DÉCIMO  ITINERÁRIO 

 

ÀS  RAÍZES  ATENTO  DONDE  PARTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 637 e 708 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

637 – Às raízes atento donde parto

 

Às raízes atento donde parto

Descubro mais e mais que mais além

Quando me for lançar é porque aquém

Me prenderá fiel corda de esparto

 

À terra firme que fatal sustém

As asas que da cave sempre acarto

À espera de se abrirem como um parto

Dum homem novo em ventre que o contém.

 

No vaivém do mergulho não me afogo,

Desvendo do que sou minhas matrizes,

A atear aprendo no íntimo o meu fogo.

 

Ao calor dos gravetos das raízes,

Quão mais fundo em meu imo, mais lonjura

Meu olhar às pegadas me depura.

 

 

638 – Centro

 

Não és centro do Universo

Nem centro da Criação,

Nem concentras o disperso

Deus que buscas sempre em vão.

 

Nada te vale a razão

Mal aflorando do berço

Dum inconsciente vulcão

Contra a razão sempre adverso.

 

Portanto, despromovido,

Se queres ser importante,

Não é de tal ter nascido,

 

É por ir, de instante a instante,

Realizando algo subido:

Valer é valer adiante.

 

 

639 – Conto

 

Contar o conto à criança

É rasgar uma janela

Que o vasto mundo lhe alcança

Do chão à primeira estrela.

 

Tempo de histórias contar,

De partilhar corações,

Lições de vida alinhar

No calor das emoções…

 

Mais tarde então as sementes,

Noite a noite semeadas,

Enraízam-se entrementes,

 

Germinam nas alvoradas.

- E ao fim eles, inocentes,

Contam-nos contos de fadas…

 

 

640 – Pena

 

Vale a pena ser pessoa,

Compreender a dor da vida.

Não que haja qualquer dor boa

Que seja um castigo à toa,

Mas antes porque, aprendida,

 

Vendo o que há por trás do véu,

Por maior que seja a guerra

Que à dor alguém empreendeu,

Não é um castigo do céu,

- É aprendizagem da terra.

 

Após bem assimilada,

A dor da vida é uma estrada

 

Que para além do horizonte

Ergue daqui uma ponte.

 

 

641 – Vulnerabilidade

 

Uma das grandes dádivas do amor

É uma comum vulnerabilidade,

Criar um campo de emotividade,

Tempo e lugar de alguém se auto-propor.

 

De viver, de exprimir-se há um corredor

Por cada qual ao outro em sua herdade

Aberto, a convidá-lo a que, à vontade,

Tais leiras lavre como um semeador.

 

Então irracionais ou racionais

Dele as maneiras irão desdobrar-se,

Não se contém nem usa mais disfarce.

 

Vamos correndo o risco a dar sinais

De nossa débil alma ao tempo surdo

E persistimos em mondar o absurdo.

 

 

642 – Irracional

 

Ter alma é tolerar o irracional

Com a exigência com que nos confronta,

Uma pedra angular jogando à conta

Da intimidade a partilhar real.

 

De alma ao honrar aquela extrema ponta,

De perfeição a expectativa mal

Aflora sobre mim ou sobre qual-

Quer outro, já que em nós a nada monta.

 

 

Assim nos libertamos de elementos

Perfeccionistas numa relação,

Ao tolerar os bons e os maus momentos.

 

Intuímos a tendência de avançar

Pela estranheza e pela negação:

Nada nos pode agora ultrapassar.

 

 

643 – Feito

 

Um grande feito histórico depressa

Míticas proporções vai revestir.

No plano individual todo o porvir

Em histórias de antanho aqui tropeça,

 

Rapidamente afeitas a um devir

Que na mitologia viva cessa:

Qualquer experiência que nos meça

Célere muda em crença ao evoluir.

 

Só porque outrora a relação morreu

Logo concluo que jamais há céu

Que cubra um par que aqui se apaixonou.

 

Vai ser o inverso em caso inverso, além…

- Embora assente em factos, não convém

Que apenas a ilusão molde o que sou.

 

 

644 – Importante

 

Trabalho de alma do mais importante

Envolve apenas sair do caminho,

Deixar a vida seguir adiante

Por trilho dela que nem adivinho.

 

Agarrar-me feroz, porém sozinho,

À leitura ou programa que, gritante,

Proclamo que é o melhor que há no cadinho,

Por único e absoluto é ter-me diante.

 

Cuidar de alma é escutar humildemente,

É um acompanhamento com escolha,

É familiaridade reticente,

 

Reconhecer em mim história antiga,

Vozes a me guiar e que eu acolha:

- É o insondável ver que em mim se abriga.                      

 

 

645 – Cultivar

 

Connosco a intimidade cultivar

Ou com outrem não é nunca questão

De descobrir a nova informação,

Novo termo no velho afivelar.

 

Nem de ideias qualquer aplicação

A minhas experiências vai levar

As automelhorias que abarcar

Para além da fronteira da intenção.

 

A ideia de alma quer mais o ignorado,

O que ficar além da consciência

A conviver comigo lado a lado.

 

Em consideração tomar o ignoto,

Dar-lhe lugar a pôr-se em evidência,

- Eis como finalmente o abismo adopto!

 

 

646 – Vazio

 

Quando em mim tudo paira no vazio,

O consolo é acolher-me num abraço

Incondicional onde, traço a traço,

Me acate no que vejo ou desconfio.

 

Descubro então que meu mistério enlaço

Reconhecendo em mim que existe um fio

De infindas malhas a que me confio

Que nunca entendo e onde me ultrapasso.

 

Agir poderei mesmo duma forma

Que outrem perturbe, não por um defeito,

Que do carácter isto não é norma,

 

Mas por minha alma então tentar entrar

Em minha vida: ataco peito a peito

A resistência de meu ser e estar.

 

 

647 – Par

 

O casamento julgo ter a ver

Com uma relação com outro a par,

Mas mais misterioso e singular

Se revela, pois busca um trio ser,

 

Estranha união que quer gratificar

Com o sonho que vier a acontecer

E a fantasia a que jamais sequer

Tomamos porventura o paladar.

 

Casamento genuíno ocorre fora

Da vida externa, qualquer alma gémea

É sempre doutra espécie um macho-fêmea:

Um anjo, um animal, fantasma embora…

 

A bela e o monstro são no casamento

A lonjura onde o amor busca alimento.

 

 

648 – Solda

 

O casamento solda alma inocente

Com espírito erótico onde o mal

Poderá ter em mente cada qual,

Que o maligno ali brota de repente.

 

Chocados porque venha um animal

Surpreender o incauto imprevidente

Nunca estaríamos se fora assente

Que casar sempre um demo solta real.

 

Cremos que humana instituição será

Quando um pendor contém misterioso

Que contradiz, transcende o que houver cá,

 

Do casal os intuitos: tem um plano

Tão diabólico em que mata o gozo

Como angélico em que é divino o humano.

 

 

649 – Subterrâneo

 

Com o senhor do mundo subterrâneo

Qualquer amor se casa, na ilusão.

Não é o óbvio suprema sedução,

Antes o escuro e doce coetâneo,

 

Fruto em semente, augúrio temporão,

Não o maduro já contemporâneo.

Sou atraído por um sucedâneo,

O sabor quente dum provável pão,

 

Nunca a boroa já colhida ao forno.

Quero a promessa que me traz futuro,

Não a verdade que me gira em torno.

 

A sedução por onde me inauguro

É mais sombria sempre, porventura,

Do que a razão em tudo o que me jura.

 

 

650 – Desabrochar

 

Fonte própria qualquer alma detém

Para desabrochar: a tentação

É tomarmos por guia uma intenção

Inicial que ao casar se tem,

 

Como a maneira que melhor convém

Para à família dar orientação.

Mutuamente se culpam porque não

Cumprem as juras feitas de ir além,

 

Sem repararem que é uma só defesa

Contra incessantes movimentos de alma.

Qualquer alma, de início, é uma semente.

 

Anos mais tarde, não fará surpresa

Que a diferença no lar leve a palma,

Que ao fim qualquer começo apenas mente.

 

 

651 – Fatalista

 

Sempre uma relação é inesperada

No nada de que brota fatalista.

Ao caminhar, também, seguindo a pista

Que lhe impuser, destroca-me a passada.

 

Convirá relembrar aquela entrada,

Correr-lhe estas sequelas em revista:

O casal brota em ímpeto que invista

Para além da intenção já programada.

 

Reviravoltas tem inesperadas,

Elementos afloram surpreendentes,

Ameaçadores ou gratificantes,

 

E há relações às vezes desastradas…

- A conjunção de estrelas persistentes

É o fado a impor-nos os abismos de Antes.

 

 

652 – Fatídica

 

Ao responder à dimensão fatídica

Da própria relação, pode um casal

A espiritualidade mais verídica

Ir relançando em bases sem igual.

 

Pedra angular de amor funda e granítica,

Reagir no par além do racional,

Às profundezas indo da somítica

Realidade em nós mais ancestral,

 

É mergulhar das almas no interior,

Criar intimidade mais profunda

Do que a que o pensamento há-de antepor.

 

Tal relação raiz na terra afunda

Não por inteiro humana mas mais firme

Que a que o engenho humano nos confirme.

 

 

653 – Procriação

 

Servirá o génio à procriação

Física tanto quanto à mais global

Da criatividade em relação,

Oriunda dum encontro visceral.

 

A criatividade conjugal

É mais do que ter filhos, é um serão

De cultura inovar pelo casal,

Um lar de intimidade em pulsação.

 

Muda com a mudança de estações,

E tão vital é tudo o que constrói

Que se transmudam nisto as uniões.

 

Se atingido primeiro o casal foi,

Logo as comunidades e os amigos

Se acolhem gratos entre tais abrigos.

 

 

654 – Génio

 

O génio respeitar do casamento

Na criatividade é me centrar

Tanto quanto ando sempre a abrir lugar

Aos intuitos que tenho no momento.

 

Casar-se é abrir a porta em novo lar

À influência do génio que acalento

Não só para manter o casamento

Mas também para dele algo talhar.

 

Em nossas atitudes respeitá-lo

Será escutar-lhe a voz de orientação

No sofrimento como no regalo.

 

Do casamento então assim cuidamos

Pelo carácter dele e seu condão,

Não por ideias em que o nunca achamos.

 

 

655 – Atento

 

Atento poderei ficar ao génio

Que em mim existe como no meu par.

Em nadas simples se há-de revelar:

A preocupação por um convénio,

 

Sentir que vou levado como a voar,

Forte desejo… “Se há razão, ordene-o,

Se a não houver, boa nem má, condene-o”

- O irracional, porém, ao se vingar,

 

Contra a norma é o brotar dum outro mundo.

Se atenção não prestarmos ao demónio