OITAVO  ITINERÁRIO

  

MEU  SER  DE  DESEMBARAÇOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 449 e 508 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

449 – Meu ser de desembaraços

 

Meu ser de desembaraços

Procuro e perco de vista

Mas a pista

Cobre-me os versos de traços

 

De conquista.

E dou-lhes braços,

Muito embora sejam escassos

Para o sonho que tenho em vista.

 

Caminho

E, enquanto vou,

Construo e adivinho

 

O que sou:

Na larga campina vago pé de linho

Que alguém por milagre cultivou.

 

 

450 – Pecado

 

Pecado é fazer mal

A alguém.

O mais não vale

Nem o desdém,

Mera superstição

De ingénuas fés

Em que todos, é verdade, cairão

Uma e outra vez.

 

Cúpido,

Quem a si se magoa

Não é um pecador à toa,

É um estúpido!

 

 

451 – Estupefacto

 

O espanto que te põe estupefacto

É o do enorme escândalo de existir:

O facto

É que tens de ir

Palmilhando as ruas

Uma atrás doutra, de seguida,

Caminhando para a morte às arrecuas,

De olhar fito na vida.

 

 

452 – Acredita

 

Acredita,

Não é para a terra mas para o céu

Que tens de olhar, antes de plantar

Qualquer rebento de teu.

Não para o húmus que te fita,

Acredita,

Mas para a luz solar

Que te alcançar.

Melhor cresce o arbusto preso

Na rocha, à luz morna do meio-dia,

Que ao de húmus adubado, ileso

A sombra o ergueria.

 

A luz é que te preza,

A pureza da luz.

Ela é que em beleza

Te traduz,

Da raiz à ramaria,

Da escuridão para o dia.

 

 

453 – Ideologias

 

As ideologias

Têm sempre um olhar tão lindo!

O corso findo,

Se as caudas lhes espias,

Apenas então repararias

Que todas têm um nó

Que ninguém desata.

 

Por isso todas, ao fim, te reduzem a pó

Sob a pata.

 

 

454 – Ocupado

 

Quando o consciente anda ocupado

De forma total

Noutro lado,

- Aí germina em regra a ideia original.

 

Donde vem,

Quem descortinará?

Nem consciência nem vontade a contêm,

Chega sempre do lado de lá,

Daquele onde ninguém

Nenhum domínio tem.

 

Chega, porém,

Diz-nos: “olá,

Aqui me têm!”

- Nunca vislumbramos quem

Nos cumprimentará

De Além.

 

 

455 – Virgem

 

Homem ou mulher,

A perene virgem serás

Em que uma decisão errada

É assaz

Para a vida inteira comprometer.

 

Carruagem

Uma vez descarrilada,

Jamais correrás a mesma viagem.

No apeadeiro em que te esperas

Jamais voltarás a ser o que eras.

 

Quando baralhas o baralho da vida

É o baralho da casa que baralhas,

Jamais o que, sem falhas,

Guardas na manga com a carta escondida.

 

 

456 – Dor

 

A dor não é fútil,

Não,

A dor é inútil.

Ou então

Podê-lo-á não ser

Se a transformares numa coisa qualquer.

 

Como numa música triste:

A dor existe

- Mas é uma beleza a doer!

 

 

457 – Corporação

 

Compreenderás que um homem

Que trabalhou a vida inteira numa corporação

Pode suicidar-se por não ter à mão

Outro meio de exprimir-se.

Quantos se somem

Testando a última fronteira que resiste!

Para o suicida, sumir-se,

Estupidamente,

É a prova de que existe

Simplesmente.

 

 

458 – Inviabilidade

 

Lerás a opressiva inviabilidade

De qualquer humano

Comunicar e compreender doutrem a mente:

Uma personalidade

É um engano

Permanente.

 

Nada na vida

Se te mostra jamais,

Tudo são meros sinais

Dum eterno outro que te convida.

 

Ora, tua prece

Não é nunca o que parece.

E o que é,

Por mais que te more ao pé,

Jamais te aparece,

Nem dele darás fé.

 

Verás que a porta fechada

É fatal na jornada.

O outro, porém, aí está.

- Quem será? Quem será?…

 

 

459 – Pirâmides

 

Amanuenses, reis e pensadores

Verás que falam

E que governam com a fala o mundo.

Pedreiros, carroceiros e construtores

De pirâmides abalam

E, mudos, no silêncio fecundo

Dos que se calam,

Com as mãos constroem o mundo.

 

Constroem-no de silêncios

Para os demais o falarem.

 

Vence-os

Tanto a palavra

Que quando as palavras o mundo afundarem,

Enquanto tudo se escalavra,

De novo eles tudo reconstroem

Só porque os silêncios os moem.

 

- Só porque, dirás, eles não

Têm outro modo de expressão.

 

Entre falar e ser

Qual a ponte que há-de haver?

 

 

460 – Escolha

 

Não, nunca terás tudo.

Alguns com mais sorte poderão escolher

(Não é uma escolha, contudo)

Mas ninguém há-de conseguir

Tudo o que de bom houver.

 

Terás de pagar o preço

Do que em vida te atingir,

O que é caro, de começo:

Irás ter de desistir

Do que sonhavas deveras.

 

Nunca, porém, saberás,

Entretido nas esperas,

Até ao momento dos maus tratos:

Não podes voltar atrás,

Cumpres de vez os contratos.

 

 

461 – Ignorar

 

Não foges ao mal da vida

Por te revoltares contra,

Como não, pela medida

De lhe ir ignorando a montra.

 

Não tens fuga, não,

Se te não convertes a uma acção.

 

E, mesmo aí,

Que dependerá de ti?

 

 

462 – Religiões

 

Todas as religiões

Principiam por baixo,

Com meretrizes, proxenetas e ladrões,

Como é lógico: os insatisfeitos são o facho.

Os felizes, nem a meias

Aceitam novas ideias.

 

Todas arrastam ao martírio

Os inovadores, os heróis,

Logo depois.

É a natural selecção:

Entre o delírio

E a razão.

A vitória

É de quem suplantar a perseguição:

Entra na glória

E na universal divulgação.

 

Então, os felizes,

Apenas então,

Em toda e qualquer religião,

Satisfeitos, ignoram os juízes

Com que por medo fizeram a perseguição,

Dão meia volta,

Aliam-se aos perseguidos,

Convencidos

Pela mesma razão

Que outrora pusera o diabo à solta

Para levar à tortura e à prisão.

 

Nesta altura

Toda a religião começa a perecer:

Quando um Constantino qualquer

Apura

Que a tem de oficialmente reconhecer,

Decreta

Que principia a tornar-se obsoleta.

 

Quão

Mais forte a religião,

Mais tempo leva a triunfar,

Mais tempo a morrer vai demorar

E mais bastardos gera

Pelo caminho.

E sobre cada qual impera

Igual pelourinho.

 

Anunciadas, brotam,

Triunfam, são aceites,

Degeneram e se derrotam,

Decaem, mal em repouso as deites.

Quando cumpriu, vencedora,

Ensinou a doutrina,

Uma religião não demora,

Declina.

Tem de se fragmentar

E decompor,

A dar lugar

Ao sucessor.

 

Judaísmo:

Deus da guerra, da justiça, dos tormentos.

Depois o cristianismo:

Deus do amor, do perdão, aplacada a sanha.

Primeiro os Dez Mandamentos,

Depois o Sermão da Montanha.

 

Que religião

Para um Universo em expansão,

Para um mundo em perene evolução,

De Deus para o devir

Em que tudo é mutação?

Que Deus irá surgir

Que não mude um pecador num torresmo,

Que em vez de imutável, eterno,

Resolva o desafio superno

De não ser duas vezes o mesmo?

 

 

463 – Alternativa

 

Não existe alternativa:

Por trás dum muro de pedra viva,

Outro muro mais subtil…

O mundo não tem outra maneira,

Por mais que à minha beira

Andem sempre mais de mil

A arrotear a sementeira.

São sempre muros e precipícios

Quando reparo por trás dos indícios.

 

 

464 – Podado

 

Um homem desligado

Do próprio país,

Perde a raiz,

De Deus podado.

 

Não devém cidadão do mundo.

Castrado,

É infecundo

Em qualquer traslado.

 

Só pelo particular

Atingimos o geral:

Um amor requer um lar

Com quanto lhe for leal.

 

Tudo o que for abstracto

Vive em ânsia

Pelo trato

Discreto

E concreto

Que lhe dará substância.

 

 

465 – Consciência

 

A má consciência

É uma consciência boa:

É da virtude a premência

Que dentro de nós reboa,

De nós se apodera, escusa,

- E nos acusa!

 

 

466 – Ponto

 

Solitário ponto

Na gigantesca escuridão

Do Cosmos envolvente,

Eis a Terra, o planeta onde me aponto

Com a mão

Tremente.

 

Tão obscuro

Dentro da imensa vastidão,

Nenhum indício apuro

De que Alguém

No fim

Virá de Além

Pegar-me na mão

Para me livrar de mim.

 

 

467 – Semente

 

A democracia contém

A semente da própria destruição,

Afinal:

O poder de escolha é também

A decisão

De poder escolher mal.

 

Tolerá-lo,

À democracia

Traz o abalo

De andar sob pontaria.

 

Eliminá-lo

Matá-la-ia.

 

 

468 – Emigrado

 

No mundo há brancos, pretos,

Amarelos e emigrados.

Divergem nos tectos,

Na fortuna, nos cuidados…

 

O emigrado é aquele

Que não pode mudar de condição

Como ninguém muda a cor da pele

Conforme a ocasião.

 

 

469 – Volubilidade

 

A graciosa volubilidade

Esconde do espírito a pobreza

Como mascara a natureza

Dum terreno a esterilidade

Com a facúndia de que te encantas

De efémeras plantas.

 

E de igual modo te seduz

Aquela máscara de luz.

 

No fim pagarás caro

O ouropel como um bem raro.

 

 

470 – Uma

 

Esta coisa que anda, bebe e come,

Que pode ter filhos, matar-lhes a fome,

Educá-los admiravelmente,

Faz de mulher tão bem, em suma,