QUARTO  TROVÁRIO

 

 

       A  REGRA  RESPEITANDO  DO  QUE  A  NUNCA  ANULA

 

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 371 e 491, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

                                             371 - A regra respeitando do que a nunca anula

 

                                             A regra respeitando do que a nunca anula,

                                             A norma e lei captando, a poesia assenta

                                             Em verso regular o que ao seu ritmo bula

                                             E rima a rima vai o que o licor cumula

                                             Da vida destilando, em margens onde o aventa.

 

                                             Determinada a vida como o poema aqui,

                                             Vão ambos passo a passo caminhando a par,

                                             Os versos ilustrando quão liberto vi

                                             Tudo aquilo que firme o pé no chão pousar.

 

                                             Pardal que lança o voo no chão pisa breve

                                             Para tomar balanço no que o bem segura

                                             E só depois então as asas solta leve.

 

                                             Tal do dever a norma que a poesia augura

                                             Que em chão firme a meus pés traça eficaz figura.

 

 


372 - Fútil

 

Nunca o homem corrompido

Foi de o autêntico ter

Mas do querer desmedido

Do falso e fútil que houver.

 

Nunca um povo desvirtuado

Foi de trigo haurir nem fruta,

De ar puro haver respirado,

De arte ou de beleza enxuta,

 

Mas de oiro e pedras preciosas

Ter, mais súbditos, poder

De reputações brumosas,

De alto andar sem merecer.

 

Nunca o homem corrompido

Foi de o autêntico ter

Mas do querer desmedido

Do falso e fútil que houver.

 

 

373 - Ocasião

 

Tem de espírito abertura,

Que quem sorte nunca tem

Perde a ocasião segura

Que cada dia contém,

 

Pois se ocupa em demasia

À procura doutras metas.

O sortudo é quem confia

No que lá está, segue as setas,

 

Não se limita à procura

Do que quer: quer o que augura.

 

 

374 - Saboreia

 

Saboreia o lado bom!

Como é que encaras a sorte

E como enfrentas o azar?

De tua emoção o tom

Segue do atleta o recorte

Que mais sente triunfar

De bronze com a medalha

Que se a de prata lhe calha,

 

Só porque nesta ele sente

Que com melhor desempenho

Ganharia acaso a de oiro,

Enquanto a de bronze à mente

Antes lhe evoca o desenho

De a perder, se com desdoiro

Se houvera desempenhado

No desafio enfrentado?

 

Então se inverte a alegria

Que dos factos adviria.

 

E o melhor é bem pior

Para feliz te supor.

 

É o poder de imaginar

O que pudera ocorrer,

Dos eventos em lugar

Do que mesmo acontecer!

 

Aquele que tem má sorte

Cuida, perante um assalto,

Que hora mais aziaga e forte

Lhe impingiu tal sobressalto,

 

Enquanto sempre o sortudo

Pondera que bem pior

Poderia o azar mudo

Acabar por vir-lhe impor,

Poderia ali matá-lo,

Feri-lo, incapacitá-lo…

 

Tal tipo de pensamento

Fá-lo sentir bem melhor,

De alta esperança fermento,

De vida feliz factor.

 

A sorte não cai do céu,

Cria-la tu do que é teu.

 

 

375 - Divergirem

 

Que importa língua e costumes

Divergirem? Não são nada

Se os objectivos que assumes

Abrem para a mesma estrada

E se nosso coração

Anda aberto a todo o chão.

 

 

376 - Desejo

 

Quando existir um segredo,

Guarda-o, sejas fraco ou forte.

Existe um desejo tredo

De lhe confiar a sorte

 

A um confidente, a um amigo,

De partilhar-lhe a tristeza

Ou a alegria a que abrigo

Dê, naquilo que ele reza.

 

Se o não preservas, o peso

Dele aumenta e pode acaso

Devir, para o nele preso,

Insuportável a prazo.

 

Acabam por esmagá-lo

As tenazes deste abalo.

 

 

377 - Atribuir

 

Não podes tanta importância

Nunca atribuir a ninguém,

Que ninguém a manigância

De desagradar-te tem

 

Para contigo sequer:

É uma maneira de ser.

 

Cuidas sempre que os demais

Se andam referindo a ti,

Mas assim não é jamais:

Deambulam por ali…

 

 

378 - Quase

 

Quase tudo o que aprendemos,

Aprendemos do que ouvimos,

Mas só um quarto é que absorvemos

Do que ouvimos cá nos cimos.

 

Leva os mais a partilhar

Mais de seus conhecimentos

E o que cada te contar

Ouve a todos os momentos.

 

Deixa-os acabar as frases,

Já que interromper atenta

Contra ouvirmos e o que fazes

É matar o que te aumenta.

 

Doutrem completar juízos,

Perguntar em demasia,

Cala de quem fala avisos,

Perturba o trilho que hauria.

Outros actos não operes

Ao mesmo tempo que escutas,

Que, se ao mesmo tempo leres,

Colhes novas diminutas

 

E ao teu interlocutor

Ainda acabas ofendendo.

Depois narra-lhe o valor

Que trouxe a teu dividendo,

 

Que os mais dão-te mais ideias

Se puderem confiar

Que eco tiveram sem peias

Em teu viver e sonhar.

 

 

379 - Antídoto

 

Arte é viver o momento,

Antídoto contra o stresse

Auto-infligido no intento

De o tempo haurir que falece,

 

Tirar prazer e fruir

Cada instante e actividade,

Em lugar de perseguir

Mil coisas em cada idade,

 

Em vez de constantemente

Nós andarmos a penar

E o que há-de vir de premente

Nos vermos a antecipar.

 

 

380 - Enriquecer

 

Enriquecer nossas vidas

De coisas simples é um bem

Que fazer em nossas lidas

Podemos, que bem convém.

 

Perigo maior reside

Nesta pressa de saltar

A fasquia que preside

Ao cume que me quis dar,

 

Esquecendo, no trajecto,

Que o topo da meta ansiada

Tem por cima um baixo tecto,

Vital fonte limitada.

 

 

381 - Verdadeira

 

A verdadeira pergunta

É que preço é que dispostos

A pagar pelo que junta

Dinheiro estamos, que postos

 

É que lhe queremos dar.

O luxo de hoje reside

No que hoje anda a rarear:

Natureza que convide

 

À comunhão, lentidão

Que todos reivindicamos,

A calma meditação,

Ócio que jamais logramos,

 

Preferir a liberdade

Ao conforto e retornar

À raiz da identidade,

Ao fundo que é nuclear…

 

Tudo em vez de acumular

Dinheiro, objectos sem fim,

Muro de engano a falhar

Contra a morte e a dor em mim.

 

 

382 - Lidar

 

A maneira de lidar

Com o stresse não é ir

Para umas termas nadar,

Para a paisagem fugir.

 

Abordagens deste teor

Muito pouco contribuem

Para acalmar o furor,

Descontrair os que actuem.

 

Ao invés, conhecimento

Tomar de que a vida é cheia

De tensões, cada momento,

Porque é vida volta e meia,

 

É o que primeiro devemos.

E então devemos lidar

Com isto que é quanto temos:

Tal foi sempre o nosso obrar.

 

Vamos, pois, respirar fundo,

Enfrentar a realidade,

Conhecendo a sério o mundo

E a nós nele de verdade.

 

 

383 - Concha

 

É uma concha o adolescente,

Abre apenas um instante,

A alimentar o presente

Ou jogar lixo adiante,

 

E logo dentro se encerra

Da concha outra vez fechada.

Se perto, quando descerra,

Se encontra alguém da fachada,

 

Tem hipótese de ver

Algo que é deveras belo

No interior que surpreender.

Tem é de estar lá, singelo.

 

 

384 - Cura

 

Qualquer cura é conseguida

Através duma mudança,

Duma mutação querida.

E ninguém pode fazer

Noutrem a que outrem alcança.

Compete-lhe empreender:

Ninguém, pois, pode mudar,

Mudar em nosso lugar.

 

A doença pode ser vista

Como estímulo ou desastre,

Partida na nova pista

Que a oportunidade encastre

Em muda fundamental,

Para a vida, no final,

Poder conter mais sentido

Que por nós seja vivido.

 

Mesmo em fase terminal

De doença, decisões

Há quem tome que, afinal,

Em outras ocasiões,

Da saúde ao desfrutar,

Era incapaz de tomar.

 

 

385 - Eliminar

 

Eliminar o exterior

Abuso sobre a criança

Primeiro quer o interior

Ver se eliminar se alcança

Naquele que a vitimar,

- Ou cura não tem lugar.

 

 

386 - Curamos

 

A criança interior

Curamos, antes de mais,

Reconhecendo o que for.

Descobrindo-lhe os sinais,

 

Que muitas necessidades

De amor, orientação,

Respeito pelas verdades,

Segurança, comunhão,

 

Quando nós fomos crianças,

Nunca foram satisfeitas.

Isto mostra, quando o alcanças,

Estas crianças atreitas

 

A um estado de ansiedade,

Medo, raiva, desespero,

De vergonha em toda a idade,

Tolhendo o adulto que quero.

 

Puxo, após, cá para fora

Tudo o que ao longo da vida,

De sobrevivência escora,

Foi a matéria escondida.

 

Sinto quanto tudo dói,

Acaso mais do que cria.

Nisto a cura se constrói

Lentamente, dia a dia.

 

Quando uma carênca-base,

Própria de qualquer humano,

Por insatisfeita, abrase,

É o abuso que dimano

 

Relativamente a mim

E aos outros. Crio problemas

Em qualquer área, sem fim,

Da vida a que perco os lemas.

 

 

387 - Trabalho

 

O trabalho de encontrar

E conhecer a carência

Da criança interior,

Só o próprio o pode levar

A cabo, pela evidência

De ser de si o senhor:

Só ele ocupa o lugar

De a poder alimentar.

 

Não adianta procurar

Quem lhe der aquele amor

Que em criança jamais teve,

De que adulto precisar

No desespero e na dor.

Não adianta querer breve

Quem da criança tome conta

Que o habita e que desconta

 

Porque dela se envergonha,

Hoje que é um adulto cheio

De responsabilidades.

Nem importa que se ponha

A ajudar outras, no meio,

Vítimas de atrocidades,

Que não a própria, inviolável:

- Desta só é o responsável.

 

 

388 - Pequenos

 

Uma criança magoada

Existe dentro em nós todos.

Que, em pequenos, a jornada

Feriu-nos de muitos modos

 

Nossa sensibilidade,

Violentada pelos pais,

Embora não por vontade,

Que fizeram, como tais,

 

O melhor que conseguiam.

É que em norma eles também

Sempre de trás já viriam

Com a criança que têm

 

Profundamente magoada.

E é tal magoada criança

Que lhes vai, duma enfiada,

Os filhos que cada alcança

Educar logo a seguir,

Repetindo os mesmos erros.

Ou acordo do que vir

E tento arrancar a ferros

 

Este cancro hereditário

Que nos dana cada dia,

Ou acabo a agir, primário,

Como meu pai agiria.

 

Esta criança interior

Que cá dentro está magoada

Interfere em quanto for

O adulto gesto na estrada.

 

 

389 - Porto

 

Só andando devagar

É que irei reconhecendo

Onde se pode encontrar

O que deveras pretendo

Como meu porto de abrigo,

Onde me furte ao perigo.

 

Então é que irei podendo

Inteiro ali aportar.

Só deste modo é que entendo

O que deverei deixar

Pelo caminho que sigo,

Fardos maus a que me ligo.

 

Nunca nenhum, porém, sendo

Daqueles que, ao mal julgar,

Como inúteis os fui vendo,

Quando serão, em lugar,

Imprescindíveis comigo

No caminhar que prossigo.

 

 

390 - Maneiras

 

Há maneiras de pensar,

De falar como de agir

Que bem ajudam a estar

Connosco, o mundo, o porvir…

Outras há, de rumo vário,

Que dão o efeito contrário.

 

E assim é, quer nós tenhamos

Consciência disto, quer não.

Mas só conscientes ganhamos

O poder de ter à mão

Os efeitos positivos,

Anulando os negativos.

 

É a consciência em crivo a peça

Com que em mim tudo esclareça.

 

Agora e aqui podemos

Decidir ficar melhor:

O que ocorre transmudemos

Por mais rendível pendor.

Se sorrirmos para a vida,

Mais sorridente revida.

 

E, quando sou positivo,

Torno o mundo inteiro vivo.

 

 

391 - Física

 

Uma física doença

Que me obrigue a ficar quieto

Oferta a oportunidade

De encontrar-me sem detença

Comigo, sob o meu tecto,

Estimula a faculdade

 

De a doença subjacente

Vir a curar de que ainda

Me não tinha apercebido.

Entender o que é doente,

Tal informação benvinda

Permite o gesto medido

 

Duma atitude interior

Que nos leva a reagir

De forma mais eficaz.

A cura que é superior

É transmutação a vir

De algo na vida capaz

 

De encontrar a causa funda

Que às outras for subjacente.

O que curar mais importa

Não é o sintoma que abunda

Mas o fundo em que ele assente,

A raiz que lhe abre a porta.

 

 

392 - Aprendendo

 

Aprendendo a valorar

Tudo quanto em nós é força

E, ao invés, a desprezar

A fraqueza que a distorça,

 

Sem que nos apercebamos

De que, em aperfeiçoamento

Embora sempre estejamos

Dum ilimitado intento,

 

Somos entes imperfeitos,

Então não vemos o facto.

Não assumindo os defeitos,

Deles não olhando o impacto,

 

Inseguranças e medos,

As vergonhas e os falhanços,

Partem-nos ao meio os credos

E não ficamos nos lanços

 

Inteiros, no que operemos,

Antes desequilibrados.

De nós parte se neguemos,

São-nos momentos negados,

 

No patim em que nos pomos,

De ser aquilo que somos.

 

 

393 - Sofrendo

 

Primeiro, o que faz sofrer

Há-de ser sempre a mudança.

Depois, sofrendo, tender

Só connosco a ter fiança.

 

Primeiro grau a aceitar

Sofrimento inevitável

A parte é descortinar

Em que eu for o responsável.

 

Nunca me considerar

A vítima da injustiça

Ou engano, nem culpar

Os outros do que me enguiça.

 

A responsabilidade

Não atribuir a terceiros,

Embora a fatalidade

Me tolha meus bens cimeiros.

 

Sentimento de revolta

Não traz qualquer benefício

E reforça, quando à solta,

De sofrer qualquer resquício.

 

 

394 - Contrário

 

Ao contrário do costume

Que é dizer, quando da dor:

"És forte, esta força assume

Até ser de ti senhor!",

 

O que nos pode valer

É de frente o pobre real

Olhar que nos há-de ser

Difícil de ver tal qual,

 

Isto de que somos fracos,

Vulneráveis, limitados.

Ao assumir estes cacos

A cada momento dados

 

É que posso ir construindo

Um chão realmente chão,

E, a partir dele, expandindo

Meu ser sem perder-me em vão

 

E sem ficar dependente

Do que vier do exterior.

Então interiormente

Em nós algo vem-se impor

 

Que de vez nos unifica,

Uma paz a que aceder

Quando em redor pontifica

Toda uma guerra qualquer,

 

Alguém firme a nosso lado,

Sempre, sempre a acompanhar,

Que nos ama sem enfado,

Firme em nós a acreditar.

 

Este alguém único é um ente

Que na maior solidão

A mim sempre está presente

Da morte até na ocasião:

 

- Alguém com que fico a sós,

Um tal alguém somos nós.

 

 

395 - Embate

 

Cada embate superiores

Nos torna e Deus só nos dá

O que nós temos humores

Para suportar por cá.

A grandes ou a pequenos

Tal é a lei: nem mais nem menos.

 

Deveremos ficar gratos

Por Ele nos enviar

Estes eventos cordatos.

É o modo de Ele lembrar

Que está lá em cima velando

Por livres irmos chegando.

 

 

396 - Aprender

 

Um homem comum precisa

De aprender emoções puras,

As que um belo jardim visa,

Dum mar, duma flor finuras…

 

Este senso humano deve

Preservar-me a todo o custo,

A sobrevivência inscreve

Isto a fogo em nosso busto.

 

Cada um de nós traz dentro

De seu íntimo um jardim.

Quando no interior me adentro

É que visível confim

 

Verei que devo torná-lo:

Tem de passar todo o ano

A ser, para onde abalo,

Meu ambiente quotidiano.

 

 

397 - Irrelevante

 

Não há nada que fazer

Da vida a não ser vivê-la

E tudo o que se fizer

É irrelevante esparrela.

E, contudo, é o que é importante

Operar vida adiante.

 

 

398 - Difícil

 

Tão difícil admitir

É sempre que estou errado!

Pedir desculpa, a seguir,

É a minha chaga do lado.

 

De sempre, ao longo das eras,

Mais fácil foi se esmurrar,

Caluniar-se deveras,

Disparar, bombardear

 

Ou não se falar de vez,

Do que desculpa pedir.

Como custa o entremez

Deste ego meu reduzir!

 

 

399 - Miúdos

 

Aos miúdos concessões

Nunca faças graduais,

Que uma a uma dão montões,

Não fica ao fim nada mais.

 

Lembra-te de que eles podem

Choramingar uma hora,

Mas passa-lhes, que sacodem

A birra após, sem demora.

 

Promete menos, prudente,

Não olhes ao que outros deram,

E surpreende-os, de repente:

Dá-lhes mais do que o que esperam.

 

 

400 - Aceitas

 

Quando aceitas que não és,

Que não tens e que não podes,

Que não te aguentas nos pés,

Que força não vês que engodes

 

(Tua fortaleza toda

Apenas é fantasia),

- Cantas, na altura, uma coda

Que és tu mesmo em harmonia:

 

Estarás a conciliar

Força que em ti se engolfar,

 

Que de ti virá, do mundo

E do Cosmos mais profundo.

 

 

401 - Dedicas

 

Se outrem a tornar feliz

Te dedicas, vais também

Bons cuidados de raiz

Atrair que te convêm.

Mas relembra a precaução:

Nunca te dediques, não,

 

A qualquer um totalmente,

De ti próprio prescindindo.

A outrem dar-te é premente

Mas tens de auscultar, te ouvindo,

De que precisas, ao ser,

E de lograr receber.

 

 

402 - Recuso

 

Quando o fracasso me esgota,

Esgoto minha energia

Ao resistir, se esta brota

De mudar por outra via,

 

Quando laços sinto e nós

Que podem ser diferentes

Do que vem de pais e avós,

Do que ensinarão as gentes,

 

Quando descubro que a vida

Não se pode resumir

À lei pré-estabelecida,

Cadeia a nos oprimir.

 

Se resisto ao sentimento,

No mundo que me rodeia,

De que não posso ir no vento,

É urgente mudar-lhe a teia.

 

Quando o fracasso me esgota,

Esgoto minha energia

Ao resistir, se esta brota

De mudar por outra via.

 

 

403 - Camadas

 

Nós somos como a cebola

Cheios de camadas densas,

Sobreposições em bola

De vidas de antanho, tensas

De emoções mal resolvidas,

Na energia de hoje urdidas.

 

É natural que sintamos

Numa altura o medo duma,

Noutra, a raiva despejamos

Doutra que a tal se resuma…

- E o que importa é descascar

O que o remo nos travar.

 

 

404 - Escolher

 

Escolher é ser,

Que escolhendo é que és.

E ser, em quenquer,

Sem medo nos pés

É viver presente

Caminhando em frente.

 

Existir sem medo

Requer enfrentá-lo.

Se o enfrentar, cedo,

Para meu regalo,

Me liberto dele,

Nunca mais me impele.

 

Se já não há medo,

Sou eu, actual,

A mim mesmo acedo,

Presente, integral,

Bem como à missão

E ponho-a em função.

 

Ao eu actual

Logrando aceder,

Consigo o fanal

De como ao fim ser

E, por conseguinte,

Da escolha seguinte.

 

Círculo perfeito,

Tudo aqui se encaixa

Se tomar a peito

Respeitar a faixa

Do que a natureza

Em cada qual preza.

 

 

405 - Prendas

 

Quando as prendas da vida recebidas

Permanente colocas ao dispor

É a maior prova de que as tens delidas,

Não vives apegado a seu fulgor,

 

Apenas são para usufruto teu.

Medo não tens de acaso as ir perder,

Que simplesmente nunca te ocorreu

Tomá-las para ti, atar sequer.

 

Teu ego não deixaste nunca entrar

O erro de serem tuas a criar.

 

 

406 - Fragilizas-te

 

Ao dar atenção ao medo,

Ao aceitá-lo, então tu

Fragilizas-te de vez.

Acolhê-la, tarde ou cedo,

À fraqueza que é tabu,

Porém com a robustez

 

Da força em plena harmonia,

- Eis a meta principal

Desta na terra estadia

De que és sempre o actor fatal.

 

 

407 - Dor

 

A dor que importa aceitar

É a dor de qualquer das almas

Que a separação causar,

A que a paz destrói e as calmas,

 

Só pelo facto de o eu

Não estar jamais completo,

Na unidade o que é de seu

Não viver, sempre sem tecto,

 

Tendo de permanecer

Neste mundo de energias

Duais a se combater,

Tão difícil de harmonias.

 

É a dor do ser verdadeiro

Que o faz sentir inseguro,

Rejeitado num sendeiro

Sem fim aprazível puro.

 

Esta dor que é de aceitar

É a que é deveras sentida.

Detrás vem, por dentro a andar,

Desde sempre em nós sofrida.

 

 

408 - Aberto

 

Quem por si mesmo escolher,

Aparte do que ele escolhe,

Sempre aberto se manter

Há-de ao novo e nele o acolhe,

As inéditas versões,

Frestas de novas visões.

 

Abre-te, portanto, ao novo,

Aposta no inusitado,

Do insólito alarga o povo:

Na diferença treinado,

Tens a chave do segredo

Maior que vence o degredo.

 

Quando os homens aceitarem

Toda a diferença, então,

Opostos a vivenciarem,

Entraram em união

E esta harmonia emergente

Fá-los voar, consequente.

 

 

409 - Difícil

 

Ser é difícil, os mais

Reclamam e não aceitam

Que alguém seja: eles são tais

Que ao ser que são não se ajeitam.

Então, a acalmar, criticam

E de má consciência ficam.

 

Mas a alegria interior

Que em ti próprio vivencias

Sempre que te vais propor

Escolher por ti teus dias,

Viver em serenidade

Com peito aberto, à vontade,

 

E em constante mutação

Para devires melhor,

É uma mágica emoção

Com o tamanho e vigor

De bem mais de mil montanhas

Cheias de fúrias e sanhas.

 

Nunca mais vais depender,

Nunca mais irás achar

Que estás errado e quenquer

Te há-de um dia castigar.

Rumo ao Ser não existe erro,

É escapar sempre ao desterro.

 

 

410 - Utilizais

 

Como utilizais o julgamento

Sempre e para tudo, ao deparar

Com quaisquer opostos logo o evento

O pendor da escolha vai armar:

 

Por um ou por outro, nunca os dois.

Quando a verdadeira experiência

De ser na matéria quer depois

Que se conciliem na vivência

 

Todos os opostos que nos tecem.

A escolher, portanto, ambos escolho,

Um mais outro assim, que os dois merecem,

Quer se simultâneos os recolho,

 

Quer um após outro, diferidos.

O que nunca devo fazer, nunca,

É julgar e achar que um dos sentidos

É bom, outro mau, que o todo trunca.

 

É que o rejeitado irá voltar

Em forma de perda a me atacar.

 

 

411 - Acreditas

 

É teu ego o responsável

Por tua teia de crenças

Que acreditas que é fiável.

Quem crer em certas sentenças,

 

Como em ter um objectivo

E dever lutar por ele,

Ou em que o choro é motivo

Dos fracos que se repele,

 

Nunca deixa entrar a luz.

Crê que é retrógrada ideia

Deixar fluir, como induz

Que o é vivenciar bem cheia

 

Toda a emoção, mesmo triste.

Contudo, apenas assim

A emoção em pleno existe

E o limite esgota, enfim.

 

Como tudo o que ao limite

Chega se vira ao contrário,

A tristeza tem desquite,

Tem logo ali fim sumário.

 

Começamos a atrair

Cada vez mais, dia a dia,

O que fizer reflorir

Em todos nós a alegria.

 

 

412 - Sofrer

 

Para sofrer não veio ao mundo o homem,

Também não veio para à dor fugir.

Se a dor está noutro lugar, que a tomem,

Ir lá buscá-la já ninguém deve ir

 

Mas, se aparece por aqui, terás

De a enfrentar sempre a doer, até

Que por fim passe: deixa doer, verás

Que mais depressa lhe trocaste o pé.

 

Depois que embora ela se vai de vez,

Enquanto estás a te livrar dos medos,

Vai construindo a tua própria tez,

Felicidade de que tens segredos.

 

Não veio o homem, realmente, não,

Do paraíso que jamais se viu:

Ao trabalhar-se deste modo, então,

É que lá vai se dirigindo o rio.

 

A prometida terra é aquela feita

Pelas mãos nossas, que se aqui constrói

Quando se encara cada qual e aceita

A decisão de ser feliz que o mói.

 

 

413 - Saudável

 

És mui saudável, trabalhas

E não paras um minuto,

Não tens tempo em tuas calhas

De teu, só para o produto.

 

Teus pendores mais secretos

Ignora-los junto ao canto.

Todavia, são teus tectos

Que energizam, entretanto.

 

Então atrais a doença.

Pode ser apenas susto,

Mas o intuito da sentença

Igual é, que importa o custo?

 

Só mudou a intensidade,

O intuito é de te parar,

Entender que a intimidade

Tens de a ver, lá dentro olhar

 

Para os mais íntimos medos,

Passar por eles e quando

Insuportáveis degredos

Forem, para o céu olhando,

 

Entrega-te por inteiro.

Não apenas o problema,

Não só o medo passageiro,

A ti próprio como tema.

 

Mas sempre o homem revida,

Continua a pretender

Dominar a própria vida:

- Eis o bastião a ceder.

 

 

414 - Solidão

 

A solidão não existe,

É apenas medo do eu,

De mim próprio, que persiste

Do abismo a brotar que é meu.

Há tantos séculos anda

O ser humano de banda,

 

Caranguejo atento aos mais,

Ao que dizem, ao que pensam,

Ao que julgam dos sinais,

Ao que acham ou não que é bênção,

Que o rumo perdeu do centro,

Hábito de olhar bem dentro,