Ealeatoriamente
um número entre 125 e 235 inclusive.
Descubra
o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
125 – O mito e o sonho cifrarei que me empolgarem
O mito e o sonho cifrarei
que me empolgarem,
Em contrapé, no verso à rima interligado,
Surpreso sempre dos mistérios que enredarem
Minhas pegadas que, daqui ao se afastarem,
Um novo mundo, além e no imo, hão revelado.
Em verso incerto, silabando ao pé coxinho,
Imito os passos que em tenteios hesitantes
Vou avançando neste meu sonho adivinho,
Tentando rimas doutros mundos concordantes.
Então a fonte dos renovos inauditos
Alimentando irei no jorro dos instantes,
Surpreso sempre de segredos jamais ditos.
E na esperança da matriz que então me invade
Vivo o antegosto do que for a eternidade.
126 – Realizar
Para realizar um grande sonho
Não é questão
Nem de inventar o avião
Nem de criar um império medonho.
Desde já,
Até com mais eficácia,
Também chegamos lá
Com audácia.
127 – Dance
Ninguém se importa que não dance bem,
Erga-se e dance pelo palco além!
A vida,
Em qualquer que seja a forma,
Sempre foi descomedida:
É a norma.
128 – Sonhei
Muito sonhei que um dia
Havia de ser famoso!
Quão mais velho vou ficando
Mais descubro que a magia
Da vida é o pequeno gozo
Das coisas que vão passando.
Lograr, na triagem,
Um pouco mais de bem que de mal
Durante nossa terrena frugal
Passagem,
É o cume a que a maioria
Pode aspirar de magia.
Com ele reconciliado
Curo a ferida
Da vida
Que me sangra aqui de lado.
129 – Enjeitar
Não, não podemos
Responsabilidades enjeitar,
Assumindo-nos como espectadores,
Desviando o olhar.
Temos
De tomar partido por entre as dores,
De mergulhar nos assuntos
Onde corre sangue vivo.
Aos que recusam ficar juntos,
Cada qual mais esquivo
No trilho alienado e solitário,
É de contrapor,
Ao contrário,
Que nenhum do que os mais será melhor:
- Louco fementido,
Também daquele modo tomou partido.
130 – Há-de
O meu filho há-de ler,
Há-de os livros abrir,
O meu filho há-de escrever,
Há-de conhecer a escrita,
Há-de os números redigir…
E há-de trazer-nos a dita
De com tal nos libertar
Só porque ele há-de saber,
Há-de saber e sonhar…
- E nós, mesmo em nossa pele,
Iremos saber através dele!
131 – Dito
Por ter dito o futuro
Tinha-o criado.
Um plano é realidade que inauguro
E o projecto projectado
É aquilo que fica feito.
Uma vez imaginado,
Descrito e eleito,
Um plano é realidade como as mais,
Concreta e vulgar:
Destruída no que vai sendo não pode sê-lo jamais,
Mas é fácil de atacar.
Deste modo o futuro é real
Mas, havendo-o erigido,
Outrem logo se apronta para destruí-lo.
Conheço o sinal
Preconcebido
E terei de, intranquilo,
Preparar-me para o ataque
E para o saque.
E os deuses que não gostam dos planos
Humanos
Senão quando foram eles, no caso,
Obra de mero acaso!
E como se vingam dum homem
Que atinja a vitória
Por força do próprio braço e da memória:
- Como rápido o somem!
132 – Dado
Foi-me dado mais que aos mais,
Mais, portanto, me é exigido.
De acender tenho os fanais
Do que um homem deve ser
Trilho a trilho percorrido.
Exigir não poderei
De quenquer
O que disposto não estiver
De mim próprio a exigir
Como imperativa lei
De prosseguir.
133 – Melhor
O melhor da vida
É uma prenda adquirida
Por algo que não dinheiro:
É pago com a verdade.
O melhor fica em primeiro
E o custo da prioridade
São a agonia, o suor
E a radical devoção.
O melhor do que é melhor,
Que na vida é a própria vida,
Ou melhor, dela o valor,
O sonho com que é medida,
Não tem preço, não:
Cimeiro e derradeiro afago
Que nos rasga o peito,
Com a própria vida é pago
O valor perfeito.
134 – Algo
Algo pode ocorrer ainda,
Aliás, tudo.
De absorto na hora advinda
Nem reparo quanto me iludo:
Cada evento
Que me vai acontecendo deixa intacto,
Momento a momento,
O que me pode acontecer.
O que pode acontecer, de facto,
Vai-se regenerando
Constantemente,
Multiplicando, multiplicando…
Basta ver
Como um dia é doutro dia diferente.
O porvir
É um infinito de possibilidades
Que daqui agito,
Quando estou a ir,
Quando o invado, quando o invades…
- É a possibilidade do Infinito!
135 – Fruto
Como a morte definitiva
É fruto derradeiro
Da vontade de esquecimento,
A vontade de lembrança aviva
E perpetua, por inteiro,
A Vida, momento a momento.
A eternidade actua
Plantando tabuletas rua a rua.
136 – Move
Importa é o que move a acção,
O vento que impele ao acto,
Que a sola empurra ao sapato
Para o desvão,
O que às armas prende a mão,
A sombra que ao corpo anima
E ninguém vê,
Que uma obra de arte sublima
Fazendo ali finca-pé.
O grande artista descobre
O sopro que anima o gesto
E dele cobre
Todo o apresto.
Da sombra tem de entrar dentro,
Incorporar-se nos passos,
Tocar as almas que exprime.
Pela mão dele então entro
A recobrir-lhe os mil traços
Do que em tudo há de sublime.
137 – Meta
A meta mais alta colocara
Para si como para os companheiros,
Excelente, inalcançável e tão rara
Que boa se lhe antolha para todos os parceiros.
À medida que, por inalcançável, os mais
Dela se afastam,
Mais ele se fixa dela nas auroras boreais,
Enquanto os sonhos se gastam.
Aí parado, chama-os com voz suave,
Agreste depois,
Por fim, como traidores, desfaz o conclave,
Solitário a sonhar com arrebóis.
Porém, estava errado
E os outros, certos.
Quando apela a que o libertem do cercado,
Em redor apenas há desertos.
E o libertário,
O sonho em chaga,
Devém incendiário:
Doravante é uma praga
Que urge, terminante, erradicar
De todo o tempo e lugar.
138 – Monturo
O mundo repousa
Num imenso monturo de matéria inerte.
Apenas a justiça ousa
Balouçá-lo, para que desperte,
Ao lutar pelos direitos.
O que triunfa na grande massa é o anti-valor,
Um invulnerável mal,
Que a beleza tem tais trejeitos
Que da corrupção o sinal
Se lhe acaba por impor.
Ora, este é que para nós no-la inflama,
Exacerba o desejo dela:
Ante a suspeita da trama
De algo de irremediável,
De que não é viável vivê-la,
À beleza desejável,
Senão com morte sentida
No âmago em que ela é bela,
- Então é que importa a vida,
Apontar o dedo à estrela,
Antes que a terra fendida
Nos engula dentro dela!
139 – Finito
O amor, finito como é,
Tem de ser cumprido.
Substituído,
(Mas continuando fatal naquele pé)
Pretendemos torná-lo infinito,
Para tornar disponível e viável
O que define do amor o fito:
- Dele o carácter insaciável.
Resta-nos depois o grito,
O grito irremediável.
140 – Mistério
O mistério é uma forma incontornável
De fundir amigos e inimigos.
Confundem-se de modo indecifrável
Nos precários abrigos,
Ante o fito
Basilar:
- Enfrentar o Infinito
A explorar.
141 – Barro
Não somos o barro falhado
Dum qualquer
Criador desapontado,
Antes somos todos,
Até ao derradeiro átomo do corpo de quenquer,
Matéria estelar,
Conjuntos organizados de infindos modos
De milhares de milhões de biliões
De átomos a cirandar,
Doutros átomos levando a intérminas evoluções.
Eras além, da longa jornada
Aqui, na Terra, nasceu a evidência
Semeada
Da consciência.
Somos cinza de estrelas
Reciclada, inesperado berço
De novas caravelas
Em demanda do Universo.
142 – Criança
Da criança a pequena mão
Na mão robusta do adulto:
A primordial ligação
Que o mundo potencializa,
O revelado e o oculto.
A pergunta a criança formaliza.
Tomada a sério,
Junta-se-lhe um ente querido
Na busca da resposta
Que lhe traga o refrigério
Pretendido.
Quando verso
Esta aposta
Abrem-se as portas para o Universo.
143 – Rebento
Último rebento é a inteligência
Da evolucionária tendência,
Nos mais simples organismos logo aparente,
De controlar o ambiente.
De controlo biológico o alerta
Foi material hereditário,
De ácidos nucleicos a certa
Transmitida informação,
Geração a geração,
Imemorial sumário
De multimilenar tradição:
Arte de construir um ninho,
Medo da queda, da cobra, da escuridão,
Para o sul, no Inverno, qual o caminho…
A inteligência, porém, requer
Informação moldável desenvolvida
Durante o tempo de vida
De quenquer.
A Terra vive pejada
De enorme variedade
De organismos com a qualidade
De inteligência apelidada:
Golfinho, chimpanzé pigmeu
E o mais evidente de quantos se tomem
Como tendo-a de seu,
- O Homem.
No homem, a informação de moldagem,
Mais do que em vida,
É transmitida
Por aprendizagem:
Nos livros, na escola, na educação…
Para ser inteligente,
Eis a função
Que no planeta nos garante o lugar proeminente.
Somos o produto
De quatro biliões e meio de anos
De lenta e casual evolução.
Para pensar não há razão
Que somos o derradeiro fruto
Duma evolução cujos arbitrários planos
Em nós pararam.
O Homem é animal de transição,
Da evolução os sulcos ainda nos aram,
Não somos o apogeu da criação.
Sobre a evolução futura
Prognóstico preciso
Ninguém o augura.
Em termos práticos,
O único indubitável juízo
É que não podemos manter-nos estáticos.
144 – Hoje
Hoje, um instante particular
Em quatro biliões e meio de anos de vida,
Momento singular
Nos vários milhões de anos da espécie humana,
Hoje, algo faz que a maioria incida,
Quanto à fidelidade primária,
Na nação-estado a que se irmana.
A mente
Visionária
Sonha com a era
Em que um individual humano ente,
Na instância primeira,
Seja fiel e se identifique,
Não a um estado-nação,
Raça, classe ou religião,
Mas à Humanidade como um todo que autentique:
- Quando de alguém o bem-estar
A dez mil quilómetros de nós
Para nós tanto pesar
Como o de nossos irmãos, pais ou avós.
145 – Máquinas
Máquinas construídas
Pelos nucleicos ácidos
São o homem e as demais vidas
Para, eficientes e plácidos,
De mais nucleicos ácidos
Criarem réplicas seguidas.
Nossos impulsos mais fortes,
Mais nobres iniciativas,
As mais prementes carências,
De acaso trocas em sortes,
Ânsias mortas, ânsias vivas,
Da liberdade evidências,
- De algum modo
Uma complexa expressão
De codificada informação,
São um todo
Em genético material:
Somos o repositório ambulante
E temporal
De nossos ácidos nucleicos, em cada instante.
Não nos nega a humana natureza:
Nada impede a busca do bem, verdade e beleza.
Mas era um erro ignorar
A raiz donde nos vêm os ramos
Na tentativa de buscar
Para onde vamos.
146 – Desesperadamente
Desesperadamente urge encontrar
A via de retorno aos humanos,
De retorno ao lar,
Da religião, porventura, aos desenganos.
Se a natureza é a religião
Que mais agrada,
Precisamos então
Duma ideia largamente partilhada,
Com a poética dum verso,
Do lugar do homem no Universo.
Pouco importa a nota de sobrenatural
Ou Deus:
- Algures espreitará o sinal
Dos Céus!
147 – Berço
A Terra é o berço da Humanidade,
Mas no berço ninguém pode
Para sempre viver.
A criança atinge a maturidade
Quando a descoberta lhe acode
De que não é tudo na infinidade
Do ser.
O mesmo é verdade,
Ao explorar além-fronteiras o que alcança,
Para uma comunidade
Que descobre, surpresa, a vizinhança.
Alargando o patamar
Da espacial exploração
Vamos decerto acelerar
Da humanidade a maturação.
E da verdade para o credo
Jamais é demasiado cedo.
148 – Disperso
Tão disperso caminhar,
Tortuoso, ondulante,
Que vai ou vem hesitante,
Desce ou trepa um patamar,
Cruza rios, vales,
Montanhas, bosques de agoiros,
Prados de sonhar tesoiros,
Ruínas de que te cales,
O pântano, o ar marinho,
- São um e único caminho.
O tempo que leva,
Para ao fim
O ver assim,
O homem que a tal se atreva!
- É tudo humanidade a caminhar
Em busca de lugar.
149 – Força
Que força leva o Homem a pegar
No metal e no fogo,
No vento e no ar,
Nas árvores, na rocha, no jogo,
E erguer aos deuses, a Deus, aos santos,
Ao diabo, aos medos, ao amor,
À vida, à morte, hinos de encantos
E de horror,
De palavras entalhados,
De sons, de cores,
De oiro e prata gravados,
De vidro soprados
Em habilidoso rolo,
De mil humores
Cambiados,
De tijolo?…
- Que força leva o Homem a pegar
Em tudo,
A tentar celebrar
O que só logrará, talvez,
Quando, de vez,
Ficar mudo?
150 – Alturas
Nas alturas vislumbramos,
À ventania vergados vimes,
Que acaso nos vocacionamos
A destinos mais sublimes.
Logo, porém, verificamos
Os pés pregados ao chão
E as asas, as asas que sempre nos faltarão.
Não há como a noite
Contemplada duma hospedaria
Junto às estrelas
Para que em nós se acoite
Que somos, disperso,
Um grão de nada que esparzia
A poeira do Universo.
151 – Mestre
O melhor mestre seria
O que nem sabedoria
Nem poder
Tiver,
Mas que disposto estaria
Poder a perder,
A fim de desvendar
Múltiplas sabedorias.
Perder, então, é ganhar
E conhecer é principiar
No ovo,
De novo,
Todas as romarias.
152 – Mister
Do animal o verdadeiro mister
É um romance num estábulo escrever,
Que o prazer de escrever loucuras prefiro
Ao de usar o paramento doirado que adquiro
De euros por múltiplos milhares
Em sofisticados bazares.
No animal mergulha a raiz
A mais nobre flor-de-lis.
153 – Criar
De criar a ilusão
Do que já foi criado
Não é mais que a perseguição
Ou até o encontro revelado.
À luz da eternidade
Que diferença haverá, que diferença
Entre o ser vivo e a estátua de alvaiade,
O linho de minha pertença,
Um bloco de pedra,
A seara que medra?…
Mas os escassos
Minutos
Que ali me interno
São meus pedaços
Diminutos
De eterno.
154 – Infinito
O infinito em si
É pura abstracção:
Nunca o vi,
Não!
O infinito jamais há-de ser apreensível
Senão no finito:
Exterioriza-o, manifesta-o, visível,
A infinita variedade que concito
Das formas onde o vislumbro
E delimito.
- E nelas é que dele me deslumbro.
155 – Muito
Há muito principiei
A aprender isto
Que jamais rematarei:
- Nada podemos aprender!
Existo
Mas não existe nada
Sequer
A que deveras aprender chamemos.
Apenas, em toda a parte integrada,
Uma sabedoria:
O Ser Universal,
Mar do Cosmos cujos remos
Navegam em mim, em ti, na harmonia
Da lei deste deus em todos os seres,
Visceral.
O pior inimigo que venceres
É desta sabedoria o desejo:
O enganador ensejo
De o inatingível aprenderes.
156 – Atingirás
Nada atingirás pelas doutrinas,
Ninguém por elas logrará libertação.
Partilhar, no que ensinas,
O instante da iluminação
Jamais conseguirás.
Tua instrução
Contém luz assaz,
Muito estimula quenquer
Com honradez a viver,
A driblar o mal.
Algo, porém,
O que é tão claro, tão venerável,
Não contém,
Afinal:
O segredo
Inominável
Daquilo que viveste,
Tu, único entre biliões, que o medo
Um momento venceste,
O medo do abscôndito lado celeste.
157 – Vislumbrar
Nada vislumbrar acerca de mim,
Ser um estranho para mim ignoto
Tem um motivo remoto
E a que não logro pôr fim:
De mim tenho horrível medo
E ando de mim a fugir.
O Ser inquirir,
Uno, mudo e quedo
Disposto a fragmentar este meu Eu
Para, em profundezas desconhecidas,
Descobrir o cerne, a porta do céu,
Fio das coisas por haver e havidas,
Da vida o sigiloso hino,
O derradeiro, o divino?…
Por aqui, porém,
Não atinjo nunca o fim:
Engano é também,
Perco-me de mim.
Onde me atingirei, enfim?
158 – Voltar
De mim não quero
Voltar a escapar.
Meu pensamento delibero
E minha vida não iniciar
Por Deus, o Ser, o Imo do Universo,
Do Mundo a dor do que é disperso…
Não quero matar-me,
Fragmentar-me,
Em demanda, entre meus ossos,
Dum segredo perdido,
Entre os destroços
Porventura escondido.
Não quero mais ascese,
Nem jejum, nem penitência,
Nem mil rosários que reze,
Nem púlpitos a ler-me a sina,
Nem bulas de beneficência,
Nem qualquer outra doutrina.
Quero aprender comigo,
Ser de mim o meu aluno,
Desvendar-me ao meu postigo,
Surpreender, se me ensimesmo,
O segredo a que me uno
Do infinito de mim mesmo.
159 – Decifrar