Escolha um número aleatório entre
236 e 372 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
236 – O imperativo que o cotio brinda aos céus
O imperativo que o cotio brinda aos céus
Canto em meu verso de
pegadas desenvoltas
Rimando a vida nos degraus
que forem meus,
Termo com termo, acto com
acto, infante deus
Gerando um mundo destas mãos
à roda soltas.
Canto o bom senso do
equilíbrio dia a dia,
Sabedoria refinada tempo
além,
Das profundezas a luz pura
que alumia
Cada caminho de hora a hora
a abrir também.
São os meus actos e do bem
toda a peneira
Que rasgam terra nesta terra
de ninguém,
Nestas palavras verso a
verso abrindo a jeira.
Sabendo agir em qualquer
ponto, hausto qualquer,
É mais que agir, é ser
poema, enfim é
Ser.
37 - Preocupa
Quem faz a diferença
Não o faz pelas credenciais.
O que leva a que vença
E convença
É que se preocupa mais.
238 – Azedume
O azedume só convém
Se se perde por um triz:
Um passo além
E tudo fora doutro cariz.
A cortesia,
Quando a derrota fora
Aniquiladora,
É a única via.
239 – Muda
Quando te defrontas
Com o que não podes mudar,
Muda o modo de pensar.
Quando para tal apontas,
Mudar de mentalidade
Poderá significar
Que da vida a identidade
Mudaste em tudo o que aprontas.
240 – Formas
Quantas formas diversas de verdade!
Não é tão fácil assim:
Mesmo que eu a fale,
Podes não ser capaz de a escutar de mim.
Nesta corformidade,
O que quer que eu diga ou cale,
Por mais que o confira,
Para ti será sempre então mentira.
241 – Controlo
Controlo o animal
Que mora dentro de mim.
É meu parceiro vital,
Dele, porém, sou eu o amo
Até ao fim,
E não o escravo.
Ora, é assim
Que deveras o amo,
Conforme o açulo ou o travo
No porão de meu bergantim,
Enquanto as ondas do mar cavo
Corto da vida que conclamo
E deste modo lentamente desagravo.
242 – Mestre
És mestre e, por aqui,
Devieste humano:
Dominas o animal que há dentro de ti.
Toma, porém, sentido,
Não vás cair no engano:
- Dá-lhe aquilo que lhe é devido,
Ou frustrado, de ronha,
Logo ele te empeçonha.
243 – Hausto
O hausto da vida, ao nascer,
É comparado
Com enorme esforço e dor.
Quem de lutar tiver
Dele pelos brinquedos de agrado,
Como o recém-nado
Para à vida se impor,
Muito feliz há-de ser
E rico!
Como as facilidades por ora vão,
O que nelas verifico
É uma desilusão:
- Que pena a pobreza
De toda esta riqueza!
244 – Cidadania
Cidadania é atitude,
De espírito um estado,
A convicção emocional
Da virtude
Dum dado
Radical:
Um todo é maior do que uma parte.
E desta parte o dever
Será, destarte,
Humildemente se orgulhar
De se sacrificar
Para o todo poder viver.
245 – Lugar
Com que então, ser o primeiro!
Porque ele o foi, ela também,
Todos no lugar cimeiro,
Terei também de ser primeiro?
Aquilo que me convém,
Nem primeiro, nem segundo,
Nem sequer é o derradeiro.
Percorro o mundo,
Não me alinho com quenquer,
Não me presto ao rapapé,
Prefiro a minha medida:
- Quem si próprio quiser ser,
Único em sua libré,
Fora está de tal corrida.
246 – Vontade
Quando há vontade de agradar
Deverei ser indulgente,
Tanto bate o mar
Que um dia dá-me a praia de presente.
Quando um homem faz o que pode
Com os limitados pavios
E fios
Do que na vida lhe acode,
Vantagem tem alta
E merece mais elogios
Que o negligente a que nada falta.
247 – Jogar
Jogar com o sacrifício,
Jogar com a poesia,
É abordar o quotidiano com o resquício
Dum apelo à transcendência,
Para lhe suportar a agonia
Da falência.
248 – Fascina
O que fascina corrompe
E o que se ama,
Fracturada nossa trama
Pelo livre arbítrio que a rompe,
Bem nos pode destruir.
Todo o grande coração
Propende a uma irrealidade
Que, a seguir,
Como a peste, o furacão,
Se abate na Humanidade
Causando por todo o mundo
Um dano imenso e profundo.
Só enraizando-o no chão,
Comedido,
Se lhe logra estancar o sangue vertido.
249 – Prestes
A sabedoria,
Prestes sempre a evaporar-se,
Do desejo como é ténue fatia,
Só é veste que não se esgarce
Pelo pendor inarticulável:
De espírito a pobreza.
Ao materializar imaginário viável
Não abandones dos pés a ligeireza
Capaz de trocar as voltas,
Com breve leveza,
Aos desejos negros que de ti soltas.
250 – Devoradora
A morte,
A mais devoradora das paixões,
Remata a sorte:
Ponto final nas ilusões.
Esta impaciência
É entrar em profundidade,
Ante a própria decadência,
Da morte na identidade.
Privando-se do prazer da vida,
Não renuncia:
Descobre como a Natureza na Morte resumia
Do inteiro Universo a perdida
Magia
E então por inteiro se lhe entrega
Após a derradeira refrega.
251 – Desejável
Mesmo uma identificação
Com a espécie humana inteira
Não é a derradeira
Desejável condição.
Se vivemos um respeito profundo
Pelos demais humanos
Como recipientes de quatro biliões e meio de anos
De evolução da vida no mundo,
Por que não aplicá-lo além,
A todos os organismos,
Produtos também
Dos mesmos mecanismos?
Importamo-nos com uma ínfima fracção,
O gato, a vaca, a galinha, o cão,
- Porque úteis ou agradáveis.
Mas aranhas, cobras, salamandras, sáveis,
Mosquitos, achegãs…
- São, benéficos ou malsãos,
Por igual nossos irmãos
E irmãs.
252 – Humano
O ser humano apenas pode sobreviver
Matando qualquer outro ser.
Uma compensação ecológica pode, porém,
Tentar empreender,
Outros organismos cultivando também,
Protegendo florestas,
Evitando a matança indiscriminada,
Focas, baleias e outras bestas
Garantindo em reserva vigiada,
Banindo a caça destas,
Benéficas embora de entrada
Ou molestas…
- O ambiente da Terra deviria, como dantes,
Mais habitável a todos os habitantes.
253 – Ritmo
O ritmo da mudança
Não pode continuar indefinidamente
Mesmo se o limite o não alcança
Ainda o presente.
A velocidade de comunicação
Mostra e produz
Fronteiras que se nos imporão:
As da velocidade da luz.
Ninguém mais depressa
Que ela atravessa.
População maior
Que a que pode ser mantida
Não é de supor
Que à Terra seja permitida.
O ritmo da mudança
Qualquer dia encrava a dança.
254 – Teoria
Quando a teoria não é adequada
A única abordagem realista
É a experimental.
Experiência contraprovada
É a pedra de toque do cientista,
De último recurso tribunal.
Do que precisamos, antes de mais,
É de comunidades experimentais.
Era o fim da crendice, da superstição,
Do dogma, do catecismo,
Era a sem-razão
Do fundamentalismo…
Sem mais alibi
Enraizados no chão,
Aqui, finalmente aqui
À mão!
255 – Diminuir
O maior nacionalista
Há-de reconsiderar
O ponto de vista
Quando reparar
Na Terra a dimunuir gradualmente,
De débil crescente
A minúsculo ponto luminoso
Perdido entre biliões de estrelas.
O espaço permite calibrar
O nada tão nada que nem falá-lo ouso
Deste Planeta perdido,
Sem bússola nem velas,
Num Universo imenso e desconhecido.
256 – Geocentrismo
Não é didáctico
Mas aquilo em que confio:
Há um geocentrismo prático
Em nossa vida de cotio:
Falamos de sol-nascente
E poente,
E não há no mundo moda
Que afirme que a Terra roda.
Ainda olhamos o Universo
Como se fora organizado
Em nosso proveito,
De tal jeito
Que, em inúmeras migalhas disperso,
Apenas por nós seria povoado.
A espacial exploração da infinidade
Trazer-nos-á também,
Como convém,
Um pouco de realística humildade.
257 – Suprir
Suprir o metal pode-o quenquer
Mas não a tecnologia,
Nem o apego ao trabalho que houver,
Nem o engenho subtil e o que anuncia…
Não há nada, não há nada,
Quando alguém isto esbanjar,
Que coloquemos na bancada
Em lugar.
258 – Dogmas
De dogmas arrepelam crinas,
Insultam de ritos o mau feitio…
Orgulho de teólogos cujas sinas
Contraditórias verdades
Detêm no mesmo rio.
E nunca os persuades
De que tais gotas e borrifos
Fazem parte das ondas, das vagas,
Não de seus estreitos cacifos
A que mutuamente rogam pragas,
- Fazem parte da mole imensa, do fulgor
Do mesmo mar do Criador!
259 – Carreiras
As carreiras profissionais,
Tal como os foguetões,
Nem sempre arrancam, leais,
Na hora marcada pelas pretensões.
Para lhes garantirmos os favores,
A melhor das soluções
É aperfeiçoar os motores.
260 – Frágil
A mais frágil criatura,
Ao concentrar energias
Num único ser ou objecto,
Vitoriosa muitas vezes apura,
Dela pelas débeis vias,
Seu projecto.
A mais forte,
Se espalhar a força,
Joga a sorte
Na estrada,
E ao fim, do muito que se esforça,
Não logra realizar nada.
261 – Natureza
Com a natureza colaborando
Sem, ao invés, a violentar,
Vamos a doença curar,
Tal qual como a economia:
É só dar-lhe um jeito brando
Que a ajude na própria via.
As desgraças
Vêm de trocar-lhe as traças.
262 – Anos
Quanto mais os anos morrerm
Mais me importa encontrar na vida
A Beleza
De que pareço troçar ou que me despreza
Nos objectos que das mãos me correm
Por medida.
Ao menos, encontrar a plenitude
Que fruir o Belo consigo
Deveria trazer,
Alguma beatitude,
A dar-me obrigo.
Encontramo-nos à deriva
Entre o que por dentro somos
E o que, obrigados por esta época furtiva,
Nela pomos.
263 – Escrevo
Quando escrevo, nego
O que o Estado quer fazer
Quando julga que escreve:
Dele pego
No dever
E revelo quanto deve.
Nego o que o Estado escreve
Quando julga que o faz:
Nego que se atreva ao que se atreve
Quando a um Povo jamais nos satisfaz.
264 – Meias
Aquele que tudo embeleza
Triunfalistamente
Ou tudo transfigura por piedade,
Como o que tudo despreza
Cinicamente
Em agressividade,
- Todos são meia verdade
E, portanto, meio erro,
Nenhum transpõe o fatigado cerro
Da seriedade.
Tanto o ódio como o amor
Podem ser clarividentes
Como também, entrementes,
Cegos nos poderão pôr.
No teso da serrania,
A meio de cada pendor,
Aí é que a verdade espia,
Da imensidão esplendor.
265 – Felicidade
Felicidade deveras
Tem pontas de sofrimento.
Não vem de extraordinárias
Esferas,
De lançar mão, a todo o momento,
De arbitrárias
Medidas artificiais,
Nem de cultivar perene bom humor
Com esforços sobre-humanais.
Ser feliz é me propor,
Para além da miséria sem fim
E da dor que exista,
Dar à vida um sim
Realista.
266 – Reparar
A cristandade esvaziou-se do cristianismo
Sem bem reparar em tal.
Para reparar o abismo
Cumpre-nos, afinal,
Reintroduzir o cristianismo de verdade
Na cristandade.
- E nisto quantas vezes o ateu
É o mais fiel mensageiro do céu!
267 – Meio
Meio brasileiro e meio português
Poderei ser,
Cidadão de dois países a que me irmano,
Apegado e cortês.
É, porém, difícil ver
Como ser meio cristão e meio muçulmano.
Não há perfil deste jaez:
- Não é vinda
Para assumi-lo quenquer
A hora ainda?
268 – Espírito
O espírito do Nazareno logrou romper,
Apesar das falhas de indivíduos, igrejas, reinos,
Quando os fiéis, descontentes da palavra mera,
Desataram a segui-lo na esfera
Dos tenteios, dos gestos, dos treinos
Ante quanto ocorrer:
A verdade cristã não é tanto para conhecer,
Nem é para olhar, à espera,
- É verdade para tratar de viver!
269 – Cobra
Como a cobra abandona a pele velha,
Já me não vejo
No que a vida aconselha
E a que a juventude inclina:
Nem de ter mestres me resta o desejo,
Nem de escutar doutrina.
Não, não é que tudo saiba:
É que bem menos ilusão há que em mim caiba.
270 – Convém
Eis o tom
Que convém a teu teor:
Escrever é bom,
Pensar é melhor.
E, para não agires à toa,
Convém-te supor:
A inteligência é boa,
A paciência é melhor.
271 – Caminho
Onde me conduzirá
Este meu caminho ainda?
Às curvas para aqui, para acolá,
É um caminho louco,
Onde à loucura sobrevinda
Me adiantarei decerto pouco,
Que ele andará, de vez,
Em círculos talvez.
Vá embora por onde quiser,
Minha lei
Não tem por onde escolher:
- Segui-lo-ei.
272 – Aprendi
Aprendi, quando criança,
Que os prazeres do mundo e a riqueza
Não são bons para o que os alcança
E preza.
Há muito o sabia,
Apenas agora, porém, o vivi:
Não é só memória e fantasia
Que tenho aqui,
Mas meus olhos, meu coração,
Meu estômago, cada mão…
Senão, em mim quem era rei?
- Ainda bem que agora sei!
273 – Retorno
O que até ao fim
Não é suportado e resolvido
Retorna então assim,
Procurando consumar o próprio sentido:
- Enfrentamos a todo o momento
Sempre o mesmo primitivo sofrimento.
274 – Meta
Quando alguém procura
Pode ocorrer que dele os olhos
Apenas o que procura vejam
E então de facto sejam
Escolhos
Em tal postura:
Não permitem encontrá-lo
Porque ele vive possuído
Pela meta do regalo,
Como objectivo
Obsessivo
Que lhe tapa vista e ouvido.
Procurar é ter um horizonte
E então encontrar é ser liberto,
Manter-se aberto
Para erguer a ponte
Onde aflorar um gesto vivo,
E nunca acabar a monte,
Prisioneiro dum objectivo.
275 – Partilhar
Podemos partilhar conhecimentos,
Não a sabedoria.
Podemos encontrá-la entre os eventos,
Vivê-la para além da fantasia,
Ganhar relevo com ela,
Com ela gerar maravilhas,
Que lhe não comunicamos nenhuma parcela,
Não a ensinamos, isoladas ilhas.
Convém pressenti-lo,
Cada qual um aprendiz,
Que colher dos mestres aquilo
É o que mestres gera de raiz.
276 – Meditação
Tem a meditação profunda
De abolir o tempo a possibilidade,
De ver simultânea, em procissão jucunda,
Toda a vida
Outrora acontecida,
A que hoje acontece
E a que há-de
Vir a acontecer.
E aí tudo é bom, tudo é perfeito,
Tudo é Ser.
Por isso o Todo a eito
Me parece
Bom:
Pecado e santidade,
Morte e vida,
Sensatez e loucura,
Toda a figura
É requerida
De fundo naquele tom
E só quer minha vontade
Afectuosa.
Então, sendo tudo bom para mim,
Apenas me pode encorajar,
Não molestar.
E quem o mundo goza,
Enfim,
É quem lhe permitir ser como for,
Para poder amá-lo
Com o devido fervor,
Sem nele introduzir o próprio abalo.
E feliz ser
Pelo milagre simples de lhe pertencer.
277 – Contado
A palavra não faz bem ao sentido oculto,
O igual devém um pouco diferente,
Mesmo contado em voz de culto
É um pouco falseado, louco, demente.
Mas é bom e agrada também
Que o que é para uns tesoiro e sabedoria,
A fonte da alegria,
Seja sempre uma loucura para alguém.
Assim se mantém perenemente vivo
O pendor do que é fatalmente esquivo.
278 – Verdade
A verdade desesperante
Prefira
Sempre a qualquer repugnante
Mentira.
A não ser que queira
Tombar, a prazo, na jeira.
279 – Silêncio
O silêncio dos páramos infinitos
Envolve o frenesim humano
Dissolvendo gestos e gritos,
Diluindo a mágoa
Da mancheia de pó que, no desengano,
Se esboroa dentro do infindo oceano
Como em água.
280 – Grande
Se um grande homem não tem moralidade,
É sinal
De que a moralidade pouco vale:
Importante,
Então, de verdade,
É devir tal
Grande homem adiante.
Tal é a lógica infantil,
Não lhe escapa um em mil.
281 – Músico
De músico para um coração
Tudo é música, tudo:
O que vibra, agita e pulsa no Verão,
As noites em que o vento apita agudo,
A luz a fluir, os astros a piscar,
A tempestade, das aves o canto,
Os insectos a zumbir,
As árvores a fremir,
A voz que amar ou detestar,
Ruídos familiares do lar,
A porta que range entretanto,
O silêncio a latejar
Numa qualquer noite de encanto…
É música tudo o que existe
De músico para um coração.
Através de tudo subsiste,
Veste de gala
O serão.
A questão
É dar-lhe a fala:
- É de vez interpretá-la.
282 – Cruel
É cruel para os pobres
Prenderem-se ao passado,
Que não têm direito, como os ricos,
A um passado que lhes cobres:
Não têm casa, nem monte, nem valado,
De jóias as arestas, de alfinetes os picos,
Onde as recordações guardar.
Deles a alegria
E o pesar,
A euforia
E o tormento
São cada dia
Em demasia
Dispersos ao vento.
Não deixam memór