NONO  ITINERÁRIO

  

EM  METRO  CLÁSSICO  O  ÍNTIMO  DEPURO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 509 e 636 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

509 – Em metro clássico o íntimo depuro

 

Em metro clássico o íntimo depuro

Descendo às profundezas pela escada

Que em meu poço mergulha escurentada

Em degraus cada qual menos seguro.

 

Dou-te a mão no tenteio da pegada

Que esbarra cega no ignorado escuro

E ao sentir teu calor já me asseguro

Que vale a pena, enfim, a caminhada.

 

Em versos canto este luzir do rumo

Que mão na mão podemos partilhar

Ao mergulhar então no abismo a prumo.

 

Não é luz que ali vamos encontrar,

É a raiz do que somos posta a nu:

- Somos Nós e não mais este Eu e Tu.

 

 

510 – Namorados

 

No dia dos namorados

Os casais provam o gosto

Dos vinhos de outrem guardados

Nas caves com cheiro a mosto.

 

E os namorados aposto

Que não sonham que cuidados

Tais pitéus terão suposto

Do amor donde vêm gerados.

 

Só nós, mulher, o sabor

À merenda retomamos

Das voltas que deu o amor.

 

A vinha estendeu os ramos,

Cada gavinha maior,

E hoje aqui tudo abrigamos.

 

 

511 – Cantiga

 

Cantiga de solidão

À mulher derrete bem.

E como a verdade é tão

Verdadeira ali também!

 

E também a falsidade:

Quando a uma mulher um homem

Desabafa a soledade,

Tais falas logo esta somem,

 

Já deixou de estar sozinho.

Novelista que acredita

No herói que pôs no cadinho,

Doravante o mais é fita.

 

 

- Mas na fita de cinema

Nunca viveste teu lema?

 

 

512 – Premente

 

Quando algo encontrar alguém

De que goste realmente

Deve agarrá-lo, premente,

Venha daí mal ou bem.

 

Seja ou não correspondido

O seu amor, é manter-se

Firme em tudo quanto verse

Esse amor que haja escolhido.

 

Se, finalmente, do amado

Tudo o que vier o mata,

Ainda lhe deve ficar

 

Agradecido e obrigado

Pela dádiva que acata

Desta ocasião de amar.

 

 

513 – Atenção

 

Darás atenção ao filho

Quando ele se porta mal,

Sem bendizê-lo, afinal,

Do bem quando tem o brilho.

 

Gritas ou farás pior

Quando os factos se complicam

E do elogio o valor

Ignoras quando bem ficam.

 

Um elogio é vital,

Obra melhor que o castigo.

Se não for o principal

Em que procuras abrigo

 

Com teu filho o mar de rosas

Como mar de espinhos gozas.

 

 

514 – Crítica

 

Não é crítica constante

Mas a mulher, quando é mãe,

Constantemente é perante

A tesourada que vem.

 

Têm as mães em comum

A sina de mau sinal:

Farão (se farão algum),

Farão sempre tudo mal.

 

O controlo social

Provavelmente em nenhum

Grupo humano tão real

É como aqui qualquer um.

 

Melhor é incógnita andar

Sendo mãe, mas devagar…

  

 

515 – Paixão

 

Num instante uma paixão

O carácter te transforma:

O indiscreto se conforma

Ao diplomata mais chão,

 

Fica valente o poltrão

E quem infringiu a norma

Da moral recolhe a forma

Em súbita conversão.

 

Por ódio ou por amor

Devém o pródigo avaro.

O fogo de ti senhor,

 

Qualquer que seja o anteparo,

Será sem qualquer penhor:

- E o custo não custa caro.

 

 

516 – Dotadas

 

Relações dotadas de alma

Que coisa te afasta delas?

Que é que te proíbe a calma

Que te entra por tais janelas?

 

O que te fecha o portão

É só da imaginação.

 

É bastantemente rica

Ou simples demais, moderna?

A que é pragmática fica

Sempre coxa duma perna:

 

Para entrar pelos afectos

A imaginação precisa

De fruir lentos os tectos

Ao sabor de cada brisa.

 

 

517 – Sozinho

 

Descobres-te sozinho e sem amigos

Quando a verdade é que jamais te dás

Contigo próprio e, portanto, em paz

Dos mais jamais penetras nos abrigos.

 

Algo tua alma agita, mil perigos

Dum impacto nos laços é capaz

De em teu redor gerar, e acabarás

A fruta a lançar fora de teus gigos.

 

Aquilo que perturbe o coração

Depressa demais crês que vem do mundo

E por finda lhe dás breve a lição,

 

Quando também o inverso é verdadeiro:

Pois quando te perturbe de alma o fundo

É o mundo que transtornas por inteiro.

 

 

518 – Estrutura

 

A relação de amor imaginar

Muitos irão ao fim como estrutura

Que meramente estar junto assegura,

Sem alma alguma vez lhe vislumbrar.

 

Alguma vez um mundo irão pensar

De imagens, pensamentos, que murmura,

De memórias por baixo da figura

Daquela superfície de enganar?

 

Todavia uma força poderosa

Emocional vai dando muitas vezes

Este recanto escuro que não goza

 

Quem na casca ficou de actos corteses.

Dali a mais vulgar interacção

Retumba às vezes mais que um carrilhão.

 

 

519 – Relação

 

Ter alma não é tanto uma questão

De consciência ou de conhecimento,

É mais de ódio e de amor a relação

A ter do coração com o fermento.

 

O inconsciente que ignoro, num momento,

No não-amado o mudo, em rejeição:

Torná-lo consciente é pensamento,

Deixa fora a matriz da maldição.

 

Não precisamos só de saber mais

Acerca de nós próprios, mas também

De mais amarmos nossos radicais,

 

Seguir de perto os movimentos de alma:

Pois o que nas profundas lá contêm

É que ao fim nos afunda ou nos acalma.

 

 

520 – Parceiro

 

Aquele que jamais pode entender

O parceiro que tem de longa data

É que provavelmente pouco acata

A vida própria que nem tem sequer.

 

Os temas enterrados que esconder

E as emoções de que se não precata

Ignora-os e não vê que ao fim os ata

Ao borbulhar da vida a acontecer.

 

Ao invés, quem ficar sintonizado

Com o mistério fundo que em si mora,

Lhe reservar lugar mesmo a seu lado,

 

É que vai responder do companheiro

Ao mistério inefável que lhe aflora,

Anda a acender a luz no mundo inteiro.

 

 

521 – Automelhoramento

 

Automelhoramento implica a ideia

De que algo errado existe no que somos.

Todos uma laranja doutros gomos

Pretenderemos ter na humana ceia.

 

Amarmo-nos, porém, é a mesa cheia

De nós próprios, até quando ali pomos

A irracionalidade do que fomos,

As inadequações que se pranteia.

 

Só nos amamos se em totalidade.

A esperança não quero eliminar

Por automelhoria e vida em pleno,

 

Mas que o perfeccionismo não me engrade,

Antes a imperfeição tome o lugar

De fresta onde a acolher-me me condeno.

 

 

522 – Divisão

 

Dentro de mim a minha divisão

Tem a profundidade que reside

Em não ter um amor que me convide

A amar-me como os deuses me amarão.

 

Eu vivo do mistério onde me olvide,

Da profundeza onde mergulho em vão,

Da grandeza de minha certidão

Cujo tamanho ignoro onde me incide.

 

A via jamais é conhecimento,

A via sempre apenas é do amor.

Quando antigos demónios alimento

 

E o desespero mata, eis que um fulgor

Rasga às vezes o escuro com deleite

Como voz murmurando-me: és aceite!

 

 

523 – Distância

 

A distância entre nossas intenções

E expectativas quanto ao casamento

E a realidade, quando nele atento,

Mostra quão longe mora de razões.

 

Não é vontade, não, nem cognições,

Terei de aprofundar outro elemento,

Parentais influências, o tormento

Infantil, amorosas ilusões…

 

Qualquer alma vai sempre bem mais fundo

Do que esperamos, ainda mais num lar,

Mais que a comunicar eu a aprofundo

 

Em áreas mergulhando obscuras, cheias,

Não dos degraus por onde ando a trepar,

Mas do sentido de sonhar a meias.

 

 

524 – Preparar

 

Em parte preparar o casamento

É cultivar beleza, criador,

Texturas ricas ao, vital, propor

Labor imaginário que alimento.

 

Se um compromisso apenas casar for

Logo alma lhe tiramos num momento.

Não, porém, quando nosso pensamento

À família, vizinhos, der valor,

 

Quando vir que será comunidade,

Trabalho, individual florescimento,

- O mistério vital que tudo invade.

 

Então se preparar é devir culto:

De irradiar vida própria um instrumento,

Criativo humildemente ser adulto.

 

 

525 – Magia

 

Qualquer relação íntima requer

Um grau determinado de magia,

Pois não será razão mas fantasia,

Não a vontade mas um ar qualquer

 

Que infla de alma a pegada em cada dia.

Todos os casamentos hão-de ter

Tanto a vida exterior que se requer

Como a interior feição que ninguém via.

 

 

Os aspectos externos podem ser

Tratados por medidas racionais,

Por actos que eficazes se hão-de ver.

 

Os internos, porém, não são tais quais:

Para atingir-lhes rigoroso o fito,

Magia querem e o calor do mito.

 

 

526 – Expectativas

 

Expectativas quanto ao casamento,

Fantasias profundas e de alcance

Que dum lar temos, de o viver num transe

De perfeição e de infinito alento,

 

Pistas nos dão sobre o abismal intento

Visado por aquele que se lance

Nesta aventura onde jamais descanse

De um lar tecer como um perpétuo invento.

 

Quando casamos, mais que ligar vidas

É num mito adentrar o coração,

Nas fadas todas, lidas e não lidas.

 

Na rota do destino esta abertura

Traz o ignorado manancial à mão

Portais abrindo ao jeito da ternura.

 

 

527 – Tarefa

 

A primeira tarefa do casal

Não é vida criarem em conjunto

Mas evocar o amante do imo junto,

A fantasia mágica, afinal,

 

Mito particular, dando-lhe assunto

Enraizado em húmus visceral

Que quer significado e uma real

Proximidade, a que por fim pergunto

 

Pelo teor do que viver um lar.

Quando em ordem ficar todo o elemento

É que os cônjuges vão mais fraquejar.

 

É que os esforços puramente humanos

Não logram manter vivo um casamento,

Só o intangível elimina os danos.

 

 

528 – Urgência

 

Nem todos hão-de ter no casamento

Dum lar a urgência de operar em pleno,

Contas, crianças, de manhã o aceno,

Hoje uma fantasia em incremento…

 

Tais objectivos podem, de momento,

Erguer-se no caminho mais sereno

E misterioso do íntimo que, ameno,

O inverso às vezes visa em seu intento.

 

A tentativa de criar ambiente

Bem abastado e com a casa em ordem

O fracasso do lar tem de presente.

 

O alicerce não vem do material

Onde o que for humano as coisas mordem,

Antes do amor a carne é sempre ideal.

 

 

529 – Solidão

 

A solidão do outro cada qual

Acarinhar na própria casa deve,

Alimentando a fantasia breve

Que ele lhe imaginar para o casal.

 

Este profundo imaginário leve

Ao acolhê-lo é que darei sinal

À solidão do outro, bem ou mal,

Que em mim tem um lugar que nunca teve.

 

Mais alma ao acolher do companheiro

Poderei descobrir o que o encanta.

Onde estão as groselhas do ribeiro

 

Que a alegria lhe soltam na garganta?

Enquanto a mão esquerda ata o dinheiro,

A direita que flor no sonho implanta?

 

 

530 – Contrato

 

O casamento não corre melhor

Se mantivermos o contrato em dia,

Se tudo certo lhe fizer dispor

Sem raia alguma que então saltaria,

 

Mas antes se no chão os pés batia,

Se fizer as mil coisas sem valor

Que nos afectos tocam melodia

E não apenas leis que haja de cor.

 

Se poder tal perdermos saberemos

Que desaparecera o feiticeiro

E a magia a impelir o barco a remos.

 

Em todo o tema de alma o casamento

Labora não no esforço corriqueiro,

Mas no feitiço que lhe funda o alento.

 

 

531 – Esquelética

 

Uma imagem mecânica, esquelética,

Têm do casamento alguns casais.

Acreditam que podem, tal no mais,

De atitudes abrir a casca hermética

 

Como o mecânico o motor sem ética

Dum automóvel que não anda mais.

Qualquer comportamento dá os sinais:

Captado o que está mal, logo frenética

 

A cura é reparar uma avaria.

Os casais então tentam descobrir

Padrões outros que aprontem cada dia:

 

Distribuem tarefas e conversam

Dos filhos, da carreira a prosseguir…

- Mas é mecânica o que apenas versam.

 

 

532 – Mudanças

 

O casamento às vezes bem notáveis

Mudanças apresenta após razões

Mui ponderadas, firmes sugestões,

Quando expressões ocorrem inefáveis,

 

Mais íntimas, dos rudes corações.

Os magos por milénios incontáveis

Ensinaram palavras veneráveis,

Que as palavras são rios e vulcões,

 

Nelas detêm poderoso efeito:

Por vezes basta-lhes o mero som,

Varrem o mundo como um campo a eito.

 

Esta a magia eterna requerida

Em nossos casamentos para o tom

Do que tem alma atear chamas de vida.

 

 

533 – Histórias

 

A dor do casamento, mas que histórias:

Os podres dão central bisbilhotice,

Revistas e jornais, qualquer sandice

De filmes e novelas tece as glórias!

 

Das forças ensombradas as memórias

Como ansiamos por ver, mal tal surdisse,

Força a desiludir o que predisse,

A infligir dor, a vida a encher de escórias…

 

Os quadros humorísticos ao lado,

Estas histórias de sofrer diante,

- Tudo salva do amor adocicado

 

Cujo fardo nos pesa, de gigante.

Sonhar o amor parece uma defesa,

É um pesadelo ao fim que nos despreza.

 

 

534 – Iniciação

 

Iniciação às almas, o casal

As mortificações de toda a gama

Opera em dolorida e frágil trama,

Da intimidade pela senda real.

 

Dificuldades são o principal

Roteiro que aprofunda quanto se ama,

Os caracteres do que em nós se acama,

A relação mais firme, por igual…

 

Tudo ganha maior intensidade

Quando é vítima lenta da erosão.

Não é do companheiro uma maldade,

 

Do casamento é a própria condição.

Se enfrentar a pretendo com perícia

Requeiro o génio todo da malícia.

 

 

535 – Destruição

 

O casamento exige a destruição

Da ideia e do valor iniciais.

Como realizá-lo sem jamais

No cinismo cair, na escravidão?

 

Em primeiro lugar, nunca tenhais

De que um lar é perfeito a opinião.

A mistura acolher de sim e não,

Dele os enterros mais os festivais,

 

Predispõe-nos a vê-lo, hospitaleiros,

Com o desprendimento da humildade.

Às vezes nos mergulha em atoleiros,

 

Outras voamos pela imensidade.

Então já ninguém fica surpreendido:

O que é difícil é que dá sentido.

 

 

536 – Prevenirmos

 

Não basta prevenirmos um problema,

Convém apreço ter pelo animal

Que conjuramos e que nunca atrema

Na inocente aparência nupcial.

 

A intimidade que tornamos lema

Do casamento em todo o ritual

A caixa vai abrindo a estranho esquema

De perversões e graças sem igual.

 

 

Mergulho o lar assim nas profundezas,

Reservatórios de alma primitivos,

Do coração regiões com asperezas

 

Incultas e remotas. Aqui vivos

Nos vemos em terrenas tais ferezas

Que até tememos já nossos arquivos.

 

 

537 – Radicalmente

 

Radicalmente misterioso e fundo,

Como animal no coração dormindo

Da relação de amor que ando erigindo,

Na profundeza do imo jaz fecundo

 

O que a vida mantém, fio que inundo

De movimento e muda, ao lar abrindo

O inesperado onde enraíze, advindo,

Um casamento que suporta o mundo.

 

Chamaram-lhe os romanos nosso génio,

Para os gregos ele era antes demónio,

Outros ainda apodam-no dum anjo…

 

É presença influente e sem convénio,

De tão oculta, acorde dum harmónio

Que me arrebata ao que eu jamais abranjo.

 

 

538 – Autónomo

 

Reconhecer em cada casamento

Um espírito autónomo só dele

Pode ajudar a nos meter na pele

A forma de encarar cada elemento,

 

Cada problema que vier no vento,

Inevitável quando embora apele

Ao sonho em que sonhámos ser aquele

Em que é o inesperado o vero intento.

 

Tal pode até dotar o matrimónio

De personalidade própria e fina,

Com dinamismo e feição tão ladina

 

Que vai ter alma de anjo e de demónio:

Em si ligando os dois lados do mundo

Tem o valor do Além que é o mais profundo.

 

 

539 – Tipos

 

O casamento exige diferentes

Tipos de reflectir e de atender,

De comunicar modos, nem sequer

Apenas com o par, mas entrementes

 

Também com o demónio que aos nubentes

Ofertou a dinâmica que houver

Como o carácter que o casal tiver

Enquanto em lida tiver pés assentes.

 

É o carácter de alguém dele o demónio

E por igual vai ser do matrimónio.

A carga demoníaca ou de génio

 

É que num casamento o faz fidalgo,

A marca revelando nele de algo

Que único o torna sempre no milénio.

 

 

540 – Negativa

 

Por vezes a maneira de um caminho

Para as almas abrir é negativa,

Ao identificar a via esquiva

Por que inconsciente me protejo o ninho

 

Do ferrão de intenções da vida viva.

Rever o ameaçador que eu adivinho,

Pontos onde resisto aqui sozinho,

Fuga, evasão de quanto ando cativo,

 

Sem compaixão e sem autocensura,

Revelam de alma o impacto sobre nós.

Então mostrar irei com mais lisura

 

A qualquer par o que nos molda após

Influenciar a nossa vida inteira:

E apenas esta é a confissão primeira.

 

 

541 – Molda

 

Cultura familiar é uma influência

Que me molda o que sou no dia-a-dia

E é um recurso que a vida propicia

Com direcção e estilo de anuência.

 

Hoje em dia há uma perda de valia,

Raízes, tradição, abrem falência.

Se a família for fonte de vivência

Histórias, personagens nos avia,

 

Já não nos sentiremos tão sozinhos

Numa vida inventada diariamente:

Ninguém pode criar vida do nada.

 

Para a matéria-prima há dois caminhos:

Recursos naturais, vida em semente.

- Mudar um noutro é a mágica empreitada.

 

 

542 – Gratificante

 

Para uma vida ter gratificante

Qualquer alma requer vivência rica

Em casa, na família a que se aplica,

Em toda a vida que levar adiante.

 

Para apreciar, porém, o que há de instante

Na vida de família, o que isto implica

É intensificação que reduplica

A vida que nas almas se garante.

 

Estimulemos ambos os pendores:

Podemos pôr mais alma no lidar

Em casa com amores, desamores,

 

E, por igual, importa recorrer

Mais à família até de nós talhar

Amor e tradição – e, enfim, viver! 

 

 

543 – Tarefa

 

A tarefa de adultos pode ser

Buscar o que desculpe nossos pais

Por imperfeitos serem como os mais,

Como nós, afinal, como quenquer.

 

Numa família, o mal que ela tiver

Pode ser grave, noutra leve mais,

Em qualquer caso serão tão fatais

Que os temos de encarar, haja o que houver,

 

Sem ter à mão um bode expiatório.

Erigir vida adulta bem repleta

É o sofrimento e o mal conspiratório

 

Ler na vida que neles se completa.

Nos pais buscando culpa em vez de arrimos,

Da vida a sombra já não assumimos.

 

 

544 – Libertar

 

Libertar os meus pais e familiares

De responder por meu destino e sorte

Para uma relação é meu transporte

Com eles de alegrias e pesares.

 

Grande façanha de almas, mudar de ares!

Pensar em negativo leva ao corte,

Distancia dos mais e faz que aborte

Partilhar outros mundos e lugares.

 

Abre o perdão caminho à ligação,

Ligeira e branda aqui, profunda além.

Bem melhor as famílias andarão

 

Se da existência o desafio eterno

Enfrentarmos por nós, como convém,

Tomando enfim em mãos dela o governo.

 

 

545 – Estimular

 

Aos pais importa estimular os filhos

A responsáveis viver vida sua.

Ora, a lição mais eficaz e crua

É seu exemplo de fiéis caudilhos.

 

Por vezes não percorrem próprios trilhos,

Atrás dos filhos andam pela rua,

Responsabilidade que insinua

Que destes, não de si, são andarilhos.

 

Viver a própria vida é mais que exemplo,

Comunidade cria genuína

No seio da família, como um templo,

 

Pois o que apura laços e os refina

É partilharem rica a comunhão

De livres serem todos o que são.

 

 

546 – Estranha

 

Será uma ideia estranha em quem confia

Nas próprias aptidões, conhecimentos,

Do ritual a eficácia, da magia,

Acolher, tal da prece os elementos,

 

Enfrentando o que a vida desafia.

Por igual, da família os condimentos

O poder têm de enfrentar um dia

Da vida os desafios e os tormentos.

 

Da história ao longo erigem-se famílias

Para se proteger fisicamente

E também para ter, pelas vigílias,

 

O poder de alma que a família invente.

Dos conselhos além e do dinheiro,

Gera um mundo a família por inteiro.

 

 

547 – Mandamento

 

O mandamento de honrar pai e mãe

É com os pais a regra de conduta

E é dum mistério que se não disputa

Um discorrer, discreto aliás, também.

 

Se os pais puder honrar, desvendo além

A sagrada família mais arguta,

De recursos, embora diminuta,

Infindos de orientar, segurar bem,

 

Significado ter, comunidade

Gerar em nossas vidas de excelência…

Poder de veneranda identidade,

 

É de honra de raiz, não de obediência.

Além da que a ciência lhe traria,

Revela a força haurida na poesia.

 

 

548 – Frequente

 

É tão frequente os homens e as mulheres

Afirmarem que os mais transformadores

Momentos, como os mais reveladores,

Foram os de dar vida a novos seres!

 

Os filhos, ao nascer, apagam dores.

Algo de semelhante há nos prazeres

Sexuais de experiências que tiveres,

Quando em privado pesas os humores.

 

Como é que tal carácter numinoso,

Sentir tão relevante do sagrado,

Tanto o ignoramos, apesar do gozo,

 

Quando apanhados somos pelas lutas

Que estalam como o mais inesperado,

Familiar reverso das condutas?

 

 

549 – Eterno

 

Não é preciso muito para o eterno:

Música, velas, quadros, poesia,

História, vestuário, fantasia…

- Germinam algum céu em todo o inferno.

 

Sempre a religião jeito superno

Teve para o que o sacro evocaria,

Do mesmo modo nós, com alegria,

Podemos celebrar quanto for terno:

 

Festas, conversas, cartões, cartas, viagens

Para sagrar alguém que é da família,

Honrar propriedades e homenagens,

 

Roupas, quadros manter como a mobília…

- Práticos serão mais que merosa factos:

Alma cobramos de tão leves pactos.

 

 

550 - Comunidade

 

Comunidade sempre é uma família,

Pelo que tem de abrir tempo e lugar

Para o próprio com outrem caminhar

Até o remanso à sombra duma tília.

 

Ajudam reuniões a alimentar

O espírito de grupo sem quezília.

Ao perfume, porém, da buganvília

Cada qual tem seu jeito de aspirar.

 

É quando alguém bastante divergir

Ou sofrer invulgar dificuldade

Que fértil temos oportunidade

 

De cuidar do ânimo que um lar unir.

Alma vem de expressões originais

Bem mais que do normal virá jamais.

 

 

551 – Quotidiana

 

Incluir a família quotidiana

Em áreas em que em norma era invisível

É um modo fácil, eficaz, credível

De nelas alma introduzir ufana.

 

E é bom para a família que acessível

Viva a importância do lugar que lhana,

Tão lhana ocupa e que sem ela fana

Na apresentação pública possível.

 

O empresário, o político, o operário

Devem abandonar o solitário

Perfil de quem o próprio lar sonega.

 

Traga connsigo os familiares, pois

Rompe o puritanismo, o que depois

Permite o brilho de alma a que se apega.

 

 

552 – Enriquece

 

Trazer mais a família para a vida

Cada qual enriquece e então repara

Na variedade de papéis que encara

Cada membro do lar na trilha de ida.

 

Melhor pode entender, logo em seguida,

O mistério daquele cuja cara

Contradições e paradoxos ara

Na lavoira das almas com que lida.

 

Um pai afável poderá sentir

Imensa raiva na fundura extrema,

Mãe generosa, um laivo de egoísmo,

 

O avô severo, amor por exprimir…

- Vislumbrar o que espreita na caraça

No coração desvenda o que se passa.

 

 

553 – Amistoso

 

Para cultivar alma, há-de amistoso

O mundo apreserntar-se pela frente.

Mesmo a afabilidade é um bom presente,

A indiciar-me que a vida de que gozo,

 

Com os altos e baixos que apresente,

Adversa não será de que o gostoso

Da relação humana eu vá, teimoso,

Procurar afanoso e persistente.

 

A vã futilidade é para alguns

Também para manter comunidade,

Preparam o terreno com jejuns

 

Onde após cultivar a afinidade.

Não excluindo quanto é negativo,

Abrem o lar a tudo o que for vivo.

 

 

554 – Pendor

 

Muito pendor da vida opera bem

Sem íntimas uniões, como o labor,

A política vida e seu ardor,

Como o convívio social também.

 

De alma faminta ficará, porém,

Quem viver queira sem a amar se pôr:

Família, casa, casamento, amor,

Toda a saga dum lar – é o que convém

 

De qualquer alma à contenção e rumo.

Os laços de amizade são o vaso

Que da matéria de alma tem o sumo,

 

Mantendo-a unida sempre além do prazo.

Amizade deveras é a atitude

Em que germinar almas é virtude.

 

 

555 – Terapêutico

 

Mais terapêutico do que a amizade

Nada decerto para as almas há,

É que inacção mais do que acções nos dá,

Requer antes presença e lealdade.

 

Apego é do que as almas têm vontade,

Sempre a amizade é quem no-lo dará:

Quer atenção, das cartas o maná,

Postais, visitas, marcos de saudade…

 

Podemos amizade alimentar

Com gestos simples que do fundo vêm,

Sem do complexo e caro precisar.

 

Uma frase única, ao correr, convém

Se alguma intimidade ela evocar,

Reflecte nela o laço que nos tem.

 

 

556 – Sentidamente

 

Afirma uma mulher sentidamente

Que seu marido é seu melhor amigo.

Mais do que esposa o sentirá consigo

Duma maneira especial presente:

 

Um elevado grau de mútuo abrigo

Pela compreensão que um doutro sente,

A individualidade fatalmente

De ambos em conta, ao primordial respigo,

 

A sensibilidade ao labor de alma

Que no outro lentamente se fermenta…

De comunhão esta amizade calma

 

É mais dotada em tudo o que alimenta

Que estruturas externas, pois não ligam

Os sentimentos que alma nos consigam.

 

 

557 – Corte

 

Meu lar é minha corte e funcionar

Bem poderia menos eficiente

Em troca de ser mais benevolente,

Se o valor das maneiras vislumbrar.

 

As casas de hoje perdem, se calhar,

A sala de visitas ora ausente

E a sala de jantar tão diferente,

Tão requintada outrora em qualquer lar.

 

Eram espaços de imaginação,

Do reconforto então de conviver,

Não se comparam, não, à refeição

 

A um canto da cozinha de quenquer…

Um lar afável dotará de engenho

O banal de cotio desempenho.

 

 

558 – Convívio

 

Convívio é o descanso do trabalho,

Das preocupações se libertar,

Alimentar o génio que brotar,

É demonstrar o amor, como o que valho,

 

Todo o esplendor de ser de árvore um galho,

Como a boa vontade cultivar,

Tempero de amizade saborear,

O fermento da graça em riso e ralho,

 

 

- Será o conforto radical da vida.

Tudo nos dias deveria ser

Com todo o sal do génio temperado

 

Como ele borbotar em cada lida

E um perfil de bons modos lhe acrescer,

Da mente ao fim a ser iluminado.

 

 

559 – Cuidado

 

A consideração como o cuidado

E a amizade remédio muito parco,

Fútil e frívolo, ao que além abarco,

Parecem para um mundo perturbado.

 

A sensibilidade há descurado

De alma o valor e o pragmatismo um arco

Tenso me aponta e então na vida embarco

De estéril pensamento limitado.

 

A ciência humana até vai mais segura

Se questões materiais, traumas e química

Como da doença a fonte enfim apura.

 

Do interior fogem outros para a mímica.

Nenhum tem sinais de alma, que esta brota

Da amizade e maneiras que denota.

 

 

560 – Centro

 

Centro de alma qualquer comunidade

Há-de ter, que uma vida solitária

Não realiza a pretensão primária

De construir de alguém a identidade.

 

Na colectiva comunhão gregária

É sempre a relação com outrem que há-de

Mostrar que o singular não é verdade,

A pessoa devém comunitária.

 

Doutrem ao vislumbrar-me modelado

Doto-me de alma múltipla e fluída,

No mundo inteiro vejo-me espelhado.

 

Preocupar-me é ter-me mal vivido:

Ao ser do colectivo desviado,

De ser individual eis-me perdido.

 

 

561 – Labéu

 

Alma haver em qualquer identidade

Quer dizer que podia ser mais eu

Se noutrem me ligara sem labéu

E a mim me vira a ser comunidade.

 

Ver-me em contexto, em relação, verdade

É com outrem trocar, quer o escarcéu

Domine tudo quanto aconteceu,

Quer haja sido em paz privacidade.

 

Não terei de insistir numa ruptura

Por crer que hei-de só ser independente

Se a individualidade proteger.

 

A defesa, de ansiosa, não me apura:

Contra a comunidade apenas mente

Qualquer vislumbre de aflorar quenquer.

 

 

562 – Cheia

 

Ao viver uma vida de alma cheia,

A minha natureza é sociável,

Vivo numa fronteira misturável

Por entre mim e os outros na plateia.

 

A sociabilidade me arroteia

O trabalho que me é mais agradável

Porque os mais toma em conta, confiável,

Mais que a vitória individual semeia.

 

Se não for egoísta, meus talentos

Realizam-me a cultura pessoal

Na harmonia, contudo, ambiental:

 

Celebro antepassados elementos,

Família, amigos, tudo numa festa…

- Que prazer de viver isto me empresta!

 

 

563 – Contenção

 

Comunidade é vida de convívio

E a qualidade a haver na relação

Requer da castidade a contenção

Que de mil laços germinar o alívio.

 

Quem o sexual pendão levanta vive-o

Com tanta expectativa que o senão

É que a angústia se centra neste chão

E torvo acaba o que sonhara níveo.

 

Se a castidade sublimar com alma

Um eros a alastrar por nossa vida,

Já não restrito ao sexo que o empalma,

 

Devém forma de amor com a medida

De os demais deixar que entrem na reserva

Que um para todos afinal preserva.

 

 

564 – Ascetismo

 

Quando aplicado ao sexo, um ascetismo

Pode uma vida de alma então servir,

Se o com abdicação não confundir

Avessa de alma e corpo a todo o abismo.

 

De me enredar então jamais eu cismo

Em repressões nem em excessos ir

E a castidade pode ali convir

Ao prazer e à beleza em que me crismo.

 

É que ser casto aumenta-me o prazer

E a beleza revela então concreta

Que a luxúria matava de quenquer.

 

Equilibrada contenção é meta

Duma vida sexual cujo papel

Ao homem integral dará quartel.

 

 

565 – Reprimir

 

Convém não reprimir sexualidades,

Que reprimir enquista só o desejo:

Porém, ao mesmo tempo importa o ensejo

Criar de se atender às castidades,

 

Para comunidade haver com pejo,

Atenta às gerações como às idades.

Os nossos corações sinceridades

Procuram ao abrir-se a quantos vejo,

 

Em castidade funda usufruída.

Desta maneira plena viveremos

Qualquer sexualidade a par sentida.

 

Para a comunidade encetaremos,

Longe da norma e da ambição mais fria,

A via do prazer da companhia.

 

 

566 – Voz

 

Deveras importante é nossa voz,

A identidade ser bem preservada,

Em submissão não ser mais postergada,

Sujeita a outrem por escravos nós.

 

É uma insistência, todavia, errada

Se for no individual, tomado a sós,

Já que um isolamento logo após

Tudo o que é pessoal reduz a nada.

 

Precisamos de abrir nosso caminho

Para o equilíbrio instável e dinâmico

Em que uma comunhão eu acarinho,

 

Já que outrem o perfume meu balsâmico

Individual produz, de forma tal

Que um acto apenas ambos são final.

 

 

567 – Fundamente

 

Podemos fundamente descobrir-nos

Pela comunidade com os mais,

Atendendo-lhes sonhos principais,

Que tal é o coração de em comum ir-nos.

 

Nossa própria vontade já servir-nos

Não urge doravante, que reais

Brotam alternativas radicais

De, atentos aos demais, neles diluir-nos.

 

Orientar a vida na atenção

Concedida aos desejos e intenções

Dos outros que partilham comunhão

 

Não é uma obrigação mas os quinhões

Duma forma de ser que nos convida

O ego a trocar por de alma uma medida.

 

 

568 – Obediência

 

Quando uma obediência é definida

Como doutro acolher desejo e sonho,

O casamento então logo disponho

Como do par ir promover a vida.

 

É sempre o companheiro que é medida

Do chamamento a que eu me a mim proponho,

Mostra-me o que pretendo e nem suponho,

A meta que meu imo quer cumprida.

 

À medida que tal obediência

Se desenvolve em nós e amadurece,

A comunhão progride em evidência:

 

Alegria, prazer que ora apetece

São desejos, pedidos que os mais têm

E que a todos em rede nos sustêm.

 

 

569 – Comunicação

 

Por comunicação o que for tido

Tal qual poderá ser, na relação,

O que representar a informação

Na educação que alguém tiver sofrido:

 

De factos o intercâmbio sem sentido.

Acreditamos ter educação

De dados por haver compilação;

De bem comunicar eu a apelido.

 

Exprimir nos permite o pensamento

De formas adequadas a quenquer

Mas importa lembrar que do imo o intento

 

Também se poderá desenvolver

Nas lacunas, silêncios e embaraços

Que dão no encontro do outro lado os traços.

 

 

570 – Cuidado

 

O cuidado actual acolheremos

Com comunicação: podemos ter

Psicologia, telefone e ser

Tão francos que ser íntimos nos cremos.

 

O que admira é que após negligenciemos

Todo o intercâmbio que alma vise haver:

De partilha são fórmulas quaisquer,

O tempo duma carta que escrevemos,

 

A compra e confecção de dada prenda,

Um bonito papel, de qualidade,

A escolha de palavras que outrem renda…

 

- Só quando encaminharmos a atenção

Do comunicar indo à intimidade

De alma dotamos nossa relação.

 

 

571 – Conjugais

 

Quando há dificuldades conjugais

Difícil quase sempre é uma conversa.

Uma parte quer ver da parte adversa,

Não os dela, mas seus próprios sinais.

 

Quer ouvir admitir qualquer dispersa

Confissão, mas jamais confessa o mais,

Que de seu próprio lado impõe varais,

Doutrem nem chega a ouvir sobre que versa.

 

Em lugar de conversa opera um jogo

Em que importa lutar pelo poder

E tudo então cremado é neste fogo.

 

A vítima primeira é sempre a fala,

Quanto a conversas, não há mais qualquer

E o próprio sexo ao fim também se cala.

 

 

572 – Escutada

 

Ao ler a carta de qualquer pessoa

Tanto a mim como a outrem destinada

A memória do amigo ei-la escutada

E tal intimidade em nós ecoa:

 

Esbatem-se as fronteiras quase à toa,

Entre nós e aqueloutro eis uma estrada.

De discutir quem foge da parada

E corre à carta, é porque nesta escoa

 

A correnteza inteira de emoções

A ser ouvida mais profundamente.

Entre ambos a fronteira das questões

 

A carta salta, enquanto a fala mente:

Bem pode pretender lá penetrar,

Que a luta por poder rouba o lugar.

 

 

573 – Feliz

 

O jovem alemão confirma, puro:

- Meu pai é o técnico do nunca-em-vão,

Não há no mundo, por maior questão,

Nada que vá escapar dele ao apuro.

 

Logo o francês lhe aponta, quase duro:

- Meu pai nos automóveis é o patrão,

Não há problema que lhe chegue à mão

A que não venha a dar rumo seguro.

 

O inglês não fica atrás nos pergaminhos:

- Quanto à electrónica, condiz no meu

Com soluções em todos os caminhos.

 

Levanta o português olhos ao céu

Sem lobrigar vantagem, depois diz:

- O meu pai torna minha mãe feliz!

 

 

574 – Dividida

 

Amor romântico e sexual desejo,

Na dividida aposta, que triar?

A cada lado como tentar dar

Validade e valor, um vero ensejo?

 

À intimidade uma atracção que vejo

Pode levar e a relação durar,

Ao casal, à família a dar lugar

Como meta final que um dia almejo.

 

A Vénus do adultério que prevejo

Ao invés pode destruir, turvar

O duradoiro sem mostrar mais pejo.

 

Sexo e romance, sedução-perigo,

A ambiguidade como contornar

Se é o belo apenas o que ao fim persigo?

 

 

575 - Duplicidade

 

Sexo e romance, na duplicidade,

Trazem desilusão, o ingrediente

Indispensável neles inerente

Para dar fim à nossa ingenuidade.

 

Penetrar neles, só com acuidade

E a consciência ao pormenor presente,

A perda da inocência, que exigente

A vida bane-me a emotividade.

 

Pode o romance então maior entrega

Implicar a vivências mais intensas

Do que o acaso alguma vez adrega.

 

Confusos franqueamos um limiar

Dum nível em que há só florestas densas,

Morre a criança, cresce o adulto olhar.

 

 

576 – Sombra

 

Não é fácil a sombra de Afrodite:

O sexual atractivo, de inocente,

De ligeiro e febril, torna patente

O positivo que o porvir nos dite.

 

De romance, porém, todo o apetite

Pode levar à relação ausente,

Dorida e aguentada eternamente,

Como o sexo levar pode ao desquite,

 

Ora à paternidade, ora ao aborto,

À doença sexualmente transmitida,

Ao abusivo encontro por desporto…

 

- Quem pode a sombra medir tão comprida?

Quantas vezes acaba tudo morto

Quanto sonhei na fonte apenas vida!

 

 

577 – Seduzir-me

 

Vénus a seduzir-me, que enganosa!

Serve, porém, o mais profundo fim 

Que a natureza anda a buscar por mim.

Leva-me à sombra florestal frondosa,

 

Inebria do aroma do jardim,

Dança as graças humanas e, gostosa,

No brando laço que me liga posa,

Levando-me à fronteira do confim:

 

Convicta, prende-me aos eventos nus,

Elementares, cruciais da vida.

Presta ao namoro, à geração, o jus,

 

Do noivado à família, de seguida,

Além do namorico me conduz

E à dor da morte enfim rasga a ferida.

 

 

578 – Romântico

 

O amor romântico é um potente meio

De libertar da vida e entrar num jogo.

Negligenciar, num êxtase de fogo,

Dever e obrigação é meu enleio,

 

No esforço heróico por topar anseio

Meu ente amado em que por fim me afogo,

Poderei vê-lo sem as manchas logo

Que num realista olhar vão de permeio.

 

O apaixonado em jogo participa,

Já que por ilusões vai ser levado.

Enganado é por forma que antecipa

 

O que as almas vão criar das fantasias,

Das emoções nas quais houver chegado

A se envolver refém todos os dias.

 

 

579 – Mentida

 

No amor romântico, a razão mentida

E as questões sérias, mesmo que afectadas,

Permitem que por dentro se abra estradas,

Trabalho de alma atrás sempre escondida.

 

É que, de alma no ver, o amor convida

Nele a confiar, precisamente dadas

As preocupações reais negadas,

Postas de lado no correr da vida.

 

Resta então um espaço para agir,

Mas de dentro a partir e não de fora,

E esta acção é que é parte do porvir.

 

Da natureza tal agir é a peça

Do jogo que jogar a cada hora

Aquele metro de alma que nos meça.

 

 

580 – Advertem

 

Os mais idosos e quem dá conselhos

Advertem do perigo da ilusão.

O amor romântico dirão que não

Oferta à relação limpos espelhos.

 

Com um errado par findamos velhos,

Do casamento, só desilusão,

É curto o passo do menor desvão

Que a romance e divórcio liga os quelhos…

 

É verdade, a ilusão é perigosa.

Continuamos, porém, a confiar

Neste amor que se sonha e ninguém goza.

 

Num apego infantil ao que é romance

O prazer de alma atendo ao respirar,

Tenha ou não tenha produtivo alcance.

 

 

581 – Abdicaram

 

Dum amor abdicaram alguns tantos

A proteger família, companheiro,

E o enterrado amor ardeu inteiro

Dentro do coração chorando os prantos.

 

Quando apagado creram-lhe o luzeiro,

Do ressentimento o ácido nos cantos,

Reprimido o prazer sob outros mantos,

Corroeu discreto um íntimo sendeiro.

 

Organizadas se mantêm vidas

Que na aparência são-no de verdade,

Porém as almas andam escondidas.

 

Então já muitos, morta uma ilusão,

Morta com ela à vida a validade,

Morrem por dentro a tanta repressão.

 

 

582 – Dilacerados

 

Quantos, dilacerados no conflito

Entre o amor que mantêm do companheiro

E o atractivo dum novel parceiro,

Sofrem e perdem para a vida o fito!

 

É uma batalha entre um amor ligeiro,

Indispensável, doce e com delito

E um amor sólido num lar aflito

Que doloroso o evento impõe inteiro.

 

E o insecto apanhado em branda teia,

Onde estremece de prazer à brisa,

Denigre-a porventura e mais se enleia.

 

Em teoria diz condenação

Enquanto pela prática desliza

E se afoga de vez na tentação.

 

 

583 – Triângulo

 

Triângulo são todos os amores,

Uma mulher, um homem e a paixão.

Quando o amor falha talvez haja então

Um mútuo passatempo dos humores,

 

Acaso um animal de estimação.

E do ciúme quando afloram dores

Às vezes afinal é dos labores,

É o trabalho o terceiro em relação.

 

É sempre um canto de alma este terceiro,

Mediador por entre o corpo e a mente,

Do espírito à matéria arco certeiro.

 

É aquele meio, quando andar presente,

Que tudo em nós e no casal unido

Manter pretende dando ao lar sentido.

 

 

584 – Lógica

 

Do amor romântico a abordagem lógica

Tem o problema de tratar o amor

Tal se interpessoal fora um factor

Com dimensão humana demagógica.

 

O mito, a poesia, mistagógica

Revelam a abordagem que há-de apor

Àquela a marca dum novel valor,

O encontro duma deusa psicológica:

 

No amor romântico qualquer mortal

Enfrenta a divindade irresistível

Mal encoberta por dela o fanal.

 

Quem o não reconhece, ao crê-lo incrível,

À deusa sonegando compaixão,

Vítima acaba sempre dela à mão.

 

 

585 – Desperta

 

O amor romântico desperta a vida.

Era importante descobrir a forma

De os jogos de poder largar por norma

Com quem amamos, longe da ferida

 

Que o amor acompanha, fementida,

Mudando-a num amor que se conforma,

Transformando o domínio na reforma

Da vital ilusão que nos convida.

 

Isto de não meter-me em confusões,

Nem de insensatamente comportar-me,

De não cometer erros, fere o amor.

 

Tentar ir combater as ilusões

Vai cegar-me ao amor que anda a chamar-me

E proteger-me é uma ilusão maior.

 

 

586 – Circunspecto

 

Um amor devirá bem circunspecto

E o modo de exercer a precaução

É crucial no que há de bom ou não

Em tudo quanto colhe no trajecto.

 

Se provier do medo a inibição

Ante o poder do amor e seu projecto,

Só racionais conceitos forem tecto

Contra a vida a servir de protecção,

 

Então ficam de vez fora de alcance

O amor e a segurança desejados.

Entrar no amor será o primeiro lance,

 

E após certo trilhar correctos lados.

Convém não confundir fuga ansiosa

Com direcção esquiva em nós que entrosa.

 

 

587 – Conselhos

 

Conselhos moralistas e severos

Para não nos deixarmos na ilusão

Dum romântico amor são dum desvão,

De estranhos ao amor cantos austeros.

 

Não são da vida erótica o sermão,

São o que ali desvaloriza o eros.

Se próximos do amor, os sósias meros

Dos companheiros se distinguirão,

 

A oca agitação do que é um convite

A criar vida sem lhe impor limite.

A forma de saber se a precaução

 

Do amor ou não provém é de sentir

Quando íntima a fonte é de se inibir

E de fora quando é condenação.

 

 

588 – Fiável

 

O amor romântico é ilusão precisa

Como também desilusão fiável.

Se entrarmos na ilusão sem desejável

Imaginário de poeta, giza

 

Tal atitude literal divisa

De louco, quando o amor incontornável

Nos atingir; porém, se apreciável

Vertente teatral em nós se visa,

 

Aprofundar-nos ele pode intenso.

Seremos convidados a viver

Entre o feitiço do entrevisto incenso

 

E a fronteira vulgar de me acolher:

O amor mantém a vida na ilusão

A arder com as paixões do coração.

 

 

589 – Refrear

 

Do sexo refrear o poder vamos

Por meio de manobras muito espertas:

O moralismo ajuda a andar desertas

Confusões a que levam dele os ramos

 

Na vida já encharcada entre as abertas;

A educação traduz como é que vamos

Evitar de venéreos males tramos

Com receitas em ciência descobertas…

 

E, apesar de tamanhas diligências,

A pulsão interfere em casamentos,

Gera espúrias uniões, goza indecências,

 

Ofende a religião, os mandamentos…

Dela a dinâmica é feroz demais

Para a adequarmos a armadilhas tais.

 

 

590 – Comummente

 

Humor como ansiedade irão ao sexo

Reagir comummente em cada qual,

Que humano é o sexo, físico e real,

Apaixonado, de indecente nexo,

 

Satisfatoriamente aqui conexo

Com o que bem nos faz sentir e mal.

Ao humor traz o sexo material,

Pois nos modera à repressão o amplexo,

 

Ao que, de sério, nos matar paixões.

Traz a dádiva rara da alegria

Vivida, irracional, que há nos vulcões.

 

Difícil de conter, moldar estável,

Carrega uma ansiedade que riria

Para aguentar-lhe o peso formidável.

 

 

591 – Amontoado

 

De pedras o amontoado ergue-me o chão,

Falo da natureza feito marco,

Tal como o sexo opera, quando o abarco,

De rumos de alma para orientação,

 

Mormente das profundas onde parco

É o trilho quão mais forte é uma emoção.

Posso buscar na fantasia o chão

Do que borbota do ânimo onde embarco,

 

Aí se me revela o bom caminho.

É de uso agir, julgar mui apressado,

Reprimir, efectuar o que adivinho…

 

Quando afinal é só sinalizado

O movimento onde o imo anda a operar

Pelo poema dele peculiar.

 

 

592 – Reveladores

 

Pelo sexo exprimimos sentimentos

Reveladores mais do que a linguagem

À medida que impõem quente a imagem

Do desejo e prazer mais turbulentos.

 

Expostos ficaremos na triagem

Dum modo que é inviável sem os ventos

Do sexo que desnudam elementos,

Das máscaras dos egos despistagem.

 

Quando sinais do alcance dum amor

Nele buscamos, cremos na magia:

O sexo fala e a fala é sexual.

 

Como um poeta o mundo olha ao sol-pôr,

Repara na mulher que o extasia,

Tudo é um acto de amor universal.

 

 

593 – Pendor

 

A vida inteira tem pendor sexual

E o sexo é o que origina a poesia

Na forma de acto, dança que alicia,

Ou na da intimidade original.

 

Quando alguém crê que apenas exprimia

Um sentimento a nu bem crucial

Por sexo físico, sem ver rival,

O poder lhe refere de magia.

 

De magia dotar a relação

Pode, como enraizá-la tão profunda

Que nenhuma conversa ou acto irão,

 

Mesmo em conjunto, comparar poder-se.

Como até aos abismos tudo inunda

Renovará quanto a derrota verse.

 

 

594 – Apetite

 

Quando nosso apetite sexual

Impele para novas ligações

Honrar podemos estas propensões,

Não por outra união interpessoal,

 

Mas vivendo de modo mais sensual:

As horas valorizo de atenções,

Prazeres fundos, cor, decorações,

Beleza, corpo, adornos em geral…

 

Demasiadas vezes considero

Frívolos, secundários, tais aspectos.

Mas merecem cuidado, o mais sincero,

 

De alguém que de emoções tiver projectos.

Uma resposta dão fundamental:

Concretizar sem perdas o virtual.

 

 

595 – Seduzir

 

Se seduzir não se antolhar sagrado

Imaginemos sem o ter o mundo:

Sem o atractivo do horizonte fundo,

De explorações, viagens sem o fado,

 

O belo cativante sem jucundo

Olhar que espraia um cântico encantado,

Sem o desejo rico de aflorado

Haver a vida onde serei fecundo…

 

O professor descobre como a ideia

Outra parece quando sedutora,

O publicista a todos nos tenteia

 

Com produtos à venda que decora…

- Afrodisíaco domínio tudo,

Mostra que o sexo fala onde é mais mudo.

 

 

596 – Virgens

 

As virgens serão míticas e reais,

Símbolos do modesto, inexperiente

Espírito que é nosso e que é inocente,

De quão íntegro, enfim, é tudo o mais.

 

Alguns perseguidores serão tais

Para a inocência macular presente,

Outros a querem par no lar assente

Para dela aprenderem os sinais.

 

Na inocência descobrem cativante

Muitos o que é melhor no companheiro,

Outros a natureza depurante

 

Procuram para um dia ter inteiro.

E, no limite, as relações sexuais

De algum modo alguns sonham virginais.

 

 

597 – Frieza

 

Frieza sexual e destrutiva

Revela-me incapaz de respeitar

Integridade e autocontrolo a par,

Em grau bastante a acreditar que viva.

 

O apetite jamais então se arquiva

Antes bem ferozmente há-de atacar.

Se a sexualidade misturar

Reserva com desejo, então aviva

 

A intimidade com distância à conta,

O autocontrolo mais a rendição.

Colher o paradoxo então aponta

 

Um sexo enriquecido de paixão:

Será mais construtivo, a tanto monta

Acentuar a erótica tensão.

 

 

598 – Ferido

 

O sexo muitas vezes é ferido,

E da ferida escorre alma, em privado,

Que jorra da abertura feita ao lado.

Posso aprender e ter reconhecido

 

Que o recôndito em mim que anda escondido,

De violações sexuais lesionado,

São áreas do imo germinais, bocado

Para a partilha em lar do que é sentido,

 

Pareça embora urdir desconfiança.

Saúde, integridade, não se alcança,

Todos temos feridas em aberto.

 

Nada importa negá-las, afundar-se,

Que para a relação não ter disfarce

Só falando-as, que então nelas desperto.

 

 

599 – Casual

 

Sexo veloz, casual, se alma tiver,

Na rapidez logo ela se lhe esfria,

Que é na repetição que encontra a via,

No dormir e sonhar anos quenquer,

 

A pele contra a pele, o que urdiria

Os fios invisíveis de prender

A intimidade, a atar no bem-querer

Amor e sexo em tudo o que os fundia.

 

Centramo-nos demais na luz e chama,

A anelar por vivências de excepção,

Quando ter alma apenas nos conclama

 

o sexo à fina teia de uniões

Que enleada nos tece o coração

Com a pele a franquear-nos os portões.

 

 

600 – Mistério

 

No princípio e no fim da relação

Há um  mistério: o destino desempenha

O papel dominante, santo e senha

Do que passa e que nunca passa em vão.

 

O tempo dá-lhe voltas à função,

Reviravoltas, sem que nada venha

De voluntária voz que já roufenha

Dos roteiros perdeu todo o timão.

 

Quando um romance ou casamento morre,

Uma amizade esfuma, então buscamos

A causa racional, de quem é a culpa,

 

E que um é o responsável logo ocorre.

Se ignoramos que o fado estende ramos,

A tudo e todos a derrota inculpa.

 

 

601 – Destituída

 

À relação destituída de alma

Não vais pôr termo, à espera de que mude.

Que à receptividade enfim me grude

Quer o destino, mas jamais me acalma,

 

Já que a passividade é que me empalma

E a coragem buscada ao fim me ilude.

De mudança aos sinais o fado alude,

Ler a amarga verdade nos acalma

 

No acolhimento lento e doloroso

Duma revelação que ali houver.

O fim da relação mais desgostoso

 

Afinal pode parte dela ser,

Ser-lhe inerente à natureza funda

Que exige e quer aquilo que a fecunda.

 

 

602 – Três

 

São três as almas duma relação,

A dum, a doutro e a da união comum.

Responsabilizar apenas um

Pelo fim que atingir a comunhão

 

Não tem em conta teor de alma algum

Construído a partir duma paixão,

De originária, de abismal pulsão.

Do fim da relação qualquer jejum,

 

O amargor que a rodeia pode vir

Da grande luta contra o fado havida

Pelos egos que entalham o porvir

 

Na vontade pessoal, contra os factores

Impessoais que ao fim cortam, à medida,

A relação mondando-lhe os amores.

 

 

603 – Rupturas

 

O fim da relação é uma memória

A evocar as rupturas sempre havidas,

A morte em variedades conferidas

Que amedrontam pontuais cada vitória.

 

Podemos hesitar em tal história,

Penetrar de emoções fundas sofridas

Compreensivelmente, que feridas

Não busca nem as quer quem busca a glória.

 

Dificuldades que há na relação

Poderão não ser mais do que facetas

De algo que a vida além põe em questão.

 

Em horas de ruptura reflectir

Nas mais que nos feriram bem concretas

É o mistério por nós ver a fluir.

 

 

604 – Sorte

 

Numa ruptura pode acontecer

Que cada qual só represente, à sorte,

Apenas um dos lados, um, da morte:

O apelo de partir sente um qualquer,

 

Fere o outro a perda, o abandono, o corte.

Duas facetas que o real tiver,

Em lugar cada qual de ambas viver,

Ocorre que uma só cada transporte.

 

Pois nesta conjuntura dividida

Nenhum já sente o que é tensão vital,

Com o destino já não se endivida.

 

Ora, o que importa é ver que cada qual

Dos lados do mistério perde vida:
Ter alma é assumir ambos por igual.

 

 

605 – Rompida

 

Há mil maneiras de manter rompida

A relação que há-de poder dar frutos.

Alguém que do pai sofre gestos brutos

Joga-se, irresponsável, contra a vida;

 

Dotados de alma perde então produtos,

Dada a tensão de vez ali partida.

Ou se daquela mãe mal ingerida

A filha foge e a tudo o mais põe lutos,

 

As velhas divisões como as feridas

Há muito abertas podem ocupar

A linha do rancor descomedidas…

 

Não é por outrem que era de esperar:

Do poder de alma que a relação tem

É que mágica a ajuda nos provém.

 

 

606 – Divórcio

 

Divórcio, diversão, divertimento,

Divórcio, divergir e separar-se…

Do incapaz nenhum étimo é disfarce

De a promessa manter cada momento,

 

Antes do fado aponta um elemento

Que em rumos vários leva a dissipar-se.

Se o juízo moralista nos esgarce,

Da cultura da culpa é o alimento,

 

Do perfeito intangível fantasia,

Responsabilidade em trilho errado.

As centrífugas forças quem veria,

 

Sem as dores haver menosprezado,

Pode por igual ver sabedoria

No fim da relação que haja esgotado.

 

 

607 – Passadas

 

Dar um sentido às relações passadas

Com elas é aprender, fugindo aos erros

- Modo contemporâneo de aos aterros

Escapar das memórias atulhadas.

 

Utilitárias abordagens gradas

Serão de alma penúrias, que nos berros

Da propaganda, nunca os velhos cerros

Aos novos tempos abrirão estradas.

 

A questão não é nunca de aprender

De antanho com qualquer das loucas falhas,

Mas de alma além correr através delas.

 

Duma ruptura as emoções colher,

Pensar, sentir o que ela põe nas calhas,

É que ao renovamento abre as janelas.

 

 

608 – Cólera

 

A cólera vivida em relação,

Nem defensivamente reprimida

Nem de formas simplistas exprimida,

Pode dar, afinal, ocasião

 

A dotar de firmeza e força a vida

E o carácter de alguém que, desde então,

Mais preparado fica à comunhão

Que se pretenda ali bem erigida.

 

A cólera integrar enraivecida

Com a energia, a fúria que contém,

A ir além, ao fim, é que convida.

 

Forma de temperar o coração,

Uma iniciação de alma ao ser também,

Devém indispensável à união.

 

 

609 – Problema

 

Um problema, por mais grave que seja,

Pode ser um indício duma luta

Que apenas dentro de alma se disputa.

Cabe à imaginação que nos proteja

 

Captar os níveis outros que se almeja,

Cuidar do torvelinho que desfruta

Qualquer alma que entenda colher fruta

Dum pomar onde importa que ela a veja.

 

Os sonhos levam os eventos vivos

A mergulhar reais na profundeza

Onde revolvem abissais arquivos.

 

Não é o amor apenas entre dois:

Com alma abrange tudo na inteireza,

Com ambos chega a nada ter depois.

 

 

610 – Interacção

 

Qualquer humana interacção envolve

Um uso do poder em que alguém tem

Algum controlo sobre um outro alguém

E vice-versa o outro o desenvolve.

 

Quando sobre ela própria a fala volve

Numa conversa a dois que se mantém,

Pode as oscilações que ali contém

Medir deste poder como o resolve.

 

É personalidade, orientação,

Conhecimentos, emoção também,

- Intérminas as vias daqui vão.

 

O grau de submissão e dominância

Varia ao infinito e o que devém

É um equilíbrio lá sempre em errância.

 

 

611 – Ciúmes

 

Ciúmes, quando afectem e transformem,

Podem originar-nos a coragem.

As autocompaixões que há na bagagem

Envolvem resistências que em nós dormem

 

Ao reconhecimento e à dragagem

Das inadequações que nos deformem,

Dos malogros que os gestos nos conformem…

Aceites como parte da viagem,

 

Os ciúmes à coragem dão lugar

Que a simulada força à margem tem,

Cólera e violência a mascarar

 

A funda insegurança mais além.

Do ciúme a iniciação abre uma estrada,

Não à defesa, à força enraizada.

 

 

612 – Obcecada

 

Atracção obcecada é aberração

Ou de vida um fragmento apaixonado

A tentar irromper por algum lado?

O facto de naquela situação

 

Menosprezarmos a real feição

Daquilo que nos é tão desejado

E nos centrarmos no prazer, no agrado,

Sugere que este olhar vê na ilusão

 

Algo a que um olhar frio do real

Andará cego e que é fundamental.

O improvável amor é projecção

 

Mas longe da razão o suficiente

A ser diabo ou anjo o amado ausente

- E as almas sofrem de ambos a atracção.

 

 

613 – Retirada

 

Do amor a retirada magoaria

Como doença amarga, dolorosa.

Indigno então do amor de que não goza,

Sem ter amigos, impotente iria

 

Julgar-se quem tal sofre dia a dia.

O amor à vida empresta tão viçosa

Vitalidade que jamais gostosa

Ela se antolha ao que a revir vazia.

 

 

Pode devir então insuportável,

Perdido o alcance, o fim, em fumo vário,

Mesmo que seja apenas temporário.

 

E a tentação devém aqui viável

De medidas extremas por diante

Irem enchendo o vácuo resultante.

 

 

614 – Ritmo

 

A perda do desejo fará parte

Do ritmo do desejo que sentir,

Como a incapacidade de fruir

Do amor ainda afinal amor reparte.

 

Se de emoções cruentas eu fugir

Que um amor acompanham posto aparte,

Escudar-me afinal vou, com tal arte,

Dos movimentos de alma que em mim vir.

 

Como a fuga é o comum comportamento

A esconder o magoado sentimento,

Num círculo vicioso então se entrou.

 

Quem se agarra a qualquer coisa ao alcance

A perda o punge mais sem que o descanse

A pedra que abismal mais o afundou.

 

 

615 – Conexões

 

Ter alma nos permite instituir

Conexões íntimas, depois criar

Comunidade que extrapola o lar,

Até poder universal sentir

 

A vida partilhada a confluir.

Também é responsável por gerar

Da individualidade o singular,

Profundo sentimento que surgir.

 

Andam ambas a par, comunidade,

Individualidade original,

Que aquela, quando autêntica persuade,

 

É porque de indivíduos, afinal,

Autênticos é feita e vice-versa,

Devir pessoa em grupo é agir imersa.

 

 

616 – Intimamente

 

Da relação problema é de viver

Com outro intimamente e convidá-lo,

De todo o imprevisível com o abalo,

Significante em nós lugar a ter.

 

Não é fácil viver com o poder

E o mistério de quem alma é regalo:

Das promessas não pendo de que falo,

Que os imos não irão corresponder,

 

Não respeitam intuitos, compromissos…

Mesmo o próprio jamais entende tudo

O que oculto ocorrer nas profundezas.

 

Como então pode um outro estes enguiços,

Com aquele envolvido e sem escudo,

Entender nas remotas asperezas?

 

 

617 – Ambas

 

As almas respeitar de ambas as partes,

Conhecer o mistério duma vida,

O imprevisível valorar, sentida

A marca de alma em renovadas artes,

 

Pode mudar quanto valor apartes.

Por norma honramos a promessa havida,

Hábitos, compromissos por medida,

Fidelidades que em teu uso acartes.

 

Quando infringidos forem, indignados,

Apontamos defeito à relação,

Quando, se em mente houvermos mais traslados

 

De como anda a mover-se misteriosa

Qualquer alma, entendemos que esta acção

Só firme o imprevisível nos entrosa.

 

 

618 – Simplicidade

 

Única sempre a relação, qualquer

Ideia grande de simplicidade,

Quando encarada com seriedade,

Pode alterar radicalmente quer

 

O modo como com o lar se haver,

Quer com o casamento ou a amizade.

Generalizações, grandiosidade,

Os ideais que projectado houver,

 

Expectativas ou comparações,

De tudo me liberto com fervor.

Permito ao outro divergir um ror,

 

Ser indivíduo já sem convenções.

A dádiva eis então da intimidade

Tecendo um ninho de alma que me invade.

 

 

619 – Única

 

Cultura única detenha embora,

Uma relação pode qualidades

Vernáculas vestir de identidades

Que a cara lhe remoçam de hora a hora.

 

Posso-lhe alma evocar com a demora

Ao saborear tradicionais verdades,

Culturais dados e formalidades

Que mutuamente oferta quem se adora.

 

Dificuldades entre heranças várias,

Religiosas, nacionais, raciais,

Sempre ocorrem. Porém, dar-nos-ão mais

 

Ocasiões decerto extraordinárias

De unir as almas nesta igual mistura

Das matrizes de origem da cultura.

 

 

620 – Introspecção

 

A relação descobrir alma pode,

Não tanto pela mútua introspecção,

Mas a nadas ao dar mais atenção,

Como ao que comer juntos nos acode,

 

Ao riso que no arrumo nos sacode…

De alma alimentos nunca mais serão

Os que nos satisfazem a razão.

Importa às almas dar o que as engode

 

E o que requerem geralmente olvida

Qualquer conceito ou racionalidade,

Só rememoram, saboreiam vida.

 

As almas têm a capela erguida

Na colina ante os muros da cidade

E olham-na apenas, se olham, de fugida.

 

 

621 – Dádiva

 

Dotada de alma, dádiva não é

A relação, antes requer cultivo

De modo atento e na fundura activo.

Qualquer pessoa logra pôr de pé

 

As fontes ancestrais da boa-fé

No mundo familiar que a cerca vivo,

Mas do mundo actual mora cativo

Que nunca às emoções concedeu fé,

 

Ao numérico atento, ao termo abstracto.

Ora, a abstracção nas relações penetra,

Reduz o espaço de alma com impacto.

 

Porém vivermos o que a vida impetra

É contra a maré termos de nadar

E à praia que nos toca vir a dar.

 

 

622 – Cíclico

 

Das almas o pendor cíclico eterno

Germina em fantasias e memórias,

Temas emocionais que nas histórias

Todos atamos com um laço terno.

 

Pode haver sonhos, medos e vanglórias

Enraizados num abismo interno

Que faz a ponte arcaica do moderno

Onde da vida cantam as vitórias.

 

Duma individual alma são motivos

Particulares que no amor nós vamos

Respeitar, por dos mais serem arquivos

 

Donde regularmente estendem ramos

Que dentro de nós buscam um lugar

Mui requerido aqui para arejar.

 

 

623 – Anjo

 

Dotada de alma uma amizade deve

Abordar com respeito o advento do anjo.

Num lar, num casamento, um certo arranjo

Durante um certo tempo se prescreve

 

A fim de na visita ver se abranjo

Como é sagrado ou não o que descreve.

Receptiva atitude leva em breve

Os instrumentos a trocar que tanjo.

 

Com alma as relações são adaptáveis,

Num grau flexíveis bem extraordinário.

Para um anjo expulsar são inviáveis

 

Quaisquer esforços, quando o seu fadário

De cumprir for uma qualquer missão:

A viragem é vida em formação.

 

 

624 – Factos

 

Confia imenso em factos a cultura:

Experimentação, experiência…

Mas perigosos podem, de evidência,

Devir adiante à fantasia pura,

 

Se unidimensional se lhes procura

A missão de provar, em vez da urgência

De estimular questões, delas na ausência.

Esta tendência mais nos mal augura

 

 

Quando as relações lemos só por factos,

Com argumentos a provar pequenos,

Com lógica as disputas a ganhar.

 

Da luta sofrem da amizade os pactos,

Que o alimento que ânimos dá plenos

É da poesia, não da mente o par.

 

 

625 – Problema

 

Na família melhor será o problema

Tratar, não tal qualquer perturbação

Que afecta a psicológica função,

Mas como quem enfrenta ali um poema.

 

A familiar poesia inclui, por lema,

Lendas de pais e filhos e a missão

De cada qual naquela encenação,

Termos que identificam por sistema…

 

Nesta cumplicidade é que vai ser

Manifesta a harmonia ou o inverso,

Que o coração apenas sabe ler.

 

E dos meandros dele se converso,

Não há lógica mesmo lá sequer,

Mas entre mundos na fronteira um verso.

 

 

626 – Ganga

 

Minha alma principia pela ganga

De ser matéria-prima a refinar.

Encontro alguém, uma amizade a par

Já principia e desde logo a canga

 

Jamais a sinto, alegre a mergulhar

Na intimidade: vai puxar-me a manga

De húmus o pântano a molhar-me a tanga,

As jornadas até nos baralhar.

 

Trabalho de alma é o longo cozinhado

Que na matéria-prima fornecida

Prepara e apura dela o inesperado.

 

A verdade é que o mundo inteiro e a vida

Mais nunca são do que a matéria-prima

Para as construções de alma que eu imprima.

 

 

627 – Brota

 

A intimidade nunca brota feita,

Importa refiná-la, transmudada

Em laços de valia alcandorada.

Em germe, uma amizade é sempre atreita,

 

Como um amor, a promissora estrada,

Porém informe e bruta é tal colheita.

A alegria da vida vem da peita

De da matéria-prima ali pegada

 

Fabricar gemas cintilantes várias,

Tapeçarias requintadas, belas…

Actividades nossas prioritárias

 

Nas vidas são pegar quanto houver nelas

Em tão grande abundância oferecido

E o mudar no que mais fizer sentido.

 

 

628 – Ponto

 

Se entendo que tenho alma em ponto bruto,

Talvez perdoe a mim e aos mais não ser

Capaz do enfrentamento que puder

Gracioso em relações gerar produto.

 

Quantos problemas não vão ser já fruto

De má intenção de alguém, de mal-querer,

Mas de a matéria-prima requerer

Escolha longa, segredar que escuto,

 

Refinamento, modelagem, jeito,

Transmutação alquímica do peito…

A relação é de granito um bloco

 

A esculpir de martelo e de cinzel:

Se à figura lá dentro andar fiel,

Só com poético dedo é que lhe toco.

 

 

629 – Serenas

 

Nas uniões claras, eloquentes, bem

Estruturadas, ideais, serenas,

Não encontra jamais nelas ninguém

Dotadas de alma intimidades plenas.

 

A perfeição pode atrair também

A mente ou de nós parte, a qual apenas

A transcendência quer que lhe convém:

De alma abrigo não é, que não tem penas.

 

Cores de sentimento o imo prefere,

Os cambiantes de humor, da fantasia,

Desilusão que a sombra nos sugere.

 

Embora estes caprichos turvação

Venham trazer, também sabedoria

Leira estrumada tem, que abunda em chão.

 

 

630 – Leia

 

Com alma a intimidade quer que eu leia

O laço familiar, o amigo, o lar,

Proporções cósmicas a assimilar,

Com a interpessoal emoção cheia

 

Do valor da raiz que devagar

Os sentimentos funda nos permeia,

Solidifica do que além ameia.

Se a relação uma defesa armar

 

Contra o mistério oculto em cada qual,

Contra o destino sendo então sinal,

Maneira não terá de resistir.

 

Se frenesim e frustração o modo

Forem de controlar doutrem o todo,

Sacros não são, antes o inferno a vir.

 

 

631 – Atear

 

De intimidade atear uma fogueira

Será de outrem honrar de alma a parcela.

A rendição não é jamais sequela

Do laço que com outrem me emparceira,

 

Mas reconhecimento do que inteira

As partes de alma a tecem no que apela,

Imprevisível, doutrem na janela,

Mais o respeito do que disto o abeira.

 

A mente opera então constantemente

E o coração, de início mal seguro,

Intimamente acaba confiante.

 

Laços o ampliam, que mundial pressente

Quanto o rodeia a trama que inauguro,

Impede o mundo de explodir adiante.

 

 

632 – Renuncio

 

Quando pelo erro renuncio a ser

O exagerado responsável-mor,

A sensibilidade para o amor

De todo o modo livre passo a ter.

 

Erros, incorrecções, sou de qualquer

Sentir profundamente mais um ror,

Tornar-me alguém sagaz enquanto for

Sensível, perspicaz e com poder.

 

A culpa embota a sensibilidade,

Não a agudiza, bem pelo contrário.

Só ficaremos aptos de verdade

 

Para uma união de almas genuína

Pelo acolher das sombras, solitário,

Do amor ou da amizade que as destina.

 

 

633 – Prudentes

 

A ponto de evitar o amor, prudentes

Poucos são, já que é parte da loucura

Lançarmo-nos do amor sempre à procura

De todo o tipo, de vez já dementes.

 

Transmudados então de meros entes

Somos, do amor na química insegura,

Em amantes que sofrem na figura

Os golpes do cinzel incongruentes.

 

É o amor alquimia na qual somos

Nós próprios material a transmutar

E todo o amor invoca nos seus pomos

 

Alguma divindade num altar

Que ao amor de vez dá profundidade:

Dele é o mistério sendo a identidade.

 

 

634 – Culminante

 

Com o divino a relação é parte,

A peça culminante, com efeito,

Da disputa que houver de perda e preito

Entre a amizade e a solidão que aparte.

 

Com o divino a relação, baluarte

Difícil hoje no laicismo a eito,

Por formas satisfaz almas de jeito

Que nenhum substituto o faz destarte.

 

Talvez nos preocupemos com o tema

Da relação interpessoal somente

Por atolados irmos por sistema

 

De amor num lago sem fundura ingente,

De atingir incapazes a visão

Em que o divino amante é o peito irmão.

 

 

635 – Cientes

 

Cientes do divino em relação,

Talvez mais livres para usufruir

De humanos elementos a fluir

Já nos sintamos, como em nosso chão.

 

Não mais então nos logra distrair

Do par ou da família a imperfeição.

Nem que derive o traço de união

De minha expectativa é de exigir.

 

Não mais de controlar terei ansioso

Qualquer mudança em relação que brote.

Tolerante ao devir, talvez me dote

 

Do acolhimento aos mais delicioso

E até serei capaz de descobrir

Que me tolero sem dever fingir.

 

 

636 – Ruptura

 

Ruptura do lar

Não é panaceia.

Há muito quem creia

Que o mal vem do par,

 

Mas, ao recasar,

O problema ameia,

Tumor singular

Preso à nova teia.

 

Pois frequentemente

O divorciado

Leva de presente

 

O veneno herdado:

Mudá-lo de frasco

Não muda o carrasco.