SÉTIMO  ITINERÁRIO 

 

          DO  QUOTIDIANO  A  MAGIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                        Escolha um número aleatório entre 384 e 448 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

384 – Do quotidiano a magia

 

Do quotidiano a magia

Procuro em qualquer sabor

Para o viver e o expor

No canto em que busco o dia.

 

Meu guia,

Da rotina sob o bolor,

É do tépido torpor

Saborear a modesta alegria.

 

Trocando o passo

No verso da vida

Me ultrapasso

 

Encantando humilde cada lida.

E do encantamento na insignificante verdade

Cultivo minha melhor identidade.

 

 

385 – Extensão

 

É a paz extensão da guerra

Por meios políticos:

A diplomacia também ferra

Com dentes graníticos.

 

Apenas as explosões

São de garrafas e copos,

Mas visam escopos

Que visaram os canhões.

 

A paz

É a guerra

- Ou então não é capaz

De semear a terra.

 

 

386 – Engenharia

 

A magia

Dum homem

Devém engenharia

Doutros que por fim a consomem,

Sem mais poesia

Nem a faísca que alumia

Os trilhos que se tomem.

 

Sobrenatural, palavra nula,

Hoje em dia

Nem ao caminho nos açula…

 

Aquilo que bula

E aqueles que bolem

Que lume os guia

Sem que nas curvas da via

Se enrolem?

 

 

387 – Demasia

 

Sendo céptico em demasia,

Podes errar tão facilmente

Como quem demais confia.

 

Entre extremos mora assente:

- Depois, então, sem medida

Entrega-te à corrida!

 

 

388 – Endoidecer

 

Podem os animais endoidecer

Se muitos deles arrebanharmos

Em recinto fechado.

O único animal a proceder

Voluntário e com agrado

Para em massa nos amalucarmos

É o Homem.

- Assim,

Por quem querem que nos tomem,

No fim?

 

A racionalidade,

Usada de tal jeito,

É uma faculdade

Ou é um defeito?

 

 

389 – Preconceito

 

Contemporânea, a mulher

De todo o preconceito

Libertar-se quer.

Acaba, porém, por entender

Por preconceito o que é princípio

E então vai varrendo ambos a eito.

 

Equipe-o

De ostentação embora,

O convencimento

De que é flor delicada o que elabora,

Mais não é que o documento

Da irremediável confusão

Em que decai, decai, decai

E se esvai

Sem defesa nem perdão.

 

Apenas porque lhe não ocorre

A fina distinção,

Morre.

 

- Dos preconceitos quem o coração

Te libertará,

Não dos princípios que houver lá?

 

 

390 – Agradece

 

Agradece a quem te dá felicidade,

Ao jardineiro que te faz florir.

E mais agradece à crueldade,

Que o cruel apenas te dará porvir

Ao podar-te os ramos mortos

Sementes espalhando nos teus hortos.

 

Pisar as migalhas de ventura

Que enganam a miséria

É o que teus olhos te apura

Para tua vera matéria.

 

O que é triste

Faz-te bem:

O alegre engana a fome que existe,

Jamais te sacia mais além.

 

De ser homem o cargo

Requer esta lesão:

Para te sustentar, o pão

Terá sabor perenemente amargo.

 

 

391 – Pecado

 

Ganhar dinheiro é pecado?!

Não sejas louco!

Deus nos dê muito e, por outro lado,

Nos contente com pouco.

 

A receita de ser feliz

É ter um pouco mais do que se quis

E um pouco menos querer

Que aquilo que se tiver.

 

 

392 – Consome

 

Grande mal, o do pobre com fome!

Pior mal, porém,

É o do rico que, depois de farto, se consome

Da fome que ainda tem.

 

Pior para ele que sofre

E para nós , que nos quer no cofre!

 

 

393 – Brinquedo

 

Quando eras criança, o brinquedo,

Por não ser sofisticado,

Tinha de ser completado

Com um segredo:

- A imaginação.

 

O facto não ilude:

Aqui a imperfeição

Era virtude.

 

 

394 – Perfeccionista

 

Quem gostar de operar tudo

Da melhor maneira

É um perfeccionista.

Nada errado, não fora que lhe acudo

Deste abismo à beira,

A miúdo:

- O medo terrível de falhar.

No limiar,

Com a perfeição em vista,

Devém o mais preguiçoso:

Tanto tempo se adia

Que finda, pressuroso,

A aldrabar tudo no derradeiro dia.

 

Ante um final meramente sofrível

Acaba a consolar-se:

“Que mais era exigível

Em tão pouco tempo disponível?”

- E nem repara no disfarce!

 

 

395 – Decidirás

 

Decidirás como deve ser,

Com grande esforço.

Cuidarás que te poderás deter

Um pouco, sem remorso.

Porém, nova decisão

Se te imporá sem remissão.

 

E, enquanto continuares a decidir

Da forma que se antolhe justa,

Eterno continuarás a reincidir,

Um milénio cada dia,

À tua própria custa.

 

Os outros, todavia,

Decidindo uma só vez e mal,

Porque mal optaram como milhões e milhões,

Livraram-se de vez todos e cada qual

De tomar decisões.

 

Distintivo primeiro

De teu ganho,

Demarcarás o Homem do carneiro

Do rebanho.

 

 

396 – Cargo

 

Não é teu,

É do cargo que desempenhas?

- Um cargo nunca tem nada de seu,

É o que dele quiseres,

É o que, com tuas manhas,

Teceres.

 

É o lago que espelha o céu

Do ser de teus seres,

Teus teres e haveres

Postos ao léu.

 

Que um cargo nunca tem nada de seu.

 

 

397 – Acidente

 

Poderá um homem qualquer

Um qualquer carro guiar.

O que, porém, nunca há-de ter

Um acidente ao calhar,

É aquele

Que atender a um pormenor:

- Guia por ele

E pelo outro condutor.

 

 

398 – Segredos

 

Após tempo bastante num mister

Acabarás por lhe saber

Os segredos

Que nenhum profissional de lá

Publicamente discutirá.

Descobrir os credos,

Porém,

É como os desastres que os outros têm:

Não és tu este homem sem braços.

Recolhes-te ao abrigo

De não ser nada contigo.

 

Doutrem com os pedaços

Quando a estrada se junca,

Sempre lês nisto os sinais

De que ocorre com os mais,

Contigo, nunca!

 

 

399 – Arsenal

 

Verás que o bom general

É o que tiver a mentalidade

De ver homens como massas:

Arrumados no arsenal,

Numérica totalidade

De oficiais, sargentos e praças.

 

A granel

Somados, diminuídos

E, como tal,

Compreendidos

No papel.

 

Homens tão abstractos

Como os algarismos

Lançados aos maus tratos

Da estatística e dos catecismos.

Verás que para consolar as mães

Fora da lei porá o bordel

Mas, quando forem mortos como cães

Os soldados do papel,

O general, de tão orgulhoso,

Babar-se-á de gozo!

 

 

400 – Ferida

 

De algo quando gosta alguém

É impossível proteger-se:

É a ferida que ele tem

A que o inimigo há-de ater-se.

 

Se um olho tens magoado,

Quenquer

Que te queira bater

Vai-te bater desse lado.

 

Então, se gostas de cozinhar,

Tens de fugir da cozinha,

Vais para o campo mondar.

Se a monda é o que te convinha,

Terás de fugir de lá:

Refugiar-te a um balcão

É a defesa que haverá…

- Para tua salvação terás de fugir de ti:

Escolhes a perdição!

 

Ficarás, porém, a salvo

Enquanto escondido ali,

Tens vitórias, promoções,

Que nunca podes ser alvo:

Não há um fraco ou aleijões

Onde te possam ferir.

 

- Esperteza de papalvo:

Andas tu de ti a rir!

 

 

401 – Coices

 

Não poderás rejeitar

Valores da multidão

Sem sofrer, a par,

De mil coices a lesão.

 

Quando a multidão ligar

A vida a uma ideia idiota,

Se pretendes proclamar

Que para ti não tem cota,

 

Inevitáveis então

Vêm efeitos decorrentes.

Revelar-lhes o aleijão

Leva-os a quebrar-te os dentes.

 

Um ideal colectivo

Que afinal é inanidade

É no arquivo

Anular-lhe a identidade:

 

Tais vidas não valem nada,

O que sempre irrita as gentes.

É que, de entrada,

Entrementes,

Há-de preferir quenquer

Ser uma coisa de nada

Que nada ser.

 

 

402 – Medo

 

Medo social, eis a mais potente

Fonte isolada de poder

Existente.

A única a permanecer

Quando a máquina do sistema

Destruiu

O código dos valores positivos.

Como é que o lema

Se te sumiu

Em registos tão esquivos?

 

Desperdiças a força

Em trivialidades,

Como quando requeres virgindades

Em casamentos de comborça.

 

Futilidade idiota…

Que asneira

Andares a apontar tua mangueira

Rota

(Tendo à volta o mundo inteiro a perecer)

Contra uma folha de papel a arder!

 

 

403 – Podre

 

Num mundo podre

Para te destacares,

Apenas sobressaltando os demais:

Dos venenos abres teu odre

E, enquanto o envenenares,

O mundo divulgará teus sinais.

 

Terás má publicidade,

Preferível a não ter nenhuma.

A boa, porém, qualquer idiota que agrade

A logra ter, mal a presuma.

 

Má publicidade, aliás,

É melhor que boa:

Choca as pessoas e ficarás

Na memória que pelos tempos reboa.

 

Num mundo podre, no mundo,

Vences mais quão mais imundo.

 

 

404 – Esforçar

 

Terás de te esforçar tanto

Para conseguir uma coisa qualquer

Que ao fim, quando a logras, todo o encanto

Acabou já por morrer.

Não é porque te esquece:

- Perdeu antes todo o interesse.

 

 

405 – Direito

 

Perguntar-lhe-ás se tinha

Direito a fazer o que fez.

Espantado se adivinha

Que, olhando-te da cabeça aos pés,

 

Dirá que sim,

Que sempre lhe ensinaram

Que devia fazer o que é direito!

Assim,

Nos juízos que se lhe deparam

Ao que fizer presta preito:

De cada vez

Que agir

Tudo o que fizer será bem feito

Simplesmente porque o fez!

 

E a seguir

Recordará que lhe ensinaram que é um defeito

Fazer o que não é direito…

 

Na vida distinguir

O efeito

De tal feito

Não faz parte do entremez.

 

Deste jaez

Verás que com toda a justiça

A injustiça tudo enguiça.

 

 

406 – Pequenas

 

Quando ficas em apuros,

As coisas pequenas,

Um cigarro, uns figos maduros,

Ficam tão maravilhosas, tão plenas

Que meditas:

Se escapares,

Juras que a importância

Lhes repitas

Para além das singulares

Dificuldades de circunstância

Em que te vês envolvido.

 

Uma vez o aperto transcorrido,

As pequenas estrelas,

De quando te amanhecia

O dia,

Já nem darás mais por elas.

 

É o que te perde e te salva

A luz de alva.

 

 

407 – Raridades

 

Ajoujas a casa de raridades,

Depois torces a espinha

Entre cristais, porcelanas e jades,

Labiríntico, e não te persuades

A mudar de linha.

 

Vestes a festa de tecidos caros

E sofres o dia, receoso

De lhes entornar em cima os vinhos raros

De teu gozo.

 

Mandas pintar o carro por ter um risco,

Depois irás a pé,

Não vá, por acaso, qualquer cisco

Riscar a obra que puseste em pé.

 

Teu sobretudo mais caro

Fica-te após no roupeiro,

Não vás ouvir o reparo:

- Trocaram-no no bengaleiro!

 

Teus tapetes

De plástico os tens cobertos,

Que as nódoas caem, repetes,

Nos cantos mais incertos.

 

Serviços de copos e loiça,

Comprados com sacrifício,

São, afinal, desperdício

Onde a fome não retoiça,

Reduzidos a um resquício

A espreitar, na cristaleira,

Como ao que é bom lhe convém,

A ver se vislumbra a visita de primeira

Que afinal nunca te vem…

 

- Coração velho e caduco,

Um estômago ulcerado,

De nervos esfrangalhado,

E tu, eunuco,

Mas de casa limpa e fresca,

Peças intactas, religiosamente

Fora de alcance de quem as repesca

No museu de teu lar…

 

Quem te mente,

Quem te mente sem parar?

 

 

408 – Aspiro

 

Quando aspiro a que a justiça

Na terra impere

Eu faço parte da liça

Que a gere.

 

A justiça que existir

Vem tanto de nosso esforço

Que, se a não vir,

Terei remorso.

 

A justiça que há na terra

É a que em nossos corações

Como a semente nos talhões

Se aferra.

 

 

409 – Aprender

 

Aprender

Não é apenas descodificar palavras,

É compreender

Como opera a ciência

Quando o chão com ela lavras,

Entender

As esperanças por trás da evidência,

E os perigos, os perigos

Que a tecnologia,

Sob a capa de abrigos,

Espalha pelo mundo cada dia.

 

 

410 – Incerteza