CANTO  SEIS

 

 

PROJECTO  ALÉM  MINHA  CERVIZ  DE  GEBO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 633 e 732 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                        633 – Projecto além minha cerviz de gebo

                                                   

                                                    Projecto além minha cerviz de gebo

                                                    Endireitando a espinha para olhar

                                                    Da fímbria do horizonte o que espreitar,

                                                    Acenos de lonjura em que me embebo.

 

                                                    Do infinito em cascatas aqui bebo,

                                                    Sequioso de meus campos cultivar

                                                    E em meu imo, em lugar,

                                                    Constato que, afinal, é que concebo.

 

                                                    Caminho pelo imaginário

                                                    Saboroso e  vário,

                                                    Suspendo o tempo, a tomar o gosto.

 

                                                    E cada evento saboreado

                                                    É o alvor anunciado

                                                    Sobre a agrura diária do sol posto.

 

 

634 – Belo

 

Do que há de mais belo

Na Terra sombria

Bendito sejas.

Não é o Sete-Estrelo,

A montanha esguia:

- É o que desejas!

 

Quando o prolongas sempre mais além,

Teu fito

Ultrapassa montanhas e mares: só te convém

O infinito.

 

O que é belo

É no que te transfiguras neste apelo:

- Belo é quanto em ti leio,

Afinal, meu anseio…

 

É o que não sou nem tu és.

Porém, ao ver-te, quando este nada em ti o sonho,

Disponho

De asas nos pés:

 

- Belo é quanto por ti além vou

Até ao mundo do que nunca sou.

 

 

635 – Inevitavelmente

 

Os humanos, inevitavelmente,

Acabam se enfastiando

Do que têm em mente

E que deles é criado ao mando.

Ao invés, jamais se cansam

Do que oferta a Natureza.

Então os pés lhes avançam

Pela terra natal além

Absorvendo-lhe a beleza.

 

E, finalmente, advém

Sentirem-se como nunca parte integrante

Dela,

Instante a instante:

- Como a Terra-Humanidade é bela!

 

 

636 – Primeiro

 

O livro primeiro

Por que nos apaixonámos

É o primeiro beijo a sério:

Transporta-nos, pioneiro,

Para onde sempre sonhámos

Vagamente explorar a terra do mistério.

 

Navegamos bem no centro

Da jangada de palavras

Para um lugar: o das lavras

Cá de dentro.

 

 

637 – Quilómetros

 

Quilómetros de praia à noite palmilhei

Compondo versos soltos, pobres e falhados,

Incansável buscando algum oiro de lei,

Alguém maravilhoso que os passos trocados,

Da escuridão saído, de vez me acertara.

 

Nunca me ocorreu

Que a pessoa rara

Devera ser eu!

 

 

638 – Pessimista

 

Nenhum pessimista alguma vez

Descobriu segredos nas estrelas,

A terras ignotas aproou as velas,

A novos horizontes nos afez.

 

Nenhum pessimista

Inscreve o nome

Na lista

Nem do que nos dá renome

Nem do que nos traz qualquer conquista.

 

O pessimista é a fome,

Não a abundância:

A todos nos come

Nossa eterna infância.

 

 

639 – Natureza

 

A natureza

Não é cruel, odiosa,

Nem despreza

Quem a goza.

 

É sempre o meio propício

Ao benefício

Da interacção

Do homem com as forças vitais,

Mesmo quando os sinais

Me escapam à compreensão.

 

A natureza é mais

Que o sugestivo

Azul dos céus,

- É o enigmático, o vivo

Rosto de Deus.

 

 

640 – Truque

 

Há truque em muita coisa na vida,

Por aí nos encanta.

O desmancha-prazeres, quando o elucida,

Destrói-nos o dia.

Tudo o que é vivo,

Desfeito o que espanta,

Perde a magia

E o atractivo.

- Que importaria a vida

Se um mistério me não convida?

 

 

641 – Morte

 

Sabendo que a morte me espia,

Estarei a viver de novo

O terror de quando nascia?

O desejo que provo

De me plácido manter

No ventre materno

E o impulso que me quer

Fora dele,

Qual deles mais me impele,

Superno?

 

Quando fui dado à luz

E quando deixo este mundo

São as duas vezes em que se traduz

Minha prova da morte.

 

Ou em que eu fundo

(E fecundo)

Outra sorte.

 

- Da primeira vez foi a vida.

E da segunda, em seguida?

 

 

642 – Missão

 

Cada novo dia

Que a madrugada me invade

É uma missão perigosa e fugidia

Contra a mortalidade.

 

- Há um milagre qualquer

Nisto de a tantos dias sobreviver.

 

 

643 – Tarda

 

Exaltado

Pelo treno,

Pelo fado,

Não tarda, ninguém reparou

Que o passado

É bem mais pequeno

Do que sempre alguém o imaginou.

 

Semi-deuses, heróis,

Nunca foram o presente,

Foram sempre depois…

São o que a memória mente

Para o horizonte ter sóis.

 

 

644 – Dentro

 

Por dentro de ti medra

Um estranho sopro que respiras

E nem sabes:

Por dentro de ti nem cabes…

O que te distingue duma pedra

É a força com que a atiras.

Todavia, se crês que é tua,

Deliras:

Não tens a Lua…

 

Lá vê-la,

Vês,

Mas quem te talha dela

Os sapatos de sonhar que tens nos pés?

 

 

645 – Dorme

 

Dorme no quarto, dorme,

Mas mora dentro de mim,

Ela a mim é tão conforme

Que me não logro livrar.

Minha lucidez, por fim,

É uma lente a me queimar:

O tempo bate-me em cheio,

Porém, sozinho sem ela

Acabo sendo só meio…

 

Curo-me com a mazela,

Está lá fora e cá dentro:

Afinal qual é meu centro?

 

- Meu destino

És tu, mulher, para quem me inclino:

Meu bichinho, meu bichinho,

Afinal és tão eu

Que em ti adivinho

Minha fresta de Céu.

 

 

646 – Prometida

 

A Terra Prometida…

A Terra Prometida nunca a vi.

A Terra Prometida ou é fingida

Ou está dentro de ti.

Procurá-la fora

É apenas aumentar o frenesi

Da demora.

 

 

647 – Alimento

 

Que maravilha

Poder-se ofertar

Como alimento a outro ser!

Como a mãe brilha,

Poesia do luar

Na noite que a um filho ocorrer!

 

Como em tal apresto

Natural, ligeiro,

De todo o Universo é o mágico gesto

Ali por inteiro!

 

 

648 – Mora

 

Que é que te habita,

Mora em ti,

És tu e não és tu?

Não é o corpo, é o que ele concita

E, ao ver-te, pressenti

Que escondes no baú.

 

O que de ti perdura nesta sala,

Neste ar,

Teu modo único de ser,

Aquilo a que se te fala

Quando alguém te vem falar,

Atravessando tua parte visível

Sem a ver sequer…

 

Sei que do tu real e disponível

Que te habitava

Não eras senão a morada,

Abismo insondável cuja cava

Não tem nunca entrada

Transponível.

Como ao espírito duma casa,

À intimidade dum lar,

As paredes os fazem germinar,

E quando alguém as arrasa,

O que lá havia

Morre então no mesmo dia,

Assim ocorre contigo.

És, porém,

Sempre o postigo

Para Além.

 

- Ora, é aí

Que sempre vi

Que mora Alguém.

 

 

649 – Ilusão

 

Se meu pai não houvera conhecido

Minha mãe,

Se os pais de ambos também

Viveram num mútuo olvido,

Se há cem, há mil, há um milhão de anos

Um homem determinado não cobrira de enganos

A ilusão duma mulher,

Eu não existiria sequer.

Nesta cadeia de triliões de acasos

Eis que um homem brota

Na pele da Terra,

Cumpridos os prazos.

E mal anota

A raiz a que se aferra.

Elo perdido na infinidade dos elos

E das encruzilhadas

Onde tudo e nada se perdeu,

Materializando os apelos

Das jornadas

- Eis-me aqui, sou Eu!

 

 

650 – Jacto

 

Quando digo eu

Como poderia não existir?

Jacto de céu,

Jorrando da Terra para o nadir,

Como pensar que é nada

Se ao pensá-lo sou já uma pegada?

Acto puro de me ver em mim,

Isto me fascina e sou,

Todavia sei que brotou

Para o silêncio sem fim.

 

 

651 – Nocturno

 

No silêncio nocturno mergulhado,

Sinto-me não existindo,

Que existir é ser este punhado

De ser acutilante, do nada vindo

Como um punhal do absoluto:

O Universo aguarda o primeiro homem

Como final produto,

Como as mãos que tudo tomem.

De súbito reparo que estou

Vivo e sou!

 

Quem sou eu?

Quem é que em mim vive comigo?

Que fantasma me habitou,

Se me prendeu

Como outro alguém a que me amigo,

A ver por meus olhos,

A falar por minha boca?

Doido perdido nestes escolhos,

Se me toco, quem me toca?

O que existe é o vulcão que de mim sai,

Jacto de deus que me habita,

Que de hábito adormece e se esvai

E mesmo então tudo o que sou me concita.

 

 

652 – Submersa

 

No instante-limite

A voz submersa brota,

Leva a que a grite,

A tomar nota.

 

Vida atrás da vida,

Irrealidade por dentro do real,

Mundo de névoa esvaída,

Fugidio e primordial,

Todo surpresa e aviso,

Presente com voz de passado

No rasto conciso

Da obscuridade em que sobrenado.

 

Minha voz é o desejo

De ao que me foge prender,

De contar aquilo onde nenhum nome vejo,

Onde os termos nem sequer

Subsistem, que se apagam

Como a névoa que afagam.

 

Eu em mim,

Princípio e fim,

E o mais além

Que vem, não vem…

 

 

653 – Amanhã

 

Amanhã é o dia de hoje

Que me foge.

 

No passado o que seduz

Não é o presente que foi,

É o que nunca veio à luz.

 

Do passado o que me dói

Não é do passado a paz

Que nem sequer foi capaz.

 

O que lá ponho e desperto

É o sonho que foi deserto.

E o que transponho

De mim para perto

É o sonho eterno que sonho.

 

 

654 – Reino

 

O reino da vida,

Do rasto dos deuses pejado,

É um país velho onde perdura, delida,

A memória de senhores antigos,

Expulsos do ancestral reinado.

 

Mas o homem brotou destes pascigos.

 

Quando virá o dia

Em que a vida fique cheia

Do rasto que tal homem anuncia,

Evidente e tranquilo,

Como, ao sol de Verão, a tarde meia,

De ave canora um leve trilo?

 

 

655 – Sementes

 

Em Abril

Não podemos ver os girassóis,

Que girassóis ainda não há.

Porém, às mil e mil,

Os agricultores plantaram já

Sementes de vindoiros arrebóis.

Quando olham para os campos plantados

Já vêem girassóis ainda não nados.

Afinal,

Os girassóis estão lá,

Embora sem dar sinal.

Só lhes faltam condições,

Um calor de sol, a chuva

E um pouco de mês de Julho.

Se lhes dispões

O que os coadjuva,

Como rebentam de orgulho!

Erros, distracções ou nem sequer,

Perenemente deles nos despistam:

- Só porque os não logramos ver

Não quer dizer que não existam!

 

 

656 – Lei

 

Custa.

A lei natural,

Porém, é justa,

Inexorável e fatal.

 

Primeiro, do cosmos a consciência,

Depois, então, a do ser.

No ovo, a violência

De nascer.

Um nada a germinar

Em húmus perdido, devagar.

 

E brota da fome a boca

E uns pés da lonjura do caminho.

Tudo desemboca

No sonho adivinho.

 

Difícil, a coragem inicial.

Tudo, porém, ela consegue,

Até, quando adregue,

Fazer-me parte do coro universal.

 

 

657 – Nascer

 

Nascer não existe

Se algo for tirar do nada:

Conspira o todo e persiste

Na nova forma adoptada.

 

Morrer não existe

Se algo reduzir a nada:

Perene, o todo resiste

Na dissolução tramada.

 

Uma flor que abriu,

Abre à luz o mundo inteiro

Nas mil formas que assumiu

Desde o começo primeiro.

 

Nascimento e morte,

Ser e não-ser…

- A realidade é doutra sorte,

Livre dos conceitos de a entender.

 

 

658 – Ondas

 

As ondas do mar são altas

E outras tão baixas serão

Que delas nas faltas

É que o mar nos ficou chão.

As ondas aparecem

Para nascer e morrer.

Quando acontecem,

O fundo me empecem

De ver:

Se olho mais atentamente

Vejo que ondas vêm, vão,

Água, porém, sempre são,

Lá constante, permanente.

 

Alto e baixo, vida e morte,

Podem contar-se das ondas.

Quando as águas, porém, sondas,

Livres são daquela sorte.