QUINTO  ITINERÁRIO

  

ATO  IRREGULAR  OS  TRAÇOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 264 e 331 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

264 – Ato irregular os traços

 

Ato irregular os traços

De união entre quenquer,

A Humanidade que houver

Ou do mundo os embaraços.

 

Quer

Os laços

Nos configurem os braços,

Quer a fronteira que o mundo impuser.

 

No verso quebrado

Dou-me conta do traslado

Da surpresa inatendida.

 

Desencontrado,

Encontro-me, afinal, configurado

Por quantos prós e contras são minha medida.

 

 

265 – Ruínas

 

A presença de ruínas

Faz mais por uma comunidade

Do que muita novidade.

Quando nelas te fascinas,

És a criança

Que adora por lá brincar

Mil sonhos, na magia do lugar,

És o turista

Que ali alcança

Lavar a vista,

Trocar de pista

De dança

Diante do mundo em que se alista,

Em que invista,

Mas que porventura o cansa.

 

As ruínas são o vazio

Da função e das gentes de antanho

Onde as águas que te curam o fastio

Se acumulam para teu ganho:

Preenche-lo de espanto e fantasia,

Evocando o passado

Que por ti revive neste dia

Magicamente acordado.

 

As ruínas são o encanto de que pasmas.

Quando as saboreias,

Acreditas, sem peias,

Nos fantasmas.

 

Desces às matrizes:

Em lugar de ter ideias,

Mergulhas nas raízes.

 

Mais do que nas que houver ali:

- Nas que tens dentro de ti.

 

 

266 – Ciúme

 

O indivíduo competente

E autoconfiante

Vive invariavelmente

Do ciúme distante.

 

Qualquer ciúme é sintoma,

Como a postura despótica,

Da insegurança neurótica

De quem mora na redoma.

 

Quem é competente

Primeiro confia nele

E, depois, de toda a gente

Acaba fiando a pele.

 

- Será quem, descontraído,

Finda ao mundo a dar sentido.

 

 

267 – Rápido

 

Há casamentos

A falhar a toda a hora

E todos lhes escapam aos tormentos

Sem demora.

 

Se tão rápido os não ignoraram,

Talvez

Os casamentos não murcharam

Tanta vez:

 

A dor,

Quando apunhala o coração,

Desafia a apurar o amor

Com engenho e criação.

 

Então,

Para que um amor reviva,

A falha maior

É a da imaginação

Criativa:

Ela é que tem de renovar a fogueira

Mal o frio se abeira.

 

 

268 – Chama

 

A chama

É despoletada pela faísca inicial

De quem ama.

 

Cuidado, para que vingue:

O principal

É reparar que a chama se extingue.

 

A todo o momento

O pacto

Terá de ir, para além do sentimento,

Ao acto de que, de facto,

O alimento.

 

Apenas deste modo,

Por fim,

Não perderei o denodo,

- Não me perderei de mim.

 

 

269 – Ritmo

 

Ignoras ainda o amor…

Pouco depois

Dele sofrerás a dor,

Pois

É o único modelo

De aprenderes a conhecê-lo.

 

Então,

A pouco e pouco

Encontrarás do coração

O ritmo louco.

 

E terás mão

Em ti

Ou não:

Desafiar-te-á doravante o frenesi.

 

Não escaparás:

Ou te constróis,

Ou te destróis,

- Perdeste definitivamente a paz!

 

 

270 – Libertino

 

Libertino

Que deseja uma virgindade

Nem repara, cretino,

Na eterna homenagem que assim há-de

Propor,

Implícita na indecência:

- O amor

À inocência.

 

 

271 – Hóspedes

 

Os hóspedes divinos

Que murmuram nas águas, nas folhas e no vento

Só visitam os corações ladinos

Que se foram purificando, elemento a elemento.

 

No íntimo solitários,

Por dentro deles mergulhados bem no fundo,

São quem vive consigo, afinal, solidários

Os mistérios do mundo.

 

 

272 – Namorada

 

É a vida uma namorada:

Imaginamo-la e, só de imaginá-la,

Amamo-la, fada

Vestida de gala

Pela fantasia.

 

Vivê-la? Nem é preciso tentar!

Como um garoto atraído pela magia,

Também

À vida te hás-de, impenitente,

Lançar.

 

Não, não é de repente

Que o sonho irás degradando aqui, além,

Paulatinamente…

 

Dez anos depois,

Nem o reconhecerás.

Renega-lo, vives em paz,

Como os bois

Que as ervas pastam do presente

Donde todo o amanhã murchou ausente.

 

Quando te casares com a morte

Como é que a imortalidade

Há-de vir-te da bondade

Da consorte?

 

 

273 – Sozinha

 

Viverás sozinha, viverás.

A mulher vive sempre só,

Por mais capaz

Que seja o homem que ela erguer do pó.

 

Por mais que vivas com ele,

- É a tua dita e desdita –

Ficarás sozinha

Por dentro de tua pele.

E ninguém (acredita)

Fora de ti o adivinha.

 

 

274 – Demora

 

Se não entender agora

Vai compreender amanhã:

A criança demora

Mas não é nunca terra vã.

 

Quanto ouve ou vê

Será semente:

Logo cresce, cresce até

Que dá fruto mais à frente.

 

É da casta

De mais que tu aprender,

Mais que quenquer:

- Apreende tudo e basta!

 

 

275 – Adormece

 

Quando uma criança adormece

Em teus braços,

Logo o mundo te parece

Um recanto de paz

E de abraços.

 

O que um sono faz!

Dele nos rastros

Pendura de certeza os astros.

 

 

276 – Atarefado

 

Serás pai atarefado demais

À espera dum filho

Que aporte em teu cais,

A prender-te ao atilho

Que te salve, dia a dia,

Da sovinice

Da melancolia

E da velhice.

Um filho que te perca de vez

Da maldita grandeza em que crês.

Que te liberte para a infância

Da infinita distância!

 

 

277 – Torrente

 

O melhor da raça humana

É a criança,

Torrente inesgotável donde mana

Amor, alegria de viver,

Deslumbramento, confiança…

Contemplam o mundo no espanto de ser,

Cheias de frescura.

Do adulto experiente sem o preconceito,

A tacanhez, a usura,

A insensibilidade nem o despeito.

 

Já todos o fomos,

Todos gostaríamos de o voltar a ser…

- Que é que no meio entrepomos

Para a redenção da Humanidade se perder?

 

 

278 – Discípulos

 

Um mestre aos discípulos prejudica

Se permanente deles ao lado ficar.

Homens preparar implica

Que ele os há-de abandonar,

Ou, dele apenas as pegadas

Limitados a seguir,

Próprio não terão devir,

Doutrem sempre em caminhadas

Andarão a progredir.

E deles nunca mais terão estradas.

 

Um jardim não crescerá deveras

Duma grande árvore se debaixo o dispuseras.

 

 

279 – Incurável

 

O tempo cura e supera

O incurável que nos desespera.

 

Ou porque a vítima sobrevive

Ou porque pelo mundo fora

A aventura de novo cative

Quem por ele além ainda se demora.

 

Como estar, porém, presente

A quem precisar de nós?

Às vezes é sem palavras

Que atamos laços e nós:

Num abraço pertinente

A quem teu regaço abras,

Num toque gentil,

Naquele ombro onde chorar,

Num coração entre mil

Que se mantém solidário,

Fiel, a par,

Num ouvido atento…

 

- Embora solitário,

De algum destes nadas por fim vai soprar o vento.

 

 

280 – Trocando

 

Outrora podias buscar a solidão

Na selva, no mato, no bosque, na pradaria…

Perseguido, o senão

É que terias de mudar de fantasia,

Trocando teu chão.

Hoje, não.

Hoje tens de jogar com os mais.

Depois

Pode ser que de ti já nem haja sinais,

Dividido como estás sempre por dois.

 

 

281 – Duro

 

Em vez do trabalho duro

Para vencer, tens trabalho

Duro para te casares

Com a filha do patrão.

Teu apuro

Ata o negalho:

Vences para te vingares

Do custo da decisão.

 

O melhor ficou lá fora,

Coisa de menos valor

(Ai como a vida demora!):

- Que é que vós fazeis do amor?

 

 

282 – Represada

 

Sexo, amor…

Como água represada os sentirás,

A pressão cada vez maior,

A obrigar a lançar-te atrás

Dos pequenos canais que encontra,

Da ridícula abertura,

Duma refechada e bela montra,

Tudo arrastando contra

A tortura,

E apagarás terras, sóis, estrelas…

 

- Para no fim acabar

Num magro gotejar

Incapaz de quaisquer sequelas,

Nem um seixo há-de mover.

 

Dás contigo a matutar

Como é que um fio de gotas

Sem vigor, a esmorecer,

Pôde a força ter que anotas…

 

Princípio primeiro e eterno,

Em meio a teu tormento

Não aniquilas o firmamento,

- Sofreste-lhe o governo.

 

 

283 – Apreensão

 

A apreensão, eis a chave do domínio.

Avalias qual o grau dela num homem,

Predizes, infalível, incline-o

Ela mais ou menos, onde somem

As fronteiras de nele confiar.

 

Induze-la após artificialmente:

Ela existe a partir dum limiar,

Basta o estímulo, ei-la presente!

 

Depois é só dobar o rolo:

Maior a apreensão, maior o controlo.

 

Humana condição

De organizar,

Quão mais perfeita a organização,

Mais nos acaba a desumanizar.

 

Ligar de mão na mão

Não seria melhor alternativa

Para que no Homem o coração

Viva?

 

No percurso

Então aquela ficaria

Como a via

De recurso

Para quem, impenitente,

Teime em ficar do Homem ausente.

 

A questão

É se é regra ou excepção…

 

 

284 – Espacial

 

De fibra no teu fato espacial,

Com a mais avançada técnica industrial

De vácuo quase absoluto,

Tecnologia de ponta no produto

Que te envolve de raiz,

Tu, teu dia inteiro, tua vida,

Tudo imerso na magia envolvida,

- E tu nem sequer és feliz!

 

Porque não podes sair

Da espacial fibra do fato

Fabricado,

Esterilizado,

Para qualquer uso do porvir

Em acto,

Porque não és conhecido,

Porque não conheces

- Porque não podes tocar, como é devido,

Qualquer outro ser humano.

 

E arrefeces, cada vez mais arrefeces,

De desengano em desengano…

 

 

285 – Catre

 

É curioso como só descobres

Até que ponto estás apaixonado

Quando no catre da prisão

Te cobres

De solidão,

Após as grades se haverem fechado

Sobre ti!

 

Depois,

Não terás alibi

Para ignorar

Quando, à luz dos sóis,

A Primavera em ti cantar.

 

Terás de recordar, terás de recordar!

Ou arriscas-te a que outros arrebóis

Por tuas mãos se irão de vez apagar.

 

 

286 – Más

 

As coisas más

Nunca são tão más assim,

Verás,

Basta poderes convidar, ao fim,

Alguém que conheces, de quem gostes,

A partilhá-las contigo.

Em regra, por melhor que apostes,

Não lograrás colher abrigo,

Que ocupados os mais andarão demasiado

A sofrer por seu lado

E a tentar tocar-te às janelas

Para com eles ires sofrê-las,

Às dores que os consomem.

 

Quando viável, é consolador

Ver o mundo inteiro desfilar perante um homem

Escondido atrás da esquina,

Sem mesmo sequer supor

Aquela retirada clandestina.

 

Resta que é duro para um amigo qualquer,

Quando me embosco:

- É detestável vê-lo sofrer,

Mesmo connosco.

 

 

287 – Sociedade

 

A sociedade

Busca evitar românticos amores.

Quando o não pode, persuade

A destruí-los.

 

Nos maridos, tantos são os terrores

A persegui-los,

Não vá uma esposa traí-los,

Ainda mais por amor

Que não serve para comprar nada,

- Que o fervor

É de cruzada!

 

Nas mulheres

Financeiramente bem casadas,

Que por troca dos haveres

Foram elegantemente compradas,

Enganadas,

É o ódio supremo:

Deram a confiança

A sacrificá-lo,

Ao amor, para em troca terem segurança.

O seu demo

É o abalo

De tanto se detestarem

Que não suportam os que ao invés se amarem.

 

Se um amor pode ser feliz

Elas e os maridos viveram em vão.

Aventuras de adolescente cariz,

Nos anos da ilusão,

Talvez.

Após a idade da tolice

Mataram qualquer sonho que surdisse

De vez.

 

Então

Odeiam

Do fundo do coração

O fogo sagrado que os demais ateiam.

 

 

288 – Admitiste

 

Todo o mal principiou

Quando admitiste que a amavas.

Quando na trela pegou,

Segura do que lhe davas,

Pôde vir a forjar tudo

O que de ti pretender:

Serás sempre rei do entrudo

Que ela quiser.