QUARTO CANTO
E ERGO-ME
DE PALAVRAS REVESTIDO
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o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
365 - E ergo-me de palavras revestido
E ergo-me de palavras revestido
No estreito
E faço peito
Do mar às ondas e ao bramido.
E deste jeito
Me descubro erguido
Na onda, na maré, no penhasco subido,
Tal se fora a tal afeito.
E quando, na verdade,
É a palavra que digo,
Então é meu abrigo,
É minha identidade:
Não é um verso de pé trocado,
Sou eu que moro ao lado.
366 - Passagem
A passagem de ano,
Ridícula na importância,
Sem relevância nenhuma,
Nos revela o arcano
De que muda o pano:
Recomeço de ânsia,
De esperança, em suma,
Que será melhor e fácil,
Que é possível impossível…
E, afinal, o tempo, grácil,
Sempre igual, sempre impassível…
Continuamos pequenos
E frágeis, envergonhados
De crédulos nos terrenos
Que apenas serão sonhados.
Mas nós, os que acreditamos,
Vemos que é outra a verdade:
Além de quaisquer reclamos,
De que terão fruta os ramos
Só o coração persuade.
Tudo o que for construído
Principia
No coração refundido
Que o mundo que está para vir
Extasia:
- E assim germina o porvir!
A passagem de ano
É mesmo devida:
Semeia, por engano,
A outra vida.
367 - Intestino
Até há um milhão e oitocentos mil anos
O homem era um enorme intestino
Para diferir alimentos vegetarianos
Num intérmino metabolismo: um desatino!
O Homo Erectus, então,
Nosso antepassado,
Aumentou da carne o quinhão
E mudou-nos o fado.
Carne, gordura e tutano,
De fácil digestão,
É quase por engano
Que requerem estômago e intestino:
Ficam estes tão pequenos
Que a energia a menos
A alimentar o cérebro a destino.
Cresce o encéfalo em tamanho
E o Homem, em ganho.
Há quinhentos mil anos vem o fogo:
O alimento cozinhado
é digerido logo,
O aparelho digestivo é encurtado,
E, em contrapartida;
Aumenta o cérebro outra vez de medida.
Agora o Homo Sapiens é tão inteligente
Que até o vegetarianismo é coisa que o
tente.
E nem vê que ser vegetariano é regredir
Às eras em que o Homem ainda estava para
vir.
368 - Mesa
Dantes, quantas perguntas sem resposta!
Hoje, quantas respostas sem pergunta!
O computador aposta
Que nos junta
Na mesa posta.
Mas apenas a fome pode juntar
O Homem à mesa do lar:
- Sem a questão,
Como escolher o lugar,
Como pôr o pé no chão
E caminhar?
369 - Leitura
A leitura me povoa
Dos rostos e do lugar
Que terei de imaginar.
À toa,
A televisão
Imagina por mim:
Assim,
Não!
Quando quero viajar
Sem ter de sair de casa,
Viro a lauda devagar
Como quem abre uma asa.
E fico então bem entregue,
Exploro a selva ou o rio
Sem dar pelo tempo empregue
A encher de mundo o vazio.
Assim invento a aventura
Num lugar inebriante
E tudo é apenas o instante
Da leitura.
370 - Grão
Quando o grão de verdade não for
encontrado,
Enquanto por tudo bolem,
Os homens mastigam e engolem
De mentiras enorme quantidade.
Muitas vezes a verdade
É oculta de tal maneira
Que quanto mais alguém a procura e peneira
Mais lhe perde a identidade.
371 - Largada
Cabeças quentes, frios corações
Nunca resolveram nada.
Cabeça fria, no coração vulcões,
É o que nos põe de largada
Sem juntar nossos senões
Aos da estrada.
372 - Elemento
Entre um ancião de incontáveis cãs
E um chimpanzé da mesma idade
Não divergem as manhãs
Vividas em comum
Senão, na diversa identidade,
Por um elemento,
Apenas um:
- É que o ancião desenvolveu o pensamento.
373 - Monde
Que é a filosofia?
Todo e qualquer responde
E ninguém responderia:
É que atrás dela se esconde
O real e a fantasia.
E onde encontrar quem monde,
Sem perigo,
O rebento melado dentre o virente trigo,
Sem arrancar do chão,
De vez, o pão?
374 - Cura
Sê pessimista.
Porém,
Ao agir, age como quem
É um incurável optimista!
Não cura
A vida,
Mas apura
A medida
Da energia devida
A quanto dura.
375 - Quão
Quão mais pequena a República,
Mais flamejante a bandeira.
Quão mais sonorosa e pública
Do programa a lista inteira,
Mais mesquinho e virulento
Do sectarismo o elemento.
É uma lei
que não requer Parlamento
Nem que a dite nenhum rei.
É o tormento
Que atormenta qualquer grei
Desde os princípios do tempo.
376 - Palhaço
Rimos todos do palhaço
Que cai por não agarrar
Aquilo a que estende o braço.
- Por fazer, se calhar,
De maneira fingida
O que a sério fazemos toda a vida.
377 - Cintos
Apertemos os cintos,
Voltemos ao trabalho!
De sonhos extintos
Por tudo quanto falho,
Do descontentamento preciso
Para tornar mais real
O sinal
Do paraíso.
378 - Pregação
A pregação adequada
Podemos conhecê-la
No que em nós abre uma estrada:
Porque nos revela
Segredos inefáveis e extremos
- Que nós, afinal, sempre soubemos!
379 - Pilares
Suportam o templo do mundo
Quatro pilares:
Dos sábios a sabedoria,
Dos bravos o valor fecundo,
Dos justos a prece sem altares,
Dos grandes em justiça a primazia.
Porém, tudo em nada vai dar
Se deles adiante
Não tiver um governante
Que saiba governar.
380 - Fraterna
A persuadir,
A força de quem governa
Terá de aprender,
Fraterna,
Em lugar de se perder
Sempre, sempre a compelir.
A persuadir
É que, eterna,
Poderá ir, poderá ir, poderá ir…
381 - Rigorosamente
É assim:
Qualquer estrada
Seguida rigorosamente até ao fim
Não leva rigorosamente a nada.
Trepa à montanha um pouco apenas,
Até verificares que é uma montanha:
Do cimo da montanha quando acenas
Então já teu olhar a não apanha.
- Poderás ver pelo mundo além
Mas teu pé não vê o que por baixo tem.
382 - Grandeza
A grandeza é transitória,
Jamais devém consistente.
Depende do imaginário e da memória
Com que um mito um homem tente.
Quem experimenta a grandeza
Tem de ter senso do mito
Que a rodeia e embeleza,
Reflectir esse infinito
Com a ironia que o preza.
Então é que se desliga
Das pretensões que tiver,
Mora por baixo da liga
De sonho que imita ser.
As grandezas, sem esta qualidade,
Por minúsculas que o tomem,
Mesmo a da mera ocasionalidade,
Matam um homem.
383 - Côdea
Melhor é uma côdea de pão seco
E em paz
Que um palácio cujo tecto
Apenas com sacrifícios e lutas se compraz.
Aqui ninguém come.
- A paga
É uma fome
Que tudo traga.
384 - Nutriente
A vida melhora o ambiente
Para a vida sustentar.
Torna o nutriente
Preciso e a disponibilizar
Mais rapidamente
Presente.
Reúne mais energia
No sistema em cataclismo,
Pela interacção que inicia
De organismo a organismo.
Quimicamente,
A vida faz que a vida assente
Na vida
Que a mais vida convida,
Indefinidamente…
385 - Nómadas
A vida é movimento
Na paisagem animal.
Os nómadas seguem o elemento
Necessário e fatal.
A trilha do itinerário
Ajusta-se à carência de água,
De comida e minerais.
O mapa, rigoroso e vário,
Traz de nossa mágoa
Os sinais.
E o segredo
De como aprendemos a perder o medo.
386 - Cútis
O homem e a obra
São a doença na cútis do planeta.
Quando a natureza se dobra
E a doença detecta,
Tende a retirá-la,
A compensá-la,
A encapsulá-la,
Até incorporá-la
No sistema.
Até que nada tema:
Nem que, de enxurrada,
Nos leve ao nada.
Até porque, ao fim, o homem
É sempre o que os vermes comem.
387 - Chusma
Um chefe é o que distingue
Duma chusma um povo:
Para que deste o nível vingue
Ele o choca, como um ovo,
E, para onde o inclina,
Eternamente o germina.
388 - Ameaças
Quando a premência
Nos invade
Com ameaças tamanhas,
A sobrevivência
É cada vez mais a capacidade
De nadar em águas estranhas.
389 - Divisória
A linha divisória
Entre ignorância e conhecimento,
Entre a cultura e a brutalidade,
É da memória
A dignidade:
- Os troncos erectos ou tortos
É do modo como tratamos os mortos.
390 - Elo
Trago comigo a corrente
Forjada em vida,
Elo a elo, lentamente,
Por minha vontade entretecida,
Por minha vontade atada à mente;
Tolhendo-me os pés.
Saberás o peso e o comprimento
Da corrente que és?
É um comprido e pesado elemento
Que de ano em ano trabalhas
E em que teus passos atrapalhas
Em lugar de te soltar ao vento.
És a corrente de ferro
A que te soldaste de erro em erro.
391 - Dinheiro
Meia dúzia de moedas
É caso para propor
Que lhe concedas
Tamanho louvor?
Ou ele tem o poder
Das raízes,
De nos fazer
Felizes ou infelizes?
De nos tornar o trabalho
Leve ou um fardo,
Como à sombra dum carvalho
O canto dum bardo?
Um prazer
Ou uma fadiga,
Conforme o jeito de acolher
Se ameiga ou obriga?
O poder é o do dinheiro
Ou reside, se calhar,
Na palavra, num olhar
Que da moeda escorre inteiro?
Em coisas tão ligeiras
E tão insignificantes
Que delas nem sequer te inteiras,
De tão hesitantes
Nas maneiras
Que nem dão para somá-las nem contá-las,
Por mais que vistam galas?
- É pouco dinheiro… Será?
Para os sedentos na duna,
A alegria que nos dá
É quase tão grande
Como se aquilo que nos mande
Houvera custado uma fortuna.
392 - Parcial
Como o mundo é parcial!
É duro com a pobreza
Mas condena por igual
A procura de riqueza!
É assim a vida…
Depois queixamo-nos de que não há mais
saída.
393 - Fulminar
Que demora a da vingança e do castigo!
Que rápido fulminar um homem!
Que tempo leva a criar e guardar o perigo
Dos raios que o somem?
Não demora muito um terramoto
A engolir uma cidade,
Mas a prepará-lo, ignoto,
Quantas eras decorreram de verdade?
Pronto, acontece e destrói tudo;
Ao preparar-se, ninguém o ouve nem vê.
- A consolação
É, sobretudo,
A de quem espera e crê.
E crê que não!
394 - Grão-senhor
Todo o grão-senhor
Que a vida inteira pagou juros ao diabo,
Quando à frente o logrou pôr,
Acaba de tal modo amedrontado
Que, sem tugir nem mugir,
Recorre aos nobres pés para fugir.
Foge à raiva do faminto,
Às desolações da guerra,
Foge às chacinas do instinto…
Porém, não o converte o que o aterra:
À primeira oportunidade,
Retomará logo
Quanto fizer explodir o fogo
De sua diabólica divindade.
395 - Margarida
Entre os escombros, uma margarida,
No campo de batalha,
Quão mais se torna querida
Do que a que no canteiro de casa
Por sorte nos calha!
É que, lá nascida
Contra quanto a arrasa,
Demonstra quanto a vida
É forte e por medida.
Quão preciosa
Nos abrasa
Onde a vida já não goza
Senão desta tremura de asa!
396 - Erro
O erro é o Homem,
Não o mundo.
O Homem é que não muda, infecundo,
Que não há forças de rico ou pobre que o
domem.
Do mundo à tona,
É o Homem que, culto ou inculto, não
funciona.
É o Homem que, do Mundo na magia,
Mantém a mais perversa hierarquia.
Basta de miséria que absolve,
De mentiras evangélicas
Sobre a ignorância que tudo resolve,
De implorar pelo perdão
Basta rezas angélicas!
Não!
“Perdoa-lhes, Pai,
Porque não sabem o que fazem”?!
- Ai
Sabem, sabem!
E, enquanto com o iníquo se comprazem,
De estúpida euforia em si não cabem!
Sabem e, por tal motivo,
É que se perdeu a estrada.
Doravante o Homem vivo
Já não acredita em nada.
Isto é que é de arrepiar:
É o Homem a doença
que nos anda a roubar a pertença
De nosso lugar.
397 - Paragem
Por que é que nunca a vi,
Por que é que nunca a vejo,
À palavra que senti,
Que desejo?
É que além de ouvida e vista,
Uma palavra se vive,
Respira-se, toca-se quando exista
No vago som que cative.
Além de som e de imagem,
É carne de minha carne,
É o mistério em paragem:
É sempre o verbo que incarne.
De vez
Quando incarnar em mim,
Então, sim,
Acabará todo o talvez,
- Será do entremez o grande Fim!
398 - Livro
Por trás de cada banho de sangue
Que houver nome de revolução,
Há um livro:
Não me livro,
Langue,
Olhando, cândido, para a ilusão!
Por trás de cada loucura
Institucionalizada,
Há um livro:
Não me livro
Por trás da desculpa da procura
Duma estrada!
Por trás de cada violência
Colectiva
Há um livro:
Não me livro
Com a evidência
De que toda a liberdade é furtiva!
Por trás de cada
Genocídio
Há um livro:
Não me livro
Com a desculpa de que uma rua rasgada
Requer ao lado um presídio,
Ou não haverá caminhada!
Ideologias que escravizam
E impedem de ter ideias,
Palavreados que visam
Nobres sonhos e são teias
Onde o real de cotio
Só não morreu por um fio,
Sugestões diabólicas
De boas sinas
Que, de utópicas,
Levam a carnificinas,
Contra um cancro sagrados protestos
Que em troca geram outros mais molestos…
E quantos rapapés e lambidelas
Por trás das desgraçadas sequelas!
Onde encontrar
Os adivinhos?
Nós somos, afinal, que caminhos,
Que lugar?
399 - Quem?
“Quem és tu?”
“Serei aquele que for
Sendo.”
- Nada mais nos resta no baú,
Apenas o amor
Que nos for entretecendo.
- Posso ver-Te, Deus, apostas?
Nem vale a pena, que Ele vira as costas!
Em teólogo alguém se emproar,
Que desperdício de tempo e de energia
Numa fantasia
Para ao fim se enganar!
- Para ao fim nos encurralar
Qualquer dia,
Se calhar…
400 - Jornalista
O jornalista é importante:
É onde o público pode ler
De que é que o público poder
Quer que ele seja garante.
O jornalista, em democracia,
É o intérprete medianeiro