QUINTO  CANTO

 

 

 

NA  QUADRA  POPULAR  DE  AMOR  VIVIDO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 482 e 680 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                482 - Na quadra popular de amor vivido

 

                                                Na quadra popular de amor vivido

                                                Eu canto o regular entrosamento

                                                De mim contigo, ao entrançar sentido

                                                Que nos guia as passadas pelo vento.

 

                                                E neste singular cometimento

                                                É que o porvir, num infantil vagido,

                                                Decerto vislumbrar vou a contento

                                                Através destes nós que atei, contido,

 

                                                Tentando saborear-lhes o elemento

                                                Que me dão convivente e solidário,

                                                Pelo qual jamais sou medo e tormento.

 

                                                No feixe que me prende a tudo o mais

                                                Deixarei de adejar sem rumo e vário,

                                                Traço meu norte contra os vendavais.

 

483 - Eixo

 

Se nada tens para dar,

Dá-te num gesto de amor

E até uma pedra, ao calhar,

No eixo o mundo te vai pôr.

 

 

484 - Prezamos

 

Nós prezamos sempre mais

Aquilo que não podemos:

É o espectro do jamais

Que mais faz que nós amemos.

 

 

485 - Jamais

 

Chego à Lua, atinjo Marte

E as profundas do oceano

E jamais conquisto a parte

Negra ao coração humano.

 

 

486 - Mortas

 

Quando um lar se destruiu

O casal rompeu comportas

Ao pior que em si nutriu:

- Se acusam de vidas mortas!

  

 

487 - Basilar

 

Jamais as pessoas mudam

No que são de basilar,

Adaptam-se quando acudam

Ao amor que aqueça o lar.

 

 

488 - Falha

 

Como pai ou como mãe

Uma falha a quenquer calha.

Só falha de vez, porém,

Quem se encalhar em tal falha.

 

 

489 - Bater

 

Bom será sempre bater

Antes de tentar entrar

Na mente doutro qualquer,

A ver se há mesmo lugar.

 

 

490 - Igual

 

Um é o ser, outro é o valor:

Aquele se impõe tal qual;

Este é amor e desamor,

Em ninguém vai ser igual.

  

 

491 - Melhor

 

Quando tento descobrir

O melhor que outrem tiver

Faço em mim sobressair

O melhor que em mim houver.

 

 

492 - Desculpas

 

As desculpas são os pregos

Usados em tempo escasso

A construir os refegos

Duma casa de fracassos.

 

 

493 - Emparceira

 

A moral é a vida inteira,

Dá-lhe a ética a razão:

- O dever nos emparceira,

Todo o mundo é meu irmão!

 

 

494 - Nível

 

Pessoas do mesmo nível

Pedirão umas às mais,

Que exigir não é credível

E acusações são demais.

 

 

495 - Desavenças

 

Em todas as desavenças

Cada lado tem razões,

Cada qual com suas crenças

É que é o fim das discussões.

 

 

496 - Valha

 

Não há fé pela qual valha

A pena matar quenquer

E de igual modo, se calha,

Vir por ela alguém morrer.

 

 

497 - Chicote

 

A obscura deferência

Do medo e da escravidão

Dos cães faz que a obediência

Não seja ao chicote em vão.

 

 

498 - Morto

 

Como ninguém pode amar

Nenhum morto eternamente,

Assim igualmente, a par,

A um vivo mas que não sente.

 

 

499 - Primeiro

 

Morre um homem condenado,

Então herói vem a ser:

Para às vezes ser amado,

Primeiro importa morrer.

 

 

500 - Doutrem

 

Com olhares bem diversos

Os males doutrem nós vemos

Do que vemos os adversos

Que sobre nós sentiremos.

 

 

501 - Piedoso

 

O religioso amador

É deveras mais piedoso

Que o profissional: o amor

Não é um ceptro religioso!

 

 

502 - Diferença

 

A principal diferença

Entre o amor e uma amizade

É que ao amor mais pertença

De ódio certa quantidade.

 

 

503 - Adeuses

 

Tristes são de amor adeuses,

Deitam fora coisas boas:

Os homens querem ser deuses

Como as mulheres, pessoas.

 

 

504 - Idiota

 

Se ela o acusa da desgraça

E depois nega e não nota,

Ser casado é ir à praça

Como um perfeito idiota.

 

 

505 - Ateus

 

A Lei diz: “amar a Deus,

Servi-lo do coração.”

Não diz para crer: ateus,

Vocês é que têm razão!

 

 

506 - Atenção

 

Dizer “amar” e não, “crer”,

Mantém-nos a atenção presa

No que houver a compreender:

- Que importa como alguém reza?

 

 

507 - Filho

 

Querias vir conversar

Para encontrar Deus por mim?

- É melhor ires tentar

Um filho teu ter por fim!

 

 

508 - Apenas

 

Bem melhor é ser mulher

Do que ser pessoa apenas.

Único modo de o ser:

- A um homem fundir as penas.

 

 

409 - Mortos

 

Todos vivemos com mortos,

Porém sempre atrás de nós,

Não à volta, já que os portos

Fecham-lhes a barra à voz.

 

 

410 - Recordar

 

Continua o coração

Dos homens a recordar

Muito após já ser em vão

Quanto a memória tentar.

 

 

411 - Ideal

 

Não há ideal de pobreza

Nem de riqueza a propor:

Mais vale amor sem riqueza

Que riqueza sem amor.

 

 

512 - Berma

 

Isto de ser professor

Requer a mão apurada:

Há tanta flor, tanta flor

Que toco à berma da estrada!

 

 

513 - Janela

 

Além do tecto, uma estrela,

Atrás do muro, a raiz…

- Bastaria uma janela

Para me fazer feliz!

 

 

514 - Disfarce

 

Quando ensinar for amar,

Ser um professor é dar-se…

- Como isto vai devagar,

O que demora o disfarce!

 

 

515 - Maricas

 

Tanto finges que não sentes,

Não vão ter-te por maricas,

Que a mentira que te mentes

É a verdade em que te ficas!

 

 

516 - Cansado

 

Não tenho mais que fazer,

Terei é muito que amar:

Se, de cansado, morrer,

Nada é vão em meu finar.

 

 

517 - Pele

 

Coração à flor da pele

E de nada então sou pobre:

Quer se alegre ou sofra ele,

Tudo o mais é o que me sobre.

 

 

518 - Companhia

 

Procuramos companhia,

Não por entre os que meditam,

Entre as crianças: a via,

Via dos que ainda acreditam!

 

 

519 - Leivas

 

Demos, demos coração

E mais àqueles que erraram,

Mas com este freio à mão:

- Se alinham as leivas que aram.

 

 

520 - Rapazes

 

Rapazes maus, não, não há:

Falta de boa vontade,

De amor do lado de cá,

É que afoga em tenra idade.

 

 

521 - Devagarinho

 

Viagem de saber ser gente

A falar devagarinho:

- De repente, de repente

Todo o mundo é meu vizinho!

 

 

522 - Tratamento

 

Da aldeia para a cidade

Se esfriou o tratamento:

Fica o “senhor”, gravidade,

Foi-se o “tio” que acalento.

 

 

523 - Lavado

 

Sou levado, sou levado,

Mas que importa? É uma ilusão!

Sou-o, mas fico lavado,

Quem me enganar é que não!

 

 

524 - Memória

 

Como os mais é uma pessoa:

Quer contar a sua história,

Não sabe ouvir, fala à toa…

- Não ficará na memória!

 

 

525 - Gaiola

 

Nas arestas destas casas,

Como a vida nos viola!

Quem é que nos corta as asas

À medida da gaiola?

 

 

526 - Mantida

 

A mulher a quem mantemos

Não nos parece mantida

Enquanto nós não sabemos

Que o é doutros toda a vida.

 

 

527 - Suprimir

 

Para a morte de meu bem

Suprimir meu sofrimento

Só se por fora me vem

Matar como fez por dentro.

 

 

528 - Ruptura

 

Minha ruptura com ela

Abre o campo do prazer?

- O quebrar duma janela

Não quebra as grades que houver!

 

 

529 - Muro

 

Dela a presença era o muro

Contra o meu gozo da vida?

- Abatido, me asseguro

Outra maldição erguida.

 

 

530 - Impede

 

Creio que a visita amável

Me impede de trabalhar?

- Ida embora, inexplicável,

Fica o vazio em lugar.

 

 

531 - Ciúme

 

Para o ciúme não há

Nem passado nem futuro,

O que ele imagina está

Sempre num presente apuro.

 

 

532 - Esperteza

 

Tua esperteza me agrada,

Que esperta em mim a doçura

Que à fruta é sempre apontada

Quando o paladar apura.

 

 

533 - Desatino

 

Má conversa, desconfiança,

Acaso algum desatino,

Que importam se ali se alcança

Um amor, esse, divino?

 

 

534 - Menospreza

 

Valorar a gentileza

Da mulher amada é um erro

Se ela nisto menospreza

O mundo que aparte encerro.

 

 

535 - Desenvolvimento

 

As criaturas vão ter

Desenvolvimento em nós

E fora de nós: viver

Dos dois lados tece o cós.

 

 

536 - Predestinada

 

Agindo, a imaginação

Extrai da mulher amada

De única ser tal noção

Que a torna predestinada.

 

 

537 - Quinhão

 

De certa idade é quinhão

Menos duma criatura

Se apaixonar que do vão

Que um abandono figura.

 

 

538 - Menção

 

Por condições sociais

Nem por menção do bom senso

O poder ninguém tem mais

Sobre quem amo e em quem penso.

 

 

539 - Empenhamento

 

Quando deixámos de amar,

O empenhamento desperto

Morre antes de se finar

Quem ele deixou deserto.

 

 

540 - Boreal

 

A minha recordação

É uma boreal aurora:

O tempo mata a função,

Sombra de amor mal demora.

 

 

541 - Revivescente

 

Saudade duma mulher

É um amor revivescente:

Igual na dor vai viver

Todo o fulgor que alimente.

 

 

542 - Física

 

Na dor física, escolher

Não se impõe à nossa dor.

No ciúme é que sofrer

Vem do que me queira impor.

 

 

543 - Figura

 

Ignoramos o sentir

Próprio duma criatura

Sem sequer o pressentir?

- Como lhe anulo a figura!

 

 

544 - Estrangeiro

 

Pelo pensar possuímos

As coisas, não porque as temos:

País onde residimos

É estrangeiro se o nem vemos.

 

 

545 - Conformado

 

Se um viúvo conformado

Quer fugir do inevitável

Com a cunhada casado,

Só prova que é inconsolável.

 

 

546 - Parco

 

Bem parco é o mundo exterior,

Em nós próprios é que há vida

E, se se tratar de amor,

Lá fora em nada se lida!

 

 

547 - Debilita

 

Não é porque outrem morreu

Que uma afeição dedicada

Se debilita: é porque eu

Morro, lento, pela estrada.

 

 

548 - Mentira

 

A mentira é essencial

E é tão grande o seu papel

Que um amor, no que mais vale,

É mentira todo ele.

 

 

549 - Versão

 

Começar a amar um ente,

De inocente que pareça,

É uma versão diferente

Dos vazios que em mim meça.

 

 

550 - Defesa

 

A mentira é a defesa natural,

De improviso ou mais bem organizada,

Do amor contra o perigo bem real

De a vida destruir duma assentada.

 

 

551 - Medíocre

 

A medíocre mulher,

Muito mais que a inteligente,

Eis a que um génio prefere,

Pois é quem mais o acrescente.

 

 

552 - Alvas

 

Cremos amar uma jovem,

Porém não amamos nela

Senão as alvas que a movem

A ser delas a janela.

 

 

553 - Homossexual

 

Era um homossexual

Do mundo o melhor marido

Se não imitara mal

Da mulher ser tão ferido.

 

 

554 - Interesse

 

O interesse ocupa-se?

Logo o amor reforma-se.

O interesse informa-se?

O amor preocupa-se…

 

 

555 - Carícia

 

Uma inocente carícia,

Depois do sexo que houver,

Perde o encanto de delícia,

Começa a empalidecer.

 

 

556 - Deserto

 

Deixámos de conversar:

Que longe estamos, tão perto!

Já começo a delirar,

De sede a morrer deserto.

 

 

557 - Linda

 

Ainda bem que me pediste:

“Confirma uma vez ainda…”

Descobri o que resiste,

- Descobri que és mesmo linda!

 

 

558 - Vinte

 

Apenas vinte minutos

Em comum para a partilha…

E, todavia, os produtos

Num lar tornam qualquer ilha.

 

 

559 - Equilíbrio

 

Se de ter tempo deixei

(Este é meu maior ludíbrio)

Para os amigos que amei,

- Perdi de vez o equilíbrio.

 

 

560 - Ditador

 

O poder dum ditador

Mais absoluto e caudilho

Acaba sendo inferior

Ao que um pai tem sobre um filho.

 

 

561 - Criança

 

Três coisas tem a criança

De aprender: quem é que manda,

Quais as normas com que avança,

Quem as firma em toda a banda.

 

 

562 - Honra

 

Se a honra não defender,

Os demais irão pensar

Que a honra que então tiver

Não a terei se calhar.

 

 

563 - Desgosto

 

Se tens um fundo desgosto

Que te tira o gosto à vida,

Junta-te a alguém de igual rosto

E conversai de seguida.

 

 

564 - Ajudar

 

A forma mais excelente

De a ti próprio te ajudares

É de ajudar, competente,

Os mais com que deparares.

 

 

565 - Gratidão

 

Quem sentir a gratidão

Mas a não manifestar

Tem uma prenda na mão

E não a vai entregar.

 

 

566 - Humilhado

 

Ser humilhado deprime.

Porém, humilhar-se alguém

Diante de nós contém

A mágoa que nos redime.

 

 

567 - Idiotia