SÉTIMO  TROVÁRIO

 

 

                 DE  NOVO   TREPA  AO  SONHO,  À  INFINIDADE

 

 

                     

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 679 e 769, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                             679 - De novo trepa ao sonho, à Infinidade

 

                                             De novo trepa ao sonho, à Infinidade,

                                             O poema com o metro irregular,

                                             Rimando dele a pobre mendicidade

                                             Com a opacidade

                                             Do que o sonho promete e não quer dar.

 

                                             Nas palavras em síncope perdidas

                                             O encontro naquele desencontro busco,

                                             Do cotio pelas lidas,

                                             Meu eterno lusco-fusco.

 

                                             O poema entreabre o véu

                                             Donde vislumbro

                                             O céu.

 

                                             E, enquanto na palavra a noite alumbro,

                                             Do alvor que em mim desponta me deslumbro.

 

 


680 - Encontrares

 

Que ocorrerá

Se encontrares o que procuras?

Despojado não ficará,

Sem metas seguras,

O dia que ali chegar?

 

Que farás, após conquistado

O derradeiro lugar?

Uma vez saciado,

De toda a alegria na vida

Não findarás privado,

De todo o motivo de viver,

Em seguida?

 

Cuida nisto, pequeno ser,

Até compreenderes porque é que o Universo

Se expande e se contrai

Do infinito das eras ao infinito,

Sem jamais repetir o mesmo verso,

Porque é que os espaços ermos arroteando vai,

Aguilhoando e serenando a par teu peito aflito.

 

 

681 - Admiro

 

Admiro para trás

A tapeçaria de minha vida.

É sempre um emaranhado de linha multicolorida,

Rugoso de nós, desde miúdo e rapaz,

De meus alinhavos diários disto e daquilo,

Dum lado.

Doutro emerge um padrão doutro estilo,

O inesperado desenho coerente, coerente dum fado:

 

- Eu ignoto de mim,

Vário e surpreendente até ao fim.

 

 

682 - Livro

 

O livro é dono de casa

De múltiplas tarefas,

As magníficas do que me abrasa,

As deploráveis de poluentes trasfegas.

 

Espalha o conhecimento,

Mas igualmente a maldade,

Ilumina num momento,

Engana após o que invade,

 

Liberta e também manipula,

Exalta e também rebaixa,

Cria além de quanto nos regula,

Cancela vidas onde mal encaixa.

 

Sem ele era inviável a cultura,

Estiolaria a História

E o futuro, no que augura,

Era uma sinistra nuvem premonitória.

 

Quem o livro odeia,

Odeia a vida.

É que, por mais horríveis ódios que nele leia,

Quase por inteiro, ao invés, a letra imprimida

 

A balança inclina

Para a generosidade e a luz.

Nela, frágil, traduz

Nossa marca divina.

 

 

683 - Nómada

 

Nómada desperto de ontem,

Dormito no sedentário

De hoje, onde os sonhos não contem,

Aqui, sumário.

 

Sou encruzilhada retesa

Entre uma e outra natureza.

 

Aqui me confino

E macero dia a dia.

Acolá me destino,

Desmedida a fantasia,

E me exalto nos ralos

Intervalos.

 

Num pendor me desventuro,

Sem mais tender ao cimo,

No outro me aventuro

E redimo.

 

 

684 - Esvai

 

Honrarias, vaidades, riqueza,

Tudo esvai do tempo a voragem.

Um homem apenas vale pela grandeza

De alma atingida na viagem.

 

O pulsar dum coração

Generoso

Não o apaga a multidão.

Mesmo extinto,

Continua a bater fogoso

Na memória daqueles a quem deu,

Distinto,

Algum calor.

 

Aí principia do céu

A adivinhar-se o palor.

 

 

685 - Memória

 

Quer ver o que é o inferno?

É a memória rigorosa

De quanto praticou de baixo, de subalterno,

Pela vida fora,

A palavra irreflectida tenebrosa,

Pensamentos e acções

Cruéis e maus,

Armadilhados de abismos e fundões,

Sem pedras de passagem nem vaus.

 

É saber que podia

Ajudar o irmão

E não lhe deu a mão

Ao transpor a atropelada via.

 

O inferno é claridade,

Mais nada.

E o céu é a mesma realidade,

Claridade consumada.

 

 

686 - Inútil

 

Acto inútil é escrever

Como quanto o homem pratica.

As palavras estão gastas e qualquer

Já destilou todo o sumo a que se aplica.

 

Já tudo foi dito:

Resta-nos abrir as portas do Infinito.

 

 

687 - Seduziram

 

É mais uma utopia

A juntar às inúmeras que desde as origens

Nos seduziram e aguilhoaram,

Eras fora, na harmonia

Das vertigens

Que nos aram?

 

Sem um sonho no vazio

Da noite,

No fio

Do açoite,

Como amanhecer

De nós contentes,

Como sol acender

No sorriso entre dentes?

 

E é de nós, de nosso teor,

Que descontentes andamos.

Quão mais pobres de ideal e de amor,

Mais nos encanzinamos

A degradar a feição

De nossa humana e triste condição.

 

O sonho

Abre a porta:

Se nele nunca me ponho,

Pelo menos é de além que ele me exorta.

 

 

688 - Vida

 

A vida humana

É a demorada breve despedida

Que ao nascer principia e dali mana

Até à derradeira partida.

 

Despedida primeiro do aconchego

Do ventre materno,

Depois do refego

Terno

Da meninice, juventude,

Dos dons naturais, saúde,

Dos bens, alegrias, fartura e carência,

Até ao apagar da consciência.

 

E ficamos de vez desprendidos

Quando acabamos esquecidos,

 

Quando ninguém nos lembra o rosto nem a vivência

Nem a ninguém dói a dor de nossa ausência.

 

Findamos de vez do lado de cá,

- Mas quem garante que a aventura não continuará?

 

 

689 - Mistério

 

O homem é um mistério encarnado

Opaco aos olhos mais penetrantes.

Ninguém conhece deveras ninguém,

Caminhamos lado a lado,

Hesitantes,

Na terra de pedro-sem.

 

Os poetas mostram como são

Por imposição da poesia,

Do ser a irromper das profundezas de vulcão:

O poema, ao se manifestar,

Traz à tona, ainda a fumegar,

A verdade que anuncia.

 

Do mistério se aproxima

Apenas das artes esta débil rima.

 

 

690 - Ler

 

Ler, mais que um acto de cultura,

É um acto de inteligência,

Factura

De liberdade

Em minha vivência.

Quando leio, não fico preso

Nos muros da minha herdade,

Saio com os personagens,

Transponho da montanha o teso,

Corro pelo mundo fora,

Vejo as gentes e as paisagens,

Vivo com quem por lá mora,

Oiço cada qual e, a par,

Solidarizo-me ou não com ele,

Chego mesmo a dialogar

Até com este ou com aquele…

 

Ler abre as portas e janelas

Das casas,

Aponta-me as estrelas

E dá-me asas.

 

 

691 - Meta

 

A meta de verdade

Na terra para vossa estada

É alcançar a fragilidade

Com a Força harmonizada.

A fragilidade que é vossa

Com a Força que vos excede

E até onde pode ir afinal ir possa,

Em vossa escolha mede.

 

O caminho é aberto

Desta medição pelo acerto.

 

 

692 - Minúsculo

 

Perdido no Universo,

Quão minúsculo, irrelevante,

E, contudo, no inverso,

Conforme o tomem,

Quão valoroso e que gigante

- É o Homem!

 

 

693 - Desiludidamente

 

A pergunta, a demanda,

A procura interminável

Da outra banda,

Da comunidade inominável,

Da outra idade ao longe e ao fundo,

Desiludidamente para sempre iludida…

Transformar o mundo,

Mudar a vida…

 

E supor,

Enganado, desenganado

Que é para melhor

Este fado.

 

 

694 - Criador

 

Do criador com a energia

Principia.

 

Em teu corpo a deixa entrar

Até te plenificar.

 

Por tua cabeça deixa-a fluir,

Por teus olhos, por ti mesmo inteiro a ir.

 

Extravasá-la deixa para o mundo

Num campo de oração constante e fecundo,

 

Até veres apenas beleza e fulgor

E sentires apenas amor.

 

Num estado de maior alerta,

Espera que o campo, na primeira aberta,

 

Irradie e eleve dos demais

Os campos espirituais,

 

Bem acima dos fundões de nosso grito

Até deles à intuição do Infinito.

 

 

695 - Anjos

 

Os anjos invocar podemos

Para nos ajudar,

A quantos no mundo convivemos

Ao calhar.

 

Não é fácil, porém.

É inviável aos gestos furtivos

De quem

Tenha intuitos negativos.

 

Nada opera se não estivermos ligados

Inteiramente pelo interior

À energia que anima os traslados

Do Criador.

 

E se não se envia

Muito conscientemente

Nossa energia

À nossa frente,

 

Os outros a tocar

E o mundo inteiro.

Se um mínimo de ego protagonizar

Ou da raiva respirar o cheiro,

 

Toda a energia cede e cai,

Os anjos não podem responder.

Tarde ou cedo, tudo se esvai

Num vazio qualquer.

 

Somos os agentes de Deus

Neste planeta.

Podemos afirmar e defender a visão dos céus,

Discreta,

 

E, se nos alinharmos genuinamente

Com tal porvir positivo,

Teremos energia suficiente

Para os anjos então nos darem todo o incentivo.

 

 

696 - Descrever

 

Cada religião tem um nome diferente,

Uma diferente forma

De descrever o Infinito Ente,

- Deus, Alá, Javé… -

E de vida a norma

Dele decorrente

Que o Homem deve pôr de pé.

 

Mas em todas as religiões

A experiência de Deus,

E energia do amor

É a mesma por trás dos véus

Que lhe impões

Com teu fervor.

 

Cada religião

Tem uma história própria desta relação

E uma forma exclusiva de falar dela,

Mas existe apenas uma fonte divina

A dessedentar quenquer que se inclina

Para ela.

 

Cada religião tem a sua verdade

Que tem de ser incorporada

Com a metade

Perdida e achada

Das outras mais,

Em sínteses ideais.

 

É viável atingir isto

Sem de nossas crenças tradicionais

Perder da verdade básica o registo

Nem as soberanias reais.

 

Assim, eu próprio sou ateu

De qualquer Deus, que é sempre humano,

E sou cristão visando o céu,

Intimista muçulmano

E bem terreno judeu

Como, no fundo espiritualista,

Sou budista,

Ou, nas mais fundas raízes,

Sou animista

Em múltiplos matizes

E, se em mim escabulho um pouco mais,

Sou hindu politeísta,

- E todos somos tudo, se bem reparais.

 

Este é o caminho

Que reúne

O porvir de pão e vinho

Que de longe nos chama e ao fim nos une.

 

 

697 - Divina

 

Fluir deveria,

A partir da divina ligação

Que existe em nós, em nosso coração,

A nossa interior energia,

 

Procurando a sincronicidade

Da expectativa,

Transportando toda e qualquer individualidade

Que tocar, ao mais elevado Eu que nela viva.

 

De nossas vidas a misteriosa evolução

Desta forma optimiza e despoleta,

O desvelamento e concretização

De nossas missões individuais neste planeta.

 

Ao longo do caminho há percalços, porém,

Desafios que provocam estados de medo

Que dúvidas cavam estrada além

E então, em minha alegria, cedo.

 

Este medo, pior ainda,

Pode criar imagens negativas

Que, a ocasião vinda,

Alimentam más expectativas

 

Que, por sua vez, ajudam a criar os tramos

Daquilo que nós mais receamos.

 

Temos de aprender a ancorar

A energia superior

Para a manter no lugar

Esquivo

De seu teor

Mais positivo.

 

O problema do medo

É que ele é tão subtil

Que pode apanhar-nos desprevenidos

Muito depressa: no credo

Mais adulto como no mais infantil

Somos sempre anjos caídos.

 

Uma imagem receosa é um resultado

Que não queremos,

Tememos falar dum dado,

Embaraçar-nos a nós e a quem amemos,

Perder a liberdade,

Uma pessoa querida,

Uma faculdade,

A própria vida…

 

Começo no medo,

Transformo-o em raiva,

À agressividade cedo,

Luto como carraça

Contra quem eu saiba

Que me ameaça.

 

Tudo provém dos pendores de vida

Que quero manter.

Evito as perdas na medida

Em que, por todo o lado

Me distancio de todo e qualquer

Resultado,

Para aderir, calmo e contrito,

À vontade do Infinito.

 

 

698 - Futuro

 

O futuro aceita

Pais desajeitados,

Professores enervados,

Qualquer pessoa imperfeita.

 

Assim cresçam com a imperfeição

Com que toda a criança dialoga

Dia sim, dia não,

Enquanto na onda voga.

 

Só quem não aceita a imperfeição,

Começando pela sua,

É que não cresce, tendo à mão

Sempre à frente nova rua.

 

Só quem não reconhece

A obrigatoriedade de crescer dele no apuro

Não aceita e esquece

O futuro.

 

 

699 - Sabedoria

 

A sabedoria não é da idade,

É a verdade

 

Que vem

De buscares no coração a resposta que convém

 

E de noutrem pensares, agora e aqui,

Antes de pensar em ti.

 

A sabedoria dá vida,

Dá conhecimento,

Vai dar a paz do espírito perdida

E a do coração em tormento.

 

Mostra que a vida é um lucilar de estrela,

Orvalho de madrugada,

Um nada em que tudo se revela

Berma de estrada

 

Onde concito

A fímbria do Infinito.

 

 

700 - Aceitar

 

Mal desejes deveras a felicidade,

Logo ela te encontrará.

Levar-te-á

A aceitar com frontalidade

Tua perda, na justa medida

Em que te ponha de bem com a vida.

 

A felicidade vai-te permitir,

Nas conjunturas mais negras,

Esperança sentir

E paz

Em pleno mundo sem regras,

No caos falaz.

 

Serás excepção:

Uma estrela no céu

Com a raiz no chão

Donde virente cresceu.

 

 

701 - Flor

 

Como os dias de nossa vida

Voa a flor de cerejeira

Para longe, distraída

E leveira.

 

É um efémero evento

Maravilhoso,

Um portento natural, portento

Saudoso.

 

Não pressentes que o assina

A presença divina?

 

Desabrocha a flor,

Irradia brancura

E, após um instante de fulgor,

Já não é mais, ausência pura.

 

Pétala a pétala morre,

Expulsa-a o vento

Como a nós o tempo que corre,

Fatal, momento a momento.

 

A saudade doutra dimensão

Magoa-nos o coração,

Tenhamo-la ou não em vista,

Exista

Ou não,

No horizonte para onde aponta a pista

De nosso chão.

 

 

702 - Primeiros

 

De Deus os profetas pioneiros,

Os primeiros jardineiros,

Morrem.

Os que depois acorrem

Uns com os outros se zangam.

É humano, todos mangam

Doutrem com a ideia para o adubo:

Ou é pelo animal sacrificado que a Deus subo,

Ou é pelo vinho e pelo pão,

Ou então é de água apenas a questão,

Mas logo outro quer água mineral,

Enquanto água filtrada é para o vizinho o sinal;

Além querem lume a queimar folhas secas,

Aqui apenas ar, senão tu pecas…

 

Todos são ecologistas

Mas nunca se entendem nas pistas.

 

Um deles publica um dia

Dele o modo de tratar

Da venerável árvore da fé.

Logo tudo se enfuria,

Todas as religiões vão começar

A se defender

E a combater,

Até cada qual num território tomar pé.

 

Na Primavera,

Quando a venerável árvore cresce,

Cada jardineiro fica com o ramo duma espera,

Uma divergente prece

E, em lugar do Deus único nos céus,

Em cada galho, seu deus.

 

Ora, qualquer árvore tem de ter ramos

E, se não é podada, definha.

Quando um ramo não dá folhas, dentre os amos

Um novo jardineiro o vem cortar em toda a linha.

 

E logo ele renasce

Para o rebanho que pasce.

 

Quando o judaísmo começa a secar,

O jardineiro Jesus corta o ramo morto,

O que dois virentes ramos vem a dar,

Em vez dum, para mais torto.

Quando o cristianismo se enche de bolor,

O jardineiro Lutero o ramo poda

E um inesperado esplendor

Dos dois novos galhos traz à boda.

Quando à Primavera o bramanismo despreza,

O jardineiro Buda faz-lhe a limpeza…

 

E são assim

As contas do rosário sem fim.

 

Resta entendê-las

Como de árvore as pernadas,

Degraus de escadas

Por onde trepamos às estrelas.

 

 

703 - Impossível

 

É impossível sem Deus morrer

Mas, em contrapartida,

Não é impossível crer

Que tal ocorreu, à despedida.

 

Ora, o que se crer

É o que do lado de lá

Se irá

Viver,

 

Ao livre arbítrio ninguém,

Nem Deus, o retém,

 

Nem do lado de cá da vida,

Nem após a derradeira ida.

 

 

704 - Experiência

 

Experiência temos

Dum mundo tridimensional.

Porém, o mundo em que vivemos

Não é todo o real.

 

Complexa que baste

É a Realidade Final

Para ir infinitamente além

De quanto, mal ou bem,

Imaginaste.

 

Nenhum horizonte a abarca,

Tanto nossa vista é parca.

 

 

705 - Limite

 

A vida é eterna, o amor, imortal

E a morte é apenas um horizonte.

Ora, um horizonte, afinal,

Marca somente o limite da ponte

Cujos arcos são

Os da lonjura de minha visão.

 

 

706 - Sabor

 

Sabor a Deus: a eterna vivência

De ti próprio como criador…

Deus é o Criador por excelência

E, quando vivenciares-te a ti te vem propor

Como criador, o teu destino

É vivenciares-te a ti próprio como divino.

 

 

707 - Singularidade

 

Da singularidade do Infinito

Sou a individuação,

A vivenciar simultaneamente da vida o fito

Em sequencial progressão.

 

Do Infinito gota,

Vivo o Todo na parte,

Em simultâneo de tudo a cota

E do rosário conta por que se reparte.

 

 

708 - Morte

 

É a morte o evento através de que te moves

Para atingir o outro lado,

Passagem entre o mundo físico que removes

E o reino espiritual, teu legado.

E depois, uma vez lá imerso,

É o inverso.

 

 

709 - Uno

 

A morte

É uma reintegração.

Longe de ser o desnorte

Duma fatal desintegração,

 

Todas as realidades basilares,

Simultaneamente trinas e unas,

Devêm singulares,

Que em unidade tudo coadunas.

 

Em toda a individualidade,

Nos mil pendores que reúno,

A Santíssima inúmera Trindade

Devém o Uno.

 

 

710 - Cume

 

Magníficas e verdadeiras são

Todas as religiões da Religião.

 

E todos os ensinamentos deveras espirituais

Caminhos são para Deus, enquanto tais.

 

E nenhuma religião e nenhum ensinamento

É mais certo que outro, no respectivo elemento.

 

De trilhos há uma quantidade tamanha

De chegar ao cume da montanha!

 

 

711 - Creias

 

Não creias numa só das palavras de Deus

Nem em nenhum profeta que fale dos Céus.

 

Ouve o que te disserem e após acredita

No que o coração diz que a verdade concita,

 

Pois no teu coração mora a sabedoria

E é nele que a verdade encontra a via.

 

E no teu coração se encontra Deus contigo

Na comunhão mais íntima de amigo.

 

 

712 - Viagem

 

Não andas em viagem para o Divino,

Mas a meio dum itinerário eterno

No qual experiencias, escolhendo teu destino,

Cada vez mais a Divindade, teu ser superno,

Ao avançar por dentro dela

No mar da vida que se te encapela.

 

Sentes cada vez mais o núcleo de teu ser,

Cada vez mais a essência de quem és

E a vida continua, continua a acontecer,

Cada vez mais a teus dois lados resvés.

 

Estás eternamente em fusão com a essência

E, como parte da teia da vida,

Emerges de novo dela, florescência

Exprimindo-a mais plena em cada degrau da subida.

 

 

713 - Simples

 

Deus és tu,

Para de modo simples o dizer.

Na verdade, sem tabu,

Deus é tudo em todo o ser.

Não há nada,

Debaixo ou acima dos céus,

Qualquer que seja a fachada,

Que não seja Deus.

 

Minúscula onda a esmo

Para o oceano que não apanho,

Assim sou para Deus: o mesmo,

Mas em minúsculo tamanho.

 

 

714 - Chover

 

Como chuva é a realidade final:

O facto de chover não podes alterar,

Mas podes alterar, afinal,

Tua vivência da chuva, ao mudar,

Em tuas anteparas,

O modo como a encaras.

 

Para mudar a Realidade Final

Não tens poderes,

Mas podes experienciá-la, total,

Da maneira que entenderes.

 

Acerca da Realidade escondida

Este é o maior segredo da vida.

 

 

715 - Esperança

 

A esperança intervém

Na morte e na vida,

Que ambas são também

A mesma realidade, assumida

Do lado de cá e de lá

Do espelho que no fim o mostrará.

 

Nunca desistas, nunca, da esperança!

É uma afirmação de teu desejo

No mais elevado píncaro que alcança,

Anúncio de teu sonho, teu harpejo

 

Mais ambicioso, tombados os véus.

A todo o momento

A esperança é pensamento

Feito Deus.

 

 

716 - Pejados

 

Todos os dias de tua vida

Estão pejados de pequenas mortes.

Qualquer deles te convida

A compreender:

Não há sortes,

Só transportes

Até o âmago do Ser.

 

 

717 - Núcleo

 

Que há de tão espantoso

No núcleo de meu ser?

Qual o gozo,

Que prazer?

 

O verdadeiro Eu,

O Eu pleno,

De fértil gineceu

O aceno.

 

A glória e o espanto

De quem sou, sem quebranto,

 

E do que a Vida é,

Semente árvore feita ali de pé.

 

Em resumo, sem mais véus:

- Deus!

 

 

718 - Fora

 

Em tempos imaginava

Que fora da maçã do Ser estava.

 

Meu sonho, minha esperança maior

Era vir a conhecer dela o sabor.

 

A velha espiritualidade

Tal me ensinou como verdade.

 

Não estou, porém, fora da maçã,

Sou dela parte, embora humilde e chã,

 

Desloco-me através dela nos gestos meus

E a maçã, no seu todo, é Deus.

 

Deus não apenas da maçã mora no centro

Mas é o centro de tudo a que me adentro.

 

Quando no real mais fundo repoisas,

Deus é todas as coisas.

 

 

719 - Desejos

 

Melhor que qualquer outro, nenhum caminho

É para Casa,

Apenas mais fácil ou difícil o adivinho

No que me apraza.

 

Todos os caminhos para lá te levam

Porque o que faz falta

É que ânsias de chegar em nós se atrevam,

Num coração puro, aberto, em alta,

Mais a fé de que Deus não terá razão

Para dizer "não,

Tu não podes estar comigo",

Qualquer que seja a motivação.

Muito menos ao abrigo

De que o réprobo em deus acreditaria

Doutra religião

Numa qualquer outra via.

 

 

720 - Libertares-te

 

Ao libertares-te de verdade

Sem hesitação nem arrependimento

De qualquer sentimento

De individualidade,

Tua alma aproxima-se da luz que a invade.

Aí ficas submerso, suspenso

Em algo de tal maneira imenso

Que já ninguém algum dia deseja

Vir a conhecer o que quer que seja

Que não isto, imerso na glória infinda, inefável,

Duma magnificência interminável,

Duma beleza sem paralelo, final,

E duma plenitude sem igual.

 

Depois de te haveres fundido nesta luz,

Sentes-te a dissolver-te noutra realidade.

Esta fusão que te seduz

Completa tua mudança de identidade.

 

Deixas de identificar o melhor de teu Eu,

De qualquer modo ou a qualquer nível,

Com o vector separado do ser que foi o teu