CANTO  SETE

 

 

OS  PÉS  ME  GRUDA  DO  COTIO  O  SEBO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 733 e 840 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                    733 – Os pés me gruda do cotio o sebo

 

                                                    Os pés me gruda do cotio o sebo

                                                    Nos rastos pegajosos da rotina

                                                    E talho a sina

                                                    Das normas e dos jeitos que recebo.

 

                                                    O que concebo

                                                    Marcas tem da sensatez que atina,

                                                    Entre as cordas afina

                                                    O acorde harmónico em que a vida embebo.

 

                                                    Dos hábitos o rio

                                                    Sigo no rodopio

                                                    Dos turbilhões de cada dia.

 

                                                    Por trás de cada qual espreita

                                                    Minha fugaz intuição afeita

                                                    À madrugada de quanto se anuncia.

 

 

734 – Apesar

 

Apesar de vivermos bem,

Eis-nos insatisfeitos, inquietos,

Que a vida deve ser mais.

Viajamos então pelo mundo além,

Discretos…

Descobrimos os sinais:

 

- A viagem exterior

Enriquece

A que, interior,

Por dentro floresce.

 

 

735 – Hoje

 

Hoje

A dor de hoje em dia sofre,

À de ontem foge

E à de amanhã fecha teu cofre:

- Os ombros teus carregados

Tem-los logo levantados.

 

 

736 – Compreender

 

Compreender um problema

Só por si nunca o resolve.

É, porém, um lema,

Para quem se envolve,

Principiar de verdade

A tomar responsabilidade:

Pode mudar atitudes,

Modelar comportamentos,

Afloram novas virtudes,

Até ali meros fermentos…

 

Compreender abre a janela

Do saguão:

Pode a sequela

Ser uma revelação.

 

 

737 – Auto-estima

 

Auto-estima

Não é direito de nascença.

O que ela encima

É uma conquista,

Até devir, por fim, nossa pertença.

 

Se nos falta, é tê-la em vista,

Que é tempo de fazer algo:

Escolher ser responsável,

Para conquistar o respeito

De mim próprio – eis como galgo

O viável

Degrau estreito.

E desculpas, disto em lugar,

Deixemo-las de vez de arranjar!

 

 

738 – Tempo

 

É tempo de não ir

Na conversa dos que perdem a vida

Com expedientes para justificar

Cada asneira cometida.

 

O porvir

É de quem principiar

A aprender com os erros ocorridos.

 

- Éramos capazes de ficar

Mais crescidos!

 

 

739 – Arte

 

Arte de envelhecer:

Cada facto

Melhor acolher

E ficar mais grato…

 

A incrível equação da velhice:

Quanto mais se lhe vai tirando,

Em lugar da sovinice,

De mais dispõe para o que lhe for restando.

 

 

740 – Insensato

 

Um homem sensato

Adapta-se ao mundo,

O insensato tenta

Adaptá-lo a si.

O aparato

Fecundo

Que inventa

O frenesi

Do progresso, por mais ligeiro,

É do insensato por inteiro.

 

Que admira,

Afinal,

Se, com tal,

Mais e mais o Homem delira?

- É o insensato

Em acto!

 

 

741 – Mestre

 

O mestre inexperiente pergunta:

Como é que estou a portar-me?

O experiente, em troca, assunta,

Sem mais alarme

Nem disfarce:

- Como é que os alunos estão a portar-se?

  

 

742 – Estranha

 

Que estranha, a natureza!

Não muda nunca…

Enquanto o solo nos junca

Dos despojos que despreza

Ou por que reza.

 

Nós é que envelhecemos,

Nós é que nos desviámos.

Não aprendemos

O segredo destes amos,

O sinal

Que perene descansa:

- Permanecer igual

Na perpétua mudança.

 

 

743 – Jornalista

 

Jornalista que se preza,

Paladino da verdade e da justiça,

Corre à liça,

Fecha os olhos à própria safadeza

E, triunfal e jucundo,

Desata a julgar o mundo.

 

- Hoje como sempre, o lixo

Fá-lo qualquer bicho.

 

 

744 – Amadurecer

 

Se amadurecer dói muito,

Produto

Nada gratuito,

Pode ser óptimo o fruto.

 

Então compensa

A dor mais intensa.

 

 

745 – Acordo

 

Jamais a má teima

Findará

Num acordo singular:

Quem livros queima

Tarde ou cedo acabará

Homens a queimar.

  

 

746 – Técnica

 

Da técnica a caridade

Contra o logro original da natureza

Dá-nos a capacidade,

Pela luta e pelo amor,

De, com suor,

A desarmadilhar do que nos pesa.

 

Pelo amor também,

Que requer ligeiros

(Como nos convier e às vezes advém)

Galantes e mágicos pedreiros.

 

 

747 – Distingue

 

O que distingue um humano

É não acatar nada tal como for,

Tem de mexer-lhe, trocar de plano,

Jamais quieto, com suor.

 

Escrever

É ficar despercebido,

Nada mudar no mundo, na vida

Que haja a sofrer,

Quando, no interior escondido,

Toda a terra é revolvida,

Sem mal se aperceber.

Quieto, sossegado,

- E a minar o mundo por todo o lado.

 

 

748 – Alívio

 

A vida e o tédio

Deles tenho o dia nédio,

 

Não são, porém, suportados,

São olhados.

 

É um alívio, a libertação,

Em cada dia, uma revolução.

 

Tudo actua, como dantes, sobre mim.

Doravante, porém, não fica assim:

 

Não me calo, tremendo,

- Reajo escrevendo!

 

Ao apontar a dedo,

Perco medo

 

E o esmagador peso primeiro

Torno, então, de vez leveiro.

 

 

749 – Guarda

 

A escrita nunca te foi indispensável,

Guarda tua religião dentro de ti.

Deus vem aí

Ao teu encontro, infatigável,

Aí, onde falas contigo,

De terceiros ao abrigo.

 

Deixa que os mais pela rua

Apregoem a deles.

Respira tu a tua,

Que então não os repeles

E é apenas por tua alma nua

Que te impeles.

Ouve em teu íntimo o segredo,

- Então é que nos compeles

A escapar do degredo.

 

 

750 – Osso

 

O cão

Morre sem jamais ter encontrado

O osso derradeiro algures enterrado

No chão.

 

Quantos vestígios da vida

Jamais se hão recuperado!

Embora isto nunca impeça

De ir sendo a busca prosseguida

E cada vez mais depressa.

 

 

751 – Rasto

 

Andará Deus à nossa espera

No cabo do mundo?

Aqui, nem rasto de quimera

De cada dia ao fundo.

 

Tens de o procurar em ti

Como quem bate a uma porta.

Encontrá-lo-ás aí,

Se ainda existir da sombra morta

Algo que te exorta

Discreto e sem frenesim.

 

Se eu bem houver entendido,

Temos de ser o pica-pau persistente

Para este Deus duro de ouvido.

 

E logo me ocorre a mim

Que, se me aplico,

Reparo simplesmente

Que me falta o bico!

 

 

752 – Difícil

 

Que difícil explicar-me,

Quanta banalização!

O mais elevado carme

Como rasteja no chão!

 

Com palavras condenados a pensar,

A sentir com palavras,

Para os outros, ao calhar,

Entenderem nossas lavras,

Como ao fim as rotas apontadas

Resultam glabras,

Comedidas,

Ao lado das estradas

Prometidas!

As palavras são pedras,

Toda a vida lutei com elas

E, depois de rasgar tantas janelas,

Vê como tão pouco medro, tão pouco medras!

 

Aqui ando eterno a lutar comigo

Para apanhar minha evidência,

Meu prémio e meu castigo:

- Sei lá o que é desta existência!

 

 

753 – Fadiga

 

Por que há-de a vida

Ter razão contra nós?

Por que havemos sempre de atar-lhe os nós

Em fadiga submetida?

Um curso, o lar, os filhos,

Eternamente os mesmos trilhos, os mesmos trilhos…

 

- Não, não há maneira

De saltar fora da jeira.

 

 

754 – Real

 

Mais real do que nascer é morrer.

Quem nasce ainda é nada mas se ilude.

Quem morre é que faz que nada mude,

É o Universo, puro facto de ser.

 

Um homem só é perfeito

Se transpôs até os limites,

Se a morte não tiver jeito

De lhe surpreender apetites.

 

Não por ser gesta esquecida,

Mas por tê-la incorporado

Na plenitude da vida.

Mas como entender tal dado?

 

A parte animal dum homem,

O que é sono e quer dormir,

Como pesa e o que consomem

Estes passos de não ir!

 

 

755 – Fleuma

 

Amigo,

Tua fleuma desmedida,

Com ela não condigo.

Busca o rasto divino de tua medida,

O lume clandestino de tua aparição

Brotando como um grito do alcantil da serra.

Onde o perdeste, irmão?

O ar monolítico da terra

Como é que tudo te pontua?

Trago o eco perdido de ti

Na hoje erma rua

Onde, num dia de espantos, te surpreendi.

Onde estás, que não te alcanço,

Entre as pedras e poeiras em que me canso?

 

 

756 – Falhados

 

Aos quinze anos,

Foi a roupa de dar sorte.

Falhados da sorte os planos,

Foi dum penteado o corte,

Depois, um número ao jogo,

Dias fastos de jogar…

 

Quinze anos após me arrogo

O segredo de que auguro

A vitória a germinar:

- É bem duro e só bem duro

Trabalhar!

 

 

757 – Discutir

 

Discutir Deus?

Mas que asneira!

Toco Deus, não com a ideia,

É com realidade viva.

A prática leva os céus

A tombar da cumeeira.

A palavra é escada meia

De transpor a porta esquiva.

A realidade

Vive livre de noções.

É dever de quem a invade

Saltar conceitos, chavões,

Até se tornar capaz

Do que ela tem de fugaz.

 

 

758 – Bondade

 

Haja a bondade que houver,

Se houver dinheiro

O homem não enxerga nada.

 

Esta bicheza danada

Cega e surda a iremos ver,

Se vislumbra tal parceiro:

O dinheiro é a desgraça

Do tempo que passa.

 

Muito mais que um furacão,

Que o vírus Ébola ou Lassa,

É o dinheiro este vulcão

Que queima os rumos que traça.

 

Quando ao homem dou dinheiro

É certo que o encegueiro:

Não verá mais nada, não,

Para além daquele argueiro.

 

 

759 – Diálogo

 

O diálogo verdadeiro

Apenas tem lugar

Quando eu e o outro parceiro,

Ambos nos dispomos a mudar.

 

De dentro como de fora

De meu grupo de pertença

Me negaceia a verdade.

Mas quanto demora

Até que me convença

O que ao fim me persuade!

 

Se em tal não creio, porém,

Qualquer diálogo é mera perca

De tempo, vida além.

 

Se a verdade me cerca

E na minha vertente a monopolizo

Pelo diálogo em vão deslizo

E tombo sempre no vazio

Em que falaz me fio.

 

Terei de acreditar

Que ao dialogar com alguém

Meu íntimo irei mudar,

No poço de meu fundo, como convém.

 

Dialogar não é digerir

O outro, desfeito em mim,

Nem por ele deixar-me engolir

Do princípio ao fim.

Dialogar é descobrir

O não-eu

E permitir

Que o bom, bonito e significativo

Que nele cresceu

Me transmude ao vivo.

 

 

760 – Primevo

 

Qualquer diálogo deveras

Deve principiar

De mim próprio nas esferas,

Seu primevo lugar.

 

Com outrem fazer a paz,

Com o mundo,

Depende de como, a fundo,

Comigo ela me faz.

 

Se guerreio com meus pais,

Família, comunidade,

As igrejas ancestrais,

Há uma luta de verdade

 

Aqui no meu interior.

O labor elementar

É olhar bem no meu visor

Como estalado há-de andar.

 

Devo criar harmonia

De meu imo na paisagem,

No afecto que desvaria

Nas percepções que interagem,

Em meus estados mentais…

Então principia,

Um dia,

A paz a dar-me sinais.

 

 

761 – Tocas

 

Tocas em Cristo e te curas,

Ou em Buda ou Maomé…

E peregrinas a pé

Para as relíquias seguras.

Uma peça de roupa

E ficas curado:

- Como te poupa

O cuidado!

 

Quanta superstição,

Ilusão e mentira!…

Quando tocas, profundo e apurado,

O amor e a compreensão,

A ponto que isto em ti tudo revira,

Aí, sim, ficas curado.

 

E tens Cristo, Buda e Maomé

De pé

A teu lado.