SEGUNDO  CANTO

 

 

 

 

 

E  NELA  RASGO  ESTRADAS  DE  SENTIDO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 114 e 287 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                114 - E nela rasgo estradas de sentido

 

                                                E nela rasgo estradas de sentido

                                                Rasgo, sim, que a palavra é sentinela

                                                E, quando ao grito dela presto ouvido,

                                                Descubro o que entra e sai pela cancela.

 

                                                E, quando de olvido

                                                Uma ameaça houver,

                                                Fico prevenido,

                                                Não me irá colher.

 

                                                E na palavra assento o ser que sou,

                                                Gradual recriando ritmo e rima

                                                Até no mapa ler por onde vou.

                                                E assim atinjo os cumes lá de cima.

 

                                                E as estradas que rasgo no meu verso

                                                Com o mundo sou eu que ao fim converso.

 

 

115 - Futebol

 

O jogo da vida,

Como o futebol,

A atacar convida,

Dos medos o rol

Manda bloquear,

Na oportunidade

Importa marcar…

- Bom jogo, na vida,

É o que assim nos fade.

 

 

116 - Sabedoria

 

A sabedoria

Nem sempre é da idade:

Às vezes a via

Desta é só vaidade.

 

Então se adivinha

Da sabedoria

Quanto anda sozinha.

 

 

117 - Campeã

 

Campeã, cortando a meta,

Eras mesmo deste mundo?

 

Que pena, que pena o poeta

Não ser corredor de fundo,

Pôr nas pernas as palavras

 

 

A bater qualquer recorde…

 

- E de além, de Além nas lavras

Suspeitar que mundo acorde!

 

 

118 - Afluentes

 

O satélite, o avião,

Rio a correr para o mar,

De afluentes um milhão

Juntou de trabalho a par.

 

E, quando atingiu a foz,

Ergueu voo, deu-nos asas:

- Nos espaços para nós

Temos hoje novas casas.

 

 

119 - Felizes

 

Os felizes cantam viva,

Viva o presente deveras!

O passado em retentiva

É lição, mas doutras eras.

Quanto a pensar no futuro,

Sim, quando é de planear.

 

- É bom destino o que auguro

Aos pés firmes no lugar.

  

 

120 - Culto

 

Aprender tudo de cor

É doravante impossível.

O culto não é credível

que saiba tudo propor.

 

O culto é aquele que sabe

Procurar a informação,

Nem que seja a dum botão

Onde o mundo inteiro cabe.

 

Culto é o que sabe aprender

O testamento dos sábios

E o trilho após percorrer

Para lho colher dos lábios.

 

 

121 - Jornalista

 

Caderno de jornalista

São dados, informações,

Fontes em secreta lista,

Largas verificações.

 

Criar obra literária

É um enigma formular:

Daquilo a via contrária

Para um contrário lugar.

 

 

122 - Engodo

 

Um trabalha o dia todo,

Outro sonha o dia inteiro.

Muito mais raro é o terceiro

Que de ambos foge ao engodo:

Passa uma hora a sonhar

E depois, com ar risonho,

Todo o labor é lavrar

O corpo daquele sonho.

 

 

123 - Bicicleta

 

Roubaram a bicicleta

Ao menino descuidado.

A vingança mais completa:

Em boxista o hão mudado.

 

Feriram-no tão a fundo

Que, após todo o treinamento,

Para fugir ao tormento

Devém campeão do mundo.

Bastou ver nos adversários,

Para ser o campeão,

Nos pendores mais primários,

O rosto mau do ladrão.

 

 

124 - Discussão

 

Em qualquer situação

A discussão é uma perda,

Falhada utilização

Da curva do tempo lerda.

 

Ao evitá-la, quenquer

Evita mais do que a sanha,

Evita as lesões que houver

- E ao fim toda a gente ganha.

 

 

125 - Sensíveis

 

Os nossos pontos sensíveis

Levam a perder a calma

A não ser que, antes, risíveis

Os tornemos e, com alma,

Nos tentemos divertir

Com quanto não tem porvir.

 

 

126 - Artificial

 

Sorriso artificial,

Um toque de maquilhagem

A iluminar o sinal

Dum rosto de nova imagem.

 

Por afectado que fora,

A pouco e pouco sincero

devém logo, de hora a hora:

Vem do falso um riso vero.

 

A ilusão do pó-de-arroz

Salva do horror o tempero

Do rosto que ele me impôs

- E escapo do desespero.

 

 

127 - Votos

 

Certos votos repelidos,

Outros, porém, satisfeitos…

E são desejos cumpridos

Que o mal nos trazem, nos preitos

Que prestam ao que se alcança:

Perpetuam desde início

Aquele eterno suplício

Com que nos dói a esperança.

 

 

128 - Envelheci

 

Envelheci? Não, gastei-me.

Porque aqueles que envelhecem

Não se gastam, se conservam.

E quem no contrário teime

É daqueles que se esquecem

Daquilo que sempre observam:

- Gastarmo-nos, de ordinário,

De envelhecer é o contrário.

 

 

129 - Absurdo

 

Aceitando o absurdo

Podemos viver,

No absurdo quenquer,

Porém, devém surdo.

 

Os que a terra abandonar

Pretendem, só verificam

Que ela aos dedos vem colar

E mais prisioneiros ficam.

 

Não lhe fugiremos, não,

Que não a encontramos nunca

De caso pensado e então

É a morte o que o chão nos junca.

 

 

130 - Ponte

 

É a vida pequena ponte:

À direita, o paraíso,

O inferno à esquerda, horizonte

Com morte atrás do que viso.

 

E a terra firma, adiante,

Eternamente distante…

 

 

131 - Medo

 

Tenho de enfrentar o medo

Porque o medo é o assassino

Do espírito: mudo e quedo

Quando antes foi peregrino.

 

Que ele passe sobre mim

E através de mim se vá:

- Quando então lhe vir o fim

Ele é nada, resto eu cá!

 

 

132 - Inverso

 

Quem tentar ver a verdade

Sem ver os seus inimigos,

Sem rever a falsidade,

Não entendeu os perigos.

 

Era tentar ver a luz

Sem do inverso ter noção:

A nada logo a reduz

Quem não viu a escuridão.

 

 

133 - Máscaras

 

Somos máscaras baratas

Recobrindo pensamentos

Tresloucados que resgatas

Com vozes cujos intentos

São de abafar, tão sem jeito,

O silêncio de teu peito…

 

Silêncio que rasga a pele:

Ao final, sou eu que falto!

Como ele fala tão alto,

Como, calado, repele!

 

 

134 - Rebanho

 

Criança não é rebanho:

Se quarenta ovelhas vão,

O que o grupo tem de ganho

É que tal uma se irão.

 

Se tens quarenta crianças,

Cada qual o que ela tenta

É jogar nas contradanças,

Tal se ela fora as quarenta.

 

 

135 - Aguenta

 

Se o trabalho não sustenta

Como a qualquer ser humano,

Se a vida já não aguenta

A fome de que me irmano,

 

Quando toda a trabalheira

Começou e prosseguiu

E acabou de igual maneira

De desolação num rio,

 

Sem uma oportunidade

Nem qualquer alteração,

Digo a quem me persuade:

“Não me persuades, não!

 

Fica lá na tua festa,

No parque, põe o azevinho…

Já não cruzo nessa fresta,

Ficarei melhor sozinho.

 

Que vos faça bom proveito

E que se divirtam muito!

Não somos do mesmo leito,

Nada em comum há por junto.

 

E doravante cortado,

Um é o vosso, outro o meu lado.”

 

Aqui semeio a tormenta

Que de então, de qualquer modo,

Desde logo um mundo inventa,

Nem que seja a ferro e fogo.

 

 

136 - Ecos

 

Aqui sentado à sonoite,

À escuta do eco da estrada,

Ecos dos passos que acoite

São da vida a caminhada.

 

Ecos de todos os passos

Que passam na minha vida,

Da multidão eis os traços

Que em mim tem por fim guarida.

 

 

137 - Trilhos

 

Se queres prosperidade

Não esperes trilhos de oiro,

Leito em rosas de verdade,

Que serão de mau agoiro.

 

De esperas tão exaltado

Nunca alguém há prosperado.

 

Porém, se aguardas trabalho,

Se o encontras no caminho,

Se o lavras de sol e orvalho,

Se a jeito o pões, adivinho:

 

- Tomaste o vero partido

De prosperar com sentido.

 

 

138 - Faminto

 

Põe leite à frente do gato

Se queres sede de leite,

Mostra ao cão o desacato

Da presa que não enjeite,

Se queres treinar o dia

Em que ele a abocanharia.

 

- Se é impotente o homem faminto,

Mostra-lhe o que alarga o cinto!

 

 

139 - Fraqueza

 

Tua fraqueza é que, às vezes,

Só na vítima há coragem:

Não deixes que teus reveses

Te anulem com a abordagem.

 

Quando a altura chegar, solta

O teu tigre, o teu diabo,

E acorrentados em volta

Os mantém, até ao cabo.

 

E conserva-lhes os rostos,

Não à vista, mas a postos.

 

 

140 - Malho

 

Eu sei como deveio

Difícil para mim

Suportar em meu seio

A desgraça sem fim.

 

Sabes tu por acaso

Como se tornou fácil

À vida não dar aso

Em ti que a tens tão grácil?

 

Os braços nus e magros

Que não têm trabalho

Laboram nestes agros:

- Os de abater-te a malho!

  

 

141 - Sementeira

 

Colheita sem sementeira,

Só dos que semeiam mal,

Que, em leitura trapaceira,

Escondem feroz sinal.

 

Como se ninguém os vira

Sugar sangue da miséria,

Esbanjar, dançando o vira,

Da doença e fome a féria!

 

 

142 - Pragas

 

Não ganhei dedicação

Duma criatura humana,

Nem respeito ou gratidão,

Nem um lugar donde mana

Nada de bom, nada de útil

Que me tornará lembrado.

O meu ano é um ano fútil,

Pesadelo bem pesado.

 

Da vida recolho as bagas:

- Todas são pesadas pragas!

 

 

143 - Campeão

 

É divertido marchar,

Disparar à campeão

Do polígono nas linhas,

Explosivos manejar,

Às montanhas desde o chão,

A suar as estopinhas,

Trepar quando inacessíveis,

Descer abismos do mar,

Dar do céu saltos falíveis,

- Diverte e jamais aterra

Fingir que andamos na guerra.

 

Se não nos acontecer

Nenhuma desgraça a sério,

Se ninguém nos enviar

Para uma guerra que houver

Em qualquer nome de Império,

À criança é retornar:

São meninos a granel

Todos brincando ao quartel.

 

Sem contar com o prazer

de exibir o seu vigor:

Teu corpo de enlanguescer

Que à tropa vens contrapor,

Numa máquina o tornando

De jogo e de sedução.

 

- Quando a brincar assim ando,

Que se fine em danação

O estudo que haja em lugar

Do gozo que aqui colher!

 

…Se ninguém nos enviar

Para uma guerra qualquer.

 

 

144 - Infernos

 

Os problemas são eternos,

Os homens são passageiros:

Do filósofo os infernos

São que, ambos sendo parceiros,

Ambos quer salvar inteiros…

- Mas o tempo, o tempo quer-nos?

 

 

145 - Fantasia

 

Com a fantasia invento

A realidade querida

E o que consigo no intento

É que me afasto da vida.

 

É sina estabelecida,

Se afinal olho com tino,

A com que o porvir já lida

Pelo insondável destino.

 

E no mais a fantasia

É um modo de respirar,

De respirar o meu dia

Enquanto tomo lugar.

 

 

146 - Asneiras

 

Deus ponho por mim se, torto,

Somente fracasso arquivo?

- Eu não quero morrer morto,

Eu quero morrer é vivo!

 

Deixa lá teu deus em paz,

Que um homem vale o que faz!

 

Mandas o problema a Deus?!

- Mas tu não mandas nos céus!

 

E Deus é duro de ouvido:

Quer é ver-te bem mexido!

 

 

147 - Réu

 

Escrever é que é pior:

Fatal descontentamento,

De mim próprio desamor,

Condeno-me sem penhor,

Serei réu sem julgamento.

 

E, do intérmino processo,

À porta da liberdade

Perdi de vez meu acesso:

É a minha fatalidade!

 

Quem pudera adivinhar

Da fuga a via sem par!

 

 

148 - Aparte

 

Criar ciência é uma arte

E um homem que lhe dá tudo

Fica preso bem aparte

Para não ser, sobretudo,

 

Tão honesto e terra a terra

Com os mais com que ele lida

Que é de paz, nunca de guerra,

O convite a que convida!

 

Já que então, nunca entendido,

Dos mais será preterido.

 

 

149 - Incerto

 

Num Universo que é incerto

Aquilo de que preciso

Não são certezas de experto,

É uma lei para o que viso.

 

Ver que o mundo faz sentido

E que faço parte dele,

Que, ao agir nele, o que lido

Nos cobre da mesma pele.

 

É uma crença o que me impele,

Mas irá contar é o acto:

Ele faz que me revele,

Nunca a explicação que acato.

 

 

150 - Formas

 

Aquilo que a gente crê

E aquilo que julga crer

São duas formas de fé

Que usam diferentes ser.

 

Mas quando o comportamento

Duma pessoa é correcto

Suponho a todo o momento

Que de seu crer vem directo.

 

 

151 - Fadas

 

Começamos por dizer

Deus é isto, Deus é aquilo

E ao fim são contos de fadas.

Se a religião se quer

Real e sem mais sigilo,

Desmascarem-lhe as jogadas:

 

Quando falamos de Deus

Nunca sabemos de que é

Que estaremos a falar,

Nem fazemos, como ateus,

A menor ideia até

Do que houver em tal lugar.

 

 

152 - Música

 

O que houver de bom no mundo

Justifica que ele existe:

Mesmo a música mais triste

Fala do gozo profundo

Da vida que lá resiste.

 

É que, bem feitas as contas

E apesar do que é defeito,

Melhor é o mundo que apontas

Que em vez dele o nada a eito.

 

 

153 - Rezar

 

De rezar o efeito,

O fim de rezar,

É reter no peito

E ante meu olhar,

Contra sonhos meus,

- Que não somos Deus!

 

 

154 - Língua

 

Não é um relógio uma língua,

Peça aqui, peça acolá,

Se de nenhuma houver míngua,

Bate horas e o tempo dá.

 

Não é relógio, não é,

Brota da terra, germina,

antes árvore é de pé,

À vida bordando a sina.

 

Como as árvores nascida,

Vamos lá reparar nela,

Como é toda entretecida,

- Então é que a língua é bela.

 

 

155 - Ritmo

 

Tem seu ritmo cada voz

E com as mais se combina:

Não é sinfonia a sós