CANTO TRÊS
COM BOM SENSO REPOUSO
EM MEDIANIAS
Escolha
um número aleatório entre 253 e 381 inclusive.
Descubra
o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
253 – Com bom senso repouso em medianias
Com bom senso repouso em medianias
O justo meio termo procurando,
Entre contrários o equilíbrio quando
Todas as frentes querem mais-valias.
Entre as águas convulsas navegando,
Nos turbilhões procuro as fugidias
Correntes que contornam as esguias
Arestas que em mouchões vão espiando.
E vou remando pelas regras, normas,
Esgueiro-me em provérbios e anexins,
Na busca duma foz que não tem formas,
Onde suspeito o fim para meus fins.
É neste navegar quotidiano
Que as velas solto contra todo o engano.
254 – Atenção
Quando centras a atenção
No que tens, todo o Universo
Abunda de quanto é bom
E mais te dá no reverso.
Se te concentras, porém,
No que não tens, logo à frente
Vês que assim nunca ninguém
Vai ter o suficiente.
255 – Tido
Para ser tido por rico
Quantos zeros no cifrão?
Mil contos? Por tal me fico,
Mas por mês? Semana? Então?…
Porém, olho a multidão
Que dispõe de muito mais
E lá ver não vejo, não
Que de feliz dê sinais.
Ao invés, vejo quem tem
Dificuldade em pagar
As contas e que, porém,
Vive bem, é um feliz lar.
Ao poderem partilhar
Entre marido e mulher
São mais ricos, se calhar,
Do que quem muito tiver.
Se olharmos por nossos pais
Retribuindo um tudo-nada
Quanto nos deram, bem mais
Enricamos a jornada.
Ao dispormos duma tarde
A passear um amigo
Somos ricos sem alarde,
Mais que os ganhos que persigo.
Depois, com sinceridade,
Se nada tenho a esconder,
Serei rico de verdade,
Bem para além de quenquer.
256 – Padrão
Um padrão mínimo as leis
Garantem socialmente.
O civismo não podeis
Delas crer que se alimente:
O que nas leis se disponha
Não pode substituir
O que a pública vergonha
Melhor há-de prosseguir.
257 – Vermos
Vermos bem as coisas feitas
É só não nos importarmos
Com quem fica (dentre as seitas
E sem votos disputarmos)
Com o crédito do jeito
De quem as houvera feito,
Sem dar campo algum à inveja
Que nos mata, salvo seja.
258 – Sermões
Eu não dou conselhos, prego
Sermões, ensino, incomodo:
Abaixo, que não sou cego,
Com a lamechice e o rogo!
Quanta postura ilegítima!
Acabem com a lamúria,
Deixem de fazer de vítima,
Que apenas mais é uma injúria!
Hão-de haver-se com problemas:
Pais à bulha, fuga ao lar,
Alcoólicos dilemas,
Divórcios e o que calhar…
Para alguns isto é muleta,
Em vez de irem para a frente.
Outros, porém, para a meta
Nisto treinam pata urgente:
Não se metem em sarilhos,
Florescem, falsos, na escola,
Cobram fuga aos empecilhos
Que o pé prendem que se atola.
Como podem pretender
Os mais que isto não acolhem
Convencer então quenquer
Das sérias pedras que os tolhem?
259 – Tráficos
Sempre alguns pais se intrometem
A livrar filhos de encrencas.
Como é que estes nos prometem
Coroar frontes de avencas,
Como irão ser responsáveis,
Se, para os livrar de apuros,
Há mil tráficos viáveis
De pagar sem custo ou juros?
Anda cada ferradura
Disfarçada em pai de gente
Que só um coice que perdura
Apura se é inteligente!
Alguns há que escrevem cartas
A mentir para encobrir
Listas de desaires fartas,
Erros que tolhem porvir.
Mesmo obrigações de casa
Chegam alguns a fazer…
- Como é que um filho acha a
brasa
Com que seu lume acender?
260 – Pequeninos
De pequeninos devemos
Conviver com os efeitos
Dos actos que pratiquemos.
Descobrimos os preceitos
Dos erros que então faremos
E apanharemos os jeitos
Do melhor que nós queremos.
Moldaremos os perfis
De vontades ter viris.
261 – Outra
Quer uma coisa a cabeça
E quer outra o coração?
Primeiro em si de ambos meça
Qual terá melhor condão.
Só depois então prossiga
Aquilo a que a escolha obriga.
262 – Condena
Condena quem faz o mal,
Mais aquele que impedi-lo
Pode e nada faz por tal.
O indiferente é do estilo
De lavar as mãos de vez,
Quaisquer que sejam os actos.
E, como Pôncio Pilatos,
Todo o crime, outrem o fez.
O gesto que o impedia
Ficou-lhe sempre adiado:
Do crime então que ocorria
Este, acaso, é o mais culpado.
263 – Internos
Quem internos e genuínos
Não cultivar seus valores
Vai nos externos factores
Amparar-se peregrinos,
Como a aparência, o estadão,
Para bem ficar consigo.
Tudo o que podem, farão,
A caraça a pôr de abrigo,
Em vez de desenvolver
Crescimento pessoal,
O valor do próprio ser
Com pegada individual.
Portanto, tu próprio sê!
Com máscaras não iludas
O que a vida põe de pé
E que te requeira mudas.
Às difíceis conjunturas
Com toda a dureza enfrenta,
Encara o real que apuras,
Sê um adulto que se inventa!
264 – Via
Muita via percorrer
Ainda falta até tornar
Seguro que agressor ser
Contra si a bomba é usar.
Como os assaltos armados
Diminuiriam se o fogo
Explodira nos costados
Dos que o atearem logo!
E, se o facto de explodirem
Conhecimento geral
For de quantos transgredirem,
Do porvir que bom sinal!
265 – Pior
Negociar, persuadir
São o melhor instrumento.
Forçar ou ser violento
São o pior por onde ir.
A natural insolência
Dos homens é desdenhar
O que é bom para a pendência,
Mal fica quem não ousar
Os maus meios ao alcance.
- Para obrigar ao juízo,
Que o que os busca perca o lance
Será sempre o que é preciso.
266 – Desacordo
Se entre os pais há desacordo,
Que o filho não se aperceba,
Ou logo, de bordo em bordo,
Faz que dum e doutro beba.
Em extremo inteligente,
Quem é o fraco e quem é o forte
Descobre imediatamente
E seu lado quem suporte.
A chantagem afectiva
Irá gerir e agravar
O conflito que ele aviva
Até seus pais comandar.
A questão é decidida
Pelos pais e nunca à frente
Da criança dividida
Entre quem pune e consente.
Planear uma estratégia
Um ao outro se apoiando,
Esta é, pois, a norma régia
Sempre e não de vez em quando.
267 – Mantenham
Que os pais se mantenham calmos
Se o filho está provocando.
Se esta coisa de três palmos
Se atira ao chão barregando,
Todo o teatro então ignorem,
Afastem-se e longe fiquem
Até se acalmar: não corem
Nem paliativos apliquem.
Numa fase posterior
Reduzam a birra ao lixo
Que ela sempre é de supor:
"Andas no chão como um
bicho?
Cuidado, que ainda te piso!"
Ou então: "Cantas tão bem!
Cantar bem é o que é preciso,
Mas quer juízo também!"
Não é para humilhação:
É ridicularizar
Ao limite a situação
Até o pateta acordar.
268 – Birras
As crianças fazem birras
Intermináveis de noite
E as birras tão mais acirras
Quão mais dês o que as acoite.
Tentam monopolizar
A companhia dos pais.
Se a ti junto os vais deitar
Só por não ouvi-las mais,
É uma cedência mui cara:
Igual truque as noites todas
Doravante se prepara,
Vão dominar pais e modas.
Bem melhor era contar
Uma história para a deita.
"Dorme, que eu vou trabalhar
Um pouco e, depois de feita
Minha tarefa, também
Irei deitar-me igualmente."
Uma explicação cai bem,
Diz a família presente,
Nada mau vai ocorrer
E reconforta quenquer.
269 – Marcos
Para as birras evitar
Importa disciplinar.
Dois marcos fundamentais
Em que é de ser rigoroso:
As refeições que tomais
E o momento do repouso.
Ambos são horas sagradas:
Comer a todo o momento
Leva às refeições goradas;
Não dormir leva ao tormento
De ninguém se sentir bem,
Às aulas sem rendimento…
E a vida inteira devém
Vida dum mundo embirrento.
Postas em ordem as guias,
Tudo o mais segue estas vias.
270 – Vocação
Que os pais nunca se demitam
De exercer autoridade.
Sua vocação admitam,
Dever de à posteridade
Lançar filhos educados.
Expliquem-lhes claramente
Regras e limites dados,
Ninguém tem tudo o que tente.
Então irão conseguir
Lidar com as frustrações,
Equilibrados devir
Sem mais birras nem senões.
271 – Olhos
Por vezes, na vida,
É melhor manter
Olhos bem abertos.
Noutras, a medida
Meio abertos ter
É que os porá certos.
E noutras ainda
É tê-los fechados,
Como que sonhando.
Questão sobrevinda
É que jogo aos dados
Saber como e quando.
272 – Cuide
Há quem cuide em construir
Muros e manter distâncias,
Quem aprenda a discernir
Linhas-raia para as ânsias:
"Até aqui vou dar de mim,
Mais não, não aguentarei!"
Lidar com a dor sem fim
É criar (norma de lei)
Barreiras sem mais trespasse.
É a forma de definir
Terreno onde a vida passe
Para o fim dela cumprir.
273 – Disciplina
Disciplina é tirania
Quando for sem liberdade.
Se a liberdade porfia
Sem disciplina, a mania
Traz o caos à cidade.
Na vida é de equilibrar
Cada qual em seu lugar.
274 – Compre
Compre sempre boa cama
Como um bom par de sapatos:
Se dentro dum não se acama,
Dentro doutra tece a trama
Por onde vingam seus actos.
275 – Insuportável
Se é preciso tolerar
Fora, noutrem, quanto em nós
Proibimos que tome ar,
A vida seria após
Insuportável penar.
276 – Repara
Repara resplandecente
No mundo inteiro em redor.
O segredo mora ausente
Onde improvável mais for.
O que não crer em magia
Jamais a encontra algum dia.
277 – Caminhos
"Todos os caminhos
Irão dar a Roma"
- Termos comezinhos
Que um homem retoma
Se se perdeu e não quer
Dar nunca o braço a torcer.
"Quem tem boca vai a
Roma"
- É o que a mulher responde
Porque inquire e rumo toma
Sabendo então para onde.
278 – Contente
Contente de a ver ali
Por muito tempo não fiques.
Tempo não passa por ti:
Que imparável tu te apliques
Para que passes por ele!
Toma cuidado contigo,
Repara que tua pele
É teu derradeiro abrigo.
Contente de a ver ali,
Procura ser bem feliz,
Mas vê bem que por um triz
Não te apanhe o tempo a ti.
279 – Lugar