SEXTO  TROVÁRIO

      

 

                                    AQUI  VIVIFICADO, O  AMOR

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 607 e 678, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

                                             607 - Aqui vivificado, o amor

 

                                             Aqui vivificado, o amor,

                                             Na tropelia do verso irregular,

                                             Captura o estupor

                                             Do calor

                                             Que nos surpreenda, ao caminhar.

 

                                             O poema rima,

                                             No metro inesperado,

                                             O que nos encima

                                             E o poético termo fatalmente inadequado.

 

                                             Sinto a arder as profundezas,

                                             Das palavras jogo-lhes os gravetos

                                             E as chamas nunca aos versos ficam presas.

 

                                             Mas insisto em acolhê-las em meus tectos,

                                             Já que mais sou quão mais for em meus afectos.

 

 


608 - Esperança

 

A esperança que não tenho muitas vezes

Os milagres que, mesmo fingida,

Faz no meio dos reveses!

 

Não há crédulo maior

Que um desesperado da vida.

 

Mentir-lhe, radical,

Iludi-lo com vigor,

É quase um dever moral.

 

Que solidariedade mais pedra angular

Se lhe pode prestar?

 

 

609 - Expectativas

 

Para teu casamento

Não cultives expectativas ilusórias.

Só porque o barco baloiça não é tempo

De saltar borda fora,

Acorrentado a trágicas histórias

E memórias.

 

Todas as relações mudam na demora

Dos dias e dos anos:

Nem sempre ela gera danos.

Alguns dos melhores eventos

Que, após os desenganos,

Ocorrem nos casamentos

São as mudanças.

 

A quantas te arrimas!

É a trilha de amadurecimentos

Rumo à meta que nunca alcanças

E, contudo, aproximas.

 

 

610 - Falte

 

Embora ele nunca falte aos religiosos ritos,

Faltam-lhe as graças divinas

Que nela, tão atreita a negligenciar os mitos,

Superabundam, atentas e finas:

Amor, doçura,

Clemência, a firmeza da brandura…

 

Para ele, religião

São regras e leis.

Para ela, não:

É a música da vida com todos os decibéis.

 

 

611 - Topo

 

Minhas obras, meu gesto,

Estarão no topo um tempo mais,

Até que um próximo grande apresto

Me relegue para segundo plano.

Marido e pai e outros caracteres que tais,

Porém, a vida inteira duram, de ano em ano.

 

Se troco deles o papel

Por um lugar temporário na trama

Da dança das cadeiras da fama,

O papel de fantasia em que me enrolo

Arranca-me a pele,

Sou um tolo.

 

 

612 - Qualidade

 

A qualidade de nossos relacionamentos

Com familiares e amigos,

De Deus abrigos,

É a medida,

Em todos os momentos,

Da vida.

 

Ao amor

Não é um ou outro dos eventos

A ameaça maior,

Não:

É a ausência de atenção.

 

Outrem não negligencio

Por deixar de amá-lo,

Deixo de o amar pelo intervalo

Em que lhe perco o fio:

Não há mais fruta nos ramos

Porque nos negligenciamos.

 

Bem entendido,

Cada dia é um milagre imerecido.

 

A vida, efémera, se esfuma;

O amor, não, nem há nada que o resuma.

 

Daquilo que o não é o que é importante

Aprende a discriminar a cada instante.

 

Então, de seguida,

Não perdes, inútil, a vida.

 

 

613 - Íntimo

 

De ninguém ninguém sabe nada,

Do íntimo, deveras,

Todos uns aos outros nos mentimos

Em cada palavra dada.

 

Só dos bichos e dos mortos as esferas

Atingem da verdade os cimos

Da estrada:

São o antes e o após as esperas

Humanas da jornada.

 

 

614 - Congregar

 

É mais fácil ódios concitar

Que congregar amizades.

Voz ao coração não desistas de dar,

Porém,

Correndo embora risco de inverdades,

De ser mal compreendido mais além,

Por parte daqueles com quem,

Desperto,

Só sabes comungar

De coração aberto.

 

Não desistas

De atar teu fio nas tramas

Do manto com que revistas

Aqueles que amas.

 

 

615 - Incurável

 

Mais clara ou mais nebulosamente

Vemos

Que nascemos sozinhos,

Sozinhos vivemos

E morremos sozinhos,

Fatalmente.

Mesmo nos chilreios mais alegres dos ninhos,

No mais fundo inconsciente,

Lateja, cruciante, no coração

Dos passarinhos

A incurável dor de tal condenação.

 

Não há, porém, homem sem homem:

Há o cireneu que nos aligeire a cruz.

Na radical solidão,

Ante as dores que nos consomem,

Um lenitivo traduz

A força que, não vergando o destino,

Inconformada eternamente o desafia:

O amor fraternal, toque divino

Que nos alivia.

 

 

616 - Inquieto

 

Não tenho, não dou nem quero paz,

Vivo inquieto a desinquietar

Tudo e todos, à frente e atrás,

Que logre alcançar.

 

E o pior

Que me trama o destino que tramo

É que quem firo com mais rigor

É quem mais amo.

 

 

617 - Deixar-vos

 

Ao deixar-vos, uma ambição

Levarei daqui:

De que em vida não

Vos desiludi.

 

De que a graça merecerei

De continuarmos juntos fraternamente,

Anhos da mesma grei,

Para além de qualquer idade,

Eternamente,

Violando de vez nossa física precariedade.

 

 

618 - Repartir

 

Repartir bens equitativo

É do lar que for carente:

Para todos o mesmo caldo esquivo,

Igual broa paciente.

 

A justiça social

Aguarda a hora adiada.

Há-de ser obra do alicerce, do fundamental,

Dos que a fartura enfartada

Não perverteu ainda.

 

Se muito brilha

A abundância advinda

Que tantos engrola

Não partilha,

Quando muito esmola.

 

 

619 - Importante

 

De nossa vida

A mais importante medida

 

Não é o reconhecimento público que a alcança

Mas a herança

 

Que para trás deixamos:

As pessoas que tocámos

 

E com que extremos

O fizemos.

 

Rumo a que plenitude

Fizemos que tudo mude.

 

 

620 - Chegar

 

Tentei chegar à criança

Com palavras.

E a palavra não a alcança,

Ninguém nos ouve em tais lavras.

 

À criança tentei chegar

Com livros e dar-lhe amplexos

E ei-la apenas a lançar

Olhares perplexos.

 

Desesperado, gritei:

"Como é que lhe abro o postigo?"

Meu ouvido lhe aprestei

E ela diz: "Brinca comigo!"

 

 

621 - Flui

 

Da energia feliz a medida

Que flui para o exterior

É a vivência assumida

Do amor.

 

Um amor que se tornou

Emoção de fundo,

Que contigo perene ficou,

Fecundo.

 

Então tua energia,

Numa atitude de oração,

Para o mundo fluiria

Em cachão.

 

Terás de manter-te, em rigor,

Num estado de amor,

 

Para a medida de teu fito

Visar o Infinito.

 

 

622 - Pendor

 

Há um pendor contagioso

Na mente humana.

O nosso maior gozo

Emana

De partilharmos, de algum modo,

Uma mente única, um todo.

 

Sobre nós temos controlo,

Podemo-nos recuar, distanciar,

Ler diversamente da vida cada rolo,

Diferentemente pensar.

Mas do mundo a visão dominante

É a do campo gigantesco que houver diante.

 

A chave de progredir

É haver bastantes pessoas

Que logram misturar, neste campo a gerir,

Promessas boas,

Uma expectativa maior

De amor.

 

É o que permite elevar

Nossa energia interior,

Patamar a patamar,

Rumo ao potencial maior

Que a humana condição

Nos permita desde agora neste chão.

 

 

623 - Rápido

 

Quem rápido demais

Transpôs da adolescência para a parentalidade

As fantasias sexuais,

Quando desperta no real,

Descobre que a sexualidade,

O perto apressando, colocou, afinal,

Num instante de temporais,

O amor longe demais.

 

 

624 - Pecam

 

Pais que maltratam

Não são os que pecam com remorsos.

São os que magoam, desacatam

Corpo e alma de crianças,

Cujos torsos,

Desmembrados por dentro e por fora,

É o que apenas alcanças,

Não demora:

 

São os que ficam indiferentes a rir

Ao fim de tudo destruir.

 

 

625 - Receie

 

Há muito quem receie desenhar

Um rumo ao que deseja.

A vida é barco sem leme a navegar

Por falta de quem, por si olhando, farol seja

E, ao mesmo tempo, horizonte,

Tornando o sonho navegável,

Erguendo a ponte

Até um novo mundo finalmente abordável

De inéditos ensejos

Para todos os desejos.

 

 

626 - Separação

 

Duma separação interpessoal toda a ironia

Provém de como alguém de quem me afasto,

Cada dia,

No rasto,

Se torna, subitamente

E de facto, mais presente,

 

No que leva a recordar,

Na comparação que obriga

A fazer com quem eu lidar,

A que a freima me interliga,

Na parecença até que identifico

Nos filhos que se vão de donde eu fico.

 

A separação não existe realmente:

O mundo inteiro é um perene meu presente.

 

 

627 - Grupo

 

É bom encontrar

Um grupo de amigos,

Coadjuvá-los a celebrar,

A orar,

Convidá-los a unir-se a nós,

Ofertar abrigos,

Escutar feitos e planos

Deles, dos pais, dos avós,

Abençoá-los à despedida

Sem contabilizar danos

Nem enganos

E saber que, à ida,

Percorrem deles o caminho

Como nós o nosso,

Num destino solidário sozinho

Onde, ao envelhecer, eu como eles me remoço.

 

Cada um deles tem o seu próprio sonho,

Desejo,

Aposta secreta no coração.

Contudo, ao horizonte que me proponho

Todos nos encaminhamos, em cada ensejo,

Juntos da corrente no infindo turbilhão.

 

Uns aos outros pertencemos,

No imo partilhando a mesma reverência,

A mesma fé por que vivemos,

Igual voto

Em nome da íntima vivência

Em que, tal como eles, eu me adopto.

 

 

628 - Doença

 

A uma paixão

Que fazer

Para a arrancar

Do coração?

É duma doença sofrer

Que se não pode curar.

Só o tempo a vai ter à mão,

Mas devagar, devagar, bem devagar…

 

 

629 - Anos

 

A desilusão

Dum amor sonhado

Durante anos e anos!

Uma vez revelado,

É inconsistente,

Pejado

De desenganos

E traição,

Quando comparado

Com as pedras angulares

Que dão

À vida um sentido e um chão

- Os afectos familiares.

 

 

630 - Sentimento

 

Por vezes, num casamento

Há um evento

 

Em que o sentimento muda.

Seja o que for que se nos gruda,

 

Nunca mais sentimos o mesmo.

Quando nisto me ensimesmo,

 

Verifico que pode ocasionar

A tragédia de o amor acabar.

 

 

631 - Felicidade

 

A felicidade provém

De saber que nossa vida

Alguma importância tem

E que há quem

Melhor se sente e à vida revida

Após

Devido a nós.

 

O amor é uma cadeia:

Prende na teia

 

Mas, firme nos elos encadeados, liberta

A vida por fim desperta.

 

 

632 - Parceiro

 

Ter o parceiro certo

É deveras importante,

Mas feliz não pode tornar-nos, decerto,

A todo o instante.

 

Há muito quem o cônjuge ame

Mas a quem apenas isso,

Por mais venturas que acame,

Da felicidade não acende o chamiço.

 

 

633 - Outrem

 

Crer que outrem me pode fazer feliz

É para connosco uma grave injustiça,

É crer que alguém

O controlo de raiz

Detém

De nossas emoções na liça.

 

Quem as almas conhece

Sabe que não é verdade:

De dentro de nós vem e acontece

O sentimento de felicidade,

Não de qualquer, por mais singular,

Outro lugar.

 

Apenas eu sou o instrumento

De aferir e alimentar meu sentimento.

 

 

634 - Separações

 

As separações farão sempre sofrer,

Cavam o vazio dentro de nós.

Só damos conta dos benefícios que houver

Com o tempo, após.

 

Benefícios do sofrimento…

Primeiro sentimos tristeza,

Depois, uma manhã, após o vento,

A calmaria que o coração preza.

 

Primeiro perdemos o apetite,

Não vemos árvores nem flores,

Até ao dia em que, sem porquê nem palpite,

Acordamos novos, com inversos humores.

 

Olhamos em redor e vemos então

Que a vida continua e o chão nos junca.

E, transposta a provação,

Estamos mais fortes que nunca.

 

 

635 - Dois

 

Quando deixam de se interpor

O eu e o tu

Entre as pessoas?

- No momento do amor,

Quando dois se amam sem tabu,

Tanto que apregoas

Que nalgum misterioso sentido, nalgum,

São apenas um.

 

 

636 - Erro

 

Aprender com um erro a viver

É a tragédia em bênção transmudar,

É a humanidade inteira confortar,

Já que todos acabamos por cometer

Erros na vida

E todos somos humanos,

Mas também capazes sem medida

De dar e receber amor sem causar danos.

 

E todos o faremos, afinal,

Se oportunidade tivermos para tal.

 

 

637 - Acolhe

 

Estás neste momento rodeado

De centenas, milhares de anjos e anjos.

Acolhe o que te indicam. E, alumiado,

Retransmite depois o eco dos banjos,

Estes ensinamentos aos demais.

 

Porque vai ser ao dar que tu recebes,

E ao curar que és curado e em névoa não te esvais.

Do milagre a esperar, não te apercebes

Que à tua espera está, desde o Infinito.

 

Que assim é saberás, se te transformas

No milagre que quer dum outro o grito

E que ele aguarda para além de quaisquer normas.

 

Doutrem no abraço

É que transpões o tempo e o espaço.

 

 

638 - Magníficas

 

Cada cultura tem as próprias tradições

Magníficas e singulares

Que honram uma verdade maravilhosa e radical,

A libertar-nos dos grilhões:

 

Mais relevante que nossos desejos particulares

Algo acima de nós há fundamental

Que vale mais, em profundidade,

Que nossa necessidade.

 

A própria vida é um patamar

Bem mais significativo e profundo

Do que todo o mundo

Acaba por imaginar.

 

É no amor, na mútua preocupação,

Na criatividade e no divertimento,

No perdão,

Ao darmos as mãos no argumento

Do esforço colectivo

Para alcançar de todos um objectivo,

Que serão encontradas

Sem colaterais danos

As satisfações mais gradas,

Os mais magníficos encontros humanos.

 

Aí, visceral,

Ultrapassa

Cada qual

O mesquinho metro que o traça.

 

 

639 - Colectivamente

 

Todas as almas interagem

E criam colectivamente

Em todos os momentos do presente.

Todas deste modo reagem:

Há sempre qualquer coisa, qualquer,

De inter-relacionado a ocorrer.

 

Esta inter-relação é que produz, incontida,

A surpreendente tapeçaria da vida.

 

Cada fio por seu caminho,

Mas não à própria conta:

Seria menosprezar o apurado alinho

Como o grande quadro é criado ponta na ponta.

 

É a vida e não é

Uma experiência singular:

Ambos os vectores de pé,

A par.

 

É a experiência da Singularidade

Que a Si própria se conhece a Si mesma,

Através da experiência da resma

Das individuações, em cada individualidade.

 

Apenas há um único conjunto de objectivos,

Servidos por experiências distintas diferentes,

Admiravelmente coordenadas entre os vivos,

Entre as gentes.

 

De objectivos este único conjunto

Serve para a Divindade

Se exprimir e experienciar de verdade,

Com todo o esplendor dela ali junto,

 

E para Ela própria se recriar e definir,

De novo e sem demora,

Em cada momento do devir

Do doirado, eterno Agora.

 

A maneira como se exprime,

Como a Ela própria se experiencia,

Como a Ela própria se define,

Depende de ti: é a escolha de teu dia.

 

É a decisão que tomas e trespassa

Cada dia que passa,

 

É a escolha

Que teu dia-a-dia recolha,

 

A escolha de cada momento

Que corre e se esvai no vento.

 

Estás a operá-lo individual e colectivamente:

Todo o acto presente

 

É, na fundura do coração,

De autodefinição.

 

Quando te unes ao núcleo de teu ser

És lembrado destas realidades.

Aqui rejuvenescido

Hás-de ser,

Reintegrado, reunido

A todas as tuas potencialidades,

Caso tenhas os objectivos esquecido,

Caso tua memória tenhas perdido

E acaso, talvez,

O teu sentido

De quem realmente és.

 

E se, ao invés,

Tens uma consciência clara,

A experiência plena e rara

De tudo isto em teu imo assumido,

Então o que vai ocorrer

É que no núcleo de teu ser

Serás restabelecido.

 

 

640 - Dádiva

 

O mero acto de revelar

Minha natureza mais profunda

É uma forma de me libertar

E uma dádiva generosa e fecunda

Que invade,

Discreta, a comunidade.

 

 

641 - Voto

 

Por um voto de castidade

Todos podemos optar

E gozar,

Não obstante,

Duma sexualidade

Plena e vibrante.

 

A beleza de partilhar

Uma vida sexual apenas com uma pessoa

É avivada dizendo aos outros não,

Demais não dando ao desejo atenção,

Sublimando-o pelo imaginário que em fascínio

Voa,

Sem repressão,

Descobrindo que do mundo o escrínio

É nele mesmo, do belo em fruição radical,

Um parceiro sexual.

 

 

642 - Abordam

 

Muitos abordam o amor perguntado

Quando

 

Irão encontrar quem os grude

Ao próprio crescimento e plenitude.

 

Em alternativa, é dar atenção

À vida própria, desenvolver talentos,

Enriquecer a cultura com exultação,

Devir alguém interessante a todos os momentos.

 

Ou, em rumo convergente,

Atender a uma comunidade carente.

 

Duma vida a feitura cuidada

É uma forma positiva que a todos agrada

 

De se preparar em autenticidade

Para a intimidade.

 

 

643 - Jardim

 

Para muitos o jardim é o Paraíso

Onde encontram a obra preciosa

Que os invade

De eternidade,

Quando o juízo

Do belo ali se goza

Em total gratuitidade.

 

Ali parou o tempo, indeciso,

E uma freima qualquer

Volta a ser prazer.

 

Nosso lar

Pode além sempre apontar

O lar eterno

Onde fruímos de paz e tranquilidade

Em cada trejeito terno,

Em cada gesto que nos grade.

 

Olhar por uma janela

Não é jamais apenas ver

O que há lá fora, na paisagem bela,

Em perene alvorecer.

 

É também um ritual

Em que, a partir do quadro conjuntural

 

Presente,

Olhamos em frente

 

Para um Universo que, na essência,

Contém os segredos de nossa existência.

 

 

644 - História

 

A história no interior da história familiar

De esclarecimentos é repleta,

Novas possibilidades a gerar,

Discreta.

 

Podemos necessitar

De coragem

Para mais um nível descer,

Trocar a claridade da miragem,

Ainda que ilusória em quenquer,

Pela confusão e perplexidade

Dos abismos da profundidade.

 

Nossas histórias habituais

Proteger-nos usam do mistério

De nossas vidas reais.

Caem-lhe então sob o império,

Fatais.

 

Temos, porém, a oportunidade

De nossa história aprofundar,

De descobrir,

Num muito inferior patamar

Ao de nossas expectativas,

O entendimento e conforto a haurir,

A cura

De que ando, em gestas lesivas,

Canhestramente à procura.

 

 

645 - Trocado

 

O pai devém problema apenas

Quando o espírito dele fundo e subtil

Trocado é por terrenas

Máscaras mil,

Quando, em vez de mentor,

Devém impostor.

 

O paternalismo

É a versão desviada e corrupta

Do real, íntimo abismo

De que quenquer desfruta.

 

Convém aniquilá-lo

Mas sem perder este pai omnipotente

Cujo halo

De pedra angular radical

Terá de andar presente

Ao expulsarmos o impostor imperial.

 

 

646 - Semeia

 

A procriatividade

Semeia, auguro,

Para além da criatividade,

Um futuro,

Proporcionando, com esperança,

Confiança.

 

Apoia e ensina

A próxima geração que vier

Sem a nocturna sina

De a temer.

 

 

647 - Debilito

 

Debilito a nobreza da paternidade

O imperialismo ao confundir,

Nos negócios, no governo, na familiaridade,

Com a genuína liderança paternal

De servir,

Incondicional.

 

Errados nos queixamos do patriarcado,

Em vez do paternalismo

E da frouxidão de autoridade.

 

Patriarcado é o pai originário,

O mito alçado,

O pai primitivo com que cismo,

Celestial entidade,

De Deus tributário.

 

Destas profundezas abismais

Impregna tudo o que é criado

Com as possibilidades seminais

Que dele são o inadiável fado.

 

 

648 - Louco

 

O louco pelo ciúme

Absoluto controlo e posse requer,

Poder jamais assume

Abdicar de qualquer poder.

 

Como o absoluto nos está fora de alcance,

Eis porque inevitável no inferno nos lance.

 

 

649 - Ciúme

 

O ciúme é alimentado

Por masoquismo poderoso e encegueirante

Em que um ofendido se compraz, entusiasmado,

Na própria vitimização ultrajante.

 

Cada nova ofensa ou suspeita

Profunda satisfação

Provoca, atreita

Fatalmente do próprio à negação.

 

Procura provas o masoquista

Que lhe infligirão

Mais dor em cada pista

E deleita-se com descobertas infindáveis

Cada vez mais execráveis.

 

O ciúme evidencia,

No doentio negror,

Do sofrimento a alegria

E o atractivo da dor.

 

 

650 - Familiarização

 

Todos os dias nos é pedida

Maior familiarização com a vida.

 

É uma forma de viver intensamente

E também, coerente,

 

Uma maneira que conforte

De nos prepararmos para a morte,

 

Porque a morte é o enfrentamento decidido

Do derradeiro desconhecido.

 

Não é obrigatoriamente mórbida ideia,

Pois só vivemos deveras uma vida cheia

 

Se autorizarmos a morte insana

A desempenhar um papel na vida quotidiana.

 

Quando nos abrimos a outrem ou à comunidade

Morremos um pouco para a verdade

 

Que se nos viera a tornar

Detrás familiar.

 

Estas pequenas mortes, em contrapartida,

Abrem trilhos para uma nova vida.

 

 

651 - Odisseia

 

Cada um de nós é um caminheiro

Dele na odisseia particular.

Em nosso itinerário pioneiro

Todos somos vulneráveis, a precisar

Da hospitalidade dos mais,

De ter da compreensão deles sinais.

 

Convém, porém, ter um coração desperto

Para com os outros nos identificarmos,

De nossas carências por meio do postigo aberto

E das experiências que protagonizarmos.

 

 

652 - Algo

 

Sabe o outro algo que ignoro

Acerca do lugar

Onde quero estar.

Se apenas a mim me adoro,

A mim próprio somente me ouvindo,

Ficarei condenado

Em círculos a andar,

Minhas pegadas perseguindo

Na maldição de meu fado.

 

Se outrem não falar comigo

Do que vislumbra e suspeita

Não saberei que rumo sigo

Nem o que quero seguir na viela estreita.

 

Se amigos e vizinhos não escutar,

Preso no labirinto irei ficar

 

Do que julgo querer

E nunca o irei saber.

 

Obediência é comunhão,

Mas, se em comunidade eu não viver,

Torna-se uma escravidão

Para quenquer.

 

E a porta de saída

Já por ninguém é atingida.