CANTO  CINCO

 

 

DO  AMOR  RETOMO  OS  LAÇOS  E  AS  MAGIAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 519 e 632 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                    519 – Do amor retomo os laços e as magias

 

                                                    Do amor retomo os laços e as magias

                                                    Quando um tropeço em minha esteira sai

                                                    E quantas vezes ele então se esvai

                                                    Pelo brando cetim das fantasias!

 

                                                    Revisto de ternura as elegias

                                                    Que a vida vão gradando de quem vai

                                                    Cada encontro a que sai

                                                    Retomando nas mãos embora frias.

 

                                                    Sopro as brasas na lareira

                                                    Da paixão emurchecida

                                                    Com cônjuge, pais, filhos e avós à minha beira.

 

                                                    A vida

                                                    É dia a dia mais comunidade

                                                    Que de mim parte como a mim me invade.

 

 

520 – Limitam-se

 

Aos filhos os pais

Limitam-se a pregar

Vezes demais

O que devem fazer e pensar.

 

Na adolescência

Vão-lhes os amigos dizer,

Em cada ocorrência,

O que pensar e fazer.

 

O que leva a que nunca apareça

A idade

De usar a própria cabeça,

Ter responsabilidade.

 

Somos eternas crianças,

Mundo além,

A pular doutrem as danças.

Por quê? Ninguém,

Da vida ao fazer as tranças,

O vê muito bem…

 

 

521 – Trilho

 

O trilho da vida é duro

E solitário.

Quando é de optar, no apuro,

Não caias do lado contrário

Da barricada,

Onde te não reste família,

Na paisagem desolada.

Embora de pulsos e tornozelos

Em carne viva

De qualquer familiar quezília,

Teu nome quem mais aviva,

Quem te mais tolera anelos,

Mais oportunidade oferta?

Se um frigorífico crês

Que é um livro de porta aberta,

Se nos mais "imbecil!" lês,

Nos teus é "resposta esperta!"

 

O derradeiro elo a quebrar

É a cadeia familiar:

Atendê-lo é prioritário

Para quem há-de ser fatalmente um solitário.

 

 

522 – Buscas

 

Buscas a verdade longe de casa,

Em templos de meditação oriental,

Em seminários…

Trata de tua avó que a morte apraza,

Dá-lhe a aspirina, o serenal,

Presta-lhe os imprescindíveis cuidados precários…

 

Preocupa-te com ela tanto

Quanto contigo.

 

- Mudarás tua vida, entretanto,

De tais cuidados ao abrigo,

Bem mais que por ilusórias vias

De gurus e terapias.

 

 

523 – Verdadeiro

 

O primeiro amor

É o que fundo queima mais.

O amor verdadeiro é o palor

Que aflora e cresce pelos juncais,

Que junta e alimenta o melhor,

O mais fino e delicado

Que germine em dois entes que amam.

Compreende e desculpa, alcandorado,

Os minúsculos amores que o não conclamam.

 

O primeiro é um licor atordoante,

Quebra postura e calma.

O amor durável é constante,

Sentimo-lo a criar alma.

 

 

524 – Amável

 

Como um fado,

Pela reciprocidade quenquer

Finda sempre dominado:

- Seja amável se quer

Ser amado.

 

 

525 – Devemos

 

Devemos ralhar?

A verbal repreensão,

Contando o que faz zangar

E aborrecer na questão,

 

Num comportamento mau,

Poderá surtir efeito.

Porém, não grite o solau,

Gritar revela-o sem jeito.

 

E não trate com dureza

Nem humilhe:

Sentir culpa ninguém preza

Nem há um inferior que brilhe.

 

E devemos castigar?

O castigo é ponderado

Por dois critérios a par:

O grau do mal provocado

E a idade.

Uma birra é uma maldade

Que é só sentar na cadeira

Até parar e acalmar

Ou então,

Por ora, da televisão,

Nem sequer chegar à beira!

Repreender ou castigar

Uma criança é eficaz

Se acabar de se portar

Mal em algo do que faz.

 

É que meia hora após

Já se esqueceu do que fez…

Mas aqui, de viva voz

Explique então os porquês.

 

Isto faz qualquer castigo

Devir um porto de abrigo.

 

 

526 – Considerar

 

Da Humanidade o erro-mor

Foi considerar o amor

Uma ideia.

Mais depressa amor é instinto.

Dar-lhe cérebro é se minto,

A mente cheia.

 

O amor é a festa,

O que é belo.

Vem a ideia entristecê-lo

E então não presta.

 

 

527 – Labor

 

Labor não é vida ou morte

Mas desgasta,

De sorte

Que importa interrompê-lo e basta

Para tomar ar:

Fechar a porta e cozinhar,

Mesmo largando um ouvinte;

Sorrir ao filho no serão seguinte

A ter perdido um doente;

Desligar o computador

Quando um prazo assente

Acabou de se transpor,

- Para ficar disponível

A um gesto de ternura

Exactamente vivível

Naquela altura…

 

No dia imediato

Podemos retomar o fio da meada,

No acto

De entrada.

  

 

528 – Pequenos

 

Em pequenos

Somos miúdos monstros egoístas.

Adultos, ao menos,

Alargamos as listas:

Não somos apenas nós no mundo.

 

Daqui a cem anos

Quem vai lembrar as freimas em que abundo?

Para evitar enganos,

Mais vale ajudar alguém caído no passeio,

Fazer algo por meus filhos…

 

Talvez, pelo meio,

Algo transponha para além…

 

- Tais atilhos,

Quando deve e haver da vida se apontam,

Para quem os tem

Tais atilhos é que contam.

 

 

529 – Quando

 

Quando aqui vivias

Tranquilamente,

Todos os dias

Me parecia a morte

Estranha, longínqua, ausente

Definitivamente.

A sorte

Eram teus dois braços estendidos

A defender-me dela.

Agora que partiste, a sequela

É que não vejo outra coisa nos laços perdidos

Senão ela, a morte, senão ela!

 

 

530 – Sozinho

 

Agora, sozinho inteiramente,

Compreendes, esquivo,

Finalmente,

A diferença entre andar vivo

E viver realmente.

Sozinho, de repente…

 

- E, pior ainda, se, em companhia,

A solidão a companhia te desmente

Cada dia.

  

 

531 – Abandona

 

Muita mulher abandona o marido

Por ser bom em demasia.

É o nosso rasquido

Em cada dia:

 

Ferir alguém

Por ser puro demais,

Demasiado inocente.

 

Jesus é refém,

Se calhar, de marcas tais

Serem o que é nele evidente.

 

A multidão o insulta,

Pedras lhe atira?

Não é de ser estulta

Nem por ira,

Mas do prazer que lhe dava

Ver alguém todo bondoso

Com a vida escrava

Da populaça:

É o gozo

Que a congraça.

 

O prazer de acumular injúrias

Sobre o irrepreensível, o incontaminado!

Não foram gestas espúrias

Num momento dado,

É um sentimento partilhado

Por todos nós,

No mais fundo do coração.

 

- Só que, de viva voz

Ninguém faz a confissão!

 

 

532 – Instinto

 

O principal

É que não há protecção

Contra o instinto natural

De atracção:

- Em tais extremos

Somos barco de que remos?

 

 

533 – Namorados

 

Já lá vão vinte e cinco anos!

Quem diria?

De namorado são decerto enganos,

Por mor do sonho, da magia…

 

Como é que tão depressa nos correram

Por entre os dedos?

Já vinte e cinco vezes floresceram

As sementes que plantámos contra os medos.

 

Os fogos da paixão domesticaram

A lareira discreta do serão,

Os filhos cresceram e hoje aram

Novo torrão.

 

Vinte e cinco anos de ilusão

E continuas linda

Hoje ainda

Como então!

 

Se outros vinte e cinco houver, decerto,

Para mim, eis a verdade:

És meu caminho aberto,

- És cheia de eternidade!

 

 

534 – Cadilho

 

São cadilhos

E um cadilho é o que é capaz

De nos atar e se impor:

- Os filhos

Não é o sangue, não, que os faz,

É o amor.

 

 

535 – Mulher

 

Quanto mais santa,

Mais a mulher é mulher.

Então é que deveras encanta

Quenquer.

 

No encantamento

Acaba o mundo por ver,

Mais que a mulher,

Todo inteiro o firmamento.

 

 

536 – Cão

 

Um cão dolente

Reflecte o homem sofredor

Que ordinariamente

Aquele acompanha com amor.

 

Ao escravo triste

Segue o cão desolado

Que fiel lhe persiste

Ao lado.

O cão do pobre,

Escanzelado,

Creio até que nele dobre

O rosto do desgraçado.

 

- Ao sofrer um animal,

A piedade que sentimos

Não é que nele o sinal

Da libertação pressentimos?

 

 

537 – Obra

 

Obra de arte religiosa

Que não inspira oração

É tão monstruosa

Como uma bela mulher

Que não

Inspira amor a quenquer.

 

 

538 – Poder

 

O poder baseado no amor

Do povo pelo ditador

 

É fraco, sem garantia de renovo,

Pois depende apenas do povo.

 

O poder baseado no temor

Do povo perante o ditador

 

É forte, dura todo o ano,

Pois depende apenas do tirano.

 

Tem, contudo, um calcanhar de Aquiles:

É instável.

O pavor que obriga a que te perfiles

Só é durável

A partir do momento

Em que dele o amor seja o frumento.

 

Se temo o ditador

Com amor,

 

Aí, sim,

O reinado não terá fim.

 

As asneiras,

Os crimes,

Ou são coisas leveiras,

Ou gravames que arrimes

Ao dorso

De qualquer executor sem remorso.

 

Um ditador

Por sistema ilibado

Pelo amor

Dura até que a morte o haja levado.

 

 

539 – Início

 

No início da relação

Mil sonhos em mente

Voam…

Sapatos novos magoam

Decididamente,

Mal ponhas os pés no chão.

 

 

540 – Acaba

 

Por mais que lute esforçada,

A razão

Acaba sempre enganada,

Vergada

Pelo coração.

 

 

541 – Extremo

 

A paixão

É de extremos conhecida.

O amor, não.

Quanto mais nele me adentro,

Sendo ele o polo da vida,

É pelo centro,

Pelo centro que em mim lida.

 

 

542 – Lava-loiça

 

Contemplo-a no lava-loiça

E penso na minha mãe,

Na mãe dela que Deus tem,

Nas do mundo que as nem oiça…

 

Quem

Jamais quer ter alibi

Perante servos nem amos?

- A mãe,

A mãe que está sempre ali,

Sempre, sempre onde a deixámos!

 

 

543 – Companheiros

 

Agora companheiros de cotio,

Amanhã pó da história,

Cumprido bem ou mal este desvio

Para memória,

Como ignorar-te e tu a mim?

Seríamos traidores

À solidariedade umbilical,

Cósmica e sem fim,

Se amanhã virem que não fomos actores

Do significado radical:

Onde um homem estiver ou tenha estado,

Erguido na ponta da realidade,

Importa encontrar nele o traslado

De toda a Humanidade.

 

 

544 – Solidão

 

Sentir a solidão é universal.

Cremos, ingénuos,

Que, sem esforços mais estrénuos,

Uma relação sexual

 

Nos porá menos sozinhos.

Porém, sem comunicação

Do espírito e do coração

Nunca o sexo constrói ninhos.

 

Violar este preceito

Provoca feridas graves.

Mas quem é que o toma a peito,

Onde lhe opomos entraves?

 

Casais de infidelidade

São a raiva, o desespero,

O ciúme que os invade.

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