DÉCIMO  SEGUNDO  TROVÁRIO

 

 

EM TROVÁRIOS, DE VIDA COM MIL SÓIS ME ALUMBRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1176 e 1416 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

                                                                               

 

 

 

 

 

 

                                                1176 – Em trovários, da vida com mil sóis me alumbro

 

                                                Em trovários, da vida com mil sóis me alumbro,

                                                São caminhos de amar, são de sonhar carreiros,

                                                São roteiros de agir, traços que enfim vislumbro

                                                Na noite dos prodígios: pelos céus deslumbro-

                                                -Me com os astros mil, de os ver de mim parceiros.

 

                                                Em trovários alinho as trovas nesta escada,

                                                Vou da quintilha à quadra, do terceto breve

                                                À parelha final onde me fica atada

                                                A ideia rematada que me o ar susteve.

 

                                                Então é com mais força que a pequena luz

                                                Que vem das profundezas como um sopro leve

                                                No verso compassado a madrugada induz.

 

                                                No trovário, por fim, vai revelar-se o lado

                                                Onde, afinal, não mostro, onde antes sou mostrado.                    

 

 

 

 

1177 – Cara

 

 

A outra cara da motivação

Que parte faz da natureza humana

É o gosto inato da competição,

Que ser competitivo é uma razão

Da qualidade que de nós emana.

 

Não é à toa que a sobrevivência

Dos que mais fortes são está na base

Da evolução bem como da cadência

Dos saltos pelas eras que ela apraze.

 

Competitivo espírito, eis a chave

Do adulto bem logrado, em evidência,

Enxada com que as várzeas ele cave.

 

Se é o que muros derrui, ata cadilhos,

Por que não incuti-lo então nos filhos?

 

 

 

1178 – Ilustram

 

 

Jogos, concursos e competições

Ilustram a importância da conduta

Que sofre da agonística impulsões,

Cobram poder de tomar decisões

E ensinam a perder numa disputa.

 

Com isto vêm as demais lições

De indubitável e feliz valor:

Como dos erros tirar ilações

Outros caminhos como me propor,

  

A melhorar saber e desempenhos,

A apurar finamente as aptidões,

A ter critérios para meus empenhos,

 

A ter vontade, contra meu revés,

Para tentar, teimoso, uma outra vez.

 

 

 

1179 – Compensação

 

 

Uma compensação que a idade traz

É que é mais fácil o passado velho

Com o presente celebrar a paz

E mantê-la virente, bem vivaz,

Que idade bem vivida traz conselho.

 

O tempo dilui as penas

Que dimanam dos desgostos

E as cicatrizes nos rostos

Mais e mais ficam pequenas.

 

As culpas também se esbatem

Nelas e nos pressupostos

E os muros dentro se abatem.

 

O vinho melhor

Tem velho sabor.

 

 

 

 

1180 – País

 

 

Este meu país é antigo,

Tem vindo a ser assolado

Quanta vez pelo inimigo!

Faz dele sempre um mendigo

Cada invasor desvairado.

 

Caminhamos por entre estas ruínas,

Sobrevivemos há três milhões de anos

E da sobrevivência os bons arcanos

Da família reduzo-os às vacinas:

 

Pois a família não é só questão de sangue,

De relações é teia (ilusões, desenganos…)

São dívidas, favores, risos com que mangue,

 

- É todo o seguro

Contra o mal futuro.

 

 

 

1181 – Transmutações

 

 

Quem as transmutações ignora dos amores,

Por eles operadas no carácter do homem?

Eis que os tristes alegres ficam, doutras cores,

O extrovertido finda de negros humores,

O optimista deriva em freimas que o consomem,

 

O pessimista, ao invés,

Abre os olhos de alegria,

O covarde ganha pés

De enfrentar a apostasia

 

E a coragem retoma, é uma bandeira

Trilhos rompendo aonde ecoam fés,

O indeciso decide com canseira…

 

- É o amor mudança

Que outro mundo alcança.

 

 

 

1182 – Sempre

 

 

Sempre o mesmo ocorreu e ocorrerá:

Sempre o amor é o amor antes de o veres,

Poderás encontrá-lo, ora acolá,

Ora com outrem que nem te verá,

Em qualquer parte, mal por ti não deres…

 

Sempre o mesmo e nunca igual

Ou igual só na traição,

Que, ao mudar, então já não

Teremos de amor sinal.

 

Eterno é sempre o amor no que visar devir

Mas o tempo, afinal, o terá curto à mão:

Conservá-lo não hás-de jamais conseguir,

 

- Só se morrer dele

For o que te impele.

 

 

 

1183 – Satisfatória

 

 

Dum indivíduo quão maior a activação

Menos satisfatória vai ser nele a vida:

Primeiro no domínio do que é o coração,

Depois nos pessoais laços que entretecerão

As domésticas freimas, de íntimos a lida.

 

Mesmo as esposas, os irmãos, os filhos

Ou quaisquer próximos demais parentes,

Até do grande líder assistentes

São bêbados, drogados, - mil sarilhos!

 

Uns são invertidos frustes,

Outros, loucos descontentes

E não vês como te ajustes:

 

- É o que aos céus faz que cometas

Tantas podridões secretas!

 

 

 

1184 – Raso

 

 

Por temermos o elitismo,

(Que nós somos democratas!)

Impomo-nos o estrabismo

De não ver de oiro o que crismo,

Todas as jóias são latas,

 

Seja o génio que abre mundos,

Seja o santo que nos salva,

O herói de tempos fecundos,

O artista luzeiro de alva…

 

Qualquer ente de excepção

À mostra lhe ponho a calva,

Ignorando-o, raso ao chão.

 

Da libertação são remos

- E aguardam que nem olhemos!

 

  

 

1185 – Duas

 

 

Sendo nós duas verdades,

Uma de Árvore da Vida,

Pela qual te persuades

A buscar com que te agrades

Sempre da fome à medida,

 

Outra da Sabedoria,

Flor da receptividade,

Por onde entra a luz do dia

A luzir na opacidade,

 

Aquela a viver a luta,

Esta a lei que concilia,

Se uma com outra disputa,

 

Uma doutra divorciada,

Serão doença pegada.

 

 

 

1186 – Contrato

 

 

O amor deveras amor

Não pode ser colocado

Num contrato, num valor,

Que tal base, é de supor,

É um desafio adiado,

 

Pois contrato é desafio

Que, logo no próprio acto,

Me vai tentar, desconfio,

A quebrar o que há no pacto.

 

Há o cálculo pessoal,

Cada qual ata seu fio,

Combina aparte, letal.

 

Contrato é de humano tino,

O amor amor é divino.

 

 

 

1187 – Radiações

 

 

Há radiações, dioxina,

Mil e um resíduos letais,

Muita espécie que declina

E as de que findou a sina

E nem sabemos que mais…

 

Concordaremos que é mau,

Que é o desafio maior,

Trepa degrau a degrau

E acaso o fim nos vai pôr.

 

Teremos, todavia, de anotar,

Por terrível que disto seja o grau,

Que outro maior, silente, anda a lavrar:

 

- Bem mais que de radiações,

Morres da mágoa às lesões.

 

 

 

1188 – Fora

 

 

Aqueles a quem tudo corre mal

Olham às vezes, fora, a natureza,

Vêem o crescimento sem igual,

O equilíbrio, a beleza bem real

Que a freima de cotio só despreza,

 

Milhares de milhões de anos de efeitos

De desenvolvimento gradual.

Sentem-se envergonhados, mal afeitos,

Tão insignificantes ante tal!

 

Ficam parados a olhar

Como bonecos sem jeitos,

Olhos fixos, com vagar…

 

- Mas se eu sou que em mim noto a maravilha,

Que faço aqui parado preso à cilha?

 

 

 

1189 – Monumentais

 

 

As monumentais formas de sofrer,

A peste, o cataclismo, a guerra, a fome,

A escravidão que eterna nos tiver,

Universal a dominar quenquer,

Decerto que, a quem lá se não consome,

 

O torna um sobrevivente

Humanamente mais fundo.

Mas convirá ter em mente

O sofrer livre do mundo.

 

O totalitarismo, doutro modo,

Iríamos sagrando, convincente,

Como quem tem da honestidade o bodo.

 

Mas trilhas mortalmente perigosas

Sofrem os livres que aram o que gozas.

  

 

 

1190 – Idosos

 

 

Idosos há, com mais de oitenta os vejo,

Ainda furiosos pelo modo

Como perderam em criança ensejo

De uma bacia utilizar sem pejo,

Ou como um jogo lhes frustraram todo…

 

Vivem a vida infantil,

Escravos de pai, de mãe,

Decénios de fraldas mil,

- Toda uma vida refém.

 

Dele próprio ninguém com o respeito

Se vai escravizar ao que ali tem

De antanho a marca duma faca ao peito.

 

Desliga de teus pais em paz, se podes;

- Se não, rompe caminho: é a ti que acodes!

 

 

 

1191 – Arranha-céus

 

 

O arranha-céus, ergástulo opressivo,

Nem sempre tem de ter este sentido.

Eles exprimem o pendor que é vivo

Da aspiração de quem se vê cativo

E à liberdade tende, ao céu volvido.

 

É neste erguer-me mais alto

Que escapo da gravidade,

Que busco, no que me falto,

O peso do que me invade.

 

Empresas poderão enchê-los, execráveis

No chão ao esmagar raízes donde salto,

Que evocam transcendência de altos invejáveis…

 

Talvez ma traiam, induzindo em erro…

- Mas a esperança acorda a que me aferro!

 

 

 

1192 – Vida

 

 

Uma vida humana,

De humana, que densa

No que dela emana!

Mesmo se se fana,

Como a vida é intensa!

 

Porque o que nela acontece

Não é o que acontece nela,

É bem mais que o que parece,

Infindo além da janela,

 

Fronteira do infinito onde asas soltas

Vou abrir respirando a infinda messe

Das vertigens sidéreas nela envoltas.

 

Pouco importa o que ocorre a uma vida qualquer,

Mas o que ocorre em nós neste imenso ocorrer.

 

 

 

1193 – Aprendi

 

 

Com a vida aprendi que objectos são objectos,

Podemos substituí-los, se for caso disso.

Objectos não são gente, terminam completos

No limite em que os toco em meus dias concretos,

Neles jamais encontro dum porvir o esquisso.

 

Hoje, quando um filho ou neto

Parte ou gasta, em brincadeira,

Um brinquedo, se o detecto,

Não o censuro da asneira.

 

Em vez de o castigar por descuidado,

Prefiro da aventura andar à beira,

A infância festejar de mui bom grado.

 

É uma alegria festejar a vida

Pagando os prejuízos de seguida.

 

 

 

1194 – Casal

 

 

Todo o casal chegado partilha um segredo,

Não termos cintilantes onde brilha o sol

Nem sexo doutro mundo onde Deus reza  o credo,

Embora em comum possam ter tudo sem medo:

- É que ambos descobriram da bondade o rol.

 

Bondade, ou seja, ternura,

Atenção, delicadeza,

Qualidade da doçura

Que hoje o mundo, enfim, despreza.

 

São os pequenos momentos

Em que a sintonia apura

Que do casal são fermentos.

 

- Eternos apaixonados

E é por mor de tais bocados.

  

 

 

1195 – Acaso

 

 

Todos seremos por acaso amáveis

Para com nosso cônjuge, porém,

O casal mais feliz logra fiáveis

Maneiras naturais quase incontáveis

De o mesmo prosseguir como ninguém.

 

Não serão mais altruístas,

Compreenderam, todavia,

Que a amabilidade cria

Um trilho do amor nas pistas:

 

Um pequeno e doce gesto

Outro igual inspiraria,

De boa vontade apresto.

 

E eis se reconcilia então o todo

De ambos quando ambos forem deste modo.

 

 

 

1196 – Gesto

 

 

O mais simpático dum gesto, às vezes,

Consiste apenas no banal dum toque:

Pôr-lhe a mão num joelho, se corteses

Temos de ser, mesmo que, enfim, desprezes

A festa onde te encontres a reboque,

 

Ou de encorajamento aquele abraço

Que lhe dás quando vai a uma entrevista

Com um empregador que se revista

Dum peso para o qual o jeito é escasso…

 

Pele com pele o contacto

Mais pode quão mais insista,

Serenidade é de facto.

 

Um gesto é capaz:

- Cria logo a paz!

 

 

 

1197 – Toque

 

 

Há no toque envolvimento

Físico e químico amável,

Vai levar cada elemento

A aproximar-se, sedento,

De outrem como desejável.

 

Parece, provavelmente,

De somenos importância.

No atropelo da corrente,

Na confusão plena de ânsia

 

Destas vidas agitadas,

Corre o passado, o presente,

E vemos, eras passadas,

 

Que os vivemos sem tocar

Nunca, acaso, em nosso par.

 

 

 

1198 – Cotio

 

 

Quanto mais introduzir

Mil pequenas gentilezas

No cotio que erigir,

Mais nelas hei-de fundir

Minha energia e defesas

 

Da relação afectiva.

Nada, pois, de grandes gestos,

Um nada pessoal cativa,

Mais caro que outros aprestos.

 

Prepara-lhe o que vestir,

O carro da fila esquiva

Lhe tira, quando sair…

 

- Bom, em todos os assuntos,

É ver quanto andamos juntos.

 

 

 

1199 – Aprendemos

 

 

O que aprendemos no jardim de infância

(“Ouçam, não interrompam!”, “Obrigado!”

Ou “Peçam por favor!”…), mais que elegância,

Da ternura retém toda a fragrância,

Ao casamento, pois, vive aplicado.

 

Quando com alguém se vive

É fácil deixar à porta

Bons modos a que me esquive

Como o que já não importa.

 

Mas “obrigado!” dizer

Ou “desculpa!” é o que me exorta

Ao respeito por quenquer.

 

- Ora, é sempre no respeito

Que a ti, amor, presto preito.

  

 

 

1200 – Problema

 

 

O problema é abandonar

Hábitos indelicados,

Importa através do olhar

Nunca mais os sinais dar

De impaciência enervados.

 

Entender que é mesmo má,

Má educação entre nós.

E, quando não houver já

Do amor no fio tais nós,

 

Constataremos, enfim,

Que a animosidade lá

Feneceu de vez assim.

 

- Vamo-nos, amor, ouvir

Sem ter mais de discutir.

 

 

 

1201 – Lindas

 

 

Ao não guardar para mim

Palavras lindas que penso

De meu amor, digo assim

Que tem ar de querubim:

Logo ateio nele o incenso,

 

Fica tão iluminado

Como árvore de Natal.

Um mero”tens ar lavado!”

Troca-lhe ao dia o sinal,

 

Tudo logo corre bem:

De quem mais, por outro lado,

Ouvi-lo pode também?

 

- Se a formosura lhe aponto,

Aumento-lhe a fé de pronto.

 

 

 

1202 – Espontâneos

 

 

Espontâneos gestos tem

Que te lembrem divertido

Como é estar com o teu bem.

Visita-o lá no armazém

Para o almoço inatendido.

 

Se o não encontras, sozinho

Deixa um recado também

Alegre num papelinho

Que o alegre quando vem.

 

Ou faz-lhe um favor.surpresa

Se carente, de mansinho:

Nos dias maus, põe-lhe a mesa…

 

- Mostrar quanto assim crês nele

Para a frente é o que o impele.

 

 

 

1203 – Jaula

 

 

Na jaula, cinco macacos

Aprendem que quem trepar

Leva a tudo pôr em cacos:

Os bens de parcos patacos,

Fome e dor logo a gerar.

 

Então quem trepa é abatido

Com uma surra bem dada.

Se entra um novo, é repetido

O castigo, logo à entrada.

 

Se um a um se trocam todos,

Quem trepa apanha pancada,

Sem já porquê de tais modos.

 

- Quantos assim não agimos

Quando à mão há outros cimos!

 

 

 

1204 – Coração

 

 

A natureza, ao criar

O ser humano, criou

Um coração a pulsar

Que a si própria se quis dar:

Logo a compaixão brotou.

 

Não existe no ADN,

Mas sim na pessoa inteira

E não há quem a condene

Quando uma dor lhe aligeira.

 

Dum alheio sofrimento

Manter-se fiel à beira,

Mas que estranho sentimento!

 

Dos homens, ante um apelo,

É deveras o mais belo.

 

 

 

1205 – Discrição

 

 

Pela discrição domino

Os meus impulsos primários,

À consciência me inclino,

A controlar o destino

Perdido em gestos sumários.

 

Nada obriga a contar tudo,

Revelar a intimidade

Não faz parte, por miúdo,

De ser par na Humanidade.

 

Ser discreto poupa a insónia,

Constrangedora verdade

Fecho em mim sem acrimónia.

 

- Detemos o poder de afinar a torneira

Por onde o imo derramo pela terra inteira.

 

 

 

1206 – Talhantes

 

 

Há talhantes disfarçados,

Dos cadáveres se servem

A fabricar, denodados,

Não os bifes cobiçados

Que nos gestos se preservem,

 

Não, que o cadáver humano

Provocaria o engulho

E um talhante que é de engano

Vai aos salvados no entulho,

 

E não fabricam sabão,

Que um morto humano traz dano

E há mais recursos à mão,

 

- São talhantes onde apura

De espaventos a cultura!

 

 

 

1207 – Comanda

 

 

Nosso passado tem pouco sentido,

Não vejo claridade, ordem, caminhos

E morrem os propósitos de olvido,

Às cegas aventura onde despido

O instinto me conduz dos adivinhos.

 

Incontroláveis factos me desviam

Da sorte o curso, talham-me o destino.

Não houve o cálculo que os pés queriam,

A presumir o rumo a que me inclino.

 

Mil boas intenções apenas houve

E, após, esta suspeita me imagino

Que o respeito, por fim, impõe que louve:

 

- Um projecto a que nem diviso os traços

Fatal comanda superior meus traços.

 

 

 

1208 – Maga

 

 

Agora e noutras ocasiões desesperadas,

Quando orações tento evocar e não encontro

Ritos, nem termos, nem imagens incensadas,

E mudo fico, indefinido entre as estradas,

Das frustrações e sonhos preso ao desencontro,

 

A visão única, consolo e reconforto,

A que poder vou recorrer são os atalhos

Entre os canteiros verdejantes de meu horto,

Serpenteantes no pinhal onde ando aos galhos,

 

São gigantescos fetos indo o céu lamber,

Os troncos negros a elevar-se ao azul morto,

Perfil de montes e os nevões lá num qualquer…

 

- Estar em Deus deverá ser, pois, com certeza,

Andar deveras nesta maga natureza.

 

 

 

1209 – Escala

 

 

À escala do Universo imensurável, frio,

Da História no trajecto a nós alheio, imposto,

Como insignificantes vamos ser no rio

Do nascimento à morte, a correr sempre o fio

Implacável, fatal, de pedregais sem rosto!

 

Depois de nossa morte continua tudo

Tal qual se não contáramos jamais em nada,

Seremos o balão oco, vazio e mudo,

Não já na morte só, desde na vida a entrada.

 

Na medida, porém, desta precária sorte,

Tu, filho, és para mim mais importante e agudo

Que minha própria vida ou a que aos mais importe.

 

- Setenta milhões hão-de hoje o fim deles ter?

Só tu nasceste e apenas podes tu morrer!

 

 

 

1210 – Doença

 

 

Da doença as misérias nos igualam todos,

Não há rico nem pobre no limiar da dor,

Um hospital, a campa apagarão os bodos

Que a todos nos dintinguém pelas classes, modos,

E a morte nos nivela num igual bolor.

 

Este umbral ao cruzar, no cemitério finda

A busca ao privilégio, quer o queira ou não

Aquele que no leito de finado ainda

Não haja reparado que lhe falta o chão.

 

Em fumo se desfaz toda a vantagem tida,

Vaidade das vaidades as vanglórias são

E todos os haveres se rirão da lida.

 

Iguais nos descobrimos na raiz mais funda:

- Humildes nos tornamos quando a dor fecunda.

 

 

 

1211 – Cuidar

 

 

Tentemos não cuidar num amanhã de escuro

Quando a noite enoitar a cada luz do dia,

Quando a dor dentro em nós nos rematar o muro

Que intransponível corta o fino trilho e puro

À festa prometida que de além luzia.

 

Tentemos não cuidar, já que o porvir existe

Mas só no imaginário, que nos factos, não:

Futuro é projecção do que algum dia viste,

Se o tentas agarrar é pueril cotão.

 

Apenas contaremos com o antigo rumo

De antanho a oferecer-nos o sabor do pão,

O passado a espremer até nos dar o sumo,

 

E com presente aqui, breve e subtil faísca,

Que em ontem se converte, logo, mal nos pisca.

 

 

 

1212 – Dor

 

 

Dor é inevitável

No correr da vida

Mas é suportável

Se, identificável

E bem comedida,

 

Minha resistência

Eu não lhe opuser

E se da aparência

Não a enaltecer

 

Dos ecos em mim

Que encobrem qualquer

Traumatismo: enfim,

 

Se a aplacar meu credo

Na angústia e no medo.

 

 

 

1213 – Efémera

 

 

Como é efémera a existência!

Que é que importa o material,

Já que é de toda a evidência,

Seja qual for a excelência,

Que o perdemos no final?

 

Antes tu te preocupes

Com as inquietudes de alma,

Que com mais nada te ocupes,

A recuperar a calma.

 

Para a cova num lençol

Vamos sem oiro nem palma

E ninguém escapa ao rol.

 

- Tanta azáfama porquê,

Quando ao fim nada se vê?

 

 

 

1214 – Portas

 

 

Que não tenhas medo,

Pois fortalecido

Sairás do degredo,

Mais tarde ou mais cedo,

Após ter sofrido!

 

É que nos momentos

Mais desesperados,

Em meio aos tormentos

Mais fatais, danados,

 

Se as portas se trancam

E se aprisionados

Ali nos desancam,

 

- Eis se abre passagem

Logo a nova viagem.

 

 

 

1215 – Surpresa

 

 

Para mim foi surpresa descobrir que o mundo

São infinitas vias de maldade humana,

Já que é tão violento, um predador imundo,

A estraçalhar as flores do jardim fecundo

Que infante me sonhei, na candidez mais lhana.

 

Regida pela lei dos fortes mais, fatal,

A selecção da espécie não serviu jamais

Para que a inteligência refloresça igual

À dos lídimos homens onde cresceu mais,

 

Nem o espírito humano desenvolve, enfim,

Onde as vivências puras se imporão reais,

Que a porta aos maus instintos fica aberta assim.

 

Na ocasião primeira, ratazanas presas,

Logo nós destruímos lendas com vilezas.

 

 

 

1216 – Aprendi

 

 

Tudo quanto aprendi nos manuais, nos cursos,

Há o momento em que não me servirá de nada,

O momento em que o trilho destes meus percursos

Se incarna nas pegadas, já não são discursos

Que de roteiro servem na feliz largada.

 

A rota inaugurada já parar não pode,

Correremos direitos à novel fronteira

Como que iluminados pela luz  que acode

Da madrugada estranha que de nós se abeira.

 

Cruzamos através da misteriosa porta

E então amanhecemos do outro lado, à esteira

Do fulgor da magia que a espantar exorta:

 

Entrei bebé no mundo, germinei consciência,

Acordo – e neste Além sou a integral vivência.

 

 

 

1217 – Ignoro

 

 

Ignoro como e porque escrevo os livros meus,

Da mente, não, não brotarão, o ventre os gera,

São criaturas caprichosas, de escarcéus

Com vida própria, a arremedar inferno e céus,

Sempre dispostos a trair-me na quimera.

 

Não, não escolho tema, entrecho, eles me escolhem

A mim que deles mal vislumbro a sombra esquiva,

E nem ao menos me toleram nem acolhem,

Antes me obrigam a viver de névoa viva.

 

O meu trabalho simplesmente consistiu

Em dedicar-lhes de meu tempo o que recolhem

Quando meu fôlego sozinho se esvaiu.

 

Tempo bastante, solidão e disciplina

E por si próprios já se escrevem como sina.

 

 

 

1218 – Mergulhei

 

 

Na dor da morte mergulhei nas águas frescas

E descobri que uma viagem pela dor

Finda em vazios absolutos, sem dantescas

Figurações com que repeso te refrescas,

Antes é um nada na brancura do estupor.

 

Ao diluir-me, porém, fiz a descoberta

De que o vazio anda, afinal, cheio de tudo,

Da realidade do Universo recoberta,

Do que contém o inteiro Cosmos por miúdo.

 

Este vazio é mesmo o nada de ser cá

E ao mesmo tempo é pelo inverso, sobretudo,

Tudo, que o vivo quando vivo o ser de lá.

 

Porque vazio, sou também tudo o que existe,

Sou nada e tudo o que imortal por fim persiste.

 

 

 

1219 – Confrade

 

 

Aquele meu confrade que com risco

O partido tomar contra opressor

Poderoso em favor de fraco cisco

É o cordeiro que sai do firme aprisco

Ao canino do lobo a se propor.

 

Irá comprar maçadas a dinheiro,

Tentando endireitar ao cão selvagem

As tortas pernas em que ele anda useiro,

Quebrando as próprias dele na viagem.

 

Então os cães dirão que nas profanas

Matérias se imiscui e a camuflagem

É que a mais altos fins aplique as ganas:

 

Antes devera, alheio ao vil império,

Consagrar-se a um sagrado ministério…

  

 

 

1220 – Prepotentes

 

 

Provocadores, prepotentes, todos quantos

De qualquer modo a outrem fazem qualquer mal

São não só réus do que cometem, dor e prantos,

De escurecerem vida além mil e um recantos,

Mas de estenderem bem mais longe o vil sinal.

 

Da perversão serão os réus a que levarem

Os ofendidos corações, linhas de vida,

Comportamentos que à vindicta se apontarem,

Amargurados da justiça nunca havida.

 

Então alheio quem ao sangue sempre fora,

Quem inimigo da traição descomedida

Já militou, é doravante quem lá mora.

 

- Um homicídio que este vier a maquinar

É culpa dele ou daqueloutro a o incitar?

 

 

 

1221 – Recuar

 

 

Um poderoso recuar ver algum dia

Da prepotência de que impune sempre foi

Sem coagido ser a tal por força fria,

Só por golpe inesperado de magia,

É mais que raro, é o inaudito que nos dói.

 

Condescendência por pedidos desarmados

Sem camuflagem ser da algum fito escondido,

De poderosos não é nunca, habituados

Como andam todos ao arbítrio desmedido.

 

Disto a certeza, sem embargo, é sempre um soco

Contra os inermes que sonharam um sentido

Aos que na vida repudiam qualquer oco.

 

E, se alguns baixam a cabeça, resignados,

A frustração outros desperta e ei-los irados.

 

 

 

1222 – Voluntário

 

 

Naquele voluntário que de vós se parte,

De encostas de rebanhos, moradias pobres,

Da esperança arrastado que talvez acarte

Fortuna alhures feita com labor e arte,

Parco o passo pesado da escassez dos cobres,

 

Desdoura a fantasia, no momento triste

Deste alongado adeus, de tal riqueza o sonho.

Admira-se de haver-se resolvido, insiste

Em que atrás voltaria do sofrer medonho,

 

Não fora acreditar que um dia torna rico.

Quanto mais na planura avança, mais tristonho,

Cansado, seu olhar fixa do monte o pico.

 

Perante a magnitude de espantar da estranja

Ele na aldeia sonha e no casal da granja.

 

 

 

1223 – Consolações

 

 

É das consolações mais cordiais da vida

Esta de alguém contar com amizade fiel.

Depois, quando a amizade singular haurida

Mais o amigo conforta é quando, enfim, convida

Um segredo a confiar, desabafando dele.

 

Porém, como os amigos nunca são a dois,

Como era num casal, cada qual tem mais que um,

O que forma a cadeia cujo fim, depois,

Ninguém achar poder vai em lugar algum.

 

Quando um amigo dá consolação secreta,

A outrem se confiando como a mais nenhum,

Neste uma senda igual vai acordar discreta.

 

Vai de amigo em amigo e eis que o segredo junca

Ouvidos, afinal, que o não deveram nunca.

 

 

 

1224 – Providência

 

 

Nem toda a providência deste mundo atinge,

Por muito rigorosa que ela fora acaso,

Diminuir uma fome que alimento finge,

Porquanto, incontrolável, ao fatal se cinge,

Nem germinar mais géneros nos faz a prazo.

 

Há-de ter de atrair com sensatez, virtude,

Os alimentos falhos donde os haja fartos,

Quando às meras palavras algo mais se grude,

Actos, iniciativas que à luz tragam partos.

 

A superabundãncia, onde a pudera haver,

Ninguém com providências de ilusão se ilude,

De muito suor e freima se há-de enfim colher.

 

Doutro modo as maleitas que haja cada dia

Todas perdurarão e o fim do mal se adia.

 

 

 

1225 – Tratar

 

 

Por norma é bem melhor ter de tratar com quem

Comande sobranceiro sobre infindos mais

Do que com um apenas sobre o qual detém

O poder e a visão de quem vê mais além,

Que o súbdito de si apenas dá sinais.

 

Este mais não verá que dele a causa só,

Não ouvirá jamais senão paixão que sofre,

Dele o interesse cuida, o mais é cinza e pó,

As jóias que preserva são as dele em cofre.

 

Aqueloutro verá duma só vez mil laços,

Mil e uma consequências de alegria e dó,

Mil coisas a evitar, mil a salvar nos traços,

 

E então pode pegar não só por seus cuidados,

Porém, em simultâneo, pegará cem lados.

 

 

 

1226 – Abismos

 

 

Deus, se o vira, se o ouvira!

Mas onde é que anda tal Deus?

- É o que o coração te vira,

Que a calma em ti pressentira

No fundo de abismos teus,

 

É o que te atrai e te agita,

Te não deixa sossegado,

Mas uma esperança aflita

Dele pressentes ao lado

 

Duma consolação plena,

Imensa mesmo, infinita,

Superior a toda a pena.

 

Se o reconheces, confessas

Que é tua vida às avessas.

 

 

 

1227 – Contentam

 

 

Os santos, como os tratantes,

Hão-de ser sempre azougados.

Não se contentam, impantes,

Em multiplicar instantes

Deles por todos os lados,

 

Antes querem arrastar

Ao baile, se o bem puderem,

Toda a humanidade a par,

A ser tal como entenderem.

 

E sempre os mais irrequietos

Na vida a se intrometerem

Com gestos mil e um concretos

 

São aqueles justamente

Que inquietam mais meu presente.

 

 

 

1228 – Atingido

 

 

Os que fazem o bem sempre o farão por grosso:

Uma vez atingido o rebrilhar da festa,

Mal experimentado o salto além do fosso,

Mal aflorada a borda que livrar do poço,

Isso lhes vai bastar, não querem ver a gesta

 

Da cadeia de efeitos que se irão seguir.

Mas os que têm gosto de fazer o mal

Mais diligência põem no vilão porvir,

Seguem-me até ao fim, a controlar o real,

 

Nunca descansarão, já que o fatal destino

As voltas trocará de quem se distrair

E ao cabo é de finados o tocar do sino.

 

Nunca descansarão porque o que mais lhes dói

É o cancro que têm dentro que sem fim os rói.

 

 

 

1229 – Desabafar

 

 

Geralmente falando, os homens quando não

Podem desabafar sem um perigo grave

Deles a indignação que então sentir irão,

Tanto ali se controlam, inibir-se vão

Que tudo redundou num vão furor suave.

 

Primeiro, para fora demonstrarem menos

É condição prudente, é não correrem riscos,

Pelo que os grandes ódios vão-se olhar pequenos,

Avalanches de agravos ficam vagos ciscos.

 

No limite conservam dentro em si fechados

Os gritos de revolta, nos confins de apriscos

Onde os tigres ninguém já vislumbrou irados.

 

De tanto mostrar menos quanto, enfim, se sente

Se acaba a sentir menos efectivamente.

  

 

 

1230 – Revoltados

 

 

Vivem os homens atreitos

A estranha contradição:

Indignam-se, mal afeitos,

Revoltados nos trejeitos,

Fúrias de até mais não,

 

Com os males medianos,

Com a pedra no sapato

Que não provoca mais danos

Do que o dano do aparato.

 

E em silêncio nos curvamos

Debaixo do desacato

Do mal extremo que achamos.

 

O insuportável de início

Tolero, ao fim, como ofício.

 

 

 

1231 – Cólera

 

 

A cólera quer punir:

À perversidade humana

Os males vai preferir

Com ira fera atribuir,

Já que dela o poder mana

 

De exercer logo a vindicta,

Que reconhecê-los vindos,

Por nossa maior desdita,

De problemas jamais findos,

 

De causas tais ante as quais

Nem gestos feios nem lindos

Delas mudam os sinais,

 

Tais que não haja disfarce

A ter só que resignar-se.

 

 

 

1232 – Marca

 

 

A marca de expectativa

É crédula, imaginosa,

Segura dela e mui viva,

Tão presente quanto esquiva

No seio de quem a goza.

 

Depois, em prova, é exigente,

Difícil até mais não,

Nunca atinge o suficiente

Que lhe baste ao coração.

 

É que a sério não sabia

Dos factos em turbilhão

Afinal o que queria.

 

E faz pagar sem piedade

O quão doce nos invade.

 

 

 

1233 – Humanidade

 

 

No mundo, a humanidade é tal enfermo em leito

Mais ou menos incómodo que viu em torno

Dele mil outros leitos, tudo a bom preceito,

Arrumados, com colcha, liso, tudo a eito

E muito nivelado como um belo adorno.

 

Imagina que neles deve estar-se bem,

Optimamente acaso, ao invés dele ali.

Mas se mudar de leito lhe ocorrer, porém,

Mal se acomoda ao novo, sente a ponta aqui

 

Aguda a o espetar e um mazarulho após

Que o comprime dolente pela noite além,

Em suma, fica igual, contras medindo e prós.

 

Melhor é bem fazermos do que estarmos bem,

Assim acabaremos bem melhor também.

 

 

 

1234 – Dissabor

 

 

O dissabor às vezes realmente vem

Por nós lhe havermos dado ocasião a tal.

Nem o comportamento mais ingénuo nem

O mais cauto, inocente bastará, porém,

Para distante pôr o dissabor geral.

 

Quando nos atacar, com ou sem culpa nossa,

Quem quer o dissabor que tão connosco bole,

Como nos defender do que nos causa mossa,

Como o pé libertar que nele já se atole?

 

Não depende de mim, na derradeira instância,

Que o que na vida é duro de vez vire mole,

Não me obedece o fado, que mantém distância.

 

É confiando em Deus, o infindo mar do Todo,

Que lhe emboto o ferrão e que lhe acolho o modo.

  

 

 

1235 – União

 

 

O amor é uma união com outro ser, o amado,

Humor é uma união connosco próprios, modo

De olharmos nossa vida ou a desgraça, o fado,

Ou nosso desconforto, humilhação, fanado

Proceder que falhou de nosso fito o engodo.

 

Se soubermos deveras mesmo amar, amar,

Tal como se soubermos de nós rir, sorrir,

Na relação connosco o resultado, a par,

Há-de ser muito igual, ao vislumbrar porvir.

 

Deixaremos então de para nós ser centro,

Mais para além olhando há outra meta onde ir,

Não olho mais o umbigo que terei cá dentro.

 

As fronteiras saltando, doravante meço

Quanto por mim, além e aqui, de mim me esqueço.

 

 

 

1236 – Agir

 

 

Deveras nosso agir o pensamento segue

Como a carroça segue o afadigado boi.

Não podemos viver sem que uma ideia cegue

A mente deslumbrada que uma luz persegue

E o luzeiro na via semeando foi.

 

É sempre o que faremos modelado a ideias,

Já que elas determinam o querer, o agir.

Viver obrar é inteiras sempre mil e a meias

Actividades já por onde acabo de ir.

 

Neste sentido nós não somos mais quem somos,

Este corpo de membros, órgãos, tantas teias

Que ao fim nem divisamos nem raiz nem pomos.

 

Neste sentido somos, de medidas cheias,

Na primeira matriz, nossas viris ideias.

 

 

 

1237 – Grassando

 

 

Temos um imperativo,

Ao vermos algo de errado,

Qualquer mal grassando altivo,

Poder que rouba, furtivo,

Alguém na rede apanhado

 

Dos que raptam e violam,

Dos que impõem sem razão,

Dos que a vida nos degolam

Fingindo ter coração,

 

Pois se julgamos poder

Contribuir para o travão

Que o chão os leve a perder,

 

É urgente tentar, ao menos,

Minarmos-lhes os terrenos!

 

 

 

1238 – Prefiro

 

 

Prefiro muito o barulho

Dum despertador antigo.

Música de hoje é um engulho,

Murmúrios meigos, que entulho,

A enganar o sem-abrigo!

 

E, depois, quem me garante

Que em meio a tanta meiguice

Não readormeça adiante

Sem que o despertar ouvisse?

 

E não suporto a mentira

De apontar que me levante

Quando nem vigília vira.

 

De manhã, que demasia

Suportar a hipocrisia!

 

 

 

1239- Portas

 

 

Quando a olhar para o passado

Volta qualquer um de nós,

Portas para todo o lado

Se abrem no negrume instado,

Perde-se o fio aos avós.

 

Depende de quem dormiu

Lá nas eras de quinhentos

Com quem quis, que é que venceu

Nos novelos de elementos.

 

Quem é o historiador,

O curioso de eventos,

Que os desvendar vai propor?

 

Perdem o fio à meada

Nos mil desvios da estrada.

 

 

 

1240 – Batalhas

 

 

Temos todos a tendência

Para acreditar que a História

É feita da prevalência

Nas batalhas, da sequência

Dos coroados de glória.

 

E é deveras ao contrário,

Se bem que, de facto, os mortos

Tenham o fado sumário

De devir de vez abortos.

 

É feita a História na cama,

Conforme o destino vário

De quem mata e a quem ama:

 

- O invasor não mata a bela

Que invade, dorme com ela.

 

 

 

1241 – Eminente

 

 

A conjuntura de eminente ver a morte

Numa armadilha cancerada ou virulenta

Fez-me encarar a vida inteira doutra sorte,

Ver que trabalho é só trabalho e não a corte

A que homenagem prestarei com vénia benta.

 

Na vida tudo não será nunca o labor,

Pensar não devo que agirei sonhos um dia,

Antes agora sem esperas mos propor

É o que farei, que irei fazer o que devia.

 

A apreciar me conduziu a quem faz parte

De minha vida, a apreciar cada pendor

Sofregamente e com requintes de quem parte.

 

A ter cuidado me ensinou para não ter

De que, por fim, alguma vez me arrepender.

 

 

 

1242 – Vencedores

 

 

Os vencedores adoramos, que conseguem

Ultrapassar mil e um obstáculos, recordes

Bater constantes com que o mais além nos leguem,

Que em euforias de vitória nos congreguem,

Duma outra vida iniciáticos acordes.

 

E também nós bem desejamos ser assim!

Mas que será que nos faz ter tanto desejo

De dos demais nos destacarmos, mal o ensejo

Se nos aponte em qualquer campo como um fim?

 

A evolução é um radical primo factor,

Esta vontade de vencer é gene em mim,

Código invicto ante das eras o fragor.

 

Eis o alicerce onde me talho a moradia

Com formação e educação de cada dia.

 

 

 

1243 – Criança

 

 

Uma criança inicialmente interessada

Apenas vive em atingir mil e um progressos.

Ao desempenho é aquela fase orientada,

De actividades toda inteira programada

Pura a visar a euforia dos sucessos.

 

Os desafios aqui moram tão somente:

Capaz serei ou findarei ali vencido?

A meta apenas é a vitória a ter em frente,

Vai ser mais tarde que outro alvor é amanhecido.

 

É no infantário, na primária escola após

Que em ser melhor vai a criança pôr sentido,

Quer ser melhor do que os demais e só ter prós.

 

É actividade motivada por poder

E vai, se a deixam, dominar então quenquer.

 

 

 

1244 – Perigo

 

 

Real perigo corre aquele que não tem

Justo triunfo conseguido pelos meios

Mais adequados, pois recorre então também

Múltiplas vezes a medidas que provêm

De extremos drásticos, violência sem receios.

 

Porém nem todos compensar vão desta forma,

Com explosões que mais destroem que realizam,

A frustração de quem cumpriu, enfim, a norma

E viu furtarem-lhe então prémios que outros visam.

 

Alguns compensam a inferior demarcação

Espampanantes com modelos que então gizam,

Com gestos fúteis a chamarem a atenção…

 

- Mas perdedores todos são, que não aprendem

Como assumidas nossas perdas tanto rendem. 

 

 

 

1245 – Convencer

 

 

Quem não consegue convencer por persuasão,

Mormente os jovens mais inermes do País,

Bem mais propensos hão-de ser em ter à mão

Meios violentos de atrair mais a atenção

Que eles desejam e só logram sendo vis.

 

Se a bem não vencem, vencerão então a mal,

- Crerão revoltos e com pouca lucidez.

Por onde passam passarão tal vendaval

Que da intempérie arrasta as marcas do revés.

 

Vencer, porém, nem sempre quer significar

Ser o melhor, fruir de eleito o bom sinal,

Ter num céu mago a própria estrela que é polar.

 

Vencer também pode ser algo conseguir

Cooperando com os outros com quem ir.

 

 

 

1246 – Sós

 

 

Embora inteiramente sós num mundo alheado,

Se tiverem acaso sido mães um dia

Já o centro de atenções foram de alguém criado

Que entretanto as terá divinamente olhado

Como a força motora donde o alvor nascia.

 

Alguém quando for mãe, devido embora a acaso,

Embora em desamor não corresponda ao feito,

Gerou a conjuntura, o irremovível caso:

Ninguém de retirar-lho encontrará mais jeito.

 

Poderá todo o resto se perder na vida,

O amor, a segurança a que se andar afeito,

A memória das festas ser até delida,

 

Que nunca poderemos afastar de vez

De ter sido adorada a marca ali que fez.

 

 

 

1247 – Solidão

 

 

Quando houver solidão dentro de mim a mais,

Quando ela for demais dentro de nós um dia,

Não deixamos então se aproximar demais

De nós mesmos ninguém, ninguém, de amor vitais

Foram embora os gestos de curar que havia.

 

É que, se se aproxima demasiado alguém,

Então vai ocorrer que precisamos dele,

Quer porque a dependência se gerou de além,

Quer porque a um com outro enfim amor nos sele.

 

Ora, quando eu passar de outrem a ter a falta,

Por hábito ou amor, daí o risco advém,

Se ele se for embora da comum ribalta,

 

De a solidão devir no coração demais:

- Então, fugindo a outrem, fujo a riscos tais.

 

 

 

1248 – Filho

 

 

Um filho ensina-nos a vida no presente,

Este momento, este momento aqui preciso

É tudo quanto no fim temos consistente,

Sendo o passado ou o futuro um sono ausente

Com que me iludo e de que um filho tem o aviso.

 

Fora talvez a melhor forma de viver,

O aqui e agora usufruir no que vão sendo,

Que é que me ofertam ou propõem ser e ter,

Gozando após o que lhes compro e que lhes vendo.

 

A vida cheia talvez seja só começo,

Princípio de algo que serei jamais o sendo,

Já prevenido de antemão contra o tropeço.

 

Um atrás doutro só começos, tantos, tais

Que o que inauguro fica eterno sem finais.

 

 

 

1249 – Comum

 

 

Aquilo que é comum na vida a todos são

As coisas que explicar não conseguimos, vagas

Neblinas que por trás nos esconder irão

Da realidade estrelas que jamais se dão,

Deixando-nos nos trilhos de pé só nas fragas.

 

Nós de alguma maneira descobrimos isto

Quando planificamos nossas vidas claras,

Na ilusão cuidadosa de tudo ir previsto

E no fim as lacunas nunca irão ser raras.

 

Olhamos para o céu todo estrelado à noite,

Jamais descobrirei nele até onde existo

Nem até onde vai o solidéu que acoite.

 

Onde é que o verdadeiro deus dos feitos ditos

E do tempo vigia este cuidar de aflitos?

 

 

 

1250 – Apostara

 

 

A dada altura da vida

Eu bem cuidara ter tudo.

Apostara na corrida

Sempre em frente empreendida,

O êxito era meta e escudo.

 

O pináculo atingido,

Percebo agora, contudo,

Que nunca tinha seguido

O conselho mais agudo,

 

O de me embalar de sonho

Em vez de sempre fugido

Lhe andar tal se era medonho.

 

No fundo do coração

Toda a força força em vão.

 

 

 

1251 – Indivíduos

 

 

Os indivíduos não são

Uns dos outros tão diversos:

Quer jovem, quer ancião,

Homem, mulher, todos vão

Recitando os mesmos versos:

 

Querem coração em paz,

A vida sem sobressaltos,

De feliz quer ser capaz

Cada qual sem mais ressaltos.

 

A diferença é que o jovem

Crê que o que isto enfim lhe traz

É o porvir que os gestos movem.

 

Os idosos, por seu lado,

Crêem mais que é do passado.

 

 

 

1252 – Sexo

 

 

Amor único e durável

Não é o sexo proibir

Nem tachá-lo de culpável,

Antes é por modelável

O entender e prosseguir.

 

Modelação sexual

Decerto a forma correcta

É, tal na vida real,

Em qualquer campo, outra meta.

 

E acaso é a melhor maneira

De a satisfação completa

De nós termos mesmo à beira.

 

De álcool moderar consumo

Torna o vinho um suprassumo.

 

 

 

1253 – Esgota

 

 

Quando se esgota o encantamento ou esmorece

Mesmo que apenas simplesmente um tudo-nada,

Julgam que um erro cometeram na quermesse,

Que a desejável alma gémea lhes fenece,

Por encontrar perdida algures na jornada.

 

Então por norma a verdadeira se revela

Em quem atraia sexualmente e que apareça,

Com quem podiam partilhar do sonho a estrela

Se ao menos fora, se ocorrera, se aconteça…

 

Eis que o divórcio proporciona aos ses resposta,

Ei-los correndo, na ruptura vendo a vela

Que as trevas rasga dum caminho à nova aposta.

 

Mas alma gámea verdadeira há só naquela

Com quem viver do bom e mau toda a sequela.

 

 

 

1254 – Par

 

 

Um par predestinado a certo amor de lua,

Capaz de grandiosa e de esplendor paixão,

Que inúmeros poemas escreveu na rua,

Que magas fantasias incendeia, acua

No íntimo dos que o sonham como real em vão!

 

Nem a melhor, porém, daquelas lendas fala

Do feliz matrimónio de tão grande amor

Mas na separação atormentada embala

As mágoas que o frustraram sem pagar penhor.

 

Do deveras grandioso aproximar-se alguém

Num mundo decaído antes vai ser propor

Que tal melhor vislumbra pela dor que advém.

 

Num amor malfadado suspeitamos só

Como é que um lar seria se eu não fora pó.

 

 

 

1255 – Felicidade

 

 

Felicidade a sério mágoa traz com ela,

Lágrimas origina, a qualidade tem

Similar à tristeza que em balança apela

A equilibrar os pratos, do viver sequela

Que apenas a lutar qualquer conquista tem.

 

Vem a felicidade donde a vã tristeza

Com a alegria em festa ambas estão de acordo,

Que ir para a romaria após as pedras reza

Que piso no caminho onde o suor remordo.

 

Assim reconciliadas as irmãs contrárias,

De mim para o mistério mais profundo acordo,

Pagarei qualquer ganho sempre em perdas várias.

 

Tal e qual o egoísmo e o altruísmo vão

Perder-se superados dum Amor no pão.

 

 

 

1256 – Transmitir

 

 

Longe de ser mentira sempre os mitos são

De transmitir verdades a melhor maneira,

Já que incompreensível doutra forma em vão

Se procura explicar, todo e qualquer serão,

Deles a realidade a que ninguém se abeira.

 

Descendemos de Deus, deste Universo um imo,

Inevitavelmente o mito aqui tecemos

Que, erro embora contenha, nos reflecte o cimo,

Fragmento entrecortado donde a luz bebemos.

 

A verdadeira luz, aquela eterna fonte

Que do fundo borbota do mais fundo limo,

Até ao mar Infindo nos estende a ponte.

 

O mito avança trémulo a rumar ao porto:

Ao invés, o progresso é, dele só, mar morto.

 

 

 

1257 – Trevas

 

 

Nós nascemos de trevas em humana era

E de nosso devido tempo sempre fora.

E, por mais madrugada que apurar pudera,

Jamais este meu tempo doutra luz soubera

Que a do vago vislumbre duma eterna aurora.

 

Existe, todavia, um pertinaz consolo:

É que, se tal não fora este comum destino

De crianças famintas a espreitar o bolo

Na montra proibida a enlouquecer o tino,

 

Jamais conheceríamos, jamais nós tanto

Amaríamos, pois, o que é de amar sem dolo,

Nem nos encantaria o mais fugaz encanto.

 

O peixe fora de água é que talvez sentir

Vai poder qualquer água de qualquer porvir.

 

 

 

1258 – Destinada

 

 

Dos mitos a verdade destinada diz

Respeito não apenas ao ambiente em volta,

Mundo que nos rodeia onde tomei raiz,

Mas mais ainda à outra radical matriz,

O mundo dentro em nós tão ignorado à solta.

 

E não tanto à aparência, superfície fina

Que sempre há-de estalar ao mais pequeno toque,

Mas à forma interior, cuja textura inclina

Ao abismo do real, a me prender reboque.

 

Um mito é uma maneira de escrever as normas,

As regras a partir das quais o mundo atina,

Aquilo de que é feito ao borbotar das formas,

 

É a profunda magia anterior de vez

Ao princípio dos tempos que este mundo fez.

 

 

 

1259 – Peso

 

 

O peso da iniquidade

Faz-nos sentir deprimidos.

Velha como a eternidade,

Repete com gravidade

Mil incuráveis feridos.

 

Todas as vilas, aldeias,

Moradas de homem algum

Se afundam podres de cheias

A feder a tal fartum.

 

Mas também lá mora o bem,

Mais oculto, portas-meias,

Quase nem palavra tem…

 

E pouco é o bem que faremos

Só com o mal que evitemos.

 

 

 

1260 – Escape

 

 

Um escape a fantasia

Não oferta à realidade,

Mas o escape que haveria

Num real de parceria

Aos píncaros da cidade.

 

Um mundo nítido, intenso,

Feliz e triste a dobrar,

Onde bem e mal são denso

Conflito a se defrontar.

 

Onde a possibilidade

Da tragédia singular,

Derrota que tudo invade,

 

Nas horas de cada dia

Torna mais forte a alegria.

 

 

 

1261 – Urgente

 

 

É urgente contemplar, recuperar o azul,

Sentirmo-nos surpresos do vermelho, o verde,

O amarelo das fadas ver nos véus de tule,

A magia dum conto a servir chá num bule

Que tanto mais se ganha quanto mais se perde.

 

Recuperar a nítida visão das coisas,

Não tal como elas são, como devemos vê-las,

Como exterioridades em que te repoisas,

Exausto marinheiro de após as procelas.

 

É preciso limpar bem as janelas todas

Com os contos de fadas a polir sequelas

Para que a casa fique enfim aberta às bodas,

 

Da névoa do trivial por uma vez liberta,

Do hábito familiar de que ninguém desperta.

 

 

 

1262 – Árvore

 

 

Árvore alguma deixa de crescer, mudar,

Mas o bordo rodeia um imutável centro,

Os anéis interiores crescem sempre a par

Desde quando é rebento até que, enfim, findar,

Invisíveis embora estão lá eternos dentro.

 

Quando lhe nasce um ramo, eis que a raiz no fundo

O alimenta escondida, nada os dois separa.

Ao invés, quão mais alto o ramo trepa ao mundo

Mais a raiz com força singular o ampara.

 

A energia dum homem, da cidade, em tudo

Requer este equilíbrio do ancestral que olhara

O vindoiro porvir que semeou jucundo.

 

A tradição sentir importa tanto à vida

Quanto importa inovar no que ao além convida.

 

 

 

1263 – Ingratos

 

 

Tais são os homens, sempre ingratos, inconformes,

Insatisfeitos do teor de qualquer vida:

Quando ordenada, rasgarão os uniformes;

Quando num caos, ordenar gestos informes

Será tarefa que se impõem preferida.

 

Se rejeitados, a mulher por tal odeiam,

Mas acolhidos, por qualquer outra razão

A irão odiar ou com nenhuma causa ameiam

Para o combate que fatal declararão.

 

São descontentes, embirrentas más crianças,

Batem eternos com raivosos pés no chão,

Nem com brinquedos nem com mimos os alcanças.

 

Satisfazê-los, nada, pois, os satisfaz:

Mulher nem vida são milagre tão capaz!

 

 

 

1264 – Ofegantes

 

 

A glória, deusa-cadela,

É por milhares de cães

Ofegantes e sem trela

Perseguida, de tão bela,

Língua de fora, reféns.

 

O primeiro que a apanhar

No jogo de espreita e caça

Vai ser um cão singular

No meio dos cães da praça.

 

Pelo êxito a diferença

Se se puder implantar,

Obtém-lhe a grande sentença:

 

Glória de pais e de mães,

Vai ser o Cão entre os cães!

 

 

 

1265 – Corpo

 

 

Eu quero o corpo, o corpo inteiro, inteiro e vivo,

Ínfimo cosmos que do imenso dá o resumo,

Da euforia receptáculo e motivo,

Ao que o subverte, ao que o ataca sempre esquivo,

Sempre a harmonia a procurar como bem sumo.

 

Do corpo a vida bem a creio superior

À que do espírito emanar edulcorada,

Quando de perto à vida a sério o corpo for,

Não a um fantasma qualquer dela simulado.

 

A maioria das pessoas anda acaso,

Olhando ao corpo no que ele é, muito enganada,

Crendo que o cume implica vê-lo no chão raso.

 

A maioria tem-no em máquina volvido:

Mantém o espírito a um cadáver reunido.

 

 

 

1266 – Utopia

 

 

No reino da utopia são aldeias várias,

Comunidades simples a alargar em roda,

Nenhuma se elevando sobre as outras, párias,

Nunca a vida é pirâmide a implantar primárias

Pedras de alicerçar a cumeeira toda.

 

A vida é um oceano, imenso mar, e ao centro

Sempre o indivíduo fica pela aldeia pronto

A morrer, como a aldeia pelas mais, que dentro

Do mesmo mundo inteiro o mesmo contam conto.

 

No reino da utopia que arrogância vem,

Ou que agressividade marca a orgulho o ponto?

Será tudo harmonia tal e qual convém.

 

Compartilhando humilde a modelar tal arte,

Que bom seria ser dele integrante parte!

 

 

 

1267 – Ancestral

 

 

Ancestral é minha fome.

Desde que te conheci,

Esfomeado que não come,

Que fruta em mãos nunca tome,

Foi que outro reino entrevi.

 

Medito em transfigurar

Desde então inteiro o mundo,

Para os meus irmãos, a par,

E os filhos deles, no fundo,

 

E os filhos de nossos filhos

Dente são terem fecundo,

Numa vida sem atilhos,

 

Capaz de morder a fruta

Da terra inteira sem luta.

 

 

 

1268 – Actos

 

 

Os nossos actos seguem-nos em passo lento,

De corpo nos vestimos para agir em nome,

Em nome de nós mesmos a habitar-lhe o intento

Desde o primeiro alvor ao terminal momento,

Quando o corpo despimos que este chão consome.

 

Entre os limites salta para a terra inculta

Toda a pléiade de actos, gestos, sonhos, gritos,

Que, nela se incrustando, cristaliza inulta

A marca, o testemunho de indeléveis fitos.

 

Ficam testemunhando um rasto já passado,

Pendurando ao cabide gestos bons, delitos,

Largados para trás com intocável fado.

 

Finda cristalizado na aparência o acto,

É para a eternidade meu cendal, de facto.

 

 

 

1269 – Semi-recta

 

 

Serei a semi-recta outrora atrás nascida

Que agora aqui prolongo até sei lá bem onde,

Até provavelmente a uma memória erguida

Após a minha morte, do infinito ermida

A prolongar o traço que no Além se esconde.

 

Aí será que a morte meus cabelos prende,

Então me irá puxar magnetizado, inerme,

Meus fragmentos colhendo que o caminho fende

Do tempo que passou onde então fui em germe.

 

Então sou de estilhaços recoberto enfim,

Por uns cobro saúde, doutros sei que enferme,

Mas no Todo serei: eu afinal em mim!

 

Sou fêvera do dia a rebolar no espeto,

E eis como no Infinito minha marca enceto.

 

 

 

1270 – Espera

 

 

Isto de irrealizar-me

Tem um valor definido:

É que o fracasso desarme

E, embora além vá meu carme,

Ao fim tudo é inatingido.

 

Ainda por realizar

Tudo, enfim, sempre estará:

Tal é meu tempo e lugar

Na vida que houver por cá.

 

Um perpétuo movimento,

Perene fome dum já

Que é sempre um adiamento,

 

Sou a espera acumulada

Dum tudo que é sempre nada.

 

 

 

1271 – História

 

 

Quando debaixo de nós

Começa a História a mexer,

O melhor é ver após

Se nos prendem os cipós

À sela que ela tiver,

 

Segurar bem nos arreios,

Ajustar-lhe ao peito a cilha,

Controlar firmes os freios

Para escapar à armadilha,

 

Interpretar o que fala,

Seja inferno ou maravilha,

A ver bem como montá-la,

 

E cavalgar-lhe os sentidos,

- Que, senão, somos cuspidos!

 

 

 

1272 – Choques

 

 

Alguns choques são bons, enquanto a dor não mata,

Depois de a dor fugir e me obrigar o alento

A retomar tremendo com a vénia grata

De criança perdida no terror da mata

Que no perigo acaso não tomara tento.

 

Quem não reparou nunca em qualquer copa após

Um raio a haver fendido, fulgurante e bravo,

Em cinzas consumando ramos, tronco e nós,

A vida retalhando no ribombo cavo?

 

A parte renitente que virente então

Persiste em continuar contra o destino, o agravo,

Com muito mais raízes vai prender-se ao chão.

 

De mais ramos, mais folhas inaugura implantes,

Duas vezes mais viva ficará do que antes.

 

 

 

1273 – Copo

 

 

Um copo de água beber,

Copo de água cristalina,

É o pensamento ocorrer

Duma nascente qualquer

Longínqua, irreal, divina…

 

Nascente nada nascente,

A brotar da fantasia

Em busca de remetente,

Que é que, afinal, anuncia?

 

A origem será, talvez,

O prenúncio que alumia

O alvor da noite de pez.

 

É, porventura, irrestrito,

Pressentir mesmo o Infinito.

 

 

 

1274 – Nada

 

 

Vale a pena ter vivido

Se nada fica na terra

Depois de havermos sumido?

Talvez um subentendido

Ao pensamento se aferra:

 

Esta busca permanente

Do que nunca nós tivemos,

Sonhar o Verão ausente

Na praia além dos extremos…

 

Põe no prato da balança

Aqui o que feito havemos,

Além o que não se alcança:

 

- Que equilibra a morte, ao fim,

E a viver que manda assim?

 

 

 

1275 – Vazio

 

 

Há um vazio na existência

Do herói como do banal,

Nem daquele a preeminência

Lhe diminui a evidência

Que é de todos, afinal.

 

Quero apenas preenchê-lo

De qualquer coisa, qualquer,

Seja embora vulgar elo

Com que tal vazio encher,

 

Para deixar de existir

Este buraco de ser

Com que ando sempre a fremir.

 

Nem me importa que ele acarte

A vida de que faz parte!

 

 

 

1276 – Dança

 

 

A dança é como um ser vivo,

Dela o desenvolvimento

Nenhum bailarino esquivo

Regula em cada motivo,

Envolto no encantamento.

 

É que a dança algumas vezes

Complica o fado a quenquer,

Destrança o sonho em reveses

Que ninguém logrou prever,

 

Outras vezes dinamiza

O destino que há-de ter

Quem nela os cumes divisa.

 

Ao acaso um  deus reparte

Aos que nela tomam parte.

 

 

 

1277 – Espera

 

 

Como a espera é deliciosa,

Que saboroso aguardar

Se a expectativa entrosa

Na beleza de que goza

O prometido meu par!

 

Como é gostoso evocar,

Antecipar em imagem

O paraíso a criar

No termo da crua viagem!

 

Que calor por entre o frio,

Que perfume na triagem

A respirar já o estio!

 

O glacial Fevereiro

Cheira a Verão soalheiro.

 

 

 

1278 – Único

 

 

Como ser único foste, Homem, tu, criado,

Cada qual peça irrepetível, um modelo,

Um miradoiro na vertente acomodado

O mundo inteiro a revelar daquele lado

Em que não vejo, igual a ti, nenhum janelo.

 

Quem suprimir uma existência só que seja,

Mais que uma vida finalmente no atoleiro

Do esquecimento ele atirou que ninguém veja,

Antes destrói, na realidade, o mundo inteiro.

 

E quem salvar tal existência solitária,

Por muito que isto configure o que ele almeja,

Mais que uma vida, finalmente, salva pária,

 

Nela salvou, dela ao fazer-se, enfim, parceiro,

Uma janela onde vislumbro o mundo inteiro.

 

 

 

1279 – Companheiros

 

 

Ter companheiros é uma grande gesta,

De sofrimento embora a sejam todos,

Que a solidão é dor, a mais molesta,

A mais terrível que no mundo apresta

A falta de sentidos e de engodos.

 

Um homem suportar pode o maior

Dos terrores sofrendo-o em comum,

Porém a solidão que vem se impor

É mortal, é mortal a qualquer um.

 

Quando isto for a marca duma vida,

Que me importa eu provir de povo algum,

Se nada em mim for mais que uma ferida?

 

Aqui ou noutro ponto, o mundo inteiro

É todo ele, afinal, meu carcereiro.

 

 

 

1280 – Terra

 

 

Minha terra natal, minha mulher querida

Que qualquer leigo desposar requer fervente,

Durante um tempo estranha, de ignorada vida,

Logo após desposada, que paixão subida,

Mais que tudo no mundo que o amor consente!

 

Tal como nossa mãe, como de sangue irmãos

Nós os abandonamos pela bem-amada,

Minha terra natal, assim aceno as mãos

Quando de retornar for a manhã chegada.

 

Mesmo quando estrangeira for a terra minha,

Longe dos ancestrais que a entreviram grada,

Não a posso largar, prendido a tal gavinha.

 

Não posso me amputar desta vital raiz,

Meu sangue era secar na mais lustral matriz.

 

 

 

1281 – Prometida

 

 

A Terra Prometida que a mulher procura

Não é uma terra, não, mesmo sequer de sonho,

Nela não há caminhos que ninguém augura,

Não ergue moradias a imitar ternura,

E as regras nem as leis de arrebanhar lá ponho.

 

A Terra Prometida é região-mistério,

Bater de coração a tricotar magia,

É terra de nenhures de cordial império,

Cujo poder o afecto apenas tal veria.

 

E não mora num tempo, embora o Tempo ocupe,

A Terra Prometida de nenhuma via

Que o Infinito logra que nela se agrupe.

 

É o instante em que um homem a mulher, jucundo,

Ame mais, ame mais que tudo o mais no mundo.

 

 

 

1282 – Sofrem

 

 

Nas mulheres que sofrem, o cabelo logo

É o primeiro a morrer, torna-se baço, triste,

Fraco como a vã cinza de apagado fogo

Onde em vago morrão o lume antigo afogo,

Passageira alegria que perdeu o chiste.

 

As mulheres alegres têm cabelo vivo

Como asas a adejar numa alvorada de anjos,

Em requebros se move, a se ofertar furtivo,

Cabeleira de luz onde retinem banjos.

 

É com o sofrimento que este brilho morre,

O sol vai com as nuvens devir mais esquivo

E a dor, não tarda, é chuva e pelo rosto escorre.

 

A cabeleira fica lentamente mate

E não há luz de vida que ela então acate.

 

 

 

1283 – Brilho

 

 

Nas mulheres que sofrem morre o brilho aos olhos,

Devém qualquer olhar nítido enfim, preciso,

Tão sóbrio como a terra, de evitar escolhos,

Buscando dirimir da vida inteira abrolhos,

Dolentes, resignados ao final juízo.

 

Os olhos que sofreram são aquela terra

Em que as flores murcharam na tolhida seca,

No rosto são cravado este punhal que aterra

Vertendo o sangue puro, que  trocou quem peca.

 

Os olhos das mulheres que sofreram são

A terra em que morreu qualquer ervagem peca

Ao frio que enregela ou ao calor suão.

 

As fontes já secaram e ninguém lá brada

Na terra improdutiva de estertor gelada.

 

 

 

1284 – Tempo

 

 

Há tanto tempo ninguém

Pergunta se estou de acordo!

É a primeira vez que vem

Há muitos anos alguém

Ver se viso o que aqui bordo.

 

Todos fizeram de mim

O que quiseram então

Sem me pedirem, enfim,

Nem sequer a opinião.

 

Pois ninguém pergunta a escravos

De acordo se acaso estão.

Se ora o perguntam, agravos

 

É que de escravo não mordo…

- Estou de acordo, de acordo!

 

 

 

1285 – Camponês

 

 

Se o camponês deixa a terra,

O grão de trigo entristece,

Pois ninguém volta da serra

Ceifar a espiga que ferra

O sol e o vento arrefece.

 

Partida de lavrador

As ervas entristeceu

Que a roçá-las com o amor

Não vai que tiver de seu.

 

Se o camponês abandona

Campo, aldeia, todo o céu,

Vem toda a tristeza à tona.

 

Quem se contrista é o parceiro:

- É mesmo o Universo inteiro!

 

 

 

1286 – Civilização

 

 

A civilização vais tu salvar querer

Passando o tempo inteiro os homens a matar.

Matas homens salvando quem o não quiser,

A civilização, mesmo a cultura a haver,

A igreja que não dobre o joelho em teu altar.

 

Vê se salvas um homem: meritório mais

Tal evento será do que salvar inteira

A humanidade, pois dela não tens sinais,

Oca palavra sempre, de verniz, ligeira.

 

Humanidade, não, que jamais ela existe,

Tal ente não subsiste, de ti posto à beira,

Em teu redor tal ser nem mesmo abstracto o viste.

 

Homens apenas homens é que existem vivos,

Tudo o mais são papéis de bem letais arquivos.

 

 

 

1287 – Prolonga

 

 

Não há cultura ou requinte

Que nos possa separar

Da Pátria, por mais pedinte

Que ela afinal se nos pinte

Ante o mundo que a julgar.

 

Do próprio corpo ninguém

Se poderá desligar.

E a pátria prolonga além

Do próprio corpo o lugar.

 

Faz-se ouvir a voz da terra

No exilado, como amar

Ao anacoreta o ferra:

 

O sangue de nós se adona

E vem, regular, à tona.

 

 

 

1288 – Muda

 

 

Se nós não fizermos nada

O mundo muda sozinho?

Muda em cega caminhada,

Finda a esperança gorada

Num molde que é tão mesquinho.

 

Este modelo não presta,

Outro fabricar prefiro

Dos bocados do que resta

Depois de quebrá-lo a tiro,

 

Outro inteiramente novo

Que pelo sonho confiro,

Com que, creio, tudo inovo…

 

- Este, porém, só subsiste

No vão sonho que eu enriste.

 

 

 

1289 – Pegada

 

 

Um corpo humano precisa

Para si de pouco espaço,

Tem a pegada concisa

E o movimento ele giza

No fino perfil dum traço.

 

Para quê o apartamento,

Uma casa, a moradia,

O carro sempre em aumento,

Balão a inchar dia a dia?

 

Monstruosa carapaça

Enorme, inflada – e vazia,

Que em redor de nada grassa…

 

- Que casca descomunal

Num tão modesto animal!

 

 

 

1290 – Atentos

 

 

Ante os olhos atentos, a viver os quadros

Principiam, parados, num pulsar sereno,

Despertam ancestrais, dantes da vida, os adros,

Dantes do alvor do mundo. Neste ignoto esquadros

Em talhe imprevisível vão marcar terreno.

 

A pintura o segredo libertar da raia

Irá, deserto além, sempre a animar as dunas,

Segredo solitário a repousar na praia,

Que para o mar a mente ainda não tem escunas.

 

Este mundo sem rosto, conformado em sal,

Pelo incêndio da morte chamuscada maia

No vau carbonizado, é duma ausência aval.

 

Ausência que, porém, apenas mora ali

Porque lhe empresto a força do que em mim já vi.

 

 

 

1291 – Ímpeto

 

 

Como deter um instante

No ímpeto dele implacável?

Avança, avança adiante,

Decide sempre, constante,

O teu gesto inadiável!

 

Cada batida no curso

Daqui deste coração

Lança ao mundo, sem recurso,

Uma nova decisão.

 

Era bom fechar a porta,

Fechar os olhos. Em vão

Este desejo me importa:

 

- Fechar ainda é decidir…

Como não ver o que vir?

 

 

 

1292 – Gesto

 

 

Um gesto e eis que de novo

Aparece algo no mundo,

Algo que criei do ovo,

Se desenvolve entre o povo,

Fora de mim, bem fecundo.

 

Doravante estou de fora,

Tudo decorre sem mim,

Mas fui na primeira hora

Responsável pelo sim.

 

Na cadeia dos efeitos

Tudo se desdobra agora

Com feitos mil, mil trejeitos.

 

E há sempre dele nas pistas

Aventuras imprevistas.

 

 

 

1293 – Habita

 

 

Esta verdade que me habita não a posso

Tirar de mim nem arrancar senão por meio

Destas palavras dessoradas, sem caroço,

Que me abandonam descarnado até ao osso,

Vazio enfim onde a princípio me vi cheio.

 

É que as palavras te ressoam aos ouvidos

Com um sentido fatalmente já imprevisto,

Em ti não têm nunca mais os meus sentidos,

Outros terão que eu nem já sei se houvera visto.

 

De mim saídas, quando as ouves, nesse instante,

Estas palavras não são minahs, que o que invisto

Não me pertence, é teu agora, doravante.

 

E o que descobres é apesar de meu intuito:

Ser eu, ser eu (o que me encanta) é tão fortuito!

 

 

 

1294 – Decide

 

 

Ninguém decide por ti,

Nem sequer mesmo o destino.

Doutrem o destino vi

Que és tu, sem mais alibi:

Decide, vento divino!

 

Tens tal poder: uma coisa

Que não era, de repente

Brota do vácuo, repoisa

Sobre teu gesto somente.

 

Separa-a de ti o abismo,

Sobre o abismo fica assente,

Sem mais razão, ao que cismo,

 

Sem razão além de si

Cuja razão mora em ti.

 

 

 

1295 – Retirar

 

 

Não me posso apagar, retirar dentro em mim,

Fora de mim existo e em toda a parte além,

Até ao derradeiro mundial confim.

De meu caminho um palmo não progride, assim,

O qual não desemboque no que doutrem vem.

 

E nenhuma maneira encontrarei de ser

Que me possa impedir, a cada instante haurido,

De extravasar de mim, mui caudaloso a ser

Este rio sem margens no aluvião mexido.

 

Esta vida que teço com meu cerne do imo

Oferta aos outros homens, no tropel sabido,

Os mil rostos do ignoto jurando outro cimo.

 

Impetuoso cruzo, fatal, seu destino,

Queira ou não queira, a ser da malha nó me inclino.

 

 

 

1296 – Fito

 

 

Mesmo um deus falhar devia

Neste fito presunçoso

Que os homens transmutaria

Em peões tais de fancaria

Que manobrá-los dê gozo.

 

Não são força a controlar

Nem para manobra pedras:

Cada qual tem, singular,

No imo o ser com que tu medras.

 

No mais secreto de si,

Fora de alcance a pairar

Mora alguém que nunca vi.

 

Ele o vê e o que nos vence

É que a ele só pertence.

 

 

 

1297 – Estranho

 

 

É estranho pensar

Que és única em mim.

Ilusão vulgar,

Porém, singular,

É verdade assim.

 

Quem decide disto

Eu se não for, eu?

É todo o imprevisto

Que mora no céu.

 

O que é comovente

E amor tem de seu

É que é cada ente

 

Que a paixão invade

Que tal faz verdade.

 

 

 

1298 – Queria

 

 

Queria que o meu poema

Fora por si, sem ninguém.

Mas os outros são que o lema,

Se o poema a fundo atrema,

Lhe irão dar como convém,

 

São quem o faz existir.

Mas então sou eu que os forço

A lhe traçarem o escorço

Que ao fim irá refulgir.

 

Eles são livres, é certo,

E venho eu, sem prevenir,

E violo a raia de perto.

 

Só que a deixo livre ao fim

E é o mais fascinante assim.

 

 

 

1299 – Sonhos

 

 

Mil sonhos vocês terão

E com alguém irão ter

E convictos lhe dirão:

“É uma grande ideia, não?”

E ele vai-vos responder:

 

“Ah, não, de maneira alguma!”

Tereis logo de voltar,

Desconcertados, em suma,

Ao vosso inútil lugar.

 

Resta agora esta pergunta

Que inteira vai perfilar

Tudo o que o porvir assunta:

 

- Entre vós e os que tal ditam,

Vocês em quem acreditam?

 

 

 

1300 – Aventura

 

 

A aventura sempre foi,

Com Dias, Magalhães, Gama,

O espírito o que constrói,

Não os locais onde rói

O dente da espera a trama.

 

Curiosidade de ir

Mais além que o atingido,

Buscar o desconhecido,

Cosmos além perseguir

 

Incógnitas do Universo,

Longe ou perto, o que convém

É virar pelo reverso

 

Quer, ao lado, a minha rua,

Quer a Via Láctea à Lua.

 

 

 

1301 - Lidar

 

 

De lidar com ninguém tempo ninguém terá,

Atribuímos à pressa o crescimento disto,

Deste alargado egoísmo que aprisiona já

Encurralado quem reconverter-se vá,

Tentando algo ser mais do que um ligeiro quisto.

 

Porém, não é desculpa, que isto de ir correndo

Atrás de não sei quê e desde não sei quando

É culpa nossa, enfim: a pressa não defendo

Que nos seja fatal nem um destino brando.

 

Pois freneticamente cada qual de nós

Em seus próprios problemas absorvido andando,

São roubadas as horas, sem remorso atroz,

 

Sem que de fora ou dentro nada mais acuda,

São roubadas à causa das de mútua ajuda.

 

 

 

1302 – Aprendi

 

 

Com o Zen aprendi que jamais é verdade

Que a verdade atingido tenha alguma vez

Ou compreendido até o que é que enfim me invade.

O tauismo me achou submisso a ser na idade

De nunca acreditar que a via exacta vês.

 

O místico cristão contentar-me-á, de ignaro

Na nuvem me manter, a eliminar a noite

Escuríssima de alma, a cultivar o amparo

Da ignorância profunda, riso ao qual me acoite.

 

Entre os sufis descubro aquela imagem tola

Que o tolo me dará como sacral açoite,

De santidade via a que a razão se imola.

 

Assim me esvaziando é que a aprender me vi:

Quanto menos de mim, mais eu no ser em si.

 

 

 

1303 – Comédia

 

 

Caímos sempre mal nesta comédia humana,

Por vezes rir-nos vamos de nós mesmos mais,

Porém da maioria dos cenários mana

Que a nós nos tomaremos com tão séria gana

Que perfeitos tentamos, parvos, ser demais.

 

Pretendemos saudáveis nos manter, felizes,

No labor, eficazes, na carreira a ter,

Aos comunais problemas encontrar matrizes

Que os venham a contento e duma vez solver…

 

Fica a comicidade na visão à beira

Deste caminho agreste onde não há juízes

Que espirituais se riam de tão tola asneira.

 

A irreflexão sagrada a inteligência funda

Da espiritualidade que a mim, rindo, inunda.

 

 

 

1304 – Mistério

 

 

É um profundo mistério a vida humana inteira:

De correntes profundas, invisíveis, feitos

Somo-lo todos, todos, e de tal maneira

Que à nossa volta o mundo é das malhadas eira

Onde debulho as leis no intuito de meus preitos.

 

De problema a tratamos, solvido há-de ser,

O impossível farei por informado andar,

De modo a controlar rostos sacrais que houver

A vida de colher em quanto em mim pulsar.

 

Porém outro caminho, humilde ao me curvar,

Se me revelará que outro melhor qualquer,

Que em meus limites leva a me acolher, larvar:

 

Alma e religião, num criativo império,

Só abraçam, compassivas, o que é o meu mistério.

 

 

 

1305 – Vazio

 

 

Não é o nada o vazio espiritual que tento,

(O nada literal jamais existe em mim)

É de me desprender o gesto enfim que invento,

Em que resistir vou à tentação atento

De me aferrar aos pontos meus de vista assim.

 

É um tipo de vazio confiante apenas,

Contudo jamais certo, de inquirir pejado,

A dar-me território de abalar pequenas

Certezas infundadas, meu perfil chagado.

 

É um nada de mim próprio consciente e frio,

A lancetar-me o pus que acumulei de lado,

Até do espúrio vírus me encontrar vazio.

 

As religiões estão deste vazio cheias,

Porém não o praticam, nem sequer a meias.

 

 

 

1306 – Estridente

 

 

Uma estridente insistência

É duma crença que é frágil,

Se grita certa a evidência,

Se de impor tem a tendência

Aos demais, ferina e ágil.

 

A brutalidade esconde

O medo frio e profundo

Que às questões nunca responde

De quem nunca entende o mundo.

 

Receiam o que, afinal,

É religião no fundo:

Duma abertura o sinal.

 

Sinal que o mistério alcança

A quem se abre em confiança.

 

 

 

1307 – Palco

 

 

O palco de teatro, o de bailado, o ecrâ

De cinema ou a tela do pintor também

São janelas abertas que, à frugal manhã,

Tomam o imaginário, na beleza chã,

E a contactar o põem o Infinito além.

 

Por deveras aberta, é religiosa em arte

Qualquer obra talhada, que óculo é uma tela

Se o pintor a tratar como quem visa a estrela

Que do Infinito espreita quem tal sonho acarte.

 

Uma tela vazia, se a pintar com jeito,

É rigorosamente meditar aparte,

Alargando a visão a quem lhe presta preito.

 

Abre o artista ao contacto e todos mais também

Com tudo o que se encontra sempre mais além.

 

 

 

1308 – Intenções

 

 

De objectivos vazios, de intenções fortuitas

Nos libertando dentro, um novo rumo à vida

Podemos encontrar: pois cada qual tem muitas

Portadas e janelas culturais gratuitas

Que pode na cabeça abrir, soltando a brida.

 

Então descontraído conduzir deixar-se

Há-de poder por algo que o excede fundo,

É um tipo de vazio que é da fé disfarce,

Da crença uma vertente de se abrir ao mundo.

 

É uma calma ignorância acompanhada então

De confiança de base, com a qual me inundo,

No que em mim me ultrapassa abrindo novo chão.

 

Não sendo em demasia ingénua, mera peita,

Flui através de mim e a mim por fim respeita.

 

 

 

1309 – Visto

 

 

Ser é bem mais ser visto, o que é sentir o peso,

O peso de existir: que precisamos fundo

De ser vistos de amigos, deste olhar aceso

Duma comunidade que afectiva prezo

E meu rosto me entrega de enfrentar o mundo.

 

Visto absolutamente também ser requeiro,

Saber que minha vida não será vivida

Sem um significado a suportá-la inteiro,

Que o óculo do templo aponta ao céu a ermida.

 

Sentir por verdadeiro este  absoluto olhar

A olhar com afeição minha pequena vida

É a força a pôr de pé meu vacilante andar.

 

É viável olhar do céu na várzea o pasto

E os anjos surpreender, de divindade um rasto.

 

 

 

1310 – Religião

 

 

Corajosa e sincera a religião anota

O mistério que impregna, se acercou, retém

O centro a nossas vidas, dele fina cota

A protegê-lo fiável, donde tudo brota

Que depois irei ver, do sensual refém.

 

Tecnologia, ciência abordarão a vida

Como de resolver qualquer problema mais.

Segue a religião a trilha inversa à ida:

Ao mistério confere o eterno alor dum cais.

 

Em vez de o resolver, procura modos vagos

De o contemplar e honrar, deixa as lacunas reais

Para a ciência encher, deixa-a beber os tragos.

 

Religião celebra espaciais vazios,

Transforma-os num modelo: de sonhar são rios.

 

 

 

1311 – Neurose

 

 

A neurose do ciúme,

Como a da inferioridade,

Do narcisismo, resume,

Na tentativa que assume,

Que ansiosa impedir há-de

 

Que a vida nos aconteça.

Vê que, quando esvaziadas,

Contrário são, peça a peça:

Ciúme sem ego gradas

 

São paixões e o inferior

Devém humildade egressa,

Como o narcisismo, amor…

 

Crês-te delas livre após?

- Vejam-se é livres de nós!

 

 

 

1312 – Imprevisto

 

 

Sem o nosso impedimento

Vida de alma é rica a plena,

Imprevisto embora evento.

Mas confiar no elemento

Do desejo me condena,

 

Que me arrastará, vital,

E em mim sempre se derrama,

Pois raiz primordial

Se bole, estremece a rama.

 

Cuidamos nós de saber

O que há-de ser, que se trama,

Como tudo há-de ocorrer…

 

- E é da vida desistir,

Em vez de deixá-la ir.

 

 

 

1313 – Correctos

 

 

Do espírito ao nós falarmos

Somos correctos mas vagos.

E parte ao não decifrarmos

Modo é de às ideias darmos

Vazios, cachos sem bagos,

 

De que os termos bem precisam

Para não cristalizarem.

Da zona os que não se avisam

Da ilusão, que a não encarem,

 

Ficam no literalismo

Sem mais voos que voarem,

São um fundamentalismo.

 

Para além alma sem elos

Só topa dela flagelos.

 

 

 

1314 – Centro

 

 

Ao centro é o poema um oco

E os críticos explicar

O mais possível tal foco,

À fenda ajustando um toco,

Sempre irão, sempre, tentar.

 

De que trata exactamente

Quadro, música ou poema?

Falham nisto fatalmente:

Sempre outrem busco e outro lema…

 

Das artes é natureza

Os centros ocos nos temas

Alimentarem beleza.

 

E este vazio inerente

Põe o espírito presente.

 

 

 

1315 – Conhecimento

 

 

Sempre o conhecimento arrastará consigo

A dose de ignorância que ser sábio tem,

Que não compreender tudo é de quem sabe abrigo,

Como a ignorância tem intelectual postigo,

Senão estupidez é no que então devém.

 

Conhecimento vero é uma mistura atenta

De inventiva certeza e nomeado escuro

E de saber que luz, à noite, enfim, nos tenta

Um passo além-fronteiras, ao que achar procuro.

 

Sabedoria prima por saber que sabe,

Muito mais primará pelo porvir que auguro,

O nocturno anotando que na luz não cabe.

 

A magia é sabermos do saber que aprende,

É de entender o que há mas que ninguém entende.

 

 

 

1316 – Ignorância

 

 

A sagrada ignorância repreender ninguém

Por tudo não saber não há-de em caso algum,

O que nos alivia, que culpar alguém

Não há como operá-lo, pois não há refém

Duma sabedoria de lugar nenhum.

 

As nossas emoções mistificadas são

E a vida imprevisível, misteriosa ocorre,

As nossas soluções na Humanidade vão

Falhar a longo prazo como quanto morre.

 

Saber que não conheço os terminais segredos

Da existência humanal nos deveria então

Dar esperança: a falha apela a outros credos.

 

Modo de conhecer que mais bem traz também,

Há lugar para aquilo que nos fica além.

 

 

 

1317 – Frágil

 

 

Do imaginário frágil a ansiedade brota:

Em troca de viver da descoberta à beira,

Ciente de que tudo ninguém nunca anota,

Muito há quem afivele duma crença a cota

Que de qualquer questão tem a resposta inteira.

 

Tais respostas transmudo em protectora sebe

Sempre em redor dum núcleo que nervoso treme.

Este ilusório muro tudo em mim embebe,

Falsa certeza cria, a me servir de leme.

 

Tudo é incapacidade de encontrar, atento,

Satisfatória a fórmula ao mistério, geme

Dos temporais após o que levanta o vento.

 

São as reclamações extravagantes já

Que me demonstram quanto ao fim não vivo cá.

 

 

 

1318 – Transcender

 

 

A tarefa-mor da crença

É educar o imaginário

A transcender sem detença

O limite da sentença,

Buscando o puro, sumário,

 

Para poder conceber

O infinito sem fronteiras,

Sem nos marcos se deter

Que o chamam de mil maneiras,

 

Os objectos limitados

Transpor em gestas cimeiras

Sem se prender aos bocados.

 

São estes que, em desavença,

Aprisionam nossa crença.

 

 

 

1319 – Enraizada

 

 

Se a crença enraizada se encontrar no amor,

Esperar poderíamos que os crentes logo

Souberam entre si se amar do amor maior,

Bem como aos outros mais, à natureza em flor,

A tudo o que em redor tiver do ser o fogo.

 

Porém, publicamente quem se afirma um crente

É quem vezes demais é intolerante mais,

É quem, na crença assente, alheio e qual demente,

Capacidades tais mostra não ter jamais.

 

É difícil, por vezes, complacente alguém

Da espiritualidade que em si for presente,

Amar como alguém crente, como ali convém.

 

Muitas vezes mais viável há-de ser àquele

Que questione e duvide e então Além apele.

 

 

 

1320 – Objecto

 

 

Da crença nunca é puro algum objecto dado,

Que todos adoramos um bezerro de oiro.

Contudo, cada dia pode ser limado

O modelo grosseiro que se houver talhado

Para uma divindade que somente agoiro.

 

Religião é caminho, não lograda meta,

Não é lista de crenças mas procura eterna,

A refinar constante o que melhor cometa

À procura da esquiva sacra luz superna.

 

A crença é tal e qual como um amor humano,

Muda tão lentamente que, parece, hiberna,

Mas súbito dá um salto e tudo era um engano.

 

Resistir à mudança e a rigidez manter

É o que nos fragiliza e nos fará morrer.

 

 

 

1321 – Profundezas

 

 

Pouco à vontade a religião nos deixa acaso,

Que a crença aponta o misterioso e não apenas:

Das profundezas se levanta e a nenhum prazo

Inteiramente compreendida em meu chão raso

Nem controlada pode ser a quaisquer penas.

 

Tem a raiz no coração e o pensamento

Nunca se encontra inteiramente a gosto aí,

Vem do desejo e mora envolta no tormento

Duma ansiedade, não se tranca nunca em si.

 

As nossas crenças radical o imaginário

São quem conforma pelo qual vivo o momento,

Delas depende dar à vida o curso vário.

 

Elas se encontram a tão grande profundeza

Que com melindre cada qual vive as que preza.

 

 

 

1322 – Importante

 

 

Tão importante como a crença é uma descrença,

O que sem crença enfim viver inconsistente

Vive a existência, mora em rio a que pertença,

A que jamais pôde observar a tira imensa

De qualquer margem altaneira e previdente.

 

A crença à vida quotidiana a hesitação

Dá que permite reflectir e apanhar ar,

Os longes mostra como encolhem a porção

Do dia-a-dia como um nada singular.

 

Uma pitada duma crença acaso o incréu

Venha a salvar duma absorção no secular,

Erguendo a ponta, a revelar do imenso o véu,

 

E uma pitada de descrença há-de salvar

De se afogar qualquer devoto num altar.

 

 

 

1323 – Ameaça

 

 

À crença a ameaça verdadeira pode ser,

Não uma dúvida, a questão sem ter resposta,

Antes a falta de interesse no que houver

Além da simples de momento paga a ter,

Chama apagada, saciada do que gosta.

 

Mais o problema será, pois, o da não-crença

Do que a descrença alguma vez o reporá,

Já que, hoje em dia, todos buscam quanto vença,

Dinheiros e êxito valoram no que os dá.

 

Experimentam da descrença e fé o avesso,

São atacados por sintomas, desde já,

Da fé ignorada que se muda num tropeço:

 

No sofrimento é que, confusos, questionar-se

Vão, quando a vida lhes desata a esbarrondar-se.

 

 

 

1324 – Céptico

 

 

Não acreditar importa,

Ser céptico, criticar,

Entrar tanto nesta porta

Que a vida a que tal exorta

A crença venha a adiar

 

Para mais tarde, exigente,

Entrando nela a compasso,

Um recuo, um passo em frente,

Sondando o fundo ao que faço.

 

Adiar, mas o lugar

Para ela aqui presente,

À medida a se ocupar:

 

Que eu a implique sem detença,

Subtil, em minha descrença.

  

 

 

1325 – Paciente

 

 

Com mistérios ao lidar

Há sempre a boa maneira:

De ser paciente cuidar,

Como observador sem par

Das pistas que houver à beira,

 

Vigiar os quase invisíveis

Vestígios que mal aflorem,

Adiar juízos credíveis,

Por muito que nos demorem,

 

Para o último momento,

Quando ao fundamento forem

Do que for cada elemento…

 

- Em alma a contemplação

Mergulha mais que uma acção.

 

 

 

1326 – Imaginação

 

 

O que a imaginação for

Sabe-o qualquer detective:

Age a sós, ao se propor,

Sem nada mais se lhe impor

E sem que a pressa a motive.

 

Se espicaçada ou forçada,

Falha a meta que tiver.

Sê receptivo à pegada

Dela, nela ao te envolver.

 

Deixa os dados dela entrar,

Misturar, padrões tecer,

Se algo dela vais tirar.

 

Não concluas de corrida

Antes da peça volvida.

 

 

 

1327 – Bruma

 

 

Aquilo que procuramos

Se encontra bem escondido,

Disperso por muitos ramos,

É aquilo só que alcançamos

Bruma do desconhecido.

 

Quanto mais nos afastarmos

Mais nós nos aproximamos

E, ao mais nos aproximarmos,

A afastar nos obrigamos.

 

Devimos sofisticados

Com os mistérios que amamos,

Rodeando-os de mil cuidados.

 

Medito-os e, relutante,

Não os saldo logo adiante.

 

 

 

1328 – Bilhetes

 

 

Vejo vários descobrirem

Que as questões originais

São bilhetes para irem

Ao teatro a que assistirem

No assombro dum além mais.

 

Uma vez lá dentro os ditos

Bilhetes deixam de ser

Interessantes quesitos,

Nem precisos são sequer.

 

Tudo mais rapidamente

Muda que espera quenquer,

O desejo é que o não sente.

 

Nesta excursão ao mistério

De alma o eterno impõe o império.

 

 

 

1329 – Cega

 

 

Sempre a fé será vazia

Como a religião genuína,

Não cheia de ideologia,

Nem dela própria mania,

Cega a adorar a doutrina.

 

Ideolatria de ideias

Não tem onde questionar,

Nem da opinião às teias

Diferentes dá lugar.

 

Há-de ser fixista a fé

E simplista a que afirmar

Este tipo em rodapé.

 

Fé com alma tem mudança,

Fracassa, regride e avança.

 

 

 

1330 – Sábio

 

 

Se algum de vós se imagina

Mais sábio que os mais naquilo

Que por sábio o mundo ensina,

Melhor é do louco a sina,

Que sábio devém tranquilo.

 

Aceitar pensar, viver

De modo inverificável

É confiança que há-de ter

Qualquer fé que seja fiável:

 

Pode não ter sensatez,

Inteligência qualquer,

Nem a prudência talvez…

 

Mas louca, a fé de verdade

Dá luz na inferioridade.

 

 

 

1331 – Manual

 

 

Encontro-me nesta vida

Sem manual de instruções

Com quem crê sem ter medida,

Numa terra sem guarida

A ameaçar-nos com grilhões.

 

É normal ser ansioso,

Mas quem tiver fé parece

Não ser às ânsias poroso

Nem as camuflar na prece.

 

As igrejas mudariam

A noite em dia que aquece

Se a segurança esqueciam:

 

- Valor e significado

Quem afronta deste lado?

 

 

 

1332 – Alimentar

 

 

Como alimentar a vida

Espiritual dum filho?

É mesmo a melhor medida

Confiança comedida

Ir instilando em seu trilho.

 

Se for profunda, ela goza

De eficácia bem maior

Que doutrina religiosa

Mecânica a lhe propor.

 

Quando pais e professores

Contagiam sem impor

A fé dá passos maiores.

 

Segue a criança adiante

A vida por vir, confiante.

 

 

 

1333 – Insiste

 

 

Sempre quando a fé for oca,

Insiste na crença o crente,

Aos mais impõe dele a toca,

Em demasia se foca

No dogma a que se acorrente.

 

Rígidos eles são tanto

Que devêm beligerantes,

Tanto querem ser o santo

Que o diabo serão antes.

 

Crêem tanto num sistema

Que de si moram distantes,

De si jamais serão tema.

 

Rigidez frágil, de perto

São o erro tido por certo.

 

 

 

1334 – Confia

 

 

A fé confia na vida,

Confia no próprio eu,

Mesmo quando desmentida,

É do amor chama acendida,

Não-saber de Prometeu.

 

Sempre o amor tem precedência,

A fé, no fundo, é intuitiva,

Força de alma, de inerência,

Não é razão discursiva.

 

Arranca do mais subtil,

Da percepção mais esquiva,

Visa de bruma um perfil.

 

Vem do coração aberto

Ao mistério a que desperto.

 

 

 

1335 – Acende

 

 

O mestre, na encruzilhada,

Acende a lâmpada forte

E a vela, um pouco afastada.

É sob esta luz de nada

Que lê o livro que transporte.

 

Quem o vê fica confuso.

Por que não quer luz capaz?

“A atrair traças a uso,

À vela, então, leio em paz.”

 

Muitos há num frenesim

Se acham o que os satisfaz

E assim lhe goram o fim.

 

Não se afastando algo dela

Perdem o pé na sequela.

 

 

 

1336 – Gostaríamos

 

 

Pelo espírito empurrados,

Gostaríamos em anjos

De ser mesmo transformados,

Ar fora a ser elevados

Aos corais de lira e banjos.

 

Mas embebidos em alma

Preferíamos tomar

Antes a refeição calma

Com os amigos num bar.

 

O espírito trepa ao cume,

Alma à fundura chegar

É sempre o intuito que assume.

 

Sem alma funda aquele há-de

Cindir-se da humanidade.

 

 

 

1337 – Enraíza

 

 

O espírito sempre anseia

Pelas cósmicas alturas.

Mas alma ao cotio ameia,

Se enraíza e o permeia,

De metas sem mais figuras.

 

Aquele é força motriz,

Quer progredir, transcender.

No dia-a-dia condiz

Esta com o que ocorrer.

 

Visa o espírito o objectivo,

Marca os degraus a vencer;

Alma é sabor do que é vivo.

 

Mais de espírito que de alma

Murcha a actual cultura a palma.

 

 

 

1338 – Implica

 

 

Vida com significado

Não é busca intelectual,

Nem valor, nem saber dado.

Pode implicar o outro lado,

De laços, medos, sinal,

 

Um exame a relações,

Experiências insondáveis,

Feixes de recordações

Se calhar inexplicáveis…

 

Os sentimentos mais fundos

Que a um rumo dão empurrões

Serão sempre ignotos mundos,

 

Tanto o emocional momento

Luz como um discernimento.

 

 

 

1339 – Transcender-me

 

 

Tão sagrado e religioso

Transcender-me é no profundo

Como na via que entroso

Ascendente à luz que gozo,

Fugindo à noite onde afundo.

 

A voz de Deus pode ouvir-se

Vinda do poço sagrado,

Da caverna do intocado,

Na funda emoção sentir-se,

 

Pode-o com tanta certeza,

Sem precisar de exibir-se,

Aura esquiva de beleza,

 

Como se proveniente

Do altar na montanha assente.

  

 

 

1340 – Vergonha

 

 

Parecer pode ansioso

O espiritual indivíduo

Por evitar pressuroso

A vergonha: misterioso,

Vive na terra envolvido,

 

Enlaçado aos animais,

Em fatal intimidade.

Não é de culpa jamais

Por erro que não lhe agrade,

 

É de ente de luz não ser,

Feito de ar e brevidade,

Como sonhara quenquer.

 

Se a meta a trepar obriga,

A vergonha à terra o liga.

 

 

 

1341 – Riso

 

 

Há um riso que de Deus vem,

Que salva da seriedade,

Abre o trilho ao que contém

O que a ser feliz convém

Em nossa mediocridade.

 

É a postura tolerante,

De nós capaz de nos rirmos,

Que nosso esforço garante

Que entende para sempre irmos

 

Tentar chegar ao que não

Podemos saber adiante,

Perdido na escuridão:

 

Para tornar-se quenquer

No que nunca pode ser.

 

 

 

1342 – Oculta

 

 

Libertarmo-nos do entulho

Que oculta o espírito importa:

Preconceitos mais orgulho,

Das defesas o gorgulho,

Literalismo que exorta,

 

Mais a preguiça mental

E a ignorância de raiz.

Todos são de igual matiz,

A esconder o espiritual.

 

Todo o espírito é exigente,

Jamais trata por igual

Quem luta e quem é indolente.

 

Espírito que tal dita

Estrangula o que me dita.

 

 

 

1343 – Daninhas

 

 

De perfeição fantasias

Como ervas daninhas crescem

Na mente que aponta as guias

Ao espírito que as vias

Dos cumes quer que florescem.

 

O mito de ser perfeito,

Saudável, iluminado,

Anda de ego sempre eivado:

Por que o nível sempre espreito

 

Do progresso que eu tiver?

O mundo repleto a eito

Anda de quem me requer:

 

Tradições espirituais

Não querem o eu, mas os mais.

 

 

 

1344 – Luta

 

 

A emocional, empenhada

Luta que jamais se ganha

Afecta as almas na estrada,

Vence as marcas da pegada

Que ali cada qual desenha.

 

A visão mais alargada

Nos permitirá da vida,

Do mistério que é de entrada,

Mistério que é de saída.

 

A iniciação pulveriza

A rigidez encontrada,

As falsas protecções visa.

 

A gruta de alma conduz

O espírito a dar à luz.

  

 

 

1345 – Conflitos

 

 

Os conflitos comezinhos

Dão a espiritual lição:

Não avançamos sozinhos.

Ser humano é dos vizinhos

Depender, de mão na mão.

 

Quando todo o resto falha,

Aguardamos uma ajuda

Duma igreja, de quem calha

Que à desgraça nos acuda.

 

É básica a dependência,

Mesmo a vida mais miúda

É de divina ascendência.

 

Jogo-me então de mim fora:

Além da razão Quem mora?

 

 

 

1346 – Inconscientemente

 

 

Inconscientemente olhamos

Uma imagem dum Deus homem,

Patriarca e avô, queiramos

Ou não sempre nos rodeamos

Desta imagem e as mais somem.

 

Eis porque a deusa Mulher,

A Natureza, se esconde.

Não vai desaparecer,

Governa sei lá bem donde,

 

Sob a pele do que entendo,

Do rosto que a vida houver.

O impacto dela exercendo

 

Em cada um, invisível,

A vida torna impossível.

 

 

 

1347 – Secular

 

 

Muita espiritual paixão

Hoje em dia é disfarçada

De dinheiro, guerra, em vão,

De política, senão

Duma atlética jornada…

 

Em conjunto, hierarquias,

Uniformes, rituais,

Discursos com histerias

Formam religiões banais.

 

Comícios e convenções

Como os credos sociais,

De ídolos celebrações

 

Um tipo apontam-nos chão

De secular religião.

 

 

 

1348 – Difícil

 

 

Por que é que a prática certa

Difícil é de encontrar,

A comunidade alerta?

É que é uma busca desperta

O espírito cultivar.

 

Total, imediatamente,

Não acontece jamais,

É procura que se tente

Mesmo em fés tradicionais.

 

Amadurecer aqui,

Como noutros campos mais,

É a norma de que nasci.

 

E, na cultura em geral,

Funda um traço individual.

 

 

 

1349 – Transcende

 

 

Deus do que grande é maior,

Mais pequeno que pequeno,

Mais transcende que o fulgor,

Mais imo do que este for,

Mais pleno que o que for pleno.

 

Além de qualquer imagem,

Requer a melhor de todas

E depois quer a coragem

De ao lixo jogar tais modas.

 

Seja lá o que for que eu diga

Acerca de Deus, as codas

Tenho de quanto o desdiga.

 

Tanto isto há-de ter lugar

Que até deixe de falar.

  

 

 

1350 – Ídolos

 

 

Nós de imagens precisamos,

Porém estas facilmente

Em ídolos transformamos,

Para elas apontamos,

Não para o Além que haja em frente.

 

Da imagem religiosa

É o intuito uma janela

Ofertar-nos, graciosa,

À eternidade a que apela.

 

Qualquer ídolo bloqueia

Da visão toda a sequela

Dos possíveis a que ameia.

 

Então o implícito abraço

À vida corta dum traço.

 

 

 

1351 – Beleza

 

 

A beleza é transcendente,

Sublime e satisfatória,

Por inteiro, plenamente.

Ao limite toda a gente

Pela mão leva, à vitória.

 

Mesmo abarca o doloroso,

Quantas vezes o cruel.

O artista mostra, teimoso,

Que, à natureza fiel

 

Mais obscura, baixa e triste,

É a beleza que o impele,

Que o belo também lá existe.

 

Sem beleza o mundo ouvido

É de seu Deus desprovido.

 

 

 

1352 – Impacto

 

 

Alguém, quando falar, tem um impacto forte

Por vezes tão profundo que parece haver

Nos termos qualidade de imortal transporte,

São palavras eternas e teremos sorte

De a divina vontade aí sentir a ser.

 

Tanta força, eficácia, que, por vezes, o anjo

Porventura aparece com figura de homem,

(São amigos ou membros que em família abranjo)

Fala através de nós e em nós os medos somem,

 

Mensagens a ofertar de espiritual valor.

Se distinguir não logro afirmações que tomem

Cara humana, se angélico, ao fim, tudo for,

 

Acaso confundido irei sentir-me a sério

E não persigo em vida mais nenhum mistério.

 

 

 

1353 – Formiga

 

 

Se à formiga perguntar:

“Deus parece-se contigo?”

“Não, que uma antena em lugar

Das duas tem que eu abrigo” –

- Responde, sem hesitar.

 

É o que se passa comigo,

Se O quiser representar:

Serei sempre este formigo

Sempre um Outro a desenhar

 

À medida do postigo

Que daqui ando a espreitar.

Nunca de mim me desligo:

 

Por mais que o tente sonhar

Sou sempre eu em seu lugar.

 

 

 

1354 – Âmago

 

 

Se no âmago andar Deus duma oração que houver,

Conversarmos com ele poderemos nós

E nossa relação então irá pender

Do nosso compromisso com o mundo a ter,

Que a chave sempre foi não desatar os nós,

 

Não cindir o divino da divina acção,

Nem esta criação do mundo a ir trilhar,

A ir desenvolver com a ciência à mão,

Com a tecnologia com que o vou mudar.

 

Se quando me elevar eu cavernal descer

À gruta mais profunda que ocultada andar

No centro do Universo, então aprendo a ser.

 

A fenda entre a ciência e qualquer crença então

É de ambas fracassarem visionário chão.

 

 

 

1355 – Inviável

 

 

De Deus quando o mistério, o inviável fito,

Fito de O entender e nomear, por fim,

De vez for respeitado, há-de tombar o mito,

Surge a oportunidade de meu ver estrito:

Em toda a parte e em tudo Deus nos mora enfim.

 

Poderemos então nos religar com Deus,

Tais pessoas que somos, tudo laços, nós,

Uns aos outros presentes, cada qual aos seus,

Sem excesso nem falta, mas atando ilhós.

 

Já não preocupados com quem nós seremos,

Poderemos falar, o ouvido atento aos céus,

À espera de atendidos de alguém ser que vemos.

 

Podemos escutar, por entre sons sumidos,

Na esperança de sermos finalmente ouvidos.

 

 

 

1356 – Paradoxo

 

 

Do inominável Deus o paradoxo brota

Da crescente consciência da presença viva

No coração pulsando do que alguém anota,

De tudo o que é real, que o mundo já não cota

Nada como vazio em tudo quanto arquiva.

 

Então a vida inteira encantamento toma

Onde a imaginação apontará o caminho

Para significado mais valor que soma

O rosto sonhador de que é nosso imo o ninho.

 

Ao mistério me chego e busco modos fiéis

De o poder exprimir, de partilhar o vinho

E o pão com que alimenta as mais variadas greis.

 

Na religião o afecto a senda achou perdida,

Ao espírito aqui então uniu-se a vida.

 

 

 

1357 – Romântico

 

 

No romântico pesa o sofrimento haurido,

Que em nossa humanidade nos obriga a entrar.

Quenquer ao se entregar, à vida dá sentido,

O sofrimento e a dor garante haver nutrido

Que daí vulgarmente hão-de fatais brotar.

 

Generosos vivemos, no imo enfim moldados,

Amamos e perdemos, separamos tanto

Quanto atamos os nós e, na prisão cerrados,

A prosseguir forçados nos verão em pranto.

 

Embora sem saúde, em confusão total,

Na vida nós entramos para um breve encanto

Como para a beleza. E o peso têm igual,

 

Quer nos venham de agrados ou de reais tormentos,

Que em tudo a curta vida são só tais momentos.

 

 

 

1358 – Donzela

 

 

A donzela é o momento de esperar atento,

Uma preparação, expectativa frágil,

Vulnerabilidade de aguardar momento

Em que a fecundem, dócil, em qualquer segmento

Em que um germe de vida brote incerto e ágil.

 

A espiritualidade, se a buscarmos nós,

Poderá ser chamada para aquela via:

Cuidar da intimidade delicada após

Para se preparar ao que vital viria.

 

Teremos de estar prontos, como a noiva esquiva,

Para quando a mensagem que inaugura o dia

Chegar e transformar tudo o que em nós aviva.

 

Espiritualidade de promessa feita,

Janela inacabada, nisto é que é perfeita.

 

 

 

1359 – Poderosa

 

 

É muito poderosa a poderosa imagem.

Números, abstracções, prefere de hoje o homem,

Porém quem de alma vive outra requer viagem,

Sabe o que a imagem pesa, jamais é cofragem

De ideias racionais, juízos vãos que a somem.

 

Um romântico ser, em epocal ruptura

Contra os racionalismos, no exterior se fica,

Rompe a tecnologia, um outro centro augura,

Devém tolo sagrado e em devir tal se aplica.

 

Os românticos, nós, vamos triar imagens,

Fugindo à redutora que ao fim tudo explica

A vida reduzindo a factos só, sondagens…

 

Preferimos manter-nos no brumoso ser,

Surpreendendo um saber bem mais profundo a ter.

  

 

 

1360 – Abrir

 

 

Busca iluminação o espiritual pendor,

Enquanto as almas buscam ligação, afecto.

Acolá de mim mesmo acabarei senhor,

Aqui já não a mim é que me irei propor,

Meus braços vou abrir além de meu projecto.

 

A uma imagem sagrada alguém ficar presente

Não é ser instruído, o que ignorou, colher,

É ser receptor da irradiação que houver

De lenta o transformar lá na fundura assente.

 

O efeito do devoto é mui difícil ver-se,

Medir-se ou explicar-se como facto crente,

Que mergulhou raiz no que tal lei não verse.

 

Mas a veneração que é confiante, entregue,

À quinta-essência aponta qualquer fé que adregue.

 

 

 

1361 – Anjos

 

 

As palavras são anjos, como o são imagens,

Entre divino e humano intermediários breves,

Anjos que mediadores se tornaram, pajens

Deste mundo de tempo em permanentes viagens

Para o da eternidade, voando em passos leves.

 

Da imagem o papel, o verbo então profético

Um novo lugar medem ao pensar que tenho,

Um alvo inesperado em meu pensar poético,

Na atenção distraída que afinal mantenho.

 

Eis-me então afastado de meu ego intenso,

De meus projectos já me descansando o cenho,

Vivo mais o mistério, menos já o que penso.

 

Mais longe do que é prático no sal do mundo,

Entro no intemporal quase entrevendo o fundo.

 

 

 

1362 – Sério

 

 

É bastante diferente

Olharmos através duma

E a sério ser uma lente.

Quantos prémios apresente

De investigação, em suma,

 

A lente através da qual

O investigador já fez

Descoberta genial

Ninguém conta alguma vez.

 

Ser uma lente é viver

Da vida o raro entremez

De modo a vir meio a ser,

 

Não sujeito, e transparente,