DÉCIMO  PRIMEIRO  TROVÁRIO

 

 

NA QUADRA IRREGULAR TUDO, POR FIM, ME GUIA

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 950 e 1175 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                950 – Na quadra irregular tudo, por fim, me guia

 

                                                Na quadra irregular tudo, por fim, me guia,

                                                No verso em contrapé trato do amor, do sonho,

                                                Rimando então a norma onde o saber confia

                                                Com traços dominantes onde o que é se alia

                                                Às mãos que abrem no mundo quanto nele aponho.

 

                                                É neste metro incerto que vou a surpresa

                                                Em cada contracosta dos perfis da vida

                                                Tentando capturar, mantendo à mão a presa

                                                Na gaiola do verso, na palavra haurida.

 

                                                No desencontro a sílaba do metro torto,

                                                Com rima então lograda na surpresa tida,

                                                Imita quanto esquivo ameia ao dia o porto.

 

                                                Nas pedras destes termos resumido vou

                                                A apontar num emblema quanto quero e sou.

 

 


951 – Mito

 

A persistência

Do mito

É que, no fundo, a evidência

É aquilo em que acredito.

 

 

952 – Sempre

 

Para sempre não há Inverno que dure

Nem Primavera cujo entremez

Se nos afigure

Deixar morrer dela a vez.

 

 

953 – Minutos

 

A melhor herança

Dum pai aos filhos vários

É, de seu tempo na abastança,

Dar-lhes alguns minutos diários.

 

 

954 – Honesta

 

Para bem suceder a democracia

O primeiro requisito

É que das gentes a maioria

Seja honesta em seu fito.

 

 

955 – Criatividade

 

A criatividade que buscamos

Não se gasta. Reparemos:

Quanto mais a usamos,

Mais temos.

 

956 -  Malhas

 

Ao sonho endossa-o

Das malhas da vida aparte:

Arte bem raro é negócio,

Negócio raro devém arte.

 

 

957 – Conforto

 

A palavra de conforto com magia,

Quando a contento acontece,

É a mais ancestral terapia

Que o homem conhece.

 

 

958 – Guerra

 

Há guerra quando uma parte

Deseja o que bem lhe apraz

Com força mais e mais arte

Do que a paz.

 

 

959 – Servir

 

Liberdade, liberdade

É de servir a ocasião,

Nunca uma oportunidade

De autopromoção.

 

 

960 – Simples

 

É simples o primeiro passo

Para quanto da vida quer ter:

Apenas o espaço

De decidir o que quer.

 

961 – Térmitas

 

Suposições, não!

As suposições

São

As térmitas das relações.

 

 

962 – Sentimento

 

Ao mundo

Convence-o:

- O sentimento mais profundo

Fala apenas no silêncio.

 

 

963 – Parece

 

Quem nos julgar atraente

Jamais nos parece, doravante,

Completamente

Desagradável nem desinteressante.

 

 

964 – Agrade

 

Agrade ou desagrade,

Com moderação

Mostrar gratidão

É mediocridade.

 

 

965 – Busca

 

Quem busca a sabedoria

É um sábio, desde logo.

Quem crê que a encontrou um dia

É um louco: ateia o fogo!

 

 

966 – Olhos

 

Ao julgar,

Os olhos podem-se iludir com a aparência,

Não o coração: singular,

Sente e compreende a essência.

 

 

967 – Forma

 

A única forma de ter

Amigo algum

É ser

Um.

 

 

968 – Vinte

 

Se tens um minuto

Quando alguém pergunta,

Trata de ser arguto:

Vinte lhe junta.

 

 

969 – Pejado

 

O mundo anda pejado de gente

Que perde a vida a fugir

De algo que, quando nele bem atente,

Não os anda, afinal, a perseguir.

 

 

970 – Tempo

 

O tempo é cozinhado

Numa casa de pasto:

O passado

É o futuro já gasto.

 

 

971 – Dança

 

Há uma evidência

De que ninguém goza:

A experiência

É uma doença não-contagiosa.

 

 

972 – Sismógrafo

 

É um sismógrafo o poeta,

A registar, na aparentre calma

Da caneta,

Terramotos de alma.

 

 

973 – Amor

 

O amor não,

Não mente:

O amor cura o coração

Até mesmo fisicamente.

 

 

974 – Viagem

 

Cada viagem trepa um degrau

Na descoberta do mundo

E por mim dentro salta a vau

Até o abismo mais fundo.

 

 

975 – Saúde

 

De saúde prestar cuidados

A quem nos é querido

É descobrir, por mal de nossos pecados,

Quanto a falibilidade tem sentido.

 

 

976 – Contra

 

Contra quanto te retém

Visas o que jamais se alcança?

- Olha que viver bem

É a melhor vingança…

 

 

977 – História

 

Da história a lição

Tem um problema:

Só lhe deciframos o dilema

Quando batemos com o queixo no chão.

 

 

978 – Casa

 

Nossa casa, muitas vezes,

Não é nossa casa, não.

Nossa casa, para além dos reveses,

É onde estiver nosso coração.

 

 

979 – Verdadeiro

 

O verdadeiro amor

É um diamante.

Não, não é pelo valor,

É por ser transparente e brilhante.

 

 

980 – Suja

 

Nem sempre é do tinteiro

O borrão:

Há mão que suja o dinheiro

Como há dinheiro que suja a mão.

 

 

981 – Tartaruga

 

É tartaruga a justiça,

Tem a perna curta,

Mas viverá, contra o que a enguiça,

Mais que duas vezes o tempo que se lhe furta.

 

 

982 – Fundamento

 

Retém

O fundamento provado:

- Em arte nunca nada fez ninguém

Enquanto não tentou o ilimitado.

 

 

983 – Preciso

 

De vida os regalos

Têm seus termos:

Aos homens é preciso amá-los

Sem, cobrando-o, lho dizermos.

 

 

984 - Dever

 

Dá-lhe os minutos principais,

Não ponderes sequer:

Jamais é cedo demais

Para cumprir o dever.

 

 

985 – Espontaneidade

 

Noutrem o que vir alguém

Não é o igual mas o diferente,

O que lhe permite e mantém

A espontaneidade criadora de agente.

 

 

986 – Apaixonada

 

O amor maior

É o da apaixonada criatura

Para quem do muito amor

É obra a formosura.

 

 

987 – Amadurecidos

 

Quando nos consideramos

De vez amadurecidos, os pontos nos is,

Deveras estamos

Senis.

 

 

988 – Força

 

Tudo é inferior ao desejo

E tudo inatingível se me some.

Tal é a força do que almejo

Que imagina sempre mais que o que consome.

 

 

989 – Degrau

 

Um degrau quando galgo,

De mimo mais discreto e fundo vence-o:

Apenas amando consagramos algo,

Senão era apenas o silêncio.

 

 

990 – Destruída

 

Destruída a viabilidade

Do prazer ou desprazer comum,

Perde a vida a validade,

Já não tem valor nenhum.

 

 

991 – Famoso

 

Ser famoso, de algum modo,

É ser infame às vezes, por junto.

Mas ser obscuro é, de todo,

Ser defunto.

 

 

992 – Rédeas

 

Doutrem adoras, milénio a milénio,

O lado risível,

Puxas as rédeas ao génio,

Retardas-lhe o triunfo o mais possível.

 

 

993 – Arrepende

 

Insiste,

Corrige e aprende:

Nada resiste

A quem se arrepende.

 

 

994 – Poupa

 

A bela mediocridade

Poupa o coração para o convénio

Com os vectores mais desconformes da verdade,

Com os vectores do génio.

 

 

995 – Jogador

 

Não são ganho nem morte

Do jogador os céus,

Mas o milagre de ver Deus

Num número de sorte.

 

 

996 – Desejo

 

A isto me irmano:

O que produz o amor, sobretudo,

Bem como o desejo humano,

É o lado irreal de tudo.

 

 

997 – Debate

 

Quando duvido

Germina a evidência,

Debate esclarecido

É a vitalidade da ciência.

 

 

998 – Fuga

 

No nosso planeta

Não há fuga à tecnologia.

Problema é usá-la, em parte ou completa,

Com sabedoria.

 

 

999 – Entalaram

 

Os danos

Da bondade:

Entalaram Deus em moldes humanos,

Constrangem e limitam a divindade.

 

 

1000 – Luz

 

O tempo não pára,

Incontinente,

E o que passou uma luz acende rara

Ao presente.

 

 

1001 – Melhor

 

Melhor é ocasionalmente

Ser enganado

Que permanentemente

Desconfiado.

 

 

1002 – Velha

 

Por mais velha que a mãe seja

Andará sempre à procura, com tenacidade,

De sinais do progresso que se veja

Nos filhos de meia-idade.

  

 

1003 – Sagrada

 

Para ultrapassar a desordem,

A sagrada lei do templo:

- A melhor forma de dar uma ordem

É dar o exemplo.

 

 

1004 – Rumo

 

Na certeza, luz verde

Para o rumo novo ou velho.

Na dúvida que herde,

O vermelho.

 

 

1005 – Caminho

 

Muitos que pelo caminho errado

Enveredam, mesquinho,

Gritam que o culpado

É o caminho.

 

 

1006 – Sobrepõem-se

 

Bom é que em ti graves

Bem fundo:

- Sobrepõem-se as coisas mais suaves

Às mais duras do mundo.

 

 

1007 – Histórias

 

Duas eventualidades

Dão histórias principais:

O excepcional rodeado de vulgaridades,

O vulgar envolto em eventos excepcionais.

 

 

1008 – Dono

 

De tudo é dono o poder,

Cantam as loas.

Nunca, porém, dono há-de ser

Do coração das pessoas.

 

 

1009 – Sabemos

 

Os termos

Eficazes:

Nunca sabemos quem somos até vermos

Aquilo de que somos capazes.

 

 

1010 – Corpo

 

Nosso corpo é bom escutar,

Como primeira matriz,

Mas não temos de acreditar

Em tudo o que ele nos diz.

 

 

1011 – Difícil

 

Mantém consciente

A grande lei do ser:

- Por vezes o evidente

É o mais difícil de ver.

 

 

1012 – Venera

 

Venera as obras de arte

Uma bacoca boçalidade tão impura

Que horripila: destarte

Degrada o culto em cultura.

 

 

1013 – Condicionam