DÉCIMO SEGUNDO
TROVÁRIO
EM TROVÁRIOS, DE VIDA COM MIL
SÓIS ME ALUMBRO
Escolha um número aleatório entre 1176 e 1416 inclusive.
Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu
dia de hoje.
1176 – Em trovários, da vida com mil sóis me alumbro
Em trovários, da vida com mil sóis me alumbro,
São caminhos de amar, são de sonhar carreiros,
São roteiros de agir, traços que enfim vislumbro
Na noite dos prodígios: pelos céus deslumbro-
-Me com os astros mil, de os ver de mim parceiros.
Em trovários alinho as trovas nesta escada,
Vou da quintilha à quadra, do terceto breve
À parelha final onde me fica atada
A ideia rematada que me o ar susteve.
Então é com mais força que a pequena luz
Que vem das profundezas como um sopro leve
No verso compassado a madrugada induz.
No trovário, por fim, vai revelar-se o lado
Onde, afinal, não mostro, onde antes sou mostrado.
1177 – Cara
A outra cara
da motivação
Que parte faz
da natureza humana
É o gosto
inato da competição,
Que ser
competitivo é uma razão
Da qualidade
que de nós emana.
Não é à toa
que a sobrevivência
Dos que mais
fortes são está na base
Da evolução
bem como da cadência
Dos saltos
pelas eras que ela apraze.
Competitivo
espírito, eis a chave
Do adulto bem
logrado, em evidência,
Enxada com que
as várzeas ele cave.
Se é o que
muros derrui, ata cadilhos,
Por que não
incuti-lo então nos filhos?
1178 – Ilustram
Jogos,
concursos e competições
Ilustram a
importância da conduta
Que sofre da
agonística impulsões,
Cobram poder
de tomar decisões
E ensinam a
perder numa disputa.
Com isto vêm
as demais lições
De indubitável
e feliz valor:
Como dos erros
tirar ilações
Outros
caminhos como me propor,
A melhorar
saber e desempenhos,
A apurar
finamente as aptidões,
A ter
critérios para meus empenhos,
A ter vontade,
contra meu revés,
Para tentar,
teimoso, uma outra vez.
1179 – Compensação
Uma
compensação que a idade traz
É que é mais
fácil o passado velho
Com o presente
celebrar a paz
E mantê-la
virente, bem vivaz,
Que idade bem
vivida traz conselho.
O tempo dilui
as penas
Que dimanam
dos desgostos
E as
cicatrizes nos rostos
Mais e mais
ficam pequenas.
As culpas
também se esbatem
Nelas e nos
pressupostos
E os muros
dentro se abatem.
O vinho melhor
Tem velho
sabor.
1180 – País
Este meu país
é antigo,
Tem vindo a
ser assolado
Quanta vez
pelo inimigo!
Faz dele
sempre um mendigo
Cada invasor
desvairado.
Caminhamos por
entre estas ruínas,
Sobrevivemos
há três milhões de anos
E da
sobrevivência os bons arcanos
Da família
reduzo-os às vacinas:
Pois a família
não é só questão de sangue,
De relações é
teia (ilusões, desenganos…)
São dívidas,
favores, risos com que mangue,
- É todo o
seguro
Contra o mal
futuro.
1181 – Transmutações
Quem as
transmutações ignora dos amores,
Por eles
operadas no carácter do homem?
Eis que os
tristes alegres ficam, doutras cores,
O extrovertido
finda de negros humores,
O optimista
deriva em freimas que o consomem,
O pessimista,
ao invés,
Abre os olhos
de alegria,
O covarde
ganha pés
De enfrentar a
apostasia
E a coragem
retoma, é uma bandeira
Trilhos
rompendo aonde ecoam fés,
O indeciso
decide com canseira…
- É o amor
mudança
Que outro
mundo alcança.
1182 – Sempre
Sempre o mesmo
ocorreu e ocorrerá:
Sempre o amor
é o amor antes de o veres,
Poderás
encontrá-lo, ora acolá,
Ora com outrem
que nem te verá,
Em qualquer
parte, mal por ti não deres…
Sempre o mesmo
e nunca igual
Ou igual só na
traição,
Que, ao mudar,
então já não
Teremos de
amor sinal.
Eterno é
sempre o amor no que visar devir
Mas o tempo,
afinal, o terá curto à mão:
Conservá-lo
não hás-de jamais conseguir,
- Só se morrer
dele
For o que te
impele.
1183 – Satisfatória
Dum indivíduo
quão maior a activação
Menos
satisfatória vai ser nele a vida:
Primeiro no
domínio do que é o coração,
Depois nos
pessoais laços que entretecerão
As domésticas
freimas, de íntimos a lida.
Mesmo as
esposas, os irmãos, os filhos
Ou quaisquer
próximos demais parentes,
Até do grande
líder assistentes
São bêbados,
drogados, - mil sarilhos!
Uns são
invertidos frustes,
Outros, loucos
descontentes
E não vês como
te ajustes:
- É o que aos
céus faz que cometas
Tantas
podridões secretas!
1184 – Raso
Por temermos o
elitismo,
(Que nós somos
democratas!)
Impomo-nos o
estrabismo
De não ver de
oiro o que crismo,
Todas as jóias
são latas,
Seja o génio
que abre mundos,
Seja o santo
que nos salva,
O herói de
tempos fecundos,
O artista
luzeiro de alva…
Qualquer ente
de excepção
À mostra lhe
ponho a calva,
Ignorando-o,
raso ao chão.
Da libertação
são remos
- E aguardam
que nem olhemos!
1185 – Duas
Sendo nós duas
verdades,
Uma de Árvore
da Vida,
Pela qual te
persuades
A buscar com
que te agrades
Sempre da fome
à medida,
Outra da
Sabedoria,
Flor da
receptividade,
Por onde entra
a luz do dia
A luzir na
opacidade,
Aquela a viver
a luta,
Esta a lei que
concilia,
Se uma com
outra disputa,
Uma doutra
divorciada,
Serão doença
pegada.
1186 – Contrato
O amor deveras
amor
Não pode ser
colocado
Num contrato,
num valor,
Que tal base,
é de supor,
É um desafio
adiado,
Pois contrato
é desafio
Que, logo no
próprio acto,
Me vai tentar,
desconfio,
A quebrar o
que há no pacto.
Há o cálculo
pessoal,
Cada qual ata
seu fio,
Combina
aparte, letal.
Contrato é de
humano tino,
O amor amor é
divino.
1187 – Radiações
Há radiações,
dioxina,
Mil e um
resíduos letais,
Muita espécie
que declina
E as de que
findou a sina
E nem sabemos
que mais…
Concordaremos
que é mau,
Que é o
desafio maior,
Trepa degrau a
degrau
E acaso o fim
nos vai pôr.
Teremos,
todavia, de anotar,
Por terrível
que disto seja o grau,
Que outro maior,
silente, anda a lavrar:
- Bem mais que
de radiações,
Morres da
mágoa às lesões.
1188 – Fora
Aqueles a quem
tudo corre mal
Olham às
vezes, fora, a natureza,
Vêem o
crescimento sem igual,
O equilíbrio,
a beleza bem real
Que a freima
de cotio só despreza,
Milhares de
milhões de anos de efeitos
De
desenvolvimento gradual.
Sentem-se
envergonhados, mal afeitos,
Tão
insignificantes ante tal!
Ficam parados
a olhar
Como bonecos
sem jeitos,
Olhos fixos,
com vagar…
- Mas se eu
sou que em mim noto a maravilha,
Que faço aqui
parado preso à cilha?
1189 – Monumentais
As monumentais
formas de sofrer,
A peste, o
cataclismo, a guerra, a fome,
A escravidão
que eterna nos tiver,
Universal a
dominar quenquer,
Decerto que, a
quem lá se não consome,
O torna um
sobrevivente
Humanamente
mais fundo.
Mas convirá
ter em mente
O sofrer livre
do mundo.
O
totalitarismo, doutro modo,
Iríamos
sagrando, convincente,
Como quem tem
da honestidade o bodo.
Mas trilhas
mortalmente perigosas
Sofrem os
livres que aram o que gozas.
1190 – Idosos
Idosos há, com
mais de oitenta os vejo,
Ainda furiosos
pelo modo
Como perderam
em criança ensejo
De uma bacia
utilizar sem pejo,
Ou como um
jogo lhes frustraram todo…
Vivem a vida
infantil,
Escravos de
pai, de mãe,
Decénios de
fraldas mil,
- Toda uma
vida refém.
Dele próprio
ninguém com o respeito
Se vai
escravizar ao que ali tem
De antanho a
marca duma faca ao peito.
Desliga de
teus pais em paz, se podes;
- Se não,
rompe caminho: é a ti que acodes!
1191 – Arranha-céus
O
arranha-céus, ergástulo opressivo,
Nem sempre tem
de ter este sentido.
Eles exprimem
o pendor que é vivo
Da aspiração
de quem se vê cativo
E à liberdade
tende, ao céu volvido.
É neste
erguer-me mais alto
Que escapo da
gravidade,
Que busco, no
que me falto,
O peso do que
me invade.
Empresas
poderão enchê-los, execráveis
No chão ao
esmagar raízes donde salto,
Que evocam
transcendência de altos invejáveis…
Talvez ma
traiam, induzindo em erro…
- Mas a
esperança acorda a que me aferro!
1192 – Vida
Uma vida
humana,
De humana, que
densa
No que dela
emana!
Mesmo se se
fana,
Como a vida é
intensa!
Porque o que
nela acontece
Não é o que
acontece nela,
É bem mais que
o que parece,
Infindo além
da janela,
Fronteira do
infinito onde asas soltas
Vou abrir
respirando a infinda messe
Das vertigens
sidéreas nela envoltas.
Pouco importa
o que ocorre a uma vida qualquer,
Mas o que
ocorre em nós neste imenso ocorrer.
1193 – Aprendi
Com a vida
aprendi que objectos são objectos,
Podemos
substituí-los, se for caso disso.
Objectos não
são gente, terminam completos
No limite em
que os toco em meus dias concretos,
Neles jamais
encontro dum porvir o esquisso.
Hoje, quando
um filho ou neto
Parte ou
gasta, em brincadeira,
Um brinquedo,
se o detecto,
Não o censuro
da asneira.
Em vez de o
castigar por descuidado,
Prefiro da
aventura andar à beira,
A infância
festejar de mui bom grado.
É uma alegria
festejar a vida
Pagando os
prejuízos de seguida.
1194 – Casal
Todo o casal
chegado partilha um segredo,
Não termos
cintilantes onde brilha o sol
Nem sexo
doutro mundo onde Deus reza o credo,
Embora em
comum possam ter tudo sem medo:
- É que ambos
descobriram da bondade o rol.
Bondade, ou
seja, ternura,
Atenção,
delicadeza,
Qualidade da
doçura
Que hoje o
mundo, enfim, despreza.
São os
pequenos momentos
Em que a
sintonia apura
Que do casal
são fermentos.
- Eternos
apaixonados
E é por mor de
tais bocados.
1195 – Acaso
Todos seremos
por acaso amáveis
Para com nosso
cônjuge, porém,
O casal mais
feliz logra fiáveis
Maneiras
naturais quase incontáveis
De o mesmo
prosseguir como ninguém.
Não serão mais
altruístas,
Compreenderam,
todavia,
Que a
amabilidade cria
Um trilho do
amor nas pistas:
Um pequeno e
doce gesto
Outro igual
inspiraria,
De boa vontade
apresto.
E eis se
reconcilia então o todo
De ambos
quando ambos forem deste modo.