SEXTO  CANTO

 

 

 

 

OS  ROTEIROS  ENCONTRO  QUE  PROPONHO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 681 e 861 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                681 - Os roteiros encontro que proponho

 

                                                Os roteiros encontro que proponho

                                                Na quadra popular que me projecta

Os rumos, os desejos, qualquer sonho

                                                Em busca da distante, ignota meta.

 

                                                Salpico de poesia, à quadra aponho

                                                Como a um marco na estrada, a minha seta,

                                                A indicar-me na recta o alvor risonho

                                                Cuja luz buscarei ao fim secreta.

 

                                                Se neste quase nada, quase tudo,

                                                Os buracos e as curvas no caminho

                                                Jamais serão descritos, sobretudo

 

                                                O que na quadra apuro, meu cadinho,

                                                São os oiros que o mundo põem mudo,

                                                Pois jóia rara a vida me adivinho.

 

 

 

682 - Sentido

 

Dizer não, sentido

Tem bem mais no fim

Se tiver sabido

Também dizer sim.

 

 

683 - Bicho

 

É o Homem um bicho

Que a armadilha monta,

Isca-a com um lixo

E cai nela à tonta.

 

 

684 - Bofetadas

 

Liberdade é ser capaz

De aguentar as bofetadas

Que sempre a vida nos traz

Pelas decisões tomadas.

 

 

685 - Futuro

 

Futuro apenas vai ter

Quem passado tiver tido:

Quem a identidade houver

Da história de que é nascido.

  

 

686 - Receita

 

De irritar um irritante

Eis a receita feliz:

Dar-lhe um sorriso galante

E escapar-lhe por um triz.

 

 

687 - Paz

 

Melhor a um homem deveras

É morrer em paz consigo

Que em guerra perdurar eras

Dele próprio sem o abrigo.

 

 

688 - Acção

 

As palavras, sim, serão,

Abundantes, belicosas,

Mas apenas uma acção

Cria as coisas preciosas.

 

 

689 - Sair

 

No smocking, mesmo lá dentro,

Mora em T-shirt um rapaz

Sempre a viver no tormento

De dali fugir em paz.

  

 

690 - Circo

 

O tempo é o circo ambulante

Sempre a ser alevantado

E a mudar, a cada instante,

A mudar para outro lado.

 

 

691 - Tarefa

 

Não é deixar-se viver

Tarefa de cidadão,

É os desempates que houver

Decidir com posição.

 

 

692 - Vergonha

 

Certifica que a criança

Que algum dia foste outrora

A vergonha a não alcança

Deste adulto que és agora.

 

 

693 - Vitórias

 

De ontem as minhas vitórias

Serão menos importantes

Do que os planos para as glórias

Que amanhã quero ter antes.

 

 

694 - Missão

 

Há vidas cuja missão

É um destino de tal sorte

Que se inaugura a função

Apenas depois da morte.

 

 

695 - Líder

 

Quem lidera é quem tiver

O mais longínquo horizonte:

Quem líder pretende ser

Terá que ser uma ponte.

 

 

696 - Poder

 

O verdadeiro poder

É sabermos que podemos

E, por respeito ao dever,

Todavia, não fazemos.

 

 

697 - Chafurdar

 

Aprender com o passado

É o que à sensatez impele.

Insensato e bem errado

É, porém, chafurdar nele.

 

 

698 - Espada

 

Se um valor não vale nada,

Se a autoridade não manda,

- Como irá deter-se a espada

Que a todos nos põe de banda?

 

 

699 - Quebra-cabeças

 

A vida é um quebra-cabeças

De unir linhas infinitas:

Só quando no fim as meças

É que teu desenho fitas.

 

 

700 - Monumento

 

Diminuído da usura

Do tempo de tal momento,

Resta sempre, da loucura

De sonhar, um monumento.

 

 

701 - Sério

 

A sério prezar a vida

No que ela for justamente

É abandoná-la, perdida,

Por um sonho que se tente.

 

 

702 - Ferramentas

 

Todos somos ferramentas

Mais ou menos resistentes.

Que mal há, se enquanto tentas,

Se quebre acaso, entrementes?

 

 

703 - Intervalo

 

Este homem, um falso deus,

Não vais conseguir matá-lo:

Se morrer, nesse intervalo,

Triunfará pelos céus.

 

 

704 - Esperança

 

Todas as coisas se somem,

A questão é como ser

E a esperança do homem

É a razão de ele viver.

 

 

705 - Vitória

 

Não veremos a vitória

Mas teremos contribuído.

Jamais é vã a memória

Se o que sou é de haver sido.

 

 

706 - Conturbado

 

O futuro conturbado

Futuro é desconhecido:

Este obscurecido dado

Morre à espera de sentido.

 

 

707 - Instrumento

 

Toda a vida é um instrumento

Inesperado da sorte:

É que a vida é um alimento,

- É o alimento da morte!

 

 

708 - Carácter

 

O carácter, de embrulhada,

Tão complexo é que se perde?

- Todo o fio da meada

Finca na estação mais verde.

 

 

709 - Traço

 

Filosofia na História:

- Foi real, foi fantasia,

Mero traço de memória,

Ou renasce em cada dia?

 

 

710 - Margens

 

Primeiro perguntámos pela Terra

E depois perguntámos pelo Homem:

Entre ambas estas margens se nos ferra

O dente das questões que nos consomem.

 

 

711 - Caminho

 

Do ser ao conhecimento

É o caminho do que sou,

Até devir o momento

De ser o que alguém sonhou.

 

 

712 - Fracturas

 

No século dezanove

Quantas fracturas avançam

Que o vinte depois promove!

- Os homens nunca descansam!

 

 

713 - Ovelha

 

Que importa uma vida velha

De olhos a arrastar no chão?

Valem cem anos de ovelha

Menos do que um de leão.

 

 

714 - Medo

 

Ter medo não é cobarde:

A coragem vem do medo,

Quantas vezes, quando ele arde

E foi vencido em segredo!

 

 

715 - Promessa

 

O futuro é uma promessa

Que muitos crerão que é vã,

Mas a promessa começa

A sério mesmo amanhã.

 

 

716 - Mistério

 

A vida não é, bem sério,

Um problema a resolver:

A nossa vida é um mistério,

É mesmo o mistério a ser.

 

 

717 - Senão

 

Para reter o lugar

Onde não haja senão

É preciso acreditar

Que as questões têm solução.

 

 

718 - Enquanto

 

Se não lograr uma coisa,

Abandono-a, enquanto novo,

O bastante para à loisa

Outra tentar em que aprovo.

 

 

719 - Crença

 

Quem se não crê deus-com-amos

À vida quer os extremos:

Não é a crença o que julgamos

Mas aquilo que fazemos.

 

 

720 - Singularidade

 

Nossa singularidade

É que há biliões que embebe

Quem uma ideia concebe,

A ideia que persuade.

 

 

721 - Presidir

 

Todo o fim da caridade,

Longe duma ostentação,

É duma boa cidade

Presidir à construção.

 

 

722 - Parar

 

Não podemos parar para pensar,

Teremos de pensar quando vivemos,

Que a vida continua a amarinhar

E, se paramos, logo então perdemos.

 

 

723 - Quimeras

 

Se estamos vivos deveras,

Antes do tempo colhidos

Somos todos e às quimeras

Nem dá tempo a dar ouvidos.

 

 

724 - Teima

 

Por quê continuar a teima

Se ela ao fim nada resolve?

- Aprendi algo que queima

E à frente há mais que me absolve.

 

 

725 - Raízes

 

Não se alongam as raízes

Andando-as a procurar,

Delas formam-se as matrizes

Fixando-me num lugar.

 

 

726 - Vasculhamos

 

A origem do grande evento

É como a origem do rio,

Vasculhamos terra e vento

E ninguém lhe encontra o fio.

 

 

727 - Nomes

 

Qualquer homem tem dois nomes:

Tem o nome que lhe deram

Mais o que aos frios e fomes

Rouba aos tempos que o toleram.

 

 

728 - Justiça

 

Quando a justiça é o que sai

Da espada nas mãos dum rei,

Que juiz é que não cai,

Bem e mal terão que lei?

 

 

729 - Ave

 

Ave que foge à prisão,

Que para longe esvoaça,

Por que atrás já corre em vão

A esmagar-se na vidraça?

 

 

730 - Génios

 

Não, os génios não os quero:

É que o fim de meus convénios

É pôr fim ao desespero,

- É que todos sejam génios!

 

 

731 - Ganância

 

A ganância não tem fé,

Quer ter os olhos na boca

E pouco importa o que vê,

- Dela importa é o que nos toca!

 

 

732 - Quase

 

Chega um dia e serei quase,

Quase mesmo um Professor.

Pois não é que nesta fase

Findo quando quase o for?!

 

 

733 - Sina

 

O que é preciso ensinar

É aquilo que não se ensina:

Ir sendo, bem devagar,

Quem se impõe a própria sina.

 

 

734 - Falsificador

 

“Não,  porque parece mal”

Torna-nos em maus poetas:

Já ninguém vale o que vale,

Falsificador de metas.

 

 

735 - Reguada

 

Um risco sobre o trabalho

A sangrar de bem vermelho:

Reguada em almas que eu malho,

Reguada com que as engelho!

 

 

736 - Denega

 

Aprender como se faz

É mais luta que ciência:

Deus, que me denega a paz.

Deu-me em troca paciência.

 

 

737 - Prescrita

 

Má lição ou lição boa

Vem da fonte não prescrita:

Eu ser lição em pessoa,

Não o papel onde é escrita.

 

 

738 - Enviesado

 

“Cuidado com este aluno!”

- Rosna o mau mestre enviesado.

E ao invés eu me reúno

Com este aluno cuidado.

 

 

739 - Errando

 

Errando é que alguém aprende,

Não acertando à primeira:

Corrigindo é que se entende

A falsa frecha e a certeira.

 

 

740 - Produtivo

 

O prazer do sacrifício

Troca-o, vazio e cativo,

Pelo livre benefício

Do trabalho produtivo.

 

 

741 - Gala

 

Tomada uma decisão,

Visto-me logo de gala

E já nem reparo então

Quanto falta executá-la.

 

 

742 - Cheio

 

A vida cheia de nada,

Na desilusão ferida,

Pode ser, por fim, a entrada

A um nada cheio de vida.

 

 

743 - Sombra

 

Outrora se desvanece

Neste agora que existir,

Como uma sombra se esquece

Nas ondas de luz a vir.

 

 

744 - Fadário

 

Em troca do imaginário

Que tentamos descobrir,

Dá-nos a vida um fadário

Que ninguém vai vera vir.

 

 

745 - Sujeição

 

Nós não temos liberdade

De deixar de forjar dor:

É vã a nossa vontade

De aos mais sujeição impor.

 

 

746 - Jeiras

 

Do lado aqui da realidade funda

Restam mentiras que serão verdade

Do lado além que ignoto nos fecunda

Nas jeiras do destino que nos grade.

 

 

747 - Esferas

 

Não conhecemos deveras

Senão aquilo que é novo,

O que nos muda de esferas:

- O hábito não choca o ovo.

 

 

748 - Sofrimento

 

Livrar-me dum sofrimento

Requer que nele me grude,

Que vem dele o apagamento

De vivê-lo em plenitude.

 

 

749 - Sintomas

 

Nossas impressões, ideias,

De sintomas têm valor:

Sondo, médico,  nas veias

As causas do que isso for.

 

 

750 - Frívola

 

Vida frívola e mundana

Põe-nos os sentidos tortos,

Mata o poder que em nós mana

De ressuscitar os mortos.

 

 

751 - Pico

 

Não é por sorte ou azar

Que falho o pico da serra:

Quero aprender a voar

Conservando os pés em terra!

 

 

752 - Desejo

 

O desejo engendra a crença

E, se em tal não reparamos,

É que ele não tem detença

Senão quando nos finamos.

 

 

753 - Fadiga

 

A fadiga da velhice

Ao recordar o passado

Dificulta que emergisse

Do presente algum bocado.

 

 

754 - Deprimente

 

Nada é tão deprimente

Como quando nos propomos

Ser pessoa diferente

Daquela que a sério somos.

 

 

755 - Inseguro

 

O que hesita ao fazer planos

É que se sente inseguro

Do poder de, em vez de danos,

Se destacar com apuro.

 

 

756 - Assustadora

 

Se não tentar conhecer

Gente doutra raça ou fé,

Assustadora a vou crer,

De pôr-me o cabelo em pé!

 

 

757 - Limite

 

Decide rápido qual

É teu limite no evento.

Não transgridas o sinal,

Depois, em nenhum momento.

 

 

758 - Zero

 

Se tiver de ser um zero

Mais vale zero p’ra vinte

Do que zero para zero:

- Ao menos sonho o requinte!

 

 

759 - Crédito

 

É vital ceder-me o crédito

Da adversidade vencida,

A que tenho jus por rédito

Do que ultrapassei na vida.

 

 

760 - Comportamento

 

Ao olharmos para a História,

O comportamento humano

Mais fácil é de memória

Prever que do tempo o dano.

 

 

761 - Travessia

 

travessia do deserto,

De opções pobre e de esperança…

- Não te percas, que estás perto,

O que importa é quem não cansa!

 

 

762 - Exercício

 

O exercício nos liberta

Do sofrer que há na cabeça

E o corpo o sentido acerta

Com o pé que o chão nos meça.

 

 

763 - Renuncia

 

A minoria é dever

Do que a ser não renuncia,

Por isso é tão fácil ser

O que for a maioria.

 

 

764 - Indignação

 

A indignação facilmente

Dará boa consciência

Mas rápida se desmente

Se de agir não leva à urgência.

 

 

765 - Pegada

 

Conserva no coração

A impaciência de fazer,

Com a indignação na acção

Da pegada a não perder.