DÉCIMO  TERCEIRO  TROVÁRIO

 

 

                        SER  E  AMOR,  LEI,  UTOPIA  SE  UNEM  ALÉM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 1341 e 1428, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                             1341 - Ser e amor, lei, utopia se unem além

 

                                             Ser e amor, lei, utopia se unem além,

                                             Em sonetos e trovários os capturo

                                             Como devêm,

                                             Ora a sós, ora juntos também,

                                             E na palavra o que inauguram inauguro.

 

                                             No metro e na rima configuro,

                                             Consumados,

                                             Os dinamismos que dentro de mim apuro

                                             Que me tecem por dentro e por fora os meus lados.

 

                                             Tudo unido, sou inteiro,

                                             Poema em carne assumido,

                                             E as palavras são do corpo meu viveiro.

 

                                             O que vivo tem, portanto, este sentido

                                             De como um todo viver rumo ao Todo prosseguido.

 

 


1342 - Bases

 

Aqueles que têm sorte

Não têm sorte nenhuma.

Sorte têm por recorte

Das bases que cada assuma:

 

Quaisquer oportunidades

Aproveitam expeditos,

Antecipam novidades,

De expectativas peritos

 

Positivas de vitória,

Cultivam uma atitude

De persistência notória

 

Que acaba tendo a virtude

De afastar, devindo forte,

Deles o que for má sorte.

 

 

1343 - Lindo

 

Cinzento ou chuvoso,

Frio ou ventoso,

Que lindo que é o dia de hoje!

 

Todo e qualquer dia

Surpreender-nos-ia

No entrançado que nos foge.

Terás de observar

Sol, vento ou luar,

Saborear a variação:

- Vislumbras que é belo então.

 

Mesmo a tempestade,

Mesmo o furacão

São uma beldade

A nos dar a mão.

 

 

1344 - Preferindo

 

Vamos preferindo imagens

Que mostrem a realidade

Que nos é própria, mensagens

Do que é nossa identidade.

 

Deviemos desconfiados

De vidas fantasiosas,

Sensatos e programados

Para saber que tais glosas

 

Nos dão uma realidade

Lipoaspirada, implantada,

Soerguida em qualquer grade,

 

Siliconada, apertada…

É um real muito irreal,

- Bem melhor é o nosso mal!

 

 

1345 - Contributo

 

Somos interdependentes:

Somente de estar aqui

Meu contributo é presente

À raça humana e, daí,

 

Ao porvir da humanidade.

Quem cuidar que é mesmo inútil

É que a praia o persuade

Que os seixos que a onda fútil

 

Banha e tornou a banhar

Em nada os faz diferir.

Deve daqui a um milhar

 

De anos à tal praia vir

Verificar quão de areia

Ela então andará cheia.

 

 

1346 - Esbanjar

 

Não têm fim as maneiras

De esbanjar quaisquer fortunas,

Para impressionar inteiras

Plateias ante que enfunas

 

As velas de interessado.

Dos negócios os gigantes

Crêem, porém, noutro fado,

Três mandamentos instantes:

 

Ao mínimo induzir custos,

Aplicar todos os ganhos

Na empresa aos preços mais justos

 

E nunca, em nenhuns amanhos,

Ostentar qualquer riqueza:

Isto o porvir tem que preza.

 

 

1347 - Querido

 

Quem nos é querido morre

Mas não nos deixa deveras.

Laboriosamente ocorre

Construirmos, pelas eras,

 

Altares aconchegados

Para eles, com as fotos

Na cómoda e noutros lados

Tanto ou mais que ela devotos:

 

Nas memórias dolorosas,

Pacíficas e saudosas.

É no incensar deste culto

 

Que o passado é desoculto

E que por nós eterniza

Os sonhos que realiza.

 

 

1348 - Ouvir

 

Para quando a aceitação

Dos outros com seus tormentos,

Toda a predisposição

De ouvir-lhes os argumentos?

 

E como não conceder

As migalhas só que restam

De nossa febre de ter,

Que nem aprestos se emprestam?

 

O termómetro anuncia,

Tal noutra febre qualquer,

Doença que cresceria:

 

Nosso vazio de ser

A invadir-nos fatalmente

Desde o coração à mente.

 

 

1349 - Itinerário

 

O itinerário do luto,

Via sacra dolorosa,

Que tarefa sem produto

E como é laboriosa!

 

Acolher real a perda,

Sofrer a dor que provoca,

Adaptar-se ao meio que herda

A vida doravante oca,

 

Guardar quem se foi em mente,

Seguir em frente o caminho

Com a saudade dolente,

 

Com a força do carinho

Que só a memória acarreta

Numa aurora a nascer preta.

 

 

1350 - Mereça

 

Vir ao mundo vale a pena

Apenas quando uma imagem

Deixa ali, mesmo pequena,

Que mereça, na triagem

 

De todo o tempo e lugar,

A celebração daqueles

Que ficam, erguendo o altar,

Mais a bênção a que apeles

 

Da natureza em redor.

Se a posteridade sente

Que de todas a maior

 

Grandeza entre nós presente,

A que leva às mais a palma,

É sempre a grandeza de alma.

 

 

1351 - Dádiva

 

A todos Deus nos dá força e fraqueza.

A dádiva por vezes da pessoa

É uma deficiência então que a lesa:

Consiste em ajudar alguém à toa

 

Compaixão a mostrar, em hora boa

De aceitação de tudo o que despreza.

Talvez a imperfeição que te destoa

Outrem possa ajudar em grata reza

 

E apreço por não ter deficiência:

Só não tombei ali graças a Deus.

Quem com tal de manter tem convivência

 

Pode desempenhar de professor:

Paramos de julgar, entendo os céus,

Quenquer é meu vizinho e tudo é amor.

 

 

1352 - Consertamos

 

Nós consertamos o que for preciso

Para alcançarmos o que acreditamos

Ser nossa meta, com ou sem ter siso.

Se, mesmo assim, conserto não logramos,

 

Se na parede estamos a bater,

Provavelmente significa então

Que não estamos a tentar fazer

O que fundo mandar o coração.

 

Mais dia ou menos muda a profissão:

Estamos destinados a acolher,

Mudado o rumo noutra direcção,

 

Certamente outra profissão qualquer.

Ora, o que importa é o coração aí

Bater conforme o que é meu ser em si.

 

 

1353 - Evento

 

Uns são sempre mais felizes,

Outros menos o serão.

Os pessimistas matizes

De má nova aqui verão,

 

Que nunca irão melhorar.

Há, porém, uma esperança:

Ser feliz tem mais lugar

No modo como se alcança

 

Um evento interpretar

Que nos ocorre na vida,

Que no evento singular

 

Por si tomado à medida.

Provém de minha atitude

Ler desgraça ou ler virtude.

 

 

1354 - Religo

 

Quando me religo ao Todo

Donde vem ainda o medo?

Sempre o medo é o nosso modo,

Não o elide nenhum credo.

 

Quando aqui, porém, o tenho,

Aceito a fragilidade,

Não tento, como o rebanho,

Ser forte contra a verdade.

 

É que sempre aqui em baixo

Haverá medo bastante:

Na matéria onde me encaixo

 

É a vivência dominante

E, ao invés, lá em cima vale

O amor incondicional.

 

 

1355 - Fundamental

 

A harmonia, a experiência

Fundamental da matéria,

É estar denso da vivência

De emoções duma miséria

 

Que é sempre mal resolvida

Mas por igual conectado

Ao infindo pressentido

No abismo de nosso fado.

 

Uma metade no céu,

Outra metade na terra,

Raízes no macaréu,

 

Antenas além da serra,

Tudo simultaneamente,

É de mim minha semente.

 

 

1356 - Falo

 

Falo do poder de libertar

Um homem da própria dele sombra.

Falo do poder de reparar

Num homem atado numa alfombra

 

De energias de hera enredadas,

De antanho provindas por herança

De cultura ou genes, lá injectadas.

Falo em liberdade que descansa,

 

Plena e finalmente, o transviado.

Falo do poder de entreajudar

O irmão prisioneiro que é encontrado

 

Na jaula detido que acusar,

Mui postumamente, os erros de antes

Que o prendem nos braços de gigantes.

 

 

1357 - Lágrimas

 

Andar triste todo o dia,

Lágrimas contendo adiadas,

Quanta perda de energia!

Pronto sempre deixaria

Corrê-las inesperadas

 

Em toda a altura e lugar.

É que é mesmo bem melhor

Tudo duma vez chorar,

À tristeza a hora impor,

 

A fim de me ver liberto

Da corrente a mim prendida

Em meu tornozelo incerto,

 

Tomar-me em mãos à medida

E prosseguir com a vida.

 

 

1358 - Circunstâncias

 

Só quando me vir cativo

Das circunstâncias da vida

É que sinto quão esquivo

É o lampejo decisivo

Da liberdade hoje haurida.

 

Então é que mesmo um nada

Pode ser tão importante,

De ar um hausto, uma lufada

Numa boca agonizante

 

Por vezes é uma viagem

À rua, ao supermercado,

Que à morte despe a roupagem…

 

Bebo um copo deste suco

E já não findo maluco.

 

 

1359 - Castigo

 

A perda como a doença

Nem sempre são merecidas

Nem de castigo sentença

De Deus, a testar a imensa

Multidão de almas perdidas.

 

Doença e morte há porque sim,

A maior parte das vezes.

O teste correcto, assim,

É o da escolha ante os reveses.

 

Orar pode não curar

Mas de fé dar energia,

Meios de com tal lidar.

 

"Eu por quê?" - mau se anuncia;

"Eu por que não?" - é que é via.

 

 

1360 - Proclamo

 

Não proclamo que sei tudo,

Explico só que mudei,

E que não há, sobretudo,

Magia em nada que mudo.

Aos bocados avancei,

 

Bocadinho a bocadinho,

E muitos nadas resultam

Num positivo caminho

Que uns tempos mais desocultam.

 

A vida é demasiado

Preciosa para ser

Um trapo desperdiçado.

 

O trapo apreciar quenquer

Deve à vida que lho der.

 

 

1361 - Formado

 

É formado o coração

De tal modo que fazer

Algo que em recordação

Lhe fique em marca no chão

Vida além sempre requer

 

Que de vez lhe sobreviva.

Marca a superioridade

Sobre quanto a terra esquiva

Permite que sobrenade.

 

É o que lhe funda o poder

Com que os sonhos pontifica

Do que atinge e quiser ser.

 

E é o que em tudo verifica

Que no mundo o justifica.

 

 

1362 - Palavras

 

Quantas vezes te arrependes

Das palavras proferidas!

Jamais repeso te atendes

Daquelas que tu entendes

Não dizer, em ti retidas.

 

Às proferidas jamais

As poderás retomar

Dos furacões, vendavais

Que hajam de desencadear.

 

Porém, às não proferidas,

Se algum bem delas vier,

Jogá-las às avenidas,

 

Sempre e num lugar qualquer,

Podes, se tal te aprouver.

 

 

1363 - Anúncio

 

Um anúncio de mulher

Tónica põe na aparência;

Dum homem é o que puser

Recursos em evidência.

 

Quão mais velha uma mulher,

Menos respostas recebe;

Com os homens ocorrer

O contrário se concebe.

 

Sempre é de incluir simpático

Num anúncio singular:

Quem o faz é feliz, prático,

 

Sociável, popular.

E tudo isto preconiza

A boa prole que visa.

 

 

1364 - Mar

 

Fico logo mais feliz

Quando alguém a si me uniu

E, nele, a toda a raiz

Dum povo que me teceu.

 

Já não sou mais solitário,

Já não vivo mais sozinho.

No mar grande originário

Apenas um sou, maninho,

 

Mas pertenço ao mar infindo.

Minha vida separada

Já não vive além do lindo

 

Pélago, todo em meu nada.

Quão mais nada sou em Tudo

Mais eu nele ao fim me mudo.

 

 

1365 - Longe

 

A vera sabedoria

Poderá ser encontrada

Dos homens longe da via,

Das habitações da estrada,

 

Nas vastidões solitárias,

Grandes a perder de vista,

E alcançada em temerárias

Dores que são dela a pista.

 

Sofrimentos, privações

São os únicos portais

Aptos a abrir os saguões

 

Da mente àqueles sinais,

Ocultos doutros aos olhos,

Que, reais, são vida aos molhos.

 

 

1366 - Menos

 

Um homem é tanto mais

Quanto menos ele for

E tanto menos, aliás,

Quanto mais for produtor.

 

Já nenhum produto exprime

O imo dele nem prolonga

O profundo que o redime,

Que o ser tempo além lhe alonga.

 

Mera força de trabalho,

Entre coisas coisa reles,

Mais não será sob o malho

 

Do mercado que interpeles:

Este é o tempo desgarrado

Dum homem coisificado.

 

 

1367 - Brincam

 

Brincam anjos com estrelas

Se brincamos com crianças,

Solta a brincadeira as velas,

Abre os portões para as danças

 

Pelos jardins infantis

Cósmicos dum Universo

Onde todos, juvenis,

Com um Criador diverso

 

Brincamos em jogo alegre,

Bailando a festa do amor

Que dar-receber integre

 

Num espontâneo fulgor.

Quando com crianças brinco,

O açude à vida destrinco.

 

 

1368 - Sendo

 

A si próprio rotular-se

Como sendo um incapaz

Maior mal vai revelar-se

Do que o que o sintoma traz.

 

Pode levar a negar

O domínio interior,

Capacidade a emperrar

Seja que vertente for.

 

Atenção, pois, e cuidado

Antes de alguém vir a ser

Por qualquer mal rotulado

 

E tratado por quenquer

Tal se houvera um dado tal,

Pois nunca em ninguém é real.

 

 

1369 - Ambiente

 

As crianças bem florescem

Em ambiente de estremas

Bem marcadas que o guarnecem,

Que do aceitável são lemas,

 

Onde também se encoraje

Uma exploração aberta

Até o limite da laje.

Temos de estar sempre alerta

 

A manter limites claros,

Flexíveis a os alterar,

A ajustar os anteparos

 

A par do que os filhos crescem.

Sendo firme e justo a par,

Nunca os bens comuns decrescem.

 

 

1370 - Confiança

 

Os miúdos desenvolvem

A confiança à medida

Que aprendem que se resolvem

As carências que há na vida

 

Por quem toma conta deles,

Os adultos lá presentes.

As mensagens aos imbeles

E os cuidados persistentes

 

Devem ser mais agradáveis

Do que dolorosos ser,

No amor com bases fiáveis

 

Mais que no temor que houver.

E a teia da intimidade

Ata idade com idade.

 

 

1371 - Afectarão

 

Vergonha e culpa infundadas

Afectarão negativas

A procura das estradas

Individuais mais vivas.

 

Emoções tão poderosas

Bloqueiam frequentemente,

Pelo que são dolorosas,

O que o curioso tente,

 

Matam tanto a brincadeira

Como a criatividade.

Do refechamento à beira,

 

Induz tu à novidade:

Encoraja-te a trilhar

As escolhas por que optar.

 

 

1372 - Reconstitui

 

Reconstitui, natural,

Desfrutar da natureza,

Literatura abismal,

Jogo e brincadeira acesa.

 

O jogo mais brincadeira,

Parceiros de crescimento,

Contexto são que aligeira

A interacção entre eventos.

 

Vão estabelecer laços

De alvos significativos:

Brincar juntos gera abraços

 

Que, não sendo mais esquivos,

Duma forma inesperada

Celebram a madrugada.

 

 

1373 - Porta

 

Visto serem criativas

E viverem sempre alerta,

Experimentam, furtivas,

Exploram a porta aberta.

 

Querem sentir segurança

E conhecer-lhe os limites,

Que experiência não alcança

Benefícios nos palpites.

 

Não digam, pois, às crianças

O que fazer ou que não,

Que à inventiva corta as franças,

 

Mata o poder de expressão,

Irá torná-las esquivas.

- Quem as não vai querer vivas?

 

 

1374 - Erros

 

Um dos erros mais vulgares

Em que incorrem pais modernos

É dobrarem, dando-se ares,

A espinha, em trejeitos ternos,

 

Para nunca magoarem,

Prejudicarem os filhos.

E os males que resultarem

Da rédea solta aos sarilhos

 

Num mundo grande demais

Para com ele lidar

Sem liderança dos pais?

 

Que é que os filhos vão julgar

Ao partirem os narizes

Por falta de tais matrizes?

 

 

1375 - Mães

 

Há tantas mães esgotadas

Para agradarem a todos!

São nisto desrespeitadas:

Da família nos engodos

 

Não têm partilha alguma.

As crianças mais zangadas

Não têm quem lhes assuma

Limite a impor às pegadas.

 

Se levam os pais à fúria,

É para impor-lhes que a incúria

Supram de implantar limites.

 

De pai abdico do rol

Se ao filho largo o controle

Do dever de meus palpites.

 

 

1376 - Moral

 

Moral desenvolvimento

Brotará da compaixão:

Ética tem coração,

Não normas de entendimento.

 

Quem numa crise dirige

É coração, não cabeça.

A coragem, atravessa

Um sentimento que exige

 

Habitual altruísmo,

A vontade de arriscar

Por outrem, mesmo ante o abismo,

 

Não é um pensamento frio.

Quem nos vai determinar

É do coração o ousio.

 

 

1377 - Melhor

 

O melhor sobressair

De quem encontres farás.

Energia transmitir

Aos ignaros nunca vás

 

Que a imortalidade não

Conheçam a se encarnar

Em cada criança-irmão

Que à mão nos venha a ficar.

 

Reconhece-o tu, porém,

Relaciona-te com ele,

Fá-lo progredir além.

 

Ao vector de eternidade

Ajuda, no que o impele,

A devir de nossa idade.

 

 

1378 - Busca

 

Um filho quer estatuto,

Busca reconhecimento.

Se mal cozinho o conduto,

Da educação perco o evento.

 

Ele rápido um reizinho

Devém e vai pôr-me aos gritos

Com a atenção que sozinho

Concitar, um de seus fitos.

 

Na escola é posto na rua,

Eis a cruel recompensa!

Nenhum labor se insinua

 

Para brincar na licença

E a falta de desafogos

De computador são jogos.

 

 

1379 - Explica-lhes

 

Porque lhes dás instruções

Explica-lhes sempre então.

Ouve a tua explicação:

- Soa estúpido o que impões?

 

Se é o caso, reanalisa

As instruções que lhes deste

E muda-as no que, enfim, preste.

O filho respeita a brisa

 

Que o frescor faz esperar.

Quando és ditatorial,

Na berma é que irás parar,

 

Não te obedece por tal.

E terá boas razões

À recusa do que impões.

 

 

1380 - Ordens

 

Dar ordens não é eficaz.

Escola e família falham,

Que só normas nelas talham

Absolutas, o que faz

 

Que nunca admitam desvios:

"Não perguntes, não refiles!"

Mas crianças com que atiles

As margens saltam dos rios.

 

Aguardam que nos sentemos

E partilhemos com elas

Um tempo de qualidade,

 

Presentes, não às janelas:

Gratificação daremos,

Tangível idade a idade.

 

 

1381 - Rejeitados

 

Os adultos sentem, falam

E actuam de modo tal

Que os filhos sentem-se mal,

Rejeitados, e se calam.

 

O que é não acolhedor

Prejudica o crescimento,

De aprender é travamento,

O que transpira é temor.

 

Se eu for um menino mau

E que não é desejado,

Findo a afundar-me no vau.

 

Se um menino for bonito,

O mundo é de amor talhado,

Salto o vau e além me fito.

 

 

1382 - Farei

 

"Que farei com o meu filho?"

- Quem pergunta quer dizer:

"Quero que mude de trilho!"

O alvo então será fazer

 

O miúdo colaborar.

Ora, quando obrigo alguém,

Minha vontade forçar

Vai vontades que ele tem.

 

Cria lutas de poder

E a criança então detecta

Os medos que em mim houver.

 

Ele quer-me em paz, seguro.

Pressionando-o, o mal se injecta

E só temor nele apuro.

 

 

1383 - Experienciamos

 

Experienciamos aquilo

Que afirmamos ser verdade.

Se um filho crês que a maldade

Corroborará tranquilo,

 

Isto é o que experienciarás.

Se o modo de pensar mudas

E bom o vês, quando acudas,

Logo nele outro verás.

 

Ele então vai-se portar

Como o hajas visualizado,

Cada pormenor a par

 

Do sonho que for sonhado.

Pode instantânea ser cura

E a vida inteira perdura.

 

 

1384 - Requeiro

 

Requeiro um tempo sozinho,

Abro-me então totalmente,

Uma flor de rosmaninho

No jardim, longe da gente.

 

E, na mata natural,

Alheio à vida diária,

Revejo-a atrás do cendal,

À distância, solitária.

 

Sem ter este tempo a sós,

Só vejo o que me rodeia

Confuso e perdido após.

 

À distância, a vida é um todo,

De nitidez então cheia,

Vislumbro o caminho e o modo.

 

 

1385 - Crescer

 

A grande oportunidade

De crescer de que dispomos

São as relações que pomos

Fundas a ser de verdade.

 

Só quando nos reflectidos

Vemos noutrem é que temos

O espelho do que seremos

Falhados e conseguidos.

 

Se conseguir encarar

Questões que os filhos levantam

Como ocasiões de voar,

 

Os incómodos problemas

Deixam de o ser porque encantam,

Todos de festa são temas.

 

 

1386 - Básica

 

É regra básica a ter

Regras básicas ter menos

E mais linhas se tecer

De orientar os pequenos.

 

Quão mais princípios, valores,

Detiverem, mais irão

Descobrir acções melhores,

Próprias para a ocasião.

 

Código do coração,

Mesmo se eu não for presente,

Escolhas deles virão,

 

Tudo com o amor coerente.

Conselheiro em quem confia

Mais vale que a ordem fria.

 

 

1387 - Ensina

 

Ensina como pensar

E o que pensar muito menos.

Conhecimentos levar

Não é o fito, ante os pequenos,

 

Mas antes sabedoria,

Saber com arte aplicado.

Se esta lhes der lhes daria

A descoberta por fado.

 

Conhecer em certo grau

Da sabedoria é leira,

Mas só se dela é degrau.

 

Competências, não memórias

São da criança a cimeira

Meta a dar novas histórias.

 

 

1388 - Prender

 

Não digas para não se preocupar,

Mas é não se prender a um resultado

Particular qualquer que irá contar.

Tudo o que vida além for sendo dado

 

Difere do que quero e que hei sonhado,

Como que