valor não a alcança
Nem conhecido é sequer,
Arrisca ser destruído,
- Dela a ser de vez perdido.
Reconhecimento parco
Leva à pedrada no charco.
E às vezes atrás da pedra
Se afoga o amor que não medra.
144 - Sós
Com a mãe, a sós, os filhos
Contam-lhe eventos do dia:
Nada ocorre nem tem brilhos
Para eles realmente
Antes daquela alegria
De à mãe o dar de presente.
145 - Noite
Depois da noite de amor
Ambos ficam mui calados,
Que acenderam o fulgor
Que inova todos os dados,
Conhecem a imensidão
Que vigora na paixão.
Sentem-se muito pequenos,
Temerosos, infantis
E de interrogações plenos,
Eva e Adão pueris
Quando a inocência perderam
E de vez compreenderam
O tamanho do poder
Que do Paraíso os fez
Sair para percorrer
A grande noite de pez
E também o grande dia
Do Homem que aí viria.
Foi mesmo uma iniciação
Para cada um dos dois,
Bem como satisfação,
E renasceram depois:
Ficaram a conhecer
O nada que é o de quenquer.
A vaga enorme de vida
Que sempre os propulsionava
Proporcionou, de seguida,
A paz que cada buscava.
Se a um poder tão grandioso,
Magnificente, me entroso
Que me pode dominar,
Me identifica comigo,
De modo que vislumbrar
Que sou grão de pó consigo
Naquela tremenda força
Que tudo torça e destorça,
Que levanta a folha de erva,
Árvore e tudo o que é vivo,
Então por que ter reserva,
Me preocupar, esquivo,
Comigo mesmo algum dia
Se sou nada em tal fasquia?
Podem deixar-se arrastar
Pela vida que vier,
Cada qual sentir, a par,
Paz no outro a que bem quer.
Viveram, de mão na mão,
Uma vivificação.
Nada mais pode apagá-la,
Nada lha pode tirar,
À verdade que os abala
E os finda a pacificar.
É a confiança na vida
Com que aqui cada qual lida.
146 - Começa
Começa o amor erótico,
A emoção fica tão forte
Que arrastará num caótico
Turbilhão tudo - alma, porte,
Razão, sangue - é uma voragem,
Um rio que, sem ruído,
Redemoinha na cofragem
Dos muros que houver aluído.
Vão-se as críticas miúdas,
As pequenas sensações,
Sofre o raciocínio mudas,
Arrastado nos baldões.
Não são homem e mulher
Com uma mente desperta,
Transformam-se num qualquer
Instinto que os acoberta.
As mãos, criaturas vivas,
Os membros, o corpo inteiro,
Adquirem vidas furtivas,
De consciência um luzeiro,
Absolutamente alheios
A qualquer vontade deles,
Vivendo por próprios meios
Deles por dentro das peles.
Pulsam ambos de igual fogo
E de igual prazer na força
Que mantém com desafogo
Tudo a que o Universo orça.
É como se eles, as ervas,
As estrelas, a folhagem
Se amalgamem sem reservas
Num fogaréu com vantagem
De puxá-los para diante,
De puxá-los para cima.
Tudo jorra doravante
E tudo queda num clima
Nele perfeito como eles.
A paz tranquila à chegada
Das coisas todas imbeles,
No êxtase vivo arrastada,
O ponto máximo alcança
Do que é bem-aventurança.
147 - Início
No início da relação
Há o melhor comportamento.
Às vezes, na ocasião,
Uma frescura de vento,
A pequena extravagância,
Vem a revelar-se após
O inferno atrás da fragrância
De já nunca andarmos sós.
Vale-nos a intuição:
Se incomoda, não devemos
Deixá-lo passar em vão;
Mas também não estraguemos
O que ao fim pode ser bom.
A intuição é o raro lume
Que pode elevar-me ao cume.
148 - Subestimo
Subestimo a repressão:
Que saudades de meu filho
Que voou numa ilusão
E da filha que um atilho
Deslaça a cada Verão!
Bato à porta ainda do quarto
Que os viu nascer e florir
A só recordar-me o parto
Neles da vida a fluir
E de que jamais me farto.
Nunca explicam nada disto
Quando eles nos nascem, não.
Que emprestados, está visto,
Afinal, é o que nos são,
Ou algo idêntico a isto.
Nunca ninguém no-lo diz
Para nem pestanejarmos.
Ainda bem, que ser feliz
Custa a dor de nós gostarmos:
Mais paga quem mais bem quis.
149 - Jantar
O jantar de nossa infância!
Não, não é o que lá comíamos
Que tem do encanto a pregnância,
Nos entretém a vigília:
- O pitéu que ali fruíamos
Foi jantarmos em família.
150 - Festins
Não são festins culinários
Que a memória nos povoam:
Comer juntos nos conforta
Os corações solitários.
As mesas que em nós ecoam
Dão-nos o que mais importa:
Laços fortes derivados
Da refeição previsível.
Findamos a acarinhar
Os alegres nós atados
Mesmo à mesa indigerível,
Imperfeita, de jantar.
151 - Pára
Pára de te preocupar
Em atingir o equilíbrio
Na vida a te balançar.
Se tens filhos, é um ludíbrio,
Levam-nos o tempo todo.
Tempo livre? Que saudade!
É a lei básica e o modo
De toda a paternidade.
O tempo que lhes dedicas,
Mesmo sendo o dia inteiro,
Sentes sempre que o aplicas
Escasso, vago e rasteiro.
152 - Gosta
Quem fizer parte de tua vida,
Quem para ti for importante,
Gosta de ti como és em lida,
Pelo que és tu, não pelo instante
Duma aparência que é ilusória
E que se perde na memória.
Nisto é que podes repousar,
O mais é perda de lugar.
153 - Nego
Não nego que o egoísmo
É uma busca de abundância
Nas asperezas do abismo
Dos corações da ganância.
E, todavia, o amor
Está muito mais presente
Do que imagino: é o pendor
Que da imprensa andar ausente.
Sempre o assassino aparece
No jornal, televisão,
Enquanto o amor emurchece,
Invisível no porão.
Se uma mãe massacra um filho,
Teremos conhecimento.
Se aos milhões cada sarilho
Deles solvem em tormento,
Sacrificadas demais,
Ninguém ouve falar delas.
Cuidamos, pelos jornais,
Não haver estas sequelas.
Se eu pudera contrapor
Actos egoístas num prato
Duma balança maior
Contra os de amor que constato,
A apostar me atreveria
Que ia ser para o segundo
Que sempre se inclinaria
Toda a balança do mundo.
Em qualquer caso, sensato
É pôr teu peso em tal prato.
154 - Incensar
Um perfume sempre igual
Pode ser bem diferente,
Incensar por todo o vale
Ou num recanto somente,
Vir num vaso de beleza
Ou no saltitar do vento,
A arregalar de surpresa
Ou sem deixar tomar tento…
O que eu estranho, mulher,
É que ao mesmo tempo sejas
Isto tudo, sem sequer
Eu ver mesmo que o almejas.
É tudo tão natural,
Um amor tão espontâneo!
Em mim pergunto o que vale
Que pise o teu supedâneo.
És minha gota de Deus
A orvalhar cada manhã,
Onde me espraias os céus
À minha soleira chã.
155 - Privado
Privado do outro igual,
Já que o feminino é visto
Como inferior, lateral,
Fica frustrado o que alisto
Do macho predominante
E acaba ao fim esgotado.
Onde o sol brilha constante
Há o deserto em todo o lado,
Secam florestas e rios,
O solo estala sedento,
Morre a terra nos pousios:
- É o mundo como hoje o invento.
E é o machismo em morte lenta:
Mata tudo onde ele assenta.
156 - Nasce
Quando nasce uma amizade,
Registo de nascimento
Ninguém lhe faz, em verdade,
Tangível não há elemento.
Apenas esta intuição
De que a vida é diferente,
Que o poder do coração
Foi miraculosamente
Expandido sem esforço
Algum cá de minha parte.
É ter duma casa o escorço
Minúsculo onde, com arte,
Alguém vem viver connosco.
E em vez de mais apertado,
Mais cheio ficar o tosco
Canto onde hei-me acomodado.
Logo se expande o lugar,
Quartos então descobrimos
De que nós nunca lograr
Pudemos até que haurimos
Do novo amigo presente,
Entre nós de vez assente.
157 - Terreno
É terreno movediço
Qualquer relação humana,
Mesmo na franqueza e viço.
Se me distraio, o que emana
É que fere e vai magoar
Aqueles a quem amar.
158 - Ajuda
Se a ajuda efectiva importa,
Basta que alguém disponível
A sinta, que logo a porta
De resistir, infalível,
Se abre contra a adversidade,
Miúdo a que olhar de soslaio
Os pais basta: a escuridade
Logo enfrenta sem desmaio.
159 - Aguardo
Que aguardo da relação?
Um naco de transcendência,
De sair a sensação
De mim e de minha ausência
Do quotidiano, rumo
Às nuvens onde me aprumo.
Alguns crêem que o amor
É religiosa vivência,
Num mundo laico o pendor
Que ela tem por excelência.
Só quando é repetição,
Mais do mesmo uma vez mais,
Do céu não nos cai ao chão
O novo em nenhuns sinais.
Mas na relação o sonho,
Crente ou ateu, sempre ponho.
160 - Paixão
A paixão é violenta,
Pedimos-lhe o céu na terra,
Não que, ao rés-do-chão atenta,
Solidária finde a guerra.
Os apaixonados são
Prontos a fugir do mundo,
A bater com o portão.
Só os amigos são, no fundo,
Capazes de transformar,
Armados de intimidade
Entre gente do lugar,
De sólida realidade,
Todos de defeitos cheios
Como de virtudes frágeis.
Ora, o amante aprende os meios
De nos devolver, mui ágeis,
Más imagens do que somos
Aos olhos dele: enganados,
Mentira em todos os gomos.
Mas o amigo facetados
Mistura espelhos compostos:
Uma limpidez cruel,
Grilos falantes a postos,
E cúmplice sempre fiel.
Na melhor e pior sorte
Companheiro até à morte.
161 - Caleidoscópios
Dos caleidoscópios através que a infância
Em nós construiu pelo passado fora
É que em toda a parte o teu povoado, em ânsia,
Lento abraçará qualquer aldeia agora,
É o metro-padrão doutras cidades, vilas,
A partir do qual as medirás, seguro.
Umas terão isto, aquilo a mais, senti-las
É que as tu não sentes, não lhes vês apuro,
Não serão a tua, o coração não tocam.
Quando retornado, vindo ao lar primevo,
Sentirás carinhos que a doçura evocam,
Que te invadirão: do tempo antigo és coevo.
Tua prole abraça e os locais aponta
Por onde em menino te passearam, ternos,
Os teus pais e avós, aos memoriais remonta
Que ali te trocaram, de azuis céus, infernos.
As crianças nunca agrilhoadas vivem
Ao concreto pobre, de bom grado trocam
O real razoável com o qual convivem
Por maravilhoso, a fantasia evocam.
Binóculos de alma para os filhos, netos,
Compra-lhes então e, pela aurora fria,
Quando a bruma lenta do chão trepa aos tectos,
Fá-los reparar no que ali já se via.
É o primeiro olhar. Fá-los depois quererem
Os olhos fechar, a finalmente verem.
162 - Apaixonados
A paixão esmoreceu,
Eles, porém, continuam
Apaixonados, de véu
E grinalda de que fruam,
Como água que, após fervida,
Não perde então o calor
Só porque, logo em seguida,
Da chama findo o fulgor,
Acabou de borbulhar.
Os anos cumplicidade
Vieram acarretar,
Carinho em serenidade,
Com tempo, não apressado,
Partilha de sonhos, fitos,
De preocupações um grado
Braçado além dos conflitos,
Sentimento de pertença
À história comum de vida.
É um laço que tudo vença:
Se nova paixão convida
Mesmo à margem da jornada,
Finda ignorada em caminho.
Eles esperam, de entrada,
Ficar juntos no igual ninho,
Aceitam inevitáveis
As mudas que o tempo traz
E não julgam, intratáveis,
À paixão que vem de trás
De num álbum relegar
De fotos amareladas,
Antes a vão embalar
Do empenho são nas jogadas.
163 - Porta-vozes
Sempre os pais transitarão
De porta-vozes dos deuses
A porto de salvação,
Cais eventual de adeuses,
De intrépidos marinheiros
Eventualmente ignorado.
Estes, sempre pioneiros,
Uma exigência arvorado
Terão sempre, inconsciente:
Que os pais se tenham por perto,
Já que a fortuna indecente
Não prega sempre em deserto.
Vamos então educá-los
Recuando aos bastidores,
Em cena então a deixá-los,
De seus caminhos autores,
Mas prontos sempre a pisar
O palco outra vez se as deixas
A tal nos vão obrigar,
Conforme o teor das queixas.
Se em tudo actuarmos bem
Os melhores secundários
Actores somos também,
Sem festas nem lampadários,
Mas com reconhecimento
De lhes ser reconfortante
Saber-nos, a cada evento,
Perto em gesto vigilante.
E depois nunca devemos
O espectáculo esquecer
Das vidas próprias que temos
Sempre em cartaz com quenquer.
Nunca se irão resumir
A acompanhamento deles.
Quem como tal se assumir,
Deles colando-se às peles,
De querido companheiro
De palco, passa a empresário
Egoísta e trapaceiro
Ou falhado mostruário
Duma estrela decadente
Perseguindo tarde a glória
Através deles jacente,
Fancaria de vanglória.
A nós não se abraçarão
Quando entre actos retomar
Vêm a respiração
Ao camarim que restar.
Cada qual é um condenado
O resto de sua vida
Na plateia a olhar de lado
Ou a escapar de fugida.
164 - Preço
Em vez de andar agarrado
A todo e qualquer poder,
Qualquer que seja o focado,
E de o procurar manter
Seja lá o preço qual for,
É de procurar ter antes
Disponível o valor
Do coração com que encantes
Diante de tudo e todos.
De amor ter uma atitude
E não do poder os modos
É conquistar a virtude
De respeitar os sinais
Que a vida nos vier dando,
Os vindos do imo, fulcrais,
E os que fora vão soando.
165 - Dor
A dor não é nunca má,
É uma forma de explorar
A profundidade que há
No sentimento a aflorar,
Na emoção por quem não volta
Nesta vida a andar à solta…
Cuida que a dor é um sinal
De amor, forma de lembrar
A todos que cada qual
É capaz, pedra angular,
De sentir uma emoção
Tão forte no coração.
Em última instância, a dor
É o outro lado do amor.
166 - Peso
Um amigo verdadeiro
É o que der a meu problema
O peso que lhe requeiro,
A importância que lhe tema,
E que a meu lado e com siso
Fica sempre que é preciso.
167 - Tanto
Do que nós mais precisamos
É de amor e de atenção.
E é tanto dos que nós damos
Como dos que vêm à mão:
Um cão que for cão fiel,
Que não embirre connosco,
É um bálsamo para a pele
Do solitário mais tosco.
Todo o amor nos toca fundo:
Nele assentamos o mundo.
168 - Brigar
Brigar com os irmãos será normal,
Problema é como os pais lidam com tal.
É nunca dar razão a nenhum deles,
Na discussão jamais, por mais que apeles,
Entrar para saber quem começou
O quê ou que mais justo se antolhou.
As brigas findem cerce, decididos,
Que o tempo se findou para ofendidos.
169 - Comprará
Jamais comprará o dinheiro
A felicidade, não.
Muitos engana o carreiro
De ter rico mealheiro
E que amealhando vão
Apenas para mais tarde
Andar às voltas num poço
De desejo que os albarde,
Frustrado da dor no alarde,
E que os afunda no fosso.
Qualquer infelicidade
Como a alegria, afinal,
Uma à outra sempre invade
Se é dinheiro em quantidade
Que em conta tem cada qual.
Felicidade o que a traz
São os que gostam de nós,
De quem gostar nos apraz,
São os afectos e a paz
Que partilhamos após.
Se houver dinheiro bastante
Para comprar um iate
E amigos não, adiante,
Que vão com o navegante
Tudo se afunda em dislate.
170 - Caminha
Do tempo através
Caminha o amor,
É, de lés a lés,
Terno povoador,
Gera companheiras
Almas pioneiras.
É tarefa tua
Dele amar a rua.
171 - Sofre
Não sofre quem não amar,
Contudo, em contrapartida,
Quem não sofrer, se calhar,
Também não ama em seguida.
Depois, não há garantia
De não sofrer quem não ama:
Sem amor, que vida fria,
Quanta dor sobre ela acama!
172 - Teia
Se o coração nos detecta
Que algo não estará certo
Em nossa vida concreta
E a teia de crenças, perto,
Acredita que não pode
Algum crédito decerto
Ao coração que me engode
Atribuir, como acordar?
- É a perda então que me acode!
A perda atraio ao lugar,
Dentro e fora me sacode
Até que eu aprenda a olhar.
173 - Simples
Amar é simples: sem códigos
Nem extremos sem porvir.
É existir, em gestos pródigos,
Do outro ao lado que surgir.
Doar-se, enfim, pelo que se é
E pelo que tem de ser-se:
Ao rever-se, fica em pé,
Inteiro no ser que exerce,
Existindo do outro ao lado.
Amar não é prescindir
Nem perder nenhum bocado,
É um dar que é dar-se a seguir.
Não dar só bens materiais,
Que muito mais fácil era.
É dar-se a si aos demais,
Sem temor de alguma espera.
E sem angústia, receio,
Sofrer quanto houver no meio.
174 - Querer
Há pais a querer que os filhos
Ou sejam isto ou aquilo
E filhos a atar atilhos
Dos pais ao ancestral silo,
A afinar por igual trilo,
Todos a sofrer sarilhos.
Como há filhos a tentar
Fugir ao que os pais quiserem,
A todo o custo a buscar
O que chamados a serem
Por eles próprios conferem
Que o coração quer gerar.
Às vezes enfrentam, duros,
Bem cruéis dificuldades.
Maridos tentam, impuros,
Domar personalidades
De esposas atrás das grades
Dum lar de quartos escuros.
Há tantos que tentam ser,
Afinal, o que não são!
Por mimetismo, quenquer
Não é quem é no desvão
De seu mais fundo porão
E a missão deixa de ver
Que veio cumprir à Terra.
E morrer irá, por fim,
Sem saber a que se aferra
O apelo de seu confim,
A chamada que é-lhe afim
E que, ao ignorá-la, enterra.
175 - Autonomia
Toda e qualquer separação
É uma proposta de evoluir:
Autonomia em formação.
O outro terá, rumo ao porvir,
A própria escolha que o chamar
E tu só tens que a respeitar.
Só respeitando sem limites
A escolha que ele quer fazer
Respeitarás (ficareis quites)
A ele inteiro, em todo o ser:
Não há respeito por alguém
Sem pela escolha haver também.
Na realidade nós seremos
Aquilo apenas que escolhemos.
Ser-escolher estão ligados
Intimamente: um ser, dois lados.
A escolha é forma de mostrares
Quem és deveras entre pares.
176 - Misturam
Não se amando loucamente,
Não se misturam nem colam.
Ao não colar-se, evidente,
É que o eu que tanto empolam
Não reduzem nem anulam.
Ao não reduzir o eu,
Logo ali não acumulam
Expectativas de seu
De um do outro receber
O que um eu já reduzido
Dar não consegue a quenquer:
Ninguém ser desiludido.
Como não se desiludem,
Já não ficarão carentes.
Como à carência não grudem,
Não esperam, entrementes.
Sem espera, não exigem
Receber nada que esperam.
Não exigindo, corrigem,
Não discutem, cooperam.
Ora, como não discutem,
Nunca então se distanciam.
Não distantes, eis que incutem:
- Nunca se separariam.
Eis como pode um casal
Unir-se vida adiante
Sem ter um laço ideal
Mas sendo gratificante.
177 - Atrair
O maior de nossos erros
Que vai atrair doença
É a falta de cume e cerros
De amor-próprio que convença,
Daquele amor verdadeiro
Que me acolhe tal qual sou,
No monte e desfiladeiro
Que me listo e donde vou
No topo das prioridades
Pôr-me, a levar-me a escolher
O que reflicta as verdades
Do que sou ao querer ser.
Não é isto o que acontece,
Nós agimos pelo medo,
É escolha do que apetece
A outrem que o quer de cedo,
Ou que as religiões mandam.
Andamos sempre a pensar
Nos outros, em como é que andam,
A viver em seu lugar,
Não as vidas que são nossas.
Focalizamo-nos fora,
A imitar sempre outras bossas,
Exemplar onde outrem mora.
Ora, imitar não é ser,
Ser dá muito mais trabalho,
À lógica a obedecer
Do que sou neste meu galho,
Do que sinto e ser intuo.
Ser é mais desconfortável
Que corresponder em duo
Ao que espere outrem, afável.
E que os outros correspondam
Esperar mais fácil é
Que compreender o que mondam,
O que a escolha põe de pé.
E custa mais defender
O que tua escolha enliça,
Consonante com teu ser,
Que ser na maré cortiça.
178 - Espelho
Quando alguém quer o melhor,
Se a outrem o melhor der,
O melhor que de si for
Vai-lhe o outro devolver.
Espelho da vida à solta,
O que além vai sempre volta.
Se uma pessoa quiser
Bem sucedida no afecto
Por uma vez lograr ser,
Cruzará neste trajecto
Com a leira sexual,
Ser arroteia e moral.
Um orgasmo é eternidade
Na matéria a semear-se,
Lá em cima capacidade
De estar e, sem que se esgarce,
Cá em baixo andar radicado,
Simultâneo, deste lado.
Desbloqueio da energia
A embeber-nos divinal,
É romper uma outra via,
Abertura do canal
Do lado de cá da vida
Para o que de além convida.
Êxtase em meditação,
Pode também ocorrer
Num orgasmo em comunhão,
Comportas a se romper.
Há quem vislumbre ali luzes,
O céu a que te conduzes
A acontecer, já liberto,
A conexão dos dois mundos.
É o princípio, o mapa aberto,
Da viagem com pés fecundos.
Aberto o canal, que fácil
Volitar em voo grácil!
179 - Conscientes
Do amor e do ódio o dual,
Quando não for superado,
Não é nunca o ideal.
O ideal é que o casal,
Conscientes ambos do fado,
De quem são, de seus limites,
Se apaixonem loucamente,
A produzir, nos palpites,
Pura energia, ambos quites
Ao cruzar todo o presente.
Quando juntos, tudo é intenso,
Porém, quando separados,
Cada qual, com todo o senso,
Reserva um tempo que é denso,
Para aos sonhos dar cuidados.
Quando juntos a estar voltam
Tr