OITAVO TROVÁRIO
DA NORMA TRILHANDO A VIA E O SUOR
Escolha ao acaso um número entre 770 e 886, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
770 - Da norma trilhando a via e o suor
Da norma trilhando a via e o suor,
Lavro o poema
Em métrica incerta e de estupor,
O que as pegadas devem pôr
Ao incarnarem, vida fora, cada lema.
Em metro e rima desencontrados,
A poesia
Captura os inesperados
E a magia.
Os pés caminham, mesmo magoados,
Um pouco mais trôpegos de luz,
De alegremente encegueirados.
O verso tropeçado aqui traduz
Que estrela noite fora nos conduz.
771 - Leva-te
Leva-te por escolha tua
Em teu caminho.
Por isto apenas não somos escravos,
Por podermos escolher cada rua,
Cada vizinho
De nossas alegrias e de nossos agravos.
O resto que te vier à estrada
Não vale nada, nada, nada.
772 - Orgulho-me
Orgulho-me de ti
Que percebeste
Aquilo que quase ninguém vi
Que ateste:
Seguir teu coração,
Não doutrem as esperanças.
Não estou desapontado, não:
Estou feliz porque te alcanças.
E nisto, fecundo,
Também a mim me dás o mundo.
773 - Criatura
À receita da meta
Que nos resta,
Atenção
Cuidada:
Uma criatura só não presta
Se deixou de ser inquieta.
Ora, nós somos inquietação
Incarnada.
774 - Trabalhar
Trabalhar é degradante
Mas dá-me da pesca a cana.
Sem de ocupação constante
Atordoado,
Passajando a vida quotidiana,
Era o ócio entediado,
Angustiado,
A esbracejar
De lodo neste mar
De perguntas por quê a para quê.
Mas com o trabalho, não:
Aquilo já ninguém vê.
Cavamos o chão
E a metafísica enterramo-la nos matagais:
Absurdo é o tempo a mais,
Sem o vinho duma ocupação
Nos bornais.
775 - Enfrentam
A esperança é o grande refrigério
De nós, os fracos, a maioria.
Poucos enfrentam o mistério
Despido de fantasia.
Poucos têm a coragem
De encarar a verdade serena
De que nenhuma existência, na intérmina romagem,
Por ela própria vale a pena.
Por isto,
Argumento a encorajar,
Insisto,
Animo a continuar,
A dar alma até ao fim
Aos outros e a mim.
776 - Livre
Livre em plenitude
Ninguém o logra ser.
Pode, porém, de tal em virtude,
Idêntico a ele próprio percorrer
Toda a conjuntura,
E não o trilho de quenquer
Que apenas este configura.
Pesado é o custo
Da liberdade.
Dobra-o, justo,
O da própria identidade.
Aquela, até um decreto
A outorga e põe de pé,
Esta apenas encontra tecto
No que fundo nos invade,
Apenas faz fé
A total auto-responsabilidade.
777 - Atitudes
Quantas atitudes não tomamos
À espera de que outrem as tome!
E a vida assim desbaratamos,
Itinerário que permanente se consome
E não pode ser adiado
Nem diferido.
Nenhum elo de comunhão aguardado,
Tido no sentido,
Deveremos visar
Que primeiro não sejamos capazes,
Eficazes,
De ousar.
778 - Inéditas
Sempre inéditas são
As horas de humano desespero.
E as palavras, nesta ocasião,
Não prestam nem as tolero.
Repetem o dito e ouvido
Milhões de vezes, milhões,
Em qualquer gesto cortês,
Quando era, varrendo o rasquido,
Preciso ouvir e dizer, não velhos chavões,
Mas pela primeira vez.
779 - Televisor
O televisor não se auto-liga,
Nós é que o ligamos.
Assim, deixamos
Que ele o cérebro nos sugue sem briga.
E, se calhar, até gostamos.
Neste sentido,
O fascismo abolido
Somos nós que o repescamos.
E, desta feita, muito mais bem nutrido
Da fruta de novos ramos.
Quando a vida bem se foca,
Somos nós os autores
Das prendas ou dos horrores
Do que nos toca.
780 - Limita-te
Seja teu dinheiro
O dinheiro que for,
Na vida ao ires,
Limita-te a fazer, primeiro,
O melhor
Que conseguires.
781 - Fabricam
Campeões
Não os fabricam ginásios,
Vêm do fundo dos corações.
Case-os
Com um desejo, um sonho, uma visão
Que funda ter deverão.
Resistem então no derradeiro minuto,
Serão mais rápidos um tudo-nada,
Da capacidade-limite hão-de ter o usufruto,
De força de vontade, uma mina inesgotada.
E esta sempre, a indicar o norte,
Terá de ser a mais forte.
782 - Feixe
A integração
De todas as religiões
Num único feixe de união
Releva para que as orações
Tenham a força da energia
Capaz de resolver os perigos criados
Pelos que temem o dia
Nos vergéis ensolarados.
Enquanto for cada qual para seu lado,
Uma doutra concorrente,
Fica por regar o prado,
Morre da seca a semente.
783 - Geração
Cada geração é diferente
E a missão que tem,
Igualmente,
Também.
Não é refém
Da que veio anteriormente.
Eles combateram a tirania
Com armas e violência?
Doravante nomes como guerra ou inimigo
Eliminaria
Como primeira urgência,
Maior perigo.
É igual o heroísmo
Outrora
Ou agora,
Perante o abismo.
À partida
Não podiam o que puderam,
Mas persistiram.
Algo venceram,
Conseguiram
Da própria geração uma medida.
É o que temos de fazer,
Por nossa vez,
Do mundo no entremez
A decorrer.
O totalitarismo não morreu,
Apenas não busca doravante um império,
Cobre-se do solidéu
Da tecnologia
E seu mistério.
As forças da tirania
Aproveitam a nossa dependência,
Confiança, desejo ou conveniência.
Através do medo
Centralizam o tecnológico conhecimento
Duns poucos nas mãos de segredo,
Para que deles o provento
Fique salvaguardado
E o porvir do mundo, controlado.
Não podemos opor-nos pela força.
Apenas a democracia,
Próximo degrau mundial da liberdade,
Talvez os destorça
Um dia,
À medida que o mundo persuade.
Temos de usar nossa visão,
Expectativas a fluir de nós,
Como constante oração
A desatar os nós.
É um poder mais forte
Que o que adivinhais.
Urge dominá-lo, usar-lhe o transporte,
Antes que seja tarde demais
Do futuro
Para os ideais
Que inauguro.
784 - Fluir
Primeiro à energia do imo vais ligar-te,
Deixá-la fluir através de ti,
Um campo de energia visualizá-la a formar-te
Precedendo-te em redor, em cada agora, cada aqui.
Teu campo de energia trata após de focar
De forma a aumentar teu fluir vital,
Em expectativa te mantendo, em alerta a esperar
Cada sinal.
A seguir,
Para aumentar doutrem os níveis de energia
Prepara teu campo para de ti sair,
Irradia!
Quando teu campo a outrem chega desta forma,
Ele sente o impacto da clareza, da intuição
E vai retribuir-te, por norma,
Com a mais iluminada informação.
Afinal,
É apenas ir, ir, ir
Na infinita espiral
A subir.
785 - Conversão
De conversão interior a experiência,
As vivências iluminadas e devotas deveras
(De judeus, cristãos, budistas,
Muçulmanos, hinduístas…)
São o mesmo, na essência,
Em todos, em todas as eras.
Destaca apenas cada religião
Pendores diferentes
Desta mística interacção
Com Deus em múltiplas vertentes.
As orientais destacam o efeito
Sobre a própria consciência,
De leveza a vivência
Do que a levitar é atreito,
O sentimento de união
Com o Universo, o Infinito,
Dos desejos do ego a libertação,
Um distanciamento, quando de tudo me desquito.
O Islão
Sublinha o sentimento de unidade
Na vivência com os outros da partilha
E o poder da actividade
Quando em grupo se desenvencilha.
O Judaísmo a importância da tradição
Releva baseada naquela ligação,
A vivência de sentir-se escolhido
E de cada homem erguido
Ser responsável por fazer avançar
Dia a dia, semana a semana,
A semente
Eternamente
A germinar
Da espiritualidade humana.
O cristão prefere a ideia
De o espírito se manifestar no ser humano
Não só como a consciência, em maré cheia,
De ser parte de Deus donde eu emano,
Mas também como um Eu Superior,
Versão aumentada do que somos,
Mais completa, capaz, com mais fulgor,
Com orientação e sabedoria interior
A levar-nos a agir, tal se nos pomos
A Deus disponíveis sem escolhos
E Ele esteja a ver por nossos olhos.
O que sublinhar importa
É a vivência da ligação,
Não as diferenças que comporta
A humana condição.
786 - Falta
O que falta à maioria
Dos crescidos para crescerem
É reaprenderem
A escutar e comover-se, dia a dia:
É que inventem
Uns para os outros se moverem
Através daquilo que sentem.
787 - Desafio
O maior desafio da educação
É crescer para além de nossos pais,
Deles pela mão,
O que, em rigor, é aquilo de que, tenazes,
Mais
Desejarão
Que sejamos capazes.
788 - Talvez
Talvez cada qual ande ligado
Por uma corda forte
Dele ao melhor dado.
Se de quem devera ser demais se afastar,
Se perder o norte,
Da vida a estrela polar,
Pode sempre utilizar a corda
Para voltar atrás,
Retomar a pegada originária da horda.
É fácil perdermo-nos entre tanta distracção
E, quão mais novo, mais fugaz,
Mas também mais perto de mim à mão.
Afinal, não durou muito o tempo maninho
A afastar-me do caminho.
Quanto mais rápido regredir,
Maior a garantia de progredir.
789 - Frágil
A vida é frágil e temporária,
Nuvem que vemos um momento,
Logo varrida pelo vento
Em correria vária.
Usa o tempo que te foi dado
Para deixares indelével impressão,
O bem germina por todo o lado,
À mão e em contra-mão.
Não o desperdices
Mesmo quando te alcança
Com sovinices
De violência e de vingança.
790 - Bens
Desinteressado
Do que a comunidade entende por sucesso,
Acabo desligado
Do processo
E dos sinais
Dos bens materiais.
A medida
Em que enfim repoisas:
- A vida é para ser vivida,
Não vivo para ter coisas.
791 - Empenhamento
Da vida a bagagem
Uma evidência
Te põe à mão:
A viagem
É uma experiência,
Não uma lição.
Para aquela nesta derivar
Muito empenhamento haverá que suar.
792 - Migalhas
É melhor por ti mesmo descobrir,
As palavras apenas podem ensinar
Migalhas de teu saber ou intuir.
Vais aprender bem mais rapidamente
Se empenhares todos os recursos
A te orientar,
Prudente,
Em teus próprios percursos.
Os doutrem, no que ameiam,
No que pontificam,
Apenas de ti te alheiam,
Não te plenificam.
A paz
Contigo
Apenas encontrarás
Quando abrires teu postigo
Ao que és no que serás.
793 - Endurece
O coração endurece, o coração,
Da natureza quando se desgarra:
Desrespeita a terra do pão,
O ser vivo que desamarra,
E, por fim, calca também
O homem, pelo mundo além.
E nada
Vai poder parar esta escalada,
A não ser a conversão
(Que entretanto despreza)
De aconchegar o coração
No colo terno da natureza.
794 - Viverei
A perfeição é um sonho,
É esforço a realidade:
No real onde os braços proponho
Viverei minha vida de verdade.
Não viverei no mundo
Duma fantasia que me degrade,
Infecundo,
Por muito que me agrade
Da feérica falsidade
O encantamento jucundo.
795 - Semeia
Letargia
Semeia insatisfação.
Planear, trabalhar a minha via,
Atingir metas em meu torrão,
Leva-me a bem me sentir
Relativamente a meu porvir.
Serei feliz
Porque os objectivos que determinar
Nunca me permitirão, de raiz,
Obcecado ficar
Com os pendores que houver negativos
De minha vida nos arquivos.
796 - Árduo
O árduo labor,
A vitória e a derrota
Ajudam, de conjunto no teor,
A atingir das metas a altura da cota.
O objectivo é para ser fruído
Enquanto laboro para o atingir
E não apenas quando ser bem sucedido
Acaso eu conseguir.
Eis uma radical matriz
De ser feliz.
797 - Optimismo
Não temo que o porvir
Não devenha realidade,
Que o optimismo é minha estrela a tremeluzir
Da noite na opacidade.
Sempre que navegar
Nas águas agitadas da procela,
Olharei confiante para a estrela
E saberei que irei chegar
A bom porto, com aprumo,
Se mantiver o meu rumo.
798 - Batem
Todos somos confrontados
Com dificuldades.
Porém, os felizes são dotados
De faculdades
Que a todo e qualquer lugar
Os irão adaptar.
Quando uma tartaruga
Atravessa uma mesa,
O passo não estuga
Se uma pancada lhe pesa,
Antes, depressa,
Na concha esconde a cabeça.
É a atitude indevida
Da maioria, em cada jornada:
Não se adaptam à vida,
Batem em retirada.
799 - Forte
Não terei de receber
Tudo o que quero para ser feliz,
Porque bastante forte hei-de ser
Para adaptar-me à vida sem o que dela quis.
Minha felicidade
É de minha inteira responsabilidade.
Não depende do que acontece,
Mas, ao invés,
Do modo como observo os ventos da messe
E me adapto dos problemas ao revés.
Poderei tirar o melhor partido
De cada conjuntura,
Que é inteiramente a mim devido
O que dela se apura.
800 - Confinado
Seria feliz com mais amigos,
Se fora muito popular,
Se contara com estes mil postigos,
Para pelas vidas fora navegar?
Assim, fico muito sozinho
Dum bom lar confinado ao ninho?
Mas ter amigos não tem nada
A ver com ser feliz,
Excepto que ser feliz atrai uma fornada
De amigos a quem viver com tal matiz.
801 - Deixando-me
Ao sol obedecendo,
A lua observando,
As plantas imitando,
Deixando-me levar pelo vento, tremendo,
Descubro de mim próprio a sensação fugaz
Que cria ser apenas interior
E não, afinal, como deveras faz,
Compor
De raiz o mundo falaz.
802 - Escravizar-me
Não devo escravizar-me a nada,
Nem à minha filosofia de vida,
Nem ao meu itinerário espiritual.
Mais vale
Presenciar o que ocorre a cada jornada
Que deixar-me absorver
Pela camisa de forças urdida
Pelas ideias e crenças que tiver.
Meu sim ao caminho
É um não às algemas que nele adivinho.
803 - Ajuda
A natureza contactar
Ajuda a simplificar.
A própria natureza,
Embora complexa, preza
Manter-nos sintonizados
Com ritmos e prazeres fundo enraizados
Que nunca mudam
E que proporcionam, de vez,
Quando se nos grudam,
Solidez.
804 - Prudente
Se lograr alguma sabedoria,
Jamais limitarei meus actos
Ao que prudente se me afiguraria
Em detrimento, afinal,
Do amor, da paixão e dos desacatos
Duma ou outra loucura ocasional.
Qualquer sábio será sempre um pouco
Um sábio louco.
805 - Dúvidas
Quando responderes
A tuas dúvidas sobre a morte,
Terás respondido, sem o veres,
Às perguntas que tiveres
Sobre a vida e dela o norte.
806 - Mudar
Podes mudar tua perspectiva
Em qualquer conjuntura
Mudando tua mente objectiva
Quanto ao modo como a configura.
O que queres ver podes sempre decidir
E, tendo posto isto lá,
Vai ser isto, a seguir,
Que lá se encontrará.
807 - Escolhes
Se paras de tentar
Decidir o que fazer
E escolhes, a principiar,
O que desejas ser,
Então os dilemas
Dissolvem-se de repente
E das respostas os esquemas
Brotam, por magia, à tua frente.
808 - Contínuo
Pelo contínuo do tempo-espaço
Perambulo de passagem
Para meu Eu conhecer, passo a passo,
E para o experienciar durante a viagem.
E para depois recriar este Eu do nada,
De raiz,
Em minha jornada
De aprendiz,
Na próxima imensa versão
Da maior visão
Que alcançar, em meu canhestro voo,
De quem realmente sou.
809 - Actos
Os actos são teu derradeiro patamar,
Muitas vezes o que vem
Após o pensamento.
São tua tentativa de materializar
O que, conceptualizado, te devém
Linguagem do corpo em movimento.
No momento,
Porém,
Em que puseres o sentimento
Em palavras
E as palavras em acção,
Pode o afecto já muito ter perdido pelas lavras
Com a tradução.
Sê mui cuidadoso, portanto,
Com o movimento que tentas,
Se é que, deveras sábio, entretanto,
Chegue a ocorrer que te movimentas.
810 - Cuidam
Muitos cuidam por outrem fazer
O que, afinal, por si fazem.
Não é questão de querer ou não querer,
É o que todas as vidas nos trazem:
Todos fazemos por igual
Tudo para nós próprios, afinal.
Quando entenderes isto, deste, de repente,
Um passo em frente.
E, quando entenderes que se deve aplicar
À própria morte,
Deixarás de a recear.
Viverás a vida pleno e forte,
Pioneiro,
Até ao instante derradeiro.
811 - Germina
Todo o pensamento, palavra e acto
É criativo, germina em facto.
Do núcleo de teu ser qualquer energia
Libertada te recria,
Bem como toda a tua realidade,
De raiz, na factualidade.
E tu estás a ser mudado
Para o porvir correndo do passado.
Teu futuro é produzido
Em pequenos incrementos,
Não em grandes passos induzido,
Nem grandes decisões conforme os ventos.
Ao pequeno incremento
É que tens de andar atento.
Se assim fizeres,
O grande momento, a decisão monumental,
Deles próprios tratarão, sem o nem veres,
Da vida em qualquer estrada real.
812 - Cria
A maneira como olhamos
Cria o modo como vemos,
Não temos
Objectivos reclamos.
Se como vítima te olhares,
Como tal te verás, ante estranhos e pares,
Se te olhas como vilão,
Como vilão te verás, rasteiro ao chão.
Se te encaras como participante
Na teia da criação,
É como te verás daí por diante.
Se tomas de tua vida qualquer evento,
Incluindo a morte,
Como um dom,
Vê-lo-ás como um dom: é um tesoiro, um portento
De sorte,
Varinha de condão
A que poderás sempre recorrer com a magia
De te conduzir à alegria.
Se qualquer evento, ao invés,
A morte incluída,
Como uma tragédia vês
Que te enoitece a vida,
Para sempre acabarás num lamento
E não receberás dali senão sofrimento.
De ti depende, portanto,
Escolher entre a alegria e o pranto.
813 - Conseguir
Se conseguir olhar a morte
Como dádiva e não como tragédia,
Então não há nada na vida,
Nem as mortes pequenas ao acaso da sorte,
Que não possa ver como prendas, em seguida.
Até das maldades a comédia
De que fui eu próprio vítima também
Ou com que vitimei alguém.
Então deixa de haver sofrimento
Para mim e para os mais
Naquele momento,
Restam apenas de dor inermes sinais.
Quando aprender a viver bem
Com as minhas mortes todas,
Permito que os outros vivam também
As deles com novas codas.
Grandes ou pequenas,
Todas mudam de refrão na romaria das verbenas.
814 - Creres
Se não creres em Deus
E sem creres na morte entrares,
Deus estará lá, mas sem o veres,
Como ocorreu durante a vida em teus lugares.
Que Deus está presente terás de saber
Para presente senti-Lo poder.
Se quem olhar uma flor
Souber que ali Deus está,
Deus ali verá.
Se assim não for
Apenas verá uma flor.
Até pode, na terra maninha,
Mais não ver que uma erva daninha.
Quem olhos nos olhos alguém olha
E entende que ali Deus está,
Deus ali verá.
Se assim não for,
Não verá, na outra escolha,
(E não pode haver engano)
Senão mais um ser humano,
Porventura um malfeitor.
Se a ti próprio olhares nos olhos
Ao espelho
E entenderes que, sem escolhos,
Veraz,
Ali Deus está, para teu conselho,
Ali Deus verás.
Se assim não for,
Não verás senão alguém
A se propor
Entender quem
Ali porventura está
E acabas por ver alguém
Que, para já,
Nenhuma resposta
Tem
À pergunta posta.
815 - Duas
A diferença
Entre duas chuvadas,
Em minha vivência,
Vem do modo como forem encaradas:
Cada sentença
Revela-me aos mais em íntima fulgência.
Num caso ia de fato
A uma reunião?
A chuva foi um desacato,
Pôs-me em questão,
Intolerável intromissão
No caminho que apenas eu ato e desato.
Noutro caso,
De roupas informais vestido,
Sem hora marcada
Para nada,
Da chuva o imprevisto atraso
Foi deveras divertido.
Quem cria, assim,
Um ou outro ponto de vista tão diferente?
Eu, naturalmente:
- Tudo vem de mim.
816 - Centro
O que pensas, dizes e fazes envia
Do centro de teu ser
Uma vibração, uma energia,
Uma força qualquer.
Teus pensamentos, mesmo comedidos,
São vibrações,
Podem ser medidos
Em eléctricas tensões.
Tuas palavras vibram, reais,
Tuas cordas vocais.
Teus actos são
Uma vibração
De teu corpo dirigido
Em determinado sentido.
Estas vibrações
Formam particulares padrões
E obtêm frequências particulares
E todas estas flutuações
Singulares
Produzem perturbações,
Em seguida,
De energia nos padrões
Da própria vida.
São movimentos padronizados e variáveis
Das supercordas invisíveis
E são estas vibrações mutáveis,
Do Cosmos nos alicerces imprescindíveis,
Que produzem, verificável,
Uma matéria física variável.
É a alquimia da vida.
Podes modificar-lhe a frequência
Com o que pensas, dizes