CANTO  OITO

 

 

NAS  COISAS  FINDO  ME  ASSENTANDO  OS  DIAS

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 841 e 952 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                          841 – Nas coisas findo me assentando os dias

 

                                                    Nas coisas findo me assentando os dias,

                                                    Que em chão duro os prendo

                                                    E não me rendo

                                                    A voos que são meras fantasias.

 

                                                    Das pedras ouço as vagas melodias,

                                                    Meu gesto em meu vizinho acendo

                                                    E por dentro me vou reconhecendo

                                                    Nos degraus de todas as escadarias.

 

                                                    Húmus identifico e a charrua

                                                    Que me revolve a terra nua

                                                    Das relações que comigo e o mundo tenho.

 

                                                    É com esta pedra de calçada

                                                    Que vou calcetando a estrada           

                                                    Por onde vou, por onde até mim venho.

 

 

842 – Sucesso

 

Ter sucesso é controlar

O nosso tempo de vida:

Se à maior parte o lograr,

É vitória garantida.

 

O tempo é a moeda forte

Melhor que acaso acontece.

De vez, porém, gasto à sorte,

Desaparece.

 

 

843 – Apenas

 

Nunca chegamos deveras

A crescer.

Apenas, nas esperas,

Podemos, em lugar,

Aprender

Em público a estar.

 

E basta,

Que a vida é muito casta.

 

 

844 – Telefone

 

O telefone sublinha

O paradoxo existente

No interligamento que alinha

Incongruente:

 

 

Uns aos outros nos liga

Óbvia e aparentemente,

Porém, à distância obriga

Também, inelutavelmente.

 

A conversa olhos nos olhos

É a melhor ponte entre humanos:

Requeremos, subtis,

Para transpor os escolhos

Dos enganos,

Mil e um pontos nos is,

Toques faciais, postura, gestos,

Atmosfera…

- Quantos aprestos

Para descodificar uma espera!

 

Quando vou ao telefone

Tudo aquilo anda perdido.

Quanto mais me condicione

À intimidade instantânea,

Mais ilusório o sentido

Da vida contemporânea.

 

 

845 – Rumo

 

O rumo que andamos a trilhar

Na revolução das comunicações

Tem este efeito singular,

Entre outros senões:

- Uns com os outros deixámos de falar!

  

 

846 – Flores

 

Flores,

Lindas, efémeras, um nada ali,

Até morrerem, murchas as cores…

Flores,

Eis o que é de mim, de ti,

Até de vez quando te fores.

Entretanto brilha

Em nós a maravilha.

 

- Um nada,

E como alinda a estrada!

 

 

847 – Acertar

 

Acertar numa bola

Não tem grandeza nenhuma.

Os enredos e o humor

Brotam do problema que enrola,

Da tristeza que não se esfuma

E do valor

Que espantosa a Humanidade

Tem para sobreviver

À infelicidade

Da vida que lhe couber.

 

É um milagre virtualmente

Continuarmos a existir

Milhões de anos, tendo em mente

Tantos contras que suprir.

 

 

848 – Varanda

 

Uma varanda:

A única recompensa verdadeira

Que nos anda

À beira,

Após a torreira

Que nos dão

Os longos dias de Verão.

 

 

849 – Unidos

 

O bem e o mal

Vivem de tal modo unidos

Que ambos formam por igual

Da realidade os sentidos.

 

Não há nada

Debaixo do humano tecto

Que inteiramente à chegada

Vejamos que é só correcto.

 

No acto pervertido

Há gérmenes de virtude

Com que à salvação convido

Quem da aparência se ilude.

 

Em tudo,

O bem e o mal, lado a lado,

Eu de tal maneira os grudo

Que nada os pode ter separado.

 

Ao meio

Cortar alguém a maçã

É não ver que de permeio

Junta à podre a fruta sã.

 

 

850 – Espinhos

 

Ensanguentamos os dedos

Nos espinhos da rosa.

Os segredos

Da vida!

 

- Aquilo é que torna deveras preciosa

A flor colhida!

 

 

851 – Guerra

 

Toda a guerra

É uma guerra negativa:

Bons contra maus, cá na terra,

É uma leitura nociva,

Que a verdade a que se aferra

É sempre verdade esquiva.

 

Na guerra sempre é de pores:

- Serão maus contra piores.

 

E nem sequer o teu lado

É de supores

Que do menos mau seja um bocado.

 

 

852 – Ausência

 

A ausência

É um pouco de morte

E, pior sorte,

Um pouco de não-existência.

 

Ser um não-existido,

Pouco embora pela ausência o seja,

É bem pior que haver morrido,

Salvo seja!

 

 

853 – Aparelho

 

O aparelho

De Estado, instituição ou partido

É um pendor de estagnação.

Só é coeso graças ao velho

Tecido

De relações de longa duração

Entre os membros componentes.

Em vez de alavanca é travão,

Um estendal de doentes

Do coração:

Nada ali vibra, nada move.

Do aparelho a prova dos nove

É o caixão.

 

 

854 – Náusea

 

Uma coisa é a náusea sofrer

Da garrafa que comprei,

Outra é exactamente igual proceder

E as palavras escolher

Com que a descreverei.

 

Ao lê-la, mudei

A dor num prazer,

Em virtude duma estranha lei

Qualquer,

De que mal sei.

Ela é que, porém, me estrutura o ser

Como palavra de rei.

 

 

855 – Fora

 

Toda a vida se constrói e destrói

Fora de minha vontade.

Meu caminho nunca foi

Por terra firme.

Tanto quanto eu sobrenade

É nas águas onde confirme

Que todo o meu rasto se apaga.

As palavras fogem de mim,

Mal a voz as afaga,

Perdidas algures num insondável confim.

Os corpos têm desejos infindáveis

Que assustam, ignotos.

O mundo é vazio e silente,

Pontuado de incontáveis

Terramotos.

A morte caminha pelo presente

Escasso

E magoado,

Passo a passo,

A meu lado.

 

Não tenho à mão,

Para a estrada

Minada,

Nem ao menos um bordão,

Apenas a crença

E a ilusão, e a ilusão…

…Sem que nenhuma, ao fim e ao cabo, me pertença.

 

 

856 – Pesa-me

 

O Eu que sou

Pesa-me, violento.

Tanto a arrumar, a morrer, lento,

Momento a momento!

Por ora, porém, é vivo que vou,

Sou eu que me habito,

Sou este ente,

Presença em que palpito,

Vulcão neste ir sendo torrente

De lava consciente,

Perene grito

Por trás de tudo o que digo e faço,

De quanto vejo.

Ora, tal Eu que almejo

E em que permanente me ultrapasso

É para morrer.

Como é possível que venha a ocorrer?

 

Sou em mim intimidade,

Evidência única que me invade.

 

No limite

Que é que me leva a que me precipite?

 

- Ou é mera ilusão,

Não caio, enraízo-me no chão?

 

 

857 – Voz

 

O mais forte em mim é a voz mineral

De fósseis, de pedras, intérmina matriz

Ancestral

Que em mim germina e condiz

Com quanto a pedras tudo em mim reduz.

Quando em mim procuro o rosto original

Que no mundo me traduz,

Não encontro minha angústia, meu alarme:

Descubro, a provocar-me,

A indiferença bruta

De entre coisas ser esta coisa diminuta.

 

 

858 – Fragilidade

 

A fragilidade das palavras

E o milagre do encontro que por elas

Lavras

Connosco e  com os mais…

E quantas ignotas caravelas

Que te vivem demais,

Sonhos clandestinos que demoram

A soltar as velas

E que as palavras ignoram!

O que vive em ti saberás?

- Quanta guerra, quanta paz!…

 

 

859 – Cegueira

 

Ver não é um erro,

Só que nem todos aguentam.

A cegueira a que me aferro

Da luz não é intensidade,

Vem dos olhos que me tentam,

Jamais da verdade.

 

 

860 – Biblioteca

 

Biblioteca, o lugar

De aprender conhecimentos,

Enriquecer linguagens

E sonhar, sonhar, sonhar…

Do mundo aos quatro ventos

As mais longínquas paragens

Não ficam do mar além,

Encontramo-las também

Ao alcance do presente,

Afeitas a nossos planos:

- Aqui no interior da mente

E do coração humanos.

 

 

861 – Ideia

 

Ter uma ideia

É tal como apaixonar-me

Quase em prece:

O entusiasmo incendeia

Quando houver beleza e charme

No momento em que a gente se conhece.

E como uma ideia apetece!

 

 

862 – Questão

 

A iluminação

Não é uma questão de idade.

Uma fagulha no chão

A floresta inteira invade.

Uma insignificante

Cobra venenosa

Pode, belicosa,

Matar-nos o instante.

Potencial rei é

Qualquer príncipe bebé.

Todo o jovem tem

O poder de ser iluminado

E de mudar, logo além,

O mundo de lado a lado.

 

E os mais vamos aprender

A desvendar

A nós próprios ao querer-

-Nos estudar.

 

Inesperado

Faísca o génio,

Jamais dele o fado

Obedece a qualquer convénio.

 

Onde, porém, faísca,

É o lugar

Que se arrisca

De vez a nos desvelar.

 

 

863 – Rega

 

Ódio, violência,

Medo e discriminação

Na comunidade são

A rega para as sementes

Da demência,

Ódio, violência,

Medo e discriminação

A crescerem, dementes,

Fio intérmino de retrós,

Por dentro de nós.

 

 

864 – Antes

 

Antes de orar, praticar.

Montanhas eram montanhas

E os rios eram os rios.

Durante anos, devagar,

Foram ganhas

Vitórias aos desafios:

Montanhas deixam de o ser

E nos rios quem vai crer?

 

Agora compreendo tudo

Tal qual como deverei.

De novo transmudo

A lei:

As montanhas são montanhas

E os rios também são rios…

 

As malhas, porém, que apanhas

Mais camadas têm de fios:

Em cada particular, o todo

Vês agora deste modo.

 

 

865 – Padeiro

 

Deus não faz o mundo, não,

Como o padeiro, o pão.

 

Do supremo nunca poderei falar

Em termos do histórico patamar.

 

O fundamento ontológico,

O nómeno,

Não é um mero pormenor lógico

Ou um aspecto do fenómeno.

Há uma dupla dimensão

Numa mesma realidade

E há uma relação,

Fenómeno-fenómeno não,

Antes fenómeno-númeno que nos invade.

 

Quando lhes ato o nó,

Porém,

Ao mesmo tempo advém

Que os dois reinos são um só.

 

 

866 – Espírito

 

O marinheiro,

Por estranho que pareça,

É de espírito caseiro:

Arrasta com ele a casa e a essa

- O navio,

E dele a terra natal

- O mar ancestral.

 

Do que o rodeia no imutável corropio,

A costa da estranja,

O exótico rosto,

A versátil imensidão que a vida abranja,

Sem o velado encanto do mistério,

Deslizam, fugazes, do posto,

Dum desdém que os ignora sob o império.

 

Para ele, mistério, apenas o do mar,

Amante de toda a vida,

Incapaz, como o destino, de alguém o devassar.

O mais, poeira revolvida,

Basta um passeio ocasional,

Uma pândega no local,

E fica o segredo dum continente exposto.

 

Mais, não vale a pena:

A terra firme, desvelado o rosto,

É por demais pequena.

 

 

867 – Trabalhar

 

De trabalhar não gosto.

Que bom é ser calaceiro,

A meditar no belo rosto

Daquilo de que poderia ser o empreiteiro!

Nenhum homem gosta, aliás,

Embora adore o que o labor traz,

Não apenas o que fruirmos,

Mas a oportunidade

De nos descobrirmos:

Aquela realidade

Por dentro dos outros e de nós

Que ninguém mais pode descortinar.

 

De fora apenas irão reparar

No espectáculo amável ou atroz,