DÉCIMO  QUARTO  ITINERÁRIO

 

ATÉ QUE A RIR ACABE ENFIM DESPERTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1209 e 1320 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1209 – Até que a rir acabe enfim desperto

 

Até que a rir acabe enfim desperto

Cantarei com ironia

Qualquer insanidade, dia a dia

A marca do deserto.

 

Do mundo no desconcerto,

O sarcasmo fustigaria

O que o bom humor, na alegria,

Quer manter, afinal, em aberto.

 

Eis porque, tolerante,

Caminho para diante

Atento e bem disposto.

 

Mesmo na asneira

Põe-me a vida sempre à beira

De quanto finalmente é de meu gosto.

 

 

1210 – Juros

 

Cem euros, juros compostos,

Cinco por cento ao trimestre,

Duzentos anos lá postos,

São cem milhões: é de mestre!

 

Só que, na data aprazada,

Já não irão valer nada…

 

 

1211 – Impostos

 

Os impostos inventados

Não foram em benefício

Dos “cidadãos bem-amados”

Dos políticos de ofício.

 

 

1212 – Lisonja

 

O dinheiro é uma lisonja,

A mais sincera dentre elas:

Toda a mulher é uma esponja,

Quer lisonja mais sequelas.

 

Os homens, porém,

Também!

 

 

1213 – Privilégio

 

Quando a mulher reivindica

Uma absoluta igualdade

Não vê que de fora fica

Um privilégio que a invade:

 

- Quando é que isto de ser mãe

Um homem qualquer obtém?

 

 

1214 – Crítico

 

O crítico nada cria.

Portanto, qualificado

A julgar já se veria

Do criador o que é gerado.

 

É que não tem preconceito:

Odeia, com despudor

E levando tudo a eito,

Todo e qualquer criador!

 

 

1215 – Académica

 

Entre ciência e cofusão

O que as mais diferencia

É que a ciência quer razão

E o mais, apenas polémica

Sabedoria

Académica.

 

 

1216 – Doninha

 

A doninha fedorenta

É companhia melhor

Que quem convencer-me tenta

De que é franco, sim senhor!

 

 

1217 – Matizes

 

“Toda a gente sabe!” – dizes.

Então é mesmo mentira:

Nem um em dez mil matizes

Daquilo alguém jamais vira!

 

 

1218 – Campanha

 

“Vim, vi, venci”

- César a campanha ali sintetizou.

Vim, vi e ela me conquistou

- Eis o que eu direi de ti!

 

 

1219 – Comissão

 

Uma comissão é uma forma de vida

Com seis ou mais pernas, desencontrada,

E, bem ponderada e medida,

Não tem cérebro nem nada.

 

 

1220 – Elegante

 

Um meio elegante

Com a dos outros talha a própria opinião.

Se é contrária,

Não é um instante

De conversão,

- É uma facção literária.

 

 

1221 – Preciso

 

Preciso é não trabalhar

Para alguém ganhar dinheiro:

Cobra rendas, lar a lar,

Vende prédios a altear,

Caça-os depois no leveiro,

Empresta dinheiro a juros,

Porque um homem em apuros

Abre, com vénia, o portão

A quem for este ladrão…

 

E tudo conforme a lei:

O método genuíno

De roubo seguro e fino…

Doutro melhor nem eu sei!

 

 

1222 - Médico

 

Deve o médico escrever,

De facto, mais claramente?

- Duvido. Recentemente,

Uma receita qualquer

 

Fui à farmácia aviar.

Como bilhete depois

De cinema a vim a usar

E hoje ainda, aos arrebóis,

 

Como passe ferroviário

Utilizo-a dia a dia.

Quando em casa sedentário,

Minha filha (quem diria?)

 

Nas cordas do violino

Anda a aprender a tocá-la!…

- Quem busca melhor destino

A um rabisco que tal gala?

 

 

1223 – Amante 

 

De música amante a sério,

Se a mulher o canto apura

Despindo ao duche o mistério,

- Cola a orelha à fechadura,

Num gozo mais apurado,

E os olhos fecha, atilado.

…E ela nua a toda a altura!

 

 

1224 – Perdedor

 

Todos dum bom perdedor

Gostam, de forma sumária,

Quando for um jogador

Mas duma equipa contrária.

 

 

1225 – Biberão

 

Enquanto durou,

O tempo que decorreu

Desde que lhes dei o biberão da manhã

Até o almoço na Universidade,

- Que séculos demorou,

Sem tempo de meu

E aquela perene agitação malsã,

Uma fatalidade!

 

Agora que de vez passou,

Tanto quanto sei,

O período entre os dois condutos

Demorou,

Em conta de lei,

- Aí uns quinze minutos!

 

 

1226 - Asas

 

Quando, com gesos graves,

Aprazas

Que as asas

São elevadores para as aves…

 

Quando garantes,

Para que por outro o não tomem,

Que um antropófago é um homem

Que gosta dos semelhantes…

 

Quando o álcool, conforme os arquivos,

Além de mezinha nos desportos,

Mata os vivos

E conserva os mortos…

 

Quando o remorso

Requer, à evidência,

Um esforço,

Pois é má digestão do consciência…

 

Quando um turista não é um parceiro,

Mas mero vagabundo com dinheiro…

 

“Ah!” não é interjeição nem nada:

- É só uma ideia parva que te chega atrasada!

 

 

1227 – Executivo

 

Garante o executivo, atrás da secretária:

- Estamos à vontade, é uma alegria,

Protege-nos uma espessa e vária

Camada de burocracia!

 

 

1228 – Brincos

 

Desabafa o adolescente

De brincos no nariz

E cabelo espetado:

- Vestir-me assim é indecente.

Só que os meus pais impede, de raiz,

De me arrastarem para todo o lado!

 

 

1229 – Areias

 

Quando a um servo quis o rei

Que cada manhã trouxesse

Areias de toda a grei

Para as cheirar, não houvesse

 

Um inimigo de noite

Atravessado a fronteira,

Logo alguém vê que se afoite,

Quer a tarefa ligeira.

 

“Tão rápido como um gato

A escapulir-se entre as casas

Irei ver do desacato,

Em meus pés ganharei asas.”

 

“Não chega!” – responde o rei.

“Tão rápido como a folha

Cai do ramo correrei”

- Diz outro que o rei acolha.

 

“Não chega!” – repete o rei.

“Tão brusco como a mulher

Muda de ideias irei”

- Jura um terceiro correr.

 

“E quando é que partirás?”

- Pergunta ansioso o rei.

Então, dando um passo atrás,

Responde ele: “Já voltei!”

 

 

1230 – Oposição

 

Cada chefe, candidato,

Executivo em função,

Lidar com a oposição

Deverá com todo o tacto.

 

Com os que o mesmo procuram,

Com os que obram o contrário

E mais com os que se apuram

Neste destino sumário:

 

- Não fazer, obra contada,

Absolutamente nada!

 

 

1231 – Duas

 

Todos os países têm

Duas histórias a par:

A verdadeira e também

A oficial que a negar.

 

 

1232 – Televisões

 

Hoje em dia, televisões

São lutas, violência, palavrões…

- E apenas para decidir quem e quando

É que segura no telecomando!

 

 

1233 – Oito

 

O que um zero diz a um oito,

Vendo-o ali todo esquisito:

- Desculpa-me se me afoito,

Mas que cinto mais bonito!

 

 

1234 – Idiota

 

Ao miúdo idiota da aldeia,

Sem malícia, inveja nem má fé,

Com a vontade a progredir alheia,

Incapaz de se manter hoje de pé,

 

Bendirás que os prósperos negociantes,

Que entre eles se roubam alegremente

Em todos e quaisquer propícios instantes,

Ao louco cada qual o vista, o alimente,

O acalente

Ternamente…

 

Suspeitarás que, crentes ou ateus,

Dele por trás das demências

Descortinam seu advogado perante Deus

Ou o pára-choques das consciências.

 

 

1235 – Gafe

 

A gafe é uma ocasião

Em que um político se há-de

Esquecer de em si ter mão:

- Diz por acaso a verdade!

 

 

1236 – Grande

 

Ser grande é aprender a conhecer,

Conhecer-se a si como aos demais.

Pensar com a própria cabeça e saber,

Saber falar e saber ouvir ainda mais.

 

Calçar uma enorme sapata,

Enrolar o nó górdio da gravata,

Usar barba e bigode

Ou cortá-los, se formam a cara dum bode…

 

Quando isto e muito mais teu filho ouvir,

Se lhe perguntas, com amável aceno,

Quando for grande que vai querer devir,

Responderá, lacónico, a sorrir:

- Pequeno!

 

 

1237 – Inércia

 

Em nós a inércia é devida

Apenas a esgotamento,

Nos mais envolve escondida

Preguiça a todo o momento.

 

 

1238 – Casamento

 

O casamento é a amizade

Que, mesmo quando há sevícia,

Reconhecida, em verdade,

É sempre pela polícia.

 

 

1239 – Contabilista

 

Contabilista criativo

Eficaz evita o trágico,

Tem um nome apelativo:

É deveras matemágico.

 

 

1240 – Milionário

 

Aquele quê misterioso

Que os milionários carecas,

Sensaborões e sem gozo

Têm por trás de cada cisma

E das piadas sempre pecas

- Deles dizem que é o carisma.

 

Não, nunca teve nada a ver

Com o que cada conta deles retiver…

 

 

1241 – Debulhada

 

Em lágrimas debulhada

Queixa-se a dama ao juiz:

- Quero a culpa ver julgada

De adultério, bem provada,

Dum marido dos mais vis!

As caras de meus três filhos

Tenho com tempo observado

E com ele nem rastilhos

Nem das feições nem dos trilhos

Lhes vislumbro em nenhum lado!

 

 

1242 – Crítica

 

Para a crítica evitar