DÉCIMO
PRIMEIRO CANTO
ATÉ QUEBRADA
QUASE SER CANTIGA
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aleatoriamente um número entre 1223 e 1323 inclusive.
Descubra
o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1223 - Até quebrada quase ser cantiga
Até quebrada quase ser cantiga
A poesia do soneto
Nos colmata o tecto
Onde quanto é vital se nos abriga.
Vou do sonho ao ser completo
E no poema mostro a liga,
Neste jogo de espelhos que me obriga
De mim a elaborar saber directo.
O prosaico dia a dia
Me apareceria
Transmudado em sonorosa
Melodia:
Eis como na beleza a dor podia
Ser afinal ainda o que se goza.
1224 - Caos
É o caos a tendência
Inelutável das coisas.
Do átomo à molécula a degenerescência
Inscreve-se nas loisas,
Como das galáxias aos planetas,
Da grandeza infinita à mais pequena…
E, se te inquietas,
Descobres que nada vale a pena:
Em vão tentas combatê-lo,
Dar ordem à desordem,
Um sentido ao que nenhum sentido tem,
Que aumenta o caos quanto aumenta teu
anelo,
Todos os campos a energia te mordem…
- Só que nas fímbrias a vida renasce
também!
1225 - Infelicidade
Não tem a infelicidade
Só rosto de fome e frio.
Também tem o da solidão que há-de
Gelar de vazio
Quem pertence a um mundo que desapareceu,
Que, incompreendido, a ninguém persuade.
De navalha a viver no fio
De não ter identidade,
Não reconhecido, é ridicularizado,
Perseguido, humilhado
No chão da vulgaridade.
Este gelo eterno
É que rasga de inferno
A carne e o sangue da infelicidade.
1226 - Desnutrição
De desnutrição géneros há dois:
A do corpo que vem de não comer,
A das almas que vem de não saber.
O crescimento vem de ambas depois.
Além
de comer,
É preciso saber
Também.
Já leste um livro vez alguma?
Não, que os livros são caros
E como um bife nenhum deles ressuma?
Os saberes resultam muito raros…
- Se não pagas o custo de crescer
Jamais, porém, poderás ser.
1227 - Intelectual
És um intelectual:
Não tens partidarismos
De fé, de paixão nem de moral.
Tens de identificar-te com todos os
abismos,
Tens de compreender tudo e todos por
igual.
E quem compreende lê os exorcismos
De modo universal,
Absolve e perdoa os cataclismos
De tudo e de todos.
Ora, quem tudo perdoa
Em nada crê.
Quaisquer que sejam os modos,
Por muito que o cinismo te não doa,
Já nem sequer em ti podes ter fé.
1228 - Estilhaço
Ninguém compreenderá uma dor de alma?
Se apanhar um estilhaço,
Perdem todos logo a calma:
“Depressa, um garote neste braço!”
Se uma perna embaraço
E a quebro na trave que ma empalma,
Nunca o gesso é escasso
E a dor me acalma.
Mas se tenho o coração esfrangalhado
E o desespero me tolhe tanto a boca
Que a não abro nem por um bocado,
Os outros não darão por nada.
E assim fico tolhido, em minha toca,
A doer sem saída nem entrada.
1229 - Soberba
Com a soberba dos esquemas presunçosos
Duma cultura racionalista da vaidade,
Com a ilusão de explicar tudo o que
invade,
Distraídos pela exigência de ter gozos,
Dos quais o que mais nos persuade
É de donos de nós ser os mais fogosos,
- Com tanta presunção, como morosos
São os regos em nós da fatuidade!
E não vemos como estamos à mercê
Duma lógica que nos é estranha
Invulneravelmente de pé.
O fado ou o destino nos amanha
E por mais que nos repugne seu mistério
Dele vivemos fatalmente sob o império.
1230 - Parapeito
No que aos homens diz respeito,
A dificuldade,
Quando surge a mulher no parapeito,
É conseguir, em continuidade,
Um comportamento ao jeito
De indivíduo da mesma identidade,
Afeito
À igualdade.
Quando há uma mulher por perto
Deixa o homem de ser pessoa,
Comporta-se como macho experto.
E de repente se escoa
Num desastrado deserto
A vida perdida à toa.
1231 - Infecundo
Nunca desprezes um novo
Que serve uma causa
Por causa do medo do renovo
Ou porque requeiras pausa.
É que servir um partido causa
Oportunidades em ovo,
Não é a quinta privada onde pausa,
Em uso próprio, qualquer política que
movo.
Se esta nos não vier servir
É porque a si própria serve e já não dá
Em troca aos outros nada com porvir.
Então já ninguém actua neste mundo
Nem fará deste mundo parte já:
É um mero espectador por inteiro
infecundo.
1232 - Mitos
Os nossos mitos são mitos
À sombra dos quais viver.
Decorativos meros fitos
Nem terão sequer.
A religião à vida há-de trazer
De beleza contributos benditos
Mas o que dum mito se quer
É a verdade que resgate os precitos,
Uma verdade usável,
Com que viver devenha viável.
Se um mito é certo, mais profundo
Devém com cada idade do mundo.
Do belo e do feliz não há busca directa:
- Busquemos a verdade e ela no-los dará,
discreta.
1233 - Tempos
Tempos houve em que toda a gente
Morava em aldeias.
Sentavam-se a mesas alinhadas em corrente,
Falavam às mancheias.
Se com o que te importa, premente,
A esposa ao lado não ateias,
Do outro lado um primo, contente,
Escutar-te-á inteiro, não a meias.
Hoje, quando é impossível falar à esposa,
Resta o isolamento.
O automóvel dividiu-nos, não nos entrosa,
Dispersa os amigos ao sabor do vento.
- Quando uma visita requer planificação,
Os companheiros esfumar-se-ão.
1234 - Armadilha
Se da humanidade a maior alegria
Fora o sexo,
Em grande armadilha nos meteria
O destino a tal conexo.
Nosso fim na terra seria mero anexo
De todas as espécies em porfia:
Ser o nexo
Com a geração que nos seguiria
E com a outra e a outra,
interminavelmente…
Joguetes do grande laboratório da
Natureza,
Como seríamos tão pequenamente!
Serei tal poeira ilimitada?
- Se alguém se preza,
Então recuse ser tão nada!
1235 - Interrogação
Pendular, o Universo oscila
Ou provém único duma explosão?
- É a questão
Intranquila.
Primeiro era um relógio o Universo,
Depois, uma espiral de biliões de
espirais,
Depois é de espaço curvo que converso,
Depois um balão que se expande indefinidamente
mais…
Quando chegarem ao fim,
Verão
Que o que encontram, assim,
No termo da investigação,
É que o Universo é, enfim,
Um ponto de interrogação.
1236 - Corda
Nascemos numa família,
Noutra morremos depois.
Da velhice na vigília
O homem tem laços e nós
Que da família não sabem
De que ainda se recorda,
Até que também acabem
Da vida roendo a corda.
Não podemos viver
Nossas vidas
Em companhia que nos grude
De outrora a quenquer, a quenquer
Que nas lidas
Amámos da perdida juventude.
1237 - Radical
O homem luta pela permanência,
Para vencer a morte.
Deus quer a evolução, à sorte,
Com seu fluxo, desperdício, excrescência…
Entra a criança,
No mundo, amada.
Parte de abalada,
Menos amada, e descansa.
Em fermentação
O tempo bastante,
Talvez atinjamos a produção
De algo excelente lá para diante.
Pelo que resulta deste sinal,
O Homem é conservador, Deus é radical.
1238 - Fatia
Se Deus qualquer de nós fora,
Jamais o mundo seria
Agora
Como Deus o fabricou um dia.
Mas, para ser capaz, por ora,
De viver minha fatia
De tempo sem ir-me embora,
Num sentido qualquer disto apostaria:
Tenho de tentar viver
Como se tudo fizera
Sentido, mesmo sem crer.
Queiramos ou não, a espera
É nesta cela encerrados
De Universo por todos os lados.
1239 - Fronteira
Um ateu varre o problema
Para o chão,
Por falta de paciência para o tema
Em questão.
O agnóstico deixa-o em cima da mesa
Mas recusa-se a tocá-lo,
Do labor eterna presa,
À espera dum intervalo.
O religioso continua
A trabalhar na interrogação,
Mesmo depois de saber que não há rua,
Que não é capaz, que não tem mão,
Que a fronteira é minha, é tua,
- Jamais nada nem ninguém lhe encontra
solução!
1240 - Irreparável
Chega uma altura em que a vida
Aparece irreparável,
Tão sem conserto e medida,
Tão irremediável,
Que de repente nos apercebemos,
A sós,
De que trabalhar só poderemos
Para os que virão depois de nós.
A carreira se esfarela
Nas mãos ao envelhecer,
Paródia, na sequela,
Do sonho que a fizera acontecer.
É fatal cada qual ser um falhado:
Tudo termina e nada fica acabado.
1241 - Sucata
Quando prontos outra vez
A vida a viver ficamos,
Melhorando o que se fez,
Apagados nos finamos!
Se Deus fora deveras cavalheiro,
Houvera de deixar o homem viver
A vida duas vezes por inteiro,
Para após justiça então fazer.
Assim, não!
Põe-nos à experiência,
Falhamos e desata
De imediato a excomunhão
Da existência:
- Somos jogados logo na sucata!
1242 - Frustração
A frustração,
Quando lobrigamos que há-de ter um fim,
É um motivo de prazer ao alcance da mão
Que é preciso aprender a apreciar assim.
Ante uma mulher, a contenção
Torna no homem dela afim
Mais aguda a apreciação
Do sim.
A frustração excita,
Ilumina o movimento duma anca,
A curva dum seio que palpita…
A satisfação é manca:
Bailam-nos raparigas nos olhos
Quando o entusiasmo renasce dos escolhos.
1243 - Luta
Luta
É combate, contenda, estardalhaço,
É disputa.
E, ao mesmo tempo, é um abraço.
Como quando lutamos no espaço
Dum problema que se discuta:
É sempre escasso
O raio que traça a escuridão da gruta.
É preciso amar o problema,
Viver empenhado nele,
Para sentirmos na pele
O tema
- E então, finalmemte, nos armarmos
E com ele lutarmos.
1244 - Insuspeitados
Julgo conhecer a fundo o coração.
Por maior que seja a inteligência, porém,
Não pode perceber os elementos que ele tem
Na composição.
Insuspeitados permanecerão
Até que o momento que os mantém
Voláteis os transmude também
Num degrau qualquer de solidificação.
Durante quase o tempo todo
Aguardam o fenómeno que os isole,
De modo
Que do impalpável os descole.
E quem o coração pensou ler claro
Que dele nada entendeu verá não raro.
1245 - Hábito
De tal modo me habituara
A vê-lo junto de mim,
Que de repente discernia, em frenesim,
Do hábito a nova cara.
Até então o considerara
Aniquilador, suprimindo ao fim
Tanto a originalidade que, enfim,
Até uma percepção fingira rara.
Agora é uma terrível divindade
Tão incrustada em minha intimidade
Que, ao destacar-se e se afastar,
Este deus discreto me inflige tais
tormentos
Que mais que quaisquer outros são
violentos
E, de cruel, se mostra à morte similar.
1246 - Meios
Sinto os meios em meu poder
Quando apenas em pensamento
Modificável o futuro me aparecer,
De minha vontade pelo envolvimento.
Ao mesmo tempo, porém,
Lembro outras forças que não a minha
Que a determiná-lo se mantêm
E como contorná-lo ninguém adivinha:
Que importa haver já soado a hora,
Se aqui fico na demora,
Mexa o que mexer,
Se meu gesto é indiferente,
Se acabar sempre impotente
Perante o que vier a acontecer?
1247 - Criada
É a vida,
Pouco a pouco e caso a caso,
Que nos leva a descobrir que o que mais
lida
Com o coração e o espírito, sempre em
atraso,
Não nos é pelo pensamento
Ensinado,
Mas por poderes outros que a cada momento
O enquadram e ultrapassam, lado a lado.
Então a inteligência,
Destes ao dar conta da superioridade,
Abdica, em obediência,
Aceita converter-se em colaboradora,
Em criada sem vaidade…
- A crença experimental é que então nos
demora.
1248 - Ferrete
Para configurar uma situação
desconhecida,
Recorre a imaginação
Ao familiar com que lida:
Por isso a não figura, não,
Pinta-a sempre distorcida.
A sensibilidade, então,
Mesmo a mais física da vida,
O ferrete do que for original
Recebe,
Tal do raio uma explosão.
E dele de tal
Modo se embebe
Que ela é que nos marca para sempre o
chão.
1249 - Afastamento
Um golpe no coração
O afastamento produz.
A ferida traduz
A dor duma vida em punição.
A mulher que a saudade assim conduz
À exasperação,
Ou para rebrilhar de melhor luz
Ou fruir de melhor condição,
Tal golpe bem pode ela pretender evitá-lo
Jurando separar-se a bem.
Jamais logra tal regalo.
E quem
Ela afasta jamais ela o afastaria
Se bem ele vivera o amor que dela hauria.
1250 - Fugitiva
Se grande for o poder sobre um homem
Que uma mulher
Tiver,
Para que a liberdade lhe não tomem
Quando embora ir quiser,
Só fugindo. As fúrias dele se consomem:
As medidas que então se tomem
Em rainha fugitiva a irão enaltecer.
Há um intervalo
Entre o enjoo da presença dela de há um
instante
E a fúria de revê-la, agora que vai
distante,
Que permite saltar o valo:
- A fuga desperta o amor do sono
E a rainha então de vez repõe no trono.
1251 - Ramificação
O sofrimento, ramificação
Dum choque moral imposto,
Muda a forma, muda o gosto,
Quando busco informação,
Lhe projecto um fogo posto,
Volatilizá-lo como bola de sabão,
Por metamorfoses quando em vão
Fazê-lo passar aposto.
Isto quer menos coragem
Do que arcar com a dor aberta,
Tão dura a noite a acoberta.
Que friagem
A da cama onde ir repor,
Sozinho, minha dor!
1252 - Canora
O nome daquela a quem amamos
Cantamos e recantamos, ave canora,
Quando felizes o rememoramos,
Após a despedida ido embora.
E, se o calamos,
Escrevemo-lo em nós, pela mente fora,
Até que na parede rabiscada nos quedamos
Em que tudo em nós devém sem mais demora.
Repetimo-lo a toda a hora
Em pensamento,
Enquanto estamos felizes,
E mil vezes mais ainda quando labora
Em nós como um tormento:
- Afinal da infelicidade moram também nele
as raízes.
1253 - Plágio
O que chamo experiência
É apenas revelação
Dum traço de carácter sempre à mão,
Em evidência
Com tanto mais força e precisão
Quanto já uma vez dele a ocorrência
Espontânea gera a premência
Doutras mais que se lhe seguirão.
O plágio mais difícil de evitar
Por indivíduos e povos que persistem no
erro
E o agravam como um avatar
É o plágio de quando me ensimesmo,
Quando prisioneiro em mim me encerro:
- É o plágio de mim mesmo.
1254 - Crisálida
A crisálida de ternuras e de dores
Invisíveis torna, para o amante,
Da criatura amada, instante a instante,
As metamorfoses piores.
A cara teve tempo de envelhecer-lhe
diante,
De mudar de traços e de humores.
Porém, sob a capa dos amores,
Inescrutável fica sempre doravante.
O rosto neutro visto da primeira vez
Tão longe fica do que passa a ver
Quando ama e sofre e espera o mais
premente,
Quanto fica o actual do primitivo, ao
invés,
Para um espectador qualquer
Que o olhe indiferente.
1255 - Janela
Quem amamos vive tanto no passado,
É tanto o tempo que trilhámos juntos
Que inteiros não requeiro mais assuntos
Nem a mulher inteira impreterível a meu
lado.
De que é a mesma quero apenas a certeza,
Quero-lhe a identidade,
Quem ama nisto vê bem mais verdade
Que na beleza.
Podem cavar-se as rugas
Ou o rosto definhar,
Que com ela anoiteces e madrugas,
Por mais convidativo que te seja outro
lugar.
Apenas para estar junto dela,
Como quem, olhando o infinito, se senta a
uma janela.