SEGUNDO  ITINERÁRIO

 

 

 

DO  AMOR, DEVIR  E  UTOPIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 56 e 108 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

56 – Do amor, devir e utopia

 

Do amor, devir e utopia

Caminharei com a rima

E o metro que o povo encima,

Certos como horas do dia.

 

E com os mais tomo a lima

Que as arestas poliria

A cada dobra da via

A que a pegada se arrima.

 

O mais além a compasso

Vislumbro que me aparece

A definir cada traço

 

E mais e mais me apetece:

Mesmo a imensidão do espaço

Vejo que em mim acontece.

 

 

57 – Conta

 

De vez a vida largada,

A conta inteira é saldada:

 

Nem saudades, nem tormentos…

Nada também de lamentos!

 

A janela do infinito

Abre além de qualquer grito.

 

 

58 – Minoria

 

Se fores da minoria

Do trabalho criador,

Não forces a ideia-guia,

Não forces, que é bem pior:

Forçá-la, leva-a a abortar.

Com paciência, madura,

Deixa-a crescer devagar…

 

Aprende, aprende a esperar:

- É o porvir que te inaugura.

 

 

59 – Acode

 

Com passado nem Deus pode

Até porque já passou.

Futuro a ninguém acode,

Há-de vir e lá me vou.

 

Importa mesmo é contente

Tomar em mãos o presente.

E deixar-me ir deslizando

Do lado que for sonhando.

 

 

60 – Pulo

 

Se puderas realizar

Um bocadinho do sonho,

Que pulo o mundo ia dar,

De que tamanho medonho!

 

Do que te sentes capaz

Que é que fazes, que se faz?

 

 

61 – Acalentado

 

Há-de sempre haver um dia

Em que o sonho mais profundo

E acalentado irradia

Por sobre a casa do  mundo.

 

Reconhecer o momento

Requer nunca ter fadiga

Mais escapar ao tormento

De beco algum sem saída.

 

Teremos de acreditar

Sempre que somos capazes

Mal a uma esquina apontar

Um lume de que te abrases.

 

Creia o mundo o que ele crer

De nós e de nossos sonhos

Importa é agarrar qualquer

Fresta de amanhãs risonhos

Que nos venha a aparecer.

 

Quando ocorrer, não hesites:

- Agarra-a sem mais palpites!

 

 

62 – Macaco

 

A história conta às crianças

Do macaco malandrão

Que uma banana nas franças

Comeu e que atira ao chão,

Displicente, a casca inútil.

 

Se fazes o gesto fútil

De uma casca imaginária

Largar sobre uma cadeira,

E depois, na lida vária,

Te esqueces, de tal maneira

Que te acabas lá sentando,

Logo as crianças gritarão:

"Olhe as cascas que aí estão!"

 

Tal a força que tens quando

Um conto contas por dia:

- A vida inteira inventando

À vida emprestas um guia!

 

 

63 – Atento

 

Uma reunião ganha vida

Se uma história conta alguém,

Tudo de cabeça erguida,

Olho atento ao que lá vem.

 

E, quando houver um problema

Difícil a discutir,

Uma história ajuda ao tema,

Abre o rumo a decidir.

 

 

64 – Húmus

 

Quem é atento e dedicado

Ao bem alheio não morre:

Semente em húmus lavrado,

Escondida em terra, acorre,

- Dá o mundo fertilizado.

 

 

65 – Velocidade

 

Num mundo a se destruir

A toda a velocidade

Que resta a um homem? Fugir?

Para onde, de verdade?

 

Fica apenas a saída

De encontrar algo de seu,

Nunca o perder, de seguida,

E o trabalho que lhe deu

 

Desmultiplicar com força

Só para aquilo, por ele.

- É a semente que reforça

O ar que o porvir impele.

 

 

66 – Sentido

 

A vida tem um sentido:

Do opressor ao oprimido.

 

Quem a quer encaminhar

Contra aquele irá lutar.

 

Se é o judeu que é fuzilado,

Do judeu vais pôr-te ao lado.

 

Quando ele é um explorador,

Vais, explorado, te opor.

 

Se é um regime comunista,

Põe-lo em tua negra lista.

 

Se é o capital que amarfanha,

Sujeita-lo à tua sanha.

 

Quando for um ditador,

Não terá sorte melhor.

 

Se é o branco que oprime o negro,

Na luta deste te integro.

 

Mulher que é discriminada,

Com ela irás de mão dada.

 

Regime patriarcal?

- Liquidá-lo-ás por igual.

 

Adulto que a criança explora

Não perde pela demora!

 

Todo o abuso do poder

Contigo tem de se haver.

 

Se é um neo-colonialismo,

Tramas lançá-lo no abismo.

 

Norte rico contra o Sul?

- Talhas drenos ao paúl.

 

E, se for a corrupção,

Não lhe concedes perdão.

 

Quando alguém pear alguém,

Tua mão este sustém.

 

A vida tem um sentido:

Tu és a voz do oprimido.

 

Se trocaste a barricada,

Não és Homem. Não és Nada!

 

 

67 – Futuro

 

É uma estupidez viver

Toda a vida no futuro

Quando pode não haver

Futuro algum a viver

Neste dia que inauguro.

 

Colhe sempre muito bem

Um futuro planear,

Mas não consinta ninguém

Que o plano que futurar

Acabe por afastar

De hoje o pouco que contém.

 

Mas que ninguém corra agora

O risco de fazer quanto,

Feliz nem sendo na hora,

Acabe numa demora

De que reste o desencanto

 

E que mate o que inauguro,

Sem jamais termos futuro.

Se algo tiver de sofrer,

Que sofra então o presente

Para poder ir em frente

Rumo a um futuro qualquer.

 

E que não estrague a pressa

Tudo o que aqui for promessa.

 

 

68 – Aposta

 

Nunca poderás viver

Tu para a posteridade,

Que desta a moralidade

Será sempre outra qualquer

Que aquela que fantasias

Na aposta que apostarias.

 

Se forem bens que lhe deixas,

Todos do campo do ter,

Quando muito não tens queixas.

Que lá o que fará do ser

O porvir que acontecer

Com teu manado de reixas

Nem ele o sabe sequer.

 

 

69 – Cem

 

O pouco que vais poder

Contribuir para mudar,

Cem anos após morrer

É que se irá revelar.

 

Tira-te, pois, de cuidados:

- Não verás os resultados!

 

 

70 – Coisas

 

Tens até coisas demais.

Já que tua vida é boa,

Onde à vida os gestos leais

De mais longe pôr sinais

A que rumes tua proa?

 

É que tens a obrigação

De a tornar sempre melhor.

Porque se cada qual não

Der nada de si, então,

Escarnece do valor

 

De tudo o que lhe foi dado.

Será mesmo uma ironia

Que te esqueças do cuidado

Com que avós hão trabalhado

Para o que tens hoje em dia!

 

 

071 – Errado

 

Se dizes algo de errado,

Podes sempre desdizê-lo.

Se escreves algo de errado,

Podes certo reescrevê-lo.

- Sempre reverdece o prado

Sem com tal ter qualquer elo.

 

Mas se algo errado fizeres

Permanecerá contigo

Para sempre, nem que esperes

De vez fechar-lhe o postigo.

 

Qualquer acto entra no mundo:

Dele o entreteço e, por bem

Ou por mal que dali vem,

Sempre o enveneno ou fecundo.

 

 

72 – Torrão

 

Uma vida tem valor?

Não por ela própria, não!

Tudo vem de que projecto,

Ao virar cada torrão,

Lhe acabarei por impor.

 

É, pois, quando me intrometo,

Porque sou um responsável,

Quando edifico meu tecto,

Que o valor devém viável.

 

Quando às costas ergo a vida

É que poderei mudar

Não só a minha: de seguida,

Ponho o mundo inteiro a andar!

 

 

73 – Abismal

 

Entre o facto e a teoria

Há diferença abismal:

O facto a natura o cria,

A teoria é mental.

 

Deter a capacidade

De criar a teoria

É mera oportunidade

De me explicar o que via.

 

Isto cria alternativas,

O facto, não, que é só um.

Ao aluno as forças vivas

Matarei quando nenhum

 

Facto lhe puser diante

Mas apenas um modelo

Que o explica doravante

Sem agravo nem apelo.

Ao que era mais excitante,

A hipótese formular,

Fechei-lhe a porta, imperante.

- Agora, com que sonhar?

 

 

74 – Prólogo

 

Seja qual for tua idade

Um prólogo é teu passado:

Nada ainda, em realidade,

Viste do que te é fadado.

 

Mesmo na hora da morte,

Quando de vez tudo passa,

Adivinhas lá que sorte

Pode esconder a desgraça!

 

 

75 – Desperdiçados

 

Tantas horas, tantos dias

Desperdiçados, perdidos

Para sempre, em agonias

Das zangas de tempos idos!

 

E a vida tão passageira

E nós do fim distraídos

E entretanto tão à beira…

- Um nada e eis-nos sumidos!

 

 

76 – Diferido

 

Um triunfo diferido

Infalível garantir

Mais vale ter no sentido

Que o talento possuído

Esbanjar sem mais porvir.

 

É que hoje não volta mais

E aos amanhãs que vierem

Não escapamos jamais

No que de nós requererem.

 

 

77 – Educa

 

O dever de quem educa,

Mais que do erro preservar,

É, àquele que se extravia

Por qualquer trilha caduca,

Reconduzi-lo ao lugar

Onde recta corre a via.

 

Educar é prevenir

E também remediar.

E acompanhar o porvir

Na pegada a desenhar.

 

 

78 – Pára-brisas

 

Olha pelo pára-brisas

A vida que haja em redor.

Importa a que em frente visas,

Não aquela que divisas

No espelho retrovisor.

 

 

79 – Pipocas

 

A criança que haja em ti

Nunca devias perder:

Come pipocas, sorri,

E as utopias vão ser!

 

Pois viver sem a criança

Que dentro de nós emana,

Se é rosto que nunca alcança

A vida quotidiana,

 

É máscara de viver

Numa carranca barroca,

Dia a dia a envelhecer

Aprisionada na toca.

 

 

80 – Impulso

 

Pode servir-te de ajuda

Duplo impulso haver em nós:

Um que trepa e tudo muda,

Outro que ao lado ata os nós.

 

Um que visa a transcendência,

A ambição, a claridade,

Outro que, na obscuridade,

Desce ao fundo, até à essência.

 

Aquele traz novidade,

Este prende-te ao comum

Mas, nesta vulgaridade,

Do múltiplo faz sempre um.

 

 

81 – Solitário

 

Solitário que me esforço

A fugir das relações,

Sou da natureza o escorço

Protegido da cultura,

Virgem livre de uniões

A retornar às raízes

Em vez de rumar à altura.

 

Ao retomar as matrizes

Tudo melhor se depura:

Sou árvore, pedra, chão,

Sou animal e mais nada.

 

- Com meu fundo em comunhão

Sou a partida e a chegada.

 

 

82 – Ritmo

 

Resolvo o ritmo abrandar

E pensar na Primavera,

Nas flores, filhos, no lar…

- Nos inocentes da era

Que daqui hoje inauguro,

Contratos da nossa espera,

Contratos com o futuro.

 

 

83 – Curiosidade

 

No que fiz de qualidade

Tudo foi curiosidade.

 

É uma chave de abrir portas:

Aquelas com que te importas

 

São a escolha singular

Por onde na vida entrar.

 

 

84 – Regiões

 

No mundo porque haverá

Regiões ricas, regiões pobres?

Da inteligência que lá

Houvera nunca será,

De diversa que a descobres:

Muita estupidez é rica

E inteligência sem nada.

Que é que então nos pontifica

As mais-valias de entrada?

 

Os recursos naturais

Também não são o segredo:

Os mais ricos dão sinais

De os não terem nem no credo.

 

É bem simples a resposta,

Basta da História a lição

Secularmente proposta

E que sempre acaba à tona:

Quer acreditem, quer não,

O mercado funciona.