DÉCIMO CANTO
VAI DEMUDANDO
IRREGUALR O TOM
Escolha
aleatoriamente um número entre 1153 e 1222 inclusive.
Descubra
o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1153 - Vai demudando irregular o tom
Vai demudando irregular o tom
Da vida e do soneto em paralelo,
Palavra e vida se entrosaram no elo
Que a atitude incarnou como o que é bom.
O poema o ser do sonho tem o dom
De transformar no ter moldado ao belo,
No espelho da palavra, com o selo
Da realidade firme a que é pregão.
Então da norma as parcas desviâncias
Desviarei nos termos, quais na vida
Vier de parto a constatar em ânsias.
Eis como, em paralelo, de seguida
Ora sou eu que rasgo em actos trilhos,
Ora deles o poema canta os brilhos.
1154 - Linguagem
A linguagem falada
Fora impulsiva, imprecisa.
Não dá tempo nem põe nada
A reflectir no que visa.
Não permite, quando usada,
A elegância que ajuíza,
Induz à aventura errada,
Não acompanha o que giza,
Doutrem a presença quer.
A linguagem escrita
Reflecte o tempo a escolher,
É lógica e ponderada.
Acompanha a solidão que requisita,
Transmuda-a em solidão acompanhada.
1155 - Escritor
Para sobreviver urge pensar,
Para pensar urgem ideias:
É o escritor que ocupa o lugar
Nas teias.
Quem mais do que ele as produz,
Quem mais do que ele as fornece?
Ele é esponja que absorve a vida e a
traduz
Nas ideias que entretece.
Vaca eternamente prenha
A parir vitelos em cadeia,
Vedor a levar água para a azenha
Do deserto na areia,
Escrever é a mais útil invenção:
- Aqui principia em nós a Criação!
1156 - Adolescência
Antes da adolescência, a rapariga
Às árvores podia amarinhar,
Do ginásio trepar ao espaldar,
Em jangadas cruzar água inimiga.
Porém, por essa altura, o corpo obriga:
Vai dela o vestuário ao lugar,
Corre a comunidade a atanazar,
Mais e mais se combina para a intriga.
As raparigas tenta convencer
De que a finalidade primordial
De cada geração não é qualquer,
É uma seguinte produzir igual.
Como no reino vegetal: a par,
Disseminar sementes e secar!
1157 - Velhice
Nossa história na velhice
Tem de continuar a crer
Que é um início a não perder,
Rumo a um porvir que surgisse.
E, se crermos num porvir,
Tal é confiar em Deus.
E, se for dever dos meus
Pelo porvir algo agir,
Então é que o meu ensejo
O de Deus recobrir vejo.
Ao considerar maneiras
De o fazer, eu lavro as jeiras
De às fomes cozer meu pão
- E assim nasce a religião.
1158 - Cortina
Esta cortina corrida
Sobre os motivos de alguém
Impenetrável revida
Quando um amor intervém.
Obscuro o julgamento
E o gesto da criatura,
Abandona, amada, o intento
De valorar o que apura,
Ao invés do que ocorrera
Se desamada se vira.
Mais certeira tudo lera
Se o amor a não delira.
E quanto mais se empenhara
Se amar fora jóia rara!
1159 - Interpuser
Entre mim e uma mulher
A quem já não amar mais
Se a morte se interpuser
Só se vier matar demais.
Se um amor não existir
Em mortas se converteram
As que ele fez ressurgir
Do nada donde irromperam.
Não somos mais deste mundo
Nem elas nem nós, no fundo.
Meras sombras ambulantes,
Quando o amor desaparece
Somos adiados instantes
De vida que tudo esquece.
1160 - Imaginário
É a paixão o imaginário:
Lógica a conveniência
São motes doutro fadário,
Aquartelado em decência.
É que um homem de paixão
é um homem livre de vez,
Não é mera erudição
O sangue a golfar que fez.
Quando o coração rebenta
Não há lógica que baste
Para aquilo que ele tenta,
Nem há razão que me afaste:
Conforme ao que me convida,
A paixão é morte ou vida!
1161 - Mar
O mar é destino,
Mundo em que nascemos,
Quase em desatino
Todos os extremos.
Por isso a odisseia
Por todos os lados
Meus traços me ameia
Multifacetados.
Então a coragem
De atirar-me às vagas
Faz de mim viagem
Rumo a quaisquer plagas:
- De vez ultrapasso
Ser-me dum só traço!
1162 - Chamiços
Igrejas e compromissos,
Do ponto de vista de alma,
São riquezas: são chamiços
A atear no frio a calma.
Reduzir todas a uma
Pode ser a tentação
Que de alma tanto nos suma
Que nos seja a danação.
Pode ser uma ameaça:
A vida numa só via
Ao lado da vida passa
Múltipla na ramaria.
E o ninho gorado ao chão
Tomba da religião.
1163 - Pedra
Qualquer história sagrada
Tem do mistério da vida
Uma pedra facetada
Que lhe irisa a flor nascida.
Mas o fundamentalismo
Usa-a defensivamente:
Com ele nunca mais cismo
Das escolhas que haja em mente.
Nem responsabilidade,
Nem este meu eu instável.
Como é trágica a vontade
De congelar, inegável,
Num só termo de sentido
Os rios do que é vivido!
1164 - Síndrome
Se a um grupo me identifico,
Sou síndrome patológica,
Se um diagnóstico me aplico,
Serei uma abstracção lógica.
Sendo no imo individual,
Com passado singular,
Minha saúde mental
Vem de eu ser particular.
Quando afinal me resumo
A u índice que é comum,
Ali perco meu aprumo:
Igual aos mais, sou nenhum.
Eu sou aquele que sou,
Que a ser deus lento me vou.
1165 - Asa
Se alguém corta o castanheiro
Que espreita por trás da casa
A mim é que dói primeiro,
Ave que partiu a asa.
Mais do que o tempo passado,
É o respirar da beleza,
Da memória rodeado,
Um parente que se preza.
É doutra espécie, é verdade,
Mas tem tais laços comigo
Que é desta comunidade
Como qualquer outro amigo.
Mais que muitos verdadeiro
É meu irmão castanheiro.
1166 - Auto-estrada
Ao viajar numa auto-estrada
Deparo subitamente
Com a paisagem que é dada
Ali, tão gratuitamente,
Contemplo a grandiosidade
Que me oferta a natureza,
O espanto que persuade,
quanto arrebata a beleza.
Do ponto de vista do imo
A beleza é o componente
Que na vida ocupa o cimo.
A cada dia inerente,
É o momento favorável
De eu ser eu inadiável.
1167 - Heróis
Quando uma nação elege
Homens altos para heróis,
Já nada mais a protege,
Está condenada, pois.
Bom senso suficiente
A suspeitar dos Golias
Garantirá normalmente
Crédito a mais altas vias.
Mérito à normalidade,
Ao comum que se engrandece,
Criança a crescer de idade,
É que nos semeia a messe:
- O que garante o porvir
É o génio de em comum ir.
1168 - Estátuas
Metade ou mais das estátuas
Deviam por pedestal
Ter crânios, o seu sinal
Do que na base são fátuas.
De vítimas e carrascos
O mundo se dividiu:
O pé destes percorreu
Aqueles, chão de seus cascos.
Porém, as vítimas tecem
De tal modo a vida delas
Que a sorte delas merecem,
Tanto lhe abrem as janelas.
Depois de tudo pesar
Quem nos resta para amar?
1169 - Traficante
Mas que olhar de traficante:
Pesas-me em peso de carne?!
E o sonho que em mim incarne
arrastando o mundo avante?
Aquele é mais forte que eu,
Pesa bem mais de cem quilos?
Meus projectos são tranquilos,
Um nada e é um ar que lhes deu?
E, portanto, cada qual
De carnadura e feijão
Mais que seu peso não vale,
Mais que seu peso de pão?!
- Detesto quem muda de alma,
Quem de frios mente calma!
1170 - Antiguidade
Eu detesto a antiguidade,
De incapazes promoção,
Última autorização
Do abuso de autoridade.
Fixa a história (sempre em vão)
O dos grandes que a degrade,
Não o que, pior, se evade,
O dos medíocres, não:
O abuso mais odioso
Não é o da pata dum grande,
De certo lado ainda honroso,
É o de alguém que se desmande,
Que enche enorme um balão de ar…
- E eu detesto detestar!
1171 - Estranho
Que haverá de mais estranho
Para quem é prisioneiro
Que havê-lo sido primeiro
E agora ter livre o ganho?
Para um doente, o tamanho
De seu espanto cimeiro
Há-de ser quando ele inteiro
De curado tem o amanho.
Que é que vai ser do rapaz
Que com o tempo se muda,
Nem dá conta que é capaz
Deste outro que a si se gruda?
Que estranhezas são que o tomem
quando descobrir que é um homem?
1172 - Preto
Volta a ser mulher de preto,
Atenta à dor do querido
Filho que resta discreto,
Semimorto, quase olvido…
É, porventura, encantada,
Que das lágrimas o sal
Mudou na estátua lavrada.
Mas ninguém lhe lê o sinal:
Sombra de alguém falecido
Quem é que a distingue ainda,
À viuvez do vestido
Preto da noite benvinda?
No apartamento deserto
Só o muito longe está perto.
1173 - Cavernas
Hoje é idade das cavernas,
Mundo que se basta a si,
Com alfaiate, casernas,
A escola, a pista de esqui…
Mundo espartilhado aqui,
A viver encurralado,
De muros de frenesi
Sempre, sempre cerceado.
Prisão dentro da prisão
É a das janelas gradeadas.
Que diferença farão
Uma doutra, após criadas?
Ninguém sonha de seguro
Nada além do próprio muro.
1174 - Aguaceiro
O leitor que o livro fecha
Para sair e aspirar
Uma rosa ou ofertar
Do aguaceiro a cara à flecha,
Tem razão quando assim mexa.
A bagagem que arranjar
Literária sopro é de ar
Que só a vida acende em mecha.
O bom aluno viajante
Será sempre sem bagagem:
Não é equipá-lo o importante
Mas despertá-lo à viagem.
Um cérebro recheado
Não se educa, é cozinhado.
1175 - Estátua
O escritor que tanto admiras
Não é uma estátua, mas homem,
Portanto os traços que o tomem
Todos importa que viras.
Admirar e tocar liras
Sem ternuras que te domem,
Em desprezos se consomem
De que rápido fugiras.
Quenquer pode admirar génios,
Mas perde o fundamental
Que jamais vem nos convénios:
Ter-lhes um amor real.
Mais que fruir um regalo,
Importa aprender a amá-lo.
1176 - Arcano
Quarenta formei este ano,
Mais quarenta no que vem,
Todos a marca me têm
Toda a vida, como arcano.
Tal qual como por engano,
Sem o saberem, mantêm
O rumo que ter convém,
Corpo à medida do pano.
Não são, pois, um batalhão
Nem qualquer corpo de guerra:
Meus alunos o que são
é um pulsar denso da terra.
O que eu semeio no chão
É o ritmo do coração.
1177 - Uniforme
Heroísmo de uniforme
Não, nele não acredito:
Não há unidade conforme
Ao sabor que há no infinito.
Não há farda onde se forme
A solidão deste grito
Que sentimos tão enorme
Que lá mora nosso fito.
Dum uniforme não é,
Nem dum corpo, dum conjunto,
Mas de alguém ficar de pé
Quando anulá-lo é o assunto.
Heroísmo é, quando aflito,
Fincar pé contra o atrito.
1178 - Espectador
O espectador é cobarde?
Ao invés é heróico o actor
Só porque a chama nele arde
Sem ver se ateia o fulgor?
Sem do espectáculo o alarde
Não havia espectador…
Mas, embora o peito tarde,
Não é apenas se propor.
O espectador sempre paga
O bilhete dia a dia,
Trabalhando quanto afaga,
Madrugando quanto adia.
O espectador é que aceita
Tudo o que o palco rejeita.
1179 - Briga
Talvez uma mulher, não,
Antes uma rapariga:
Criança e mulher estão
Aqui juntas e sem briga.
Incumbidas de doar
E de conservar a vida,
Ambas duma no lugar,
Todas numa e sem medida.
Oposto do que primeiro
Fora o mais irracional
Voto eterno do guerreiro:
A morte como ideal.
Ideal, só o de viver,
Mesmo se a paga é morrer.
1180 - Calor
Do vero calor da Terra
É a mulher a detentora,
Privilégio que não mora
Em quem à morte se aferra.
Toda a ambição colabora,
No limite, com a guerra,
Violência e morte que aterra
Há milénios, mundo fora.
Animal por entre os mais,
O homem só poderia
Sobreviver entre os ais
Dos iguais que mataria.
Sem a mulher amorável
O mundo era inabitável.
1181 - Quisto
No sistema dominante
Até o suicídio previsto
Se integra lá como um quisto
Na carne viva pujante.
Como os batoteiros ante
No casino o que é benquisto,
O suicídio é bem visto
Desde que fique distante.
Serve para renovar
O gostoso de viver
Que nos outros tem lugar
E deve atingir quenquer,
A morte real, que despreza,
No sistema?! - Que baixeza!
1182 - Metal
Os heróis serão feitos dum metal
Que se não pode retirar do fogo,
Pois liquefazem-se ao inverso, logo
Que o dia a dia devier normal.
São corajosos, aliás, por fal-
Ta de imaginação: o herói abrogo
Quando não passa do perverso jogo
Da miopia de quem já vê mal.
Se a mulher não gostasse dos guerreiros,
Nunca estaria reduzida apenas
A devir o repouso dos parceiros,
A transmudar-se num colchão de penas.
O herói não traz dum uniforme a pele,
É um uniforme, antes, que o traz a ele.
1183 - Bandeira
A bandeira toca mais
Do que o busto da República:
É que ela é viva demais
E não cheira a mulher pública.
Quererá isto dizer
Que a bandeira que alimento
Simboliza o pátrio ser
Como só feito de vento?
Homem de pistola à mão
Que ameaça, fere ou mata,
É cobardia que acata,
Heroicidade é que não.
Neste mundo o que mais dói
É que este é que é seu herói.
1184 - Super-homem
O super-homem jamais
Será de fabrico em série
Como qualquer intempérie
De tropas especiais.
Foi da Guerra Mundial
que a força armada nasceu.
Hoje em profissional deu
Da defesa nacional.
É o retorno aos semi-deuses
De campeões e vedetas,
Meteóricos cometas
Que ao vulgo acenam adeuses.
- Mas no vulgo outra semente
Lenta gemina outra gente.
1185 - Felizes
“Aqueles foram os mais
Felizes dias da vida”
- O que choca em termos tais
O passado é ser que os lida,
Pois que o presente jamais
Logrará cá ter haurida
Vivência ou facto reais
Daquela matriz volvida.
Passado, quando presente
Foi vivido, por igual
Jamais nele viu assente
Felicidade que tal.
- Ser feliz, mas hoje em dia,
É viver já o que viria.
1186 - Já
“Já?! Valha-me Deus, pois já?!”
- Dos lamentos é o mais triste
Que a Terra produzirá:
O desencanto que existe
Do porvir que já não há.
A criatura subsiste
Só para ver que acolá,
Até onde o olhar aviste,
Se tudo o mais se vê lá,