QUARTO  ITINERÁRIO

 

 

GERMINAM  VIDA  NOS  BRAÇOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 189 e 263 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

189 – Germinam vida nos braços

 

Germinam vida nos braços,

Moldando no tempo o ser,

As palavras que tiver

De pôr dentro dos compassos.

 

Então me lerão nos traços

O molde que se impuser

À estrutura de quenquer,

Tudo igual em iguais laços.

 

Talharei do ser a forma

Nas palavras que entalhar,

Poema tornado norma.

 

E o ser que sou, se calhar,

À poesia se conforma:

Sou verso, ao bem reparar.

 

 

190 – Autómato

 

Se autómato fora o homem

Como o comportamentista

Anda a querer que nos tomem,

Nem sequer tal cientista

Iria constar da lista.

 

Nem dá para refutar:

Ele é uma prova provada,

De tal jeito ao teorizar,

De que errou logo de entrada.

 

 

191 – Deprecar

 

Quem se recusa a apoiar

E defender um Estado,

A protecção deprecar

Dele depois, se calhar

Não pode: toma cuidado!

 

O anarquista, o pacifista,

Se alguém os quiser matar,

Como incluir este na lista

Do crime a que houver lugar

Se toda a vida afundaram

A bóia a que se agarraram?

 

- Nunca pode bater certo

Pôr longe o que se quer perto.

 

 

192 – Linguagem

 

Linguagem: mecanismo

Para exprimir pensamentos.

Quando, porém, nela cismo

Lá descubro os elementos

Dum inteiro catecismo

Onde só vira instrumentos.

 

Linguagem são pensamentos,

Pensamento é informação

Que tomou forma: os inventos

Da forma são linguagem.

Atinjo-lhe o coração

Quando assim completo a viagem.

 

Tem um corpo o pensamento:

O da palavra que invento.

 

Neste som vai mais que o vento,

Vão as sementes de mim,

Vai de mim todo o rebento,

Vou eu do princípio ao fim.

 

 

193 – Paralelos

 

A realidade e o desejo

São dois mundos paralelos

Que nunca têm ensejo

De entre si soldar os elos.

 

Tão impossível é unirem-se,

Muito embora seja a meta,

Como algum dia fundirem-se

Sombra e corpo que a projecta.

 

 

194 – Luzinha

 

Ser apóstolo ou apóstata

(E em todos moram os dois)

Pende da luzinha posta,

Algures, a meia encosta,

Surpreendida depois,

Lá na dobra do caminho,

Por quem caminhar sozinho.

 

Onde o luzeiro apontar,

A escuridão a que aponta,

Eis o rumo em que apostar,

Eis o roteiro que conta.

Seja ou não ele conforme

À velha fé que me informe,

Para o caso tanto monta.

 

 

195 - Picada

 

De muito passo miúdo

É feita cada picada

E de picadas que grudo,

Toda a largueza da estrada.

 

Sempre de pequenas contas

Se encadeia este rosário

Da vida que sobremontas,

De Calvário indo em Calvário.

 

E só no fim da cadeia,

Remontando de elo em elo,

Verás como a vida é cheia

Em seu vazio singelo.

 

 

196 – Sementeira

 

A sementeira dos bens

Do espírito são pobreza

E humilhação que reténs.

Sendo tu de ambos a presa,

Não adivinhas sequer

Qual mais duro é de roer.

Quão mais vazios os cofres,

Mais cheios de quanto sofres.

Quão maior a humilhação,

Mais, afinal, tens razão.

 

Quanto maior entre a gente,

Por mais pequeno perpassas,

Ignorado, indiferente

À multidão que enche as praças.

 

- Quem o devido salário

Te paga, te paga um dia

Neste mundo salafrário

Como se te deveria?

 

 

197 – Toque

 

O toque é tão basilar,

Tanto o quer o crescimento

Como requer mantimento

E ter onde se abrigar.

 

De aconchegos e carinhos

Entre uma mãe e a criança

Se alam asas pelos ninhos.

E o infinito isto alcança

 

Naquele aperto de mãos

Dum filho ao pai moribundo,

A tactear outros chãos,

Não deste, já doutro mundo.

 

Quando Deus estende a mão

E toca a mão estendida

Que do chão lhe estende Adão,

- É do toque o dom da vida.

 

 

198 – Pés

 

Se o cérebro é comandante,

O coração, bombeador,

O pulmão, respirador,

- Recorda-te, a cada instante,

Que atrás deles se recortam

Teus pés que tudo suportam.

Isto serve de medida

A tudo o que houver na vida.

 

 

199 – Milionário

 

Um milionário, seguro,

Tranca a porta do escritório,

Pisa a rua com apuro,

Ruma ao bólido do empório.

 

Dá, contudo, de repente,

Com um vulto de capuz,

De manto negro e corrente,

Cujo olhar cintila à luz.

 

O ricaço olha, irritado,

O encapuçado, surpreso.

Breve em pânico mudado

Fica o que sente tal Creso,

 

Pois que estivera a fixar

O rosto da morte e leu

Que, se lhe não escapar,

Morrerá. Logo entendeu:

 

Corre ao carro e o motorista

Manda para o aeroporto.

Freta um avião na pista,

Descola, de medo morto.

 

Uma noite voa inteira

E um helicóptero aluga,

Nas serras foge à clareira

Onde a andar quenquer se estuga.

 

Contrata, por fim, um guia

Que o leve a um vale distante.

Enquanto o sol lá nascia,

Na gruta que tem diante

 

Se esonde na escuridão.

“Nunca a Morte há-de encontrar-me

Aqui neste paredão!”

- Ri, saboroso e com charme.

 

Porém, logo um dedo ossudo

Nos ombros lhe toca leve.

“Parabéns!” – a voz de mudo

Da Morte lhe anota, breve.

 

“É que era nosso destino

Encontrar-nos nesta gruta

Hoje, ao alvor. Eu me inclino

À tua enorme labuta

 

Por, do outro lado do mundo,

Chegar a tempo – que sorte! –

A teu encontro fecundo

Finalmente com a Morte.”

 

 

200 – Caranguejos

 

Vê a caixa dos caranguejos,

Nunca precisa de tampa.

De saltar fora os desejos

Se algum levam pela rampa,

 

Logo os demais se lhe atracam,

Lançam-no outra vez abaixo.

- Más companhias atacam

E apagam do fogo o facho.

 

E pior é quando o mal

Ataca todo um país,

Como acaso em Portugal,

Sonho arrancado à raiz.

 

 

201 – Mente

 

Quem tem a mente fechada

Não tem a mente vazia,

Trancou-lhe a porta de entrada,

Não cresce mais hoje em dia.

 

Mente de quem principia,

De vazia e preparada,

Atende à voz do vigia

Em cada nova jornada.

 

Toda a possibilidade

Mora no principiante.

Do especialista, em verdade,

Já nada resta diante.

 

 

202 – Imateriais

 

As coisas de que gostaste

Foram sempre em demasia

Fantasmas imateriais,

Ideais em que penduraste

Chuva e sol de cada dia.

 

Sofres dos mesmos sinais

Da doença de que, infecundo,

Se anda a destruir o mundo.

 

 

203 – Letra

 

Fora a vida, em certas delas,

Como uma letra a vencer,

Sem furacões nem procelas,

Indiferente ao que houver,

 

Devagar, sem calafrios,

Como humana divindade

A ver esgotar-se os fios

Do prazo de validade.

 

Depois, a vida acabada,

Dos deuses fica uma estrada.

 

 

204 – Analfabeto

 

O que é ser analfabeto!

Bem via as coisas, bem via…

Não descobria correcto

Ao certo o que acontecia.

 

Sabia tudo, sabia

Só de abrir olhos e ver.

Porém, eis que me ocorria

Que não sabia saber.

 

Menino que come a fruta

E sabe o gosto que tem

Mas que, nele se matuta,

Não vê nunca donde vem.

 

Eu sei das coisas, eu sei,

Mas preciso de aprender

O porquê do que encontrei:

Só então é que vou saber.

 

 

205 – Acriançado

 

Todo o ser é acriançado

Para o adulto, dia a dia.

Mas o mundo haver olhado

Como a criança o faria,

Isto é já sabedoria.

 

 

206 – Valida

 

Quem invalidar a vida

É que as vidas não perdeu

De quem lhe a vida valida,

Senão via-a, de seguida,

Como uma prenda do céu.

 

Maravilha tão precária

Como crê-la secundária,

Como em cima pôr-lhe um véu?

 

 

207 – Mal-estar

 

Mal-estar adolescente

É não lograr esconder

O sentimento que sente

A quem ele o pretender

 

E ao invés não revelar

A quem busca que o conheça

O sentimento a lavrar

Um sonho que lhe amanheça.

 

Mal-estar adolescente…

- Não será que mais além,

Por dentro de toda a gente,

É o que ao fim todos contêm?

 

 

208 – Recente

 

És, como espécie, recente,

És muito novo, ignorante.

Tem cuidado, de repente

Numa verdade empolgante

 

Crês com toda a ingenuidade.

Vês depois que és enganado.

Doravante a realidade

Pode andar-te sempre ao lado.

 

Precisarás deste alerta

Sempre dentro da consciência.

E quem por norma o desperta

É a pegada da ciência.

 

 

209 – Crente

 

O crente diz: quero a regra

E não pensar mais no assunto.

Crendo então que assim se integra

No mundo inteiro por junto.

 

Quer a certeza absoluta,

Só que o mundo não foi feito

Com esta forma impoluta,

Vai-se apalpando e com jeito.

 

Não opera nem jamais

Desta maneira operou

Nem operará, que os sinais

São que incerto vais e vou.

 

Apenas, pois, poderemos

Apostar, não na verdade

De que ao fim pouco sabemos,

Mas na probabilidade.

 

O bem e o mal não são lemas,

São, antes de mais, problemas.

 

 

210 – Fonte

 

Tanto o Mar da Galileia

Como o Mar Morto igual fonte

Do Monte Hebron sempre cheia

Têm por trás do horizonte.

 

Por que é que só aquele é vivo?

Porque tem uma saída,

Açude convidativo

Das planícies para a lida:

 

As verduras do Jordão

Nele bebem para a rega.

No Mar Morto é que isto então

Nunca acontecer adrega.

 

E todos somos assim.

Uns obtêm para terem:

Como o Mar Morto, no fim,

Sem jamais acontecerem.

 

Obtém outro para dar,

Como o Mar da Galileia,

E o mundo vira um pomar

E há sempre festa na aldeia.

 

 

211 – Trás

 

Quando olhamos para trás,

Se esfuma ao longe a paisagem

Da vida que se desfaz

No tempo, em lenta viagem.

 

De entrada, desde o relvado,

À colina e à montanha,

Até ao longínquo prado,

- Mais longe, menos se apanha.

 

O que há mais tempo ocorreu

Não é nunca o que foi dantes,

Lento e lento se esvaiu:

- Nadas insignificantes…

 

Pior é que o que foi bom

Mais rápido se dilui

E o que rói o coração

É o mal que, sem solução,

Dele em pus eterno flui.

 

 

212 – Carácter

 

Teu carácter é o que resta

De holofotes desligados,

Dos aplausos terminados,

Quando ninguém diz se presta

A função de teus cuidados.

 

Carácter é o teu fazer

Quando só te resta ser.

 

 

213 – Nunca

 

Nunca o vi, ouvi falar.

Um eco ouvi, não o tiro.

Antes de a porta fechar

Não entro, por tal suspiro…

 

A vida é meia verdade

E, mesmo assim, persuade,

 

Só que nunca a porta aberta

Encontro que me desperta.

 

Que será que mora atrás

Do que, enfim, é tão falaz?

 

 

214 – Imprudente

 

O imprudente que a um ofício

Ou arte qualquer se vota,

Sem de vocação resquício

Para o que a função denota,

 

Só colhe, em toda a carreira,

Desengano e sofrimento.

Nada a terra nos joeira

De dificuldade isento,

 

Mas a vontade e o amor

Levam a saltar o muro

Que usa mísero se opor

Aos que fogem do monturo.

 

Quem o infindo adivinhado

Que o espírito executa

Nele não sente exaltado

É que seu deus não escuta.

 

Dele a faísca divina,

Então jamais avivada,

Sob as cinzas se amofina

E finda nele apagada.

 

 

215 – Cúmplice

 

O mundo que não é causa

De nenhum bem e, ao invés,

Cúmplice é de qualquer pausa

De desgraça e de revés,

 

Depois, despontado o mal

Que chocou maternalmente,

Renega-o, quando é real,

Dele se vinga, demente.

Quem no mundo se confia,

Como a palha em fogo vivo,

Se brilha vívido um dia,