NONO  ITINERÁRIO

  

EM  METRO  CLÁSSICO  O  ÍNTIMO  DEPURO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 509 e 636 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

509 – Em metro clássico o íntimo depuro

 

Em metro clássico o íntimo depuro

Descendo às profundezas pela escada

Que em meu poço mergulha escurentada

Em degraus cada qual menos seguro.

 

Dou-te a mão no tenteio da pegada

Que esbarra cega no ignorado escuro

E ao sentir teu calor já me asseguro

Que vale a pena, enfim, a caminhada.

 

Em versos canto este luzir do rumo

Que mão na mão podemos partilhar

Ao mergulhar então no abismo a prumo.

 

Não é luz que ali vamos encontrar,

É a raiz do que somos posta a nu:

- Somos Nós e não mais este Eu e Tu.

 

 

510 – Namorados

 

No dia dos namorados

Os casais provam o gosto

Dos vinhos de outrem guardados

Nas caves com cheiro a mosto.

 

E os namorados aposto

Que não sonham que cuidados

Tais pitéus terão suposto

Do amor donde vêm gerados.

 

Só nós, mulher, o sabor

À merenda retomamos

Das voltas que deu o amor.

 

A vinha estendeu os ramos,

Cada gavinha maior,

E hoje aqui tudo abrigamos.

 

 

511 – Cantiga

 

Cantiga de solidão

À mulher derrete bem.

E como a verdade é tão

Verdadeira ali também!

 

E também a falsidade:

Quando a uma mulher um homem

Desabafa a soledade,

Tais falas logo esta somem,

 

Já deixou de estar sozinho.

Novelista que acredita

No herói que pôs no cadinho,

Doravante o mais é fita.

 

 

- Mas na fita de cinema

Nunca viveste teu lema?

 

 

512 – Premente

 

Quando algo encontrar alguém

De que goste realmente

Deve agarrá-lo, premente,

Venha daí mal ou bem.

 

Seja ou não correspondido

O seu amor, é manter-se

Firme em tudo quanto verse

Esse amor que haja escolhido.

 

Se, finalmente, do amado

Tudo o que vier o mata,

Ainda lhe deve ficar

 

Agradecido e obrigado

Pela dádiva que acata

Desta ocasião de amar.

 

 

513 – Atenção

 

Darás atenção ao filho

Quando ele se porta mal,

Sem bendizê-lo, afinal,

Do bem quando tem o brilho.

 

Gritas ou farás pior

Quando os factos se complicam

E do elogio o valor

Ignoras quando bem ficam.

 

Um elogio é vital,

Obra melhor que o castigo.

Se não for o principal

Em que procuras abrigo

 

Com teu filho o mar de rosas

Como mar de espinhos gozas.

 

 

514 – Crítica

 

Não é crítica constante

Mas a mulher, quando é mãe,

Constantemente é perante

A tesourada que vem.

 

Têm as mães em comum

A sina de mau sinal:

Farão (se farão algum),

Farão sempre tudo mal.

 

O controlo social

Provavelmente em nenhum

Grupo humano tão real

É como aqui qualquer um.

 

Melhor é incógnita andar

Sendo mãe, mas devagar…

  

 

515 – Paixão

 

Num instante uma paixão

O carácter te transforma:

O indiscreto se conforma

Ao diplomata mais chão,

 

Fica valente o poltrão

E quem infringiu a norma

Da moral recolhe a forma

Em súbita conversão.

 

Por ódio ou por amor

Devém o pródigo avaro.

O fogo de ti senhor,

 

Qualquer que seja o anteparo,

Será sem qualquer penhor:

- E o custo não custa caro.

 

 

516 – Dotadas

 

Relações dotadas de alma

Que coisa te afasta delas?

Que é que te proíbe a calma

Que te entra por tais janelas?

 

O que te fecha o portão

É só da imaginação.

 

É bastantemente rica

Ou simples demais, moderna?

A que é pragmática fica

Sempre coxa duma perna:

 

Para entrar pelos afectos

A imaginação precisa

De fruir lentos os tectos

Ao sabor de cada brisa.

 

 

517 – Sozinho

 

Descobres-te sozinho e sem amigos

Quando a verdade é que jamais te dás

Contigo próprio e, portanto, em paz

Dos mais jamais penetras nos abrigos.

 

Algo tua alma agita, mil perigos

Dum impacto nos laços é capaz

De em teu redor gerar, e acabarás

A fruta a lançar fora de teus gigos.

 

Aquilo que perturbe o coração

Depressa demais crês que vem do mundo

E por finda lhe dás breve a lição,

 

Quando também o inverso é verdadeiro:

Pois quando te perturbe de alma o fundo

É o mundo que transtornas por inteiro.

 

 

518 – Estrutura

 

A relação de amor imaginar

Muitos irão ao fim como estrutura

Que meramente estar junto assegura,

Sem alma alguma vez lhe vislumbrar.

 

Alguma vez um mundo irão pensar

De imagens, pensamentos, que murmura,

De memórias por baixo da figura

Daquela superfície de enganar?

 

Todavia uma força poderosa

Emocional vai dando muitas vezes

Este recanto escuro que não goza

 

Quem na casca ficou de actos corteses.

Dali a mais vulgar interacção

Retumba às vezes mais que um carrilhão.

 

 

519 – Relação

 

Ter alma não é tanto uma questão

De consciência ou de conhecimento,

É mais de ódio e de amor a relação

A ter do coração com o fermento.

 

O inconsciente que ignoro, num momento,

No não-amado o mudo, em rejeição:

Torná-lo consciente é pensamento,

Deixa fora a matriz da maldição.

 

Não precisamos só de saber mais

Acerca de nós próprios, mas também

De mais amarmos nossos radicais,

 

Seguir de perto os movimentos de alma:

Pois o que nas profundas lá contêm

É que ao fim nos afunda ou nos acalma.

 

 

520 – Parceiro

 

Aquele que jamais pode entender

O parceiro que tem de longa data

É que provavelmente pouco acata

A vida própria que nem tem sequer.

 

Os temas enterrados que esconder

E as emoções de que se não precata

Ignora-os e não vê que ao fim os ata

Ao borbulhar da vida a acontecer.

 

Ao invés, quem ficar sintonizado

Com o mistério fundo que em si mora,

Lhe reservar lugar mesmo a seu lado,

 

É que vai responder do companheiro

Ao mistério inefável que lhe aflora,

Anda a acender a luz no mundo inteiro.

 

 

521 – Automelhoramento

 

Automelhoramento implica a ideia

De que algo errado existe no que somos.

Todos uma laranja doutros gomos

Pretenderemos ter na humana ceia.

 

Amarmo-nos, porém, é a mesa cheia

De nós próprios, até quando ali pomos

A irracionalidade do que fomos,

As inadequações que se pranteia.

 

Só nos amamos se em totalidade.

A esperança não quero eliminar

Por automelhoria e vida em pleno,

 

Mas que o perfeccionismo não me engrade,

Antes a imperfeição tome o lugar

De fresta onde a acolher-me me condeno.

 

 

522 – Divisão

 

Dentro de mim a minha divisão

Tem a profundidade que reside

Em não ter um amor que me convide

A amar-me como os deuses me amarão.