CANTO DOZE
EM CLÁSSICAS PEGADAS BALANCEIA
Escolha aleatoriamente
um número entre 1406 e 1583 inclusive.
Descubra o poema
correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1406 – Em clássicas pegadas balanceia
Em clássicas pegadas balanceia
O soneto, ao pascigo encaminhando
O rebanho de afectos, sempre quando
Em ternura um amor nos incendeia.
Mas, soltos os cordeiros, é no brando
Pendor que toda a grei já se semeia,
O amor transponho aos laços e a candeia
Dos sonhos alumia todo o bando.
Então conclamo a meu redil as bestas
Que armam esperas, de punhais na mão,
Que me angustiam: as questões molestas.
Encurralar-me deixo no saguão
Das questões sem resposta em que me firo,
Mas lucidez ao erro em mim prefiro.
1407 - Dizer
Dizer "desejo-te!" é
falar correcto,
"Amo-te muito!" é já
perturbador,
"Amo-te mal!" então é
de supor
Que de conversa nunca fui
objecto.
As histórias de fadas vão expor
Que eterno fica o amor, findo o
trajecto,
E mentem sempre que exigente,
inquieto,
Sempre há-de ser no refulgir do
ardor.
É uma obra de arte, um regateio,
um riso,
Uma longa paciência comungada,
Uma disputa acesa ou um aviso…
- Tarefa eternamente inacabada,
Seu alerta maior é o que ajuízo
De dia a dia abrir sempre outra
estrada.
1408 – Inteiro-me
Inteiro-me de tua solidão
E a Presença a teu lado
permanente
Dentro em ti como em teu rastro
igualmente
As pegadas recobre de teu chão.
Abraço do Universo em nós
presente,
Quem nele nos retoma o coração?
Que braço hospitaleiro esta
emoção,
Esta dor vem ungir aqui, silente?
Conduz-te um dia para um outro
reino,
Não adivinhas quando ele intervém
Nem como a nova vívida tem
treino,
Tem tantos meios de levar-te
além.
A um mágico, porém, mui
semelhante,
Põe de ti perto quanto foi
distante.
1409 – Rio
Vinte e cinco anos são a vida
inteira
No rio dos eventos desaguada:
Labor em cachoeira atribulada
Nas ondas refrescando quem se
abeira,
Afluentes de amigos que a passada
Pelos caminhos rendilhou à beira,
Dos filhos o marulho em cada
jeira,
Na rega a amadurar a desfolhada…
Açudes de doenças doloridas,
Rápidos perigosos onde há riscos
E a fadiga onde o mar mora mais
perto…
De vida é um rio mais, que em
duas vidas
Da ternura lançámos sempre os
iscos:
- Amarmo-nos, que rio no deserto!
1410 – Útero
Em útero materno quando estávamos
Seguros nos sentíamos, bem
quentes,
A fome, a insegurança eram
ausentes
E o padrão do porvir nisto
assentávamos.
Ao nascer partilhámos sofrimento,
O mundo inaugurámos a chorar.
Desde então desejámos só voltar
Àquele iniciático elemento:
Quero estabilidade onde há
mudança,
Um absoluto aqui num eu instável,
Lugar salvo e seguro sem
tardança,
De confiar por tempo
interminável.
Toco o chão, terra firme,
confiante,
E logo o amigo estável ei-lo
adiante.
1411 – Invocas
Invocas Deus mil vezes cada dia,
Invocas Buda, Cristo ou Maomé
E o coração jamais tocas da fé,
Cheia de raiva a tua fantasia.
Se alguém, quando invocas, bate à
porta,
Incomodado ficas do barulho,
Da porta o irás correr com o
estadulho
Por não te respeitar o que te
importa.
Que incómodo chamar-te aquelas
vezes!
Cuida só como deve andar zangado
Esse teu Deus a quem martirizado,
Finalmente, com quanto tu lhe
rezes,
Deverás ter, enquanto, anos
seguidos,
Lhe andaste a encher em vão
sempre os ouvidos.
1412 – Silêncio
Preciso de silêncio para ouvir
As intuições que passarão por mim
Como anjos vaporosos de cetim
Murmúrios leves quase a me
induzir.
A ideia nova não nos chega enfim
Orquestrada a trompete, a
percutir,
Antes em harpa céltica há-de vir,
Flauta de Pã algures do confim.
Os sons mais importantes duma
vida
Podem tão silenciosos ser que
passem
Despercebidos muito facilmente.
No meio do ruído, a quem convida
Ninguém o escuta: eis como se
embaracem
Do mundo novo os rostos que se
inventem.
1413 – Génio
Quando o génio do sexo entra no
acto,
(Evocativos termos, toques,
gestos…)
A alma entra em acção no íntimo
pacto
E sentem os amantes manifestos
Abismos inefáveis na união,
A vivência devém fácil, gloriosa.
Podemos pensar sexo como bom
Quando sadia habilidade o goza.
Porém, saúde e técnica, valiosas
Como serão, não são suficientes
Para do sexo as profundezas dar.
Estas, do imaginário nebulosas,
Dizem respeito a quem toca outros
entes:
Serão todo o infinito num lugar.
1414 – Diferentes
Que diferentes o seremos todos
É uma matriz de nossa identidade.
De longe apenas temos paridade,
Na proporção em que perdemos
modos,
Em que não somos nós, na
opacidade
Do indefinido a fervilhar de
engodos.
A vida é destes, convivendo a
rodos,
Que ninguém são, falhando a
alteridade.
Cada qual é dual e se se
encontram,
Se ligam, se aproximam quaisquer
dois,
De acordo os quatro não serão
depois.
Sonhar e agir, dois num, se
desencontram:
Como conciliar-se irão então
Com o sonhar e agir do outro em
questão?
1415 – Morte
Pela morte vivemos, porque somos
Hoje o que para ontem já
morremos.
Pela morte esperamos, que podemos
Crer no amanhã por morte que hoje
pomos.
Pela morte vivemos, pelos tomos
De sonhos que sonhamos: que
sonhemos
Toda a vida é negarmos que
vivemos,
Que sonhar é negar vida que
fomos.
Morremos, aliás, quando vivemos,
Que viver é negar a eternidade:
A morte nos procura e nos invade.
É morte quando temos e queremos
E, faça cada qual o que fizer,
É morte quanto quererá querer.
1416 – Mercê
O que criaste para a humanidade
À mercê fica deste esfriamento
Que a Terra sofre agora, já
momento
Mais lento e lento inerte, sem
idade.
O que aos pósteros deste, a
identidade
Tua o preenche inteiro, o
entendimento
Dele ninguém o tem, nem tegumento
De fruto algum será que ao mundo
agrade.
Se nas épocas tuas o acolheram,
Já nas vindoiras não o
entenderão.
Se apelos teus a todas o
estenderam,
No abismo derradeiro quem então
Pode impedir que ao fim se
precipite
Na pira universal que tudo dite?
1417 – Sombra
Gestos na sombra, somos as
janelas
Que escondem por detrás todo o
mistério.
Mortais somo-lo todos, pó sidéreo
A tempo certo, gastas as
parcelas.
Logo que morrem, morrem uns,
estrelas
Colapsando, finado todo o
império.
Outros vivem um pouco em eco
sério
Na memória dum povo onde içam
velas.
Alguns alcançam a memória culta
Da civilização que os há fruído,
Mui raros as do lado hão
atingido.
No abismo a todos lança a
catapulta
Do tempo que nos some finalmente:
- O perene é um desejo, o eterno
mente.
1418 – Mortos
Morte somos e morte viveremos,
Nascemos mortos e mortos
trespassamos
A vida que ligeiros afloramos
E é mortos já que nós na morte
entremos.
Já que o que vivo vive o que
mudamos
E muda porque passa e nele vemos
Que quanto passa morre,
comprovemos
Que, quanto vive, eterno
constatamos
Que noutro se transmuda e então
se nega,
Se furta à vida, transitória
prega.
A vida é um intervalo, relação
Entre o que foi e o que será,
desvão,
Morto parêntesis da morte à
morte:
- Vida-condenação ou vida-sorte?
1419 – Criança
Sabe a criança que não é real,
Porém como real trata a boneca,
Até se desgostar quando ela,
peca,
Tomba ao chão, fruta podre do
quintal.
Irrealizar é o que a criança
checa
Da vida com finura sem igual.
Bendita a idade errada mas vital
Quando se nega a vida que nos
seca,
Por sexo não haver, que é só
ternura,
Em que a realidade se sonega
Por brincá-la no encanto e
formosura!
Por tomar por reais, se tal
adrega,
As coisas espalhadas pelo chão,
Reais deveras só porque o não
são.
1420 – Valor
Não mais valor ao oiro que a um
vidrilho
A criança empresta e na verdade o
oiro
Valerá mais? A criança com
desdoiro
Obscuras olha as raivas, o
rastilho
Das paixões, dos receios que
envencilho
Em gestos de adultez de mau
agoiro.
Os ódios e os amores que em vão
doiro
Absurdos são deveras que
ensarilho.
De convenções vestimos a nudez,
No preconceito embrulho olhar
directo:
A infantil intuição, que lucidez!
Será Deus a criança muito grande
A brincar do Universo pelo tecto,
Travessa das partidas que nos
mande?
1421 – Visão
Minha visão de ti seria o leito
Onde minha alma adormecera calma,
Criança adoentada cuja palma
Sonha outra vez com outro céu a
jeito.
E ouvir-te fora não te ouvir mas
preito
Às grandes pontes aos lugares de
alma
Que os oceanos ligam onde acalma
A fome e a sede o mar que trago
ao peito.
Em nós eternas, eis as caravelas,
Em mim o teu sorriso acorda
estrelas
No céu interior enluarado.
Dormindo chamas-me: no barco, em
sonho,
Vislumbro as velas de luar que
ponho
Nas longínquas marinhas de meu
fado.
1422 – Infeliz
De nossa vida um infeliz acaso
Em que atrasados fomos, ou
ridículos,
Ou mesmo reles, são meros
fascículos
Incómodos que lemos pelo ocaso
Da viagem serena em que os
versículos
Em nossa intimidade aram o caso.
No mundo viajantes sempre a
prazo,
Ignotos passageiros nos
cubículos,
Vulto demais não deveremos dar
Do percurso aos percalços,
contundências
De trajectória por qualquer
lugar.
Com isto me consolo, que ou
consolo
Disto me vem ou vem das
aparências:
Real acaba o sonho em que me
enrolo.
1423 – Estupidez
A estupidez nos sacrifica vidas
E haveres a qualquer inútil
coisa.
Ideais, ambições, neles repoisa
Desvairo de comadres convencidas.
Não há império que valha que
perdidas
Por ele haja bonecas onde poisa
Um sonho de criança. E não há
loisa
De ideal que mereça as perdas
idas.
É humano tudo e sempre o mesmo o
homem:
Inaperfeiçoável e volúvel,
Improgressivo no que quer que o
tomem.
Das coisas ante o curso
irresolúvel,
O sábio quer repouso no
horizonte,
A paz na encosta sonha além do
monte.
1424 – Andrajos
Quem dera a vida na lonjura
alheia,
Quem dera a morte entre pendões
ignotos!
Quem dera rei nos meus andrajos
rotos
Ser aclamado na avenida cheia!
Em eras outras, o melhor ameia
Hoje lá, não nos hojes daqui
botos,
Vislumbro coloridos em mil fotos
Bem longe deste aqui que mos
cerceia.
Queria o que ridículo me mostra,
O nada deste nada que enfim sou
Naquele não ser eu nalguma
amostra.
Há sempre o que há, porém, e o
que devia
Haver, por trilho ser onde não
vou,
Escuso escapa sempre à luz do
dia.
1425 – Existe
Tudo o que existe existe
porventura
Porque outra coisa existe: nada
é,
Coexiste tudo, nada fica em pé
Por ele mesmo em vertical
postura.
Eu nunca existiria, em boa fé,
Com esta consciência que me apura
No modo de existir nesta figura,
Não fora a mesa ali de meu café.
Isto é que sinto: que não sinto
nada.
Isto é o que penso: de isto nada
ser.
Silêncio e noite sou, nesta
jornada
Com eles, nulo, negação qualquer.
Intervalar espaço dentro em mim,
Sou esquecido deus até ao fim.
1426 – Anónimos
Longínquos como anónimos vivemos,
Disfarçados sofremos ignorados.
Para uns a lonjura é sem
cuidados,
Outros os ferem raios seus
extremos
E uns derradeiros de cotio vemos
Na dolorosa férula dos fados.
Saber quem somos são votos
falhados,
Que tradução é sempre o que
pensemos,
Mesmo o que quero, no final não
quero,
Nem porventura ninguém mais o
quis.
Tudo isto descobrir o quanto é
vero
De cada sentimento nos perfis,
Como estranho em si torna o
desolado:
- De seus próprios afectos é
exilado!
1427 – Sonhável
Saber recuperar de cada evento
De sonhável quanto ele pode ter,
Abandonando o que real tiver
Do mundo exterior no
esquecimento,
Eis o que o sábio deve pretender
Nele próprio lograr por um
momento.
Nunca se permitir do sentimento
Manipulado ou por arrasto ser.
O autodomínio-mor é indiferença,
Corpo e alma são quinta onde o
destino
A vida nos impôs como sentença.
De si tem o pudor: nossa presença
A nós é testemunho clandestino,
Pedido, ante um estranho, de
licença.
1428 – Angústia
Nossa maior angústia irrelevante,
Na vida do Universo como no imo,
Considerar é firme ter arrimo,
Sabedoria de matriz instante.
Em meio a tal angústia, para o
cimo
Trepar é inteira usufruir adiante
Sabedoria que na dor garante
Que dos abismos não me prende o
limo.
Ao momento da dor, a dor humana
Tingirá do infinito que não tem,
Que nada de infinito em nós
emana.
A desmedida dor não nos convém,
Nem há-de valer mais, quando a
pesemos,
Que ser a mera dor que ali
sofremos.
1429 – Paro
A um tédio que parece de loucura,
A uma angústia a escorrer para
além dela,
Paro hesitante este eu que se
rebela,
Hesita em ver-me deus minha
procura.
Dor de ignorar mistérios, negra
estrela,
Dor de nos não amarem, de
mistura,
Dor de pesar a vida esta fundura,
Sufocando e prendendo em cada
cela,
Dor de dentes, de pés muito
apertados,
Quem pode ponderar qual é maior,
Se não há nunca metros adequados?
Se o não vejo em mim, quanto mais
nos mais!
E, no geral, em quanto fica a dor
Ponderada ante os entes siderais?
1430 – Grandeza
Orgulho é da grandeza viver
certo,
Vaidade é se os demais em nós a
vêem.
Ambos os sentimentos que nos lêem
Não têm de avançar longe nem
perto,
Que diferentes são, mas que nos
dêem
Conjugáveis momentos é o desperto
Desejo que cultivo em meu
deserto,
Na timidez em quem outros nem
crêem.
Temor duma grandeza que,
ignorada,
Nos outros não confia, que o
confronto
De opiniões primárias finda em
nada.
Vaidade sem orgulho, sem
grandeza,
É que audácias cultiva em seu
pesponto:
Nada tem a perder quem nada
preza.
1431 – Brinquedos
Deus criou-me criança e assim
fiquei.
Por que deixou que a vida me
batesse,
Me roubasse os brinquedos, me
esquecesse
No recreio sozinho, sem mais
grei,
A amarrotar o bibe onde falece
A mão fraca de lágrimas de rei
Destronado do colo que nem sei?
Se acarinhado quis que eu me
acrescesse,
Por que jogaram fora meu carinho?
Quando na rua uma criança vejo
A chorar exilada no caminho,
Dói-me nela este horror de meu
ensejo
Perdido, dia a dia mais exausto,
Ante a adultez que passa a rir em
fausto.
1432 – Feliz
Em nada creio em animais felizes,
Que para ser feliz urge sabê-lo.
Não há felicidade em pesadelo
Como em dormir sem sonhos nem
matizes,
Senão em despertar, quebrando o
selo,
Aliviado de dormir sem crises,
Pois a felicidade tem raízes
Extra-felicidade, ao percebê-lo.
Não se é feliz senão ao conhecer,
Mas tal saber me torna já
infeliz,
Que feliz no passado me irei ver,
Largando atrás a festa por um
triz.
Conhecer é matar, cá como em
tudo,
Pois não saber nem ser é
sobretudo.
1433 – Vários
De nós são vários cada qual, são
muitos,
Uma prolixidade em multidão:
Aquele que despreza dele o chão,
Não é quem risos lhe alegrou
gratuitos.
De nosso ser no exército,
fortuitos
Rostos de muita espécie brotarão
Que diferentemente sentirão:
Aqui sou quem escreve estes
intuitos,
Quem ri de ali não ter outro
trabalho,
Quem, vendo o céu lá fora o goza
pleno,
Quem tudo isto medita em vago
aceno…
Este mundo de gente que baralho
Se compacta diverso, por destino,
Neste uno corpo com que mal
atino.
1434 – Preso
É tédio sentir caos e que é tudo.
O aborrecido preso em cela
estreita
Se vê e o desgostoso a vida
afeita
A algemá-lo ao algoz vê
sobretudo.
O tédio vê-se preso sem escudo
À liberdade fruste a que se
ajeita
Duma cela infinita donde
espreita.
Sobre aqueles, paredes a miúdo
Da cela a desabar vão
soterrá-los:
A quem do mundo a pequenez
desgosta
Pode aos grilhões duma só vez
serrá-los.
Na cela do infinito não há costa,
Nem nos podem fazer viver por dor
Algemas que ninguém nos anda a
pôr.
1435 – Campo
O campo é sempre onde jamais
estamos,
Ali há sombras, sombras
verdadeiras,
Verdadeiro arvoredo e
sementeiras…
A vida é hesitação do que
admiramos
E do que interrogamos: nestas
leiras,
Na dúvida, o final ponto ditamos.
O milagre é a preguiça que
enfeitamos
Inventando-o num deus que tem
canseiras.
Os deuses sempre foram e serão
A perene inconfessa incarnação
Do que nós nunca poderemos ser.
De todas as hipóteses fadiga,
O campo a que nenhuma estrada
liga
É quanto sou e não logrei viver.
1436 – Possuo
Meu corpo não possuo, se sou ele,
Minha alma não possuo, se sou
ela.
De meu espírito que entendo dele
Se ele é que entende uma qualquer
sequela?
Nem corpo nem verdade em nossa
tela
Detemos, a ilusão é que me impele
Ou nem sequer, que sombra se
revela,
Fantasmas somos dum engano
imbele.
Oca vida por dentro e mais por
fora,
Quem as fronteiras viu da própria
alma
A ponto de afirmar: sou eu agora?
Sei que o que sinto o sinto eu,
porém.
Não sei quem sou: como hei-de ter
eu calma
Se o que possuo nunca o sei
também?
1437 – Amar
Não podemos amar, é uma ilusão.
Se amar é possuir, que é que
possui?
O corpo, não, que sempre
restitui,
Senão absorveria e que senão!
E as almas possuí-las, como
então?
Nem minha alma por minha ao fim
se intui,
Entre alma e alma quanto abismo
flui
De serem almas sem haver portão!
Que possuímos, que nos leva a
amar?
Alma, corpo ou beleza, nem
sequer…
Um corpo lindo ter não é a
lindeza
No abraço lhe reter que o
abraçar.
Fica o afecto que em mim dentro
houver
E a memória também que, ao fim,
mo lesa.
1438 – Procura
Da verdade a procura – a
subjectiva
Da convicção, ou objectiva,
então,
Da realidade, ou social, cativa
Do dinheiro ou poder ou persuasão
–
Sempre consigo traz, aos que se
dão
Generosos à freima que os activa,
A descoberta (e em primeira mão)
Da inexistência de verdade viva.
Da vida a sorte grande sai
somente
Aos que acaso comprarem lotaria
E o prémio a si próprio se
desmente.
Apenas qualquer arte tem valia,
Que no meio do fruste frenesi
É quem nos tira, no final, daqui.
1439 – Compreende
Ninguém compreende o outro, somos
ilhas
No mar da vida que entre nós
acorre
A definir-nos e a mentira corre,
Que o mar separa unindo
maravilhas.
Por mais que alguém se esforce a
rumar quilhas
Na esteira doutrem, a esperança
morre,
Não sabe mais que o que a palavra
escorre,
Sombras disformes da verdade
filhas.
Amo os conceitos porque não sei
nada
Do que me exprimem da vivência do
imo,
Jardim selado onde não tenho
entrada.
Com quanto me for dado me
contento,
De longe imaginando o que há no
cimo.
Vislumbro e é tudo: eis nosso
entendimento.
1440 – Preocupa-me
Preocupa-me deveras a consciência
De outro eu ser para os outros
que não eu,
Que figura farei no corpo meu,
E moralmente até, qual a
evidência.
Habituados todos a de seu
Considerarem primordial essência
A mental, sendo os mais, por excelência,
Físicos seres ante o olhar que os
viu,
Aos outros raramente os
contemplamos
Como seres mentais, de
intimidade.
No amor apenas, no conflito,
vamos
Consciência retomar e com
verdade,
De os outros serem sobretudo um
imo
Como eu em mim no meu mais fundo
cimo.
1441 – Problema
Nenhum problema tem a solução,
Nenhum de nós desata o górdio nó,
Ou desistimos ou cortamos só.
Com sentimento acaso se porão
Questões de inteligência, quando
a mó
Cansou de remoer e a conclusão
Não a terei por timidez à mão,
Por buscar um apoio em meio ao
pó,
Por aos outros e à vida retornar…
Duma questão jamais todo o
elemento
À mão terei: então como lidar?
Para a verdade falta-nos frumento
E na mente moinhos que culminem
As farinhas moendo que a dominem.
1442 – Beleza
Por que há beleza em arte? Porque
é inútil.
E a vida por que é feia? Porque é
fins,
Toda intenções, propósitos e
afins…
Dela os caminhos são para se ir,
útil,
Dum ponto ao outro, nada nela é
fútil.
Quem dera o trilho feito sem
confins,
Onde os passos não sigam
farolins,
Viagem sem pontos, túnica
inconsútil!
Quem dera a vida feita duma
estrada
Pelo meio dum campo iniciada,
A meio doutro finda na paisagem!
Beleza da ruína: a nada serve…
Doçura do passado é o que
preserve
Nada ser senão sonho da viagem.
1443 – Invisíveis
Tão invisíveis somos mutuamente!
Já meditaste em quanto
ignoraremos?
Vemo-nos e, afinal, nunca nos
vemos,
Ouvimo-nos e a voz dentro nos
mente,
Que escutamos é a voz que dentro
temos.
Dos outros a palavra, erro
inclemente
De nosso ouvir, naufrágio do que
eu tente,
O sentido distorce que
alcancemos.
Lemos volúpias onde os outros
deixam
Cair dos lábios sons sem mais
alcance:
São nossos os sentidos que os
enfeixam.
Dos regatos a voz que te
interpretas,
Das árvores murmúrio que
descanse,
Da prisão tudo é sonho a escoar
das gretas.
1444 – Ouvido
Não amas o que eu digo, com
ouvidos
Com que eu me ouço dizê-lo e sei
lá bem,
Ao falar alto, se o que escuto
vem
Deste meu imo com iguais
sentidos!
Se eu erro ouvindo-me em
conceitos tidos
E me pergunto neles que contêm,
Quanto me entenderão outros que
nem
De meu imo vislumbres têm
vividos?
De que ininteligências não é
feito
Qualquer saber que um outro tem
de nós!
Alguém ser entendido não é o
jeito
De imos complexos, findarão sem
voz.
Os simples que outros podem
compreender
É que ao fim tal em mente nem vão
ter.
1445 – Ânsias
As ânsias de atingir ai quanto
aquém
Do que atingimos ficarão por fim!
Que bom rezar contigo atento
assim
Do desespero litania além!
Não vejo obra de artista que
também
Mais perfeita não venha, como eu
vim,
A poder transmudar-se: um
folhetim
Num romance amanhã por fim devém.
Verso por verso lido, o maior
poema
Pouco terá que melhorar não
possa,
Imenso mais a repintar um tema.
Reparar nisto é dum artista a
mossa
Que em seu trabalho enoita a
fantasia
E nem no sono a calma mo alivia.
1446 – Vivo
Não vivo, vogo em vida real, que
as naus
São naus de sonho, mal em nós
aflore
O poder de sonhar que nos demore
Até das vidas ir transpondo os
vaus.
Não viver quando sonha faz que
more
No sonhador um ror de génios
maus,
Tal não sonhar, se vive, ata
calhaus
Aos pés de homem de acção que não
vigore.
Por mais que tenha um sonho, mais
terei
Meu corpo possuído em carne e
osso.
Por mais que viva a vida em plena
acção,
Mais do tropeço noutrem vivo a
lei.
Se mato o sonho, então matar-me
posso,
Só realizando-o ponho o mundo à
mão.
1447 – Entender
Entender como é que outra gente
existe,
Como almas há que são não sendo a
minha,
Alheia consciência à que amarinha
Por mim além e que nem tem
despiste…
Um homem ante mim falando um
chiste
Com gestos que serão uma adivinha
E que eu decifro como a tal
convinha,
Estranho semelhante é que eu
registe…
O mesmo, todavia, a ilustração,
Personagem de conto ou cena em
palco
Se me antolham, contudo não o
são.
Ninguém descobre um outro, que o
desfalco
Da existência real que lhe
convém,
Títere é de nenhuma alma refém.
1448 – Figuras
De tempos idos há figuras gradas,
Espíritos em livros que maiores
Realidades são do que os senhores
Que nos falam do cimo das
montadas,
Indiferenças aos balcões
pregadas,
Olhar de acaso à esquina dum
temor,
Transeunte a roçar da rua a dor,
Invisível na teia das passadas.
Os outros mais não são do que
paisagem
Ignorada por nós na trilha
havida.
Mais meu é meu herói que na
voragem
Se foi das eras mas que oferta
vida.
Os mais são carne e osso, como
postas
Sangrando em talho a morte em
montra expostas.
1449 – Indiferente
Tudo o que haver parece de
desprezo
Entre um homem e um homem
ignorado
Permite indiferente quanto ao
lado
Se mate gente sem sentir, por
vezo,
Como entre os assassinos, ou que,
aceso
O tiro, em tal nem creia algum
soldado.
Ninguém presta atenção, mui
descuidado
A que os mais almas são num imo
coeso.
O merceeiro certo dia à frente
Germina como um ente espiritual
E pasmo fico, vendo-o diferente.
Se ele morrer só resta, no final,
A breve saudação que de cotio
Trocámos de automático fastio.
1450 – Boçal
Como irrita a boçal felicidade
De todos estes homens que não
sabem
Quão infelizes são! Em si não
cabem,
Cheios de tudo quanto, na
verdade,
Os iria angustiar, caso não gabem
Algum dia a soez fatuidade.
Como a vegetal vida lhes agrade,
O que sofrem passou e faz que
acabem
Sem bulirem nas almas. Vivem
vidas
Como quem, dor de dentes a
sofrer,
Uma fortuna recebeu qualquer,
A de ir vivendo sem notar,
sumidas
As graças de ser deus com os
demais…
- E amo-os tanto, aos queridos
vegetais!
1451 – Sente
De quem não sente é o mundo, a
condição
Para ser prático é ser
insensível.
Para agir, a vontade impreterível
Terá de conduzir firme uma acção.
Ora, o que a acção estorva,
imprevisível,
É a sensibilidade: a projecção
Da personalidade sobre o chão
De homens atapetado, é bem
credível
Que se atravesse no caminho
alheio,
O estorve, fira, esmague ao que
convier.
Para agir, pois, importa que o
receio
Das dores e alegrias de quenquer
O não acolha: logo é o mundo
externo
Lixo banal sob o tacão superno.
1452 – Estratego
Para o estratego toda a vida é
guerra
E síntese da vida é uma batalha.
Joga com vidas como quem baralha
As cartas, caia embora um naipe
em terra.
Pois dele que seria se se aferra
Ao que enoita em mil lares tanta
poalha,
Aos corações ardendo como palha
No fragor que das bombas tudo
aterra?
Se fôramos humanos, que seria?
Nem civilização se nos erguia,
Se sentimos deveras os efeitos…
Quem agir há-de ser um
bem-disposto,
Quem rege é que insensível gere o
posto.
- Triste, só quem de sentir tem
os jeitos.
1453 – Atentamente
Escrevo atentamente recurvado
A história inútil dum evento
obscuro,
Contabilista no covil escuro
Duma qualquer empresa obnubilado.
E a fantasia segue com cuidado
A rota do navio que procuro
Inexistente por detrás do muro,
Na esteira dum onírico eldorado.
As duas trilhas igualmente
claras,
Visíveis ante mim se me
apresentam,
A das laudas que nunca me são
caras
Como a dos sonhos que irreais se
inventam.
Repentina, porém, a lauda cresce
E logo o barinel desaparece.
1454 – Novas
Novas imagens, só com alma nova.
Baldado esforço, se sentir
quiseres
Mundo novel sem inovado seres,
Desde o sentir ao imo, atento à
prova.
Tudo é como o sentires – como
aprova
O que já viste mesmo sem o veres.
A novidade, para um dia a teres,
Só se o senti-la em ti também se
inova.
Muda de alma, portanto, e vê lá
como,
Que, do nascer à morte,
lentamente,
Como o corpo evolui, evolui ela.
Rápido arranja novo olhar de
tomo:
Como um corpo, ela, ocasional,
consente
Que o morbo acaso cures sem
sequela.
1455 – Comprador
O comprador do inútil sempre mais
Sábio vai ser que acaso se
julgar:
Compra pequenos sonhos, com
vagar,
Criança ao adquirir sombras
reais.
As inutilidades tem-nas tais
As conchinhas na praia junto ao
mar,
Por onde o mundo inteiro navegar
Feliz irá o petiz como jamais,
Dormirá com as mais lindas na
mão…
Se alguém lhas perde ou tira,
arranca-lhe alma,
Rasga aos pedaços dedos de
ilusão.
Vai chorar ele como um deus a
quem
Roubaram a recém-criada palma
E o mundo que gerou lhe morre
além.
1456 – Absurdo
É tudo absurdo na mundana vida.
Este os dias empenha no dinheiro
Nem tem filhos para quem,
videiro,
O legue, nem um céu lhe compra a
lida.
Aquele a ganhar fama vai ligeiro
Para depois de morto e a
sobrevida
Nela nem crê que algures o
convida.
Outrem o que não quer busca
lampeiro,
Um lê para saber, inutilmente,
Inútil outro goza e crê viver…
- Todo o horizonte, no final, nos
mente,
Que sempre além brota um além
qualquer,
Toda a chegada vai ser fatalmente
Nova partida para nunca ser.
1457 – Eléctrico
Neste eléctrico vou, reparo lento
No pormenor de quem me vai
diante.
No vestido da moça vejo o
instante
Do labor com que o fez cada
instrumento.
Orla-a de leve a gola coleante
E as mãos da bordadeira logo
invento,
De costurar a máquina apresento
E a fábrica por trás onde se
implante.
Sigo os gerentes, mais
secretarias,
Vidas domésticas, amor de todos,
As angústias e os sonhos,
fantasias…
Ante os olhos, o mundo, de mil
modos,
Discretamente corre à minha
beira:
No eléctrico ao fim vivo a vida
inteira.
1458 – Nosso
Aquilo que foi nosso, por acaso
Embora dum convívio, da ilusão,
Só porque nosso foi é nós então.
E quem daqui partiu, mesmo que a
prazo,
Em mim não foi apenas um ganhão,
Foi um vital recanto a que deu
azo,
Que é visceral e humano, era o
meu caso,
Substância em minha vida, agora
um vão.
Hoje fui diminuído, já não sou
Exactamente o mesmo: ele partiu…
O que ocorre onde vivo, em mim
correu,
O que finda em meu mundo em mim
findou.
Tudo o que foi, se o vi, já me
não mora,
Meu ganhão, meu ganhão foi-se-me
embora!
1459 – Vencem
Uns no amor vencem, outros na
política,
Outros em arte acaso vencerão…
Aqueles a vantagem narrarão,
Aventura de amor não é somítica.
Mas deixam tanta dama paralítica
Que é fatal que as suspeitas
crescerão.
Outros, porém, ministros têm à
mão,
O que se antolha já tese
apodíctica.
Uns sádicos serão, outros brutais
Com as crianças e as mulheres,
tais
Que embora irão, as contas sem
pagar…
- Deste enxurro de sombras uma
cura
É conhecer direito a vida dura
Que o valor, ao correr, irá
julgar.
1460 – História
A história nega o que seria
certo,
Há tempos de ordem em que tudo é
vil,
De desordem os há de alturas mil,
Quantas vezes o longe anda tão
perto!
As decadências são ao que é viril
Muitas vezes um tempo bem
desperto
E as épocas de força, vago acerto
De fraquezas de espírito senil.
Tudo por fim se cruza e se
mistura,
Não há verdade mais que a de
supô-la.
Tanto nobre ideal no estrume
apura,
Tantas ânsias o enxurro além
rebola!
A história não oferta um tempo
justo
E aquilo que eu for sendo sou-o a
custo.
1461 - Pena
O amor, não, arredores, arredores
É que por fim a pena valerão.
Dele à cor ilumina a repressão
Mais que a clareza de viver-lhe
humores.
Há virgindades, sim, que
entenderão
Quanto a paixão em luz funde os
fulgores,
Agir compensa mas confunde
teores,
É possuir ser possuído e então
É perder-se, portanto, de
seguida.
A ideia atinge, sem ferir
deveras,
Da realidade os traços com
medida.
Ao agir a transmudo e ali me
perco:
Perco a realidade fementida
E de mim próprio nem sequer me
acerco.
1462 – Esquina
Dobro uma esquina além, da padaria
Sai um cheirinho a pão duma
fornada
Que minha infância acorda de
assentada,
Fadas da aldeia dançam a magia,
Um forno novo e a massa levedada
Levantam-se infantis e por um dia
Reinam duendes entre a pedraria
De antanho que morreu na vida
andada.
Cheira-me a frutas e do tabuleiro
Vem-me o quintal antigo com
abelhas
E o meu vizinho a chegar lá
primeiro…
E, de repente, ignoro as lendas
velhas,
Capaz de pontapear mesmo o
destino:
- Indiscutivelmente, eis-me
menino!
1463 – Sordidez
Da sordidez de sermos nos liberta
Uma obra de arte, embora nos
iluda:
Enquanto aqui mal doutrem nos
acuda
O nosso nem sentimos nem
desperta.
O amor, o sono, a droga, a porta
aberta
São para o mesmo que por arte
muda.
Só, cada qual desilusão nos
gruda:
Farta o amor, sono acorda, a
droga, certa,
O mesmo corpo arruina que
estimula.
Arte não desilude, que a ilusão,
Admitida de início, se acumula,
E sonhar quem o vai pôr em
questão?
Minhas não sendo, as artes
deliciam,
Rasto dos deuses quando
apareciam.
1464 – Tédio
O tédio é talvez, no fundo do
imo,
A falha de lhe não dar uma
crença,
Desolação de criança muda e tensa
Sem o brinquedo-deus, perdido ao
cimo.
De mão que o guie precisão,
presença,
Mas que não sente no rumar sem
mimo,
Caminho escuro onde só calca o
limo,
Noite de quem nem mesmo sequer
pensa…
De nem saber pensar trilha sem
nada,
Ao tédio um deus lhe falta por
seu guia:
Quem deus tem não tem tédio na
jornada.
Sem crenças, nem a dúvida bulia,
Ao pensar falta a escada
inexistente
De à verdade trepar solidamente.
1465 – Libertar
Fazer outrem sentir o que
sentimos,
De si os libertar, arte será,
A personalidade nossa lá
Lhes propondo, a librá-los para
os cimos.
O que sinto, no ser vero que está
No meu segredo, tal jamais o
abrimos,
É o incomunicável onde arrimos
Resguardo no sigilo que em mim
há.
Terei de traduzir meus
sentimentos
Na linguagem dele, de tal modo
Que o que sinto ele o sinta por
momentos.
Nele então devirei comum ao todo,
Embora empobrecendo a verdadeira
Natura do que sou na voz
primeira.
1466 – Mentir
Mentir, no fundo, é como
compreender,
Desde a infantil mentira de
sonhar
À da noção de a outrem conformar
Minha existência que o não pode
ser.
Mentira é linguagem tal qualquer
Palavra absurda que tenta em
lugar
Da emoção íntima algum som trocar
Que traduzi-la nunca irá poder.
Da ficção que é mentira nos
servimos
Para nos entendermos com os mais.
Com a verdade nunca o atingimos,
Minto as artes ao serem sociais:
O poema mente a fala, a regra
impondo,
E em lendas, no que minto, a vida
sondo.
1467 – Fingir
Fingir é amar, nem vejo nunca um
riso,
Um significativo olhar que não
Medite, de repente, na intenção
Por trás do rosto em frente que
diviso.
O estadista que compra a votação,
Barregã que o cliente atrai ao
piso,
Aquele de comprar-nos teve o
siso,
Esta, de ser comprada o intuito
chão.
Não fugimos, por mais que nós
queiramos,
A uma fraternidade universal,
Fingida embora em muitos de seus
tramos.
Deveras uns aos outros, afinal,
Verdade é, bem ou mal, que nos
amamos,
Mentir ainda é um beijo que
trocamos.
1468 – Mestres
Desconfio dos mestres que o não
podem
Ser com primária transparência
clara.
Estranhos incapazes, não depara
Neles ninguém com que é que nos
acodem.
Estranhos os aceito, mas gostara
Que provem, quando as flâmulas
sacodem,
Que à norma superiores no que
engodem
Serão, não o impotente que
mascara.
Que um matemático erre uma adição
É comum, mas não é por
ignorância:
Perdoo um erro, é a nossa
condição.
Que ignore o que é somar como
alguém soma,
Rejeito, por trás disto há
traficância,
Que um mestre de ocultismo não me
embroma.
1469 – Delícia
Tal como todo o grande apaixonado
A delícia da perda minha adoro,
Em que um gozo de entrega que
devoro
O sofro inteiramente em todo o
lado.
Escrevo então o que não hei
pensado,
Num devaneio, o termo onde demoro
A fazer festas ao petiz de coro,
A ser levado ao colo bem mimado.
São frases bem fortuitas, fluidez
De água esquecida, arroio de
abandono,
Maretas misturando à pequenez.
Ideias trémulas por mim perpassam
Num cortejo de sedas em que ao
sono
Indistintos há sóis que me
ultrapassam.
1470 – Algo
Se esta vida algo tem de
agradecer
Da vida para além de que gozamos,
Este dom é que a nós nos
ignoramos:
Nem uns aos outros nem a nós
sequer
Nos descobrimos no que em nós
houver.
Abismo escuro é o poço que
habitamos
Que na pele do mundo não pintamos
Nem em nós próprios nem noutrem
qualquer.
Ninguém se amara se se
descobrira,
Toda a vaidade logo se extinguira
E morreria de anemia de alma.
Outrem ninguém desvenda e ainda
bem,
Que se o desvenda logo vê também
Qual o íntimo demónio que o
empalma.
1471 – Casados
Mal casados são todos os casados,
Que cada qual consigo guardará
O diabo que nele mora já,
Príncipe ou anjo no imo mal
sonhados,
Rosto subtil em que o par nunca
está.
Ignoram os felizes deslumbrados
O que os atrai ou frustra em tais
pecados.
Menos feliz é quem viu acolá,
Mas não conhece, a marca da
ameaça.
Só num ou noutro arranco fruste,
acaso,
Aflora este aguilhão que o mal
trespassa,
Numa ou noutra aspereza a que der
azo:
Na palavra, porém, mais casual
Germina esconsa a férula
infernal.
1472 – Máscaras
De máscaras no baile que vivemos,
Basta o agrado do traje, em baile
é tudo.
Servos das luzes somos neste
entrudo:
Tal na verdade, assim na dança
iremos.
Nem para nós conhecimento temos
Do grande frio, em noite de
veludo,
Que lá fora enregela o parque
mudo,
Nem o corpo mortal por baixo
vemos
Dos trapos que afinal lhe
sobrevivem.
De tudo nada vemos quanto, a sós,
Acreditamos que é cerne de nós,
Onde as raízes fundas se me
arquivem.
Afinal é a paródia da verdade
Que minto como minha identidade.
1473 – Iguais
Tudo quanto pensamos ou sentimos,
Tudo quanto dissermos ou
fizermos,
Igual máscara traz em iguais
termos.
Por mais que ande a despir o que
vestimos
Nunca chegamos à nudez que
intuímos:
Não é de tirar fatos, de alma
enfermos.
De corpo e alma vestidos, traje
ao sermos
A nós pegado como musgo e limos,
Vivemos, infelizes ou felizes,
Ou nem mesmo sabendo que é
q ue somos,
O breve tempo dado nas matrizes
Só para distrair, comendo os
pomos,
Criança ao faz-de-conta em jogos
sérios
Pelo quintal, como quem brinca a
impérios.
1474 – Engano
É o que não somos tudo quanto
somos,
Vemos engano no que andava certo,
Razão não temos justando um
concerto…
Deste Universo o rol quem ler nos
tomos
Do saber e da crença, gera os
gnomos
Que inseminam adeptos longe e
perto.
Da nova crença cada qual coberto,
Véstia que nunca vê, tem logo
assomos
Dum inspirado, a máscara
esquecida.
Desconhecendo os outros como a
nós,
Revoluteamos gráceis contradanças
Ante a nudez dos astros
distraída.
Da ilusão presas, continuamos
sós,
Mas rimos confundidos de
esperanças.
1475 – Mal
Dum lado existe o mal, é
realidade,
Dum outro anda a razão desta
existência.
Sofística não é tal evidência,
Mas ajustada com subtil verdade.
A existência do mal, necessidade
De tal ordem se antolha à
consciência
Que a não pode negar, nem por
premência
De nos mentir servil duplicidade.
Da existência do mal uma maldade
É que pode por nós não ser
aceite,
Mas a raiz me obriga a que eu a
estreite.
O problema, então, continuidade
Mantém, tempo além, como um
papão,
Que eterna dura a nossa
imperfeição.
1476 – Relojoeiro
Relojoeiro imperfeito, os
pormenores
Do ajustamento ao governar o
mundo
Onde leremos lapsos, bem no
fundo,
Como lê-los do plano sem
vectores?
Em tudo vemos claro e, se
aprofundo,
Algo escapa ao traçado dos
valores,
Mas é de ponderar se tais
pendores
Não terão um igual pano de fundo.
Como um poeta ritmos finos pode
Dum arrítmico verso entremear
E ao fim um ritmo melhorado
acode,
Assim todo o Universo, ao se
ritmar,
Nele ao intercalar uma arritmia,
Sublinha majestoso a melodia.
1477 – Estranhíssima
Dentro me bate, súbita,
estonteante,
Das coisas a estranhíssima
presença.
Não tanto a natural, cuja
sentença
Determinista ou por instinto
adiante
Me afecta já, mas muito mais
gritante
São arruamentos, homens, toda a
densa
Mole de empregos, o letreiro, a
avença,
Comunidade além seguindo avante…
Este homem, inconsciente como um
cão,
Fala por inconsciência doutra
ordem
E se organiza ainda em igual
chão!
Impregna ao mundo a Mente a que
me grudo,
Seus dentes todo o Cosmos traçam,
mordem,
Deus, lá detrás, é mesmo alma de
tudo.
1478 – Vítima
Inevitável vítima da dor,
Qualquer humanal alma sofre até
Do que esperara e em que punha fé:
Sofre a surpresa dum mesquinho
amor
Como se pleno o houvera de supor;
Quem por oco e vazio o mundo vê
Um raio o atinge quando outrem o
lê
Como um nada entre tudo em
derredor.
Sinceros foram no que creram,
viram
Destes desastres previsíveis,
certos,
Mas que tem isto a ver com a
emoção?
As surpresas ao imo lhe serviram
A não ter dias de amargor
desertos:
Viver é ter na dor algum quinhão.
1479 – Cansamos
De tudo nos cansamos, todavia
De compreender, não, compreender…
Difícil de atingir é o que se
quer
Daquilo donde tudo principia.
De pensar nos cansamos porque a
via
Para no fim a conclusão deter
É a de que quanto mais pensar
quenquer,
Mais analisará tudo à fatia.
Ora, quanto mais ele analisar,
Mais irá distinguir, feita em
migalhas
A questão de que menos fica a
par.
Quão mais avança no tecer das
malhas,
Bem menos, afinal, lhe fica à mão
A pretendida e fruste conclusão.
1480 – Procura
Toda a vida é a procura do
impossível
Sempre através do inútil, eras
fora.
Busquemos o impossível, fado
agora,
Do inútil através: trilho visível
Não há por outro ponto. E que
demora!
À lucidez trepemos, porém, crível
De que nada buscamos de
exequível,
Que possamos obter, com dor
embora,
Bem como em nada passo que mereça
Um carinho nem mesmo uma saudade:
Tudo nos desilude e bem depressa.
Compreendamos, pois, e, com
verdade,
Enfeitemos grinaldas que
emurchecem
Enquanto nossas vidas não
fenecem.
1481 – Subordinar
Não se subordinar a nada, a nada,
Nem a um amor, nem a uma ideia,
ter
A independência longa de não crer
Nem na verdade (jamais é
lograda…),
Nem, se a captara, na vantagem
grada
De a dominar, tal é a postura a
haver
Na intimidade do que não viver
Sem reflectir. A queda que há na
estrada
É pertencer: mulher, ideal ou
credo,
Carreira laboral , são cela e
algemas.
Ser é continuar livre. Uma
ambição
É um fardo atando-me o cordel do
medo
E as conjunturas puxam-no, se
extremas:
- Eis, pois, como eu já me não
tenho à mão.
1482 – Feliz
Feliz quem não exige mais da vida
Do que espontaneamente ela lhe
dá,
Pelo instinto do gato se guiará
Que busca o sol onde ele nos
convida.
Feliz quem abdicou e desde já
Contempla o mundo, eventos de
seguida,
Impressões debicando de fugida
Como alheias matrizes de acolá.
Feliz, por fim, quem abdicar de
tudo
E a quem, porque de tudo já
abdicou,
Nada vai ser tirado, sobretudo.
O leitor nato, o asceta e o
campónio,
Eis os felizes que a simpleza
arou,
Tão livres que os nem toca algum
demónio.
1483 – Criança
Eu em criança já escrevia versos,
Eram bem maus os versos que
escrevia,
Porém perfeitos eu julgá-los-ia.
Não terei nunca mais os gestos
tersos
Que o prazer falso dêem da magia
De o perfeito criar nos
universos.
Bem melhor hoje escrevo os meus
diversos
Sonhos de despertar um novo dia,
Mas que infinitamente abaixo vão
Daquilo que eu pressinto que
podia
Escrever na integral maturidade!
Choro meus versos maus de
infante, são
Como um meu filho morto choraria
E a esperança final de mim se
evade.
1484 – Existir
Ah, de existir quem poderá
salvar-me?
Não é morte que quero nem é vida,
É o que das profundezas me
convida,
Na cova diamante a negacear-me
Quando não é viável a descida.
Mundo de apelo e de infiel
alarme,
Tão inviável quanto tem de
charme,
Céu que me chama mas não dá
guarida.
Que falta faz um deus que é
verdadeiro
No cadáver vazio do céu alto,
De alma fechada, onde não há
parceiro!
E mesmo havendo-o, o cárcere é
infinito:
Porque infinito, sem fronteira a
salto,
Como pode escapar-lhe o nosso
grito?
1485 – Buscado
Tudo quanto buscado tenho em
vida,
De buscar fui eu próprio que o
deixei.
Sou distraidamente o que busquei,
No sonho fica a busca já
esquecida.
Mais real que o buscado é a mão
erguida
Buscando, revolvendo o que é de
lei,
Deslocando, assentando, já nem sei…
No meio fica a meta lá perdida.
Tudo o que tenho é como o céu
distante,
De luz farrapos a iludir o nada,
Vida a fingir, que a morte doira
adiante,
Sorrir triste à verdade
consumada.
Aquele sou que não sabe buscar,
Rei dum deserto onde nem tem
lugar.
1486 – Diversas
Tenho as opiniões desencontradas,
As crenças tenho mais diversas
que há.
É que jamais actuo, cá ou lá,
Nem penso ou falo ideias
partilhadas,
Age por mim alguma fada má,
Pensa, conversa um sonho às
cavalgadas,
Um assaltante meu que espreita
estradas
Em que me encarno por momentos
já.
Vou a falar e fala um outro eu,
De meu apenas sinto um vácuo
imenso,
Uma incapacidade de sandeu
Perante quanto é vida a refulgir.
Nunca aprendi os gestos do que
penso,
Nunca aprendi deveras a existir.
1487 – Outono
Cada Outono que vem fica mais
perto
Do derradeiro Outono que teremos.
Primavera e Verão iguais extremos
Aproximam serenos, é bem certo,
Só que um Outono lembra, a
descoberto,
De tudo o acabamento que
esquecemos
Quando as folhas caídas mal as
vemos,
O triste húmido tempo anda em
aberto.
Resquício de tristeza antecipada,
Há uma mágoa vestida para a
viagem
No sentimento vagamente atento
À descoloração que vai na
estrada.
Uma acalmia velha na voragem
Alastra do Universo onde sou
vento.
1488 – Passaremos
Sim, passaremos todos, passa
tudo,
Nada fica do que usa sentimentos,
Do que enluvou a morte e
polimentos,
Nem do que o invejou, eterno
miúdo.
Luz igual ilumina o rosto mudo
Do santo e de quem vive
fingimentos,
Como igual falta dela, nos
momentos
Do nada eterno em que já nada
iludo.
No redemoinho em que enfim tudo
jaz
Jóias ou tangas, ceptros, tanto
faz,
Reis e crianças, tudo leva o
vento.
Tudo é nada, de pó sombra mexida:
Frente ao abismo aberto, a voz
gemida
De estrelas e almas varre o lixo
lento.
1489 – Aurora
Uma aurora no campo faz-me bem,
Aurora na cidade, bem e mal.
Portanto, mais que bem me faz,
real,
Que esperança maior me traz e
tem,
Como a toda a esperança lhe
convém,
Aquele travo a longe, a dar sinal
Duma saudade de algo que, afinal,
Mais realidade não vai ter além.
A madrugada na província existe,
Da cidade a manhã mais me
promete.
Aquela faz viver a quem lhe
assiste,
Esta leva a pensar quem a acomete.
E eu sempre hei-de sentir,
maldito ser,
Que mais vale pensar do que
viver.
1490 – Vulgaridade
Vulgaridade é lar, cotio materno.
Depois duma incursão aos cumes de
arte,
Da inspiração dos montes ido
aparte,
Nos penhascos oculto onde me
hiberno,
Sabe a tudo quanto é quente no
Inverno
Retornar à estalagem onde acarte
Risos felizes, dos alarves parte,
Beber com eles como parvo
interno,
Tal e qual tudo como Deus nos
fez,
Contente do Universo que me é
dado,
Do talhe e do matiz de minha tez…
Deixo aos demais o mais, aos que
hão trepado
Montanhas (para onde ora não
salto)
Para não fazer nada lá no alto.
1491 – Doem
Os sentimentos que mais doem são,
São, como as mais pungentes
emoções,
Os dos absurdos feitos ocasiões:
As ânsias de impossíveis que me
dão
Por impossíveis serem sempre em
vão,
Saudade do jamais e seus senões
Que podia ter sido nos saguões,
A mágoa de outrem não ser nunca,
não,
O insatisfeito subsistir do
mundo…
Os meios tons criam em nós dorida
Paisagem de poente que enfim
somos.
Sentir-me é um campo então, frio,
infecundo,
Onde um rio sem barcos molha a
vida
Entre as margens cortadas de meus
gomos.
1492 – Esperança
Sem esperança, a vida é um
impossível,
Com esperança devirá vazia.
Não desespero – espero, que hoje
em dia,
A vida é um quadro externo
inexprimível
Que a mim me inclui. Assisto à
fantasia
Como comédia sem enredo crível,
Divertimento dum olhar sensível,
Bailado desconexo onde mexia
A folha ao vento de íntima
paisagem,
Neblinas onde o sol muda de cor,
Arruamento antigo de viagem
No acaso desconforme dum alvor…
- Em grande parte sou quanto isto
escrevo
E antes da espera de mim sou
coevo.
1493 – Incógnito
Assisto incógnito ao gradual
vazio,
Ao desfalecimento em minha vida
De toda a meta que me foi
querida.
Não há nada em que eu ponha um
desafio,
De momento horizonte em que
confio,
Até do instante sonho de fugida,
Que se me não tenha desfeito,
erguida
Nuvem de pó dum vaso que o desvio
Tombou da altura e esmigalhou na
estrada.
Sempre o destino procurou
primeiro
Levar-me a amar ou procurar, de
entrada,
O que dispôs direito em meu
carreiro,
Para no tempo imediato eu ver
Que o não teria nem podia ter.
1494 – Dura
Por muito dura que te seja a
vida,
Tens a felicidade, homem vulgar,
Do privilégio bom de a não
pensar.
Viver a vida como é decorrida,
Exteriormente, como um cão a
envida,
Assim homens gerais vão operar,
E assim a deveremos enfrentar
Para a alegria agir nela contida.
Pensar é destruir a paz do berço,
Já que pensar é sempre decompor.
Se em mistérios da vida fora
terso,
As almas espiando em pormenor,
Matar-se-ia o homem assustado
Para não vir a ser guilhotinado.
1495 – Pó
Um grão de pó é cada um de nós
Que levantou da vida o vento e
logo
Após cair deixou. Por desafogo,
Teremos de arrimar-nos, já que
sós,
A um esteio qualquer e, enquanto
vogo,
De atar a mão pequena doutra aos
nós,
Que a hora é incerta, nem há
pais, avós,
Que o céu é sempre longe, ignoto
fogo,
E a vida é sempre alheia, por meu
mal.
O mais alto de nós é o sabedor
Mais próximo dum oco que é geral:
De tudo incerto, finda no
estupor.
Pode ser que nos guie uma ilusão,
Da consciência é que não é o
guião.
1496 – Actividade
Em nossa actividade superior
Tudo na morte participa: é morte.
Um ideal o que é? Jogar à sorte,
Já que da vida nos não serve o
teor.
Como arte o que é, senão um
negador
Da vida, recusada por consorte?
A estátua é um corpo morto, fixo
o corte
Para a morte fixar tempo maior.
Mesmo o prazer, uma imersão na
vida,
Imersão antes em nós próprios
traz,
Laços à vida por fim faz que
elida,
Da sombra uma morte é do que é
capaz.
Um dia a mais na vida, na
sequela,
Não é mais do que um dia a menos
nela.
1497 – Teorias
Teorias de iludir o inexplicável,
Morais de convencer onde há
virtude,
Política o problema que se ilude
Persuadindo de que é
solucionável,
A vida resumamos na atitude
Conscientemente estéril,
tolerável,
Que, se não dá prazer, torna
evitável
A dor sentirmos presa como grude.
A civilização seu auge atinge
Quando estéril descobrem os que a
vivem
Todo o esforço, que o fado nunca
finge:
Todos nós somos servos algemados
A leis universais que nos
arquivem,
Homens e deuses são subordinados.
1498 – Desprovido
Desprovido de apoios encontrei
O mundo nesta idade a que
pertenço,
Nem para o afecto nem sequer bom
senso.
Trabalho destrutivo foi a lei
De anteriores gerações que andei
Da incerta religião lendo no
censo,
Na moral sem esteios de consenso,
Na política a agir sem ver a
grei.
Em angústia moral plena nascemos,
Em metafísico vazio já,
Politiqueiros no exorcismo aos
demos.
Ébrias de fórmulas externas lá,
As gerações que a nós nos
precederam
Aluíram tudo quanto nos cederam.
1499 – Argumentos
De meros argumentos de razão,
De objectos perceptíveis
fascinados,
Na crença os fundamentos
abalados,
Os ancestrais vão revolver o
chão.
Crítica bíblica só mitos são
De lendas e poemas rendilhados,
Os evangelhos são amontoados
Incertos de crendices, tudo vão.
Sem crença nem moral,
esquadrinharam
As regras de viver como as
doutrinas
E incertos findam de certeza
alguma.
Acordaram as novas que abalaram.
Na indisciplina que hoje marca as
sinas,
Não vê o mundo, afinal, a que é
que ruma.
1500 – Criticismo
O criticismo fruste em nossos
pais,
Se legou que é impossível ser
cristão,
Contentamento não legou à mão
Com que vivêramos de tais sinais.
Se a descrença nas fórmulas
morais
Nos legou, não legou a contenção
De indiferente às regras viver
chão,
Que humanamente o não poderei
mais.
Se a política meta resta incerta,
Certo é que indiferente não nos
fica.
Nossos pais destruíram com
experta
Alegria o cimento que edifica.
Destruíram sem ver tudo a
rachar-se:
- Herdámos a ruína dum disfarce.
1501 – Mórbidos
Na vida de hoje o mundo só
pertence
Aos estúpidos, frios, agitados.
O direito a viver, nos termos
dados,
Ou triunfar, não são já de quem
vence,
Conquista-se, ao invés, tudo
convence,
Pelos caminhos mórbidos,
transviados,
Em que serão por norma
conquistados
Portões num manicómio que os
adense:
Uma incapacidade de pensar,
Da loucura primeiro limiar;
Uma amoralidade convencida,
De quem é inimputável a medida;
Hiperexcitação dum activismo
Que alegres nos afunda em pleno
abismo.
1502 – Escriturário
Tudo em mim poderei me imaginar,
Uma vez que não sou, que não sou
nada.
Se alguma coisa fora, de
assentada,
Outrem já me não lia em meu
lugar.
Qualquer escriturário, na
esplanada,
Imperador se ocorre vislumbrar,
Coisa que um rei, no gesto
devagar,
Nunca arriscar podia em tal
jogada.
Pois que outro rei que não o rei
que for
Pode ele sonhar ser além de si?
O cume é solitário no fulgor
E a neve cega, à luz do frenesi.
A realidade do que ali chegou
Não o deixa sentir mais nenhum
voo.
1503 – Monotonizando
É monotonizando uma existência
Que um incidente torno em
maravilha.
O caçador dos leões perde a
trilha
Se igual repete sempre igual
vivência.
O cozinheiro, o novo que
armadilha,
Modesto apocalipse na aparência,
São, por exemplo, uns murros que
a decência
Levou alguém a dar nalgum
pandilha.
Quem de Lisboa sai corre o
infinito,
Se vira em Sintra vai voar a
Marte,
- Se antes se recolheu a um canto
estrito.
Quem a Terra correu, se outra vez
parte,
Diante não encontra novidade,
Que é sempre o mesmo novo o que o
invade.
1504 – Sábio
Pode um homem, se sábio for
deveras,
O teatro gozar do mundo inteiro
Sentado, sem falar, muito
caseiro,
De alma alegre enfrentando embora
feras.
Rotinizar a vida, que primeiro
De rotina, à partida, não há
esferas:
Anódino o cotio, as esperas
Vão atender ao toque mais
leveiro.
Em meio ao meu trabalho
quotidiano,
Embaciado, inútil, sempre igual,
Visões de bergantins a todo o
pano
Brotam de ilhas num sonho boreal…
- Se este pedaço retiver de céu,
Foi que nada seria dantes meu.
1505 – Contento-me
Contento-me, afinal, com muito
pouco:
Com ter findado a chuva e haver
um sol
Bom neste sul feliz e haver um
rol
De amarelas bananas onde apouco
As pintas pretas a que fico
mouco,
A vendedeira a retirar a mole
Com que me acalma o medo que em
mim bole,
Os passeios da Rua Pedro, o
Louco,
Um qualquer Tejo a me servir de
fundo,
Azul esverdeado em bagas de oiro…
- Breve recanto que de riso
inundo,
Canto doméstico de infante loiro,
Lar da ternura onde a agradar
converso
Em meio à infinidade do Universo.
1506 – Lúcido
Releio lúcido o que tenho
escrito,
Bem demoradamente, trecho a
trecho,
E acho que tudo é nulo no que
mexo,
Mais me valera nunca o ter por
fito.
Reino ou frase, o atingido sempre
o fecho
Na pior parte dum real quesito:
O de saber que é um perecível
mito,
Seja o que for que ali valer o
entrecho.
O que sinto e me dói em quanto
fiz
É que fazê-lo não valeu a pena.
No tempo que perdi, que foi
feliz,
Ganhei apenas a ilusão pequena,
Ora desfeita, de algo ter valido:
Feito ou não, tudo ao fim é igual
rasquido.
1507 – Dói
O que me dói é que o melhor é mau
E que outrem o faria bem melhor.
Em arte ou vida o que farei é pôr
Cópia imperfeita dum rio sem vau:
Desdiz não só da perfeição do pau
Com que tentei o enxurro em vão
transpor,
Mas mais deste imo que julguei
supor
Que moldaria o tosco varapau.
Por dentro somos ocos e por fora,
Párias de antecipar e de
promessa.
Com vigor de alma fiz da lauda a
escora,
Crendo em magia do que nunca
esqueça,
Supondo que escrevia o que
escrevia,
E, afinal, serradura era o que
havia!
1508 – Escapar
O meu desejo é de escapar, fugir,
Fugir ao que conheço, é meu e que
amo,
Não para as índias da pantera ou
gamo,
Não para um sul qualquer deste
existir,
Mas para um vão recanto onde me
acamo,
Que tenha em si não ser este meu
ir.
Mais estes rostos não quero a
sorrir,
Estes hábitos, dias que me tramo.
Repousar quero, alheio à
mascarada,
Quero o sono a chegar-me como
vida
E não como repouso da jornada.
Cabana à beira-mar, gruta
escondida,
Falésia de montanha hão-de-mo
dar…
- Em mim apenas não tenho lugar.
1509 – Escravatura
A escravatura é a maior lei da
vida,
Porque tem de cumprir-se e não há
fuga,
Refúgio nem revolta. E quem
madruga,
Nasce escravo ou devém-no ou lhe
é infligida
A escravidão. A liberdade
haurida,
No passo fruste que ela nos
estuga,
O peso prova em nós do que nos
suga,
No amor cobarde em busca por
medida.
Eu mesmo que a cabana quereria
Irei partir sabendo que a rotina
Morando em mim, em mim sempre a
veria?
Eu mesmo que ao sufoco tudo
inclina
Onde por fim é que melhor respiro
Se o mal é dos pulmões, não do
que aspiro?
1510 – Obediente
Crente ou descrente, obediente
sou,
Caseiro e servo em minhas
percepções,
Das horas de as reter preso aos
grilhões:
Fatalmente serei, por onde vou,
Sob o pálio do céu que me
arrastou,
Escravo de enquadrá-las aos
milhões,
Incompreendido e mudo, em solidões
Vestindo a vida, que o tambor
soou
Para cumpri-la. E cumpro, sem
porquê,
Gestos e passos, marcações,
maneiras…
Até que a festa acabe o rapapé,
Se desmontem as tendas destas
feiras,
Para eu ir comer pitéus de gala
Nas tendas que há-de haver fora
da sala.
1511 – Figurantes
Nós outros, a viver como animais
Com maior ou menor complexidade,
O palco atravessamos da verdade,
Tais figurantes que não falam
mais,
Contentes da imbecil solenidade
Do itinerário de não-ir jamais.
Homens e cães, pulgas e génios,
tais
Quais são, a serem brincam na
cidade,
Sem pensar, sob a calma das
estrelas.
Os místicos da morte e sacrifício
Sentem, ao menos, cruas as
querelas
Mágicas do mistério: o exercício
Liberta-os ao tapar o sol
visível,
Plenos são, de vazios do
sensível.
1512 - Iguais
Homens e bestas muito iguais
convivem:
Inconscientemente são lançados
Entre as coisas e o mundo a tal
fadados;
Divertem-se, a intervalos, do que
vivem;
Orgânico igual curso ambos
revivem;
Além não pensam de conceitos
dados,
Só vivem ao que vivem destinados…
O gato ao sol mil réstias quer
que o crivem,
Na vida é um homem que se espoja
e dorme:
Nem um nem outro se livrou da lei
De fatalmente ser à lei conforme.
Os maiores a glória de imortais
Buscam, no frenesim de quem é
rei,
E da glória não são parte jamais.
1513 – Rua
Embora em redor rua o que
fingimos
Que somos e jamais somos deveras,
Porque coexistimos pelas eras,
Impávidos ficar logo assumimos,
Não porque justos somos ou
sentimos,
Mas porque somos nós, férteis
quimeras.
E sermos nós é nada com esferas
Externas ter a ver, mesmo se as
vimos
Fluir, ainda que fluam sobre
quanto
Para elas seremos. Deve a vida
Para os melhores ser, não gasto
pranto,
Antes um sonho breve que convida,
Que, portanto, recusa aos que
estão prontos,
Recusa, por alheios, os
confrontos.
1514 – Desagradável
O que desagradável vem na vida,
Ridículas figuras que actuemos,
Palavras infelizes que lavremos,
Lapsos duma virtude decaída,
- São meros acidentes (mesmo
extremos)
De fora, embora nossos de fugida,
Inaptos a causarem-nos ferida.
A dor de dentes tal como a
vivemos,
Calos da vida, nódoas que
incomodam,
Nossos embora, têm de supor
Um corpo apenas onde se acomodam.
Se esta atitude acaso a minha
for,
Do mundo externo ponho-me ao
abrigo
E de mim próprio, meu outro
inimigo.
1515 – Revolução
A revolução gritam todo o dia,
O desconforto me enche de desdém:
Dói-me na inteligência que haja
alguém
Que creia alterar algo em
gritaria.
A violência é sempre uma mania
Que a estupidez esbugalhada tem.
O revolucionário e também
O reformador, nada os alumia,
Igual é o erro: impacientes vão
O mundo externo e os outros
transmudar,
Quando só neles é que eram
urgentes
Mudas no ser, nos actos, na
ilusão…
De si se evadem, logo então mudar
É não mudar-se e acabam
impotentes.
1516 – Imaginário
De meu imaginário a ficção,
Se for cansar, não dói nem nunca
humilha:
Numa amante impossível jamais
brilha
O dolo do carinho, a falsidão,
A astúcia das carícias que me
pilha.
Não me abandona a minha criação
Nem deixa de servir-me a
refeição:
Quão mais livre, mais justa lhe
ato a cilha.
Cataclismos do cosmos angustiam
Se nos atingem, erram sol e
estrelas
E eu nem vejo tais mundos sobre
nós.
De sonhos que supremos já se
viam,
Hoje, porém, se fosso em
escudelas,
Como vangloriar-me, murcha a voz?
1517 – Dentro
Criar dentro de mim uma política
Com Estado, partido, evoluções
E ser eu isso tudo, as criações,
Um panteísta deus, na real mítica
Nação-eu, cerne do acto de
milhões,
Ser corpos e almas, toda a ideia
crítica,
Ser a terra que pisam apodíctica,
Ser tudo e não o ser, noutros
torrões,
- Mais um sonho que não logro
incarnar!
Se o incarnar, irei morrer
decerto
Do sacrilégio de ir de Deus tão
perto
Que o divinal poder vou usurpar,
O de meus pesadelos sobretudo,
- O infinito poder de sermos
tudo!
1518 – Encontrei-me
Encontrei-me no mundo certo dia
E até lá, se vivi, não o senti.
Se, ao não saber, o passo me
tolhi,
Todos pasmaram porque eu não
seguia
Para onde, afinal, ninguém sabia,
Na encruzilhada, eu, desperto
ali,
Que nem donde viera percebi…
Vi-me em cena e o papel não
entendia
Que os outros declamavam de
imediato
Sem por igual também o
compreenderem.
De pagem me vestiram belo fato
Sem rainha a quem vénias se
deverem.
Denuncio a mensagem que era em
branco…
- E todos rindo até tombar do
banco!
1519 – Exterioridade
Do nascimento à morte um homem
vive
De exterioridade o mesmo servo,
Tal como os animais, todo ele
nervo,
De si às trelas de que não se
prive.
Vegeta toda a vida, não revive
(Comigo acalmo quanto enfim me
enervo),
Normas o guiam, tal na mata ao
cervo,
Que nem vê que andarão em quanto
esquive.
Que por elas se guia nem o sabe,
Ideias, sentimentos, actos são
Tudo nele inconsciente até que
acabe.
De consciência não por falta,
não,
Mas porque nele não há nunca
duas:
- Vislumbre de ilusão, eis minhas
ruas.
1520 – Conhecer-me
Conhecer-me a mim próprio será
errar,
É o enigma mais negro do
Universo.
Desconhecer-se é o fito bem
diverso
Se conscientemente o busco a par.
Se conscienciosamente o procurar
Com ironia activa desconverso.
Não há nada maior, a quem é
terso,
Mais próprio de quem for grande,
sem par,
Que a análise paciente e
expressiva
Dos modos de nos nós
desconhecermos,
Da inconsciência a consciência
viva,
Sombras autónomas prender nos
termos:
Fumo só poderei reter à mão,
Poesia do sol-pôr duma ilusão.
1521 – Lonjura
Do imo a Deus a lonjura é a
natureza.
Tudo o que um homem diz, exprime
ou faz,
Nota à margem dum texto ineficaz
É, que apagado foi tudo o que
reza.
Do sentido da nota, com destreza,
Mais ou menos tiramos o capaz
Sentido que andaria lá por trás
Do que, sina apagada, assim nos
lesa.
Mas fica eterna a dúvida,
entretanto:
Será que o pressuposto, a
implicação,
As posso retirar deste recanto?
E depois vem uma final lição:
Conforme de focagem o vector,
Os sentidos possíveis são um ror.
1522 – Contrastar
Um homem contrastar com animais
(Por um lado animal é racional,
Por outro, doentio é animal,
Mais além, peças usa
instrumentais…),
Tudo serão verdades parciais.
Toda a definição é lateral,
Sempre imperfeita, que não dá
sinal
De que seguras não há raias mais:
Incônscia a vida humana é
talqualmente
A do animal, submissa a leis
profundas
Que fora o instinto regem
fatalmente,
Como a razão, nas várzeas mais
fecundas.
Somos apenas um instinto em
gérmen,
Tão pobre que ainda apenas mero é
sémen.
1523 – Esticar
Afinal, estes homens obtiveram
Tudo aquilo que a mão pode
atingir
Só de esticar o braço, sem bulir.
O braço lhes varia, no resto eram
Iguais: que inveja despertar
puderam?
Sempre julguei virtude prosseguir
O inalcançável, mesmo sem porvir,
Viver onde não sou, quando se
esperam
Vidas mais vidas ao morrer que
quando
Vivo se foi e conseguir, enfim,
Sempre algo de difícil, malucando
No absurdo de vencermos, no
confim:
- Ir nos obstáculos vergar,
jucundos,
A própria realidade ao fim dos
mundos.
1524 – Esforço
Todo o esforço, qualquer que seja
o fim
Para que tenda, sofre, ao
incarnar-se,
Os desvios que a vida impõe,
disfarce
Que o torna noutro esforço: nele
vim
A servir outros fins, consuma
enfim
Às vezes o contrário que
alcançar-se
Pretendera, no gesto que me
esgarce
A roupagem que visto em meu
confim.
Um fim pequeno apenas vale a
pena,
Que inteiro então se pode
efectivar:
Se uma fortuna acaso é o que me
acena,
Posso-a atingir, que é pouco, e recontar.
Mas o mundo servir ou a cultura,
Meu imo melhorar, que é que mo
apura?
1525 – Pena
Pena tenho de quem sonha o
provável,
O legítimo, o próximo, bem mais
Do que dos que do estranho são
rivais,
Devaneando longínquos no
inviável.
Os que sonham à grande, por
demais
São doidos, acreditam no inefável
E, feliz, são o fantasista
adiável,
Mil devaneios embalando ideais.
Quem sonha o viável corre o risco
a sério
De sofrer de fatal desilusão:
Não me pesa ser dono dum império,
Mas não dar o recado a um
artesão.
O impossível já nisto priva dele,
O viável prende ao mundo a minha
pele.
1526 – Corrido
Há muito tempo, há muito, não
escrevo,
Têm corrido meses sem que viva,
Íntimo estagno da ilusão cativa,
Sem pensar nem sentir, em que me
cevo?
Uma fermentação rumina esquiva
Nas folhas que apodrecem de meu
trevo:
Escrevo, existo, sonho que não
devo,
Quatro folhas da sorte e não me
activa.
As ruas serão ruas para mim,
Respondo no trabalho consciente,
Mas distraído a adormecer-me,
assim,
Por detrás do labor, como um
vidente.
Há muito não existo: estou,
estou…
- E ninguém me distingue de quem
sou.
1527 – Estrada
Qualquer estrada, mesmo a de
nenhures,
Te leva, firme, até ao fim do
mundo.
Se for seguida toda, longe e
fundo,
À partida retorna que inaugures.
De modo que do mundo o fim que
augures
É aquela mesma terra onde me
fundo.
O mais alto que trepo, o mais que
afundo,
Nunca saio de meu sentir algures.
De nós mesmos jamais desembarcamos,
Jamais a outrem nós, enfim,
chegamos
Senão outrando-nos da imagem
nossa.
Veras paisagens, só por nós
criadas,
Que, deuses delas, são tal qual
geradas:
Sete partidas minha oitava
engrossa.
1528 – Cruzou
Quem todo o mar cruzou, cruzou
somente
Dele mesmo o monótono roteiro.
De mais mares que os mais todo eu
me inteiro,
De mais serras que a Terra me
apresente,
Cidades já vi mais que o
existente,
Dos rios de nenhures eu me abeiro
Fluindo sob o meu olhar leveiro…
Se viajara encontrava a cópia
ausente
Do que sem viajar vira,
contemplando.
Visitam outros, peregrinos vagos,
Países que visito, rei do mando.
Já lá fui porque fui de uvas os
bagos,
Assim feitos em deus, na
libertária
Minha só criatura imaginária.
1529 – Produtos
Pestes, tormentas, guerras, são
da cega
Mesma força produtos operando
De inconscientes micróbios ao
comando,
De raios, de água incônscia sob a
rega,
Ou de homens inconscientes sob o
mando.
Terramoto ou massacre, é que um
adrega
Pegar a faca, o punhal outro
pega.
O monstro indiferente usará,
quando
Se serve, o pedregulho das
alturas,
Como a pedra do ciúme ou da
cobiça:
O pedregulho cai, mata ternuras,
Cobiça ou ciúme o braço armado
atiça
E mata mundo além. Tudo é um
monturo
De instintos onde brilha o sol
mais puro.
1530 – Cósmico
Quão mais contemplo o cósmico
espectáculo,
Fluxo e refluxo do mundo dos
dados,
Mais os prestígios falsos,
enganados,
Me parecem às pompas um
obstáculo,
Ficção de rejeitar de meu
cenáculo.
Marcha multicolor de usos e
fados,
Rumar de multidões, urbes e
prados,
Impérios ou igrejas sob um
báculo,
Tudo é mito e ficção, um pesadelo
De sombras remexendo
esquecimento.
A apreensão final deste novelo
Enredado de mortos, cinza ao
vento,
É a vacuidade que há dum "já
sei tudo!"
Na indiferença em paz dum olhar
mudo.
1531 – Ditosos
Ditosos os autores pessimistas!
Amparam-se de terem algo feito,
Se alegram do entendido e à dor,
com jeito,
Mundial se integram. Não consto
das listas,
Não me queixo do mundo, não o
enjeito
Em nome do Universo, vãs
conquistas
Sofro, sem descobrir se o mal que
enquistas
É da dor ou se humano é haver tal
preito.
Aliás, que importa a mim se é
certo ou não?
Sofro, gamo ferido, sei lá bem
Se merecidamente, na caçada
Em que o tiro o dispara qualquer
mão.
Eu não sou pessimista, não,
porém,
Sou triste de tão preso na
jogada.
1532 – Dispo
Quando dispo de mim esta pelagem,
Ocorre-me talvez não estar nu
Da nudez que suponho que eu e tu
Sofremos ao presente na roupagem.
Talvez ainda haja vestes de
viagem
Impalpáveis cobrindo este tabu
Da eterna ausência de alma no
acaju
Que nas malas transporto de
mensagem.
A eterna ausência de alma
verdadeira!
Pensar, sentir, querer,
estagnações
Podem ser duma mais funda
maneira,
Doutro íntimo pensar: são
volições
Em que eu ando perdido em
labirinto
Do que deveras sou, deveras
sinto.
1533 – Amamos
Nunca amamos ninguém, mas uma
ideia
Que fazemos de alguém, nosso
conceito:
A nós mesmos, a nós, prestamos
preito,
A nós, pois, nos amamos, paixão
meia.
No amor sexual buscamos o
perfeito
Prazer que é nosso à mediação
alheia.
Noutro pendor a ideia é que
medeia
O mesmo prazer nosso, sem mais
jeito.
O onanista é completo nesta
lógica
De amor que não disfarça nem se
engana,
Fecha o cerco, sem meta
escatológica.
Ao conhecermos, nós
desconhecemos,
Dizemos "amo-te" e ao
fim quem se dana
Somos nós que afinal nunca nos
vemos.
1534 – Romântico
De amor romântico ama quem amar,
Que é veste ou traje, em fantasia
orlado,
Por nosso imaginário fabricado
Para as aparições dele adornar,
Revestindo-as do encanto que
almejar.
Como eterno não é, o traje é
fadado
A durar tanto quanto houver
durado.
Sob a veste do ideal que se
formar,
Eis o corpo em rasgões
esfacelado,
Onde ajustámos roupas de
encantar.
O amor romântico, após ter
andado,
É uma desilusão a caminhar.
Só se constante tece renovado
Véu de magia quem constante amar.
1535 – Estonteado
Quando estonteado ergo a cabeça
breve
Dos livros onde cato o sonho
alheio,
Sinto náusea da vida que não veio
E a vida me desgosta que me teve,
Como um remédio de veneno cheio.
Sinto com visão clara como é leve
E fácil afastar-me, como deve
Agir quem quer pular fora do
veio:
Vivemos pelo agir, pela vontade.
Quem não sabe querer, mendigo ou
génio,
Na impotência se aplana que o
degrade.
Afirmar-me que importa do milénio
Espírito, alma, guia que o
inspira
Se for mero ajudante de mentira?
1536 – Encontra
Daqueles sou que a mulher conta
que ama
E, quando o encontra, nunca
reconhece.
Ou, quando o reconhece, logo
esquece
Que o não reconheceu na vera
trama.
Delicadeza dum sentir refece
Sofro atento, a desdenhar-lhe a
rama.
Romântica textura em mim se
acama,
Protagonismo, não, não me
acontece.
Uma ideia não tenho, não, de mim,
Nem a de me faltar qualquer
ideia.
Nómada sou da consciência, assim,
Tresmalham-se os rebanhos na
alcateia
De lobos de meu imo e o que é
mais trágico
É trágico eu não ser por trás do
mágico.
1537 – Agregando
Nenhuma ideia entra a circular
Senão nela agregando a estupidez.
O colectivo é estúpido, uma vez
Que um pensamento nele ao se
filtrar,
Paga imposto de logo abandonar
Da inteligência o mais da
sensatez.
Na mocidade somos dois à vez:
Coexiste a inteligência que
alcançar
Da inexperiência mais a parvoíce,
São duas consciências, alta e
baixa.
Só noutra idade se unem que se
visse,
Daí a fruste acção que aquela
enfaixa.
Quem for superiormente
inteligente
Da pretensão abdica, é um quase
ausente.
1538 – Sempre
É sempre no presente que aqui
vivo:
Futuro não conheço e o meu
passado
Já o não tenho, varrido para o
lado.
As possibilidades dum, esquivo,
Pesam-me como no outro o nada
ousado.
Nem esperança nem saudade
arquivo,
Minha vida é o contrário decisivo
Do que alguma vez nela hei
desejado.
Sabendo o que ela foi até o
momento,
Para amanhã que presumir, senão
Que não vai ser o que presumo e
tento?
Nunca fui mais que um simulacro
em mim,
O meu passado é meu rotundo não,
Viro a lauda e do texto anoto o
fim.
1539 – Outro
Viver é ser meu outro, nem sentir
É viável se hoje o que ontem
senti sente:
Sentir não era mas lembrar o
ausente
Cadáver vivo de ontem a bulir.
Do quadro apagar tudo no porvir,
Ser novo ao novo alvor, mal o
pressente,
Uma revirgindade permanente,
Eis o que importa ter e
prosseguir.
Do mundo o primordial é a
madrugada:
Nunca este rosa amarelando veio
A encosta pincelar de olhos
vidrada,
Jamais houve a actual hora, nem
tal luz,
Nem o vadio ser meu pelo meio
E amanhã noutro eu tudo reluz.
1540 – Sonhar
Eu nunca fiz senão sonhar, tem
sido
Este o sentido em minha vida
inteira.
Nem preocupação mais verdadeira
Que a vida interior eu terei
tido.
A maior dor da vida se há
esbatido,
Aberta a fresta para a minha
feira
Dentro em mim a mover-se à luz
fagueira,
Um mundo ao lado do falaz vivido.
Não pretendi mais ser que um
sonhador,
Tenaz pertenço ao que não sou nem
pude,
A poesia no não meu vou pôr,
Maravilha-me aquilo a que ela
alude.
Nunca amei, pois, senão coisa
nenhuma,
Eterno ansiei pelo meu ser de
bruma.
1541 – Supera
O sonhador supera alguém activo,
Não que o sonho supere a
realidade,
Mas é mais prático e melhor
persuade,
Nele um prazer mais variado,
vivo.
Homem de acção é o sonhador,
furtivo,
Que a vida é mais mental, e a
validade
Dela será bem mais mentalidade,
Que a valoro conforme for meu
crivo.
O sonhador é um emissor de notas
Que na cidade do íntimo circulam
Como as do mundo real, com iguais
cotas.
Que importa se não forem
convertíveis,
Se as mais deveras também não
calculam
E os romances reais são os
legíveis?
1542 – Reconhecer
Reconhecer o real como ilusão
E a ilusão como forma do real
É tão inútil como, ao fim, fatal.
Para mesmo existir contemplação,
O real é premissa à conclusão
Inatingível e o que o sonho vale
Será das contingências com que
abale
Tudo quanto for digno de atenção.
Tudo é caminho ou antes um
estorvo,
Conforme de o focar a
perspectiva,
E assim o multiplico enquanto o
sorvo.
Então, ao contemplar, fujo da
aldeia,
É o mundo inteiro a mim que me
cativa:
Deserto ou cela é do Infinito a
cheia.
1543 – Meditar
Ao meditar ocorrem uns momentos
Em que, embora sem ver, tudo é já
visto,
Tudo é já velho e gasto e, se
persisto,
Do que mudar não mudo os
elementos:
De meditar serão meros eventos.
Mil ânsias de viver explodem,
quisto
Dos sentidos gritando que eu
existo,
Penso de modo táctil, tegumentos
Na esponja-objecto, a embebê-la
de água.
Temos então a mossa que arrepia,
Fadiga de emoções de meditar,
Noite do avesso, o apreço a virar
mágoa.
Todo o infinito em mim o sinto um
dia
Forro negro apertado em
mal-trajar.
1544 – Deus
Onde está Deus, embora não
exista?
Quero rezar, chorar e
arrepender-me
Do que não cometi, gozar ser
verme
Perdoado em carícia de conquista.
Regaço de chorar, perder de vista
A noite de Verão onde aquecer-me,
Junto à lareira, abandonada
inerme,
Ternuras explorar onde me
invista…
Uma ama velha à cabeceira antiga,
Berço pequeno para dormir contos,
Atenção morna que embalada briga…
E tudo à grande, estrelas em mil
pontos
Da robustez descomunal de Deus,
Naquela verdade última dos céus.
1545 – Arrumo
Quando arrumo num canto os
artifícios,
Meus brinquedos de imagens e de
frases,
Tão pequeno me encontro entre os
vorazes
Casarões, já de mim sem mais
resquícios,
Que triste sinto apenas
malefícios.
Quem sou quando não brinco? Órfão
sem bases,
Da fera de sentir preso às
tenazes,
Tirito ante o real sem mais
auspícios.
De meu pai sei o nome, que era
Deus,
Mas o nome não dá de ideia nada,
Chamo por ele e dou-lhe traços
meus…
Quando acaba tudo isto, esta
jornada?
- Se um dia Deus me viera enfim
buscar,
Me dera amor e se deixara amar…
1546 – Descobrir
Talvez a descobrir venham um dia
Que tudo dimensões do mesmo
espaço
Constitui, que num único, igual
laço,
Nem corpo nem espírito, uniria.
Num plano, vivo corpo em cada
traço,
Noutro qualquer, sou alma de
magia
E noutro ainda acaso mais vivia,
Tanto é o real em nós que o nem
abraço!
O que chamamos Deus é doutro
plano,
Não da lógica espácio-temporal,
Modo outro de existirmos, em si
lhano,
Dimensão outra a sermos do real.
O sonho nela cruza dimensões:
- Divino é um rasto em nossos
corações.
1547 – Montanhas
No alto ermo das montanhas
naturais
Temos, ao lá treparmos,
privilégios.
Somos mais altos, pois, nos
sortilégios
De toda esta estatura, do que os
mais
Altos montes, nos píncaros seus
régios.
O cume, em tal lugar, é o que
pisais
Sob os pés firmes. Somos
principais
Ante o mundo visível, mesmo
egrégios
Planaltos em redor findam mais
baixo.
A vida é aquela encosta que ali
desce,
Planície que além dorme no
riacho.
Esta altura que temos não a
temos:
Altura minha, de alto a ver, não
cresce,
É o que calco que faz que nos
alcemos.
1548 – Malícia
Em nós tudo é malícia e acidente,
Não sou mais alto, no alto, em
minha altura:
Melhor respira o rico, se
afigura,
O célebre mais livre então se
sente,
Um título de nobre é um trono
assente…
E um artifício tudo é que
inaugura:
Se trepei, alto é o alto que se
apura,
No monte nasce alguém, é um
acidente,
Ao topo nos guindaram e nem
vimos…
Grande é o que reparar, do vale
ao céu,
Que não é o longe, conta é o que
atingimos:
Em dilúvio, no monte é o lugar
meu;
Nos raios e no vento, aos vales
imos…
- Sábio possíveis é mais ter de
seu.
1549 – Paisagem
Uma paisagem é um estado de alma,
Mas, desde que a paisagem é
paisagem,
Não é um estado de alma nem
miragem.
Ao concretizar, crio, arte de
Talma
Em palco já deixou de ter a palma
Do sonho, do projecto, da viagem…
Vejo, mesmo que sonhe com
coragem:
Sonho e real, não é o mesmo que
me acalma.
Independentemente de mim cresce
Erva, choverá nela e o sol a
doira
E a serrania antiga além
floresce,
Ao vento que a penteia, infanta
moira…
Em mim, porém, é que desenho a imagem,
- Qualquer estado de alma é uma
paisagem.
1550 – Ternura
De repente, a ternura por este
homem,
Pela vulgaridade humana igual,
Pelo quotidiano lar banal,
Humilde, alegre e bom dos que lá
comem…
O inocente viver, quase animal,
Destas costas vestidas, sem que
as tomem
Análises, questões que nos
consomem,
A caminhar ali, mui natural…
Afecto igual perante alguém que
dorme,
Tudo o que dorme infantil é de
novo,
Dormindo, o criminoso lhe é
conforme.
Inconscientes imos e vivemos,
Ninguém sabe o que sabe e o que
reprovo
É que ternura mais não
cultivemos.
1551 – Imposto
O mais antigo imposto à
inteligência,
Fadada de ilusões mortas inteiras
E do que delas crivam as
peneiras,
É na vida a consciência da
inconsciência.
Das ilusões as perdas mais
ligeiras,
De as ter a minha inútil
evidência,
De constatá-las na final
ausência,
Mágoa de as ter mantido por
parceiras,
Vergonha de as ter crido olhando
o fim…
- Ai quanta inteligência
inconsciente!
Do pensamento o manto de cetim,
Filosofia, fé dum imo ausente,
- De automatismos todos usarão
Como um fígado gera a secreção.
1552 – Superfície
Da superfície e do bruxedo presa,
Sinto-me homem às vezes,
convivendo
Com alegria, existo com clareza.
Sobrenado e me agrada ir
recebendo
Um ordenado e a casa ir
recolhendo.
Sinto o tempo sem ter dele a
despesa
E qualquer coisa orgânica,
pudendo,
Me encanta, lúbrico pitéu à mesa.
Nem medito, nem penso, amo o
jardim,
Algo de estranho e pobre há nos
recantos:
Sinto-os bem quando mal me sinto
a mim.
Da civilização eis os encantos,
Na natureza anónima mudança.
- Errado irei, mas que alegria
dança!
1553 – Emprestamos
Ao ignoto emprestamos nossas
cores
Do conhecido: a morte é um mero
sono,
Pois fora o reproduz; e, se lhe
abono
Outra vida, é por outros ter
penhores…
Mal-entendidos fundam os melhores
Quadros de crenças de que enfim
me adono
E as esperanças que elevar ao
trono
Vivem das côdeas de cozer
fervores,
Pobres crianças, jogam aos
felizes.
Assim é toda a vida evoluída:
Civilizar é apor numas matrizes
O nome que não tomam por medida.
Depois sonhamos sobre o resultado
- E eis como o engano nos
transmuda o fado.
1554 – Nova
O nome falso e o sonho verdadeiro
A nova realidade nos criaram,
Reais objectos noutros se
tornaram,
Que noutros os tornámos por
inteiro:
Manufacturo real. E o que
requeiro
De igual matéria-prima é o que
formaram
Nela as artes que noutra a
transmudaram,
Mesma já não, quando me dela
abeiro.
Mesa de pinho é pinho e também
mesa:
Sento-me à mesa, não me sento ao
pinho,
Tal é do nome-sonho esta
grandeza.
O amor é instinto, é sexo
comezinho,
Mas por instinto ninguém ama,
então,
Se amo, ergo ao mundo um outro
mundo à mão.
1555 – Rapazote
Descreve o rapazote "o gajo
grosso,
Tão grosso que nem vira ali a
escada".
Descreve ele melhor, duma
assentada,
Que quando sente, porque esquece
o fosso
Que o distancia do imbecil
destroço.
Olho quem nem degraus vira nem
nada,
Resto de humanidade atropelada,
O declive palpando junto ao poço:
Prosápia do que não ousou fazer,
Festa de pobre bicho de
consciência
Vestindo o incônscio imo que
tiver,
Piadas arrancando à paciência…
- Que pena o monstruoso animal
reles
Feito de sonhos, côdeas, vagas
peles!
1556 – Penumbra
A vida é na penumbra um
movimento,
Vivo no lusco-fusco da
consciência,
Incerto do que sou, sem
evidência,
Uma vaidade algures, um momento.
Do intervalo de cena um elemento,
Pela fresta entrevejo a
florescência
Dum cenário talvez, duma inocência:
Todo o mundo é confuso e
nevoento.
Do cume distinguir tento no vale
As vidas que contemplo à luz do
cimo,
Só paisagem confusa do que animo.
Véspera de acordar onde me
iguale,
Sofro-me, invólucro que sou de
mim,
E abafo a conclusão até ao fim.
1557 – Alfobre
Sou alfobre de gestos, mal se
esboçam,
De termos que meus lábios nem
pensaram,
De sonhos que esqueci, mal me
sonharam…
Sou ruínas de prédios, não
remoçam,
Nunca além das ruínas se elevaram
Porque alguém se fartou, entre os
que fossam
Nos caboucos, do suor que não
endossam,
Do plano e destas mãos que o
germinaram.
Um sonho esvaziado, um ódio
fraco,
São mero pedestal sujo da terra
Em que se finca tosco, feito um
caco,
Para a estátua do tédio que me
encerra,
De mim na interminável despedida.
Bendito quem de ninguém fia a
vida!
1558 – Chefe
Chefe do exército se sonha um dia
Cada um que da cauda lhe fugiu,
A lama do ribeiro o grito ouviu
Da vitória afinal que ninguém
via.
Migalhas entre as nódoas que
cobria
A toalha (e ninguém a sacudiu),
Cada interstício delas já se
encheu,
De homens-pó na fissura que se
abria.
Meus pobres companheiros de
sonhar
Altos sonhos, que inveja e que
desprezo!
Comigo os pobres nem a quem
contar
Encontram o poema que mais prezo.
Asfixiados, de existir morremos
Sem que nos a viver habilitemos.
1559 – Pendular
O velho pendular vai lentamente,
Não vai bêbado, não, vai
sonhador:
Talvez espere, olhar no inexistente…
Deus nos conserve aos sonhos o
fulgor,
Mesmo inviáveis, e nos ponha à
frente
Os bons, embora de fugaz valor:
Hoje sonho em Índias do Oriente,
Amanhã, da lareira no calor.
Qualquer dos sonhos será o mesmo
sonho,
Que todos sonhos são de meu
sonhar
E neles no presente o porvir
ponho.
Mudem-me os fados embora de lugar
Os devaneios meus de que
disponho,
Não me roubem o meu dom de
sonhar!
1560 – Propósito
Meu propósito, sempre que se
ergueu,
Por mão do sonho, acima do cotio,
E um momento na altura, por um
fio,
Criança no baloiço me sentiu,
De cada vez como ela me desceu
Até o chão do jardim à beira-rio,
Da derrota a saber todo o fastio,
Sem uma espada nem pendão de meu.
Dos que cruzam o acaso, a maioria
Arrasta pelas ruas o projecto
Do exército incapaz, sem
pendão-guia.
Todos minha derrota e meu afecto
Terão, poetas coitados da
miséria,
A rir do mundo, esta fatal
pilhéria.
1561 – Alma
A final alma em tudo é o
ambiente,
Cada qual tem um rosto que é de
fora,
Intersecta em três linhas quem lá
mora:
Matéria, meio e como o leu a
gente.
Este tampo é madeira, mesa e um
ente
Dentre o mobiliário que decora
A quadra: entende-o só quem se
assenhora
Do contexto em que lhe ele se
apresente.
Ser coisa é ser lugar de atribuição,
Dizer que a planta gosta será
falso,
Que um rio corre, um poente é uma
aflição…
Mas tudo vem de fora e eu vou no
encalço:
A humanal alma é um raio de sol
que anda
A erguer do chão o estrume que
comanda.
1562 – Romântica
Da distracção romântica me rio,
Mas devir célebre, como era bom!
E da meiguice o delicado tom,
Ir em triunfo, o mágico atavio…
Mas quando este meu píncaro
vigio,
Um outro qualquer eu me rirá com
Familiar, muito broeiro tom:
Famoso, vejo o fato meu no fio,
No trono, vejo-me a mancar na
escola,
O aplauso bate à rotineira vida
E me amesquinha num caseiro
sonho.
Em meu império, castas, nem de
esmola,
E à sagração nenhum amor convida,
Morrerei com escritos que em mim
ponho.
1563 – Estrago
À medida que à fé varre o tufão
Fica o estrago visível da ruína,
A que causara e aquela a que se
inclina
E a que, da falta dela, arrasa o
chão.
Vêem-se agora as almas tais quais
são,
Na desgraça patente enquanto
sina,
Na inermidade vaga que as
destina,
E um cristianismo vem sem ilusão.
Com ele o romantismo então
floresce,
A confundir o que nos é preciso
Com o que desejamos e não cresce.
O indispensável fatalmente viso,
O desejável, não, e é uma doença
Se busco a lua, tal se me
pertença.
1564 – Nu
Dum corpo nu a sensual beleza
Apenas sentem as nações vestidas.
Vale o pudor por sensuais
medidas,
Como a energia uma barreira a
entesa.
A artificialidade afinal preza
Na naturalidade gozar vidas:
Destas campinas gozo ali floridas
Por não viver em plena natureza.
Não sente a liberdade quem não
vive
Constrangido jamais. Civilizar
É pretender que o natural motive,
O artificial indu-lo a apreciar.
Um por outro tomar não conviria,
Que o natural humano é uma
harmonia.
1565 – Anseio
Quantas vezes anseio pela paz
Que agora infringirei ao ser
decente!
Entre as naturais coisas mora
assente
Todo o definitivo que, falaz,
A civilização perdeu atrás,
Mesa de pinho onde o pinhal
presente
Dilui-se entre o verniz tão de
repente
Que ninguém é de o acordar capaz.
Eis-me na natureza, mas saudoso:
Nascer fez-me a cultura uma outra
vez
E o artificial é mais viscoso.
Não o quero, que vejo a pequenez,
Mas amo o Tejo e o casario à
beira
E a flor mais colorida é tal
ladeira.
1566 – Isolamento
Talhou-me o isolamento à imagem
dele,
Doutrem me atrasa uma vulgar
presença,
Que o pensamento nem me lê
sentença
Com outrem a arranhar-me minha
pele.
A sós comigo sou capaz de intensa
De espírito resposta que
atropele,
Rápida, os imprevistos a que
apele
A aparição da inoportuna ofensa.
Tudo se me sumiu, doutrem diante,
Ao fim dum quarto de hora
sonolento,
Em fantasia apenas sou brilhante.
Convidam-me a jantar e que
violento!
De véspera já de ânsia ando a
sofrer
E não aprendo nunca isto a
aprender.
1567 – Pequenez
De estreita ser, a pequenez da
aldeia
O mundo vasto que de longe aponta
Na mira tem, que o toma dela à
conta,
Da lonjura horizonte que lhe
ameia.
E deste modo da cidade à teia
Escapa, lhe alargando a malha
pronta
A nos prender, e ao invés lhe
apronta
A vastidão que só longes semeia.
Vou à varanda e sobre o meu
telhado
Vislumbro o céu e os incontáveis
astros,
Liberto-me a voar, pardal alado,
Mil universos crio, aqui de
rastros.
As águas chilras no reflexo a
vê-las,
Quanto sonho do abismo anda às
estrelas!
1568 – Dói-me
Dói-me a vida e apavora de
mistério:
Sobre nós vem, fantasma informe,
e tremo
Do pior medo, a incarnação que
temo,
Disforme, do não-ser. Ou dela o
império
Atrás de nós visível, quando a
sério
Me não virar, é o rio onde não
remo
Da verdade abismal por que aqui
gemo
Dum desconhecimento, enfim,
sidéreo.
Horror hoje me anula mais roedor:
Não querer pensamento nem desejo,
Nunca ter sido nada, um
desespero…
Da cela do infinito preso-mor,
Como fugir, se é cela quanto
vejo?
- Para fora de Deus, eis onde ir
quero!
1569 – Anonimato
Do anonimato ergo a cabeça ao
claro
Conhecimento de existir e vejo
Que o que tenho pensado e sido é
o pejo
Do engano e da loucura: se me
encaro,
Estranho quanto fui, que ao fim
reparo
Que não sou. Minha vida então
revejo:
Eu nem representei, naquele
ensejo,
Representaram-me, num gesto
avaro.
São subordinações tudo o que
tenho
A um ente falso que julguei ser
eu,
A conjunturas que cri respirar.
Agora desterrado é que devenho,
Solitário num povo que foi meu:
- Não, eu nunca fui eu, de mim a
par!
1570 – Descaminho
Fui erro e descaminho, não vivi,
Apenas de consciência e
pensamento
O tempo de existir mal preenchi.
A sensação que tenho, de momento,
É que, depois dum sonho, acordo
aqui,
Do pesadelo após o vão tormento,
Encegueirado à luz do que acendi,
Entre o que sinto e vejo, um pé
de vento.
Ninguém saber de si será viver
E mal saber de si é conhecer,
Sabê-lo de repente cresta tudo:
Uma vez tudo consumido, após
Nus nos deixamos mesmo até de
nós:
- Foi um momento e eis-me um
doente agudo.
1571 – Nunca
Penso às vezes que nunca sairei
Dos paredões aqui da minha rua:
Por quanta eternidade continua!…
Prazer nem glória nem poder
busquei,
Na liberdade apenas apostei
Como quem a pegada impõe na Lua.
Dos fantasmas da fé à razão crua
Passar não é jamais mudar de lei,
É somente mudado ser de cela.
As artes vão livrar dos
manipansos
Obsoletos e soltam-nos a vela.
A personalidade reencontrar
Será sempre perder dela os
ripansos
E a própria fé, no fim, vem-no
abonar.
1572 – Paredes
Nem as reles paredes do meu
quarto,
Nem as carteiras velhas do
trabalho,
Nem mesmo a rua pobre onde me
valho
De humildes vitualhas que me
acarto,
Nem minhas fatais cartas de
baralho,
O engulho formam no imo de mim
farto,
Da quotidianidade que não parto,
De enxovalhantes vidas onde
calho.
São os que de hábito me cercam,
falam,
Me desconhecem conhecendo bem,
Que a garganta do espírito me
entalam.
O vulgar me converte em pedro-sem
Perdido no apeadeiro de desvio,
De terceira entre trens de que
não fio.
1573 – Escravos
Escravos somos vagos do exterior,
Manhã de sol campinas abre às
vielas,
Sombra de nuvens fecha-nos
janelas
E mal me abrigo em meu quarto
interior.
Se a noite vem do dia entre
sequelas,
Lento se alarga do íntimo o
pendor
De que despertar devo em meu
torpor.
E o labor não se atrasa, à luz
das velas,
Antes se anima em toques de
magia.
Nem sequer trabalhamos,
recreamo-nos
Dos grilhões com a freima, em
fantasia.
É dos serões o chá, por onde
vamo-nos
Estirando, entre o gato e a velha
tia,
E o labor sai feliz: nele
geramo-nos!
1574 – Literatura
Arte com pensamento já casada,
Gera a literatura a realidade.
Algo afirmar conserva-lhe a
verdade,
O terror lhe varrendo da fachada:
Mais verde é o campo na palavra
dada
Que no verdor que o Abril fora
invade
E a flor tem cor que a fantasia
lhe há-de
Mais colorir do que a que ao vivo
agrada.
Se mover é viver, então contar
É deveras, por fim, sobreviver.
Um dia bom só tem longo lugar
Se o constelo de flores, poema a
ser,
Se o livro do exterior tão
passageiro
E o encastro na História em corpo
inteiro.
1575 – Fraternidade
Tem a fraternidade subtilezas,
Uns governam o mundo, outros o
são.
De quantidade diferenças vão
Do milionário cujo ter tu prezas
Ao mentor aldeão que menosprezas;
De qualidade, porém, nunca irão.
Abaixo destes, nós, a mão na mão,
Amorfa procissão de vagas rezas:
Ali o dramaturgo atabalhoado,
E o mestre-escola além, poeta de
génio,
Os Camões todos da miséria ao
lado,
O balconista, o moço que é
fretado,
O Fernando Pessoa do milénio,
- Saúde, fraternais, me hão
desejado.
1576 – Esfinges
Esfinges nos tornarmos, mesmo
falsas,
A ponto de quem somos nem
sabermos…
De resto, isto é o que somos sem
o vermos,
Que o que és jamais o sabes nem
realças.
O acordo com a vida pega as
alças,
De mim me ergue, discordo-me em
tais termos
Que me quedo perdido pelos ermos,
Visto de absurdo, um deus dentro
de calças.
Implanto teorias a agir contra,
O acto fundo na ideia que o
condena,
Um caminho talhei que não se
encontra
Nos trilhos a que o passo meu
acena,
As atitudes tenho como os gestos
Do que não somos, nem sequer nos
restos.
1577 – Imagem
A minha imagem, tal qual eu a
via,
De meu íntimo sempre andou ao
colo.
Eu não podia ser senão o rolo
Curvo e débil que sou no que
sentia.
Um príncipe serei de fantasia
Num cromo de álbum velho que
algum tolo
Oferta em dia de anos, junto ao
bolo
Da criança que de há muito já
morria.
Amar-me então é ter pena de mim,
Se alguém um dia a mim me
descrever,
Se calhar reinarei acaso assim.
O problema é que não começo a ser
E de mim sou meu arlequim de
entrudo:
Deus é ser eu e não ser isto
tudo.
1578 – Libertar-me
Se quero libertar-me dos eventos
Que minha vida oprimem de
estrutura,
De súbito por outros se afigura
Que cercado acabei, duros
tormentos.
Tal se uma inimizade os elementos
Na teia incerta cultivaram dura
Contra mim, contra a intérmina
procura
Que levo vida além, rangendo os
dentes.
Do pescoço a mão tiro que sufoca.
Na mão que a tira me vem preso um
laço
Que estrangula no gesto que
reboca.
Afasto-o com cuidado e as mãos
enlaço
Em meu próprio pescoço, até aos
nervos:
- Haja ou não deuses, somos deles
servos.
1579 – Ambições
Grandes ambições tive, sonhos
grandes,
Tal qual a costureira, o
amolador,
Que os sonhos são em todos de
supor,
Diverge é com que força os tu
demandes.
Em sonho, igual serás a quem
comandes,
Distingues-te em diplomas de
valor,
Pelas actividades que hás-de
apor,
Em alma és sempre igual, andes o
que andes.
Orientes exóticos, Lapónias,
Bem sei que os há, tal como as
Amazónias,
Como há cosmopolitas
deslumbrados…
Tivera embora o mundo em minha
mão,
Sempre este pedagogo serei chão,
Com borboletas-poemas nos
telhados.
1580 – Perdendo
De Cascais a Lisboa, devaneio,
Hora para ir, hora para vir,
Antecipadamente gozo a rir,
Olhando o Tejo grande, a vida a
cheio.
Em meditações vagas a fluir
Me fui perdendo algures pelo meio,
Vi paisagens aquosas sem recheio
E retornei sem nada discernir.
Não seria capaz de descrever
O pormenor mais ínfimo da viagem,
O mais pequeno trecho de visível.
Lucrei a consciência de não ver
Ou de ver, porém outra paisagem…
- Chego e não chego a conclusão
credível.
1581 – Confessar
Que há-de alguém confessar que
sirva ou valha?
O que ocorre é de todos ou só
meu:
Não é novo além, cá não se
entendeu.
Escrevo contra a febre que me
calha,
Não importa o que diga, mera gralha
Num texto que não tem valor de
seu.
Bordo meias da mágoa que viveu
E sentimentos como quem faz
malha.
Teço de mim figuras de cordel
Que entre os dedos crianças nas
mãos trocam,
Cuidando em não falhar o laço
fiel.
Viro a mão, fica a imagem
diferente,
Recomeço, mais gestos me
convocam:
Viver é fazer meia a um sonho
ausente.
1582 – Tendência
Tudo em mim é tendência para ser
A seguir outra coisa, uma
impaciência
De imo com ele próprio, na
inocência
Inoportuna dum bebé qualquer.
Tudo a me interessar, nada a
prender,
Atendo a tudo, o sonho em
previdência,
O tique facial em evidência
De quem me fala – e perco o que
disser!
Não o escuto, noutro algo vou
pensando,
O menos da conversa é o que ela
disse
De meu ou doutrem, a voá-la é que
ando.
Repito-me, reconto-me em sandice:
Sou sempre dois, distantes dos
dois lados,
Siameses irmãos jamais pegados.
1583 – Cadeira
Sempre que da cadeira levantei
Meus sonhos não sonhados à
deriva,
É a dupla dor: a de ser nulos
priva
Com a de o sonho não ser sempre a
lei.
Algo deles ficou na sombra
esquiva
Entre o serem e a aresta em que
os pensei.
Fui génio mais do que nos sonhos
sei,
E menos que na vida morta-viva.
Eis a minha tragédia de
homem-quase,
Deus falhado na cauda do cometa,
Sempre em redor do Sol sem que me
abrase.
Este corredor sou resvés da meta
Tombando ao chão num hausto
derradeiro
Quando até lá corri sempre em
primeiro.