QUINTO  TROVÁRIO

 

 

                              PARA  AO  SER  RETORNAR,  À  RAIZ

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número ao acaso entre 492 e 606, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                             492 - Para ao ser retornar, à raiz

 

                                             Para ao ser retornar, à raiz,

                                             Há-de o poema rimar,

                                             Em metros de acaso servis,

                                             Com as margens que nos talham os perfis

                                             De humanidade singular.

 

                                             O poema captura,

                                             À esquina do verso emboscado,

                                             A minha estrutura

                                             E a fenda por onde sangro de lado.

 

                                             Salta de improviso

                                             Sobre a presa

                                             Na métrica irregular e sem aviso

 

                                             Que de nosso imo é a defesa

                                             Na eterna busca falhada de certeza.

 

 


493 - Raças

 

Geneticamente

Não há raças humanas.

Maior é a variabilidade existente

Dentro de qualquer uma de que te ufanas

Do que entre quaisquer dois

Daqueles grupos depois.

 

Não há raças,

Há diferentes desenhos e sinais

Em taças

Dos mesmos cristais.

 

 

494 - Cego

 

Cego investir para a meta

Contra a força dos próprios impulsos

- É triunfar, na dominante calha que me afecta.

As fadas do êxito atam-nos os pulsos,

Quando por elas abençoados:

À deriva dos ventos e das velas,

Querem-nos tão desalmados

E desaustinados

Como elas.

 

 

495 - Colectivos

 

Em termos colectivos não logramos crescer

Senão mui devagar e aos repelões.

É bom revisitar e rever

Estes baldões,

De parto tantas dores

E ais,

Estrebuchamentos transfiguradores

Insurreccionais.

 

Espelhos de nossa condição,

Da estreiteza destas baias,

Ensinam-nos que da vida a ebulição

Não pára, contra tudo e todos,

Viola todas as raias,

Anseio permanente de novos bodos.

 

E, à hora menos aguardada,

Outra convulsão redentora

Nos espera na estrada

Com o recado subentendido e salutar

(Na demora

Onde todo o engano

Hiberna)

De que, para o espírito humano,

Nenhuma ortodoxia que vingar

É eterna.

 

 

496 - Autonomia

 

Uma autonomia contingente,

Liberdade condicionada,

É o homem, em toda a frente.

Se, todavia, os eventos não fada,

Configura-os, contudo.

Perde até, porém, tal vantagem,

Quando, na clivagem,

De ver-se tão miúdo,

Dele próprio descrê.

Então é que os deuses de qualquer fé

Podem tudo.

 

 

497 - Dorme

 

Quanto mais profundamente

Alguém dormir, mais estremunhado

Acorda, surpreendente,

Para a realidade que lhe corra ao lado.

 

Por muito que se esquive,

Ninguém indefinidamente

Entre parêntesis vive.

 

 

498 - Ignora

 

Só acredita no triunfo

Quem ignora a própria condição.

A nossa não joga o trunfo:

É de mortais que para o chão

Raso

Se irão,

A mais curto ou longo prazo.

 

 

499 - Desatar

 

Desatar o nó cego da mente e do coração

De almas obscuras mas almas como as mais,

Ciosas, todavia, da escuridão

Em que asfixiam nos tremedais!

 

Aflitas a todo o momento,

Aspiram à libertação

Sem deveras a desejarem

Em nenhum evento,

De viciadas no desespero

Para alguma vez arejarem.

Com indisfarçável desconfiança

Ouvem aquele que, sincero,

Procura ajudá-las,

A mostrar-lhes como se alcança

A luz fora das valas.

 

Anos e anos de recalcamento

Forjaram nelas uma couraça

Tímida, refechada, esquiva,

Que nenhum vento

Trespassa,

Por mais que insista, em recidiva.

 

Não, nunca as remoço

Libertas das agruras:

Apenas no fundo do poço

Se antolham seguras.

 

 

500 - Espalharam

 

Se alguém não é louco

Mas todos espalharam aos quatro ventos

Que o é, valem de pouco

Dele os protestos: quão mais violentos,

Mais para confirmar servirão

Dos mais a afirmação.

 

Quando como louco alguém é tido,

Todos os actos dele são olhados

Como do louco o sortido,

Os válidos protestos, transmudados

Em negação,

Os medos legítimos, considerados

Paranóia em ebulição,

Os instintos de sobrevivência

Que ninguém represa,

Rotulados, à evidência,

Como mecanismos de defesa.

 

É um beco sem saída:

Quem ali entrou

Sair já não pode, em seguida.

A vida real acabou

Trocada pela fingida.

 

 

501 - Encumeada

 

Dom da democracia

É a multiplicidade:

Ideológica, racial, cultural…

Lenta encumeada que desafia,

Dos longes na profundidade,

O espírito da humanidade

A conquistar do topo o esquivo fanal.

A partir do escuro mundo tribal

Muralhado na uniformidade,

O trilho do múltiplo é a pegada

Sofrida,

Esforçada,

Que trepa à compreensão civilizada

Dum mundo aberto, na totalidade,

Dum mundo à humana medida:

À medida da diversidade.

 

 

502 - Desgraça

 

De ontem o vencido

É de hoje o triunfador.

Desgraça é que o mártir sofrido

Que dava esperança no cárcere da dor,

Fora das grades quando se perfila,

Não logra incuti-la.

 

Dele o carisma,

Derrubado o muro da opressão,

Perde a força e se abisma

Na desilusão.

 

Contrito,

O herói, afinal,

Tomba do pedestal

Do mito

A mero mortal.

 

 

503 - Crimes

 

O que vale aos criminosos

Dos crimes contra a Humanidade

É que da História os passos são morosos

E a tempo nunca chegam de punir

A impunidade.

Mesmo quando condena,

Vem fora de horas a pena,

Prescreveram os crimes e, a seguir,

Já nenhum dos culpados

A penitência pode cumprir

Dos casos julgados.

 

 

504 - Dramático

 

O mais dramático na vida

Dum poeta, dum artista,

É que nunca o aceitarão

A nenhum tal como é nem no que envida:

Todos o querem como os outros são

E apenas isto têm em vista.

 

Esta definitiva solidão

É tudo o que um artista

Conquista

De verdadeira e derradeira

Comunhão

Que, apesar de tudo, subsista.

 

 

505 - Agarrar

 

Tenho o triste vezo

De quanto mais sentir

A vida fugir

Mais me agarrar nela preso.

 

Atingida a hora da rendição,

Perdido o brio,

Em vez da cara erguida ante a fatalidade,

Imploro ao portal, à porta, ao portão

Da ciência, da crendice, da necedade

Por um fio

De ilusão.

 

E lá se vai a dignidade

Vergada fatalmente à podridão.

 

 

506 - Imprevisto

 

Num mundo normalizado,

Pragmático, em que vivemos,

Então o imprevisto às alturas é guindado,

O misterioso atinge extremos.

Quantas vezes a aberração

É o que nos fica à mão!

 

Dos afectos improgramáveis e gratuitos,

Entretanto, a graça

Entre os dedos fortuitos

Nos acode,

Nos congraça

E salvar-nos apenas ela nos pode.

 

E enche-me de imprevisto

Aquilo por que então existo.

 

 

507 - Velhice

 

Da velhice doente

A tragédia

É morrer antecipadamente

Na fadiga, no enfado, na rédea

Que freia

Angustiadamente

Quem a rodeia.

 

 

508 - Teima

 

Quanto mais o pragmatismo

Político-económico

Teima no monótono abismo

De o mundo uniformizar,

Imbecil e atómico,

Mais os factos irão demonstrar

Que do mundo o encanto

É devir, em todas as idades,

Um recanto

De caleidoscópicas diversidades.

 

 

509 - Partilhadas

 

Nunca nossa angústia, inquietação,

Partilhadas poderão ser por inteiro

No derradeiro

Patamar do coração,

Todos nascemos e morremos em segredo.

O mais profundo e significativo de nós,

No rol

De nosso degredo,

Em nenhum caso vem após

À luz do sol.

Por mais que saiamos da toca,

Vivemos a medo

De credo na boca,

Não há chave para a grade da prisão

De nossa condição.

 

 

510 - Compreendido

 

Ser compreendido é um ideal

A que poderemos aspirar,

Embora incompreendidos cheguemos ao final

Até pelos que nos nasceram a par.

 

Conhecer-nos inteiramente,

Conhecer alguém,

É o desafio mais transcendente

Que desde Adão nos retém.

 

Filósofos, sábios, artistas,

Psicólogos, em inúmera multidão,

Todos o tentam em todas as pistas,

Em vão.

 

O mesmo enigma apaixonante

Lhes fica, insolúvel e hesitante,

Eternamente na mão.

 

Dom maravilhoso

Da natureza humana,

Somos um mistério tenebroso

A qualquer luz que sobre nós dimana.

 

Secretos como viemos

Para a sepultura iremos,

 

Laica ou religiosamente

A confessar-nos sincera e persistentemente.

 

 

511 - Finar

 

Nascemos para ir perdendo

Gradualmente

Tudo o que formos tendo

De melhor, a lucidez da mente,

Os afectos, qualidades, bens,

Até cada qual se finar, indigente,

Sem revoltas nem améns,

Após toda a prova,

Numa cova.

 

Quão mais céptico e objectivo

Cada um procura ser,

Mais fiel às ilusões,

Sem poder

Livrar-se do fascínio

Vivo

Das multidões,

Dos eventos,

Das coisas: do escrínio

Dos acontecimentos.

 

E lá torna, impenitente,

Extasiado,

À paisagem permanente

E ao pão levedado,

- Aos horizontes

Que sugerem insuspeitas pontes.

 

 

512 - Fragilidade

 

Um homem,

Que fragilidade obstinada em viver,

Escrava de mil genéticos programas que a domem,

Condenada à contemporaneidade que tiver

De sorte e azar,

Sem roteiro nem credenciais

O ignoto diário a enfrentar,

Ao acaso da soalheira e dos vendavais!

 

Mil obstáculos para dirimir

Em cada dia

E tantas mais responsabilidades a assumir

A bem ou à revelia,

Queira-o ou não.

 

Para a desoladora conclusão

De que nada valeu a pena,

Os eventos têm a importância

Com que cada qual lhes acena.

 

É tal a irrelevância

Com que acabam por nos aparecer,

Tempos volvidos,

Que se acaba por envergonhar quenquer

Da paixão com que foram vividos.

 

 

513 - Sujas

 

Activada por sujas mãos

De impunes e honrados cavalheiros

É a bomba que explode nos desvãos

De míseros cheiros.

E eles bebem descansadamente à ganância,

A muitas léguas de distância.

 

 

514 - Contentes

 

Contentes, poucos chegamos ao fim

Por respondido havermos

Da vida a todos os acenos.

No derradeiro confim

Levamos para a sepultura os termos

Não proferidos,

Os drenos

Que à sangria não opusemos,

Os actos requeridos

Que jamais quisemos,

Os sentimentos

Amarfanhados de cotio ante os eventos.

 

Consciência cruciante

De que mil oportunidades havidas

Foram desbaratadas a cada instante,

Com a certeza desesperante

De que tê-las aproveitado

É que, de evidência,

Encheria plenas as medidas,

A contado,

De nossa existência.

 

 

515 - Impotência

 

A impotência universal para a remediar

É a suprema revelação

Da miséria da humana condição.

Da ciência o limite liminar,

A impotência da religião,

A inutilidade da cultura,

A precariedade da afeição,

A ineficácia da finura

Da boa vontade para nos aliviar

Garantem que nascemos condenados

E nada nos pode trocar os fados.

 

Tal condenação,

Porém,

Nada prova que não seja também

A definitiva salvação.

 

 

516 - Mintam

 

Mintam quanto queiram, à vontade,

Sobre o homem que calhar,

Nunca lhe destruirão a liberdade

De pensar.

 

É o que enfuria os ditadores,

Os tiranos.

Comprem as armas de horrores

Que comprarem aos desenganos,

Montem as polícias

Que montarem às sevícias,

Torturem com os métodos e instrumentos

Com que inventarem tormentos,

Divulguem as mentiras que enredem deles nas iras,

- Embora com tudo isto junto,

Morrerão fatidicamente frustrados,

Incapazes de dominar no mais tosco bestunto

Os pensamentos libertados.

 

Jamais lograrão

Alterar esta verdade.

É a grande maldição

Que o prepotente invade

E que o faz,

Por muito que lhe desagrade,

Não morrer nunca, afinal, deveras em paz.

 

 

517 - Ninho

 

A beleza,

O modo como germina,

Ninguém num relâmpago a tem como presa,

Entre a multidão rumorosa não lhe cava a mina,

Nem entre centenas de detritos da corrente

Por entre que caminhemos apressadamente.

 

O silêncio, a calma, de tudo aquilo o alheamento

São o ninho da gestação.

E, se um pensamento,

Uma obra de arte brota repentina do chão,

São sempre o ponto culminante

Dum longo período de incubação

Vida adiante

Em que a fermentação

Foi constante.

 

 

518 - Garantir

 

Cada língua

É um acto de liberdade.

Vingo-a

Quando ela me persuade,

Entre eventos que nos consomem,

Por garantir a sobrevivência

Da essência

De cada homem.

 

Das línguas a multiplicidade

E dos renovos

A complexidade

São os únicos tesoiros guardados

Pelos povos

De tudo o mais despojados.

 

Por cada língua que morre

Morre uma possibilidade

De ser

Para uma individualidade

Qualquer

Que doravante jamais no mundo ocorre,

Aconteça o que acontecer.

 

 

519 - Fundamentalismo

 

O fundamentalismo religioso

É um desafio extremado

A um mundo que protagoniza o primado

Da Técnica e da Ciência,

Do saber orgulhoso

De experimental dependência,

Arredando o primado da pessoa

Duma forma intolerante, extremista,

Sobranceira, à toa,

E, portanto, fundamentalista.

 

O religioso fundamentalismo

Não é o primeiro:

É o sintoma derradeiro

Com que crismo

O que não passa

Duma hodierna doença

De planetária presença

E ameaça.

 

 

520 - Aceitar

 

Como posso interferir

Tanto com a Natureza,

Com a Ciência a inquirir,

Com a Técnica a moldar-lhe a inteireza,

 

E, neste deslumbramento,

Aceitar que, estando triste,

No rol

De cada momento

Ainda persiste

Uma qualquer manhã de sol?

 

A manhã é indiferente,

Como se eu nem fora gente…

 

E, no entanto, ao pé da dor que nos devora,

Somos simplesmente

Um pequeno deus que chora.

 

Ou, atabalhoada, à toa,

Uma pobre pessoa.

 

 

521 - Linguagem

 

A imaginação

Não é dum pensamento devaneio,

É a linguagem dum corpo são

A meio

Do casamento

Com o pensamento.

 

 

522 - Fraqueza

 

É fraqueza humana

Sentir falta dum objecto,

Que então todo o valor dele emana

E é de menos prescindível aspecto

Que outros quaisquer menos vãos

Que seguro nas mãos.

 

Quando o encontro, é que ele me descobre

De quanta mentira meu sentir me cobre.

 

 

523 - Convêm

 

As palavras não convêm ao sentido,

Inefavelmente secreto,

Tudo fica logo um pouco alterado,

Falsificado,

Um tudo-nada néscio, vago vagido

Inconclusivo e discreto.

 

Acolho-o, porém,

É o liço que me enlice.

O que para um é tesoiro de sabedoria,

É também,

Para outrem que o ouvisse,

Sempre uma tontaria,

Tudo tolice.

 

 

524 - Via

 

Que alegria encontrar a via de regresso!

Ninguém facilitar nos pode esta demanda,

Eu próprio dificulto o viável processo

De reencontrar a fé, temo não ver onde anda

E não reconhecer, mesmo quando passar

Junto a mim, fiel, quem a protagonizar.

 

Fico cego e arrepender-me

Por si só de nada serve.

O perdão ninguém vender-me

Irá poder do que o preserve.

 

Houve um momento em que a luz iluminou,

Em que começámos a ver e seguimos a estrela,

Mas o entendimento racional o escudo perfurou,

O escárnio do mundo deu a risada amarela,

 

O desânimo veio,

O fracasso;

De permeio,

O cansaço;

E a final consumação

É a decepção.

E eis-nos, de primeiro encegueirados,

Novamente desencaminhados.

 

Alguns procuram o resto da vida

E, não reencontrando,

Postulam que tudo foi lenda indevida,

Desencaminhando

 

Quem

Nunca deveria ter ido por aí além.

 

Inimigos impetuosos

Outros devêm,

Difamam e prejudicam os caminhos deleitosos

Que, de qualquer modo,

São da vida

O único vero engodo

À nossa medida.

 

 

525 - Metáfora

 

Quer você acredite

Que alguém viveu deveras uma vida passada,

Quer lhe palpite

Que é uma metáfora da conjuntura armada

Na vida presente,

Ou venha no ADN na corrente

Ou da cultura na jornada,

De mão a mão

Transportada

Geração a geração,

Ou conclua, afinal,

Que a vida passada é a de algum

Guia espiritual

Que no imo apoia cada um,

- O efeito curativo

Adiante,

Qualquer que seja o motivo,

É um milagre cativante.

 

Por entre os demos

Da noite escura

O que todos por igual vemos

É que uma luz fulgura.

 

 

526 - Controlar

 

Em qualquer dependência

Parte do sofrimento é a danação

De não haver alternativa senão

Satisfazê-la, na ocorrência.

 

Os desejos obcecar e controlar

Poderão o dependente.

Uma dependência ao curar,

Inadiável restitui ao presente

 

A liberdade de escolher.

É o que, normalmente,

Aumenta o respeito

Por ele próprio de quenquer

Que a cura tome a peito.

 

 

527 - Algo

 

Todos parecem requerer

Algo diferente

Para felizes virem a ser:

Dinheiro, fama, amizades,

Boa sorte permanente,

Miraculosas faculdades…

 

Os exemplos, porém, destes itinerários,

Mostram que andam pejados de falsários.

 

São as mentiras que a aranha tece,

A capturar na teia a mente

De quem as estremece

Mistificadamente contente.

 

De ilusão em ilusão,

Devagarinho,

Eternamente se desviarão

Do caminho.

 

Jamais serão felizes

Só porque nunca acertam nas matrizes.

 

 

528 - Desça

 

Importa, durante a oração,

Que o espírito desça da mente

Para o coração.

A inteligência não é competente

Para rezar.

Não é do espírito concentração

Nas palavras

Quando a orar

Te lavras:

Basta a repetição

Como uma criança,

Gaguejando,

Balbuciando,

E a fonte que fértil te alcança

Brota do coração.

 

 

529 - Crença

 

Eis a balança do abismo

Em que sempre há tergiversado

A crença de infância:

Não há religião sem fanatismo,

Nem fanatismo sem, ao lado,

Tolerância.

 

 

530 - Vestido

 

Ficas vestido ao falar,

Estar nu é não ter palavra,

Que a palavra veste o homem,

Talha-lhe o molde ao lugar.

Em nome do ancestral que a lavra

Tece a carne aos que a retomem.

 

De salvação o porto

Vem sempre do antepassado morto.

 

 

531 - Religiões

 

As religiões são ramos

De árvore única comum.

As raízes divisamos

Subterrâneas no zunzum

Que ora em prolongado viveiro

Através do mundo inteiro.

 

Todas crescerão,

Retirado o véu,

Na mesma direcção,

O céu.

 

É o destino talhado nas matrizes

De todas as raízes.

 

Depois o tronco sai da terra,

Direito e limpo.

Como quenquer que a ele se aferra,

Por ele grimpo.

 

E logo é um embondeiro de ramagens mil,

Todos no tronco lhe podem enxertar

E gravar

O respectivo perfil.

E, de todos os horizontes,

As mil rameiras

São para o comum tronco as pontes

E as fronteiras.

 

 

532 - Si-próprio

 

O si-próprio original

É uma semente

Dotada dum potencial

De maravilha omnipresente

Que a tudo a que se prende

A prazer rescende.

 

 

533 - Raia

 

Há uma forma obtusa de ignorância,

A de não ter reflectido nem ser informado,

E uma forma inspirada, noutra instância,

Quando é uma ignorância tão culta que acabe

Por entender quão pouco sabe.

É ignorância pura a dum lado,

A do outro raia o sagrado.

 

 

534 - Desenvolve

 

Quando uma comunidade perde alma,

Desenvolve neuroses,

Da paranóia que nada acalma

À xenofobia:

Do estrangeiro, do estranho, do invulgar, cada dia,

Todos breve devirão algozes.

 

 

535 - Misteriosamente

 

Esquecemo-nos e a vida entra,

Não compreendemos e ela se reforça,

A morbidez nos desconcentra,

Há uma perda querida que o coração nos torça

E, misteriosamente, na hora,

Eis que a vida envereda por uma via prometedora.

 

 

536 - Papéis

 

És, ao mesmo tempo, vítima e vilão

E ambos os papéis já representaste,

Do alvor ao serão,

De tua vida no engaste.

E, contudo, nenhum deles é real,

É tudo de tua cabeça.

Crias tua vivência decidindo qual

A parte do todo em que teu olhar tropeça.

 

E podes muito bem nem reparar

No que, no fundo, andes a procurar…

 

 

537 - Simultâneos

 

Finalmente entendes

Que não és corpo, mente ou coração,

Nem o espírito puro que apreendes,

Mas, simultâneos, aqueles todos em cada ocasião.

 

Este é o assunto

Do trilho da morte que é a vida em seu conjunto.

 

 

538 - Realização

 

A realização a qualquer nível

Apenas teve até agora

Um inimigo invencível:

O que dentro de nós mora,

O pensamento que intuí

Que o homem tem acerca de si.

 

Diminui o perigo

Então, após:

Já encontrámos o inimigo

E ele somos nós.

 

 

539 - Receias

 

Quando receias as pequenas mortes,

As mortes de qualquer derrota ou perda,

Tens por igual receio de viver.

Quer dizer que tens medo, em iguais sortes,

De viver e morrer. Que vida lerda,

Que modo de existir para quenquer!

 

 

540 - Crença

 

No momento da morte vais experienciar

Aquilo em que acreditas,

Tua visão se há-de radicar

No que crês. E é o que fitas:

Tua percepção não terá esquiva,

Alimenta-se da tua última perspectiva.

 

 

541 - Mensagem

 

Todos estamos enviando

Uma mensagem à vida

Acerca da vida, quando

A vida vivemos de seguida,

Mensagem que se vai modificando

Em vida vivida.

 

A questão não é ser mensageiro

Mas qual a mensagem

Que, useiro e vezeiro,

Ando a transmitir nesta viagem.

 

 

542 - Entregar

 

És ao mesmo tempo mensagem e mensageiro,

És criador e criação.

Mesmo ao entregares a mensagem, ligeiro,

De a entregar atravessas o inteiro

Chão.

 

De facto, de a entregar o trilho

É de a produzir o cadilho:

 

São, na verdade,

Uma única e mesma realidade.

 

 

543 - Poucos

 

Bem poucos costumam usar

Deles as intuitivas faculdades

Para neles próprios penetrar,

Contactar as afectividades,

Antes de pensarem ou dizerem

O que os sentimentos pretenderem.

 

Mesmo depois da asneira

Bem poucos o fazem,

E eis porque da vida leveira

Todos os pesos os arrasem.

 

 

544 - Sem

 

Sem Deus é impossível viver ou morrer,

Mas não é impossível pensar que é o que ocorrer.

 

Se convicto estiveres