CANTO  DOIS

 

 

EM  PROJECTOS  DE  INFINDAS  UTOPIAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 128 e 252 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                    128 – Em projectos de infindas utopias

 

                                                    Em projectos de infindas utopias

                                                    Peregrinamos rumo ao Infinito,

                                                    Sempre acertando o passo em igual fito,

                                                    Desencontradas vão embora as vias.

 

                                                    E quando mais em mim tudo concito

                                                    Mais do sonho me encantam melodias,

                                                    Mais os dedos me tecem fantasias

                                                    Na peugada daquilo em que acredito.

 

                                                    Quanto mais claro um horizonte vejo

                                                    Mais eu descubro que é complementar

                                                    De sonho a meta que por fora almejo

 

                                                    E o que em meu imo acabo a saborear.

                                                    Todo o infinito, ao prolongar-me além,

                                                    Em meu mistério mergulhou também.

 

 

129 – Ponta

 

Trago na ponta dos dedos

Um segredo a libertar.

Se o agarro e perco os medos,

Se em redor o divulgar,

Tudo o mais então esquece:

- É que o milagre acontece!

 

 

130 – Íntegro

 

O íntegro faz o que faz

Porque é aquilo que é correcto,

Não porque é moda que apraz

Nem político prospecto.

 

De princípios uma vida

Em que se não sucumbir

Ao fácil que nos convida

Há-de à vitória atrair.

 

E leva-nos ao futuro

Sem requerer que as pegadas

Que ao retrovisor apuro

Tenham de ser vigiadas.

 

 

131 – Heróis

 

Os heróis são material

De que qualquer sonho é feito

E os monumentos, sinal

Deste invento à pedra afeito.

Sem alguma extravagância

Jamais o mar fora aberto

E o Parténon na infância

Morreria, mal desperto.

 

Os monumentos são luxo

E ao mesmo tempo poupança:

Do poder perene fluxo,

São do povo, ao fim, herança.

 

Que Terra mais maçadora

Sem Pirâmides, Veneza…

- E como partilha agora

O mundo inteiro a beleza!

 

 

132 – Mudar

 

Jovem revolucionário,

Quer mudar o mundo à força.

Depois, o destino é vário

E por proteger se esforça

 

Aquilo que descobriu

Que de bom havia já

No caudal vivo do rio

Do planeta que aqui está.

 

Com a idade muito mais

Compreenderemos, plenos,

Muito embora, triviais,

Estudemos até menos.

 

 

133 – Falta

 

Faz-nos falta ter direito

A um tempo em que não havia

Nem de acertar o preceito,

De ter razão a mania,

Nem mesmo o dever egresso

De verrumar o sucesso.

 

Faz-nos falta ter direito,

Durante uma vida inteira,

De andar de chupeta ao peito

Sonhando a freima leveira

E não esta que acelera

A cada esquina uma espera.

 

 

134 – Chamamento

 

Dedicado a um chamamento,

Encontro a finalidade

E um padrão para o que intento,

A vida é vida em verdade.

 

Se cuidar de resolver

Do mundo todo o problema,

Desisto sem ter sequer

Arregaçado um só tema.

 

Se me cingir ao trabalho

Concentrado numa causa,

Logro muito no que emalho,

Lanço os mais quando entro em pausa.

 

 

135 – Redor

 

Se me sentar silencioso,

No fim da tarde, ouço vozes

Em meu redor num gostoso:

"Lê-me, quero que me gozes!"

São os livros meus amigos

Desta minha biblioteca.

Em miúdo, sem abrigos

Nem sequer uma boneca,

 

Encostado numa ombreira,

Oiço minha mãe dizer:

"De distrair-te a maneira

Vai ser aprender a ler!"

 

Hoje à mão tenho o infinito…

- Nunca imaginei tal fito.

 

 

136 – Rio

 

Há um rio de humanidade

E, embora não saiba ainda

O que fica além da foz

Do rio que nos invade,

Começo a entender-lhe a vinda,

Nossas ânsias tomam voz.

 

A humanidade carrega

Toda a preocupação

Rezando em rio profundo

E já não fica tão cega,

Apostada na visão

De quanto o leito é fecundo.

 

Abarca no seu abraço

O rio toda esta gente

E lento a leva consigo.

É um rio de humano traço

Onde a angústia me consente

Que eu também encontre abrigo.

 

 

137 – Ânsia

 

Os teus pecados acabam

Por ser, em última análise,

Uma espécie de catálise:

Ânsia que não menoscabam

Doutro modo de viver.

Um modo de salvação,

Será demais pretender.

Mas o potencial que houver

De salvar em qualquer lado

Que nos fala ao coração

Tem a sede no pecado.

Siga embora o itinerário

Outro qualquer rumo vário.

 

 

138 – Bonecas

 

As bonecas rejeitadas

Que moram no coração,

Quando a noite é mais profunda,

Será que as portas fechadas,

Ao mover-se, arrombarão

E bailarão na rotunda

Que dispara os pesadelos

Por entre os sonhos mais belos?

 

As bonecas rejeitadas

Que moram no coração

São os duendes e as fadas

Que nos bailam ao serão,

Nas horas mal precatadas

Em que o rosto verga ao chão.

 

As bonecas rejeitadas

Que moram no coração…

 

 

139 – Violar

 

Não há porventura em nós,

A despeito da razão,

A contínua propensão,

Aquela secreta voz

 

Que leva a violar a lei

Só porque de lei se trata?

- Tanto vejo que me mata

Se além não for do que sei.

 

Ficar preso agora aqui

É viver o aqui agora

E morrer no que demora

Todo o além que não vivi.

 

 

140 – Furor

 

Como explode este furor!

Por que é que o furor faculta

De prazer um tal fulgor

Com toda a vivência inulta?

 

Há uma força misteriosa,

Cruel, oculta, disfarçada…

De explicações ela goza?

Redu-las por fim a nada,

 

E desafia os preceitos

Morais todos que tivermos:

Que é que atrás de meus conceitos

Me inviabiliza os ermos?

 

 

141 – Tempo

 

É a familiaridade

Que leva o tempo a voar

Na vida que então se evade.

Se em cada dia tentar

 

Uma pegada no ignoto,

Como é sempre nas crianças,

Os dias são o picoto

Da serra que nunca alcanças,

 

De novas longa cadeia

Que interminável se alteia.

 

Um olhar ao jamais visto

E em cada momento existo.

 

 

142 – Ninguém

 

Ninguém descobre o que faz,

Nem porque o fará também

E não sei mesmo se alguém,

Sem temer erro tenaz,

Ao dizer aquilo que é,

Exacto de tal dá fé.

 

- Somos o cego hesitante

Sem atrás nem adiante:

 

Onde levam as pegadas

No final destas jornadas?

 

 

143 – Lama

 

Caminhar rumo ao futuro

É levar lama nos pés,

A imundície do passado

Agarrada no monturo,

Inçando de lés a lés

Cada passo caminhado.

 

E jamais há raspadeira

Capaz de limpar a jeira.

 

 

144 – Toda

 

Da vida que tenho, gosto.

Quando a quis toda, porém,

De mim não gostava, aposto,

Já que a quis de mim refém.

 

Mas doravante que aceito

Que o tempo viaje em mim

Ele me abraçou ao peito,

Leva-me a ignoto confim.

 

Assim, levado na onda,

Não sou quem por mim responde,

Tenho quem por mim responda

Não sei quando nem sei onde.

 

 

145 – Repararas

 

Se repararas em mim

Nem que só fora um instante,

Fugias logo perante

O monstro que sou assim:

Contando histórias de estrelas

Para esconder-me atrás delas…

 

Quando nelas me confundes,

Eu te agradeço efusivo

Que de astros todo me inundes

Quando, ao fim, não há motivo.

 

 

146 – Onda

 

Não eras quem esperava…

Ando sempre a imaginar,

Ando sempre a confundir

Isto com o que é de vir

Numa onda que se cava

Da forma que lhe calhar.

 

Erro não é nem asneira:

É sempre doutra maneira…

 

- Neste erro em que recalcitro

Sou finito ao infinito.

 

 

147 – Condenar

 

De que serve este eu que sou

Se o condenar à prisão?

Sabê-lo é afirmar-lhe o voo

E vê-lo é dar-lhe razão.

 

Aquele que ignora que é,

Que ignore isto e o mais que seja,

Que despreze o que faz fé,

Amordace o ser que almeja.

 

No dia-a-dia animal

Quem a evidência de si

Teve um dia, matinal,

Como encurralar-se ali?

 

Este milagre de sermos,

Gratuito, como pagá-lo?

Demos-lhe nós o que dermos,

Fruamo-lo no regalo

 

Da oportunidade, enfim,

De o sermos até ao fim.

 

 

148 – Inverno

 

Na bela noite de Inverno

Venho à janela espreitar

As estrelas deste eterno

Campo escuro de luar.

 

O milagre de estar vivo,

Como me sinto tão eu!

Não, porém, um eu esquivo

Que sozinho aconteceu.

 

Há muitas partes de mim

Por aí, por muito lado:

Um filho a dormir, enfim,

Um marçano contratado,

 

Uma granja que ajudei

A arrotear, leira a leira…

Sou parte, descortinei,

Duma grandeza primeira

 

Que vai muito para além

De quem me for conhecido,

Alcança destes também

Quantos eles hão movido,

 

Vai daqui para o passado

E deste para o futuro…

- Não há raia em nenhum lado,

Algo infinito inauguro!

 

 

149 – Ter

 

Quero ter e segurar

Minha aparição de mim.

Logo a levo a se evolar,

Opaco de todo enfim:

Já não era aparecer,

Seria petrificar-se…

Fulminante no meu ser

A quero e que não se esgarce,

 

Para criar minha vida,

A reformular de vez.

Mas a muda empreendida

É de fora um entremez.

 

Ser fiel a uma certeza

Não é ver se me apetece,

Isto é uma falsa nobreza,

Teimosia que fenece.

 

 

Ser fiel e uma honradez

É hesitar em cada instante

À luz do raio que fez

Trilho, à noite, ao viandante.

 

 

150 – Devaneios

 

Os devaneios indicam

Do real a irrealidade,

Do imaginário se aplicam

A comprovar a verdade.

 

Do mundo a rocha é uma meta

Firmemente alicerçada

Em asas de borboleta,

Na magia duma fada.

 

A verdade verdadeira

Quanto mais firme na amostra

Mais vemos quanto é parceira

Do infindo que se entremostra.

 

 

151 – Actos

 

Nossos actos têm efeitos

Muito para além de nós,

Rios a rasgarem leitos

Com mil vendavais após.

 

Interligam o presente

Com o que vier no futuro,

E nada em mim me pressente

Qual o porvir que inauguro.

 

Tento o que me faz feliz

E de que não me arrependa

Daqui a uns anos, que o fiz

Por cuidadosa encomenda.

 

 

152 – Continuamos

 

Nós nunca, nunca morremos,

Continuamos a viver

No rosto que passaremos

A cada filho que houver.

 

Há muito de tua mãe

Que hoje respira por ti

E o gesto que finda além,

Não finda, prossegue aqui.

 

 

E as palavras que disseste

Não as levou, não, o vento,

Semeiam em terra agreste

Tudo o que hoje é nosso alento.

 

 

153 – Depois

 

E depois?… Não respondeu.

Sei lá bem se olhava a Lua

Ou algo que ninguém viu

Muito além do fim da rua!

 

Além da Lua, da estrela,

Além do céu, desta noite

Tão tranquila e paralela

Onde um sonho há que me acoite…

 

Sei lá porque de repente

A vontade de chorar

Entra no peito da gente

Só porque é noite e há luar!

 

Uma lágrima a reter,

Para a festa irei sair

Da noite que contiver

Este luar de além ir.

 

Sei que será sempre assim

Sem que eu tenha mão em mim.

 

 

154 – Novinho

 

Que bom poder estrear

Um ano novinho em folha

Quando em Janeiro há lugar

Sempre a uma nova escolha!

 

Que bom ter esta ilusão

De que choco a vida em ovo

E que a tendo em gestação

Tudo ao fim farei de novo!

 

Tal se fora vez primeira…

Ou tal como gostaríamos

De ter feito de carreira

Quando à vida nos abríamos.

 

Ano Novo, mas que festa

A da vida por haver

E não desta que não presta

Senão de tal prometer!

 

 

155 – Vibra

 

Algo em nós vibra no anseio

Por deixar-se arrebatar:

É a paixão, neste entremeio,

Que nos tira do lugar.

 

Livro escrito sem paixão

Mata o gosto da leitura,

Equipa arrastada ao chão

Já não joga e o jogo dura,

 

Vai queixar-se o fã de que eles

Andam jogando a dormir…

Recompensamos aqueles

Que este apetite, a seguir,

 

Alimentam a vibrar,

Músico, actor ou atleta:

Juntam milhões por nos dar

Da paixão toda a paleta.

 

 

156 – Repique

 

Comungar é um poderoso

Repique à contemplação.

Comemos e que é do gozo?

Bebemos satisfação?

 

A toda a hora ingerimos

Nossas ideias, projectos,

Preocupações que sentimos,

Ansiedades sem tectos…

 

Na verdade não comemos

O nosso pão e a bebida

Deveras jamais bebemos,

Distraídos na corrida.

 

Se me permito alcançar

O meu pão profundamente,

Renascerei logo a par,

Pão é vida nele, em ente.

 

Ao comê-lo, então, profundo

Toco o Sol, nuvens, a Terra,

Universo além me afundo

Muito além de paz e guerra.

 

Toco a vida, toco a vida

E toco o Reino de Deus,<