CANTO DOZE
EM CLÁSSICAS PEGADAS BALANCEIA
Escolha aleatoriamente
um número entre 1406 e 1583 inclusive.
Descubra o poema
correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1406 – Em clássicas pegadas balanceia
Em clássicas pegadas balanceia
O soneto, ao pascigo encaminhando
O rebanho de afectos, sempre quando
Em ternura um amor nos incendeia.
Mas, soltos os cordeiros, é no brando
Pendor que toda a grei já se semeia,
O amor transponho aos laços e a candeia
Dos sonhos alumia todo o bando.
Então conclamo a meu redil as bestas
Que armam esperas, de punhais na mão,
Que me angustiam: as questões molestas.
Encurralar-me deixo no saguão
Das questões sem resposta em que me firo,
Mas lucidez ao erro em mim prefiro.
1407 - Dizer
Dizer "desejo-te!" é
falar correcto,
"Amo-te muito!" é já
perturbador,
"Amo-te mal!" então é
de supor
Que de conversa nunca fui
objecto.
As histórias de fadas vão expor
Que eterno fica o amor, findo o
trajecto,
E mentem sempre que exigente,
inquieto,
Sempre há-de ser no refulgir do
ardor.
É uma obra de arte, um regateio,
um riso,
Uma longa paciência comungada,
Uma disputa acesa ou um aviso…
- Tarefa eternamente inacabada,
Seu alerta maior é o que ajuízo
De dia a dia abrir sempre outra
estrada.
1408 – Inteiro-me
Inteiro-me de tua solidão
E a Presença a teu lado
permanente
Dentro em ti como em teu rastro
igualmente
As pegadas recobre de teu chão.
Abraço do Universo em nós
presente,
Quem nele nos retoma o coração?
Que braço hospitaleiro esta
emoção,
Esta dor vem ungir aqui, silente?
Conduz-te um dia para um outro
reino,
Não adivinhas quando ele intervém
Nem como a nova vívida tem
treino,
Tem tantos meios de levar-te
além.
A um mágico, porém, mui
semelhante,
Põe de ti perto quanto foi
distante.
1409 – Rio
Vinte e cinco anos são a vida
inteira
No rio dos eventos desaguada:
Labor em cachoeira atribulada
Nas ondas refrescando quem se
abeira,
Afluentes de amigos que a passada
Pelos caminhos rendilhou à beira,
Dos filhos o marulho em cada
jeira,
Na rega a amadurar a desfolhada…
Açudes de doenças doloridas,
Rápidos perigosos onde há riscos
E a fadiga onde o mar mora mais
perto…
De vida é um rio mais, que em
duas vidas
Da ternura lançámos sempre os
iscos:
- Amarmo-nos, que rio no deserto!
1410 – Útero
Em útero materno quando estávamos
Seguros nos sentíamos, bem
quentes,
A fome, a insegurança eram
ausentes
E o padrão do porvir nisto
assentávamos.
Ao nascer partilhámos sofrimento,
O mundo inaugurámos a chorar.
Desde então desejámos só voltar
Àquele iniciático elemento:
Quero estabilidade onde há
mudança,
Um absoluto aqui num eu instável,
Lugar salvo e seguro sem
tardança,
De confiar por tempo
interminável.
Toco o chão, terra firme,
confiante,
E logo o amigo estável ei-lo
adiante.
1411 – Invocas
Invocas Deus mil vezes cada dia,
Invocas Buda, Cristo ou Maomé
E o coração jamais tocas da fé,
Cheia de raiva a tua fantasia.
Se alguém, quando invocas, bate à
porta,
Incomodado ficas do barulho,
Da porta o irás correr com o
estadulho
Por não te respeitar o que te
importa.
Que incómodo chamar-te aquelas
vezes!
Cuida só como deve andar zangado
Esse teu Deus a quem martirizado,
Finalmente, com quanto tu lhe
rezes,
Deverás ter, enquanto, anos
seguidos,
Lhe andaste a encher em vão
sempre os ouvidos.
1412 – Silêncio
Preciso de silêncio para ouvir
As intuições que passarão por mim
Como anjos vaporosos de cetim
Murmúrios leves quase a me
induzir.
A ideia nova não nos chega enfim
Orquestrada a trompete, a
percutir,
Antes em harpa céltica há-de vir,
Flauta de Pã algures do confim.
Os sons mais importantes duma
vida
Podem tão silenciosos ser que
passem
Despercebidos muito facilmente.
No meio do ruído, a quem convida
Ninguém o escuta: eis como se
embaracem
Do mundo novo os rostos que se
inventem.
1413 – Génio
Quando o génio do sexo entra no
acto,
(Evocativos termos, toques,
gestos…)
A alma entra em acção no íntimo
pacto
E sentem os amantes manifestos
Abismos inefáveis na união,
A vivência devém fácil, gloriosa.
Podemos pensar sexo como bom
Quando sadia habilidade o goza.
Porém, saúde e técnica, valiosas
Como serão, não são suficientes
Para do sexo as profundezas dar.
Estas, do imaginário nebulosas,
Dizem respeito a quem toca outros
entes:
Serão todo o infinito num lugar.
1414 – Diferentes
Que diferentes o seremos todos
É uma matriz de nossa identidade.
De longe apenas temos paridade,
Na proporção em que perdemos
modos,
Em que não somos nós, na
opacidade
Do indefinido a fervilhar de
engodos.
A vida é destes, convivendo a
rodos,
Que ninguém são, falhando a
alteridade.
Cada qual é dual e se se
encontram,
Se ligam, se aproximam quaisquer
dois,
De acordo os quatro não serão
depois.
Sonhar e agir, dois num, se
desencontram:
Como conciliar-se irão então
Com o sonhar e agir do outro em
questão?
1415 – Morte
Pela morte vivemos, porque somos
Hoje o que para ontem já
morremos.
Pela morte esperamos, que podemos
Crer no amanhã por morte que hoje
pomos.
Pela morte vivemos, pelos tomos
De sonhos que sonhamos: que
sonhemos
Toda a vida é negarmos que
vivemos,
Que sonhar é negar vida que
fomos.
Morremos, aliás, quando vivemos,
Que viver é negar a eternidade:
A morte nos procura e nos invade.
É morte quando temos e queremos
E, faça cada qual o que fizer,
É morte quanto quererá querer.
1416 – Mercê
O que criaste para a humanidade
À mercê fica deste esfriamento
Que a Terra sofre agora, já
momento
Mais lento e lento inerte, sem
idade.
O que aos pósteros deste, a
identidade
Tua o preenche inteiro, o
entendimento
Dele ninguém o tem, nem tegumento
De fruto algum será que ao mundo
agrade.
Se nas épocas tuas o acolheram,
Já nas vindoiras não o
entenderão.
Se apelos teus a todas o
estenderam,
No abismo derradeiro quem então
Pode impedir que ao fim se
precipite
Na pira universal que tudo dite?
1417 – Sombra
Gestos na sombra, somos as
janelas
Que escondem por detrás todo o
mistério.
Mortais somo-lo todos, pó sidéreo
A tempo certo, gastas as
parcelas.
Logo que morrem, morrem uns,
estrelas
Colapsando, finado todo o
império.
Outros vivem um pouco em eco
sério
Na memória dum povo onde içam
velas.
Alguns alcançam a memória culta
Da civilização que os há fruído,
Mui raros as do lado hão
atingido.
No abismo a todos lança a
catapulta
Do tempo que nos some finalmente:
- O perene é um desejo, o eterno
mente.
1418 – Mortos
Morte somos e morte viveremos,
Nascemos mortos e mortos
trespassamos
A vida que ligeiros afloramos
E é mortos já que nós na morte
entremos.
Já que o que vivo vive o que
mudamos
E muda porque passa e nele vemos
Que quanto passa morre,
comprovemos
Que, quanto vive, eterno
constatamos
Que noutro se transmuda e então
se nega,
Se furta à vida, transitória
prega.
A vida é um intervalo, relação
Entre o que foi e o que será,
desvão,
Morto parêntesis da morte à
morte:
- Vida-condenação ou vida-sorte?
1419 – Criança
Sabe a criança que não é real,
Porém como real trata a boneca,
Até se desgostar quando ela,
peca,
Tomba ao chão, fruta podre do
quintal.
Irrealizar é o que a criança
checa
Da vida com finura sem igual.
Bendita a idade errada mas vital
Quando se nega a vida que nos
seca,
Por sexo não haver, que é só
ternura,
Em que a realidade se sonega
Por brincá-la no encanto e
formosura!
Por tomar por reais, se tal
adrega,
As coisas espalhadas pelo chão,
Reais deveras só porque o não
são.
1420 – Valor
Não mais valor ao oiro que a um
vidrilho
A criança empresta e na verdade o
oiro
Valerá mais? A criança com
desdoiro
Obscuras olha as raivas, o
rastilho
Das paixões, dos receios que
envencilho
Em gestos de adultez de mau
agoiro.
Os ódios e os amores que em vão
doiro
Absurdos são deveras que
ensarilho.
De convenções vestimos a nudez,
No preconceito embrulho olhar
directo:
A infantil intuição, que lucidez!
Será Deus a criança muito grande
A brincar do Universo pelo tecto,
Travessa das partidas que nos
mande?
1421 – Visão
Minha visão de ti seria o leito
Onde minha alma adormecera calma,
Criança adoentada cuja palma
Sonha outra vez com outro céu a
jeito.
E ouvir-te fora não te ouvir mas
preito
Às grandes pontes aos lugares de
alma
Que os oceanos ligam onde acalma
A fome e a sede o mar que trago
ao peito.
Em nós eternas, eis as caravelas,
Em mim o teu sorriso acorda
estrelas
No céu interior enluarado.
Dormindo chamas-me: no barco, em
sonho,
Vislumbro as velas de luar que
ponho
Nas longínquas marinhas de meu
fado.
1422 – Infeliz
De nossa vida um infeliz acaso
Em que atrasados fomos, ou
ridículos,
Ou mesmo reles, são meros
fascículos
Incómodos que lemos pelo ocaso
Da viagem serena em que os
versículos
Em nossa intimidade aram o caso.
No mundo viajantes sempre a
prazo,
Ignotos passageiros nos
cubículos,
Vulto demais não deveremos dar
Do percurso aos percalços,
contundências
De trajectória por qualquer
lugar.
Com isto me consolo, que ou
consolo
Disto me vem ou vem das
aparências:
Real acaba o sonho em que me
enrolo.
1423 – Estupidez
A estupidez nos sacrifica vidas
E haveres a qualquer inútil
coisa.
Ideais, ambições, neles repoisa
Desvairo de comadres convencidas.
Não há império que valha que
perdidas
Por ele haja bonecas onde poisa
Um sonho de criança. E não há
loisa
De ideal que mereça as perdas
idas.
É humano tudo e sempre o mesmo o
homem:
Inaperfeiçoável e volúvel,
Improgressivo no que quer que o
tomem.
Das coisas ante o curso
irresolúvel,
O sábio quer repouso no
horizonte,
A paz na encosta sonha além do
monte.
1424 – Andrajos
Quem dera a vida na lonjura
alheia,
Quem dera a morte entre pendões
ignotos!
Quem dera rei nos meus andrajos
rotos
Ser aclamado na avenida cheia!
Em eras outras, o melhor ameia
Hoje lá, não nos hojes daqui
botos,
Vislumbro coloridos em mil fotos
Bem longe deste aqui que mos
cerceia.
Queria o que ridículo me mostra,
O nada deste nada que enfim sou
Naquele não ser eu nalguma
amostra.
Há sempre o que há, porém, e o
que devia
Haver, por trilho ser onde não
vou,
Escuso escapa sempre à luz do
dia.
1425 – Existe
Tudo o que existe existe
porventura
Porque outra coisa existe: nada
é,
Coexiste tudo, nada fica em pé
Por ele mesmo em vertical
postura.
Eu nunca existiria, em boa fé,
Com esta consciência que me apura
No modo de existir nesta figura,
Não fora a mesa ali de meu café.
Isto é que sinto: que não sinto
nada.
Isto é o que penso: de isto nada
ser.
Silêncio e noite sou, nesta
jornada
Com eles, nulo, negação qualquer.
Intervalar espaço dentro em mim,
Sou esquecido deus até ao fim.
1426 – Anónimos
Longínquos como anónimos vivemos,
Disfarçados sofremos ignorados.
Para uns a lonjura é sem
cuidados,
Outros os ferem raios seus
extremos
E uns derradeiros de cotio vemos
Na dolorosa férula dos fados.
Saber quem somos são votos
falhados,
Que tradução é sempre o que
pensemos,
Mesmo o que quero, no final não
quero,
Nem porventura ninguém mais o
quis.
Tudo isto descobrir o quanto é
vero
De cada sentimento nos perfis,
Como estranho em si torna o
desolado:
- De seus próprios afectos é
exilado!
1427 – Sonhável
Saber recuperar de cada evento
De sonhável quanto ele pode ter,
Abandonando o que real tiver
Do mundo exterior no
esquecimento,
Eis o que o sábio deve pretender
Nele próprio lograr por um
momento.
Nunca se permitir do sentimento
Manipulado ou por arrasto ser.
O autodomínio-mor é indiferença,
Corpo e alma são quinta onde o
destino
A vida nos impôs como sentença.
De si tem o pudor: nossa presença
A nós é testemunho clandestino,
Pedido, ante um estranho, de
licença.
1428 – Angústia
Nossa maior angústia irrelevante,
Na vida do Universo como no imo,
Considerar é firme ter arrimo,
Sabedoria de matriz instante.
Em meio a tal angústia, para o
cimo
Trepar é inteira usufruir adiante
Sabedoria que na dor garante
Que dos abismos não me prende o
limo.
Ao momento da dor, a dor humana
Tingirá do infinito que não tem,
Que nada de infinito em nós
emana.
A desmedida dor não nos convém,
Nem há-de valer mais, quando a
pesemos,
Que ser a mera dor que ali
sofremos.
1429 – Paro
A um tédio que parece de loucura,
A uma angústia a escorrer para
além dela,
Paro hesitante este eu que se
rebela,