SEGUNDO CANTO
E NELA
RASGO ESTRADAS DE SENTIDO
Escolha
aleatoriamente um número entre 114 e 287 inclusive.
Descubra
o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
114 - E nela rasgo estradas de sentido
E nela rasgo estradas de sentido
Rasgo, sim, que a palavra é sentinela
E, quando ao grito dela presto ouvido,
Descubro o que entra e sai pela cancela.
E, quando de olvido
Uma ameaça houver,
Fico prevenido,
Não me irá colher.
E na palavra assento o ser que sou,
Gradual recriando ritmo e rima
Até no mapa ler por onde vou.
E assim atinjo os cumes lá de cima.
E as estradas que rasgo no meu verso
Com o mundo sou eu que ao fim converso.
115 - Futebol
O jogo da vida,
Como o futebol,
A atacar convida,
Dos medos o rol
Manda bloquear,
Na oportunidade
Importa marcar…
- Bom jogo, na vida,
É o que assim nos fade.
116 - Sabedoria
A sabedoria
Nem sempre é da idade:
Às vezes a via
Desta é só vaidade.
Então se adivinha
Da sabedoria
Quanto anda sozinha.
117 - Campeã
Campeã, cortando a meta,
Eras mesmo deste mundo?
Que pena, que pena o poeta
Não ser corredor de fundo,
Pôr nas pernas as palavras
A bater qualquer recorde…
- E de além, de Além nas lavras
Suspeitar que mundo acorde!
118 - Afluentes
O satélite, o avião,
Rio a correr para o mar,
De afluentes um milhão
Juntou de trabalho a par.
E, quando atingiu a foz,
Ergueu voo, deu-nos asas:
- Nos espaços para nós
Temos hoje novas casas.
119 - Felizes
Os felizes cantam viva,
Viva o presente deveras!
O passado em retentiva
É lição, mas doutras eras.
Quanto a pensar no futuro,
Sim, quando é de planear.
- É bom destino o que auguro
Aos pés firmes no lugar.
120 - Culto
Aprender tudo de cor
É doravante impossível.
O culto não é credível
que saiba tudo propor.
O culto é aquele que sabe
Procurar a informação,
Nem que seja a dum botão
Onde o mundo inteiro cabe.
Culto é o que sabe aprender
O testamento dos sábios
E o trilho após percorrer
Para lho colher dos lábios.
121 - Jornalista
Caderno de jornalista
São dados, informações,
Fontes em secreta lista,
Largas verificações.
Criar obra literária
É um enigma formular:
Daquilo a via contrária
Para um contrário lugar.
122 - Engodo
Um trabalha o dia todo,
Outro sonha o dia inteiro.
Muito mais raro é o terceiro
Que de ambos foge ao engodo:
Passa uma hora a sonhar
E depois, com ar risonho,
Todo o labor é lavrar
O corpo daquele sonho.
123 - Bicicleta
Roubaram a bicicleta
Ao menino descuidado.
A vingança mais completa:
Em boxista o hão mudado.
Feriram-no tão a fundo
Que, após todo o treinamento,
Para fugir ao tormento
Devém campeão do mundo.
Bastou ver nos adversários,
Para ser o campeão,
Nos pendores mais primários,
O rosto mau do ladrão.
124 - Discussão
Em qualquer situação
A discussão é uma perda,
Falhada utilização
Da curva do tempo lerda.
Ao evitá-la, quenquer
Evita mais do que a sanha,
Evita as lesões que houver
- E ao fim toda a gente ganha.
125 - Sensíveis
Os nossos pontos sensíveis
Levam a perder a calma
A não ser que, antes, risíveis
Os tornemos e, com alma,
Nos tentemos divertir
Com quanto não tem porvir.
126 - Artificial
Sorriso artificial,
Um toque de maquilhagem
A iluminar o sinal
Dum rosto de nova imagem.
Por afectado que fora,
A pouco e pouco sincero
devém logo, de hora a hora:
Vem do falso um riso vero.
A ilusão do pó-de-arroz
Salva do horror o tempero
Do rosto que ele me impôs
- E escapo do desespero.
127 - Votos
Certos votos repelidos,
Outros, porém, satisfeitos…
E são desejos cumpridos
Que o mal nos trazem, nos preitos
Que prestam ao que se alcança:
Perpetuam desde início
Aquele eterno suplício
Com que nos dói a esperança.
128 - Envelheci
Envelheci? Não, gastei-me.
Porque aqueles que envelhecem
Não se gastam, se conservam.
E quem no contrário teime
É daqueles que se esquecem
Daquilo que sempre observam:
- Gastarmo-nos, de ordinário,
De envelhecer é o contrário.
129 - Absurdo
Aceitando o absurdo
Podemos viver,
No absurdo quenquer,
Porém, devém surdo.
Os que a terra abandonar
Pretendem, só verificam
Que ela aos dedos vem colar
E mais prisioneiros ficam.
Não lhe fugiremos, não,
Que não a encontramos nunca
De caso pensado e então
É a morte o que o chão nos junca.
130 - Ponte
É a vida pequena ponte:
À direita, o paraíso,
O inferno à esquerda, horizonte
Com morte atrás do que viso.
E a terra firma, adiante,
Eternamente distante…
131 - Medo
Tenho de enfrentar o medo
Porque o medo é o assassino
Do espírito: mudo e quedo
Quando antes foi peregrino.
Que ele passe sobre mim
E através de mim se vá:
- Quando então lhe vir o fim
Ele é nada, resto eu cá!
132 - Inverso
Quem tentar ver a verdade
Sem ver os seus inimigos,
Sem rever a falsidade,
Não entendeu os perigos.
Era tentar ver a luz
Sem do inverso ter noção:
A nada logo a reduz
Quem não viu a escuridão.
133 - Máscaras
Somos máscaras baratas
Recobrindo pensamentos
Tresloucados que resgatas
Com vozes cujos intentos
São de abafar, tão sem jeito,
O silêncio de teu peito…
Silêncio que rasga a pele:
Ao final, sou eu que falto!
Como ele fala tão alto,
Como, calado, repele!
134 - Rebanho
Criança não é rebanho:
Se quarenta ovelhas vão,
O que o grupo tem de ganho
É que tal uma se irão.
Se tens quarenta crianças,
Cada qual o que ela tenta
É jogar nas contradanças,
Tal se ela fora as quarenta.
135 - Aguenta
Se o trabalho não sustenta
Como a qualquer ser humano,
Se a vida já não aguenta
A fome de que me irmano,
Quando toda a trabalheira
Começou e prosseguiu
E acabou de igual maneira
De desolação num rio,
Sem uma oportunidade
Nem qualquer alteração,
Digo a quem me persuade:
“Não me persuades, não!
Fica lá na tua festa,
No parque, põe o azevinho…
Já não cruzo nessa fresta,
Ficarei melhor sozinho.
Que vos faça bom proveito
E que se divirtam muito!
Não somos do mesmo leito,
Nada em comum há por junto.
E doravante cortado,
Um é o vosso, outro o meu lado.”
Aqui semeio a tormenta
Que de então, de qualquer modo,
Desde logo um mundo inventa,
Nem que seja a ferro e fogo.
136 - Ecos
Aqui sentado à sonoite,
À escuta do eco da estrada,
Ecos dos passos que acoite
São da vida a caminhada.
Ecos de todos os passos
Que passam na minha vida,
Da multidão eis os traços
Que em mim tem por fim guarida.
137 - Trilhos
Se queres prosperidade
Não esperes trilhos de oiro,
Leito em rosas de verdade,
Que serão de mau agoiro.
De esperas tão exaltado
Nunca alguém há prosperado.
Porém, se aguardas trabalho,
Se o encontras no caminho,
Se o lavras de sol e orvalho,
Se a jeito o pões, adivinho:
- Tomaste o vero partido
De prosperar com sentido.
138 - Faminto
Põe leite à frente do gato
Se queres sede de leite,
Mostra ao cão o desacato
Da presa que não enjeite,
Se queres treinar o dia
Em que ele a abocanharia.
- Se é impotente o homem faminto,
Mostra-lhe o que alarga o cinto!
139 - Fraqueza
Tua fraqueza é que, às vezes,
Só na vítima há coragem:
Não deixes que teus reveses
Te anulem com a abordagem.
Quando a altura chegar, solta
O teu tigre, o teu diabo,
E acorrentados em volta
Os mantém, até ao cabo.
E conserva-lhes os rostos,
Não à vista, mas a postos.
140 - Malho
Eu sei como deveio
Difícil para mim
Suportar em meu seio
A desgraça sem fim.
Sabes tu por acaso
Como se tornou fácil
À vida não dar aso
Em ti que a tens tão grácil?
Os braços nus e magros
Que não têm trabalho
Laboram nestes agros:
- Os de abater-te a malho!
141 - Sementeira
Colheita sem sementeira,
Só dos que semeiam mal,
Que, em leitura trapaceira,
Escondem feroz sinal.
Como se ninguém os vira
Sugar sangue da miséria,
Esbanjar, dançando o vira,
Da doença e fome a féria!
142 - Pragas
Não ganhei dedicação
Duma criatura humana,
Nem respeito ou gratidão,
Nem um lugar donde mana
Nada de bom, nada de útil
Que me tornará lembrado.
O meu ano é um ano fútil,
Pesadelo bem pesado.
Da vida recolho as bagas:
- Todas são pesadas pragas!
143 - Campeão
É divertido marchar,
Disparar à campeão
Do polígono nas linhas,
Explosivos manejar,
Às montanhas desde o chão,
A suar as estopinhas,
Trepar quando inacessíveis,
Descer abismos do mar,
Dar do céu saltos falíveis,
- Diverte e jamais aterra
Fingir que andamos na guerra.
Se não nos acontecer
Nenhuma desgraça a sério,
Se ninguém nos enviar
Para uma guerra que houver
Em qualquer nome de Império,
À criança é retornar:
São meninos a granel
Todos brincando ao quartel.
Sem contar com o prazer
de exibir o seu vigor:
Teu corpo de enlanguescer
Que à tropa vens contrapor,
Numa máquina o tornando
De jogo e de sedução.
- Quando a brincar assim ando,
Que se fine em danação
O estudo que haja em lugar
Do gozo que aqui colher!
…Se ninguém nos enviar
Para uma guerra qualquer.
144 - Infernos
Os problemas são eternos,
Os homens são passageiros:
Do filósofo os infernos
São que, ambos sendo parceiros,
Ambos quer salvar inteiros…
- Mas o tempo, o tempo quer-nos?
145 - Fantasia
Com a fantasia invento
A realidade querida
E o que consigo no intento
É que me afasto da vida.
É sina estabelecida,
Se afinal olho com tino,
A com que o porvir já lida
Pelo insondável destino.
E no mais a fantasia
É um modo de respirar,
De respirar o meu dia
Enquanto tomo lugar.
146 - Asneiras
Deus ponho por mim se, torto,
Somente fracasso arquivo?
- Eu não quero morrer morto,
Eu quero morrer é vivo!
Deixa lá teu deus em paz,
Que um homem vale o que faz!
Mandas o problema a Deus?!
- Mas tu não mandas nos céus!
E Deus é duro de ouvido:
Quer é ver-te bem mexido!
147 - Réu
Escrever é que é pior:
Fatal descontentamento,
De mim próprio desamor,
Condeno-me sem penhor,
Serei réu sem julgamento.
E, do intérmino processo,
À porta da liberdade
Perdi de vez meu acesso:
É a minha fatalidade!
Quem pudera adivinhar
Da fuga a via sem par!
148 - Aparte
Criar ciência é uma arte
E um homem que lhe dá tudo
Fica preso bem aparte
Para não ser, sobretudo,
Tão honesto e terra a terra
Com os mais com que ele lida
Que é de paz, nunca de guerra,
O convite a que convida!
Já que então, nunca entendido,
Dos mais será preterido.
149 - Incerto
Num Universo que é incerto
Aquilo de que preciso
Não são certezas de experto,
É uma lei para o que viso.
Ver que o mundo faz sentido
E que faço parte dele,
Que, ao agir nele, o que lido
Nos cobre da mesma pele.
É uma crença o que me impele,
Mas irá contar é o acto:
Ele faz que me revele,
Nunca a explicação que acato.
150 - Formas
Aquilo que a gente crê
E aquilo que julga crer
São duas formas de fé
Que usam diferentes ser.
Mas quando o comportamento
Duma pessoa é correcto
Suponho a todo o momento
Que de seu crer vem directo.
151 - Fadas
Começamos por dizer
Deus é isto, Deus é aquilo
E ao fim são contos de fadas.
Se a religião se quer
Real e sem mais sigilo,
Desmascarem-lhe as jogadas:
Quando falamos de Deus
Nunca sabemos de que é
Que estaremos a falar,
Nem fazemos, como ateus,
A menor ideia até
Do que houver em tal lugar.
152 - Música
O que houver de bom no mundo
Justifica que ele existe:
Mesmo a música mais triste
Fala do gozo profundo
Da vida que lá resiste.
É que, bem feitas as contas
E apesar do que é defeito,
Melhor é o mundo que apontas
Que em vez dele o nada a eito.
153 - Rezar
De rezar o efeito,
O fim de rezar,
É reter no peito
E ante meu olhar,
Contra sonhos meus,
- Que não somos Deus!
154 - Língua
Não é um relógio uma língua,
Peça aqui, peça acolá,
Se de nenhuma houver míngua,
Bate horas e o tempo dá.
Não é relógio, não é,
Brota da terra, germina,
antes árvore é de pé,
À vida bordando a sina.
Como as árvores nascida,
Vamos lá reparar nela,
Como é toda entretecida,
- Então é que a língua é bela.
155 - Ritmo
Tem seu ritmo cada voz
E com as mais se combina:
Não é sinfonia a sós
Nosso Universo o que afina.
Nossa pobre poesia
Não pode ser senão eco,
Desta infinda sinfonia
Ramo ressequido e peco.
Porém, quando a badalada
De alma me toca no ouvido,
Vibro como uma alvorada
Por um sino percutido.
Mas não é uma imitação,
Não tolero o servilismo:
A nossa reprodução
Tem sempre um toque de abismo.
O poeta é o instrumento
Que à nota dá, musical,
Seu timbre de sentimento
Que é dele próprio o fanal.
156 - Trilho
Vamos lutar com coragem,
Com o ardor da mocidade,
Contra a inércia da viagem:
Nenhum trilho persuade
Quando é mera aprendizagem
Das pegadas doutra idade.
157 - Enquanto
Quando pensamos na morte,
No que então se passará,
Lá projectamos, à sorte,
O que há do lado de cá:
- Não temos outros motivos
Além dos de enquanto vivos.
158 - Desdém
Após a morte de alguém
Pouco a imagem sobrevive,
Como um deus antigo tem
As ofensas do desdém
De quem, descrente, hoje vive.
159 - Incapaz
A velhice vai tornar
Incapaz de empreender,
Porém não de desejar.
Só no extremo é que quenquer
Há-de a tal renunciar,
Como antes teve de ser
À vontade de actuar.
Descidos os três degraus,
No barco sem já ter remos,
Saltámos todos os vaus
E, a nós, só sobrevivemos.
160 - Antanho
Quanto outrem me vim tornando
Não me aflijo nem lamento:
O de antanho morreu quando
Trespassou do tempo o vento.
Já nem mora aqui jamais
Para lamentos que tais.
161 - Ligação
À vida nosso amor é
Uma velha ligação
Por hábito ali de pé,
Que outra nem quer solução.
A força desta vigência
Reside na permanência.
A morte é que vem romper
O laço que nos invade
E vai curar em quenquer
O vezo à imortalidade.
E mesmo assim, mesmo assim,
Quem jura que será o fim?
162 - Premissa
O erro em que acreditamos,
Teimosos, de boa-fé,
Vem do engano em que enganámos
A premissa posta em pé.
Quantas letras que não lê
Na palavra distraída
A vista que tudo vê
Se afinal foi prevenida!
163 - Título
Um título que é cotado
No mercado dividido,
Sobe quando é procurado,
Baixa quando oferecido.
Uma situação mundana
Não é criada de vez,
Como um império, dimana
De recriar o que a fez.
Não se operou no começo
Deste mundo a criação,
É todo o dia que a meço,
Nunca termina a função.
164 - Desdenhamos
Desdenhamos de bom grado
Dum objectivo que não
Atingimos lado a lado
Ou que nos caiu da mão.
Mas viramos logo atrás,
Como a raposa das uvas,
Se sentimos que é capaz
Da haver uns pingos de chuvas.
- Tanto a sede não se estanca
Com ruídos de garganta!
165 - Ruínas
No mundo tudo perece,
Mas um tipo de ruínas
Se destrói mais e fenece
Sem vestígios nas ravinas:
- Quem quer recordar o evento
Que foi qualquer sofrimento?
166 - Três
Três coisas, se as não revele
Saber com saberes plenos,
Um homem matam de perto:
O que é de mais para ele,
Para ele o que é de menos
E o que para ele é certo.
167 - Floresta
A floresta é comunhão,
São também contradições,
Enlaçamentos no chão,
Raízes pelos mouchões
E ramagens pelo ar…
- Somos isto, se calhar!
168 - Fósforo
Ser o fósforo minúsculo
A inflamar qualquer floresta
De enganos! Ah, falta o músculo
De atear o que não presta!…
Mais importa é que a centelha
Chispe a fúria que me espelha.
169 - Alma
Que alma habita esta cidade
Amontoada de gente?
Razões de viver qual há-de
A concha vazia, à frente,
Em meio à monotonia,
Encher do deslumbramento
Com que a vida principia,
Milagre a cada momento?
170 - Alumbra
Lentamente vou subindo,
Cada garganta me alumbra,
Sempre em frente (mas que lindo!),
Buscando o que me deslumbra…
Lentamente na subida
Lá vou eu trepando a vida.
171 - Malefício
Se um país que é vencedor
Não fora contra a pobreza
Na luta tão lutador
Tal da guerra na braveza
Contra qualquer tirania,
Então todo o sacrifício
Fora em vão e qualquer dia
Incorre no malefício:
- A liberdade é vanglória
E moribunda, a vitória.
!72 - Democracia
A ser a democracia
Continua o menos mau
Dos sistemas, hoje em dia,
De um povo passar a vau
As cachoeiras que havia
A vida de pôr-lhe em frente,
Até ter em terra assente
Os seus pés de romaria.
173 - Bico
Nunca a trabalhar
Ninguém ficou rico,
A trapacear
É que molha o bico.
Este original
Pecado depois
O mundo em geral
É que corta em dois.
E com um salpico
A sujeira encobre:
À direita, o rico;
Para a esquerda, o pobre.
174 - Juventude
Cada juventude
A sua verdade,
Seu código à mão,
A sua virtude,
Sua identidade…
- E a desilusão!
175 - Coragem
Coragem é a teimosia
De se erguer dia após dia
E de em cada qual fazer
Tudo o que a fazer houver
E de continuar quando
Tudo nos andar negando
E de empurrar para a frente
Mesmo quando tudo tente
Deter-nos a caminhada…
- E então ganha-se a jornada!
176 - Prato
Quanto mais pequeno o acato
Maior vai ser o meu ganho:
Limparemos sempre o prato,
Seja qual for o tamanho.
Quanto mais o mundo come,
Mais lhe aumenta a vã gordura:
Não morreremos de forme,
Morreremos de fartura!
Não apenas cada qual,
Que o destino é traiçoeiro:
- Hoje quem sofre do mal
É de facto o mundo inteiro.
177 - Triângulo
Todo o triângulo é errado,
Pois, mesmo o mais regular,
Será, no fundo, um quadrado
Por sua vez circular.
Assim Deus é uno e trino
E o quarto lado, o de cá,
Se em nada fora divino
Nem sequer existirá.
E os quatro, por sua vez,
Se interligam de tal modo
Que o quadrado nunca vês,
Só o círculo do todo.
E não digas que a razão
Afinal descobriria,
Neste chão que não tem chão,
O teu chão de cada dia.
178 - Dobrado
Aquele que se consola
Com a voz do lisonjeiro
Em dobrado erro se atola:
Do difícil no sendeiro,
Trai a fé do que, primeiro,
Do que vai sendo se evola
E depois, por derradeiro,
A sinceridade imola
À vaga futilidade
De que envenena a existência.
E tudo é leviandade
Em troca de consciência.
179 - Espectadores
Época de grandes feitos
Pessoalmente não vividos,
Espectadores atreitos
Aos trilhos doutrem corridos,
Vivemos sempre vexados
Do anónimo desempenho,
Querendo ser demarcados
Por eventos de algum cenho.
Assim nos justificamos
De não ter identidade
Até que, enfim, resistamos
Da suspeita aos negros ramos
De nossa mediocridade.
180 - Areias
Paz onde não mora risco,
Não fomenta entusiasmo,
É de areias um aprisco
Onde com nada me pasmo.
Parecerá inofensivo
Mas submerge um povo á beira.
Da cultura fatal crivo,
Civilizações peneira
E afunda no seu arquivo
Mesmo a Humanidade inteira.
181 - Mesquinhas
Em circunstâncias mesquinhas
Que é feito dos homens grandes?
Se as invejas são rainhas,
Burocracias comandes,
Onde tua alma adivinhas?
Que talento há prosperado
Com cem anos de enterrado?
182 - Elástico
Não ages, não ages, não,
apenas forças os factos,
Medes de elástico o chão,
Crês que tens metros exactos,
Mas só o metro esticas pleno
Pela extrema do terreno.
No fim, toda a exactidão
É exactamente ilusão.
183 - Pobre
O pobre é casa arrumada,
Nunca pobre em construção,
Barraca de vez plantada
Definitiva no chão.
Miséria não é sustento
Escasso em vida espremida,
É bem mais o sentimento
Do passageiro da vida:
Quem marcha vai vida fora,
Cobre amanhãs sem detença.
O pobre não vai embora:
Eis a grande diferença.
184 - Mito
O mito não pode ser
Nunca uma excentricidade,
Mas difícil raridade:
A insociabilidade
Que na virtude há-de haver
Para o que dele dimana
Ter, num sentido qualquer,
Qualquer qualidade humana.
185 - Tristeza
Toda a tristeza é medonha
Enquanto se não descobre
Quanto à tristeza disponha:
- A alegria que recobre,
Comprimida, quanto sobre
Daquilo que em vão se sonha.
186 - Empurrão
Quem me dá meu empurrão
Para crescer o tal palmo
Que só nós temos à mão
Para que, dum tamanho almo,
Acresça nova medida
À estatura recebida?
187 - Peso
Se alguém, por mais que procure,
Não encontra peso à vida,
Não há mezinha que o cure,
É um potencial suicida.
É, tarde ou cedo, o vazio
(Que na angústia o vai lançar
Do monótono cotio)
O que o faz saltar o algar.
A imaginação que peca
Foi ao dar sentido à vida,
De recursos não é seca
Ao lhe pôr termo em seguida.
188 - Aparência
Das coisas a casca
Mais do que o miolo
Eis onde se atasca
Meu sonho e consolo.
Pois desta evidência
Vem-me o desencanto:
- Por que é que a aparência
Me preocupa tanto?
189 - Intensidade
A intensidade da fé
É a maior força do mundo.
Tão mais perigosa é
Quando dela me fecundo:
São velhas queimadas vivas,
Hereges e pecadores,
Torturas que nunca esquivas,
Mortos de ignotos horrores…
Só por se não conformarem
A um credo particular.
Às bruxas, quando as queimarem,
Quem não crê talhar o azar?
190 - Abuso
Sempre a mulher colabora
Num abuso cometido
Contra ela, a toda a hora,
Tal se fora um bem querido.
Se te houverem ensinado
A acreditar que és um lixo
Não esperas, degradado,
Senão um trato de bicho.
Para não ser mais refém,
Requerer trato decente,
Qualquer pessoa, pois, tem
De reconhecer-se gente.
191 - Origem
Qualquer dos povos do mundo
Alimenta esta certeza:
- A origem divina, ao fundo,
Da raiz de que se preza.
Para aumentar o tamanho
Que provém do deus que o fez,
Aos mais recusa tal ganho
Que ele só terá de vez.
Nesta reciprocidade
Que nos envenena a terra
Chocamos, idade a idade,
As bombas de toda a guerra.
192 - Génio
O génio ocidental
Implica o conhecimento,
Criação espiritual
Antes da acção material,
Dando-lhe a rota, o momento.
Mudar o mundo não é
De homem deveras que exista.
O que um homem põe de pé
Não é coisa que se vê:
- É da mente o que conquista.
193 - Estrangeira
Só, nesta terra estrangeira,
Acocorado na moita,
De ser besta-fera à beira,
Nenhuma fada me acoita.
Portanto, aqui, de inimigos
De toda a espécie cercado,
Não sou vida, sou perigos
Que em mim haja engatilhado.
194 - Patriotismo
Patriotismo não é
De frenética emoção
Curta manifestação,
Mas dedicação tranquila
Que, firme, vai pôr de pé
O rumo a que se emparceira
De vez quanto se perfila
Durante uma vida inteira.
195 - Optimista
O pessimista acredita
Que o mau acontecimento
No permanente radica
Dum perversor elemento
E que o bom, pelo contrário,
Provém do que é temporário.
Um optimista, o falhanço
A uma causa transitória
Atribui, para descanso,
E, ao invés, uma vitória,
Acredita-a resultante
Sempre dum factor constante.
O pessimista permite
Que qualquer desilusão
Num campo se não limite,
Vai-lhe invadir todo o chão.
Por seu lado, um optimista
Não deixa alargar-lhe a lista.
Quando as coisas correm mal,
O pessimista se culpa.
Um optimista o sinal
Logo verá que o desculpa:
Atribui tudo ao acaso
E a estratégia troca ao caso.
O pensamento que nada
Do que fizer é importante
Veda ao pessimista a entrada
Que permite o passo adiante.
Mas nunca a desilusão
Tolhe a um optimista a mão.
E felizmente, por fim,
Os hábitos arraigados
Com vontade forte, enfim,
Podem ser ultrapassados.
E um pessimista convicto
Pode o inverso ter por fito.
Encararás teus fracassos
Como mero resultado
Da estratégia de teus passos,
Não dum carácter errado:
Não te sentindo impotente
Tomas rumo diferente.
Pessoas que se imaginam
Vida fora a triunfar
Com resultados atinam
Melhores que as que falhar
Esperam, que o pensamento
Também nos gera o momento.
Se teu lado pessimista
Lamenta que ele não ligue,
Pergunta o que um optimista
Faria para que obrigue
O teu convidado a olhar-te:
Fá-lo então por toda a parte!
Recorda os ganhos de antanho,
Que as coisas boas volvidas
São nas aras o teu anho,
Penhor de vindoiras vidas:
São fruto de teu esforço,
Não de acasos um escorço.
Orgulha-te da vitória
Que em teu empenho se arrima,
Não por culto de vanglória,
Mas por criar auto-estima:
Basta melhorar a imagem,
Que retomas a viagem.
A esperança requer força,
A da vontade e a dos meios,
Para atingir a quanto orça
O sonho em todos os veios:
Escolhe avisadamente
E então, sim, arranca em frente!
Subdivide uma utopia
Dela nas metas pequenas,
Não vás sucumbir na via
Ao tamanho das arenas:
Da tarefa a enormidade
Teu entrave ser não há-de.
Por cada sonho intermédio
Que se cumprir há progresso.
De entusiasmo então nédio,
Vira a energia do avesso
Quanto estiver para vir:
É o optimista a surgir!
196 - Ecologismo
Até tocar na carteira
É precioso o ecologismo.
Até tirar a cadeira
Confortável que se abeira
De sentar meu comodismo.
Difícil a coerência
Há-de ser quão mais sentido
Em nós toma a consciência
Do sacrifício pedido.
197 - Mal
Sempre me incomoda a ideia
Que um mal que houve no passado
Seja a causa que permeia
O presente em todo o lado.
Atribuir culpa ao passado
Mantém inerte a parada,
De vítima a vestir fado,
Não tendo de fazer nada,
Quando a saúde viria
De assumirmos cada dia.
198 - Dispensa
A violência que sofri
De traumas, desilusões,
Me dispensa do que agi,
Perdoa-me meus senões.
Desresponsabilizado
Serei do mal que farei
A todos os mais, dum lado,
E a mim, doutro, ao que me dei…
- Eis como se transmudou
Em atadura seguida
Asa feita para o voo,
Para voar uma vida.
199 - Escolha
Mesmo com passado triste
Cada qual tem sua escolha.
A lei de tudo o que existe
É que o problema que o colha
Terá de se ultrapassar,
Mas não de mãos a abanar.
Como me atrevo a culpar
A quem a infelicidade
Vitima às vezes sem par?
É que em verdade, em verdade,
Há uma grande diferença
De culpar a ter presença:
- Que a vítima à conclusão
Chegue afinal de que pode
Recuperar da tensão
E a coragem que lhe acode
Lhe dê fé de prosseguir
Talhando a pulso o porvir!
200 - Desculpas
Ninguém é reconhecido
Por vontade própria ter
Nem responsabilidade.
Somos a sociedade
Das desculpas do vivido
E da vítima esmoler.
Quem de vítima se faz
Tira o bilhete gratuito
Para eterna absolvição
De responsável. E é vão
O que o destino lhe traz
Com a prova do fortuito.
Detestaria pensar
- Dirá sempre na resposta -
Que cheguei a este ponto
Por portar-me como um tonto,
Por culpa de haver lugar
A alguma coisa ali posta
Que dependesse, por fim,
Apenas e só de mim!
201 - Gestos
Manter relações saudáveis,
Cultivar próprio respeito
Começa nos creditáveis
Gestos de tomar-te a peito:
- É decidir escolher
A melhor via que houver!
202 - Responsáveis
Termo-nos por responsáveis
Por destruir nossas vidas
São as difíceis medidas
E, contudo, indispensáveis,
Para nos capacitarmos
De vez o rumo a alterarmos.
Não é que de forma alguma
Quanto então nos acontece
Do que fizemos e esquece
Seja o escorrer da espuma,
Mas que o grande desafio
Vem da escolha onde me enfio.
Podem fornecer tijolos
E aço de má qualidade
Que o empreiteiro é que os há-de
Empregar, há-de dispô-los:
Tudo vem do que escolher
De alternativas que houver.
Quanto mais tempo passamos
Os outros sempre a inculpar
De a vida andar devagar,
Mais tempo há que então percamos:
- É que, durante o intervalo,
Podíamos remediá-lo.
203 - Estimativa
A vida real requer
Decisões com base em dados
Insuficientes que houver:
- A estimativa há-de ser
O melhor de teus recados.
E depois, a estimativa
Não tem um metro que a meça:
- A cabeça criativa
Pensa por sua cabeça!
204 - Lógico
Quando falo, penso.
E, se penso, é ralo
Que o pensar que adenso
Não seja o que falo.
Quando penso, falo,
quando falo, sinto:
O lógico abalo
É que, ao falar, minto.
O conceito quer o termo;
O juízo, a proposição:
Donde inferimos, ao termo,
Dentro e fora o que é a noção.
Inferimos de imediato
No discurso dedutivo;
Induzir jamais é exacto,
Mas é o mediato que é vivo.
Um discurso persuade
Conforme a argumentação:
É do que em mim ela agrade
Que lhe digo sim ou não.
Retórica e dialéctica
São caminhos do argumento,
A precisão e a poética
Cruzam-no de invento a invento.
Nestes passos hesitantes,
Mal cruzados e tremidos
É que somos viandantes,
Rumos pisando e sentidos.
205 - Conflito
O conflito é criativo
E quem fugir-lhe procura
Não sabe nunca ser vivo:
O conflito não se cura!
Viver é viver à espera:
- O conflito se supera!
206 - Mudança
Verifica-se a mudança
Não de acordo com o plano,
Nem a intervenção a alcança,
Nem a intenção lhe traz dano…
- Bem no fundo, bem no fundo,
Passa por nós outro mundo.
207 - Muda
Se procuras a mudança
Vigorosa e definida,
Impedes, na contradança,
Toda a muda que se envida.
A mudança que aguardamos,
De tão profunda e real,
Acontece, por sinal,
Sem que nos apercebamos.
Se me mantiver atento,
Resoluto, imaginoso,
A mudança, lento e lento,
Por trás vem do que lhe coso.
208 - Inverte
Tudo aquilo que, por vezes,
Se afigura perigoso,
Ponto de vista mortal,
Tanto sói trazer reveses
Ao que na vida dá gozo,
Inverte logo o sinal
Se lhe alargo a perspectiva:
Se de mais longe encarado,
Traz-me uma benesse esquiva,
É doutro mundo um traslado.
Perigoso ou promissor,
Tudo afinal dependeu
De ser mais conservador
Ou de assaltar mais o céu.
Embora haja o risco eterno
De em vez do céu ser o inferno.
209 - Espontaneidade
Minha criança interior
É minha espontaneidade,
Minha criatividade.
Para aceder-lhe ao fulgor
Reivindico, não me esquivo
À vulnerabilidade.
Irei deambular vivo,
Desorientado e perdido,
Deslocado ao abandono…
Deste espaço serei dono
Nos acasos do sentido.
210 - Escorço
Quanto maior for o esforço
Para agir descontraído
Mais se revela no escorço
Que inexperto houver agido.
Quanto mais adultos ser
Tentamos e mais tentamos,
Mais pueris no que houver
Afinal nos revelamos.
Quanto mais dissimular
A minha funda ignorância
Mais evidente o avatar
Dela me prende na infância.
211 - Ameaça
Colocar a informação
Acima da maravilha
Ameaça o adulto que, vão,
Da criança não partilha.
Pôr a inteligência acima
Da ignorância que se sabe
É de adulto que sublima
As arcas em que não cabe.
Por sobre o divertimento
Acabar por colocar
Vazio entretenimento,
Só dum adulto sem lar!
Cuida em ti tua criança,
A natureza inferior,
A emoção que mal te alcança,
Desejo insano, estupor…
E sê terno de verdade
Com esta incapacidade.
Sentir-te-ás bem melhor:
Ao ser pequeno, és maior.
212 - Tudo
Tudo aquilo que procuras
Não existe em parte alguma,
Serão sonhos ou loucuras:
Nunca será nada, em suma.
Desvia o rosto um instante
Então tudo aquilo que amas
Perdido está doravante
Num labirinto de tramas.
Narciso no espelho de água
Dele a imagem vendo em vão,
Despedes-te sempre em mágoa:
É o preço de ter um chão.
213 - Promessa
O narcisismo contém
Nele próprio uma promessa:
Que o sonho que sonho além
E que me trepa à cabeça
Há-de encontrar um processo
De à vida rasgar o acesso.
214 - Tolerância
Se for capaz de encontrar
Dentro em mim a tolerância
Para exigências rivais
De minha alma eu encarar,
De vez reconquisto a infância
Complicada de sinais.
Quão mais intrincada a implante
Mais a vida é interessante.
215 - Separação
A separação divide
Duas partes materiais
Que precisavam, na lide,
De divergir de sinais.
Demasiado compactados,
É inviável conhecer
De que partes, com que lados,
Os seres são cada ser.
A primeva criação,
Tanto a criação do mundo,
Como a do homem em acção,
Separa unindo, no fundo.
216 - Rédea
Um desfecho trágico
Torna uma tragédia,
Por efeito mágico,
Das vidas na rédea.
Mesmo de cotio
Pode ser a forma
De encontrar o fio
Para uma outra norma.
Será doloroso,
Será destrutivo.
Novo, porém, coso
Ali outro arquivo.
Tudo reestruturo
E, na ordem nova,
Fico mais seguro
E a vida se inova.
217 - Reiterado
O que é reprimido acaba
Sempre a ser reiterado
Das formas mais monstruosas:
Da vida o rio desaba
Como a força do relvado
Pelas fendas anfractuosas
Do cimento, até da pedra.
E mesmo os mais culturais
Monumentos grandiosos
Se afogam no que ele medra.
Deter tal força, jamais,
Que os veios mais tortuosos
Descobrirá para a luz!
- O intento de quem tal tenta
Em derrota se traduz
E só monstros alimenta.
218 - Repetir
Repetir é morte.
Se nos põe a salvo,
No tumulto é um corte,
Deixa o quintal calvo.
Atingida a calma
Mortal da cultura,
Surpresa sem alma,
É uma sepultura.
Ordem e funcionamento
Tranquilo garantirei.
É o venenoso momento
De inconsciente ser rei:
Em nome do bem-estar
Devém insípida a vida
Na aparência tutelar
Da cultura mais subida.
219 - Fetichista
Uma vez que rejeitámos
Nossas forças mais obscuras,
Com isto nós as forçámos
A uma forma fetichista:
Vemos mágicas figuras,
Fascinantes e mortais.
E, quando lhes cresce a lista,
És tu que já nem és mais.
220 - Negligência
A sede e a fonte da vida,
Ou acolho o que propõe
Nas fantasias que envida,
Nos desejos que me impõe,
Ou sofro da negligência
A que me votei a mim:
Vou num êxtase à eminência
Ou à depressão no fim.
Poder de ser criativo
E destrutivo igualmente,
É doce quando convivo,
Agressivo, quando ausente,
Em perene incubação
Aqui no íntimo de mim.
Quer eu o queira, quer não,
Ele é meu princípio e fim.
221 - Aparentam
Quem optar pela violência,
Visível controlador,
Óbvia menos a impotência
Demonstra de seu pendor.
Quem de vítima o papel
Desempenha habitualmente
Fica incônscio de quanto ele
Controla o algoz que o não sente.
É por isto que as questões
De poder são mais difíceis
De abordar do que supões:
- As coisas, tais como as vísseis,
Pese embora o que atormentam,
Nunca são o que aparentam.
222 - Sintoma
Salvar-me não significa
Ir mergulhar no sintoma,
Mas saber o que me explica
E absorver-lhe polpa e goma.
O esforço de incorporar
Qualidades depressivas
Da vida no rosto alvar
Texturas lhe dá mais vivas.
A frieza, o isolamento,
A escuridão, o vazio,
Passam a ser elemento
Com que teço, fio a fio.
Então dor mais alegria
Tudo enchem de fantasia.
223 - Cólon
Se no cólon sinto dores
Devido à minha ansiedade,
Mais que dum órgão as cores
Funcionam no que me invade.
De algum modo à consciência
Terá meio de falar
E de revelar a ausência
Que em mim hoje tem lugar.
Um órgão, um aparelho
Funciona e tira prazer
Do que faz, sem meu conselho,
Como opera sem eu ver.
Então a questão correcta,
Quando ele esteja doente,
É se o prazer, dele meta,
É aquilo que ele então sente,
Ou se o que lhe estou fazendo,
A acreditar-me sublime,
É afinal algo tremendo
E que apenas o deprime.
Assim é que do que sou
Muito além me acercaria,
Transgredindo no meu voo
As margens da minha via.
224 - Raízes
A doença encontra a causa
Dela em raízes eternas:
É na essência e não na pausa
Que nos vem tolhendo as pernas.
Só por ser filho de Adão
Transporto dentro de mim
A ferida e a contusão
Que me levarão ao fim.
Pensar, pois, que nosso estado
De ser livre da doença
É natural, adequado,
É sempre ilusória crença.
A medicina que tente
Eliminar a ferida
Mais depressa é competente
Em eliminar a vida.
225 - Feridas
Ao acolher as feridas
Que existem dentro de nós
Entro nas mil e uma vidas
De filhos a pais e avós,
Diversas, presas ao cós,
Do que seriam vividas
Se apenas eu me ocupara
Da ferida que não sara.
Quando sinto bem por dentro
A doença que me fere,
Não me perco em desatino:
Num templo sagrado eu entro
Que esta missão me confere
- A de atender ao destino.
226 - Estereofónica
A doença é estereofónica:
Toca a tecla dos tecidos
Do corpo em primeira tónica,
Mas os sons que são ouvidos
Operam mais pelo sonho.
Têm um significado
De que nunca ao fim disponho
Porque é mais que ser tratado.
Têm uma aura de sagrado:
É tal como se a doença
Me queira a mim ver curado
Em vez de ser eu que a vença.
Ela quer-me em união,
Sempre por trás de seu véu,
Com as funduras do chão
Que até penetram no céu.
227 - Deuses
Dos deuses só me aproximo
Através da poesia.
Se a doença for um mimo,
Então só de fantasia
Se a medicina munir-se,
Do que são imagens de arte,
É que pode prevenir-se
Para de nós tomar parte.
Se apenas quiser curar,
De nós pouco fica a par.
228 - Magia
Quem conhece é só o poeta
Os factos da astronomia
Porque é quem os interpreta
Como sinais de magia.
O corpo podem ser factos,
Mas, se alma lhe conferimos,
Temos dos sinais os pactos
Para irmos, irmos, irmos…
229 - Banho
Na casa de banho limpo
Tanto o corpo como o sonho:
É o lugar onde garimpo
De alma uns oiros que suponho.
E, se a mantenho asseada,
É que ali anda uma estrada.
Se é um recanto duma casa,
Tem também de alma breve asa.
Se me lavo e me penteio,
Se me visto, se me pinto,
No perfume em que me enleio,
Sou mais eu que assim me sinto:
- Eu sou mais quando me minto!
230 - Trabalho
A fora como ocupamos
Nossas horas de trabalho,
Lugar para onde olhamos,
Onde é que nós nos sentamos,
Com que meios trabalhamos,
Se é lápis, sovela ou malho,
Introduz a diferença.
Não só quanto à eficiência,
Mas à ideia de pertença
Como à imagem de excelência.
Que perfil moldo de mim
E que rumo tomarão
Meus projectos que, por fim,
Irão guiar minha mão?
231 - Rituais
Os rituais duma igreja
São tal como quem trabalha:
Tecer alma que se almeja,
Criada ali, malha a malha.
Do ponto de vista do imo
O labor é liturgia:
Se de fora é meu arrimo,
Dentro em mim molda outra via.
Se ignora que ele é sagrado
Numa secreta faceta,
Estou pondo a mim de lado,
De bem menos me aproveita.
232 - Calma
O comer é comunhão
Que alimenta corpo e alma,
Comida rápida, não,
Que nela não como calma.
Quero uma comida rica
Numa refeição completa
E não esta que me fica
Esgotada antes da meta.
É com dentadas vorazes
Que recolho informação,
Em vez de apurar as bases
Que da vida o sabor dão.
Em lugar de assimilá-la,
Torná-la parte de mim,
Minha vida ando a esbanjá-la,
Morro à fome dela enfim.
233 - Avessas
Informar e conhecer
Andam no mundo às avessas.
Quando a informar-te começas
Logo inundado irás ser
De informações relativas
A uma vida saudável,
Mas perdes as noções vivas
De como teu corpo é amável.
Ficamos sintonizados
Com todo o canto do globo,
Não de sensatez dotados
Para lidar com o lobo.
Os programas académicos
Enchem de psicologia
Os eventos mais polémicos,
Ninguém salva o dia a dia,
A era da informação
Não nos traz sabedoria,
Traz antes a negação
Ao matar a fantasia.
234 - Afastamento
Do mundo um afastamento
Deverá ser mais, talvez,
Que de consulta um momento,
Do que um aconselhamento,
Minha vida é olhar de vez:
Não campismo ocasional
Mas em mim montar a tenda
Até que seja normal
Ter em mim minha vivenda.
235 - Confinado
Arranca-me o imo ao espaço
De mim mesmo, confinado,
E minha alma dá-lhe o abraço,
Mais se alimenta um bocado:
- Meu sustento se adivinha
Da fronteira além da linha.
236 - Letra
A história tomada à letra
Perde o senso dos sentidos
Que é o que afinal nos impetra
Que vão fundo em nós medidos.
Apenas é nossa telha
Que protege da invernia
A história que nos espelha
Mil rostos de fantasia.
Que mais do que mil nós somos
E mais mil iremos ser
Se a ver-nos deveras pomos
Os olhos sobre quenquer.
Sobre nós a ideia única
Que a atingir tanto te esforças,
Por mais que simule túnica
É só camisa de forças.
237 - Fincar
Se não criar à incerteza
Lugar no campo da fé,
É um excesso que despreza
Que nela vai fincar pé.
Vou sentir-me superior
Com jus a vilipendiar
quem traidor se me antolhar,
Ou cínico irei propor
Olhar de desconfiança:
Ignoro a infidelidade.
Alheia, nunca me alcança,
É doutrem a identidade.
Se me vir só positivo,
Doutrem, da vida suspeito;
De minha crença cativo,
Não presto à vida mais preito.
De mim tão romantizado,
Escravo da fantasia,
Já da vida desligado,
Só de engano é minha via.
238 - Marca
A fé não provém apenas
Da vida espiritual,
De revelações terrenas
Com marca celestial.
Vem também das profundezas,
Deste húmus impessoal
Do que pessoal mais prezas,
que és tu de ti desigual.
Vem daquilo que irá ser
O que em ti a ti mais quer.
239 - Esgarce
Tende o sonho a dispersar-se
Na ambição e fanatismo.
Leva a que a mente se esgarce
Da razão sob o disfarce,
Quer no fundamentalismo,
Quer nalgum perfeccionismo.
Qualquer alma prisioneira
Ficará daquele humor,
Não encontrará maneira
De as relações que joeira,
Impossíveis, se propor,
De às obsessões ter amor.
Para a união ocorrer,
Cada qual mesmo consigo,
Tem o estranho de valer,
Pesar dentro de quenquer:
A ambição fica ao abrigo,
Mais ao sonho então me obrigo.
240 - Percursos
Para as almas, o caminho
Tergiversa, diferente:
Labirinto evanescente
De percursos que adivinho
Com um monstro no final;
Odisseia com destino
Para o qual, lento, me inclino,
Às voltas no vendaval…
- E ninguém logra prever
E bem menos prevenir
Por onde corre o porvir
Das almas que alguém quiser.
241 - Gomos
Quando somos como somos
E não como gostaríamos,
Luz o mistério nos gomos
Do que na vida espremíamos.
Ressuma a vulgaridade
Da vida humana atingida:
Mesmo a espiritualidade
É a vida quando atendida.
E outra não temos constante
Senão esta ao ir avante.
242 - Reprovo
Se o esforço duma vida
A erigir um mundo novo
Se ordenar, logo em seguida
É o passado que reprovo,
a recordação da morte.
Mino o apreço do que alcança
Para além da boa sorte,
Nas fronteiras da mudança:
Do eterno perco o recorte,
O destas zonas de mim
Que além moram de meu fim.
Minha alma se desenvolve
Com as histórias da História,
Nos vestígios em que envolve
Toda a raiz da memória.
Anda aqui meu trampolim,
Onde me apoio no salto,
E o pico além viso assim
A partir deste planalto.
243 - Sombras
Amam as almas o antigo,
Sombras do que já não é,
E aprendem pondo-o de pé,
Da História vêem o umbigo.
Dele retomam a vida
Na estima pelos costumes,
No monumento erigido,
De antanho até nos ciúmes.
Então é que no presente
Viverei no eterno assente.
244 - Função
Se uma coisa definir
Apenas pela função,
A emoção vai-se esvair
Ao ver que é mera ilusão.
Irei desfazer-me dela
Sem funeral nem capela.
É depois destas asneiras
Que me vejo rodeado,
Não de altares, de lixeiras
Onde nada há de sagrado.
245 - Deterioração
A deterioração
É o ciclo do nascimento,
Da morte e da redenção.
O que aqui nos vem dizer
O fim de qualquer evento
É que temos de morrer.
Ninguém de tal indo isento,
Importa bem o aprender,
Em termos tais de a contento
Sabermos com tal viver.
246 - Vertente
Quando qualquer coisa morre
Na vertente da função,
A ressuscitá-la ocorre
Da história a recordação.
Decoramos nossas casas
Com belas antiguidades
Como forma de dar asas
Às almas que vêm do hades.
Mundo que denegue a morte
Poderá ter de assistir
Da vitalidade à sorte
De murchar sem ter porvir.
O lixo que produzimos
Tanto oprime e é demoníaco
Que já nem o conseguimos
Enterrar, de genesíaco:
Envenena tanto o mundo,
Mais e mais eficiente,
Por fabricarmos, no fundo,
Coisas para eternamente
Perdurarem, imortais,
A morrer não destinadas.
Finda a utilidade, mais
São no lixo entronizadas.
Quanto mais negar a morte
Mais o mundo há-de vivê-la:
Quando à porta a não suporte
Mais lhe entra pela janela.
247 - Dispensáveis
Na reforma educativa
As artes são dispensáveis,
Só técnicas não se arquiva.
Mas sem técnica há quem viva…
E sem belo há inumeráveis
Vivendo uma vida esquiva
A desviar-se, furtiva,
Só de monstros execráveis!
É reforma educativa
Cultivar mais inviáveis
Como ideal, definitiva,
Tal se foram desejáveis?
248 - Dilecto
É um desejo e é um afecto
A Beleza no prazer
Que nos oferta dilecto.
Se calhar exteriormente
Nada vai acontecer,
Como é deserto evidente:
Não irei comprar o anel
Que atraiu minha atenção,
Fotografar o dossel
Da paisagem deslumbrante…
- Mas dei-me a alimentação
E minha alma segue avante!
249 - Recados
Tenho de expor-me à beleza
Mesmo que isto signifique
Que a razão que ela despreza
Pelo caminho me fique.
Podemos ser obrigados
A desprezar os projectos
Que apoiam com mais recados
Modernos sonhos secretos.
Cada qual e todos juntos
Vamos ter de, se calhar,
Pôr de lado tais defuntos
Para as almas preservar.
250 - Perspectiva
Em perspectiva global
É o grande acontecimento
O que me importa, afinal.
Em alma, porém, o evento
É o ínfimo pormenor,
O mais banal que acalento,
Que influência tem maior,
Se com esmero e talento
A desempenhá-lo for.
Influirá mais, muito mais,
Mais do que a insignificância
Deixava supor jamais
Por não ter qualquer substância.
251 - Sagrado
Quanto mais fundas ideias
Uma coisa nos suscita
E mais complexas as teias
De reflexões que credita,
Mais completa, mais total,
Há-de ser, por outro lado,
A revelação final
De seu carácter sagrado.
Alma da religião
É descobrir, natural,
Que dela as coisas terão
A presença principal,
Pois quanto mais importante
Uma coisa se antolhar
Mais a preservo, distante,
De quem a venha estragar.
E não para a retirar
Da sã participação,
Antes a dar-lhe lugar:
- Isto é que é religião.
252 - Significados
A imaginação esconde
Tanto quanto nos revela
Os significados onde
O dedo aponta uma estrela.
Para um sonho me afectar
Não se requer compreendê-lo
Nem porventura explorar
Do significado o apelo.
Basta-me ficar-lhe atento,
Que autonomia e mistério
Me tomarão, lento e lento,
Da saúde sob o império.
253 - Segurança
A segurança, hoje em dia,
Do emprego não é constante
Desde que se principia
À reforma, lá adiante.
É a mera capacidade
De encontrarmos, lida a lida,
Trabalho, mas de verdade,
Ao longo de toda a vida.
Aquilo com que sossego
É o caminho mais fiável:
Solução não é um emprego,
Mas antes ser empregável.
254 - Escapes
O romance policial,
Como as palavras cruzadas,
Um chocolate banal,
São tal qual nas auto-estradas
Escapes de segurança
Onde respiramos fundo,
Algum conforto se alcança
- E olhamos de frente o mundo.
255 - Promessa
A promessa por cumprir
A nós próprios feita pode
Tão pequena a quem a vir
Parecer que o nem sacode.
O mesmo, porém, diria
Do incómodo a vista alheia:
- É que ela não sentiria
Nos olhos meu grão de areia.
256 - Vistas
Corro com a Terra, o Sol,
A Galáxia, o Universo,
Mas quando um membro em mim bole
Só tal movimento verso!
Milhões de milhas por hora…
E uns centímetros apenas
É o que a atenção me devora:
Que vistas temos pequenas!
257 - Neandertal
Homens de Neandertal
Abolem ciência, factos,
Filosofia: o real…
- Mas deles não há sinal
Quando celebrar meus pactos
E a razão for meu fanal.
258 - Imprensa
A imprensa caminha
Num espaço estreito
A cortar a eito
Sarmentos da vinha,
Entre a afirmação
Que o facto releva
E a difamação
Que o mergulha em treva.
259 - Rosto
A guerra mudou de rosto,
Mas rosto a guerra não tem.
Quem a tem mudou de posto,
Que o inimigo é que, aposto,
De rosto mudou e bem!
260 - Apego
Um adepto não é um cego,
Só quer ou só sabe ver
A metade dum apego,
Sem inteiro o amor colher.
O adepto é sempre um zarolho
E tem aquele ar altivo
De quem vê só com um olho
A provocar quanto é vivo.
261 - Racismo
Para amar ou desprezar
Como tratamos o cão,
O racismo tem lugar,
Ao espelho sem se olhar:
De si nunca tem visão
Nem donde anda a se atolar.
Pisará firme no chão
Sem ver quem irá pisar.
262 - Assassina
A estupidez assassina
Dos homens precisa desta
Doce cura que se obstina
Em repor, em toda a fresta,
Tudo no rumo essencial
De saber inteira a vida:
Da mulher é o principal
Mentor de quanto decida.
Presença quente e tranquila,
Ela é que as eras destila.
263 - Queixume
Deste século o perfume
Não é o dos novos planetas
Mas dos povos o queixume
Desprezados no azedume
das rotas as mais secretas.
Quem melhor o representa
Não é nenhum marciano,
Mas a cor amarelenta
De povos sem voz que tenta
Nosso olhar dizer de engano.
Mas um homem descarnado
E com olhar cintilante
É a minha chaga do lado,
Do mundo é ferida hiante.
O nosso melhor poema
Tem nele seu triste emblema.
264 - Falcões
Eu creio que nós saltamos
Dos corpos já inúteis nossos,
De vez voo levantamos,
Falcões libertos dos fossos.
Tem a morte uma razão:
- Soltar-nos de vez do chão.
265 - Corrente
A verdade é uma corrente
Que parte do que nos dizem
(E que ao fim sempre nos mente),
Não das coisas que condizem.
Por mais que seja invisível
E que estas se vejam bem,
Sempre aquilo é que é credível,
Nas coisas não crê ninguém.
O mundo não é enganado,
Tem é falta de critério,
Joga no critério errado,
Depois diz: “mas que mistério!”
266 - Poço
Podemos ter desfiado
Quaisquer ideias do mundo
E a verdade ter ficado
No negro poço mais fundo.
Quando menos esperamos
É de fora que interfere,
O espinho pica nos ramos,
Para sempre lhes adere.
A verdade que se preza
Vem sempre assim de surpresa.
267 - Arruína
Neste mundo onde tudo se desgasta,
Onde tudo perece, algo se arruína,
Se destrói mais completo e mais se afasta
Que tudo o mais que à negação se inclina.
O tempo é o alquimista cuja frágua
A nada, a nada isto reduz: a mágoa.
268 - Nomes
Para que pareçam novas
As coisas que são antigas
E mesmo as novas que inovas,
Ou nomes novos abrigas
Ou tudo quanto renovas
Cai no abismo das intrigas:
Segue o novo como velho,
A manquejar do artelho,
E a mensagem por que brigas
Perde-se entre as velhas ligas,
Ninguém mais te ouve o conselho.
O novo quer novo fato
Ou nem sequer entra em acto.
269 - Boxe
Na guerra, os da rectaguarda
Julgam que ela é um desafio
De boxe, mas gigantesco.
Assistem na salvaguarda
Da bancada, em desfastio,
Pelos jornais, como um fresco.
Mas a guerra é uma doença,
Curada aqui, brota além.
Hoje um libertado pensa
Que amanhã tudo está bem
E uma bala sem pertença
Fura-lhe a razão que tem.
Não será uma obra-prima
Cuja perda lamentamos
Mas a da aldeia que encima,
Planta sem raiz nem ramos.
A guerra é uma epidemia
E a cura é que desafia.
Jamais é um combate, não:
É saber se temos chão.
270 - Retorno
É o retorno às profundezas
Onde o real que existiu
Jaz de nós desconhecido
Que as artes que mais tu prezas
Te vão, de fio a pavio,
Seguir, salvando-o do olvido.
No real que recuperas
Voas além das esferas.
271 - Ondulação
Pela cultura e moda, a mesma ondulação
Propaga a todo o espaço igual dizer,
pensar…
Também do tempo ao longo, o enorme
vagalhão
Levanta das profundas deste imenso mar
Tristezas e bravuras e as mesmas manias
Nas gerações que vivem sobrepostas juntas.
Num corte praticado, em comum lá terias
Os avós mais os netos unindo o que
assuntas.
Os confrontos terão, como pano de fundo,
Estas identidades que igual dão um mundo.
272 - Negativos
Sentimentos negativos
Não deveremos deixar
que, em nossa vida cativos,
A venham a dominar.
Outras vai haver opções
Que, em lugar de negações,
As virão a ultrapassar.
Levar as coisas a bem
Muda a sorte que se tem.
273 - Equilibrista
Um equilibrista faz
O que não fazem milhões.
Que é que aos perigos o traz?
Encorajar o incapaz,
Trocar-lhe em fibra os senões.
Quando ele no espaço avança,
Acorda no peito um grito
Que nos desperta a esperança
De a porta abrir do infinito.
274 - Tarde
Será sempre um pouco tarde
Quando vemos que não somos
Nem imortais, sem alarde,
Nem novos para dar pomos.
Será sempre um pouco tarde…
E quem acordar mais cedo
Ou anda a rezar o credo
Ou perdeu de vez o medo.
Destes, de qualquer maneira,
É que a verdade anda à beira.
275 - Rumos
Para os jovens, ideais,
Mesmo falsos, bom é tê-los,
Mais que desprovidos vê-los
de quaisquer rumos que tais.
Desde que haja um rumo, a vida
Pode acabar por vingar
Contornando com vagar
Qualquer trilha mal medida.
276 - Regras
Como é difícil viver
Seguindo regras que os mais
Não compreendem sequer
Nem seguirão, pois, jamais!
E, todavia, na prática
Jamais há total acordo
Entre da vida a gramática
E este pó do chão que mordo.
277 - Mercado
O mercado mata mais
O fogo à paixão artística
Do que outras coisas que tais,
Não da moeda na mística,
Do seguro nos varais.
No mundo da segurança
A maioria descansa:
Aqui é que compra e vende,
Jogando a porta na cara
Ao desafio que ofende
Prometendo a jóia rara.
278 - Organizado
Demasiado organizado,
O mundo em que viveremos
Pode ser tão controlado
Que já nem emoções temos.
Não seremos, como dantes,
Nunca mais os viajantes.
279 - Pradarias
Corro a vida atravessando
Pradarias de Verão,
A rumar em direcção
Ao fim de quanto demando.
Corro a vida pelo chão
De todo o quê todo o quando.
280 - Demasia
Racional em demasia,
O mundo em breve deixou
De confiar na magia
Tal qual como deveria
Se não quer morrer no voo.
A razão reparte o todo.
Depois, em cada fatia,
Ninguém mais encontra o modo
De seguir atrás do engodo
Que além-mar o levaria.
Ninguém mais se encontra inteiro.
- Como há-de ser caminheiro?
281 - Minoria
Sempre nas ideias novas
Fora a parca minoria
E nunca a democracia
Que iluminara de provas
Os passos da maioria.
Este é o ponto vulnerável.
Da minoria o poder,
Contudo, como conter,
Sem o controlo fiável
que a maioria lhe der?
Viver na contradição,
Entre os extremos num ponto,
É o sendeiro aonde aponto
Um rumo de solução,
Num ou noutro a apor desconto.
282 - Atracção
Dos desertos e planaltos
Compreendi a atracção
quando de meus sonhos faltos
Vislumbrei a pequenez
Comparando com o chão
Em que começo outra vez.
Desatei de novo a ser,
Dali vou mesmo nascer.
283 - Certezas
Precisamos de certezas,
Mesmo a da morte é uma ajuda.
As doenças por que rezas
São do ignoto as incertezas,
Teu grito por quem acuda.
Um espírito sadio
Marca o terreno bravio
Como a fera da floresta
Quando toma posse desta.
284 - Bala
Eis na câmara uma bala.
Puxas o gatilho e sai
Pelo cano e, quando abala,
Mata um homem que se esvai.
Quem é, pois, o assassino:
- A espingarda, ou antes quem
Puxa o gatilho sem tino,
Ou quem armas vende a alguém?
285 - Vime
Quem me dera ser o vime
Que pressente o temporal
Na aragem que se lhe arrime,
Antes de qualquer sinal!
Quem me dera ser o vime!
A fraqueza que lhe assiste
Entre tudo é o mais sublime
De quanto ao tufão resiste.
286 - Espigas
Vivo no tempo dorido
De quem vai lançar sementes
Contra as marés e as intrigas
E acaba sendo ofendido
Por morrer sempre entrementes
Sem jamais ver as espigas.
287 - Imaginamos
Imaginamos que vemos
O mundo tal como ele é.
Mas ao fim o que nós temos
É o mundo que imaginemos,
Não o outro, aqui de pé.