O  DEUS  DE  CADA  DIA

 

 

PRIMEIRO  ITINERÁRIO

 

CANTO  REGULAR  OS  LAÇOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 1 e 55 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 – O deus de cada dia

 

Canto regular os laços

Do amor, devir e utopia,

Ao sabor do dia-a-dia

Germinam vida nos braços.

 

Ato irregular os traços

Do que deviria

Do quotidiano a magia,

Meu ser de desembaraços.

 

Em metro clássico o íntimo depuro,

Às raízes atento donde parto

Semeando vida além o meu futuro.

 

Emverso à medida acarto

O saber incerto

Até que a rir acabe enfim desperto.

 

 

                                                                2 – Canto regular os laços

 

                                                                Canto regular os laços

                                                                Em métrica comedida,

                                                                Feito meu povo na lida

                                                                Que de amor lhe aduba os traços.

 

                                                                Em cada palavra abraços

                                                                E nós darão a medida

                                                                Da merenda a que convida

                                                                O trilho dos comuns passos.

 

                                                                Do conjugal ao fraterno,

                                                                Do filial ao de amigo,

                                                                O amor é o cume superno

 

                                                                Onde quenquer busca abrigo.

                                                                Mesmo um ódio abrirá terno

                                                                Para um outro algum postigo.

 

 

3 – Papel

 

Os pais têm um papel

Como os guias da montanha:

Não arraste, num tropel,

O caminhante que ganha,

 

Aos pontapés nem aos gritos.

O trilho ajude a encontrar,

Evite os gestos aflitos,

Rume ao cume a conquistar.

 

Pai não é dono, mas guia:

Lanterna à frente postada,

Na noite é luz que alumia

A apontar a madrugada.

 

 

4 – Tacto

 

O tacto é fundamental:

Bem antes de alguém nascido

Já do mundo era fanal,

No ventre onde houver crescido.

Que teu filho carecido

Possa ficar de dinheiro.

Não sejam, porém, escassos,

De ti nem doutro parceiro,

Antes fartos, os abraços.

Formam o arco da aliança

Que aqui se enterra no chão.

Dele os voos saltarão,

Quase o infinito se alcança.

 

 

5 – Titubeia

 

Não sejas tão exigente

Que já nem pises o chão

Que titubeia tremente

Pouco mais que sempre em vão.

 

E não vás voar tão alto

Que ninguém lá te acompanhe.

De prato forte andas falto?

Sê quem sobremesas ganhe.

 

Doutro modo viras costas

Ao que irá levar-te ao termo

E vais perder as apostas

Se dos mais tudo for ermo.

 

 

6 – Avô

 

Afinal, o que é um avô

Senão apenas um pai

Que vive, arredio ao dó,

Na irresponsabilidade

Orgulhosa em que descai

Com toda a desfaçatez,

Com saboroso à-vontade

E a maior das alegrias?

 

Anarquizante de vez,

Como após educarias

Para qualquer sensatez,

Do avô depois da demão,

Qualquer nova geração?

 

É, porém, uma alegria

De ternura e de magia.

Vale a pena uma excepção

A dar cor a cada dia.

 

 

7 – Fios

 

O que importa é bordar fios,

Fios de continuidade

Entre o caos e os desvios

Do que a vida nos invade.

 

Podem ser umas cortinas,

Quando mudamos de lar,

Que do velho lar destinas

A vir o novo enfeitar.

 

Pode ser um ritual

De bons-dias, duma ceia…

- O que importa é dar sinal

Do que é igual na nova teia.

 

 

8 – Beijar

 

De alegria de estar vivo

Não te apetece beijar

Desde o humilde ao mais altivo

Que encontrarás ao calhar?

 

"Cuidado, não vás morrer"

- Dirás tu, ao tal saudar - 

"Mesmo antes de ti sequer,

Antes que teu peito pare!"

 

 

9 – Sequela

 

É mesmo amor e não é

Tudo aquilo que ela quer:

Não é que um homem qualquer

Se encontre nela, de pé,

 

Mas é que se perca nela.

Contudo, tenta, constante

Encontrar-se, na sequela,

Ela por ele adiante.

 

Andarás todo à procura

De ti próprio pelos bares,

Na festa, na sinecura,

No canto onde trabalhares

 

E no amor e mais no amor:

Em busca daquela parte

Que algures, é de supor,

De ti noutrem se reparte.

 

É que o amor não é dar-se,

Pois que dar-se quando verse

Busca no fim, sem disfarce,

Encontrar-se e reaver-se,

 

Já que de ti a parcela

Que poderás alcançar

É sempre apenas aquela

Que em ti vês que tem lugar.

 

Procurar-te-ás evadir

Da célula do cortiço

Para alcançar a seguir

A que ao lado é o teu esquisso

 

No mesmo favo de mel.

Darás com portas fechadas:

Serve o amor copos de fel

Pelas frestas vislumbradas.

 

Entretanto, os prisioneiros,

Tu tal como o teu vizinho,

Ireis crescendo em viveiros:

Cada qual é do outro o ninho.

 

 

10 – Direito

 

Neste mundo ninguém tem

De facto qualquer direito,

Só o direito de que alguém

Se apoderar a preceito,

 

A que puder se agarrar.

E a forma normal de o ter

É doutrem arrebatar

O direito que este houver.

 

Quando este homem predador

For o que o mundo domina,

Não há amor que seja amor,

É doutrina clandestina.

 

 

11 – Destrói

 

Quando alguém destrói quem ama

É porque o ama demais.

Se é o amado a quem inflama,

Amado é que se quer mais.

 

E é difícil alcançar

Tanto mais o que se amou

Quão mais fundo houve lugar

Dum amor ao fundo voo.

 

Assim é que no limite

Se destrói o que se quer

Porque se quer, sem que hesite,

Sem limite quanto houver.

 

 

12 – Dilema

 

Para obter a liberdade

Importa morrer por ela.

Após morrer, é verdade,

Nada ganhas da sequela.

 

Deveras este é o problema

E ninguém foge ao dilema.

 

Apenas para os vindoiros

Vai a coroa de loiros.

 

Só o amor por nossos filhos

Gratuito é que ata os atilhos.

 

 

13 – Dominado

 

Governa o mundo a mulher,

Sabe-o todo o apaixonado:

Sempre há uma intriga qualquer

E ele ao fim é o dominado.

 

Depois canta que o amor

É mesmo libertador…

 

Se com a lógica briga,

A verdade é que ninguém

Dos laços se desobriga

Enquanto um amor o tem.

 

 

14 – Talvez

 

Talvez amemos apenas

O que não podemos ter,

Talvez o amor sejam penas…

Talvez assim deva ser.

 

Que porção de ódio no amor!

E quanto ressentimento

Para à liberdade impor

Baias a cada momento!

 

Talvez o fim da existência,

De na Terra andar no bródio,

Seja buscar a excelência:

- Aprender a amar sem ódio!

 

 

15 – Trata

 

Homem que trata a mulher

Como ser desamparado,

De diversão tal qualquer

Encantatório bocado,

 

Merece mulher que o trate

Como gorda e perdulária

Conta perene a que se ate

Alegremente bancária.

 

 

16 – Sonho

 

O sonho (mesmo o infantil),

Mais que da vigília os quadros,

Reflecte em vertentes mil

Avoengos que andam nos adros.

 

Do chegado aos mais remotos,

São as lutas com as feras,

Medo a répteis, terramotos,

Brutas batalhas e esperas…

 

Todos os baldões da horda,

Quadros de fereza e força,

Babujam, do sonho à corda,

Náufragos que o olvido esforça.

 

E os destroços ignorados

Nos guardam dentro da raia

De nossos antepassados

Vindo aqui dar-nos à praia.

 

 

17 – Irradiação

 

A criança é o coração

Da casa como do lar

E até, por irradiação,

Do Universo fica a par.

 

- A mais breve coisa viva

Todo o mundo em si cativa.

 

 

18 – Rouba

 

Rouba o tempo a juventude,

Os amigos, nossos dias…

Quando morrer, que virtude

Vive além das fantasias

Senão a do amor que demos

Aos demais com quem vivemos?

Tudo quanto recordamos

São os mágicos momentos

Em que o tempo se deteve.

Ali é que não findamos,

Do eterno nestes segmentos

Em que eterna é a vida breve.

 

 

19 – Severo

 

Por mais severo que um pai

Seja ao julgar dele o filho,

Tão duro jamais, olhai,

Como um filho julga um pai

Dele apertará o vencilho.

 

 

20 – Dança

 

A dança, na rapariga,

É aprendizagem de amor.

Ao homem a quem se liga

Se entrega e nunca periga

A ilusão de, com pudor,

Em tudo o que ali recolha,

Fazer dela livre escolha.

 

A dança, na rapariga,

É aprendizagem de amor,

Desobriga a quanto obriga,

Liberta o sonho maior.

Se ao acordar o desdiga,

Quem lhe liga, quem lhe liga

Do fogo durante o ardor?

 

 

21 – Tesoiros

 

Por que tem de haver tragédia

Para o devido valor

Dares, de tesoiros nédia,

À vida do lar, do amor?

 

Por mais votos de que não,

Às vezes terá de ser:

- Tão embotados te são

Teus sentidos para ver!

 

 

22 – Sucesso

 

Sucesso? Olha que o maior

É  de dar, de dar amor.

 

Não o Amor de letra grande,

Antes o do dia-a-dia,

Onde cada nada mande,

Que aí tudo principia.

 

Pouco a pouco, gesto a gesto,

Tarefa a tarefa, assim,

A cada palavra empresto

Soma de princípio e fim.

 

 

23 – Primeiro

 

Sonhos do primeiro amor,

Sempre um homem é criança:

Brinca ao eco do sol-pôr

Feliz de ouvir se lhe opor

Alguém que ele nunca alcança.

 

E a frase que pronuncia

Não vê nunca, extasiado,

Que a repita, dia a dia,

Quem ele bem gostaria

Que estivesse do outro lado.

 

Sempre um homem é a criança:

Busca-se e nunca se alcança.

 

 

24 – Ninharias

 

Um ódio como um amor

Nutrem-se de ninharias,

Tudo serve ao desvalor

E ao valor das fantasias.

 

Aquele que for amado

Nunca de mau nada faz,

Como o que for odiado

De bom nada satisfaz.

 

O pior é que a verdade

Tarde ou cedo contra-ataca

E ao murro da realidade

Nenhuma inocência aplaca.

 

 

25 – Saciado

 

Amor que vem do desejo

Vive apenas de esperança,

De saciado após o ensejo

É que a verdade o alcança.

 

De véspera ser amado

Quem o não é, não dirás?

Um dia após, se a teu lado,

Então é que amor terás.

 

 

26 – Apogeu

 

Ser mãe é descortinar,

Do mundo num apogeu,

Dois sentimentos a par

Que do inferno vão ao céu

Juntos num mesmo fervor:

São eles o amor e a dor.

 

Quem os queira separar

Ainda não percebeu

Que ser mãe sempre é juntar

Tudo o que o mais dividiu.

 

Até que o mundo completo

Nos sirva, um dia, de tecto.