UNDÉCIMO  ITINERÁRIO

 

 

SEMEANDO VIDA ALÉM O MEU FUTURO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 709 e 836 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

709 – Semeando vida além o meu futuro

 

Semeando vida além o meu futuro

Registo no soneto a terra chã

Que avisto da altaneira barbacã

Donde teres e haveres meus apuro.

 

A rega de cotio me asseguro

Fruindo meu repasto da manhã

Enquanto de meus bens chega louçã

A cornucópia de sabor mais puro.

 

Assim me crio, me estruturo a vida

E a vida inteira me amparando vem,

O que sou revelando-me em seguida.

 

Acolhendo a palavra segredada

A mim me acolherei, a mim, também:

Vem despontando, enfim, a madrugada.

 

 

710 – Decairás

 

Decai um objecto de arte

Em objecto de luxo,

Decairás aparte,

Qualquer que seja teu debuxo,

 

Dado o pendor natural

De quanto deste mundo for

Em piorar, de mal em mal,

Enquanto o valor

 

Dum esforço nobre o não sustiver

Acima do centro de gravidade

Que nele houver.

 

Tal é tua identidade:

- Para o que der e vier,

Eterna ambiguidade.

 

 

711 – Trepas

 

Quando trepas a um algar,

Disparas a uma perdiz,

Depois retornas ao lar,

- Ficas agrilhoado às vis

 

Tarefas de limpar cano,

Culatra, carregador,

Lubrificar com um pano

Sujo de óleo e de rancor

 

A espingarda utilizada.

- Toda a vida são faxinas

Depois de cada jornada:

Pagas a festa em rotinas.

 

Sabes que não terá fim

E é o que mais fatiga, enfim.

 

 

712 – Evangelho

 

O verdadeiro evangelho

Andas aí a pregar.

Não sabes que a vida velho

Já tornou teu dogma alvar,

 

Porque jamais se conforma

A boas-novas quaisquer?

A vida evangelhos forma

Depois de se empreender,

 

Nunca são eles que a fazem.

Mas tu e todos os mais

Pensais que as vidas se aprazem

A adaptar-se ao que pregais.

 

Não vedes que sois pequenos

Demais para tais terrenos?

 

 

713 – Cérebro

 

O cérebro dos humanos,

Somatório colectivo

E de solitários planos,

É um cartulário, um arquivo

 

Secreto e bem reservado.

A qualquer golpe de vento

Escancara-se o traslado,

Fica à solta o pensamento.

 

Desfolha-se a lauda escrita,

Lê-la pode quem a fita,

 

Mas noutrem não vai topá-la,

Que a doutrem não tem janela

E só para dentro fala

No selo da própria cela.

 

 

714 – Difícil

 

Difícil é a pessoa controlada,

No extremo refechando a intimidade.

Tanto se encontra do imo desligada

Que ele os laços jamais enfim lhe invade.

 

Crendo inviável a interioridade

Jamais a pode ter manifestada

Na vida transparente e que persuade

De quem em si a tem sempre acordada.

 

De intimidade quem for incapaz

Paira ansioso, simultaneamente,

Do próprio imo separado atrás

 

Como do dos demais, a arder fremente.

Por suas mãos o inferno mais veraz

Anda a atear que alguém sofre presente.

 

 

715 – Personalidades

 

De personalidades muitas feito

Quando não tomo tento de que sou

Ou quando um ego o todo me tomou,

A minha vida arena advém sem jeito

 

E os relacionamentos tomo a peito

Em luta encegueirada em que me vou

Ao sabor da inconsciência de meu voo

E dos outros ignaro a que ando afeito.

 

O resultado é uma visão simplista

Das vidas interiores e repletas

Que em mim e noutrem jamais tenho em vista.

 

Prisioneiro do beco narcisista,

Ato-me às estreitezas mais completas,

E mais me perco quanto mais insista.

 

 

716 – Complexo

 

Quem é familiar de alma, extremamente

Descobre que é complexa e muito raro

Qualquer alma requer o que for caro

Ao que a razão por fim mande e comente.

 

Quem do imo próprio for bem consciente

Pluridimensional descobre o amparo

Em que as almas desdobram seu preparo

Do alicerce em que a vida mora assente.

 

Então capaz de ler as expressões

Qualquer será de algum íntimo amigo,

Dum familiar, dum cônjuge que houver,

 

Verá que as coisas lhe darão lições:

Veladas por detrás de seu postigo

Nem sempre são o que parecem ser.

 

 

717 – Reflexão

 

A reflexão retém um sinal de alma

Quando ela não tiver de desbravar

Da vida o tricotado leito alvar,

Que explicações não quer reter na palma,

 

Pois conclusões ou teorias, calma,

A intimidade tende a não prezar,

Antes requer em sonhos madrugar,

Em devaneios onde o mar acalma

 

Reflectindo emoções e sentimentos.

Qualquer exploração que os elementos

Procura descobrir de todo o encanto

 

Voará para além dos pensamentos

Entre sombras, mistérios e fermentos:

- Ter alma é sermos um perfil de espanto.

 

 

718 – Débil

 

Débil alma, que leque de emoções,

Quanto humor, atitudes, fantasia

De que és dotada, a retomar por dia

Em meus projectos, minhas ilusões!

 

Controla-se de nós a maioria

Bastante bem mas explodir vulcões

Irão do irracional em que os senões

Nos trocam as pegadas como um guia.

 

Quão mais alguém exibe a sanidade

E quão mais drástico o perfil que tem,

Tão mais difícil tal identidade.

 

Todos nós escondemos esqueletos

No armário que do fundo nos retém

E há monstros a espreitar de nossos tectos.

 

 

719 – Ideias

 

Nossas ideias moldam sobre a vida

Inevitavelmente uma estrutura.

Porque simples demais tomam figura,

Procura visão delas reflectida.

 

Tonalidades vês em que a lisura

Ao pessimismo antes de mais convida

E a paranóia, a depressão dorida

Uma emoção simplista as inaugura.

 

Em grande parte uma mitologia

Oculta mora na filosofia,

Inefável raiz do que é vital.

 

A ideia sobre a vida, por igual,

E quão mais simples aparenta ser,

Mais coisas anda à sombra a revolver.

 

 

720 – Fertilidade

 

Trabalho de alma é que a fertilidade

Interminável da imaginação

Atinja qualquer tema em que a função

Requeira ter-lhe em mira a opacidade.

 

Declarações dogmáticas como há-de

Ultrapassá-las então tal demão?

É de impedir a dor clara a intenção

Com que tolhem o sonho que as invade.

 

Liberto o imaginário, criativo

Há-de ser tanto quanto iconoclástico.

Pulveriza o simplismo proibitivo,

 

Joga-nos para a vida mas, sarcástico,

Quão mais libertador for e mais vivo,

Tanto mais dele o alarme dói fantástico.

 

 

721 – Olhar

 

Aquele olhar que possa ver o mundo

Invisível que afecta o que é visível,

Como o requeiro tanto e que falível

Responde ao que procuro ali fecundo!

 

Fantasias de antanho, um bem credível,

Das tradições o sótão, mesmo imundo,

Que um lar infantil tornam e jucundo,

A fé num modo em que arde amor vivível,

 

Qualquer mundivisão ambiental,

- Tudo permeia, afunda nas entranhas

E além do espelho de água se me esvai…

 

Aquele olhar que me é fundamental

Que informações tão frágeis e tacanhas

De minha obscuridade ele me extrai!