NA CARNE DA PALAVRA
PRIMEIRO CANTO
NA CARNE DA
PALAVRA É QUE EU ME SONHO
Escolha aleatoriamente um
númeo entre 1 e 113 inclusive.
Descubra o poema
correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1 – Programa da palava
Na carne da palavra é que eu me sonho
E nela rasgo estradas de sentido,
Enterro o pé no chão onde me ponho
Em ergo-me de palavras revestido.
Na quadra popular de amor vivido
Os roteiros encontro que proponho
Pedra a pedra seguir, rumo ao subido
Irregular caminho meu medonho.
No soneto, a remota voz antiga
Vai demudando irregular o tom
Até quebrada quase ser cantiga.
Está escrito meu fado, mau e bom,
E vai ser de ironia e com furor
Que o irei modelando ao bom-humor.
2 - Na carne da palavra é que eu me sonho
Na carne da palavra é que
eu me sonho,
Primeiro nas estâncias regulares,
Com os ritmos e as rimas singulares
De quando em minha vida amor disponho.
Laços de tom alegre ou tom bisonho
Que deslaçam e enlaçam vida aos pares,
Laços que juntam pés, saltam algares,
Que solidários rumam ao risonho
Dia de festa que ninguém espera,
Mas que, na romaria, nos lembramos
Que a Humanidade atrai já, de era em era,,
Lá dos confins, desde os primeiros tramos.
Os laços canto que dum laço são
As amarras que ao Fim nos levarão!
3 - Zelo
Cozinhar é brincadeira,
Brincadeira de crianças,
E um prazer bem à maneira
De adultos que sonham danças.
- E, com zelo, é se supor,
Com zelo é um canto de amor.
4 - Vigília
O Natal não será o dia
Do nascimento de Deus,
Na Páscoa é que Deus faria
Um dos gestos que são seus:
Retornaria da morte.
O Natal é só vigília
Que nos inaugura a sorte:
- É onde nasce a família.
5- Fio
Quando alguém estuda o fio
Da História, o que salta aos olhos
É que desgraças e abrolhos
Nos apontam o pavio
De todo o progresso humano:
Elevar a condição
Doutrem, civilização
Nos gerou, mágico arcano.
Importar-se um pouco mais
Com os demais semelhantes,
Respeitá-los mais do que antes,
São doutro mundo os sinais.
Aboli a escravatura
Por respeito à vida humana.
O habeas corpus emana
Quando a criança se apura
Que inocente, irresponsável,
Há-de ser perante a lei.
Justiça igual para a grei
Hoje é um ideal fiável.
Findo a pena capital,
Não pelos executados
Mas porque penalizados
Somos nós por este mal:
O respeito pela vida
No-lo impõe e determina.
O mal o mundo o elimina
Ou, para que então progrida,
O acolhe por sua sina:
E então a pena de morte
Virá ditar-nos a sorte.
6 - Pouco
Ninguém pode melhorar
Todo o mundo de repente,
Mas um pouco toda a gente,
Melhor lhe pode o lugar
Para o futuro entalhar,
Todo o dia, se o consente.
- Com paciência há-de em lar
Devir tudo lentamente.
7 - Namorico
O namorico é uma teia
De aranha que ali se estende
Do macho à fêmea que enleia,
Onde um raio de sol dança
Que nela jamais se prende
- E aos dois na armadilha entrança.
8 - Investir
Se os pais viverem dispostos
A investir um pouco nelas,
As crianças são estrelas
De amor e carinho a postos,
Por eles a abrir janelas
Do dia em todos os rostos.
Nós, para o resto do mundo
Ignaros trabalhadores,
Para os filhos os maiores
Ídolos somos no fundo.
E, se a vida nos humilha,
É que não é nossa filha.
9 - Primavera
Primavera, ano após ano,
E sempre a mesma surpresa!
Solta ao vento o belo engano
E o mundo chilreia e reza.
Como é que nos prende tanto
Se tanto ao fim se repete?
Segredo de tanto encanto
A estação não o promete.
É que vem do coração:
Da Primavera as belezas
São do amor um galardão,
Doido, doido por surpresas.
10 - Compra
Não compra um amor ninguém:
Uma mulher que se vende,
Se aluga, afinal, a alguém
É um sonho o que nela prende.
O sonho se vende e compra,
Mercadoria impalpável,
Pagamento duma sombra
E por forma inumerável.
Pagamento da ilusão
Voluntária: aqui talvez
More a única função
Que não engana de vez.
11 - Fundidas
Os teus próprios sentimentos
Afirmam que já não és
O que eras noutros momentos,
Fundidas as nossas fés.
Prometias primaveras,
Éramos um coração.
Hoje, o pesar das esperas,
Onde houvera um só à mão,
Em dois tornou e as quimeras
Caíram mortas no chão.
Quantas vezes, pelas eras
Pensei como tudo é vão!
Preciso é que te liberte
Pelos rebentos do amor,
Em vez do que põe-te inerte,
Sem mérito nem valor:
Porque em lucro a intimidade
Andas medindo, inconforme.
E nem esta falsidade
Contra o valor mais enorme,
Ao trair assim a sorte,
Há-de evitar um momento
que. Logo após o desnorte,
Tombes no arrependimento.
É o lucro o que não tem cura!
E, por toda a eternidade
Isto dura, dura, dura,
Nada cura a enfermidade.
12 - Avança
Grita a voz do tempo: “Avança!”,
Que só para melhorar
O tempo serve ao que alcança,
Para aqui talhar um lar.
É a maior utilidade,
Rumo a uma vida melhor,
Por maior felicidade
Que um homem queira propor.
As trevas e a violência
Vieram como se foram,
Sofrer, morrer a inocência
É o caminho que demoram.
Quem retroceder o quer
Ou quer impedir-lhe o curso,
Quer a máquina tolher
De tão potente discurso
Que destruirá quenquer.
Nem a travará sequer:
Ela retoma o percurso
Implacável e feroz,
Indemne ao que aconteceu,
Afoga a contrária voz.
Que o tempo jamais descansa,
Comanda, fatal: “Avança!”
13 - Segunda
Doutrem preocupação,
Quando alguém dela se ocupa
É sempre em segunda mão,
Acaba por vê-la à lupa.
Tal como o fato alugado
E o recomprado não distam,
Talvez se dispam e vistam
Com fácil demais cuidado.
Preocupação arrefece
Quando é noutrem que acontece.
14 - Deserda
A Nação é aquela casa
Que deserda os próprios filhos
quando sugerem que atrasa,
Dos costumes com cadilhos,
A melhoria que abrasa
As leis novas de mil brilhos.
Ao invés, à velharia
De decrépitos amáveis,
A denúncia só viria
Torná-los mais respeitáveis.
Mesmo assim sempre a Nação
Tem, para tais maltratados,
O quente sabor do pão
Repartido sem cuidados.
15 - Escravas
Criaturas abnegadas
Como são estas mulheres
Que por amor comandadas
Se transmudam noutros seres,
Escravas vão parecer,
Porém sempre voluntárias:
Da juventude que houver
E que perderam, sumárias,
Da beleza que sonharam,
Também das capacidades
Que sempre se lhes furtaram,
De esperanças e vaidades
Fora de suas idades…
Nada melhor que o serviço
Bem fiel do coração
Prestado com todo o viço,
Sem mercenários do pão.
Aqui é que moram anjos,
Não naquelas mais dotadas
A que some tocar banjos
Só porque ricas de arranjos
Mas não de francas entradas.
A estas, quando as apontas,
Apontas da banca as contas.
Aquelas que sempre esqueces
São teu chão. Que não tropeces!
16 - Mistérios
Se dum mui próximo amor
Surgem os mistérios grandes,
Do afastamento pior
Tais serão que os nem comandes.
Só que neste o misterioso
É que te escasseiam dados.
Naquele o mistério gozo-o
Em seus fios delicados.
17 - Maldição
O problema é que a beleza
Não basta a justificar…
Quando nada a oferta reza
Mais que o fácil murmurar
“Vamos lá fazer amor!”
A pressão sobre os sentidos
Devém enfado maior,
Ameaça de perigos
Que traem a liberdade.
Que amor então persuade?
Este amor vindo à traição
Devém uma maldição.
18 - Validos
A felicidade a dois
Não existe, é solitária.
A que existe vem depois,
É uma paz única e vária,
Depois do amor dos sentidos
Ter perdido seus validos.
19 - Morte
Toda a morte dum amor
É morte dum ente amado:
Igual o rasgão da dor,
O vazio em todo o lado,
Travo de resignação
Com que nos arrasta ao chão.
Mesmo quando fomos nós
Que o esperámos, cansámos,
Para desatar os nós,
Para enfileirar os tramos
De autodefesa e bom senso
Com que livre me pertenço,
Mesmo assim, daquela morte,
Viúvo de invalidez,
Sou mutilado consorte:
Ficamos a olhar de viés,
A ouvir dum só ouvido,
Ao meio o corpo partido.
Não paramos de invocar
A metade então perdida
De nós, esvaída em ar,
Aquele ou aquela vida
Que nos fazia sentir
Inteiros e com porvir.
Então já não recordamos
As culpas nem os tormentos
Que, infligidos, evocámos,
E menos os sofrimentos
Que em convívio nos impôs:
Limpa-os a saudade em nós.
Torna-o a memória amável,
Melhor, extraordinário,
Ao tesoiro ora admirável,
Único num mundo vário:
Perde a lógica a premência,
Como insulto à inteligência.
E, por mais que o masoquismo
Nos esgatanhe as feridas,
Em amor o mal que cismo
Quebra as lógicas sabidas.
- Só o tempo que tudo evita
Da morte nos ressuscita.
20 - Vendavais
Não, não é mesmo verdade
Que o amor e a amizade
Sejam mesmo a mesma coisa.
Mesmo quando em ódio poisa
Ou de ódio quando nasceu,
Um amor sempre fremiu
Sozinho em força que tem
E à amizade não convém.
Um amor tem prémios tais,
Um amor tem tais castigos
Que solta até vendavais
E leva a esquecer amigos.
Onde há promessas iguais,
Onde tamanhos perigos?
21 - Postiços
Mulher com dentes postiços
Para que busca marido?
Da solidão os enguiços
Se esconjuram com chamiços
Do que útil é, se é vivido.
O postiço põe-na à beira,
Vivido convictamente,
De atear uma fogueira
Que deveras já não mente.
22 - Escrava
A mulher é escrava do homem
E este, do instinto animal:
Se à mulher bruxos a tomem,
A estes, forças que os domem
São sapos do pantanal!
Todo o amor vive enraizado
No estrume em campo espalhado.
23 - Sombras
Um homem de meia idade
Tem o mundo povoado
De pessoas que morreram…
As memórias persuade,
Como sombras a seu lado,
A caminhar como eram,
A falar da meninice…
Como os antigos demoram!
Não há filho que servisse
Em troca dos que já foram.
24 - Tropa
Perdem-nos assim um filho!
Mandam-no-lo para a tropa,
Perde-se atrás do negrilho,
Engolido pela copa…
Perdem-no-lo doutro modo,
Como uma chave de fendas,
Ferramenta sem engodo
Perdida no chão das tendas,
Abandonada de todo,
Como quem perde uma luva
Descuidadamente à chuva…
Não sofrem nenhum sarilho
E nem se ralam sequer…
- Vão procurar logo o filho
Duma outra mãe qualquer!
25 - Talude
O que interessa à saúde,
À melhora que se tenta,
É crescer com a virtude,
Não dizer a quem se ilude:
“Já tenho um metro e setenta
De tamanho que te alenta.”
- Nunca saltar o talude,
Largar de mão quem sustenta!
26 - Coroas
É preciso acautelar-se
Das coroas de papel,
A cabeças por disfarce
Impostas em vez da pele.
Como se peneiram oiros
Das escórias com apuros,
Urge de teatro loiros
Distinguir dos loiros puros.
E quando certos jornais,
E quando certas pessoas
Gritam que vos enganais,
É a mentira das coroas.
Coroa que tem razão,
Não a deles mas a tua,
É a que toca o coração
E por dentro continua.
27 - Regra
Por alguém saber a regra
Não é por tal que não erra:
Sabê-la , em si não a integra
Nem por ela é fazer guerra.
E por não sabê-la é raro
Que alguém erre, por seu lado.
- Tanto o coração é claro
Ao presidir-nos ao fado!
Não é nunca na cabeça
Que o bem acaba ou começa.
28 - Verdadeiro
Toda e qualquer mulher muda
Quando um homem é presente.
Mas que o homem não se iluda:
Também ele é diferente.
Qual será mais verdadeiro
Ninguém logra descobrir,
Se o segundo, se o primeiro…
- De ambos se tece o porvir.
29 - Importuno
Quero ser compreendido
Porque quero ser amado.
Ser amado é pretendido
Porque amo, pelo meu lado.
Doutro modo é indiferente
Doutrem a compreensão
E um amor, a quem não sente,
É importuno até mais não!
30 - Solidez
Somos nós que conferimos
Os traços de solidez
A quem de amor preferimos.
Se ela ignora-nos de vez,
Pois mesmo quando nós somos
Apenas um entre mil,
Amá-la é ver nela assomos
De quem de deusa é um perfil.
31 - Lesões
A partir de certa idade,
Nossos amores amantes
São os filhos de verdade
De angústias que houvemos antes.
De nosso outrora as lesões
Com que ele nos escreveu
Determinam os guiões
Do porvir que vou ser eu.
32 - Ciúme
A vantagem do ciúme
É mostrar a realidade
A que um facto se resume
De fora e da intimidade:
É que é tão desconhecido
Que se presta a mil versões.
O que cremos bem sabido
Mal precisa de razões:
Tirámo-lo do sentido,
Não dá preocupações.
- Por mais que seja entendido
Sem os ossos nem tendões.
33 - Poético
Julgar o mau casamento,
A ligação a evitar,
É o poético momento
Castrar.
Julgar o acto patético
Do lado da putrescência
É não ver o que é poético
Na existência.
Normalmente nesta via
Aquele que se afundou
O que afinal perseguia
É o que sou.
E, na asneira prosseguida,
Aquilo que afinal fez
Foi o poema da vida
E foi de vez!
34 - Desesperado
Sem um motivo aparente
Fico só, desesperado.
Um sono e a conversa urgente
Com quem fique de meu lado
A insistir-me, convincente,
A não desistir do fado,
- E deveras pronto fico
Da serra a saltar o pico.
35 - Igualitarismo
Igualitarismo, não!
Na escola da vida, a escolha
Ou de amar é uma lição
Em que a divergência acolha,
Ou nos transformamos antes
Em monstros horripilantes.
36 - Galho
A mulher de carne lisa
Não lembra o rijo trabalho
De que o pobre bem precisa
Da vida ao podar o galho.
É pela possante e gorda
que vislumbra a formosura:
Lança a linha, estica a corda,
Talvez a vida então morda
E que haja de vez fartura.
37 - Mensagem
Se a mensagem que tu passas,
Quando te encontras frustrado,
É culpar a fonte graças
À qual ficaste de lado,
Em vez de escolher por lema
Ultrapassar o problema
Com o jeito adequado,
Se em vez de punir o filho
Por ter a regra infringido
Vais lutar, feito caudilho,
Contra a regra e o sentido,
Formado ele nesta escola,
De que é que te vens queixar
Se qualquer dia te imola
Ao que mui bem desejar?
É que ser bem educado
Não é só “se faz favor”,
Nem “muito, muito obrigado!”,
Mas aos demais dar valor,
Respeitar, ser respeitado,
Por trás não cortar de alguém
Que à frente nos não convém.
Se teu filho melhor queres,
Olha bem no teu espelho
E o que nele não quiseres
Nunca o faças, te aconselho,
Pois, para um pai melhorar
De qualquer filho as maneiras
O que importa é haver lugar
Nele às melhoras primeiras.
Doutro modo acabarás
Perpetuamente frustrado
De teu sonho sempre atrás
Sem nada lhe haver tomado.
38 - Lembranças
As boas lembranças são
Para reter e guardar.
Depressa correr e em vão
Pela vida a carregar