CORPO  DE  SONHO  E  MADRUGADA

 

CANTO  UM

 

 

CORPO  DE  SONHO  E  MADRUGADA  EMBEBO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 1 e 127 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 – Programa

 

Corpo de sonho e madrugada embebo

Em projectos de infindas utopias.

Com bom senso repouso em medianias,

Factos retrato, a fonte são que bebo.

 

Do amor retomo os laços e as magias,

Projecto além minha cerviz de gebo,

Os pés me gruda do cotio o sebo,

Nas coisas findo me assentando os dias.

 

De novo colho a robustez dos laços,

Outro mundo de além me negaceia,

Às pedras findam presos os meus braços.

 

Em clássicas pegadas balanceia

Meu trilho a divergir sempre em meus passos

E acabo rindo alegre ao que me ameia.

 

 

                                                2 – Corpo de sonho e madrugada embebo

 

                                               Corpo de sonho e madrugada embebo

                                               Teu rosto ao ler de gestos e utopias,

                                               Da ternura ao calor, nas medianias

                                               Em que o quotidiano como e bebo.

 

                                               Nos laços que nos unem há magias

                                               Que o dom de endireitar têm o gebo,

                                               Os olhos limpam do rançoso sebo

                                               Que as rotinas espalham sobre os dias.

 

                                               Ao confraternizar atamos laços

                                               Na teia que nos prende e negaceia

                                               Da lonjura que mora além dos braços.

 

                                               Por entre luz e sombra balanceia

                                               O que vislumbro a me guiar os passos:

                                               Da fundura do abismo o amor ameia.

 

 

3 – Poder

 

Violência não é poder,

Força na agressividade

Não mora nunca sequer,

Domine embora a cidade.

 

Deveras quem for herói,

Por mais inacreditável,

É quem ousar quanto dói

Por ser com todos amável.

 

 

4 – Perdão

 

Todo o verdadeiro amor

É uma forma muito forte,

Muito forte de perdão.

Por sozinho me supor

Triste, triste como a morte,

Requeiro do amor a mão.

 

Porém, além disto espero

Que ele me vá perdoar

Estes óculos colados

A fita-cola de esmero

Mais os quilos que engordar

Este corpo de pecados.

 

Aguardo que veja além

Deste meu cabelo sujo,

Da gargalhada estridente,

Das migalhas que contém

O sofá da sala, cujo

Forro lhe foi hoje assente…

 

Aguardo que me perdoe

Que eu seja um mísero humano.

- E que apesar disto voe

Por mim até onde ecoe

Dos deuses o antigo arcano.

 

Que me reconheça aí

Onde de vez eu queria

Viver, por fim, algum dia

E onde jamais eu vivi.

 

 

5 – Querer

 

Se o ciúme é pretender

Manter sempre o que se tem

E a cobiça é querer ter

O que se não tem também,

 

Será inveja não querer

Que os outros tenham sequer.

 

Entre os três, a toda a hora

Vai-se-nos a vida embora.

 

 

6 – Avós

 

Os avós são caso aparte,

Aos netos dão segurança,

Continuidade, e, com arte,

Seu gesto lhes afiança

 

Que ao fim tudo acaba bem.

Os pais andam a apressá-los

E os avós, como convém,

Passam o tempo a acalmá-los:

 

Quem convive com avós

É sereno, mais tranquilo

E mais confiante após.

- Trata, pois, tu de segui-lo.

 

 

7 – Cão

 

O cão é um bom professor,

Dele o mundo inteiro é o lar,

O momento com vigor

Vive e quer-nos ter a par.

 

Os cães, incondicionais,

Amam-nos na vida vária,

Não do corpo por sinais

Nem pela conta bancária.

 

Quem nos dera, quem nos dera

Que o homem fora este cão

No porvir que nos espera,

Não o cão da tradição!

 

 

8 – Empatia

 

"Compreendo exactamente

O que sentes, vou prová-lo!"

- É uma empatia que mente,

Só para próprio regalo.

 

A verdadeira empatia

Ouve e presta companhia.

  

 

9 – Desligado

 

Quão mais ligados estamos

Mais desligado me sinto.

Da tecnologia os tramos

Não nos ligam, que o desminto,

 

Pois cada degrau que avança

Pelas comunicações

É um passo atrás onde entrança

Um vazio de ilusões:

 

Quanto mais nos persuade

A ocupar montanha e vale

Mais nos mata a intimidade

Do encontro interpessoal.

 

 

10 – Automático

 

O atendimento automático

É ter a conversa inteira

Deste modo sintomático:

Sem termos ninguém à beira

 

Nem contactar com ninguém.

A mãe deixa-me um recado,

Respondo igual eu também:

Nenhum sabe do outro lado.

 

É um inerte gravador

Que aqui é rei e senhor.

 

Depois sinto-me sozinho…

- Como é que o não adivinho

E busco a consolação

Bem mais num copo de vinho

Do que em ter outrem à mão?

 

 

11 – Apanho

 

Cada vez me apanho mais

Atrás da carta electrónica,

Para o que requer sinais

De voz viva e bem harmónica,

 

Ou a ver-me aliviado

De o gravador atendido

Ter o que o tempo ocupado

De falar me tem proibido.

 

Eis como tantos esforços

Para manter-me em contacto

Me deixam com os remorsos

De isolar-me, em seu impacto.

 

A indústria, se me encoraja,

Não ergue humanos canais,

Faz apenas que ao fim haja

Escolhos anti-sociais.

 

 

12 – Endeusar

 

Endeusar a juventude

Tira o dever de aprender

Com os velhos quanto pude.

E o direito a cometer

 

Erros nos rouba que apenas

Se admitem a quem ainda

Viveu pouco nas arenas

Que a vida traz, mal advinda.

 

Há-de importar aos mais novos

Retornar a quando os velhos

Com a idade mil renovos

Consagravam de conselhos.

 

A importância era uma coisa

Vinda da longevidade,

Das vidas em que repoisa

O arcano da qualidade.

 

 

13 – Partido

 

Os velhos cada vez mais

Viverão. Que bom seria

Se um bom partido tirais

Do que dali se anuncia!

 

Não é por eles que, avós,

Ao finar-se a luz do dia,

Irão deslaçando os nós.

 

Por eles, não, é por vós!

E é por nós, que principia

A esmorecer-nos a voz

Quando a raiz se emacia,

Plantas a que o sol atroz

Todo o solo cresta um dia.

 

 

14 – Pouco

 

Dar um pouco de atenção

A quem nos cruza a chorar

É gesto que faz lembrar

Que aqui não há solidão.

 

Não estamos sós no mundo,

Num mundo individualista.

É bom aumentar a lista

Do que o torne mais fecundo.

 

Mesmo o indefeso gatinho

Que afinal recolho em casa

Se calhar acende a brasa

Que algures nos dá carinho.

 

 

15 – Seis

 

É nos primeiros seis anos

Que a criança fundo aprende

Regras conviviais sem danos,

Comportamento que atende

 

Doutrem às expectativas,

Respeito pelos demais…

Se birrenta for, de esquivas,

Chantagista, em tremedais

 

Se afundará que depois

A impedem de controlar-se

Na escola, emprego, e os atóis

Levam-lhe o barco a afundar-se.

 

Relações interpessoais

Vindoiras, se andar afeita

Às vontades serem tais

Que qualquer lhe é satisfeita,

 

Tornam-na tão ditadora

Que ninguém mais a sustenta.

Devém tão da lei já fora

Que é presa por violenta.

 

 

16 – Hoje

 

Hoje em dia os pais trabalham

Cada vez mais, o que faz

Que o que mais querem mais falham:

Mais rico, menos capaz.

 

É uma questão de somenos

Que o pior gera dos sarilhos:

- Que tenham cada vez menos

Tempo de estar com os filhos.

  

 

17 – Filha

 

O que a filha lhe requer

É sentir-se apreciada.

Se nem lhe toca sequer,

Descobre-se abandonada

E arranja um modo qualquer

Para se fazer notada.

 

Maus tratos de solidão

Que é que lhe irão provocar?

Apenas embirração,

À procura dum lugar

Que ocupe no coração

De quem a pudera amar.

 

Uma birra, uma chantagem,

São o reverso da imagem:

 

Tal a loucura da fome

Por alguém que em conta a tome.

 

 

18 – Recusa

 

Se crês não dever comprar

Algo que um filho te pede,

Trata então de lhe explicar

A recusa, o que to impede.

 

Ele após mais facilmente

Se resigna à frustração.

Do local fugir ausente

Por vergonha da sessão,

 

Caminho não é jamais,

Por mais que ele bata o pé,

Atroe em gritos, em ais…

Dele é uma vitória até:

Logra aborrecer os pais.

 

Educar mostra quem manda:

Qualquer inversão do lado,

Já que os pais são quem comanda,

A todos lhes mata o fado.

 

 

19 – Oposto

 

Oposto do amor

Não é ódio, não:

Ainda que em furor,

Já presta atenção.

 

 

Oposto deveras,

Negando a presença

A quaisquer esperas,

- Só a indiferença.

 

 

20 – Pior

 

Será ficar ignorada

O pior que acontecer

Pode sempre a uma mulher.

 

Depende ela, exagerada,

Das opiniões daqueles

Que a rodeiam, mesmo imbeles,

 

Dos olhares masculinos

De admiração, quando passa

Pela rua ou pela praça,

 

Dos elogios ladinos

De colegas e de amigos:

São vantagens, são abrigos.

 

Ao perpassar pela estrada

Repica um sino qualquer

Que um olhar tenta colher.

 

Será ficar ignorada

O pior que acontecer

Pode sempre a uma mulher.

 

 

21 – Parte

 

Na maior parte dos casos

A mulher é que levanta

Questões conjugais subtis.

O marido soma atrasos,

Evita falar de tanta

Questão que não tem perfis.

 

Não é crise conjugal:

Todos os casais felizes

Serão assim por igual

Com mais ou menos matizes.

 

 

22 – Discutem

 

Discutem muitos casais

Por um problema importante.

Quatro anos depois ou mais

É como ao primeiro instante.

 

Ao casar, todos herdamos

Mil insolúveis problemas.

Os outros nupciais ramos

Iguais foram noutros temas.

 

Isto não infelicita,

Porém, dum bom lar a dita.

 

 

23 – Reiteram

 

Setenta e cinco por cento

Dos casais que consideram

Que seu lar é uma desgraça,

Cinco anos após o intento,

Quando nele reiteram,

Constatam que tudo passa:

 

Trabalhadas as matrizes,

Doravante ei-los felizes.

 

 

24 – Diferenças

 

Amem vossas diferenças!

Ficando muito felizes

Um doutro com as sentenças

E as contrárias parecenças,

Enraízam mil raízes.

Tal vai ser o ponto forte

Que um lar une até à morte.

 

 

25 – Inícios

 

O casal desilusão

Sente quando se esboroa

Dos inícios a paixão,

Se o romantismo já não

Pelo quotidiano ecoa,

 

Se afloram as diferenças.

"Nas domésticas tarefas,

Nem ajuda nem sentenças,

E de nossas desavenças,

Que serão sempre às catrefas,

 

Ninguém pode dizer nada.

Sempre a ver televisão!

E então com a criançada

Não a quer ver educada,

Condescende até mais não!"

 

Tudo encara a divergência

Como problema em ruptura,

Quando, afinal, a ocorrência

É uma oportuna evidência

De enrijecer a estrutura.

 

Fortalece a conjugal

Tessitura de teu lar,

Não de quanto for igual,

Que não tem novo sinal,

Mas do que é complementar.

 

Os dois lados da montanha

É que a elevarão tamanha.

 

 

26 – Casais

 

Os casais fortalecidos

Sentem-se ao trabalhar juntos.

Frequentemente os assuntos

Acabarão resolvidos

 

Porque encontram soluções

Em que qualquer adivinho

Vê que de ambos as poções

Nenhum veria sozinho.

 

 

27 – Vínculos