AS GRUTAS  DA  MADRUGADA

 

 

 

PRIMEIRO  TROVÁRIO

 

EM LIVRE MÉTRICA O AMOR CANTO E LAÇOS MEUS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escplha um número aleatório entre 1 e 124 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 – Trovário de Rumos

 

Em livre métrica o amor canto e os laços meus

O mito e o sonho cifrarei que me empolgarem,

O imperativo que o cotio brinda aos céus,

Desfio os traços do que for rosto de Deus,

Os regulares laços dou que me enlaçarem.

 

Em metro e rima retomar vou o Infinito

Nestes degraus dos actos vagos, dia a dia,

Até ver claro em que consiste este meu grito.

Então na quadra a amatr, sonhar, com alegria,

 

Em voz de povo o saber traço ao que vislumbro,

Na quadra irregular tudo, por fim, me guia.

Em trovários, da vida com mil sóis me alumbro,

 

Nos sonetos resumo picturais ideias,

De mil formas rirei vidas de graça cheias.

 

 

                                                2 – Em livre métrica o amor canto e laços meus

 

                                                Em livre métrica o amor canto e laços meus,

                                                Os nós que devo atar comigo e com os mais,

                                                Com todo o mundo que me envolve, com os céus,

                                                Os mil afectos que trocamos, gineceus

                                                Onde geramos sangue e rumos cruciais.

 

                                                Em rimas rimo o que me rima a meu contento,

                                                Sílabas livres no compasso que liberta,

                                                Desencontrado como o passo com que tento

                                                Nos nós e afectos manter sempre a porta aberta.

 

                                                Do íntimo vou rumo às fronteiras mais distantes

                                                A palmilhar, verso a poema, a trilha incerta

                                                Onde as apostas ganho e perco dos instantes.

 

                                                Nestas palavras ato o véu no qual desvendo

                                                O que me encobre e me desvela o que vou sendo.

 

 

3 – Requer

 

O cantochão

Requer a concordância

Do entono

E não

O individualismo da ganância.

Ao escolher um dono

Jamais o cão

Revela intolerância.

Então,

A luz do dia

É uma harmonia.

 

 

4 – Amamos

 

Amamos velhas catedrais,

Móveis velhos, pratas antigas,

Velhos dicionários, edições originais,

Mas esquecemo-nos da beleza das fadigas

 

No rosto dos velhos seres humanos.

Belo é o velho, maduro e curtido,

Estrutural à vida, em que os desenganos

Delimitam a fronteira ao que é sentido

 

E apontam, sonhando, para além

A magia do que jamais vem.

 

 

5 – Amigo

 

Não é useiro e vezeiro,

Nem, quando adrega,

Se esvai.

Amigo verdadeiro

É o que chega

Quando toda a gente sai.

 

 

6 – Esperamos

 

Ao melhor amigo

Não fazemos juramentos.

Esperamos (e sempre dele ao abrigo,

Sem palavras, nem razões, nem argumentos…),

Esperamos compreensão, bondade, interesse.

E que uma amizade dure

Enquanto o tempo a depure,

Até que o tempo se esquece:

 

- Uma amizade é um lugar

De pelo tempo durar.

 

 

7 – Total

 

Não é a total revelação

Que gera a intimidade

Duma relação.

 

É saber ouvir,

Agrade ou desagrade,

E, em comum,

Da partilha do pão e da palavra fruir,

Cada dois a formar um.

 

 

8 – Afirmar-lhe

 

Afirmar-lhe a ela que é “atraente”

É confirmar que nada em particular é,

Embora lhe empreste personalidade:

É o beijo da morte indiferente

Pôr-lhe ao pé.

 

Quem vislumbra adiante

Quanto lhe agrade,

Ao invés,

Que alguém lhe murmure que é “deslumbrante”,

Ao menos uma vez?

 

 

9 – Raio

 

Que diferença

Entre o raio que incendeia o coração

Aos vinte anos

E a presença

Do amor que tem à mão

O adulto maduro de desenganos!…

 

A osmose deste, lenta

E poderosa,

Em que o que atormenta

Até cru finalmente o goza…

 

Afecto duradoiro,

Ondulando ao sabor da babugem da vida,

Paixão madura

Não é um imutável tesoiro,

Ao contrário, depura

Crescimento espiritual em tudo a que convida.

 

Como com tudo muda e se transmuda,

Paciente,

A ela eternamente

Nos gruda.

 

 

10 – Perdi

 

Se perdi a fé em Deus,

O amor toma-lhe o lugar:

Minha fé, a fé dos meus,

Serás tu no meu altar.

 

O amor é religião:

Haver Deus ou não haver,

É retirar deste chão

O pão

Da semente ainda a crescer.

 

 

11 – Encontro

 

O que o vero sentido inaugura

Num encontro, decerto,

É a procura.

E quanto é preciso andar

Para atingir o lugar

Do que está perto!

 

 

12 – Primeira

 

Vejo-te a primeira vez,

Que as palavras dele fizeram

De ti alguém ao invés.

Antes de ouvi-lo, teus traços eram,

Mas depois recompuseram

Uma figura diferente,

Como se te baptizaram:

Levamos ao colo um ente,

Outro vem que as águas revelaram.

 

Vejo-te a primeira vez

E aquilo que és, aquilo

Foi a palavra que to fez.

Como então ficar tranquilo

(Se a vida é deste jaez)

Com as palavras que perfilo?

 

 

13 – Nada

 

Um nada desperta a chama

Entre quem se ama.

 

Um nada é introdução

Ao que explode no coração.

 

- Um nada é o grito

Da fresta do Infinito.

 

 

14 – Cativa

 

Nada nos cativa mais

Do que um coração bondoso:

Levando nos bornais

Um modo insinuante e afectuoso,

Atrairá bem mais fundo

Que todas as inteligências do mundo.

 

 

15 – Desperta

 

Temporão desperta a solidão

Este humano coração

 

E da unidade o distancia

Em que tudo ingenuamente ocorreria.

 

Põe doravante o dedo na ferida

Que ignorada já não pode mais ser vivida.

 

 

16 – Primeiro

 

O primeiro movimento

Em que agir a sedução

Delibera da paixão,

Dando-lhe de resistência

Um cimento

Que nunca teria

Se, naquele momento,

Dela a inteira consequência

Vindoira nos anuncia.

 

 

17 – Abusivo

 

Um amor heróico, abusivo, selvagem,

Cheira a blasfemo.

Um amor pessoal

Tem do feiticeiro a imagem,

Pacto com o demo,

É insuportável, iníquo, criminal.

 

A comunidade

Quer viver precavida

Contra a paixão cega que a invade,

Que a morte busca dominar em vida

E deter o envelhecimento

E prolongar o prazer carnal

Como direito, um direito divinal

De quem tem merecimento.

 

Ora, a multidão tem de continuar

Cada vez mais submetida,

Optando pelo fim sem sofrimento,

Desaparecendo, modelar,

Rápida e sem vestígios.

 

Entretanto, a permissividade,

Em compensação, operará prodígios,

Tão efémera quanto alheia à sensualidade,

Esvaziado cada qual,

Reduzido à soma de órgãos corporal.

Mas é a mentira da nova alquimia

A imitar juventude por falsa magia.

Abolidas as fronteiras do prazer,

Não há mais autoridade ou Deus sequer.

 

O que ocorre, porém,

É que o homem se afasta do desejo,

Não habita mais qualquer alma que tem,

Já que esta se alimenta dum conduto,

Não do que vejo,

Mas da paixão pelo absoluto.

 

 

18 – Pai

 

Quem eras, pai? Sei lá bem!

Só me lembram teus joelhos

No jeito de me sentar.

 

Como o amor retém

O mais invisível dentre os traços velhos

Para poder criar

Dum ser humano

Toda a história, todo o engano!

 

 

19 – Ávido

 

Do próprio poder

Dominador

Se ávido for

Quenquer,

A liberdade de amante, marido ou mulher

Há-de senti-la como um rasgão,

Mancha de desengano,

Em seu manto de papão

Inumano.

 

E finda dele próprio prisioneiro,

Por todos abandonado no atoleiro

Da solidão.

 

 

20 – Serviçal

 

Submissão:

A outrem dar satisfação,

Ignorando mais plenitude

Que a do prazer que lhe é proporcionado.

Não implica o amor que ilude,

Mas um serviçal cuidado

Do que o amor ainda mais irresistível:

- É o impossível

Direito a ser sacrificado.

 

 

21 – Convida

 

Não há nada tão belo

Como a mulher

Que nos convida ao prazer.

Pode um nada dar singelo.

Porém, conseguiu de nós

O melhor:

A descoberta da sede, da fome atroz

Deste feminino amor,

Aquilo que nada satisfaz,

Cujo perfume,

Que tanto seduz,

Quebra a paz

E produz

O ciúme.

 

- E nos atira ao cume!

 

 

22 – Pedra

 

Como da pedra a lasca

Solta o vento,

Dou-vos da palavra a casca,

Não vos dou meu pensamento.

 

Mas, quando se desatasca

De meu íntimo elemento,

O que a palavra em mim masca

Afinal não é o que invento.

  

Se me minto ao vos mentir,

Sei lá bem o que é que penso!

A palavra, ao de mim ir,

Vejo é que é um mistério imenso.

 

 

23 – Força

 

A força das palavras articuladas!

Atiramos os pensamentos

E outros os acolhem como pedradas.

Há sempre cabeças atingidas,

Sensíveis como tegumentos.

 

Que medidas,

Em que idade

Custará menos acolher a verdade?

 

 

24 – Morte

 

A morte de quem amamos

Faz doer também por nós,

É que mais pobres ficamos,

Mais sós

E de vez desamparados.

De nós próprios é ter pena,

Autocomiseração,

Lembrados

De que é cada vez mais pequena

A lonjura até ao vão

Do lugar

Em que a morte nos venha a nós buscar.

 

 

25 – Palavra

 

Nenhuma palavra há-de conter

O amor:

Das profundas são as palavras inimigas.

Se a palavra que vais dizer

Mais bela que o silêncio não for,

Não a digas.

 

Falam muito mais

Silêncios que tais.

 

 

26 – Batido

 

O mais interessante

É ver como o apaixonado

É perseverante:

Batido por todo o lado,

Em dificuldade tanta,

Pretende mesmo assim continuar,

Ter êxito com quem o encanta,

Nem que isto o ande a matar…

 

- É um mártir por sua santa!

 

 

27 – Tempo

 

Tempo de viver a vida

Arranje-o também.

Aos amigos dedique-o, de seguida,

À família e tempos livres que tem.

A memória logo registará

Toda a melhoria que lhe vem dacolá.

 

Um afecto apaixonado,

Um fascinante objectivo

Ajuda o que a fogo foi gravado

A recordar perenemente vivo.

A memória nos requer

À nossa vida com cuidado atender,

Levando a eternizar nela

Quanto vale a pena recordar:

 

- Toda a estrela

Que vida fora soltámos pelo ar.

 

 

28 – Árvore

 

Árvore minha dos problemas,

Plantada à porta do lar…

Traz-me o labor apostemas

Que jamais posso evitar.

Nada, porém, têm eles a ver

Com minha casa, a família, a mulher…

 

Penduro-os, portanto, à noite,

Aos problemas, em tal árvore, ao chegar

À porta do lar

Onde breve me acoite.

 

De manhã, depois, então,

Pego neles outra vez,

Tenho-os à mão.

 

Vejo o que a noite lhes fez:

Nunca há tantos problemas lado a lado,

Ao alvor,

Como os que me lembro de haver lá pendurado

A noite anterior.

 

 

29 – Cúmulo

 

Todos têm o direito

A ter uma opinião

E exprimi-la livremente.

Por mais que a tome a peito

Quenquer, então,

Por melhor que a fundamente,

Há-de ela tanto valer

Como outra qualquer.

 

Discutir empenhado

Na ocorrência,

A tentar outrem convencer,

Pode ser considerado

O cúmulo da insolência.

 

Melhor portão

Trancado contra o fanatismo,

O fundamentalismo

Malsão,

Toda a forma de extremismo

Que advier,

- Melhor não há-de haver,

Entre tudo quanto lhes resiste,

Do que a liberdade de opinião

E de expressão,

Quando ela existe

E renitente persiste

Em mantê-los curtos e à mão.

 

 

30 – Palcos

 

De nós a maioria

É desta gente comum

Que noutros palcos vive a vida

Que os da fama ou fantasia:

De nossa casa na lida,

De labor em balcão algum,

Pelas ruas da cidade,

No grupo, em comunidade…

 

Jamais, porém,

Encontrei alguém

Que de sentir não precise,

De vez em quando,

Que lhe deslize,

Cruzando o infinito além da janela,

Fugaz perpassando,

O brilho irrecusável duma estrela.

 

 

31 – Felicidade

 

Não amar,

Quando as almas são feitas para o amor,

É a si como a outrem privar

Da felicidade maior.

 

O amor em concreto não existe,

É uma hipótese desmesurada:

A felicidade que persiste

É apenas da mente a configurada.

 

O fundamental

Do fogo

É o mental

Jogo.

  

De não amar, o problema

Não é que me desarme,

É que o efeito de tal lema

É apagar-me.

 

 

32 – Podengos

 

Os podengos do poder,

A esburgar ossos dum país invertebrado,

Deliciados a se entreter

Em corruptas campanhas de badalo enfuriado,

Guerrilhas de gabinete

Empeixeiradas,

Cada cabeça, uma retrete,

As testas brutas carenciadas

De recheio,

Os podengos jamais terão lampejo nem suspeita,

Algures do esterquilínio pelo meio,

De que o amor é a receita,

O centro e o pináculo do Mundo.

 

A mulher,

Nem deusa nem rainha sequer,

Mora-lhes num arrabalde infecundo

Como um armazém, um albergue,

De serviço uma estação,

Rampa de lançamento de quem se ergue,

Parque de diversão…

 

Que devenha centro do centro,

Eixo da vida,

Porta do céu ou do inferno onde entro

Humilde e por medida,

Chave de tudo,

Redenção do nada,

Não fende o crânio cascudo

De alma nenhuma castrada.

 

Examino-as por miúdo,

Nenhuma tem nenhuma entrada.

 

 

33 – Sugar

 

Para nos sugar nasceu a mulher,

Temos sempre de dar-lhe uma coisa qualquer:

Dinheiro, porrada ou erecção…

Mas há as que apenas têm precisão

Duma palavra boa,

Duma ternurinha à toa.

 

Se calhar são todas

Que precisam destas minúsculas bodas.

 

E, enquanto elas se consomem,

É do que menos se lembra um homem.

 

 

 

34 – Sempre

 

Há sempre mulheres,

Há sempre crianças

Que salvam o resto,

Quando em saberes

E danças e contradanças

Não presto.

 

Mas as crianças, mais:

Menos tempo são bonitas.

Deixam-nos as memórias esquisitas

Dos sinais.

 

Mal advindas,

Logo se vão.

E a cabeça não nos desfarão

Pelo facto de serem lindas.

 

 

35 – Maravilha

 

A maravilha, a glória

De escrever um livro em acção!

A invenção dentro da memória,

A memória dentro da invenção,

A cavalgada

Dos eventos em fuga,

A lua-de-mel secreta e arrebatada,

Poligâmicas núpcias de quem madruga

Das palavras com a feminil multidão:

As que se entregam e esquivam,

As que de mortas revivam,

As que urge perseguir,

Ludibriar,

Seduzir,

As que se deixam capturar,

Palpar, despir,

Penetrar,

Proporcionando, no variegado cariz,

Horas mágicas duma paixão feliz.

 

Incorporeamente incarnada,

A palavra é a aposta

Mais predisposta

A ser por amor fecundada.

 

 

36 – Escolher

 

Não fujas de escolher a trama,

Nem esperes:

Ama

E faz o que quiseres!

 

Sem amor, a obrigação

Desgosta, morta a fragrância.

Por amor, ao invés, então,

Dá-nos constância.

 

Sem amor, a responsabilidade

Intolerante leva a agir.

Por amor, o amor persuade

Solicitude a produzir.

 

Justiça sem amor

É dureza de coração.

Por amor, incute a maior

Confiança da justiça na mão.

 

Sem amor educação

A contradição suscita.

Por amor, germinarão

Frutos da paciência que hesita.

 

Sem amor devém manhoso

Todo o inteligente vivo.

Por amor, a inteligência é o gozo

De devir compreensivo.

 

É mera hipocrisia,

Sem amor, a amabilidade.

Por amor, germina dela o dia

Da bondade.

 

Sem amor será mesquinho

Cumprir ordens, tira o ânimo.

Por amor é um vinho

Que torna magnânimo.

 

Sem amor, a competência

Torna o agente capcioso.

Por amor, a eficiência

Gera a fé no laborioso.

 

Sem amor, o poder

Violento vai tornar.

Por amor, torna quenquer

Disposto a ajudar.

 

Quando me esquivo,

Quando me apresto?

Honra sem amor torna altivo;

Por amor, torna modesto.

 

Sem amor, os bens

Tornam avarento.

Por amor, manténs

Generoso intento.

 

Sem amor, a fé

Fanático torna.

Por amor, de pé

Em paz te lavra toda a jorna.

 

 

37 – Carismático

 

O carismático roubou-me

E deu-me ainda mais:

Cada amigo meu atrás dele se some

Entre sarças e pedregais.

Roubou-mos, decerto,

Mas deu-me a mim mesmo a mim

Que o não sigo

E eis-me então de mim mais per