CANTO  CATORZE

 

 

E  ACABO  RINDO  ALEGRE  AO  QUE  ME  AMEIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 1623 e 1756 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                    1623 – E acabo rindo alegre ao que me ameia

 

                                                    E acabo rindo alegre ao que me ameia,

                                                    Mesmo depois de cada lide

                                                    Que convide

                                                    A vida meia.

 

                                                    E de ironia teço coroas de vide

                                                    Sobre quanto coleia,

                                                    Viperino, de veneno a bolsa cheia,

                                                    A furtar-lhe o membro que ele agride.

 

                                                    E de sarcasmo enxoto

                                                    O mundo boto

                                                    Que me teima em afogar.

 

                                                    E, assim, rindo de alegria,

                                                    Fustigando com sarcasmo ou ironia,

                                                    À vida acabo por fim sempre a brindar.

 

 

1624 – Piza

 

A vida, ora aqui, ora acolá,

É a piza de qualquer pessoa:

Mesmo quando é má,

É boa!

 

 

1625 – Gatos

 

Os gatos olham a gente,

Por entre o mobiliário,

Como um ente legendário:

- Mobília de sangue quente.

 

 

1626 – Perdoar

 

Quando um filho tu tiveres

Tudo então perdoar vais

(Mais as razões que elegeres)

A teus pais.

 

 

1627 – Anúncios

 

É possível desvendar

Os ideais duma nação

Se os anúncios reparar

Como são.

  

 

1628 – Cortam

 

O costureiro, a fazenda,

Cabeleireiro, o cabelo,

Ambos cortam. Quem entenda

Para o corte qual é o elo

 

Que tais artes e oficinas

Encontram, indiferentes,

Quando rasgam viperinas

Na casaca dos ausentes!

 

Será por contiguidade

Que a tesoira tanto invade?

 

 

1629 – Cientistas

 

Os cientistas isolaram

O gene que aos cientistas

Faz que, mal se precataram,

Só isolam de genes listas!

 

 

1630 – Velho

 

Vejo que ando a ficar velho

Quando quem tem meia-idade

É o amigo em que me espelho,

Não de meus pais a amizade.

  

 

1631 – Agricultor

 

Um agricultor qualquer

Diz, pousando triste o sacho:

- Este ano, se não chover,

Vai tudo por água abaixo!

 

 

1632 – Sono

 

É o homem este animal

Que dormir vai sem ter sono

E que se ergue, por sinal,

Quando mais quer abandono.

 

 

1633 – Carrinho

 

É a política a ilusão

Que há num carrinho de choque:

Mesmo que me jogue ao chão

Acabo sofrendo um toque.

 

 

1634 – Conselho

 

Alguns há que dão conselho

Como se deram um murro:

Sangras um pouco e, ao espelho,

Decides que é voz de burro!

 

 

1635 – Evita

 

Evita a mulher casar,

Chamam-lhe de independência.

Se for homem, em lugar,

Teme o compromisso: que indecência!

 

 

1636 – Enervante

 

Mais enervante que aquele

Que julga que tudo sabe

É o que a pele

A arranhar-me acabe:

- É quem me torna um torresmo

Porque sabe mesmo!

  

 

1637 – Roupa

 

Nada faz a roupa tua

Passar tão veloz de moda

Como correr para a rua

Dum aumento para a boda.

 

 

1638 – Atraso

 

Nunca vi um atrasado

Que não diga

Que tal atraso danado

Não é ocorrência inimiga

Contra que ele também briga!

 

 

1639 – Bêbado

 

Bêbado não é só bêbado,

Sofrerá de alcoolismo

E este é que faz que ele beba do

Que mais fundo rasga o abismo.

 

Os criminosos não são

Meramente criminosos,

Da sociedade serão

Vítimas sem quaisquer gozos.

 

Os miúdos que se drogam,

Em problemas familiares

São carentes que se afogam,

Sem as culpas mais vulgares.

 

Falhados? Para falhar

Foram sempre programados:

Quem os pode incriminar?

Não passam duns desgraçados!

 

Mesmo em política a culpa

Mora sempre no outro lado:

Não cumprir tem a desculpa

De se ter sido enganado.

 

Resulta, pois, que hoje em dia

Ninguém tem culpa de nada,

Sempre é doutrem a avaria

Que a vida traz maltratada.

  

 

1640 – Neve

 

Tomba a neve invernal

Por todo o algar:

Alguém anda a exagerar

No pó de talco celestial…

 

 

1641 – Fama

 

Melhor fama é a de escritor:

Basta para arranjar mesa,

Mas não chega a ter calor

Para alguém, a chama acesa,

Ir à mesa interromper

Enquanto ele está a comer.

 

 

1642 – Sessenta

 

No carro a sessenta à hora,

Ao telemóvel falando,

Será que o final produto

É que andaremos agora

Conversando, conversando,

A um quilómetro o minuto?

 

 

1643 – Segurança

 

De segurança o melhor

Sistema nunca inventado

É espelho retrovisor

Com um polícia espelhado.

 

 

1644 – Livre

 

Um homem livre deveras

É o que pode recusar

Convites para jantar

Sem desculpas nem esperas.

 

 

1645 – Partos

 

Da sala de partos, "força!"

- Gritam ali mesmo ao lado.

"Força!" – aqui é comandado,

Enquanto outra mãe se esforça.

 

E tal é a competição

Que em nossas vidas entrou

Que, mal um bebé gritou

Enchendo de ar o pulmão,

Logo a mãe, feliz, cansada,

Murmura, como é de lei,

Triunfalmente: "Ganhei!",

Tal se fora uma jogada!

 

 

1646 – Dois

 

Dois lados da discussão

Quem os ouve, incomodado,

Não é quem discute, não,

Mas o vizinho do lado.

 

 

1647 – Aumento

 

Para ter um bom aumento

Pede entrevista ao patrão,

De teu desempenho, lento

Realça a nobre função,

 

Fala-lha então do futuro

E como quer crescimento…

Ameia depois, seguro,

Despedir-te. Sem lamento,

 

Despede-te após de vez.

Sai para um lugar bem pago

Mal chegado o fim do mês.

- Falaste, que não és gago,

 

Porém já com outra oferta

De emprego na porta aberta!

 

 

1648 – Passar

 

"Eu qualquer coisa faria

Para passar esta prova!"

- Insinua a moça, um dia,

Como quem dá fruta nova.

 

"Qualquer coisa?" – o professor

Quer saber se ouvira certo.

"Qualquer coisa!" – com ardor

Roça-lhe a moça bem perto.

 

"Mas então," – murmurou ele

- "Se o que lhe importa é passar,

Se apenas for o que a impele,

- Era capaz de estudar?…"

 

 

1649 – Gerente

 

Gerente de hipermercado

Olha o novo vendedor:

"Clientes por atacado?"

"Um!" "Apenas um?! Que horror!

 

E de quanto foi a venda?"

"Onze mil contos." "O quê?!

Conte para que eu entenda!"

"Vendi-lhe este anzol, não vê?

 

Depois, cana e carretel.

Perguntei-lhe onde é que iria.

Costa fora – disse-me ele.

Logo um barco eu sugeria.

 

E, quando o carro que tinha

Viu que o barco não puxava,

Mostrei-lhe a zona vizinha

Onde um bólido brilhava.

 

Comprou-o, maravilhado."

"E a quem vem por um anzol

Vendeu tal amontoado?!"

"A verdade é que do rol

 

O anzol nem sequer constava.

Ele queria aspirinas,

Que a mulher se lamentava

De dores picando finas.

 

Disse-lhe eu: fica estragado

Todo o seu fim-de-semana,

É melhor ir ao pescado

Enquanto a dor se lhe aplana."

 

 

1650 – Guerra

 

Declararam guerra, com furor,

E se a guerra pesa!

- Sempre é, porém, melhor

Do que aparecer de surpresa…

 

 

1651 – Sol

 

Para todos ao sol há um lugar,

Particularmente

Quando todos se querem sentar

À sombra simplesmente.

  

 

1652 – Cara

 

- Que cara horrível, amigo!

- Em Março morreu-me a mãe,

Vinte mil contos comigo

De herança deixou também.

 

Em Abril morreu-me o pai,

Dele herdei trinta mil contos…

- A morte levando vai

E nós nunca estamos prontos!

 

- Ainda por cima uma tia

Morreu-me no mês transacto.

Deixou-me lá uma fatia

De cem mil contos, de facto.

 

- Triste coincidência rara,

Mas que vida desgraçada!

- A quem o dizes! Repara,

Por enquanto, este mês, nada…

 

 

1653 – Sopre

 

Deixa que sopre o vento

Através de teu cabelo

Enquanto ainda houver o alento

De algum pêlo…

 

 

1654 – Média

 

A quantidade de sono

Precisa, em média, jamais

Requer de alguém o abandono:

- É só uns dez minutos mais!

 

 

1655 – Telemóveis

 

Os telemóveis acabam

No mais estranhado aceno:

Os homens se gabam

De ter o mais pequeno…

 

 

1656 – Manso

 

Dantes ocorriam vidas

Com um manso desespero,

Hoje tudo são corridas

Frente à TV que nem quero…

 

 

1657 – Tapa

 

A minha fina cintura,

Os meus braços musculados…

- Como odeio esta gordura,

Tapa-me em todos os lados!

 

 

1658 – Estilista

 

Estilista é quem despreza

Do belo qualquer regalo:

"Nada estraga uma beleza,

Estou cá para prová-lo!"

 

 

1659 – Copo

 

Um copo está meio cheio

Ou está meio vazio?

Qual o fio

De permeio?

 

- No copo que tens à mão,

Vai depender

A solução

De o estares a encher

Ou então

A beber…

 

 

1660 – Menino

 

O menino de seis anos

A foto do primo vê

Mais velho um pouco, mas crê

Que ela é de si, sem enganos.

 

É grande o que tem vestido?

- Sou eu quando era crescido!

 

 

1661 – Cliente

 

Na maioria dos casos

O cliente é satisfeito

Se eu entrego antes dos prazos

E a conta não levo a peito.

 

 

1662 – Importa

 

A maior parte de nós

Não se importa de ouvir críticas,

Sejam embora inverídicas.

Questão é darem-nos voz

Mas respeitando a qualquer

Outra pessoa que houver…

 

 

1663 – Despedido

 

Ser despedido é a maneira

De a natureza o recado

Mandar de que andava à beira

De eu ficar no emprego errado.

 

 

1664 – Políticas

 

Políticas simpatias

Mudam ao mudar dos anos.

Na Universidade se as vias,

Quem nada tem senão danos

Para as partilhas se alista,

Devém logo socialista.

 

Quando, depois de casar,

Num carro o dinheiro empata,

Logo troca de lugar

E devirá democrata.

 

Bom emprego vem depois,

Casa, fato de bom pano,

Dos bens se aumentam os róis,

- Muda-se em republicano.

 

Mais velho, investe em poupanças

E faz de dinheiro um ror,

Não quer perder abastanças,

- Então é conservador.

 

Por fim, à família ajuda,

Dá dinheiro para a igreja,

A caridade o transmuda:

Nenhum partido, em verdade,

Existe em que se reveja…

- Que tal Vossa Majestade?

 

 

1665 – Brincar

 

No brincar vão coisas sérias,

Quem o não nota se abrasa.

- Há muito quem vá de férias

E deixe os miolos em casa.

  

 

1666 – Porca

 

Se alguém por difamação,

Por porca chamar à dama,

Fora condenado, então

Só tem de inverter a trama.

 

Ninguém o irá condenar

Quando a uma porca qualquer

Por dama a queira tratar,

Como mui bem lhe aprouver.

 

Quando público isto for,

Em público ele então chama

Àqueloutra, com humor:

"Muito boa tarde, dama!"

 

 

1667 – Entrelinhas

 

Aprende a ler entrelinhas.

"Vem à empresa em expansão!"

- Não temos tempo, adivinhas,

Para te dar formação.

 

"Por favor, não telefone!"

- Já está o lugar preenchido,