SEGUNDO VERSO
Escolha um número aleatório entre 110 e 220 inclusive.
Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
110 – Quando o que somos pesquisarmos perto
Quando o que somos pesquisarmos perto,
O trato
Exacto
É que tudo em nós é tão incerto,
Com marca de nervoso ou de pacato,
De estúpido ou de esperto,
Que o mais a que me alerto
São os limites onde me acato.
E assim,
Vendo ao longe o fim
Que nunca é meu,
Afinal em minha quinta descanso
No remanso
De quem alguns terá nacos de céu.
111 – Inteligente
A maioria das crianças sente
Que a ciência
É apenas para quem é inteligente,
Paciência…
Contudo, os cientistas naturais,
Por instinto, são elas,
Do mundo e tudo o mais
Às janelas.
Seria muito fácil ajudar
As crianças:
Bastaria as perguntas partilhar
De que te cansas.
112 – Partilho
A curiosidade do filho
Se partilho,
Dou-lhe valiosa lição:
A ciência fica à mão.
Aprende que vale a pena
Persistir, experimentar,
Que as muralhas apequena
Do que houver a conquistar.
Aprender não é enfadonho,
Nem é tortura de escola,
É um desafio medonho:
E o coelho sai da cartola!
Aprender então é um acto
A gozarmos cada dia
- E a vida inteira desato
A mudar em romaria!
113 – Aula
A vida é como aula
Sobre um tema
De matemática:
Escapamos à jaula
Resolvendo um problema?
Logo o mestre muda de temática!
114 – Encorajador
A criança vi melhor
Com o acto que reconhece
Como acto encorajador.
E fenece
Como planta mal regada
Ao castigo e à palavra degradada.
Não é de somenos
O que cada qual faz:
O encorajamento torna-a mais capaz,
O desencorajamento, menos.
115 – Empatizantes
Simpatizantes
São meros espectadores.
Os empatizantes
Calçam os ténis das dores,
Põem a pegada devida
Na corrida.
116 – Guilhotina
Quem pode erguer a guilhotina
Aos mortos?
Sombra e luz não se degolam:
Connosco ela não atina
Se Além nos ficam os portos
E as faces que nos arrolam.
Já não pode mais ferir
Mas tenta insistentemente
Quebrar-nos os braços?
Abraça-me, que o devir
Germinará da semente
Que da ternura há nos traços.
Na hora derradeira
Talvez algo fique de nós
A iluminar a voz herdeira
De nossa voz.
117 – Tremor
Abro de noite a janela
A ver o frio.
O tremor daquela estrela
Surpreendi-o,
Vai extinguir-se de repente
Naquele lugar:
Apanharam-na numa corrente
De ar!
118 – Poesia
A mais vasta,
A mais universal
Poesia é a que se engasta
Nas leivas de Portugal,
Recorte de minha casta
Na paisagem universal.
119 – Dançar
É-me indiferente ser
Ou não
Tudo o que de mim você disser.
Em vão
Acredita na ilusão.
Minha vontade de dançar
Vem do mero facto a par
De você o saber,
Não é dele imitação.
A par,
Pode crer:
- É que é de mim cuidar.
Dançar para mim é ser, dia a dia mais ser
Um raio de luar.
120 – Mimado
Menino mimado,
Como poderia ter aprendido
Que o dinheiro bem suado
É comedido
E pesado?
Manejamo-lo com solicitude,
Falamo-lo gravemente:
Porque se sente
Que é virtude.
121 – Sonhos
Os sonhos são linguagem
Doutras medidas
Que com as deste mundo interagem:
As das vidas já vividas,
As dos que ainda não são vidas.
Aviso,
Premonição,
Recado de Deus, se de siso,
Do demo, se danação.
Terrível segredo
Sagrado,
No ar invisível paira, tredo,
Inviolado,
Cercando-me por todo o lado.
Dizem que após morrermos
Saberemos tudo:
- Viver é falar em termos
De quem é mudo!
122 – Livro
Cada livro é uma janela
Do Universo:
Cada qual, uma parcela;
Tudo junto, que diverso!
Mais aprendo ao vivo nos costumes
Sobre os homens, porém,
Do que a ler quaisquer volumes
Que o mundo inteiro contém.
123 – Saber
Há um momento na vida daqueles
Que nascem mais tarde
Em que há mais saber neles
Do que o que nos mais se guarde.
Sei após seu tempo aquilo
Que os antigos me contaram.
Do presente o saber fi-lo
Com o que os meus gestos aram.
É o porvir da antiga grei
Aquilo que afinal sei:
Para ela o que inauguro
No mais de que me inteirei
É, pois, que eu sei o futuro
Vedado aos dela por lei.
124 – Espero
Espero
Porque desejo e pressinto
Que sou esperado por alguém.
Pinto-o
Como o quero:
- Como quem
Me espera com amor.
Vida não é vida
Nem valor, valor,
Se alguém lá do fim me não convida.
Esperar, porém,
É confiar num futuro
Que me não poderei dar.
Quem manda em quem?
Nada é seguro
Neste lugar.
É nas mãos deste porvir
De que não posso dispor
Que me vou pôr,
Que estou a ir…
125 – Funcional
A educação
Meramente funcional
Ignora que qualquer profissão
É inelutavelmente dual:
Ou mercantil
Ou sacerdotal.
Aquela, se o ter e o poder
For seu carril.
Esta, se o primeiro dever
For a comunidade universal
E lhe assumir, a todo o momento,
O humano desabrochamento.
126 – Apelo
Não, Deus, Deus, não sei o que é.
Se o soubesse, não seria,
Era a minha fantasia.
Mas, então, fica o problema de pé.
Porém, sei o que não é:
Sei que será sempre um não
Ao ser que os mais seres são.
É aquela presença activa
Além da vista ou sentidos
Que a palavra não cativa,
Onde os termos são mentidos.
Presença, mas não dum ser,
Antes para ser o apelo,
Para criar o que houver
De ser de modo singelo.
Deus é aquela liberdade
De ser alegre e sem prova
Além de qualquer verdade:
A força, a força que inova.
Oceano que me contém
A centelha provisória,
Ultrapassa-me de além
E assim me convoca à História.
127 – Múltiplas
A mesma fé,
Cruzando múltiplas culturas,
Gera múltiplas religiões.
O mesmo pé
Alimenta a rama de todas as verduras
De que, afinal, dispões.
Urge perder a ilusão
De que a única verdadeira
É a nossa religião,
Pois ignoramos então
O comum tronco das mais,
Até à derradeira.
Todas nem sequer serão demais
Para nos renovarem os sinais
A vida inteira.
128 – Perspectiva
A realidade nunca pode ser cativa
Duma só perspectiva:
Captá-la plena implica a exigência
De viver até ao fim
Dos outros a experiência
Dentro de mim.
129 – Missão
Combate toda a religião
O dualismo. Superar a exterioridade
É dela a primeira missão:
Um deus só de majestade,
Do homem segregado,
E não vivo e chagado
Em acto de perene criação,
Tal deus, não!
É a nossa chaga do lado,
Mata-nos no coração.
130 – Traslado
Hipótese e postulado
E o sentido aonde apontam
São meu íntimo traslado:
Quem sou eu é quanto contam.
Verificar, passiva,
A verdade positiva
Mui auto-suficiente,
Fora de nós, é, sem nós,
Buscar água da nascente.
Quando assim ficamos sós,
Morremos enquanto gente,
Morre a crença logo após.
Deus vai morrendo
Quando para a morte
O Homem for correndo:
Ambos têm unida a sorte.
Viver é amar, criar além
Da vida que se tem.
131 – Negação
A negação
De quenquer
Como é que se negaria?
- A teologia da revolução
Requer
A revolução da teologia.
132 – Postulado
Um postulado,
Apesar de indemonstrável,
Não tem nada de arbitrário:
Uma acção torna viável.
O valor é comprovado
Por um critério primário:
Verifico o efeito
Que dali me vem direito.
Se à vida quero um sentido,
Postulo que o tem de facto:
Então o efeito vivido
Pende inteiro de meu acto.
133 – Condição
Pára a minha liberdade
Onde a doutrem principia,
Tal como a propriedade
Na dos mais se estremaria.
Mas a liberdade não
É o limite
Que a minha trave e credite,
É a sua condição.
Minha liberdade que seria
Dos mais se fora vazia?
134 – Matriz
Trabalho é matriz de laços
Com a natureza.
Sacrifício é matriz de laços
Com o vizinho.
O amor, quando de humano se preza,
É do mundo inteiro o primeiro cadinho:
Enlaça de múltiplos modos
A Terra, o Universo e os homens todos.
135 – Amputação
Doutrem ter a precisão
É de mim não me bastar:
Já não sou para mim
Meu próprio fim.
Sofro duma amputação
Que só se há-de completar
Na complementaridade
Com outrem a que agrade:
Quer
Dum homem para uma mulher,
Quer, pois importa que se somem,
Duma mulher para um homem.
136 – Pedinte
O que leva a não morrer
É o amor
Entre o homem e a mulher.
Primeiro por ir transpor
Para a geração seguinte
A vida que vem detrás.
Depois porque, à solidão
Que quem nasce e morre traz,
Arranca o pobre pedinte
Que todos somos no chão.
É a participação
Naquilo que me ultrapassa
E não morre:
A próxima geração
E o sacrifício que enlaça
O sonho que por nós corre.
137 – Escravo
Metamorfoses e revoluções,
Eis como caminha a vida.
Quem de escravo viver as condições
Como escravo pensa e lida.
Se liberto, pensará
Como um homem livre pensa.
A grandeza da vida sempre está
Em que o escravo um dia se convença
De que a si próprio se liberta:
Como homem livre se cria,
Porta aberta
Tão inexplicável como a que num dia
Transforma, discreta,
Uma lagarta em borboleta.
138 – Revolucionário
Revolucionário não é alguém
Que como tal se designa,
A sério para que o tomem.
- Revolucionário é quem
Se não resigna
À desgraça do homem.
139 – Acúmen
A vida humana
É o acúmen do mundo.
Sob ódio, porém, nada emana,
Perde o valor mais fecundo.
Sob o homem habitual
Um outro se acobertou
Que de homem não dá sinal,
Sente e não pensa quem sou.
O ódio acorda o animal:
Se de vez não me anulou,
Quem sou eu, quem, afinal?
O que aqui me deu à luz
Ou o outro que mais seduz?
Ou nunca serei sequer
Aquele que devo ser?
Em mim que é que me traduz:
O que sou sem o querer,
O que não consigo ser,
Ou quanto, lento, em mim pus?
140 – Isolamento
Tanto de convívio me alimento
Que a mais partilhada ferramenta
Do mundo é o isolamento
Para dum preso extorquir, no final,
Do que intenta
A confissão total.
141 – Monumentos
Os monumentos
Mais admiráveis da cidade
Não se elevam dos cimentos
Nem de bronze entalham connosco a afinidade.
O melhor são as árvores e os parques,
Os jardins de pássaros e animais,
Os lagos que de peixes encharques…
- Só aqui de teus amores
Verás sinais,
Só aqui os encontras no que fores.
O mais,
Matéria morta,
A que vida te exorta?
142 – Lonjura
Num estrangeiro lugar
A saudade nos convida
A pesar quanto a lonjura não é leveira:
- Que bom encontrar
Uma cara conhecida
Quando alguém anda perdido em terra estrangeira!
143 – Ostra
Das verdades a verdade
Nunca nela a mão tu poisas:
Quem as invade
Nunca mais descobre as coisas.
Sai a pérola da ostra
Mas não pela descrição,
À voz duma explicação.
O que deveras nos mostra
No fundo o que as coisas são
Não requer prova ou amostra,
É pura contemplação.
Se lá chega o coração,
A mente não é precisa:
Ali mente é mente em vão
E nunca mais ajuíza.
144 – Aliena
O benefício material
Retirado à natureza
Pelo mundo ocidental
Alheia-nos da beleza
E aliena cada qual
Dos mais e de si também.
E o efeito mais concreto
É que o muro se mantém
Entre o sujeito e o objecto.
Esta via
Nunca leva ao que anuncia.
A inversa,
Aquém
Com o lado de lá conversa
E o fio dele retém
Como rumo a prosseguir
Se quisermos ter porvir.
145 – Tubos
Tubos em feixes de tubos,
Os homens não são esferas
Nem cubos,
São poliedros de eras e eras,
Tão complexos no final
Ante uma análise fina,
Que são sempre algo transcendental
Ao que alguém lá imagina.
146 – Derradeira
Dirá Deus a palavra derradeira
Sobre os príncipes da igreja?
- Se Deus não existir, é brincadeira,
Permitido será o que quer que seja.
E a verdade é que Deus jamais existe
Sob qualquer forma
Que a mente alguma vez tiver em riste,
Será o que for fora da norma.
Então,
Sem sentido definido,
Tudo será sempre em vão,
Já que tudo é permitido.
O que importa é que se veja
A conclusão primeira:
- Deus já disse nisto a palavra derradeira
Sobre os príncipes de qualquer igreja.
147 – Muralha
A muralha de concreto
Erguida entre tua igreja
E o negócio a que dás tecto
Bem queres que ninguém veja!
Como os contos fariseus,
Com uma das mãos afagas
O cordeiro de Deus.
Para engordar o tesoiro,
Com a outra, esconso, pagas
Ao bezerro de oiro.
148 – Antítese
Democracia-comunismo: antítese
Deveras emntirosa.
As verdadeiras antíteses darão a síntese
Que em tais simplismos não se entrosa.
A democracia à ditadura
Se opõe como figura.
Comunismo é socialismo extremista,
Nazi-fascismo é capitalismo extremista.
Como os extremos se tocam,
São tirânicos os dois,
Ditaduras desembocam
Do que são, logo depois.
Capitalismo tal qual socialismo
Podem ser dialécticos modelos
Que, se moderados, crismo
Como os que gritam apelos
Das insondáveis distâncias
Por que apelam nossas ânsias.
Ambos, pois, em termos práticos,
Por igual poderão ser democráticos.
Quando em sã competição
É que as mãos dão ao poder,
Os povos só lucrarão
Da emulação que isto der:
Este agora, após aquele
E o mundo em frente se impele.
149 – Enfermo
O meio termo
Não leva a parte alguma:
Prova a História que o enfermo
Não vive nem morre, em suma.
Partejar grandes mudanças,
Só quando com a violência
A colectividade alcanças
Na vastidão da existência.
Porém, a ideologia,
Quando transgride os limites
Da ética, brusca enuncia
Os mais desumanos palpites:
Quem é que a distinguiria
Do que ela, afinal, cortaria?
Dum meio,
Transmuda-la logo em fim:
No seio
Já não guarda mais lugar
Nem para mim,
Nem para o Homem caminhar.
150 – Corpo
Nada nem ninguém
Mais perto dum homem mora
Do que o corpo que ele tem:
Do nascimento à morte lhe demora.
Por quê, então,
Tratá-lo como um ladrão?
151 – Esconder
Maior que outro insulto qualquer
À nossa comum natureza,
É impedir a culpa de esconder
A cara por vergonha.
Porque demais a despreza,
Nem é um castigo sequer:
É alguém não ter onde se ponha.
Sendo que, ao invés, dele todo o não-ser
A todo o mundo permanente o exponha.
152 – Jovem
O jovem,
Não tendo ainda afundado raízes na terra,
Fáceis os ventos o movem
E, no pino da serra,
Quando a lonjura o convida,
Leve abandona a vida.
Como o santo,
Olha uma estrela
E, ao ver-se tão longe dela,
Morre por falta de encanto.
E a sequela
É mais de risco que de pranto.
É que na morte também
Busca um além:
Não é um desvio,
É a quebra final do fastio.
153 – Parco
Parco é o segredo
Que escapa ao investigador
Com ocasião, liberdade e credo
Para com arte se propor
Levantar a ponta do véu
Que encobre a cor
Do céu…
154 – Culpa
Quase tudo consigo
Excepto quando a culpa me invade:
A culpa traz consigo
A marca da fatalidade.
O que for, será:
E mais não há!
Só o arrependimento
E o perdão
Podem restituir-me nalgum momento
O chão.
155 – Jovem
As coisas se movem
Tanto a mando de tom velho
Como de novo tom.
Apenas o jovem,
Da vida sem o conselho,
Crê que o novo é sempre bom,
Seria aquele
Fogo que o mundo impele.
Nisto é que a idade
Será mestra da verdade.
156 – Credes
Credes que foi isto que Ele quis?
Que se encontra em doiradas catedrais,
Nos palácios onde residis?
Ele nunca vive em ambientes tais:
Mora no lar insuportável
Em que cair
Todo e qualquer miserável.
- E nunca de lá vai sair!
157 – Cadáver
Todo o cadáver é o mundo real,
Miserável, cheio de lama,
Manchado de sujidade.
Quem o ama
É que dum outro lado lá viu um sinal:
Atrás da máscara, a fugidia verdade.
158 – Impéro
Meu lar
É o império
Do ser,
Mas, enquanto não aceitar
Que a vida assenta no mistério,
Nada hei-de aprender.
159 – História
O homem que conta a própria história
Não é já quem a viveu
Quando a gravou na memória.
Distorções, deformações,
- Que sei eu? –
Eis o preço inevitável
De reviver os baldões
Da vida no que é evocável.
O mais estranho é que o fito
Desta desfiguração
É aprender neste conflito
O que a sério as coisas são.
160 – Íntegro
À medida que alguém
Íntegro e unificado devém
O sexo encontra a dimensão:
Os órgãos genitais são
Um serviço do ser completo.
Procriam do chão ao tecto
Por todas as esferas.
O que inaugura as novas eras
É o ente que o é por inteiro,
O amor carnal é pioneiro
Do espírito no desejo
Do amor e da harmonia:
Gerar no ventre é o ensejo
De me inaugurar qualquer dia.
161 – Isolado
Viver por inteiro isolado
E esquecer?
- Em nenhum lado
É viável nem sequer
Por um bocado.
Quem o tentou, falhou.
Tanto somos de fios o entrançado
Cordame prolongado,
Que ninguém jamais corta, como ameia,
O cordão que o liga à teia!
162 – Fim
Não ir até o fim
É o erro fatal do homem.
Assim
Todos se somem
Para nada.
A vida atraiçoada
É vogar na onda.
Empregamos a justificá-la,
Para que a vergonha se esconda,
O tempo e o engenho
Requeridos se houvera empenho
De quebrar a tala
E saltar fora da escala
A que me atenho.
Obedecer ao mundo tal como é,
Que falta de fé!
163 – Atento
O acto importante
Não é barulhento.
Quando tudo se desmorona e cai diante,
O acto mais atento
E com sentido
É ficar sentado,
Calado,
Tal como antes do ocorrido.
Quem for capaz
De dar corpo à verdade que traz,
Algo opera mais decisivo e sério
Que a derrocada dum império.
Gritar a verdade? Não é preciso.
Mesmo que o mundo se desmorone,
Resta na verdade um juízo
Que a abone.
E, quando o mais esquece,
A verdade permanece.
No princípio era o Verbo,
O Homem é que em acto o vem pôr:
Dos eventos no inextricável acervo,
É o homem o acto, não o actor.
164 – Já
Superficial,
A ciência entristece o homem;
Total,
O amor arrebata o anjo.
Juntos, ambos consomem
As melodias que tanjo.
Infinda,
A ciência procura ainda;
Repousando do voo,
O amor ja encontrou.
Um novo pressentimento
Dum amor de verdade
-E um homem é um invento
De eternidade!
165 – Gratuito
Desejas-me, logo não amas.
O meu amor é gratuito,
Perfeito desinteresse.
Eleva-te às alturas donde chamas,
Donde os homens se vêem no fortuito
Areal que os aquece.
Grãos de areia na praia
Minúsculos e apinhados,
Repara neles e desmaia
Na vertigem de que somos estes dados.
Confuso, treme, treme e te reduz,
Até te afundares no vórtice da luz.
166 – Uno
Do mais vasto até dos mundos ao menor,
Da galáxia ao ínfimo átomo da criação,
Cada coisa é um ser único, de valor,
Sem repetição.
Porém, quando a todas reuno,
Reparo que tudo é uno.
Debaixo dos céus,
É o lado de cá de Deus.
167 – Diário
Um diário é uma viagem
Sem paragem,
De seguida:
…À imagem
Da vida!
168 – Curativo
O papel curativo da arte,
No autor, no fruidor,
É que o elemento pessoal, narcísico, se reparte
Dissolvido no universal.
A confissão do narrador
Mergulha-o, insensível e lenta,
Na actividade humana total.
Quando inventa,
Donde parte
É da compreensão difusa
De que a vida que recusa
Ela própria é também arte.
Então, gradualmente,
Com tudo e todos se cruza,
Definitivo presente!
169 – Recanto
A religião
De mim vai talhar um santo
Ou só um bom cidadão.
Quem entreabre um humano recanto
E até ao âmago o invade
É apenas a liberdade.
É terrível para aqueles que viveram
A vida aos bocados
E perderam e perderam,
Mentalmente algemados.
É a única porta, a liberdade,
Para algum dia não ter idade.
170 – Amordaçado
É muito engraçado
Que as palavras de menor uso
Jamais caiam em desuso:
O menos escrito e mais amordaçado
É o mais bem sabido em clandestino abuso.
Universalmente conhecidas,
Nenhuma idade, nenhuma condição
As ignora, mais ou menos travestidas,
- Como ninguém ignora o pão.
171 – Olímpica
A olímpica chama
Que o grande atleta busca
Arde já dentro e o chama
Bem antes da prova à justa
Em que o mundo inteiro o aclama.
Leva-o a ser o melhor
Como o seu melhor a dar
Sempre, seja qual for
O mais alto patamar.
- O desporto como a vida
Quer aquela chama erguida.
172 – Sorte
A sorte não atropeles,
Defende bem frente e lados,
Na vida não faças sala.
A sorte bafeja aqueles
Que se encontram preparados
Para aproveitá-la.
173 – Aparência
Do livro quando a ambição é ser impresso,
Quando por ele a ciência
Estudei na Faculdade,
Aprendi o processo
De tomar a aparência
Pela realidade.
Tornei-me um excesso
De falsidade.
Um outro livro me convida
Ao regresso
À verdade:
- A vida!
174 – Seca
Vamos à biblioteca,
Vamos à Universidade?
Quando pode, porém, árvore seca
Insuflar vitalidade?
Não é tudo, não.
Mas que enormes desertos ali vão!
175 – Quinhão
É o homem tanto melhor
Quanto maior o quinhão for
De sonho que lhe convém
E de dor
Ultrapassada
Em cada topada
Também.
176 – Laço
Contigo um ano passo
E é mais um laço
Que nos prende,
Que nos rende.
Contigo me purifico,
Fazes parte de meu ser,
Já não sou mais eu sequer
Com que dentro de mim fico.
A mais estranha evidência
A que chego, por fim,
É que és minha consciência,
Mais tu que eu dentro de mim.
177 – Brasa
Ninguém te vê, mulher,
E sinto-te em toda a casa.
Aquece-la para quenquer,
Uma inextinguível brasa
Presente em toda a parte
E sempre, sempre a meu lado.
Do ar que respiro ou tens arte
Ou és Deus que aqui anda disfarçado.
178 – Acção
Conheço a planta pela flor,
A vinha, pelo cacho
E o homem, pelo que for
A atitude que nele acho.
Quando nada fizer,
Deixa-o a si próprio entregue:
Mal adregue
Estará, mesmo sem querer,
A acontecer.
179 – Primordial
Há uma só doutrina,
Primordial,
De origem divina,
Tão simples, tão banal,
Que todos a entendem.
Por isso não satisfaz
Os que contendem
Na humanidade:
É que ela traria a paz.
Então, a vaidade
De cada qual construiu
O que distingue o teu do meu,
De modo a semear a terra
De guerra.
Dogmas e teologias,
Cismas e teses vazias
De sentido
E com tanta excomunhão