TERCEIRO CANTO
ENTERRO O
PÉ NO CHÃO ONDE ME PONHO
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o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
288 - Enterro o pé no chão onde me ponho
Enterro o pé no chão onde me ponho
A ver se do plantio nasce agora
O sonho
Que é já sonho desde outrora.
No compasso inesperado suponho
A surpresa que demora
De quanto amor se enamora
Do que afinal não disponho.
Mas traço os laços e abraços
Escassos
Que pobre detenho
E sei que por eles,
Ignoto, amor, me impeles
E é por eles que venho.
289 - Alunagem
A grande conquista
Não é do homem a alunagem.
É conviver tendo em vista
O vizinho do lado e o dos antípodas que
exista
No extremo do mundo,
Sem precisar de viagem,
Nem de saber-lhe a religião,
Se é puro, se é imundo,
Nem a profissão,
Nem de o condicionar a qualquer prévia
imagem.
No fim, isto é que está a ser
Para quenquer
A verdadeira alunagem.
290 - Felicidade
A felicidade
Não é porventura mais sequer
Do que a capacidade
De experimentar prazer.
Quanto mais apreciar
Aquilo que tiver
Maior o lugar
À felicidade que houver.
Fácil é negligenciar
O prazer
Que me der amar
E amado ser,
Dos amigos a companhia,
Da vida a liberdade
Onde a queira a fantasia,
Ou simplesmente a verdade
De gozar isto de ser.
É tão fácil esquecer
A virtude
De me encontrar de saúde!
Felicidade não tem
A ver com o que acontece.
Terá sempre a ver, porém,
Com o modo como o encaro,
Se me lembra ou se me esquece
O que me aquece, me arrefece.
Se tenho ou não o dom raro
De ver algo positivo
Por trás de cada derrota,
Se o que me for negativo
Tem dum desafio a nota.
Importa é não cobiçar
Aquilo que não teremos,
Para dar antes lugar
A apreciar o que temos.
291 - Roubado
O tempo que passo com meu filho
Não é tempo roubado ao que importa.
O tempo que passo com meu filho
É que importa.
Sarilho, verdadeiro sarilho
É não ter esta porta
Para cultivar o brilho
Que me germinar na horta,
Para o milho
Que pela vida além o Outono corta.
Isto é que é ter um cadilho
Atado na artéria aorta:
Quando o coração não é caudilho,
Não tarda, a vida está morta.
292 - Vagueie
Que o espírito que habita um homem
Saia dele e vagueie entre os mais,
Viaje por toda a parte até que o tomem.
Se em vida não emanar jamais,
É condenado a vaguear pelo mundo,
Testemunha do que não pode partilhar
- E que poderia, se o partilhara jucundo,
Em felicidade haver mudado devagar,
Até ter, fecundo,
Construído seu lugar.
293 - Lidais
Vós, os homens que lidais
Com os mais,
Começai pelo princípio:
Quem quiser mudar o homem
Equipe-o
Com os arreios que o domem.
Melhor casa desde o berço,
Comida de quem trabalha,
Da justiça um braço terso,
Melhor caminho a quem calha…
E não coloqueis na frente
As cadeias, a prisão,
Como o único presente
De vossa celebração.
É que então quem for destroço,
Ou quem for uma ruína,
Nunca mais volta a ser moço,
Cada vez mais desatina,
teu povo não é meu povo
Nem o teu Deus, o meu Deus:
Não germina aqui renovo
Nem há mais azul nos céus.
Do princípio começai:
- Um órfão quer é ter pai!
294 - Raiz
Como e que minha felicidade
Podia ser perfeita
Se a contrariedade
Torna a tua incompleta?
A eterna voz
De ser feliz
É sermos Nós
De raiz.
Tu mais Eu
Separadamente
Não dá o céu,
Imita-o, quando muito, somente.
295 - Anátema
O anátema de Deus
Na expulsão do Paraíso
Não foi: “com dor parirás os teus,
Com suor trabalharás o pão de teu juízo.”
Mas antes: “quando ele te quiser,
Tu não o vais desejar
E, a par,
Quando ela te pretender,
Não a irás tu suportar.”
No eterno desencontro unidos,
Eis-nos, os jamais de vez punidos!
296 - Coragem
Motor da vida, a coragem
Acende o fogo primevo,
Tirou-nos das cavernas, em viagem
até à derradeira semente que hoje cevo.
Inventámos os números e as palavras,
Enfrentámos o labor do pensamento
Por coragem investirmos pelas lavras.
A História do Homem é um invento
Da coragem:
Nem a razão, sem ela, teria a nossa
imagem.
Reveste múltiplos rostos:
O da generosidade,
Da curiosidade a postos,
O do gorgulho
Da vaidade,
O da inocência,
O do orgulho,
O da oca fantasia
Da inconsciência,
O do ódio e do medo,
O da raiva e da alegria,
O do terror
Que nos sela a boca com o credo
E o de todos maior,
- O rosto do amor.
A coragem surda e cega,
Ilimitada e suicida,
É a do torrão onde pega
A vida.
Não tem confins a do amor
Que por amor se realiza:
Ao perigo não dá valor
Nem a razão valoriza.
Pretende mover montanhas
E muitas vezes as move.
Com os dedos destas sanhas
É que os mundos nos promove.
E mesmo quando é esmagada
Foi do amor esta coragem
Que nos rasgou a estrada
E o roteiro da viagem.
Por sobre dela as sepulturas
É que erguemos catedrais
Que ao céu nos apontam os sinais
Das eternas alturas.
297 - Abstracção
República, religião,
Democracia, nação,
Pátria, revolução,
- Abstracção, tudo abstracção,
Com grave nomenclatura
De saber do mais rigoroso.
Os homens inventaram a figura
Dum mundo imaginoso,
Cujo intérmino fadário
É ser meramente imaginário.
Princípios e propósitos
De guerra e de paz
E todos os maus depósitos
De que um homem é capaz:
- Fizeram disto o mundo real
Até, duma assentada,
De nada mais haver sinal,
Até já não haver mesmo mais nada.
Podem os homens filosofar,
Discursar,
Deles com a posição
Se preocupar
No mundo, no Universo ou em qualquer
constelação,
- Podem, que as mulheres
irão atrás, pelos salões, pelos
quinteiros,
Não a espalhar perfumes nem malmequeres,
Mas a limpar-lhes as beatas dos cinzeiros!
Na derradeira verdade
É que os homens jamais crêem:
Para que mostram capacidade
É para a cinza que ao fim não vêem!
298 - Mundos
Há dois mundos: o real e o imaginário.
O imaginário é dos homens, o real, das
mulheres.
Aquele é o dos conceitos, ideias e
saberes,
Este, o do lidar, lidar diário.
O ressentimento contra aquele
Não é por alguém ser dele cativo,
É que os homens conservam-se nele
Como num clube privativo
Onde nem se cuida sequer,
De tão exclusivo,
Que algum dia possa entrar uma mulher.
299 - Plantada
O fim da religião
É dar à vida sentido.
Mais sentido não terão
Os que na ausência de fundamento
Têm insistido,
A todo o momento.
Se vivermos em obediência
À lei plantada no coração,
Para criar comunidade há tendência:
Todos prosperarão.
300 - Naco
Um homem sem mulher não se tem todo.
A mulher sozinha, talvez.
Um homem, nunca: é assim a modo
Como se lhe houveram amputado
Da própria carne, de vez,
Um naco do lado.
Queira ou não,
Sem ela,
É sempre um Adão
Amputado da costela.
301 - Momos
Chega o dia em que somos
O derradeiro afecto
A recordar gente de águas passadas.
Perplexo, o neto,
Perguntará quem são aqueles momos
Nas fotografias amareladas.
Depois, nem isto já:
Ninguém sequer perguntará.
302 - Recém-nada
Desejamos a criança,
Lembramo-la recém-nada,
É a vida só que se alcança,
Mais nada.
Ninguém se lembra que um dia
Vai ter a câmara ardente,
Única certeira via
De toda a gente.
Apenas vemos a vida…
- Mas ela é tão, tão de fugida!
303 - Porta
Amo porque busco um fim?
Amo para me apreçar?
- Não, amo porque sim,
Amo para amar!
Mais nada.
Tudo o mais mantém a porta fechada.
304 - Miúdo
Ficar roubado em ternura
É o que não ocorrerá,
Só a não dão as crianças com fartura
A quem lha não dá.
Qualquer miúdo
Só a quem dele se abala
Com usura
Retira tudo:
- À ternura
Não é de desperdiçá-la!
305 - Mesa
Ao redor da mesa repartes o comer
Que houver,
Bem como cada fatia
De teu dia.
Por isso é que a mesa de jantar,
Mais que de comer,
É de interligar.
306 - Maneiras
As boas maneiras constituem uma engrenagem
De evitar o dano.
Tentamos corresponder-lhes à imagem:
São a linguagem
Do comportamento que se quer humano.
307 - Matizes
Justamente quando encontro a solução
É que te afastas de mim:
Não vivemos da salvação
Mas de ruínas sem fim.
Depois destes matizes,
Porém,
Acabamos todos tão felizes
Como ninguém…
Não há dúvida: sob o império
Vivemos do mistério!
308 - Contrafacção
Toda a mentira é uma contrafacção
de vida,
É uma vida em que sim deveio não.
Toda a mentira é uma paixão vencida:
A paixão que já vive sem paixão,
A imitar-se, interminável, de seguida.
309 - Refúgio
Busco refúgio fora de mim
E até ao presente,
Criança fugida assim,
Ando a adiar indefinidamente
O inevitável retorno a casa,
O confronto com a fuga
Que me apraza
E que, ao fim,
Único e definitivo me conjuga
Entre mim e mim.
310 - Inserção
Minha responsabilidade
Provém
De minha inserção
Doutrem na liberdade:
Não há terra de ninguém
Entre meu e teu quinhão.
Questiúnculas sempre há
Como por um fio de água,
Ora aqui, ora acolá,
Por entre revolta e mágoa.
E quando a palavra dada
Não vinga,
O que respinga
É a sacholada!
311 - Império
Minha relação com ela cresce
Diariamente,
Pois cada vez menos a conheço e me conhece
E o confessamos de frente,
Alegremente.
É a alegria
Que a sério
Leva a crescer
O dia.
E nem tempo vai haver
De acabarmos nosso império!
312 - Casais
Semelhanças sociais,
Psicológicas diferenças:
Eis os sinais
Dos casais
Com que venças e convenças.
O entendimento
Mais sólido e duradoiro
Requer este elemento
De oiro:
Semelhante e diferente
Em equilíbrio constante.
Um igual, para ser gente;
O diverso, impenitente,
Para seguir adiante.
313 - Desaprendi
Na escola aprendi
A pensar
Mas quase esqueci,
Em lugar,
O que obriga a vida a ir:
- Desaprendi de sentir!
314 - Importante
Importante, aqui,
É o miúdo que treinei,
O poema que escrevi,
O amigo de que sei.
O mais,
Se convém,
É quando me traga a paz
De mais um laço de alguém.
315 - Matéria-prima
Em vez de determinante
A família (que nos forma)
Matéria-prima, perante
A qual vou seguir a norma
Ou rompê-la mais avante,
Pode ser, se, em minha lida,
Construir dela uma vida.
Vai ser tão libertadora
Nesta via
Quanto foi constrangedora
Na de ser meu lema e guia.
316 - Dentro
Mora o pai dentro de mim,
No fundo do mar.
Enquanto me forma assim,
Toma-lhe o lugar
Um mentor de muitas caras:
Este pai que foi meu pai,
Meu avô de histórias raras,
Meu tio que nunca sai…
E por todos eles sobe,
Das profundas do oceano,
Este pai, adobe a adobe,
E já voga a todo o pano
Em meu mar de identidade:
- Minha personalidade!
Vou tendo sabedoria:
Oriento o dia a dia
Cada vez mais perto
De bater certo.
317 - Sintomas
Os sintomas e problemas
Humanos,
Aprofundados os temas
Em todos os planos,
Encontram definitiva solução,
Deslindada a teia,
Na religiosa intuição,
crente ou ateia.
É que, ao religar,
Reintegro minha solidão
Na imensidão
Do mar.
Aí, o nada
De meu grito
Projecta-se da estrada
Ao infinito.
318 - Devastados
O progresso que operamos
Após sermos devastados
Pelo amor
Obriga a que o resumamos
Como aquilo que nos vem dispor
Novamente a mergulhados
Vivermos nele.
E tudo isto a despeito
De que o sinto bem suspeito
Quando ele, sempre ele,
Me sonda ligeiro a pele:
Leva-me a regiões escuras
Recônditas, misteriosas,
Que do amor são leveduras,
Em poema transmudam prosas…
E depois, nesta canseira,
Explode-me a vida inteira
Deixando-me a alternativa
De pôr de pé, desfeita a teia,
A torcida de candeia:
- A vida viver mais viva.
O que, afinal, não é mais, sequer,
Do que viver, viver, viver…
319 - Romântico
Romântico e positivo
Se um amor
Apenas for,
Da sombra morre cativo.
Sombra da separação,
Da perda da fé,
E da esperança na relação,
De valores que secretos perdem pé…
Porém, tal
Visão tão parcial
Também
Ideais expectativas contém.
Quando o amor não é capaz
De se lhes manter ao lado
É destruído, tenaz,
Pelo outro ferrão desajustado.
320 - Disparatados
Os laços de amizade
tecem-se, descuidados,
Pelos comportamentos disparatados
Entre as pessoas da comunidade.
O sentimento de comunhão
Não pode ser mantido
A um nível de elevação
Demasiado subido.
Propaga-se pelos vales
Muito mais que pelos cumes:
Do batuque dos atabales
Das almas tem ciúmes.
Então é na desrazão
De quem ri uma boa gargalhada
Quer damos a mão
Para a jornada.
321 - Abismo
O amor não deixa que as almas
Se desviem do destino.
Do martírio quer as palmas,
Quer o hino.
A consciência à beira do abismo
Mantém do infinito,
No limiar do cataclismo,
Medida final de nosso grito,
Ali, no que tanto quero e temo:
- De nossas almas no extremo.
322 - Angular
Acalma,
Repara quais são as fontes vivas:
As peças menos dignas em assuntos de alma
São as que se revelam as mais criativas.
Nas relações humanas, nos amores,
Repara bem no que constrói o lar:
A pedra rejeitada pelos construtores
Em breve se transforma na pedra angular.
Desconfia
Do cimo:
O abismo é que te guia,
Repara bem no limo.
A libertadora inspiração
Vem-te da fantasia,
Nunca da razão:
- É o coração que intui o dia.
323 - Privado
O erotismo cria um mundo,
O ciúme então preserva
Do lar o vector fecundo
No privado que o conserva.
O ciúme nos salva
Impondo limites
À alma,
Até que ela e a vida fiquem quites.