TERCEIRO  ITINERÁRIO 

 

AO  SABOR  DO  DIA-A-DIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 109 e 188 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

109 – Ao sabor do dia-a-dia

 

Ao sabor do dia-a-dia

Alinho em métrica certa,

A candeia ali desperta

Quebrando a monotonia.

 

O saber mede a fasquia

Da passada sempre alerta,

De ritmo e rima coberta

Como o cotio a media.

 

Contando cada degrau

Ando aqui trepando a escada

Por onde se entra na nau

 

Que navega a madrugada,

Da bandeira iço no pau

O estandarte da alvorada.

 

 

110 – Lubrificação

 

Honrarias, cortesia,

Dão a lubrificação

Aos atritos que haveria,

A não haver tal função.

 

E, quando um jovem condena

Por ridícula tal arte,

Lança areia (e é uma pena!)

Na engrenagem, o que a parte.

 

 

111 – Disparatada

 

A mais disparatada concepção,

A de que Deus requer adoração,

 

Se move por lisonjas e promessas,

Senão cospe-nos raios nas cabeças,

 

Sem ter qualquer vestígio de evidência,

Paga, com estipêndios de excelência,

 

A maior, a mais velha e improdutiva

Da História indústria que a promove altiva.

 

 

112 – Estereótipos

 

As frases “nós deveremos…”

Ou “isto não quer dizer…”,

“É evidente que sabemos…”

- São o alerta para ver

Pessoalmente o que há de facto.

Estereótipos tais,

Quando as fitas lhes desato,

Desmascaro e me precato,

Dão pistas com bons sinais.

Terei é de estar atento

A ver donde sopra o vento…

 

 

113 – Perícia

 

A perícia em campo dado

Não se transmite aos demais,

O perito é que é enganado,

Pensa sempre coisas tais.

E quão mais o campo estreita

Mais este erro então o espreita.

 

Ser perito não vacina

Das asneiras contra a sina.

 

 

114 – Dominadas

 

Divide-se a Humanidade

Nos que dominadas querem

Que as pessoas todas sejam

E nos que tal não desejam.

Aqueles da idealidade

De altos conceitos nos ferem,

Das grandes massas por bem.

Estes são mal-humorados,

Pessoalistas, desconfiados,

Têm daqueles o desdém…

- Agradáveis são bem mais

Estes vizinhos, porém,

Que aqueles serão jamais.

 

 

115 – Atalhos

 

Quem tem pedra no sapato

É que mete por atalhos,

É que faz o desacato

De ir alongando caminhos,

De imitar choros mimalhos

A ver se colhe carinhos.

 

Quem não tem, talha a direito

A via que mais der jeito.

 

 

116 – Conselhos

 

Conselhos é fácil dar,

Recebê-los é que não.

Se quem os der se guiar

Por eles, lá no lugar

Fica o mundo todo chão,

Todo chão de semear.

 

Conselhos é fácil dar,

Recebê-los é que não…

 

 

É que falta confirmar

Se dali nos vem o pão

E porque não é a primeira

No arrotear da jeira

A boca que os vier dar.

 

 

117 – Meças

 

Até onde é que teu sonho

Te tolheu tua riqueza?

Alegrar o que é tristonho,

Ao que é feio dar beleza,

 

A música, a poesia,

A solidariedade…

Pedir meças poderia

Ao que atira a identidade

 

Gingando nos calcanhares

Por sobre a conta bancária,

Tua bolsa de sonhares,

Vazia, tão solitária?

 

Poderias derribá-los,

A todos estes pedantes,

Mas não sentes nem abalos

De os ver ali tão impantes.

 

Tens o que sempre quiseste,

Não lamentas o caminho,

Arrependimento agreste

Nenhum te encrava um espinho.

 

Vitórias bem saborosas,

Não as colhidas a esmo,

São as deveras custosas

Obtidas sobre ti mesmo.

 

 

118 – Ouropéis

 

Muitas vezes só emigrando

Seremos reconhecidos.

Tudo o que é novo negando,

Os ouropéis adorando

De feitos de vez volvidos,

Os pretensiosos vão

Importar-nos mui festivos.

 

É uma homenagem do não

Aos que persistem ser vivos.

 

 

119 – Nómadas

 

Nómadas somo-lo todos

Enquanto temos alguém

Que ao colo nos leve, leves,

Rumo aos destinos e bodos.

 

Quando somos nós, porém,

Que temos de levar, breves,

Ao colo outra geração,

Tornamo-nos sedentários:

Sermos meio de transporte

Como enguiça o coração!

 

E dentre os sonhos mais vários,

Quero é ter a permissão

Dum porvir de melhor sorte:

Direito a me escapulir

E pôr-me a um canto a dormir!

 

 

120 – Casas

 

A maior parte das casas

São heranças que nos chegam.

Os sonhos a que se apegam

De soprarem novas brasas

Os novos em casas velhas

Valem em pouca medida:

São do rebanho as ovelhas

No aprisco alheio, à comida.

 

Doutrem para as decisões

Se transmudam sem querer,

Modos de achar soluções

Que não lembram a quenquer,

São roteiros, são andanças

Doutrem para as esperanças.

 

É sempre outrem que se apura

Na casa que se acolheu,

Nunca lá me encontro eu,

Serei sempre uma mistura.

 

 

121 – História

 

Qual é a coisa, qual é ela:

Perde-se, não ofertada;

Renova-se, quando usada;

É só nossa na sequela

De nós a compartilharmos?

- É uma história que contarmos!

 

 

122 – Desertos

 

Abutres e colibris

Sobrevoam os desertos.

O abutre, de gostos vis,

Só procura a carne podre,

Tem os instintos despertos

Para comida de pobre.

 

O colibri busca a flor

Do deserto colorida

Que brota com esplendor

De espinheiros como a vida.

 

Vive aquele do passado,

Este o presente requer.

Cada qual tem encontrado

Dele o correcto comer.

 

Em redor procura bem:

Seja abutre ou colibri,

Dás com o que te convém,

Que em sorte couber a ti.

 

 

123 – Odeias

 

Odeias a sociedade

Porque te odeias a ti?

Tua revolta não há-de

Ir contra o que houver ali:

Contra ti te persuade!

 

Portanto, não te revoltas

Contra este mundo danado.

Por revolta andas às voltas,

És somente um revoltado!

 

 

124 – Mesa

 

À mesa do comandante

Se convidado a jantar,

Não é a glória que, distante,

Acabas de conquistar.

 

Lembra-te que continuas,

Para aprender a lição,

A jantar, mas de mãos nuas,

Só com a tripulação.

 

 

125 – Minoria

 

Ajudar quem não merece,

Só porque é da minoria

Liberal não me parece

Nem democrática via.

 

Premiar parasitismos,

Estimular a preguiça

Criam mais fundos abismos

Na margem que tudo enguiça.

 

 

126 – Recta

 

Por vezes a linha recta

Não é o mais curto caminho

Para se atingir a meta,

Mas a curva a que me alinho.

 

Chego ao ponto onde quiser

Na vida mais velozmente

Aquela curva ao fazer

Do que se cortar em frente.

 

Um qualquer plano de acção

Requer dados realistas,

Não uma mera intenção

Correndo utópicas pistas.

 

 

127 – Ambição

 

Qualquer homem de ambição

Fica desencorajado

Por vezes, de tão cansado:

Crê que tudo erros serão

E qualquer esforço, vão.

 

O que vale é que depois

Tudo lhe volta a sorrir

E os triunfos hão-de vir

Apos a noite, arrebóis

De já inesperados sóis.

 

A ambição mais que aconselha:

É da fogueira a centelha.

 

 

128 – Pacto

 

Muito mais fácil de facto

É ter fé noutra pessoa

Que consigo ter tal pacto.

 

Quando alguém escolhe à toa

Alguém em quem pode crer

Logo a fonte devém boa,

 

Não complica o que entender.

- Porém, a limitação,

A falha que nela houver,

 

Como abandonar no chão

Para apostar num poder

Que sabe não ter à mão?

 

 

129 – Matiz

 

Aprende a devir feliz,

Aprende a ver todo o bem

Que traça ao mundo um matiz

Entre os demais que ele tem.

 

Abraça os pequenos nadas

Que se perdem nos horários

Das freimas assoberbadas,

Dos passos atrabiliários.

 

Tua vida é de momentos,

Pequenas pepitas de oiro

No cascalho dos eventos.

- Que fazes ao teu tesoiro?

 

 

130 – Esgota

 

Esgota cada momento:

Em breve terá passado…

E, seja embora doirado

Ou dorido de tormento,

 

Nunca mais te volta, solto,

(Para se pôr ao dispor

De teu frio ou teu calor)

Do actual véu de tempo envolto.

 

 

131 – Ressentimento

 

Há muito ressentimento

Contra um vector da ciência

Que deveio num tormento,

Em arma, a todo o momento,

Apontada à consciência.

 

A ciência, idealizá-la

Quando me atira à cabeça,

Sem contribuir com a bala

Para a festa, para a gala,

Quem é que em tal não tropeça?

 

São da ciência os pecados

Cometidos em segredo,

Nas costas dos vitimados…

- Geremos eleitorados

Com saber e não com medo:

 

Científica cultura

E bem generalizada

É o que mais nos assegura

Contra qualquer ditadura

Que use a fada malfadada.

 

 

132 – Democracia

 

Se quero a democracia

E o pouco de liberdade

Que em mim sempre principia,

De que disponho hoje em dia,

Então hei-de ser a grade

 

Que alise fraudes e embustes

Por todo o campo da vida.

Se a reis e ricos te ajustes

Pagas as custas que custes,

Nada te fica em seguida.

 

Urge desmistificar

Por tua mão, pela minha,

Quanto abuso houver pelo ar,

Quem por sol nos dá luar,

Senão roubam-nos a vinha.

 

 

133 – Vimes

 

A ciência pelos crimes

Há-de responder também,

Dado que as obras sublimes

Sempre no feixe de vimes

Uma vara podre têm.

 

É imperfeita, mas que instância

Melhor pode controlar

Nosso pendor de ganância

Que nos mata e destrói de ânsia

Sem as jóias nos salvar?

 

 

134 – Relativa

 

A vantagem relativa

Devir pode, no imediato,

Bem mais útil a que viva

Que a absoluta, sempre esquiva

E a fugir, mal me precato.

 

Dois viandantes perseguidos

Por um lobo pertinaz

Fogem logo, espavoridos,

Daquela boca voraz.

Até que um deles comenta:

“Lá fugir, bem que se tenta.

 

Toda a gente, porém, sabe

Que ninguém corre jamais

Mais que um lobo, até que acabe

Nos colmilhos canibais.”

O outro retruca, veloz,

A perder fôlego e voz:

 

“Não me importa correr mais

Do que ele pode correr.

Já que tão depressa vais,

Mais que tu basta-me ver

Que consigo sempre eu ir

Para lhe lograr fugir.”

 

 

135 – Arma

 

Se de arma na mão abordo

Na rua alguém exigindo

“A bolsa ou a vida!”, acordo

Um dia à prisão caindo.

 

Se eu a abordar desarmado:

“Dê-me a bolsa ou meu irmão

Matá-lo-á baleado!”,

Preso sou por extorsão.

 

Se for à televisão

Exigir da tropa os contos,

Não vá de Espanha o vilão,

Que terá os gatilhos prontos,

 

Vir e matar-nos a todos,</