SÉTIMO  CANTO

 

 

 

 

PEDRA  A  PEDRA  SEGUIR,  RUMO  AO  SUBIDO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 862 e 1043 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                862 - Pedra a pedra seguir, rumo ao subido

 

                                                Pedra a pedra seguir, rumo ao subido

                                                Destino meu traçado, para ser

                                                A promessa que em mim me prometer

                                                Levar-me ao que jamais hei atingido,

 

                                                É o que na quadra cantarei, ao ver

                                                Os traços do perfil nunca fingido

                                                Que em mim incarnarão, metal polido

                                                De estátua viva que ando a acontecer.

 

                                                E assim na quadra fixos ficarão

                                                Os entalhes e as marcas duma história,

                                                Tais como regulares eles hão-

 

                                                - De ter acontecido. E na memória

                                                Restarão tais solenes patamares

                                                Para o porvir seguro que tentares.

 

 

863 - Melhor

 

Prefiro pensar

O melhor de todos

E assim vou poupar

Problemas a rodos.

 

 

864 - Faz

 

Ouvimos sempre falar

Em quem tem e quem não tem.

Será que não há lugar

A quem faz ou não também?

 

 

865 - Fardo

 

Duro é o fardo da pobreza,

O da ignorância é real,

Mas o maior se despreza:

- Só ter, só, potencial!

 

 

866 - Página

 

Qualquer acto de justiça

Volta a página do mal.

O da vingança o enguiça:

Lavra outra página igual.

  

 

867 - Tempestade

 

Democráticas são poucas

Coisas, tanto e de verdade

Como são de neve as loucas

Danças duma tempestade.

 

 

868 - Alma

 

Não canta o canto o cantor

Com braveza nem com calma

Enquanto o canto não for

Cântico a cantar na alma.

 

 

869 - Enganar

 

Não ter possibilidade

De me enganar longe ou perto

Era ignorar de verdade

Todo o prazer de estar certo.

 

 

870 - Honesto

 

Ser honesto é o meu seguro

Gratuito e sem evidência

Em que afinal eu apuro

Minha paz de consciência.

  

 

871 - Natural

 

A tempestade é uma acção

Natural mas não humana:

Donde houver o sim e o não

É que o que é humano dimana.

 

 

872 - Conveniente

 

O que é certo, o que é decente,

Quantas vezes é varrido

Por aquilo que é entendido

Como o que é conveniente!

 

 

873 - Biblioteca

 

Se morre em África um velho,

Morre mais que esta erva seca,

Morre a fonte do conselho:

- Morre uma biblioteca!

 

 

874 - Erros

 

São a ponte habitual

Da ignorância à sapiência

Os erros que cada qual

Comete por excelência.

 

 

875 - Mil

 

Obra de arte vai viver

De mil maneiras: conforme

Os olhos de quem quiser

E o tempo que ali não dorme.

 

 

876 - Passeia

 

Religião é eternidade

Que pelo tempo passeia:

Além é igual a verdade,

Aqui muda em cada aldeia.

 

 

877 - Céu

 

Pão nosso de cada dia

Para a fome e mais escolhos

No céu azul principia:

- É o pão nosso para os olhos.

 

 

878 - Vestígio

 

Um vestígio de verdade

Com distorção, exagero,

Mais eficácia ter há-de

Que a que tem um erro inteiro.

 

 

879 - Pólo

 

Nunca lá estive e tu, sim,

Portanto podes julgar?

- Nunca ao Pólo Norte vim

Mas sei quão frio é o lugar!

 

 

880 - Tentador

 

Que é que há de mais tentador

Que um segredo mencionado,

Retido após com pudor,

A meias posto de lado?

 

 

881 - Cativa

 

A verdade é relativa

E depois, como a beleza

Está dos olhos cativa

De quem a contempla e preza.

 

 

882 - Surdez

 

São as palavras que acodem

A vergarem-nos às palmas?

- As palavras nada podem

Contra uma surdez das almas.

 

 

883 - Traem

 

As doutrinas que se traem,

Tal mulher abandonada,

Nunca estão, enquanto caem,

Com a razão que as degrada.

 

 

884 - Derrota

 

Uma das lições que esquecem

De experiência de alta nota,

É que os vencidos merecem,

Por norma, a sua derrota.

 

 

885 - Julgar

 

Julgar, ficará provado,

Será não compreender:

Quem compreende um bocado

Julgar já não vai poder.

 

 

886 - Doença

 

A doença não podemos

Sabê-la senão doentes:

Estranha a nós nós a cremos

E afinal damos-lhe os dentes.

 

 

887 - Sobrenada

 

Se a vida não vale nada,

O que importa, de seguida,

Do nada é o que sobrenada:

Nada não vale uma vida!

 

 

888 - Vaidade

 

Não há força nem há vida

Sem a certeza certeira

Da vaidade desmedida

Do mundo e sua maneira.

 

 

889 - Sofrimento

 

O sofrimento reforça

Todo o absurdo que é o da vida:

Não a ataca nem destroça,

Dá-lhe a irrisória medida.

 

 

890 - Guerra

 

Um homem continua a ser julgado,

Não noutra, mas na sua própria terra,

Cada qual é que pesa o próprio fado:

Um homem é sempre esta infausta guerra.

 

 

891 - Vassalagem

 

Involuntária homenagem,

Detestar o superior

É de quem a vassalagem

Presta de ser inferior.

 

 

892 - Tragédia

 

Baptizou a Idade Média

Os filósofos pagãos,

Só que não viu que a tragédia

É que não ficam cristãos.

 

 

893 - Impresso

 

Usam o papel impresso

Porque em impresso papel

A patranha ganha o excesso

Dum sagrado capitel.

 

 

894 - Promulga

 

Aquele que sofre julga

Ser o único a sofrer

E o que sofre então promulga

Que não sofre mais quenquer.

 

 

895 - Conta

 

A melhor conta de banco

Dum homem em evidência

A moeda não é que tranco,

Será dele a inteligência.

 

 

896 - Aprendiz

 

Um velho é feito juiz,

Que em miúdo estudou leis:

- Fica a velhice aprendiz

Dum miúdo de dez reis!

 

 

897 - Pitéu

 

Morreu tão novo que quase

Nem chega a ver que viveu,

Provou o molho de base

Sem saborear o pitéu.

 

 

898 - Triagem

 

Questão é como viver:

Quando crente e não crente agem

De igual modo, nem sequer

Faz sentido haver triagem.

 

 

899 - Obsessiva

 

A carência preenchida

Deixa logo de obcecar,

É a recusa toda a vida

Que obsessiva a vem tornar.

 

 

900 - Santuário

 

No santuário que é que havia

Quando o templo se erigiu?

A sala inteira vazia:

- Tudo o que de Deus se viu!

 

 

901 - Derrota

 

Quando já não és um jovem,

Não é a vida um desafio,

Na derrota só te movem

As condições do fastio.

 

 

902 - Abismo

 

Quando à beira dum abismo

E se Deus me abandonou,

Então deveras eu cismo

No milagre: no que sou!

 

 

903 - Humildade

 

A humildade, quando chega

E se chega a dar sinais,

Aquilo que mais adrega

É chegar tarde demais.

 

 

904 - Cão

 

Se tenho um cão, tenho um cão

que faz tudo o que eu aprovo.

Tenho um cão? Não! Tenho o irmão,

Tenho o meu irmão mais novo!

 

 

905 - Infeliz

 

O poeta é um infeliz:

Vê do mundo a imensidade;

Só no provir, de raiz,

Vê-o a ele a Humanidade.

 

 

906 - Crítico

 

Crítico é quem vende o peixe,

Mas quem do peixe percebe

Não é o peixeiro a que o deixe,

É o que do mar o recebe.

 

 

907 - Pescador

 

Pescador é da paisagem

Mero pormenor humano:

Para um olhar de viagem

Nem à solidão traz dano!

 

 

908 - Vendaval

 

Ramo verde e vigoroso

Que o vendaval chicoteia,

Logo me endireito ao gozo

Do alvor da vida que ameia.

 

 

909 - Adolescente

 

No banco de jardim, o adolescente.

Orvalha a nostalgia e vence-o, vence-o,

Magoando e ferindo molemente…

- Até que ele no fundo ouve o silêncio.

 

 

910 - Encruzilhada

 

De tudo vem poesia

Da vida na encruzilhada:

Quando se abre a gelosia,

Vem poesia até de nada.

 

 

911 - Desilusão

 

Satisfeito o meu desejo,

Começa a desilusão,

Não por aquilo que vejo,

Porque vejo quanto é vão.

 

 

912 - Eleito

 

Se em tudo lhe encontro o efeito

Na presença da emoção,

Ao que é o meu motivo eleito

Não o encontro em nada então.

 

 

913 - Electrão

 

A força que dá mais vezes

Da Terra a volta em redor:

- Do electrão as rapidezes

São batidas pela dor!

 

 

914 - Doença

 

Quando a doença me leve

A ver a morte de perto,

Como a vida, agora breve,

Gozaria pelo certo!

 

 

915 - Atmosfera

 

As mudanças de atmosfera

Mudam o homem interior:

Despertam eus doutras eras,

Sopram do hábito o torpor.

 

 

916 - Recanto

 

As artes põem encanto

No mais insignificante,

Como a dor cada recanto

Nos torna a nós relevante.

 

 

917 - Transeunte

 

Tanto prazer, tanta dor,

Sem do corpo jamais ter

Um perfil nada melhor

Que dum transeunte qualquer!

 

 

918 - Estado

 

Um facto, como uma imagem,

Diverge conforme o estado

Em que o olha o personagem:

Qualquer pó lhe muda o dado.

 

 

919 - Encruzilhada

 

Uma ideia: encruzilhada

Da floresta donde parte

Tanta estrada, tanta estrada

Que só aventuras reparte.

 

 

920 - Trovão

 

Instantes após o choque,

A inteligência, trovão

Duma faísca a reboque,

Ruge a luz da intuição.

 

 

921 - Inventivo

 

Recordar não é inventivo,

É impotente em desejar

Algo para além do arquivo,

Mas pode o ausente me dar.

 

 

922 - Arcaico

 

Esquecer é um instrumento

Que me adapta à realidade:

O arcaico semeia ao vento,

Só germina o que persuade.

 

 

923 - Citadino

 

Quem nada tem que fazer

Lê virtudes, lê defeitos,

É um citadino a colher

Ervas em becos estreitos.

 

 

924 - Ensejo

 

O sofrimento e o desejo

Agravam se penso neles,

Ter que fazer é o ensejo

De ignorar como são reles.

 

 

925 - Pensamento

 

Os hábitos de pensar

Impedem, cada momento,

O real de se agarrar,

Colhido no pensamento.

 

 

926 - Dois

 

Há dois mundos lado a lado:

O que clamam os mentores

E o que fazem, recatado,

Nas costas, os tais senhores.

 

 

927 - Luz

 

A mesma obra produz

Sobre uma e outra pessoa

Diversos traços de luz:

- Eis o que a torna ou não boa.

 

 

928 - Expresso

 

Tudo o que eu, vida, te peço,

É que acabe conformado

Na rota de teu expresso

De percurso limitado.

 

 

929 - Mentiras

 

A nós próprios as mentiras

Que dizemos mais fatais

São aos outros as que atiras

Das deles como rivais.

 

 

930 - Asneira

 

Quando fizer uma asneira,

Logo anote o que aprendeu:

Lê-lo, então, logo à primeira

De a repetir o impediu.

 

 

931 - Maior

 

Em labor igual, obrar

Doze horas por dia deve

Para casa um pão cobrar

Maior que quem oito teve.

 

 

932 - Pobreza

 

Se a pobreza gera o crime,

Muito mais vezes, porém,

É o crime que gera além

Pobrezas que ninguém lime.

 

 

933 - Oração

 

Quanto mais velho ficar,

Tão mais sinceras serão

As palavras que rezar

Minha descrente oração!

 

 

934 - Cansado

 

O que nunca trabalhar

Fica mais vezes cansado

Que quem sua, se calhar,

Mais cedo cai para o lado.

 

 

935 - Extremos

 

A vida é feita de extremos,

Que tudo nela se acama:

Ora é bronze o que lá vemos,

Ora é só feita de lama.

 

 

936 - Contas

 

Com a vida ou com dinheiro,

Da guerra nas desafrontas,

Não é o rei nem seu parceiro,

É o povo que paga as contas.

 

 

937 - Transplantar

 

Se o jovem é como a flor

Será só para enganar.

Na velhice a convém pôr:

Pois como ambas transplantar?

 

 

938 - Tolo

 

Cheio de suficiência,

O tolo,  por ignorância,

Não repara que a ciência

Pouco nos diz de importância.

 

 

939 - Minúsculo

 

O homem de hoje é colossal

Nas responsabilidades

E um minúsculo animal

Na tarefa em que o engrades.

 

 

940 - Vagalhão

 

Nem tudo há-de ser vaidade,

Fugaz vagalhão de espuma,

Um caminho de verdade

Que não vai a parte alguma.

 

 

941 - Precisões

 

Recursos para viver

Se dão grandes precisões,

Mais dará tentar saber

Para viver as razões.

 

 

942 - Consentimento

 

A liberdade é uma escolha

E bem mais consentimento:

Quando chover, para a molha,

Ao sol,  prò divertimento.

 

 

943 - Esmagá-lo

 

Um homem não vale nada,

Pode esmagá-lo o Universo,

Mas só ele sabe à entrada

Que no Imenso morre imerso.

 

 

944 - Rol

 

Fomes, mortes, coronéis,

Onde anda Deus neste rol?

- Nuvens, mesmo se cruéis,

Nunca negareis o Sol!

 

 

945 - Reduto

 

Para nós, se a morte ocorre,

Cai o último reduto.

Para Deus, quando alguém morre

Colhe apenas d’Ele um fruto.

 

 

946 - Miséria

 

A miséria das igrejas

Não é de santos egrégios,

É o que ali