QUARTO TROVÁRIO

 

 

 

DESFIO OS TRAÇOS DO QUE FOR ROSTO DE DEUS

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 373 e 492 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

                                               

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                373 – Desfio os traços do que for rosto de Deus

 

                                                Desfio os traços do que for rosto de Deus

                                                A toda a volta de meu lar, de meu enleio,

                                                Nos campos verdes, nas pessoas, casitéus,

                                                Nas mãos que lutam, organismos, nos plebeus,

                                                Na gente-bem, em tudo quanto me tem cheio…

 

                                                Identifico nestes versos assimétricos,

                                                Desencontrando cada ritmo na procura,

                                                Como os tenteios pelo escuro buscam tétricos

                                                Rimar na vida das vertentes a figura.

 

                                                Cada pendor um lado mostra de outro lado,

                                                Então meus pés trôpegos vão na rua escura

                                                Seguindo o fogo que entrevejo além ateado.

 

                                                A minha trilha é o saber mudo que há num mouco,

Se não é sol, ao menos luar alveja um pouco.

 

374 – Verdade

 

A verdade,

Um raio de luz coado

Por um vidro facetado,

É o esplendor

De mil estilhas de cor.

 

Apenas persuade

A evidência

Que me grade.

 

E, no derradeiro verso,

Com infatigável persistência

Incendeia o Universo.

 

 

375 – Todos

 

Todos nós

Criamos

(E carregamos

Após)

O inferno ou paraíso

Dentro de nós.

 

De morrer não preciso

Para que para um deles vá:

- Já moro lá!

 

 

376 – Hoje

 

Ontem é história,

Amanhã, mistério.

Hoje é a glória

A sério

Na dádiva evidente,

- Por isso lhe chamamos presente.

 

 

377 – Esquadrinhadores

 

Esquadrinhadores da informação

Deviemos,

Da salada mediática no cachão

Escolhemos,

Servimo-nos pavio a pavio,

Como miúdos com fastio:

De tão mal empanturrados,

Acabamos para aqui todos definhados.

 

 

378 – Fala

 

O inteligente fala de ideias,

De coisas fala o povo comum.

Além cheias,

Aqui meias,

Ambas são palavras boas

Para nosso desjejum.

 

O medíocre, porém, fala de pessoas

 

 

379 – Livros

 

Lugar

Sem livros é frio,

Seja idade, país ou lar.

É o afundar do navio,

A abismal quebrada na falésia,

O mudo cataclismo

Do tombo no abismo,

Recanto deserto como uma amnésia.

 

Lugar

Sem livros é frio:

Não há desafio

Que sonhar,

Nem de meta o esticado fio

Para enfrentar

E quebrar.

 

 

380 – Tentames

 

A democracia

É tal qual o movimento:

Nada no-la demonstraria

Senão o acto em que eu a invento,

Tentames de aperfeiçoamento

Fortalecendo-a à medida

Que progride,

Matando-a, se interrompida.

 

Como ao sarmento da vide,

Como à vida,

Ninguém pode implorar à democracia:

Fica mais um pouco, hiberna,

Finge que não vês a via,

Não bulas, põe-te mais terna,

Que melhor tempo virá,

 

- Porque ela então findará.

 

Não fraqueja meramente,

Morre logo no lugar,

Sem, definitivamente,

Jeito de ressuscitar.

 

 

381 – Tempo

 

O tempo vai passando,

Arrastando os pés silentes.

À medida que os olhos se vão acostumando

Às escuridões jacentes,

Examino os vestígios

Da civilização desaparecida,

Os fastígios

Da pretérita vida,

A aventura de anos-luz dos astros…

 

Como sou pequeno,

Aqui de rastros,

Como o são as actuais raças humanas

Quando com o Tempo as irmanas,

Dele no percurso interminável e pleno!

 

Que importância teria

Para alguém

Se um zé-ninguém

Perdido num insignificante planeta de periferia,

Grão de pó entre as estrelas,

Vivia ou morria

Do Tempo nas sequelas?

Se finda entre os restos mortais

Dum povo, dum continente, duma cultura

Que nada são doravante mais?

Em séculos distantes

Toda aquela pléiade de povos se há comprometido

Com ideias fascinantes,

Causas perdidas, um sonho esquecido,

Agora sem qualquer significado

Para ninguém.

Como também

Que importa se fiéis, honrados se hão conservado

Ou se perjuros hão morrido?

 

Do Tempo na vastidão

A quem importaria

Que eu seja ou não bem sucedido,

Se tropeço estendido no chão

Ou mesmo se hei vivido algum dia?

 

 

382 – Quão

 

Quão maior a igualdade,

Maior a diferença,

Quão maior a diferença,

Maior a igualdade.

 

Não somos feitos, na realidade,

Em modelos repetidos por sentença.

 

Se somos pronto-a-vestir

É que alguém por aí quer ir.

 

Podemos vestir geniais

Modelos únicos como os mais:

 

Então, quão mais igualdade,

Mais diverge de verdade.

 

De ser eu mesmo o direito

É o mesmo dos demais todos

E então todo o mundo a eito

São mil e um diversos modos.

 

 

383 – Navio

 

Neste navio da escola

Irás esquecer-me,

Como todos os passageiros me esqueceram.

Enquanto o mar da vida enrola,

Da memória o verme

Vai matando as aventuras que ocorreram.

Terá de ser assim.

 

Por mim,

Gostei de todos vós,

Dos que se uniram juntos até ao fim

Durante a travessia,

Do drama da vida repletos e sós,

Cheios

De receios

De falharem a  prova da viagem algum dia.

Todos belos, todos frágeis,

Como de meu barco a travessia,

Como as flores e as borboletas

Efémeras e ágeis

Que só vivem uma manhã de fantasia,

Como as vossas metas,

Taças de champanhe um nada após vazias,

Mas sobrevivendo num brilho dos olhos,

Num jeito da fala,

No trejeito de transpor escolhos,

De transpor a vida para outra escala.

 

E perene a reminiscência

Guarda o sabor destas vulneráveis travessias,

Destas vidas fugidias,

Da espuma de champanhe, florescência

Dum cintilar de olhos encantados.

 

Tudo luzes, tudo,

No escuro de mares encapelados,

Vago alvor com que me escudo…

- Porque o que importa é a luz

Que foi sempre o que nos seduziu e me seduz.

 

 

384 – Imaginário

 

O imaginário dos quinze anos

Não cuida do presente, senão

Para julgá-lo importuno com tantos desenganos,

Contrário à ilusão

Que é mais preciosa, afinal,

Que quaisquer promessas da vida real.

 

Aos quinze anos, a alegria

Mora nos mil mantos da fantasia.

 

 

385 – Recreia

 

A varanda

Solta o olhar que avalia,

Recreia o enclausurado em demasia

E o que de freimas consumido ciranda.

 

Lugar de aprazível pausa,

Discreta, nem confessa

Quantas vezes refunda e começa

Nela a primeira causa.

 

 

386 – Ambições

 

De ambições a epidemia

Não se extingue jamais

Por inteiro nos corpos sociais.

É o que promoveu, pelos séculos volvidos,

A História, dia a dia,

Em todos os sentidos.

 

 

387 – Estado

 

A tristeza

Como os poetas são tristes

É um estado de riqueza.

Algumas crianças que vistes

Tristes

Têm imenso feitiço:

E quanta beleza há nisso!

 

É um estado de riqueza

Esta pobreza

Engendrada pela alquimia

Da poesia.

 

 

388 – Insignificantes

 

Sermos insignificantes é o que em nós borbota

Paixões que nem se imaginam!

Depois nada acontece de nota

Naquilo a que nos inclinam.

 

Então, como a insignificância não inculpa,

Serve-nos de desculpa.

 

 

389 – Ofício

 

O ofício aprende de mulhar,

Como uma telegrafista

Em todos os botões aprende a mexer

Que a tornam benquista,

Da comunidade em proveito.

Aprende, quer de risco como criatura,

Quer de boa reputação

Que maior risco figura

No escondido jeito

De inerme a terem todos à mão.

 

Aprende o ofício de mulher

Ou margem alguma terá de vir a ser.

 

 

390 – Nunca

 

Nunca uma mulher

Meia-mulher obrigada a viver

É capaz de admirar,

A não ser

Que se convença de então partilhar

O talento de quenquer.

 

De afecto meio servil,

Tem o desejo oculto de ver

Tudo a falhar rasteiro e vil.

Ver falhar é dela a volúpia favorita,

Por isso ama os tristes e mal encarados,

Vítimas da desdita,

Propensos a serem atropelados

Pela vida ou por qualquer piada maldita.

 

São os irmãos dela,

Irmanados numa vida à pisadela.

 

 

391 – Escritor

 

O escritor é um tronco morto

De árvore serrada,

Rebola-se das palavras pelo horto,

Ignora o sexo a jogar

À apanhada

Com as palavras, num contínuo rebolar.

 

É um castrado

Mas tem o mundo inteiro fecundado.

 

 

392 – Incólume

 

Do homem se a pequenez

Incólume não ficar,

Se, de vez,

Da transcendência a não delimitar,

Decompõe-se a fragilidade humana

E finda em depressão,

Ao vento desgarrada pragana

Soprada do chão.

 

É tão antiga esta guerra

Como a vida mental na terra.

 

Homem feito deus absoluto

É morte e luto.

 

 

393 – Catadupa

 

Ninguém suporta

A falta de significação.

A catadupa de palavras importa

Como aproximação

Do significado do real.

 

A técnica não substitui o pensamento,

O grito racional,

É, porém, mais calmante do tormento,

Torna-o discreto:

A técnica traz com ela o folheto

Com a significação;

- A pessoa, não!

 

 

394 – Cósmica

 

Na cósmica perspectiva

Cada qual é precioso

Porque único, sem alternativa.

 

De nós se discorda alguém,

Se no que afirma não me entroso,

Deixemo-lo viver, porém:

 

De galáxias em centenas de biliões

Como ele não há mesmo mais ninguém

Perdido nas infindas solidões.

 

 

395 – Igreja

 

Até uma igreja romana,

Rígida em ortodoxia,

Descobre que se dana,

Ao pretender sobreviver,

Se a língua do dia-a-dia

Não fala de quenquer.

 

Todavia,

A comunidade científica,

Máquina de muda radical,

Antiautoritária por natureza,

Castiga, beatífica,

Qualquer membro do rebanho processional

Quando aos não iniciados

Divulgar preza

Os mistérios revelados.

 

Um divulgador

Deixa logo de ser um digno cientista,

É um papagaio palrador

A quem servem alpista.

 

Eternamente Galileu

Há-de ver recusado o céu…

 

 

396 – Ecologia

 

A ecologia é subversiva:

Quando é feito um esforço sério

Logo uma teia esquiva

Dum incontornável império

De privilégios económico-sociais

Estabelecidos

Armadilha os pantanais

E acabamos perdidos.

 

Qualquer muda maior

Em algo que anda errado

Extravasa do cercado,

Espalha-se em redor,

Propaga-se à colectividade

Como um polvo que a invade.

 

É difícil isolar

Fragmentos da comunidade

E alterá-los sem provocar

Ondulações em todos os bairros da cidade.

 

Importa, porém, não desistir:

É o preço do porvir.

 

 

397 – Vista

 

A Terra vista do espaço:

Um mundo minúsculo,

Um ponto escasso,

Frágil e delicado

A desvanecer-se ao crepúsculo,

Tão vulnerável do homem à depredação!

Um ridículo prado

Dos céus em meio à imensidão.

 

 

398 – Vislumbram

 

O mundo, a vida, toda a gente,

Não se vislumbram iguais

Do campanário duma torre ingente,

Dum píncaro de serrania, perdidos nos pedregais,

Ou à nossa volta

Como grei à solta.

 

É precisa a lonjura

Para descobrir a vera dimensão

De cada figura

No contexto que lhe mede a pulsação.

 

 

399 – Preguiça

 

Maligna influência

De esgotar as energias

É a complacência:

O poder de reagir entorpece,

Gera preguiça mental, fantasias…

 

É primeiro síndroma a satisfação,

Entre tudo o que acontece,

Com as coisas tais quais são.

O segundo é tentar promover

O que poderia merecer

A rejeição.

 

“Tudo está bem como está”

É a palavra de ordem chã,

Onde quer que vá,

De hoje como de amanhã.

 

A complacência teme o ignoto,

Desconfia do que não experimentou,

O novo abomina.

Como as águas da mina,

O cano roto,

Trilham o rego que se lhes deparou,

Cobre a complacência a via mais fácil a quenquer:

A que descer.

 

Busca falsa energia

Olhando para trás.

De seu,

Faz e refaz

O que havia

E já morreu.

 

 

400 – Humor

 

Humor não é pregada

Partida

Nem piada,

É forma de estar na vida,

É um dom, uma graça.

- Ilumina cada jornada

E todos nos congraça.

 

 

401 – Halo

 

O efeito de halo rodeia

Qualquer indivíduo ou objecto tidos

Por irremediavelmente perdidos.

Razão que ameia

Na veneração pelo passado:

Como já passou,

Ninguém mais o logrou

Haver recuperado.

 

Então, do que foi antes, o que diviso

É definitivamente um paraíso.

 

 

402 – Opinião

 

Porque a opinião é que manda,

Uma vez configurada a opinião

Raramente mudamos

O fio que nos comanda.

A não ser que sejamos

Subvertidos por outra razão

Com argumento mais convincente

Que o que nos cativa a mente.

 

Tendemos a mais ouvir

Aqueles que de poder

Ocuparem posições,

Não quem a cargos nem a empresas presidir,

Mas quem real o detiver:

Jornalistas das televisões,

De rádio apresentadores…

 

Há-de ter cada qual

As opiniões melhores,

Senão

Por que lhe dariam aquele pedestal,

Trono de comunicação

Sem rival?

 

 

403 – Político

 

Político não perdoa

Poder eu fazer o que ele faz

E ele não ser capaz

Do que quenquer apregoa.

Político não nos premeia,

Odeia.

 

E a nossa maior desgraça

É que, de maior sem deixar recordação,

O político passa

Mas isto, não.

 

 

404 – Fórmula

 

Não é uma fórmula a pessoa,

Delimitada,

Definitiva.

Nenhuma história pode, à toa,

Ser contada,

De mil ideias cativa

Abstractas.

E menos ainda a narrativa

Pode ser trocada

Pelas medidas exactas

Do conceito,

A imagem apelativa

Dissecada

Em proclamação ou interpelação

Do sujeito,

Morto o estremecimento e a emoção.

 

Jamais a vida inteira,

Mesmo no mais pequeno troço,

Fica da palavra prisioneira

Que lhe endosso.

 

 

405 – Perito

 

Sinais

Terrenos:

O perito sabe cada vez mais

Acerca de cada vez menos.

 

Não me iludo

No sentido da jornada:

No limite saberá tudo

Acerca de nada!

 

 

406 – Real

 

Não há como contar

Como o real acontece,

Que é já sempre interpretar.

Não há da messe

Descrição,

Por mais viva,

Não há narrativa

Sem interpretação.

 

O real, de mim a par,

É sempre um outro lugar.

 

 

407 – Sabor

 

Mercadores a negociar,

Príncipes rumo às caçadas,

Enlutados os mortos a chorar,

Prostitutas a ofertar-se nas estradas,

Médicos com os doentes,

Padres a abençoarem sementeiras,

Amantes a amarem, renitentes,

Mães a embalarem, fagueiras,

- Tudo isto nada vale,

Tudo mente no que anuncia,

Tudo cheira a ilusão visceral,

Tudo sentido e sorte e beleza fingia

Quando em podridão oculta,

Afinal, me sepulta.

 

Tudo o que tenho a cargo

Grita, no que invento,

Que o mundo tem sabor amargo,

A vida é sofrimento.

 

- Onde, onde a saída

No dédalo perdida?

 

 

408 – Todo

 

Com a Estrela Polar,

O azul é todo azul

À sonoite a me piscar,

Estendendo sobre o mundo o véu de tule.

 

O rio Tejo é muito rio

E, quando o uno divino de que me fio,

No azul e no rio oculto vive,

Então, justamente,

É a forma de o espírito divino com que eu prive

Ser ali azul, além amarelo,

Ser floresta e céu

E cabana e castelo

E semente

- E aqui ser Eu!

 

O Espírito, o Ser, Deus não vive

Algures das coisas por detrás.

Sempre que um vislumbre tive,

Estava nelas, eficaz,

Em todas elas,

Como, à luz do dia,

As estrelas lá estão,

As estrelas,

Que apenas o sol me apagaria

Da visão.

- Ora, esta ausência é que é ilusão,

Como a noite prenuncia.

 

 

409 – Tempo

 

Com o rio aprendeste

Este segredo,

Este:

O tempo não existe.

O rio é igual em toda a parte,

Saltitante ou quedo.

Na fonte e na foz idêntico persiste,

No molhe, na catarata,

No rápido, no lago que o reparte,

Na montanha onde um cachão desata…

 

- Perenemente igual,

Ele apenas é presente,

Nenhum passado o ensombra, ritual,

Nem o futuro, eterno ausente.

 

Quem na derradeira profundidade o vir

Há-de reparar

Que o presente contém lá todo o porvir

Como todo o passado que nele vem desaguar.

 

Assim é que no rio descobriste

Que o tempo não existe.

 

E dele nesta profundeza, aí,

Te descobriste como és em ti.

 

 

410 – Contrário

 

Para cada verdade

O contrário é verdade igualmente.

A verdade apenas se deixa exprimir,

Envolver das palavras na ambiguidade,

Quando é parcial e parcialmente

Mente.

Tudo o que ser pensado de mim exigir,

Com palavras dito,

É parcial e parcialidade

É tudo o que medito,

Sempre inelutável metade.

 

A tudo falta a totalidade,

Apenas pressinto o Uno universal,

A Unidade

Integral.

 

Serei sempre metade de mim

Até ao fim.

  

 

411 – Caminho

 

Não há outro caminho senão caminho meio

Para quem queira avançar.

Mas o mundo é a cheio,

O que me rodeia e de que me rodeio,

De mim a par

Ou por mim dentro, abismal,

Jamais é parcial.

 

O Todo,

Porém,

Nunca fica ao alcance a que se atém

O meu modo.

 

 

412 – Ilusão

 

A ilusão das ilusões

É a de que o tempo é real.

Ora, o tempo não existe,

No fundo de meus fundões:

O que é fundamental

Sempre lhe resiste,