SEGUNDO  VERSO

 

 

QUANDO  O  QUE  SOMOS  PESQUISARMOS  PERTO

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 110 e 220 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

110 – Quando o que somos pesquisarmos perto

 

Quando o que somos pesquisarmos perto,

O trato

Exacto

É que tudo em nós é tão incerto,

 

Com marca de nervoso ou de pacato,

De estúpido ou de esperto,

Que o mais a que me alerto

São os limites onde me acato.

 

E assim,

Vendo ao longe o fim

Que nunca é meu,

 

Afinal em minha quinta descanso

No remanso

De quem alguns terá nacos de céu.

 

 

111 – Inteligente

 

A maioria das crianças sente

Que a ciência

É apenas para quem é inteligente,

Paciência…

 

Contudo, os cientistas naturais,

Por instinto, são elas,

Do mundo e tudo o mais

Às janelas.

 

Seria muito fácil ajudar

As crianças:

Bastaria as perguntas partilhar

De que te cansas.

 

 

112 – Partilho

 

A curiosidade do filho

Se partilho,

Dou-lhe valiosa lição:

A ciência fica à mão.

 

Aprende que vale a pena

Persistir, experimentar,

Que as muralhas apequena

Do que houver a conquistar.

 

Aprender não é enfadonho,

Nem é tortura de escola,

É um desafio medonho:

E o coelho sai da cartola!

 

Aprender então é um acto

A gozarmos cada dia

- E a vida inteira desato

A mudar em romaria!

113 – Aula

 

A vida é como aula

Sobre um tema

De matemática:

Escapamos à jaula

Resolvendo um problema?

Logo o mestre muda de temática!

 

 

114 – Encorajador

 

A criança vi melhor

Com o acto que reconhece

Como acto encorajador.

 

E fenece

Como planta mal regada

Ao castigo e à palavra degradada.

 

Não é de somenos

O que cada qual faz:

O encorajamento torna-a mais capaz,

O desencorajamento, menos.

 

 

115 – Empatizantes

 

Simpatizantes

São meros espectadores.

Os empatizantes

Calçam os ténis das dores,

Põem a pegada devida

Na corrida.

 

 

116 – Guilhotina

 

Quem pode erguer a guilhotina

Aos mortos?

Sombra e luz não se degolam:

Connosco ela não atina

Se Além nos ficam os portos

E as faces que nos arrolam.

 

Já não pode mais ferir

Mas tenta insistentemente

Quebrar-nos os braços?

Abraça-me, que o devir

Germinará da semente

Que da ternura há nos traços.

 

Na hora derradeira

Talvez algo fique de nós

A iluminar a voz herdeira

De nossa voz.

 

 

 

 

117 – Tremor

 

Abro de noite a janela

A ver o frio.

O tremor daquela estrela

Surpreendi-o,

Vai extinguir-se de repente

Naquele lugar:

Apanharam-na numa corrente

De ar!

 

 

118 – Poesia

 

A mais vasta,

A mais universal

Poesia é a que se engasta

Nas leivas de Portugal,

Recorte de minha casta

Na paisagem universal.

 

 

119 – Dançar

 

É-me indiferente ser

Ou não

Tudo o que de mim você disser.

Em vão

Acredita na ilusão.

Minha vontade de dançar

Vem do mero facto a par

De você o saber,

Não é dele imitação.

 

A par,

Pode crer:

- É que é de mim cuidar.

Dançar para mim é ser, dia a dia mais ser

Um raio de luar.

 

 

120 – Mimado

 

Menino mimado,

Como poderia ter aprendido

Que o dinheiro bem suado

É comedido

E pesado?

 

Manejamo-lo com solicitude,

Falamo-lo gravemente:

Porque se sente

Que é virtude.

 

 

121 – Sonhos

 

Os sonhos são linguagem

Doutras medidas

Que com as deste mundo interagem:

As das vidas já vividas,

As dos que ainda não são vidas.

Aviso,

Premonição,

Recado de Deus, se de siso,

Do demo, se danação.

 

Terrível segredo

Sagrado,

No ar invisível paira, tredo,

Inviolado,

Cercando-me por todo o lado.

 

Dizem que após morrermos

Saberemos tudo:

- Viver é falar em termos

De quem é mudo!

 

 

122 – Livro

 

Cada livro é uma janela

Do Universo:

Cada qual, uma parcela;

Tudo junto, que diverso!

 

Mais aprendo ao vivo nos costumes

Sobre os homens, porém,

Do que a ler quaisquer volumes

Que o mundo inteiro contém.

 

 

123 – Saber

 

Há um momento na vida daqueles

Que nascem mais tarde

Em que há mais saber neles

Do que o que nos mais se guarde.

 

Sei após seu tempo aquilo

Que os antigos me contaram.

Do presente o saber fi-lo

Com o que os meus gestos aram.

 

É o porvir da antiga grei

Aquilo que afinal sei:

 

Para ela o que inauguro

No mais de que me inteirei

É, pois, que eu sei o futuro

Vedado aos dela por lei.

 

 

124 – Espero

 

Espero

Porque desejo e pressinto

Que sou esperado por alguém.

Pinto-o

Como o quero:

- Como quem

Me espera com amor.

 

Vida não é vida

Nem valor, valor,

Se alguém lá do fim me não convida.

 

Esperar, porém,

É confiar num futuro

Que me não poderei dar.

Quem manda em quem?

Nada é seguro

Neste lugar.

 

É nas mãos deste porvir

De que não posso dispor

Que me vou pôr,

Que estou a ir…

 

 

125 – Funcional

 

A educação

Meramente funcional

Ignora que qualquer profissão

É inelutavelmente dual:

Ou mercantil

Ou sacerdotal.

Aquela, se o ter e o poder

For seu carril.

Esta, se o primeiro dever

For a comunidade universal

E lhe assumir, a todo o momento,

O humano desabrochamento.

 

 

126 – Apelo

 

Não, Deus, Deus, não sei o que é.

Se o soubesse, não seria,

Era a minha fantasia.

Mas, então, fica o problema de pé.

 

Porém, sei o que não é:

Sei que será sempre um não

Ao ser que os mais seres são.

 

É aquela presença activa

Além da vista ou sentidos

Que a palavra não cativa,

Onde os termos são mentidos.

 

Presença, mas não dum ser,

Antes para ser o apelo,

Para criar o que houver

De ser de modo singelo.

 

 

 

 

Deus é aquela liberdade

De ser alegre e sem prova

Além de qualquer verdade:

A força, a força que inova.

 

Oceano que me contém

A centelha provisória,

Ultrapassa-me de além

E assim me convoca à História.

 

 

127 – Múltiplas

 

A mesma fé,

Cruzando múltiplas culturas,

Gera múltiplas religiões.

O mesmo pé

Alimenta a rama de todas as verduras

De que, afinal, dispões.

 

Urge perder a ilusão

De que a única verdadeira

É a nossa religião,

Pois ignoramos então

O comum tronco das mais,

Até à derradeira.

 

Todas nem sequer serão demais

Para nos renovarem os sinais

A vida inteira.

 

 

128 – Perspectiva

 

A realidade nunca pode ser cativa

Duma só perspectiva:

 

Captá-la plena implica a exigência

De viver até ao fim

Dos outros a experiência

Dentro de mim.

 

 

129 – Missão

 

Combate toda a religião

O dualismo. Superar a exterioridade

É dela a primeira missão:

Um deus só de majestade,

Do homem segregado,

E não vivo e chagado

Em acto de perene criação,

Tal deus, não!

 

É a nossa chaga do lado,

Mata-nos no coração.

 

 

 

 

130 – Traslado

 

Hipótese e postulado

E o sentido aonde apontam

São meu íntimo traslado:

Quem sou eu é quanto contam.

 

Verificar, passiva,

A verdade positiva

Mui auto-suficiente,

Fora de nós, é, sem nós,

Buscar água da nascente.

Quando assim ficamos sós,

Morremos enquanto gente,

Morre a crença logo após.

 

Deus vai morrendo

Quando para a morte

O Homem for correndo:

Ambos têm unida a sorte.

 

Viver é amar, criar além

Da vida que se tem.

 

 

131 – Negação

 

A negação

De quenquer

Como é que se negaria?

- A teologia da revolução

Requer

A revolução da teologia.

 

 

132 – Postulado

 

Um postulado,

Apesar de indemonstrável,

Não tem nada de arbitrário:

Uma acção torna viável.

O valor é comprovado

Por um critério primário:

Verifico o efeito

Que dali me vem direito.

 

Se à vida quero um sentido,

Postulo que o tem de facto:

Então o efeito vivido

Pende inteiro de meu acto.

 

 

133 – Condição

 

Pára a minha liberdade

Onde a doutrem principia,

Tal como a propriedade

Na dos mais se estremaria.

 

Mas a liberdade não

É o limite

Que a minha trave e credite,

É a sua condição.

Minha liberdade que seria

Dos mais se fora vazia?

 

 

134 – Matriz

 

Trabalho é matriz de laços

Com a natureza.

Sacrifício é matriz de laços

Com o vizinho.

 

O amor, quando de humano se preza,

É do mundo inteiro o primeiro cadinho:

Enlaça de múltiplos modos

A Terra, o Universo e os homens todos.

 

 

135 – Amputação

 

Doutrem ter a precisão

É de mim não me bastar:

Já não sou para mim

Meu próprio fim.

Sofro duma amputação

Que só se há-de completar

Na complementaridade

Com outrem a que agrade:

Quer

Dum homem para uma mulher,

Quer, pois importa que se somem,

Duma mulher para um homem.

 

 

136 – Pedinte

 

O que leva a não morrer

É o amor

Entre o homem e a mulher.

Primeiro por ir transpor

Para a geração seguinte

A vida que vem detrás.

Depois porque, à solidão

Que quem nasce e morre traz,

Arranca o pobre pedinte

Que todos somos no chão.

 

É a participação

Naquilo que me ultrapassa

E não morre:

A próxima geração

E o sacrifício que enlaça

O sonho que por nós corre.

 

 

137 – Escravo

 

Metamorfoses e revoluções,

Eis como caminha a vida.

Quem de escravo viver as condições

Como escravo pensa e lida.

Se liberto, pensará

Como um homem livre pensa.

A grandeza da vida sempre está

Em que o escravo um dia se convença

De que a si próprio se liberta:

Como homem livre se cria,

Porta aberta

Tão inexplicável como a que num dia

Transforma, discreta,

Uma lagarta em borboleta.

 

 

138 – Revolucionário

 

Revolucionário não é alguém

Que como tal se designa,

A sério para que o tomem.

- Revolucionário é quem

Se não resigna

À desgraça do homem.

 

 

139 – Acúmen

 

A vida humana

É o acúmen do mundo.

Sob ódio, porém, nada emana,

Perde o valor mais fecundo.

 

Sob o homem habitual

Um outro se acobertou

Que de homem não dá sinal,

Sente e não pensa quem sou.

 

O ódio acorda o animal:

Se de vez não me anulou,

Quem sou eu, quem, afinal?

 

O que aqui me deu à luz

Ou o outro que mais seduz?

 

Ou nunca serei sequer

Aquele que devo ser?

 

Em mim que é que me traduz:

O que sou sem o querer,

O que não consigo ser,

Ou quanto, lento, em mim pus?

 

 

140 – Isolamento

 

Tanto de convívio me alimento

Que a mais partilhada ferramenta

Do mundo é o isolamento

Para dum preso extorquir, no final,

Do que intenta

A confissão total.

141 – Monumentos

 

Os monumentos

Mais admiráveis da cidade

Não se elevam dos cimentos

Nem de bronze entalham connosco a afinidade.

 

O melhor são as árvores e os parques,

Os jardins de pássaros e animais,

Os lagos que de peixes encharques…

 

- Só aqui de teus amores

Verás sinais,

Só aqui os encontras no que fores.

O mais,

Matéria morta,

A que vida te exorta?

 

 

142 – Lonjura

 

Num estrangeiro lugar

A saudade nos convida

A pesar quanto a lonjura não é leveira:

- Que bom encontrar

Uma cara conhecida

Quando alguém anda perdido em terra estrangeira!

 

 

143 – Ostra

 

Das verdades a verdade

Nunca nela a mão tu poisas:

Quem as invade

Nunca mais descobre as coisas.

 

Sai a pérola da ostra

Mas não pela descrição,

À voz duma explicação.

O que deveras nos mostra

No fundo o que as coisas são

Não requer prova ou amostra,

É pura contemplação.

 

Se lá chega o coração,

A mente não é precisa:

Ali mente é mente em vão

E nunca mais ajuíza.

 

 

144 – Aliena

 

O benefício material

Retirado à natureza

Pelo mundo ocidental

Alheia-nos da beleza

E aliena cada qual

Dos mais e de si também.

E o efeito mais concreto

É que o muro se mantém

Entre o sujeito e o objecto.

 

Esta via

Nunca leva ao que anuncia.

 

A inversa,

Aquém

Com o lado de lá conversa

E o fio dele retém

Como rumo a prosseguir

Se quisermos ter porvir.

 

 

145 – Tubos

 

Tubos em feixes de tubos,

Os homens não são esferas

Nem cubos,

São poliedros de eras e eras,

Tão complexos no final

Ante uma análise fina,

Que são sempre algo transcendental

Ao que alguém lá imagina.

 

 

146 – Derradeira

 

Dirá Deus a palavra derradeira

Sobre os príncipes da igreja?

- Se Deus não existir, é brincadeira,

Permitido será o que quer que seja.

 

E a verdade é que Deus jamais existe

Sob qualquer forma

Que a mente alguma vez tiver em riste,

Será o que for fora da norma.

 

Então,

Sem sentido definido,

Tudo será sempre em vão,

Já que tudo é permitido.

 

O que importa é que se veja

A conclusão primeira:

- Deus já disse nisto a palavra derradeira

Sobre os príncipes de qualquer igreja.

 

 

147 – Muralha

 

A muralha de concreto

Erguida entre tua igreja

E o negócio a que dás tecto

Bem queres que ninguém veja!

 

Como os contos fariseus,

Com uma das mãos afagas

O cordeiro de Deus.

Para engordar o tesoiro,

Com a outra, esconso, pagas

Ao bezerro de oiro.

 

 

148 – Antítese

 

Democracia-comunismo: antítese

Deveras emntirosa.

As verdadeiras antíteses darão a síntese

Que em tais simplismos não se entrosa.

 

A democracia à ditadura

Se opõe como figura.

 

Comunismo é socialismo extremista,

Nazi-fascismo é capitalismo extremista.

 

Como os extremos se tocam,

São tirânicos os dois,

Ditaduras desembocam

Do que são, logo depois.

 

Capitalismo tal qual socialismo

Podem ser dialécticos modelos

Que, se moderados, crismo

Como os que gritam apelos

Das insondáveis distâncias

Por que apelam nossas ânsias.

 

Ambos, pois, em termos práticos,

Por igual poderão ser democráticos.

 

Quando em sã competição

É que as mãos dão ao poder,

Os povos só lucrarão

Da emulação que isto der:

Este agora, após aquele

E o mundo em frente se impele.

 

 

149 – Enfermo

 

O meio termo

Não leva a parte alguma:

Prova a História que o enfermo

Não vive nem morre, em suma.

 

Partejar grandes mudanças,

Só quando com a violência

A colectividade alcanças

Na vastidão da existência.

 

Porém, a ideologia,

Quando transgride os limites

Da ética, brusca enuncia

Os mais desumanos palpites:

Quem é que a distinguiria

Do que ela, afinal, cortaria?

 

Dum meio,

Transmuda-la logo em fim:

No seio

Já não guarda mais lugar

Nem para mim,

Nem para o Homem caminhar.

 

 

150 – Corpo

 

 

Nada nem ninguém

Mais perto dum homem mora

Do que o corpo que ele tem:

Do nascimento à morte lhe demora.

 

Por quê, então,

Tratá-lo como um ladrão?

 

 

151 – Esconder

 

Maior que outro insulto qualquer

À nossa comum natureza,

É impedir a culpa de esconder

A cara por vergonha.

Porque demais a despreza,

Nem é um castigo sequer:

É alguém não ter onde se ponha.

Sendo que, ao invés, dele todo o não-ser

A todo o mundo permanente o exponha.

 

 

152 – Jovem

 

O jovem,

Não tendo ainda afundado raízes na terra,

Fáceis os ventos o movem

E, no pino da serra,

Quando a lonjura o convida,

Leve abandona a vida.

 

Como o santo,

Olha uma estrela

E, ao ver-se tão longe dela,

Morre por falta de encanto.

E a sequela

É mais de risco que de pranto.

É que na morte também

Busca um além:

Não é um desvio,

É a quebra final do fastio.

 

 

153 – Parco

 

Parco é o segredo

Que escapa ao investigador

Com ocasião, liberdade e credo

Para com arte se propor

Levantar a ponta do véu

Que encobre a cor

Do céu…

 

 

154 – Culpa

 

Quase tudo consigo

Excepto quando a culpa me invade:

A culpa traz consigo

A marca da fatalidade.

 

O que for, será:

E mais não há!

 

Só o arrependimento

E o perdão

Podem restituir-me nalgum momento

O chão.

 

 

155 – Jovem

 

As coisas se movem

Tanto a mando de tom velho

Como de novo tom.

Apenas o jovem,

Da vida sem o conselho,

Crê que o novo é sempre bom,

Seria aquele

Fogo que o mundo impele.

Nisto é que a idade

Será mestra da verdade.

 

 

156 – Credes

 

Credes que foi isto que Ele quis?

Que se encontra em doiradas catedrais,

Nos palácios onde residis?

Ele nunca vive em ambientes tais:

Mora no lar insuportável

Em que cair

Todo e qualquer miserável.

 

- E nunca de lá vai sair!

 

 

157 – Cadáver

 

Todo o cadáver é o mundo real,

Miserável, cheio de lama,

Manchado de sujidade.

Quem o ama

É que dum outro lado lá viu um sinal:

Atrás da máscara, a fugidia verdade.

 

 

158 – Impéro

 

Meu lar

É o império

Do ser,

Mas, enquanto não aceitar

Que a vida assenta no mistério,

Nada hei-de aprender.

 

 

159 – História

 

O homem que conta a própria história

Não é já quem a viveu

Quando a gravou na memória.

Distorções, deformações,

- Que sei eu? –

Eis o preço inevitável

De reviver os baldões

Da vida no que é evocável.

 

O mais estranho é que o fito

Desta desfiguração

É aprender neste conflito

O que a sério as coisas são.

 

 

160 – Íntegro

 

À medida que alguém

Íntegro e unificado devém

O sexo encontra a dimensão:

Os órgãos genitais são

Um serviço do ser completo.

Procriam do chão ao tecto

Por todas as esferas.

O que inaugura as novas eras

É o ente que o é por inteiro,

O amor carnal é pioneiro

Do espírito no desejo

Do amor e da harmonia:

Gerar no ventre é o ensejo

De me inaugurar qualquer dia.

 

 

161 – Isolado

 

Viver por inteiro isolado

E esquecer?

- Em nenhum lado

É viável nem sequer

Por um bocado.

 

Quem o tentou, falhou.

 

Tanto somos de fios o entrançado

Cordame prolongado,

Que ninguém jamais corta, como ameia,

O cordão que o liga à teia!

 

 

 

 

 

162 – Fim

 

Não ir até o fim

É o erro fatal do homem.

Assim

Todos se somem

Para nada.

A vida atraiçoada

É vogar na onda.

Empregamos a justificá-la,

Para que a vergonha se esconda,

O tempo e o engenho

Requeridos se houvera empenho

De quebrar a tala

E saltar fora da escala

A que me atenho.

 

Obedecer ao mundo tal como é,

Que falta de fé!

 

 

163 – Atento

 

O acto importante

Não é barulhento.

Quando tudo se desmorona e cai diante,

O acto mais atento

E com sentido

É ficar sentado,

Calado,

Tal como antes do ocorrido.

 

Quem for capaz

De dar corpo à verdade que traz,

Algo opera mais decisivo e sério

Que a derrocada dum império.

 

Gritar a verdade? Não é preciso.

Mesmo que o mundo se desmorone,

Resta na verdade um juízo

Que a abone.

E, quando o mais esquece,

A verdade permanece.

 

No princípio era o Verbo,

O Homem é que em acto o vem pôr:

Dos eventos no inextricável acervo,

É o homem o acto, não o actor.

 

 

164 – Já

 

Superficial,

A ciência entristece o homem;

Total,

O amor arrebata o anjo.

Juntos, ambos consomem

As melodias que tanjo.

 

Infinda,

A ciência procura ainda;

Repousando do voo,

O amor ja encontrou.

Um novo pressentimento

Dum amor de verdade

-E um homem é um invento

De eternidade!

 

 

165 – Gratuito

 

Desejas-me, logo não amas.

O meu amor é gratuito,

Perfeito desinteresse.

 

Eleva-te às alturas donde chamas,

Donde os homens se vêem no fortuito

Areal que os aquece.

 

Grãos de areia na praia

Minúsculos e apinhados,

Repara neles e desmaia

Na vertigem de que somos estes dados.

 

Confuso, treme, treme e te reduz,

Até te afundares no vórtice da luz.

 

 

166 – Uno

 

Do mais vasto até dos mundos ao menor,

Da galáxia ao ínfimo átomo da criação,

Cada coisa é um ser único, de valor,

Sem repetição.

Porém, quando a todas reuno,

Reparo que tudo é uno.

 

Debaixo dos céus,

É o lado de cá de Deus.

 

 

167 – Diário

 

Um diário é uma viagem

Sem paragem,

De seguida:

…À imagem

Da vida!

 

 

168 – Curativo

 

O papel curativo da arte,

No autor, no fruidor,

É que o elemento pessoal, narcísico, se reparte

Dissolvido no universal.

A confissão do narrador

Mergulha-o, insensível e lenta,

Na actividade humana total.

Quando inventa,

Donde parte

É da compreensão difusa

De que a vida que recusa

Ela própria é também arte.

 

Então, gradualmente,

Com tudo e todos se cruza,

Definitivo presente!

 

 

169 – Recanto

 

A religião

De mim vai talhar um santo

Ou só um bom cidadão.

 

Quem entreabre um humano recanto

E até ao âmago o invade

É apenas a liberdade.

 

É terrível para aqueles que viveram

A vida aos bocados

E perderam e perderam,

Mentalmente algemados.

 

É a única porta, a liberdade,

Para algum dia não ter idade.

 

 

170 – Amordaçado

 

É muito engraçado

Que as palavras de menor uso

Jamais caiam em desuso:

O menos escrito e mais amordaçado

É o mais bem sabido em clandestino abuso.

Universalmente conhecidas,

Nenhuma idade, nenhuma condição

As ignora, mais ou menos travestidas,

- Como ninguém ignora o pão.

 

 

171 – Olímpica

 

A olímpica chama

Que o grande atleta busca

Arde já dentro e o chama

Bem antes da prova à justa

Em que o mundo inteiro o aclama.

 

Leva-o a ser o melhor

Como o seu melhor a dar

Sempre, seja qual for

O mais alto patamar.

 

- O desporto como a vida

Quer aquela chama erguida.

 

 

 

172 – Sorte

 

A sorte não atropeles,

Defende bem frente e lados,

Na vida não faças sala.

A sorte bafeja aqueles

Que se encontram preparados

Para aproveitá-la.

 

 

173 – Aparência

 

Do livro quando a ambição é ser impresso,

Quando por ele a ciência

Estudei na Faculdade,

Aprendi o processo

De tomar a aparência

Pela realidade.

 

Tornei-me um excesso

De falsidade.

 

Um outro livro me convida

Ao regresso

À verdade:

- A vida!

 

 

174 – Seca

 

Vamos à biblioteca,

Vamos à Universidade?

Quando pode, porém, árvore seca

Insuflar vitalidade?

 

Não é tudo, não.

Mas que enormes desertos ali vão!

 

 

175 – Quinhão

 

É o homem tanto melhor

Quanto maior o quinhão for

De sonho que lhe convém

 

E de dor

Ultrapassada

Em cada topada

Também.

 

 

176 – Laço

 

Contigo um ano passo

E é mais um laço

Que nos prende,

Que nos rende.

Contigo me purifico,

Fazes parte de meu ser,

Já não sou mais eu sequer

Com que dentro de mim fico.

 

A mais estranha evidência

A que chego, por fim,

É que és minha consciência,

Mais tu que eu dentro de mim.

 

 

177 – Brasa

 

Ninguém te vê, mulher,

E sinto-te em toda a casa.

Aquece-la para quenquer,

Uma inextinguível brasa

Presente em toda a parte

E sempre, sempre a meu lado.

Do ar que respiro ou tens arte

Ou és Deus que aqui anda disfarçado.

 

 

178 – Acção

 

Conheço a planta pela flor,

A vinha, pelo cacho

E o homem, pelo que for

A atitude que nele acho.

 

Quando nada fizer,

Deixa-o a si próprio entregue:

Mal adregue

Estará, mesmo sem querer,

A acontecer.

 

 

179 – Primordial

 

Há uma só doutrina,

Primordial,

De origem divina,

Tão simples, tão banal,

Que todos a entendem.

 

Por isso não satisfaz

Os que contendem

Na humanidade:

É que ela traria a paz.

 

Então, a vaidade

De cada qual construiu

O que distingue o teu do meu,

De modo a semear a terra

De guerra.

 

Dogmas e teologias,

Cismas e teses vazias

De sentido

E com tanta excomunhão