CANTO QUATRO
FACTOS RETRATO, A FONTE
SÃO QUE BEBO
Escolha um número aleatório
entre 382 e 518 inclusive.
Descubra o poema
correspondente como ua mensagem particular para o seu dia de hoje.
382 – Factos retrato, a fonte são que bebo
Factos retrato, a fonte são que bebo
No fértil manancial do dia-a-dia.
São marcos miliários pela via
Em que a lonjura leio onde me embebo.
A paisagem registo que anuncia
O vale fértil como o monte gebo,
O gesto limpo ou pegajoso ensebo
No azeite que transporta a almotolia,
Colo meus rótulos em cada esquina,
Escolho as pedras que pisar do chão,
No sentimento leio a que me inclina
E por mim dentro aponho o meu guião.
De afectos, pedras, laços me construo
E é neles que apoiado não recuo.
383 – Lojas
Corres lojas na avenida
Em demanda duma prenda.
Tostão a tostão, na lida,
Poupas custos, numa venda,
Dumas botas que ele sonha,
Dum anel que ela imagina…
Perdes a noite enfadonha
A querer traçar a sina
Só para que os olhos saltem
No espanto dum "é p'ra
mim?!"
Para que espantos não faltem
Deus também o fez assim.
Um pôr-de-sol de encantar,
De flores campo virente,
Sem palavras vão deixar
Quem os olhe de repente.
Não digas nada, ouve só
O murmúrio do Universo:
"Gostas mesmo, grão de pó?
Para ti fiz este verso!"
384 – Português
O português da saudade
Não gosta, quer é matá-la.
No fim das férias se evade
E, ao trabalho quando abala,
Revela: "matei-as
todas!"
- E a ternura mais sublime
Que gerou mil e uma bodas
Virou, nas palavras, crime!
385 – Primeiro
O primeiro aviador,
O primeiro homem no espaço,
O primeiro homem na Lua
- Vieram-se sobrepor
Num tempo igual, num abraço,
À esquina da mesma rua.
As vidas coincidiram,
Conhecemo-los a todos.
- Os avanços que eclodiram
De tão variegados modos
Num século mal corrido,
Tão depressa revolvido!
Pior é que nem deu tempo
De lhe medir o sentido:
Foi o maior contratempo.
Como há-de nosso porvir,
À medida que eclodir,
Por nós vir a ser medido?
386 – Borboleta
Bate as asas, borboleta,
Lá nas costas do Brasil,
Que um tornado tal completa
E, logo após, outros mil
Que pelo Texas além
Revelam, como convém,
Quanto tudo é uma cadeia
- E ninguém lhe escapa à teia!
387 – Caras
Dar de caras, muitas vezes,
Com uma oportunidade
É contemplar os reveses
E sem que haja qualquer safa
De quem olha de verdade
Uns joelhos de girafa.:
- De facto, daquela altura
Quem não vai sentir tontura?
Como não se precipita
No abismo que de lá fita?
388 – Reflexo
Reflexo do pôr-do-sol
Em cambiantes cor-de-rosa
Nos bulcões esfarrapados,
O menino põe no rol
Dos espantos uma glosa:
- O céu tem lábios pintados!
389 – Vergel
A vida é como um vergel
Recém-coberto de neve:
Seja o que for que me impele,
Deixarei, pesada ou leve,
Nítida em meio ao nevão,
Minha pegada no chão.
390 – Juventude
Temos juventude a mais:
Os que a já são pela idade,
Os que a querem ser demais
E os que aceitabilidade
Só terão com marcas tais.
- Depois vamo-nos queixar
De o mais já não ter lugar!
391 – Circo
Chega um circo à região,
Pinta um cartaz e anuncia:
Eis o que é divulgação
Feita ali no próprio dia.
Se depois um elefante
Pegar de cartaz às costas,
Se o passeia rua adiante,
São da promoção apostas.
Se o elefante pisar
Canteiros do presidente,
É publicidade a par
Do que narre toda a gente.
Se o presidente se rir
Da conjuntura e a comenta,
Relações públicas ir
Cultivando é o que isto inventa.
- Eis como a publicidade
Trepa, degrau a degrau,
E os pegos, quando os invade,
Nos assalta vau a vau.
392 – Doença
Sabe o médico a doença
De que alguém irá morrer
Mas não lhe lavra a sentença,
Sempre à espera, para ver…
É que a morte conviria
Só contá-la para alguém
Quando se encontrara a via
Para escapar-lhe também.
A morte é uma aberração
Perante a vida e tamanha
Que mesmo o crente diz não
À prenda que dela venha.
393 – Profetas
Os optimistas encaram
Os pessimistas tal sendo
Os profetas que mascaram
De desgraça o que vão vendo.
O pessimista compara
Os optimistas a um homem
Que do arranha-céus tombara:
Enquanto os metros se somem,
Grita a alguém que da janela
Vê com horror a desgraça:
"Por enquanto a vida é bela,
Até aqui nada se passa!"
- Esmagar-se um nada à frente
Poderá ser agradável
Se o trajecto descendente
For de vez inevitável?
394 – Ambas
Uma guerra que pudera
Destruir ambas as partes
A paz perpétua nos dera
À custa de malas-artes:
É o preço que dela emana
- Enterrar a espécie humana!
395 – Fé
Toda a fé, como um chacal,
Entre as tumbas se alimenta:
A esperança mais vital
Das dúvidas mortas, mal
As colhe, se reinventa.
- E eis como, ao fim, nos
aumenta.
396 – Colhe
Do político, o cientista
Colhe louvor, se apresenta
De matar gente a conquista
Que intérmina se acrescenta.
Apelos à contenção
Rejeitados logo irão.
Por ingénuos os vão ter,
Incompetentes, de resto.
Sempre os há-de transcender
O que requer tal apresto:
Criar armas é ciência,
Usá-las é doutra essência.
São como um adolescente
A quem um bólido ofertam
E a que ninguém acrescente
Regras, leis, com que o apertam,
Nem carta de condução:
Só quer pressa, na ilusão!
Perigos, quem diz perigos?
A voar, cabelo ao vento,
Isso é coisa de inimigos,
De inveja daquele invento!
- E então, na primeira esquina
Voará pela ravina.
397 – Coragem
A ideia dum presidente
Sem coragem para ir
Com um gesto derruir
O mundo inteiro, é evidente
Que é desmoralizadora
Para quaisquer militares…
- Tal é o gesto que demora
Toda a paz que conquistares.
398 – Lembrança
A lembrança pode ser
Evento enlouquecedor:
Escapa se a quero ter,
Abate-se com fragor
Se a quer esquecer quenquer.
Quando de voltas trocadas,
Memórias são punhaladas.
399 – Lago
Há no lago ondulação.
Chego à margem, com a mão
Dou palmadinhas nas águas
Para acalmá-las das mágoas.
Com tal, porém, só provoco
Mais ondas em quanto toco.
Assim é na minha vida
E mundo fora, em seguida:
- Às vezes, um remedeio
Agrava um erro só meio.
400 – Talento
Cada um de nós possui
Algum tipo de talento
Que pode desenvolver
Com treino com que evolui,
Como ao músculo que tento
Treinar um dia qualquer.
Quanto mais utilizarmos
Qualquer músculo fanado,
Tão mais forte é de o tornarmos,
Como ao talento implantado.
Nada nos vem desde a origem
Com tamanho de vertigem.
401 – Comprar
Afirmam que com dinheiro
Poderemos comprar tudo.
É mentira. Se me inteiro,
O que encontro, sobretudo,
É poder comprar comida,
Porém, jamais o apetite.
Remédios, sim, de seguida,
Mas a saúde isto omite.
Comprarei conhecimentos
Mas não a sabedoria.
De brilhar os condimentos,
Não a beleza em que cria.
Divertimentos, também,
Não, porém, uma alegria.
Relações quantas convêm,
Não amigos, se os queria.
E criados, certamente,
Mas jamais a lealdade.
O descanso é ponto assente,
Mas não a paz que me invade.
Com dinheiro posso obter
Em tudo o casco do bolo
Mas nem num caso sequer
Adquirirei o miolo.
402 – Liberdade
Sem liberdade a criança
Para explorar e falhar
Menos criativa dança,
Nem é persistente, a par.
Sem autonomia, todos
Ir-se-ão sempre comportar
Como crianças, nos modos,
No que é ser e no que é estar.
403 – Competente
Um médico competente,
Se incompetente se julga
Numa doença presente,
Outro médico promulga
Que o doente então consulte
Que aquela doença ausculte.
Um médico competente
Nem mesmo a si próprio mente.
404 – Optimista
O optimista sofre menos
Com os percalços da vida
Porque só sofre os percalços,
Não sofre com os acenos
Da eventual recaída
Em fados que ao fim são falsos.
Mantém a proximidade
Com o que é realidade.
Preocupa-se o pessimista
Com o pior a ocorrer,
Embora jamais ocorra,
Enquanto exulta o optimista
Do bom que há-de aparecer,
Embora em sonhos lhe morra.
O saldo do que é melhor
Corre sempre a seu favor.
405 – Princípios
"De seus princípios que é
feito?
Não o estou reconhecendo,
Ao radicalismo atreito,
De homem culto sem o jeito
Superior ao povo horrendo.
Todo o indivíduo que é culto
Deveria estar de acordo
Que com um fascista inulto,
Um nazi sempre insepulto,
Como um pedagogo o abordo,
Já que temos de envidar
Esforços a converter
Esta franja, a conquistar,
Ouvir mesmo, se calhar,
Em lugar de os combater."
- O todos os liberais
E social-democratas
Com argumentos que tais
Ao lobo abrem os portais
Com que a grei ao fim tu matas.
406 – Graus
Há vários graus de verdade
Em toda a religião:
Todas vêm da divindade,
Mesmo Deus buscado em vão.
A religião é imperfeita
Porque é sempre transmitida
Por homens, a raça eleita
Imperfeita toda a vida.
Todas são, pois, por igual,
(Se bem que numa me aferro)
Mistura de bem e mal,
Parte verdade, parte erro.
Há religiões diferentes.
São simplesmente caminhos
Que nos levam, entrementes,
Ao fim a sermos vizinhos.
407 – Baptizado
Foi baptizado em criança,
Não foi de própria vontade.
Então a fé que ele alcança
Não tem autenticidade.
Mesmo quando ele se esforça
Por rigoroso cumprir,
É mera de hábito força,
É fé de pronto a vestir.
Quando assim é o mundo inteiro,
Afinal, de que me abeiro?
408 – Mistério
Há um mistério irracional
No coração escondido
De qualquer um, por igual.
A razão diz que o prazer
Deverá ser prosseguido
Nas coisas belas que houver.
Porém, na realidade,
Vamos encontrar beleza
No que é feio de verdade,
A ponto de a fealdade
Ser que deveras se preza.
Este instinto basilar
Tem verdadeira alegria
Na depravação humana…
A que extremo vai chegar
Do coração a magia
Nesta insondável tisana!
409 – Nome
Dei nome a cada animal,
Deste modo os recriei
Pelo molde racional
Do que sou e que farei.
E deles me apoderei
Com jeito de imperador,