SEXTO  ITINERÁRIO

 

 

 

DO  QUE  DEVIRIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 332 e 383 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

332 – Do que deviria

 

Do que deviria

Entalharei

No verso a nova grei

Que o pendão levantar duma utopia.

 

A magia

Do novo mundo que não sei

Na semente regarei

Que o prometa em qualquer via.

 

Suspeito que vou

Manquejando em verso a vida quanto a sou

Neste rumo a uma terra nunca havida.

 

Vivo enquanto

Nem imagino que descanto

A fortuna a jogar-me desmedida.

 

 

333 – Imprevisto

 

O imprevisto

Pode ser divertimento,

Porventura aduba o espanto.

Será um erro quando insisto,

Momento a momento,

Nos mesmos indivíduos, no mesmo recanto…

 

Caminhar todos os dias

Pelas mesmas frontarias

Acaba por esmorecer

Delas todo e qualquer

Encanto.

 

O pranto

Da vida

É exorcisado à medida

Da nova melodia que nela implanto

E canto.

- Aí vou encontrando saída.

 

 

334 – Feérico

 

Darás o espectáculo feérico e apaixonado

Duma vida

Talhada à medida

Do infinito

E, pouco a pouco, bocado a bocado,

Restringida

A quase nada.

 

Do nobre fito

Fica-te a noite assombrada,

Mais e mais desviada

Daquele esplêndido quesito

A que devera ser votada.

 

Fica teu grito

Na estrada.

Solitário. Finito.

 

 

335 – Tiroteios

 

Os dois campos inimigos

Um do outro os tiroteios

Não vêem dos abrigos.

Crê cada qual que apenas ele tem os meios,

Argumentos,

Direitos e armamentos

Para levar de vencida o rival.

 

Quando percebemos

Que é tudo igual,

Anulam-se os extremos:

Deixas de admirar o atirador,

De desprezar o alvejado,

Ambos são um e outro, conforme o lado

Que queiras expor.

 

Aqui principia

A sabedoria.

Se queres sábio vir a ser

Com uns e outros hás-de romper

Definitivamente:

- Outra será tua frente.

 

 

336 – Salto

 

Darás um salto,

Abraçarás e beijarás tua mãe,

Correrás feito cachorro por todo o planalto,

Pincharás as pedras de basalto,

Colherás a papoila e a cecém.

 

Gritarás de alegria,

Menos da alegria do passeio

Ou da colheita do dia,

Antes da felicidade que te expandia,

A jorrar-te do seio.

 

A vida a alastrar

Sem culpa nem delito,

Para além da floresta, do céu, do mar,

A abraçar o infinito.

 

Bem gostarias,

Nulo

Como te encontras em tuas vias,

Bem gostarias

De atingir o Além num pulo!

 

Eterna criança

Sempre em busca do que jamais alcança…

 

 

337 – Lodo

 

Se cai no lodo o que queres,

Seja embora abismo negro,

Vai salvá-lo, mal puderes.

Se te perderes,

Não serei eu que me alegro,

Serás tu, por o fazeres:

Crescerá nédio

E tanto vive

O sonho a que serves de remédio

Que a ti próprio sobrevive.

 

 

338 – Gólgota

 

Quem teria imaginado

Que o Gólgota deviria

Tão grande pelo mundo desdobrado?

Se do Amazonas a bacia

Soubera do fio de água da nascente

Decerto desistiria,

Da imensidão temente

Que atingir jamais creria.

 

De ser homem o segredo

É que a luz irradia,

O som se expande,

E tudo o que é grande,

A medo

No zero principia,

Como um grito

De quebrada em quebrada,

- E corre do nada

Ao infinito.

 

 

339 – Amarras

 

Quantas vezes na vida

Não temos coragem de cortar

Amarras que, de seguida,

Nos impedem de avançar,

Ir por diante!

Para cada despedida

Quanta noite hesitante!

 

E quantas vezes este corte

É o gesto que separa

A vida da morte!

 

Como a Vida é rara!

 

 

340 – Vã

 

Não te iludas, amanhã

Irás ter um dia a mais

E um a menos que viver.

É vã

A espera de alguns sinais

Que isto venham inverter.

 

Adiamentos

Serão sempre uma ilusão,

Não serão fim dos tormentos.

 

O tempo foge.

Não,

Não percas o dia de hoje!

 

 

341 – Neura

 

Ao pensar no futuro

Ficas neura, ficas?

Deixa-te disso, faz um furo

Na lata de sumo e vê se te aplicas

A descascar laranjas,

A esfregar o chão…

 

- Verás como arranjas

Outro coração!   

 

 

342 – Aguilhões

 

Sofrimento e morte

São aguilhões do futuro,

Minha sorte

E meu seguro.

 

Quantos sofrem, quantos?

Pouco importa isto sequer,

Mas apenas ver que tantos

Não sabem como sofrer..

 

É que a dor

É mera carta patente

Para, queira ou não queira, se propor

Cada qual fugir em frente,

 

Ao tentar ultrapassá-la.

É minha lei

Que mais alguns degraus treparei

Na escala

Cujo termo nunca alcançarei.

 

Minha mala,

Porém, já aviei.

Para onde,

De tanto que o porvir se esconde,

Nnca saberei.

 

Nenhum roteiro se aluga,

Nenhum guia traz a cura

Nos trilhos de fuga

Desta aventura.

 

 

343 – Lembrados

 

Somos todos diferentes,

Sempre embora semelhantes

E o que sentes

Cruza os homens e os instantes.

 

Morrem por ser sempre iguais

Muitos por todos os lados:

O que ao fim os mata mais

É jamais serem lembrados.

 

Por dentro ali morrerás…

Um amor de imitação,

De desejos incapaz,

Não te traz recordação.

 

Não pedes que te deseje,

Tudo o que lhe vais pedir

Nem sequer é que te beije,

É que te lembre a seguir…

 

Ser lembrado, na verdade,

Inaugura a eternidade

Tal qual, à tua medida,

Pode aqui ser perseguida.

 

 

344 – Acima

 

Acima do velho Deus da vingança,

Do novo Deus do perdão,

Vem o Deus da aceitação,

O Deus do amor que alcança

O perdão suplantar,

O Deus que nunca ouviu,

Nem falou, nem viu

Do Mal a figura singular

- Porque o mal nunca existiu!

 

Como é que ainda ninguém conseguiu

Disto falar?

- Que vazio

Nesta falta de lugar!

 

 

345 – Pai

 

Um pai é sempre aquele

Que espera dos filhos, cada dia,

Que tão bons sejam, dentro e fora da pele,

Como ele ser pretenderia.

 

Como o tempo lhe devém escasso

Neles cultiva a glória

Da vitória

Contra o próprio fracasso.

 

Mais que pai

Ele é também,

Para o filho que pelo mundo vai,

- Um sonho de além.

 

 

346 – Estilhaçar

 

Que fácil estilhaçar a história,

Quebrar da memória

A cadeia,

Destruir o fragmento de sonho

Transportado

Com cuidado

Pela ameia

Da vida, a qual, mal a transponho,

Logo na aresta o quebra e aplana

Como um vaso de porcelana!

 

Deixar existir o sonho,

Partir com ele à aventura

É o mais difícil, suponho,

De quanto em nós se depura

Para, ao fim, tomar figura

O pouco de céu de que disponho.

 

 

347 – Exploram

 

Os homens exploram

Para descobrir.

Descobrem que ignoram

Só para adquirir

Mais conhecimentos.

Um outro saber ganha

Melhoramentos

Ao que dia a dia se apanha.

 

Para além dos horizontes

Que a vista corrente alcança

Cria a humanidade as pontes

Por onde a História lhe avança.

 

Culturas que se fecharam

Sobre seu próprio horizonte

Não avançam, já secaram

De qualquer porvir a fonte.

 

Se hoje olhamos para o espaço

É que nele, ao infinito,

Prolongamos nosso traço

Da libertação no fito.

 

 

348 – Árvore

 

Religiões, artes, ciências

Todas são diversos galhos, diversos ramos

Da mesma imensurável árvore da floresta

Das paciências

Da vida. Árvore de escapar aos amos,

Rumo à liberdade, à festa

Que algures por nós espera…

…Só não sabemos em que era!

 

- Mas cá vamos, adiados,

Sempre a juntar os bocados.

 

 

349 – Ardes

 

Queres não sabes o quê

E ardes por te dedicar

Não descortinas a quem…

O eterno adolescente ao luar

Que te convém!

 

Assim

Te irás descobrindo

Neste ir indo, neste ir indo

Até ao fim…

 

Assaz

Te descobrirás

Na leveza de tal desporto,

Ao ires, ires, ires,

- Para te não descobrires

Antecipadamente morto.

 

 

350 – Excitar

 

Excitar

Ao que quer sentir a multidão

Em lugar

De a conduzir pela mão

Ao que deve sentir,

É condescender

Em liquidar o porvir

Em quenquer.

- E eis como perdemos pé no chão.

 

 

351 – Estético

 

Nenhum prazer estético é transitório,

Que a marca imprime eterna

De energias ocultas num envoltório

Cujo raio fende a caverna

Que me estreita.

E ninguém pode calcular

O horizonte onde vai dar

A brecha que desde então dali me espreita.

 

É um estranho grito

A chamar-me do infinito.

 

 

352 – Lábil

 

Em mãos de escultor hábil

Não há qualidade

Que, bem desenvolvida,

Não sufoque, lábil,

Os defeitos duma mocidade

Quando ama, decidida.

 

O problema

É quando o mestre não atrema

 

Ou quando o sentimento

É um viravento

 

Ou quando ambos, por junto,

Nem chegam a ser tema de assunto.

 

Então é a queixa

De que para o porvir já não resta qualquer deixa.

 

 

353 – Finalidade

 

Do mundo a finalidade

É morrer:

A vida é uma condenação

À morte.

Por que se há-de

Viver

Então?

É uma sorte

Sair do nada para entrar no nada,

Como quem perde uma estrada

Por falta de transporte

Mal ela foi encontrada?!

 

E, contudo,

Gostamos da caminhada!

É um entrudo?

- Ou uma largada

Para tudo?

 

 

354 – Fotografia

 

Fotografia

É na linha do horizonte

Pôr cabeça e coração

E os olhos na fantasia

De criar ali a ponte

Que os tempos todos à mão

Nos venha a pôr qualquer dia.

 

É fantasia, senão

Aquilo que o dedo aponte

Tanto o estica de verdade

Que um dia perfura a fonte

E é no tempo a eternidade.

 

 

355 – Derramado

 

Quanto sangue derramado

Esterilmente,

Quantos séculos de contado

E a miséria sempre à frente!

 

Milénio a milénio, a mesma escolha

Para o mesmo resultado:

Guerra ao rico do pobre para recolha…

E o fim sempre gorado!

Quando o marulho da utopia

Apenas o conciliaria

A mútua entreajuda,

Único cimento que, de verdade,

Gruda

Pobreza e felicidade.

 

Traduz a fraternidade

Para o homem do trabalho

A felicidade.

 

De material o que valho,

O labor o cria.

Sem ao rico surripiar,

Que ser invejoso e avaro

A ninguém serve de amparo.

A mais-valia

Vem de quanto partilhar.

 

A maior sabedoria

É a de amar.

 

 

356 – Bomba

 

A educação

É uma bomba retardada,

Em sala de aula montada,

A fim de explodir mais tarde,

Em adequada e propícia ocasião.

 

Não é raro, sem alarde,

Darmos com uma espoleta

Educacional

Dezenas de anos à espreita

Do momento ideal.

 

E a acção retardada

Inaugura então nova madrugada.

 

 

357 – Palavra

 

A palavra é o poder gémeo

Que o Deus e o Homem partilha:

Venera-o, teme-o,

Que és barco de que ele é quilha.

 

 

A queda dos impérios a palavra liberta

E os homens duma errada servidão.

Desperta,

Ergue o termo no punhal da tua mão!

 

Poderás renovar o mundo e a vida,

Feito lava dum vulcão,

Com uma palavra espargida,

Semente atirada ao chão.

 

 

358 – Vozes

 

Fundem-se as vozes para cantar juntas

Todo este fugaz escoar da vida.

Se em vão viemos é quanto perguntas,

Cruzando terra em vaga despedida.