QUARTO TROVÁRIO
A REGRA RESPEITANDO DO QUE A NUNCA ANULA
Escolha ao acaso um número entre 371 e 491, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
371 - A regra respeitando do que a nunca anula
A regra respeitando do que a nunca anula,
A norma e lei captando, a poesia assenta
Em verso regular o que ao seu ritmo bula
E rima a rima vai o que o licor cumula
Da vida destilando, em margens onde o aventa.
Determinada a vida como o poema aqui,
Vão ambos passo a passo caminhando a par,
Os versos ilustrando quão liberto vi
Tudo aquilo que firme o pé no chão pousar.
Pardal que lança o voo no chão pisa breve
Para tomar balanço no que o bem segura
E só depois então as asas solta leve.
Tal do dever a norma que a poesia augura
Que em chão firme a meus pés traça eficaz figura.
372 - Fútil
Nunca o homem corrompido
Foi de o autêntico ter
Mas do querer desmedido
Do falso e fútil que houver.
Nunca um povo desvirtuado
Foi de trigo haurir nem fruta,
De ar puro haver respirado,
De arte ou de beleza enxuta,
Mas de oiro e pedras preciosas
Ter, mais súbditos, poder
De reputações brumosas,
De alto andar sem merecer.
Nunca o homem corrompido
Foi de o autêntico ter
Mas do querer desmedido
Do falso e fútil que houver.
373 - Ocasião
Tem de espírito abertura,
Que quem sorte nunca tem
Perde a ocasião segura
Que cada dia contém,
Pois se ocupa em demasia
À procura doutras metas.
O sortudo é quem confia
No que lá está, segue as setas,
Não se limita à procura
Do que quer: quer o que augura.
374 - Saboreia
Saboreia o lado bom!
Como é que encaras a sorte
E como enfrentas o azar?
De tua emoção o tom
Segue do atleta o recorte
Que mais sente triunfar
De bronze com a medalha
Que se a de prata lhe calha,
Só porque nesta ele sente
Que com melhor desempenho
Ganharia acaso a de oiro,
Enquanto a de bronze à mente
Antes lhe evoca o desenho
De a perder, se com desdoiro
Se houvera desempenhado
No desafio enfrentado?
Então se inverte a alegria
Que dos factos adviria.
E o melhor é bem pior
Para feliz te supor.
É o poder de imaginar
O que pudera ocorrer,
Dos eventos em lugar
Do que mesmo acontecer!
Aquele que tem má sorte
Cuida, perante um assalto,
Que hora mais aziaga e forte
Lhe impingiu tal sobressalto,
Enquanto sempre o sortudo
Pondera que bem pior
Poderia o azar mudo
Acabar por vir-lhe impor,
Poderia ali matá-lo,
Feri-lo, incapacitá-lo…
Tal tipo de pensamento
Fá-lo sentir bem melhor,
De alta esperança fermento,
De vida feliz factor.
A sorte não cai do céu,
Cria-la tu do que é teu.
375 - Divergirem
Que importa língua e costumes
Divergirem? Não são nada
Se os objectivos que assumes
Abrem para a mesma estrada
E se nosso coração
Anda aberto a todo o chão.
376 - Desejo
Quando existir um segredo,
Guarda-o, sejas fraco ou forte.
Existe um desejo tredo
De lhe confiar a sorte
A um confidente, a um amigo,
De partilhar-lhe a tristeza
Ou a alegria a que abrigo
Dê, naquilo que ele reza.
Se o não preservas, o peso
Dele aumenta e pode acaso
Devir, para o nele preso,
Insuportável a prazo.
Acabam por esmagá-lo
As tenazes deste abalo.
377 - Atribuir
Não podes tanta importância
Nunca atribuir a ninguém,
Que ninguém a manigância
De desagradar-te tem
Para contigo sequer:
É uma maneira de ser.
Cuidas sempre que os demais
Se andam referindo a ti,
Mas assim não é jamais:
Deambulam por ali…
378 - Quase
Quase tudo o que aprendemos,
Aprendemos do que ouvimos,
Mas só um quarto é que absorvemos
Do que ouvimos cá nos cimos.
Leva os mais a partilhar
Mais de seus conhecimentos
E o que cada te contar
Ouve a todos os momentos.
Deixa-os acabar as frases,
Já que interromper atenta
Contra ouvirmos e o que fazes
É matar o que te aumenta.
Doutrem completar juízos,
Perguntar em demasia,
Cala de quem fala avisos,
Perturba o trilho que hauria.
Outros actos não operes
Ao mesmo tempo que escutas,
Que, se ao mesmo tempo leres,
Colhes novas diminutas
E ao teu interlocutor
Ainda acabas ofendendo.
Depois narra-lhe o valor
Que trouxe a teu dividendo,
Que os mais dão-te mais ideias
Se puderem confiar
Que eco tiveram sem peias
Em teu viver e sonhar.
379 - Antídoto
Arte é viver o momento,
Antídoto contra o stresse
Auto-infligido no intento
De o tempo haurir que falece,
Tirar prazer e fruir
Cada instante e actividade,
Em lugar de perseguir
Mil coisas em cada idade,
Em vez de constantemente
Nós andarmos a penar
E o que há-de vir de premente
Nos vermos a antecipar.
380 - Enriquecer
Enriquecer nossas vidas
De coisas simples é um bem
Que fazer em nossas lidas
Podemos, que bem convém.
Perigo maior reside
Nesta pressa de saltar
A fasquia que preside
Ao cume que me quis dar,
Esquecendo, no trajecto,
Que o topo da meta ansiada
Tem por cima um baixo tecto,
Vital fonte limitada.
381 - Verdadeira
A verdadeira pergunta
É que preço é que dispostos
A pagar pelo que junta
Dinheiro estamos, que postos
É que lhe queremos dar.
O luxo de hoje reside
No que hoje anda a rarear:
Natureza que convide
À comunhão, lentidão
Que todos reivindicamos,
A calma meditação,
Ócio que jamais logramos,
Preferir a liberdade
Ao conforto e retornar
À raiz da identidade,
Ao fundo que é nuclear…
Tudo em vez de acumular
Dinheiro, objectos sem fim,
Muro de engano a falhar
Contra a morte e a dor em mim.
382 - Lidar
A maneira de lidar
Com o stresse não é ir
Para umas termas nadar,
Para a paisagem fugir.
Abordagens deste teor
Muito pouco contribuem
Para acalmar o furor,
Descontrair os que actuem.
Ao invés, conhecimento
Tomar de que a vida é cheia
De tensões, cada momento,
Porque é vida volta e meia,
É o que primeiro devemos.
E então devemos lidar
Com isto que é quanto temos:
Tal foi sempre o nosso obrar.
Vamos, pois, respirar fundo,
Enfrentar a realidade,
Conhecendo a sério o mundo
E a nós nele de verdade.
383 - Concha
É uma concha o adolescente,
Abre apenas um instante,
A alimentar o presente
Ou jogar lixo adiante,
E logo dentro se encerra
Da concha outra vez fechada.
Se perto, quando descerra,
Se encontra alguém da fachada,
Tem hipótese de ver
Algo que é deveras belo
No interior que surpreender.
Tem é de estar lá, singelo.
384 - Cura
Qualquer cura é conseguida
Através duma mudança,
Duma mutação querida.
E ninguém pode fazer
Noutrem a que outrem alcança.
Compete-lhe empreender:
Ninguém, pois, pode mudar,
Mudar em nosso lugar.
A doença pode ser vista
Como estímulo ou desastre,
Partida na nova pista
Que a oportunidade encastre
Em muda fundamental,
Para a vida, no final,
Poder conter mais sentido
Que por nós seja vivido.
Mesmo em fase terminal
De doença, decisões
Há quem tome que, afinal,
Em outras ocasiões,
Da saúde ao desfrutar,
Era incapaz de tomar.
385 - Eliminar
Eliminar o exterior
Abuso sobre a criança
Primeiro quer o interior
Ver se eliminar se alcança
Naquele que a vitimar,
- Ou cura não tem lugar.
386 - Curamos
A criança interior
Curamos, antes de mais,
Reconhecendo o que for.
Descobrindo-lhe os sinais,
Que muitas necessidades
De amor, orientação,
Respeito pelas verdades,
Segurança, comunhão,
Quando nós fomos crianças,
Nunca foram satisfeitas.
Isto mostra, quando o alcanças,
Estas crianças atreitas
A um estado de ansiedade,
Medo, raiva, desespero,
De vergonha em toda a idade,
Tolhendo o adulto que quero.
Puxo, após, cá para fora
Tudo o que ao longo da vida,
De sobrevivência escora,
Foi a matéria escondida.
Sinto quanto tudo dói,
Acaso mais do que cria.
Nisto a cura se constrói
Lentamente, dia a dia.
Quando uma carênca-base,
Própria de qualquer humano,
Por insatisfeita, abrase,
É o abuso que dimano
Relativamente a mim
E aos outros. Crio problemas
Em qualquer área, sem fim,
Da vida a que perco os lemas.
387 - Trabalho
O trabalho de encontrar
E conhecer a carência
Da criança interior,
Só o próprio o pode levar
A cabo, pela evidência
De ser de si o senhor:
Só ele ocupa o lugar
De a poder alimentar.
Não adianta procurar
Quem lhe der aquele amor
Que em criança jamais teve,
De que adulto precisar
No desespero e na dor.
Não adianta querer breve
Quem da criança tome conta
Que o habita e que desconta
Porque dela se envergonha,
Hoje que é um adulto cheio
De responsabilidades.
Nem importa que se ponha
A ajudar outras, no meio,
Vítimas de atrocidades,
Que não a própria, inviolável:
- Desta só é o responsável.
388 - Pequenos
Uma criança magoada
Existe dentro em nós todos.
Que, em pequenos, a jornada
Feriu-nos de muitos modos
Nossa sensibilidade,
Violentada pelos pais,
Embora não por vontade,
Que fizeram, como tais,
O melhor que conseguiam.
É que em norma eles também
Sempre de trás já viriam
Com a criança que têm
Profundamente magoada.
E é tal magoada criança
Que lhes vai, duma enfiada,
Os filhos que cada alcança
Educar logo a seguir,
Repetindo os mesmos erros.
Ou acordo do que vir
E tento arrancar a ferros
Este cancro hereditário
Que nos dana cada dia,
Ou acabo a agir, primário,
Como meu pai agiria.
Esta criança interior
Que cá dentro está magoada
Interfere em quanto for
O adulto gesto na estrada.
389 - Porto
Só andando devagar
É que irei reconhecendo
Onde se pode encontrar
O que deveras pretendo
Como meu porto de abrigo,
Onde me furte ao perigo.
Então é que irei podendo
Inteiro ali aportar.
Só deste modo é que entendo
O que deverei deixar
Pelo caminho que sigo,
Fardos maus a que me ligo.
Nunca nenhum, porém, sendo
Daqueles que, ao mal julgar,
Como inúteis os fui vendo,
Quando serão, em lugar,
Imprescindíveis comigo
No caminhar que prossigo.
390 - Maneiras
Há maneiras de pensar,
De falar como de agir
Que bem ajudam a estar
Connosco, o mundo, o porvir…
Outras há, de rumo vário,
Que dão o efeito contrário.
E assim é, quer nós tenhamos
Consciência disto, quer não.
Mas só conscientes ganhamos
O poder de ter à mão
Os efeitos positivos,
Anulando os negativos.
É a consciência em crivo a peça
Com que em mim tudo esclareça.
Agora e aqui podemos
Decidir ficar melhor:
O que ocorre transmudemos
Por mais rendível pendor.
Se sorrirmos para a vida,
Mais sorridente revida.
E, quando sou positivo,
Torno o mundo inteiro vivo.
391 - Física
Uma física doença
Que me obrigue a ficar quieto
Oferta a oportunidade
De encontrar-me sem detença
Comigo, sob o meu tecto,
Estimula a faculdade
De a doença subjacente
Vir a curar de que ainda
Me não tinha apercebido.
Entender o que é doente,
Tal informação benvinda
Permite o gesto medido
Duma atitude interior
Que nos leva a reagir
De forma mais eficaz.
A cura que é superior
É transmutação a vir
De algo na vida capaz
De encontrar a causa funda
Que às outras for subjacente.
O que curar mais importa
Não é o sintoma que abunda
Mas o fundo em que ele assente,
A raiz que lhe abre a porta.
392 - Aprendendo
Aprendendo a valorar
Tudo quanto em nós é força
E, ao invés, a desprezar
A fraqueza que a distorça,
Sem que nos apercebamos
De que, em aperfeiçoamento
Embora sempre estejamos
Dum ilimitado intento,
Somos entes imperfeitos,
Então não vemos o facto.
Não assumindo os defeitos,
Deles não olhando o impacto,
Inseguranças e medos,
As vergonhas e os falhanços,
Partem-nos ao meio os credos
E não ficamos nos lanços
Inteiros, no que operemos,
Antes desequilibrados.
De nós parte se neguemos,
São-nos momentos negados,
No patim em que nos pomos,
De ser aquilo que somos.
393 - Sofrendo
Primeiro, o que faz sofrer
Há-de ser sempre a mudança.
Depois, sofrendo, tender
Só connosco a ter fiança.
Primeiro grau a aceitar
Sofrimento inevitável
A parte é descortinar
Em que eu for o responsável.
Nunca me considerar
A vítima da injustiça
Ou engano, nem culpar
Os outros do que me enguiça.
A responsabilidade
Não atribuir a terceiros,
Embora a fatalidade
Me tolha meus bens cimeiros.
Sentimento de revolta
Não traz qualquer benefício
E reforça, quando à solta,
De sofrer qualquer resquício.
394 - Contrário
Ao contrário do costume
Que é dizer, quando da dor:
"És forte, esta força assume
Até ser de ti senhor!",
O que nos pode valer
É de frente o pobre real
Olhar que nos há-de ser
Difícil de ver tal qual,
Isto de que somos fracos,
Vulneráveis, limitados.
Ao assumir estes cacos
A cada momento dados
É que posso ir construindo
Um chão realmente chão,
E, a partir dele, expandindo
Meu ser sem perder-me em vão
E sem ficar dependente
Do que vier do exterior.
Então interiormente
Em nós algo vem-se impor
Que de vez nos unifica,
Uma paz a que aceder
Quando em redor pontifica
Toda uma guerra qualquer,
Alguém firme a nosso lado,
Sempre, sempre a acompanhar,
Que nos ama sem enfado,
Firme em nós a acreditar.
Este alguém único é um ente
Que na maior solidão
A mim sempre está presente
Da morte até na ocasião:
- Alguém com que fico a sós,
Um tal alguém somos nós.
395 - Embate
Cada embate superiores
Nos torna e Deus só nos dá
O que nós temos humores
Para suportar por cá.
A grandes ou a pequenos
Tal é a lei: nem mais nem menos.
Deveremos ficar gratos
Por Ele nos enviar
Estes eventos cordatos.
É o modo de Ele lembrar
Que está lá em cima velando
Por livres irmos chegando.
396 - Aprender
Um homem comum precisa
De aprender emoções puras,
As que um belo jardim visa,
Dum mar, duma flor finuras…
Este senso humano deve
Preservar-me a todo o custo,
A sobrevivência inscreve
Isto a fogo em nosso busto.
Cada um de nós traz dentro
De seu íntimo um jardim.
Quando no interior me adentro
É que visível confim
Verei que devo torná-lo:
Tem de passar todo o ano
A ser, para onde abalo,
Meu ambiente quotidiano.
397 - Irrelevante
Não há nada que fazer
Da vida a não ser vivê-la
E tudo o que se fizer
É irrelevante esparrela.
E, contudo, é o que é importante
Operar vida adiante.
398 - Difícil
Tão difícil admitir
É sempre que estou errado!
Pedir desculpa, a seguir,
É a minha chaga do lado.
De sempre, ao longo das eras,
Mais fácil foi se esmurrar,
Caluniar-se deveras,
Disparar, bombardear
Ou não se falar de vez,
Do que desculpa pedir.
Como custa o entremez
Deste ego meu reduzir!
399 - Miúdos
Aos miúdos concessões
Nunca faças graduais,
Que uma a uma dão montões,
Não fica ao fim nada mais.
Lembra-te de que eles podem
Choramingar uma hora,
Mas passa-lhes, que sacodem
A birra após, sem demora.
Promete menos, prudente,
Não olhes ao que outros deram,
E surpreende-os, de repente:
Dá-lhes mais do que o que esperam.
400 - Aceitas
Quando aceitas que não és,
Que não tens e que não podes,
Que não te aguentas nos pés,
Que força não vês que engodes
(Tua fortaleza toda
Apenas é fantasia),
- Cantas, na altura, uma coda
Que és tu mesmo em harmonia:
Estarás a conciliar
Força que em ti se engolfar,
Que de ti virá, do mundo
E do Cosmos mais profundo.
401 - Dedicas
Se outrem a tornar feliz
Te dedicas, vais também
Bons cuidados de raiz
Atrair que te convêm.
Mas relembra a precaução:
Nunca te dediques, não,
A qualquer um totalmente,
De ti próprio prescindindo.
A outrem dar-te é premente
Mas tens de auscultar, te ouvindo,
De que precisas, ao ser,
E de lograr receber.
402 - Recuso
Quando o fracasso me esgota,
Esgoto minha energia
Ao resistir, se esta brota
De mudar por outra via,
Quando laços sinto e nós
Que podem ser diferentes
Do que vem de pais e avós,
Do que ensinarão as gentes,
Quando descubro que a vida
Não se pode resumir
À lei pré-estabelecida,
Cadeia a nos oprimir.
Se resisto ao sentimento,
No mundo que me rodeia,
De que não posso ir no vento,
É urgente mudar-lhe a teia.
Quando o fracasso me esgota,
Esgoto minha energia
Ao resistir, se esta brota
De mudar por outra via.
403 - Camadas
Nós somos como a cebola
Cheios de camadas densas,
Sobreposições em bola
De vidas de antanho, tensas
De emoções mal resolvidas,
Na energia de hoje urdidas.
É natural que sintamos
Numa altura o medo duma,
Noutra, a raiva despejamos
Doutra que a tal se resuma…
- E o que importa é descascar
O que o remo nos travar.
404 - Escolher
Escolher é ser,
Que escolhendo é que és.
E ser, em quenquer,
Sem medo nos pés
É viver presente
Caminhando em frente.
Existir sem medo
Requer enfrentá-lo.
Se o enfrentar, cedo,
Para meu regalo,
Me liberto dele,
Nunca mais me impele.
Se já não há medo,
Sou eu, actual,
A mim mesmo acedo,
Presente, integral,
Bem como à missão
E ponho-a em função.
Ao eu actual
Logrando aceder,
Consigo o fanal
De como ao fim ser
E, por conseguinte,
Da escolha seguinte.
Círculo perfeito,
Tudo aqui se encaixa
Se tomar a peito
Respeitar a faixa
Do que a natureza
Em cada qual preza.
405 - Prendas
Quando as prendas da vida recebidas
Permanente colocas ao dispor
É a maior prova de que as tens delidas,
Não vives apegado a seu fulgor,
Apenas são para usufruto teu.
Medo não tens de acaso as ir perder,
Que simplesmente nunca te ocorreu
Tomá-las para ti, atar sequer.
Teu ego não deixaste nunca entrar
O erro de serem tuas a criar.
406 - Fragilizas-te
Ao dar atenção ao medo,
Ao aceitá-lo, então tu
Fragilizas-te de vez.
Acolhê-la, tarde ou cedo,
À fraqueza que é tabu,
Porém com a robustez
Da força em plena harmonia,
- Eis a meta principal
Desta na terra estadia
De que és sempre o actor fatal.
407 - Dor
A dor que importa aceitar
É a dor de qualquer das almas
Que a separação causar,
A que a paz destrói e as calmas,
Só pelo facto de o eu
Não estar jamais completo,
Na unidade o que é de seu
Não viver, sempre sem tecto,
Tendo de permanecer
Neste mundo de energias
Duais a se combater,
Tão difícil de harmonias.
É a dor do ser verdadeiro
Que o faz sentir inseguro,
Rejeitado num sendeiro
Sem fim aprazível puro.
Esta dor que é de aceitar
É a que é deveras sentida.
Detrás vem, por dentro a andar,
Desde sempre em nós sofrida.
408 - Aberto
Quem por si mesmo escolher,
Aparte do que ele escolhe,
Sempre aberto se manter
Há-de ao novo e nele o acolhe,
As inéditas versões,
Frestas de novas visões.
Abre-te, portanto, ao novo,
Aposta no inusitado,
Do insólito alarga o povo:
Na diferença treinado,
Tens a chave do segredo
Maior que vence o degredo.
Quando os homens aceitarem
Toda a diferença, então,
Opostos a vivenciarem,
Entraram em união
E esta harmonia emergente
Fá-los voar, consequente.
409 - Difícil
Ser é difícil, os mais
Reclamam e não aceitam
Que alguém seja: eles são tais
Que ao ser que são não se ajeitam.
Então, a acalmar, criticam
E de má consciência ficam.
Mas a alegria interior
Que em ti próprio vivencias
Sempre que te vais propor
Escolher por ti teus dias,
Viver em serenidade
Com peito aberto, à vontade,
E em constante mutação
Para devires melhor,
É uma mágica emoção
Com o tamanho e vigor
De bem mais de mil montanhas
Cheias de fúrias e sanhas.
Nunca mais vais depender,
Nunca mais irás achar
Que estás errado e quenquer
Te há-de um dia castigar.
Rumo ao Ser não existe erro,
É escapar sempre ao desterro.
410 - Utilizais
Como utilizais o julgamento
Sempre e para tudo, ao deparar
Com quaisquer opostos logo o evento
O pendor da escolha vai armar:
Por um ou por outro, nunca os dois.
Quando a verdadeira experiência
De ser na matéria quer depois
Que se conciliem na vivência
Todos os opostos que nos tecem.
A escolher, portanto, ambos escolho,
Um mais outro assim, que os dois merecem,
Quer se simultâneos os recolho,
Quer um após outro, diferidos.
O que nunca devo fazer, nunca,
É julgar e achar que um dos sentidos
É bom, outro mau, que o todo trunca.
É que o rejeitado irá voltar
Em forma de perda a me atacar.
411 - Acreditas
É teu ego o responsável
Por tua teia de crenças
Que acreditas que é fiável.
Quem crer em certas sentenças,
Como em ter um objectivo
E dever lutar por ele,
Ou em que o choro é motivo
Dos fracos que se repele,
Nunca deixa entrar a luz.
Crê que é retrógrada ideia
Deixar fluir, como induz
Que o é vivenciar bem cheia
Toda a emoção, mesmo triste.
Contudo, apenas assim
A emoção em pleno existe
E o limite esgota, enfim.
Como tudo o que ao limite
Chega se vira ao contrário,
A tristeza tem desquite,
Tem logo ali fim sumário.
Começamos a atrair
Cada vez mais, dia a dia,
O que fizer reflorir
Em todos nós a alegria.
412 - Sofrer
Para sofrer não veio ao mundo o homem,
Também não veio para à dor fugir.
Se a dor está noutro lugar, que a tomem,
Ir lá buscá-la já ninguém deve ir
Mas, se aparece por aqui, terás
De a enfrentar sempre a doer, até
Que por fim passe: deixa doer, verás
Que mais depressa lhe trocaste o pé.
Depois que embora ela se vai de vez,
Enquanto estás a te livrar dos medos,
Vai construindo a tua própria tez,
Felicidade de que tens segredos.
Não veio o homem, realmente, não,
Do paraíso que jamais se viu:
Ao trabalhar-se deste modo, então,
É que lá vai se dirigindo o rio.
A prometida terra é aquela feita
Pelas mãos nossas, que se aqui constrói
Quando se encara cada qual e aceita
A decisão de ser feliz que o mói.
413 - Saudável
És mui saudável, trabalhas
E não paras um minuto,
Não tens tempo em tuas calhas
De teu, só para o produto.
Teus pendores mais secretos
Ignora-los junto ao canto.
Todavia, são teus tectos
Que energizam, entretanto.
Então atrais a doença.
Pode ser apenas susto,
Mas o intuito da sentença
Igual é, que importa o custo?
Só mudou a intensidade,
O intuito é de te parar,
Entender que a intimidade
Tens de a ver, lá dentro olhar
Para os mais íntimos medos,
Passar por eles e quando
Insuportáveis degredos
Forem, para o céu olhando,
Entrega-te por inteiro.
Não apenas o problema,
Não só o medo passageiro,
A ti próprio como tema.
Mas sempre o homem revida,
Continua a pretender
Dominar a própria vida:
- Eis o bastião a ceder.
414 - Solidão
A solidão não existe,
É apenas medo do eu,
De mim próprio, que persiste
Do abismo a brotar que é meu.
Há tantos séculos anda
O ser humano de banda,
Caranguejo atento aos mais,
Ao que dizem, ao que pensam,
Ao que julgam dos sinais,
Ao que acham ou não que é bênção,
Que o rumo perdeu do centro,
Hábito de olhar bem dentro,