Escolha um número aleatório entre
221 e 328 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
221 – Horizonte em devir ao porvir certo
Horizonte em devir ao porvir certo
Descubro, a cada passo, nas extremas
De meus campos de arroteio, quando os lemas
Procuro que me acabem o deserto.
Toco assim todos os temas
Que, longe e perto,
Afinal manterão sempre desperto
O olhar que da escória me peneira as gemas.
Enquanto este horizonte se não fecha
Sou a flecha
A visar a cumeeira aonde aponte.
E no voo
Sei bem que sou
Mero sonho selvagem que anda a monte.
222 – Esquema
Quando os cães saltam
Para a nossa cama
São pessoas que lhes faltam:
O cão ama.
Quando os gatos saltam
Para a nossa cama,
São cómodos que assaltam:
O gato trama.
Neste esquema tosco,
A nossa inteira gama:
- O cão adora estar connosco,
O gato adora a nossa cama!
223 – Portão
Um trabalho que lhe importa,
Tempo livre e rendimentos
Com que ele os custos suporta
São bastantes elementos
Para que a felicidade
Abra o portão
Que convém com mais verdade
A qualquer filho de Adão.
224 – Indispensável
A parte mais indispensável
Da felicidade
É não ser jamais viável
Na totalidade.
Jamais ter
Tudo quanto se quiser
É o pão e o vinho
De qualquer
Sonho a caminho!
225 – Fragilidade
A fragilidade
Marca quanto valho
De felicidade.
Frágil é o prazer,
Gotinha de orvalho:
- Só de rir, morrer!
226 – Grau
Que boa, a recordação desagradável!
Torna-me feliz
Só porque há um nada era o mais miserável,
Por motivos imbecis.
Tudo é questão de grau:
O bom e o mau
De vez e de raiz,
Quem de tal se apercebeu
Jamais desde então os quis
Nem sentiu.
Assim é que a felicidade
Mora à beira
Até da fatalidade
Duma urna de madeira.
227 – Jóias
Entre as jóias mais estimadas
Que alguém
Inefáveis retém
Vão as palavras jamais pronunciadas.
Ou porque, ditas,
Seriam malditas,
Ou porque ao imo, de fora,
Toda a palavra é traidora.
228 – Diferenciação
Entre a realidade
E qualquer ficção
Onde se pôr há-de
Diferenciação?
É que à ficção é exigido
Que tem de fazer sentido!
A luz é aquele presente
Em que em nós mora a parcela
De Deus.
Se agora ficar ausente
Do íntimo atrás da tela,
Dos céus
Aqueles bocados
Andam sendo assassinados.
E, se eu não vir uma estrela,
Morro com ela.
230 – Emigrantes
Dos emigrantes a primeira vaga
Atrai sempre a compaixão.
A segunda já quase que é uma praga
Para aquilo que lhe darão.
A seguir
Ninguém
Sequer já tem
Licença para existir!
231 – Altura
Nunca ninguém é feliz
Na própria altura.
Só mais,
Muito mais tarde é que o sentis.
- E então, que loucura,
É tarde demais…
232 – Vermes
O homem morre.
Fica a cama onde morreu,
A casa e os bens permanecem…
Ah, destruir tudo,
A vida que corre
Indiferente ao que ocorreu
E os mais que o esquecem
Sobretudo!
Morre o homem…
Ai os vermes do tempo que nos comem!
233 – Ela
Ela não ri
Porque me deseja.
Aquela ali,
Quenquer que seja
Na própria epiderme,
Não me quer bem: quer-me!
234 – Namorada
Pobre namorada,
Como fui tão mau com ela!
Decente, bem penteada,
Agradável…
- Ficou doravante e para sempre aquela
Menina assim tão amável
Só porque agora nem sequer
Eu jamais a poderei ver!
235 – Vê
Quando se trata de mim
Ninguém vê, ninguém vê nada.
Talento assim
De nada ver na jornada
É o que leva ao frenesim.
De mim olhas através,
Sorris por cima de mim,
Falas-me e nunca me vês,
Que tudo me passa ao lado…
Finjo não me dar cuidado:
Não me vês? Finjo não ver…
Sei lá bem se isto é maneira,
Se é sério, se é brincadeira…
- É o nosso modo de ser!
236 – Inferno
Teu inferno
É não ter o que desejas?
Para alguns é o cibo eterno
Da vida:
A corrida
Ao que almejas.
Ter o que amamos
É sentir a todo o instante
Nosso bem desagregar-se.
Pó de oiro que deslizamos
Entre os dedos que, adiante,
Nos foi puindo o disfarce
Até que o tecido esgarce.
A coragem de abrir mão,
De abandonar o tesoiro
Ninguém jamais tem de vez.
Em troca se apertarão
Mais os dedos e o desdoiro
Grita, suplica, soez.
Para conservar o quê?
Um vestígio precioso
No côncavo eco do gozo
Que prometeu e não é.
Mão vazia, a mão vazia
É o que resta ao fim do dia.
237 – Suspenso
Desejar-te-ei sucessivamente
Como fruto suspenso,
Água distante,
Casinha feliz e ausente
Que roço de leve quando penso,
De passagem, num descante.
Em cada um dos lugares
De meus desejos errantes
Abandono sombras aos milhares
Em tudo a mim semelhantes,
De mim desfolhadas
Na espiga quente e azul destas colinas,
No vale de sombra cheio de chapadas,
Nas aves e na vela finas
A voarem ventos e vagas.
Tu ficas com as sombras mais que afagas,
Puras, nuas, ondulantes e que acato
Destas ervas a agitar-se no regato.
O tempo, ao fim, diluirá tudo,
Depois de meus passos me deterem mudo.
238 – Crónica
Minha crónica interior,
De crueza e de amargura,
Ferocidade e traição,
De prepotência e de amor,
- Crónica tal não procura
Do papel lavrar o chão.
Seria preso,
Degolado, esquartejado.
Não ficava o escrito ileso,
Antes era requeimado,
Não fora o vezo
De alguém fazer-lhe traslado.
A verdadeira verdade
Proclamar-se jamais há-de.
Dos lábios as palavras nunca são
O que fita o coração.
239 – Perversão
A longa continuidade
Da dominação
Gera, com naturalidade,
A perversão.
Uma Igreja outrora
Um Deus, um rei…
Uma cultura agora,
Uma técnica, a mundial lei…
Fora da Igreja
Não há salvação,
Fora do ocidente não há civilização…
O invés por mais que veja
Nunca o tomo em consideração.
Fora de minha verdade,
O erro:
A autenticidade
Noutrem é defeito.
Ainda e sempre me aferro
Ao povo eleito:
Hebreu, cristão, ocidental…
É a fonte, em cascata,
Do mal
Que nos mata.
240 – Rosto
No Oriente como no Ocidente
Não pode deixar Deus de estar:
Ambos a Deus pertencem.
Os que disto se convencem,
Qualquer que seja a direcção do olhar,
Verão sempre em frente,
Crentes ou ateus,
O rosto de Deus.
241 – Teia
É a teologia
Que abafa Deus
Quando na teia o desvia
Dos conceitos que são os seus.
Como o mal
É o moralismo,
Que sempre dele afunda no abismo
A moral.
- Ambos do dedo confundem a ponta
Com o horizonte para onde ele aponta.
242 – Sigilo
Não é sigilo
Que às vezes cortamos o voo:
O cristianismo, por exemplo, é aquilo
Que Jesus condenou.
Houve apenas um cristão,
Morreu na cruz.
Viver hoje o que viveu então
Jesus,
A vida como a conduziu
O que na cruz morreu,
Só isto é o tema,
Só isto é o lema,
Só isto é cristão.
Nunca qualquer sistema:
Cristianismo, cristianismo
É a queda no abismo!
243 – Arena
Rejeitar a reflexão
Sobre os fins ou o sentido
Mutila-me a dimensão
Que transcende o que é vivido.
Não vai ser o mundo então
Mais do que a arena sangrenta
Onde se confrontarão
Aqueles que o poder tenta:
Quem quer crescer visa em vão.
Ou sou pássaro voador
Ou então
É o equilíbrio do terror.
244 – Veneno
Cristianismo e moralismo
Deram a beber veneno
Ao erotismo:
Não cai morto no terreno,
Adoece e degenera
Em vício.
É o suplício
Para quem não acolhera
O homem na totalidade.
Esta é a verdade:
Demónio o sexo devém
Só quando por deus se tem.
Com naturalidade
Se fora acolhido,
Era apenas um sentido
Entre os mais
Que do homem ao homem dão sinais.
245 – Sacrificar
Sacrificar só vale a pena a vida
Quando não há um outro modo.
A morte é preferida
Ao desprezo de quem amamos por todo
E qualquer nosso engodo.
Não que a vida se despreze,
Mas apenas que é preciso
Que a si próprio se respeite cada qual, se preze
E que a si venha a impor juízo.
Ora, é o amor, o amor de quem queremos
Que nos deu o ser que temos.
Perdido,
Que mais na vida faz sentido?
246 – Remorso
Por um tempo largo
Julguei a vida o bem supremo.
Enganei-me e pu-la a cargo
Das liberdades que quero e temo.
Em que sou mais livre, porém,
Se não posso recomeçar,
Voltar para junto de quem
Principia a ousar?
Tantas coisas me ensinaram!
Ninguém me ensinou que o remorso,
De quantas prisões me encarceraram,
É aquela que mais forço.
247 – Vexames
Nunca a esquerda considera
Vexames como fatais,
Logo à partida lidera
Protestos, motins, demais
Manifestações que tais.
Organiza todo o ano
Conluios contra o tirano.
A direita, pela ordem,
Quer que nada jamais mude
Na desordem existente.
Assim é que sempre mordem
As pernas de quem se ilude
Os cães, a ferrar o dente.
A virtude
Não vem duma ou doutra ideologia,
É apenas a da via
Que nos vá tornando gente.
Tudo o mais é indiferente.
248 – Dando
Haverá melhor maneira
De provar minha amizade
Do que dando ao meu amigo?
Do abismo tirando-o da beira
Com o dom que o persuade
A viver, que tem abrigo?
O rico que abandonar
Um amigo
Só para ficar seguro
De que não lhe entra no lar,
Da fortuna ao pascigo,
Não há justificação que valha
Ao que dele apuro:
- É um canalha!
249 – Verme
Todo o bicho, mesmo o verme,
Ama deveras a liberdade.
Dos vermes o mais inerme,
O Homem,
Ama-a com mais verdade,
Que dela tem consciência.
E quanto mais lhe domem
Dos movimentos
A independência,
Mais da liberdade a consciência
Lhe acresce no meio dos tormentos.
250 – Ultrajada
Quem amar a liberdade
E a vir partir ultrajada
Mantém a esperança de que há-de
Vê-la, tarde ou cedo, retornada.
Tão penoso lhe é viver
A ausência de ser.
251 – Desempregado
Se nem para me explorar
Me querem em parte alguma,
Desempregado,
Como me irei encarar?
Forçam-me a que me resuma
Em ter no mundo a mais andado.
Despedido, não,
Era andar em contramão.
Isto é uma despedida:
Não tenho nenhum direito à vida.
252 – Fatiga
Procurar trabalho, esperançoso e leveiro,
Sem o encontrar
Custa mais que trabalhar
Um dia inteiro.
O trabalho
Fatiga.
Porém, o que mais me afadiga
É quando já nem sei para que valho.
253 – Repórter
O repórter de qualidade
Noticia apenas factos.
Mas deles os pressupostos e os impactos
Quais serão, de verdade?
É que um facto é um icebergue
Cuja ponta descoberta
Esconde o que o fundo albergue:
Dez vezes mais neve encoberta.
É do facto o invisível,
Submerso no mar de interesses,
Que o torna mais credível:
Egoísmos e apetites,
Abscônditas benesses,
Mais mistérios e desquites
Em que a natureza humana
Mais funda que o mar emana.
O repórter verdadeiro
É quem busca o facto inteiro
E então este jamais é
Apenas quanto se vê.
254 – Lascívia
Há olhares de lascívia
Que deixam tão viscoso o ar
Que não há lixívia
Que o logre lavar.
Ferem-nos no centro
E então, em vez de modos ternos,
Começam a apodrecer-nos
Por dentro.
255 – Farda
Para alguns oficiais
Uma farda
É um adjectivo
Que qualifica aquele que guarda,
Sem mais.
- Quando é um mero substantivo
Comum
Que não tem valor nenhum.
256 – Maniqueísta
No pensamento, primário,
Nas escolhas, um sofista,
No imaginário, a ilusão,
-Um revolucionário
É um maniqueísta
Obcecado pela acção.
Ele, o bem; o resto, o mal:
- Eis, por junto, quanto vale!
Entretanto, mortos pelo chão,
Os milhões que já lá vão!
257 – Intelectual
Ao agir sente-se mal
E mal, se fica parado
Do povo ante a perdição:
- Um intelectual
É um condenado
Por definição.
258 – Óscares
Dos óscares a entrega:
Mil milhões de pares de olhos
A entrar na refrega
Dos loiros e dos abrolhos.
Todos vendo a fantasia
Doutra fantasia em volta,
Mentira que mentiria
A anterior mentira à solta.
Triunfo supremo
Do mundo de faz-de-conta:
Com a glória não atremo
Senão noutrem em que aponta.
Por trás, porém,
Do espectáculo de tolos,
Há a fábrica a que convém
O lucro que dão tais bolos.
E, se tudo é fantasia
Naquilo que vejo à frente,
Aqui, não, o lucro é o guia,
Só que o ninguém vê nem sente.
259 – Jardim
Em tua casa, um jardim.
Periódico, teu pai corta a grama,
Estende o jasmim,
Poda as árvores e acama
A rama
Podada, ao fim.
Que lindo o jardim, que lindo!
Fotografa-lo em cores,
Comendo, bebendo, rindo
Entre as árvores e as flores…
Com ele, porém, não comungas jamais,
Não és íntimo dele,
Não meditas na grama, nas frutas, nos pardais,
Não o metes na pele.
Só cuidas em comprar
Maior conforto,
Bancos, mesas a enfeitar,
Uma piscina a meio do horto,
Estatuetas, pedestais…
E o teu jardim incompreendido:
Um estranho perdido
Para nunca mais…
260 – Eclesiástico
Para salvar a igreja
No tempo histórico
Um eclesiástico que se veja
Arriscará, pletórico,
Perder a alma na eternidade:
É um mártir da obscenidade.
É por causa deste nojo
Que se inçaram de tojo
Os matagais da humanidade.
261 – Disforme
Disforme como nasci,
Como podia não iludir-me
Com a mente que em mim vi?
Por mais que de dons bem firme,
Velaria meu defeito
Como a fantasia o vela
No peito
Duma donzela.
Porém, quando a janela
Exterior
Se fechou
Como é que do pássaro interior
Alguém surpreende o voo?
Se é bom que me não conforme,
- Mau será que mal me informe,
Por mais triste
Que seja o que em mim existe.
262 – Falsa
A infelicidade
Duma vida falsa
É roubar substância à realidade
E de sentido acabar descalça.
A verdade é que nos cercaria
De alimento e de alegria.
A falsidade
Torna falso o Universo
E a quem ela persuade
Tudo entre os dedos lhe escoa disperso.
No fim, ele,
Revelado à falsa luz,
Na vaga sombra que induz
Abandona a própria pele.
263 – Tirania
O público, à tirania afeito,
Nega a justiça vulgar
Se exigida como um direito.
Da justiça em lugar,
Quando o apelo a ela é feito,
Como do déspota quer a vaidade,
Coloca o apelo à generosidade.
Assim é que o modo e não o conteúdo
Aqui decidem tudo.
264 – Apenas
Procuro apenas os feios,
Os miseráveis tolhidos pelos arreios,
Os mesquinhos
Sem pão, nem água, nem caminhos,
Os sofredores
De todas as dores.
Agora, porém,
Padres, bispos, cardeais e o papa também
São imponentes, orgulhosos,
Iguais a quaisquer outros poderosos.
Não são, não,
As pessoas que Ele amou.
O cristianismo é anti-cristão,
As igrejas tolheram-lhe o voo.
No meio deste vazio
Como retomar o fio?
265 – Ardente
Algures, no coração,
Mora o desejo ardente
De alguém ter por toda a vida,
Mesmo que seja um mero cão
Sujo e doente
Que acabe sendo a noiva prometida.
Alguém que nunca traia,
Nunca nos abandone,
Nunca da berma nos saia,
Mesmo credor, nos abone…
Tornou-se Ele o nosso cão
Por amor à Humanidade:
Já não caminhamos em vão.
Sempre ao lado, persuade,
De cada pegada guia,
- Que aqui Tudo principia.
266 – Suicídio
O suicídio moral
É muito mais fácil, muito mais:
Adaptar-se à vida real,
Como os demais…
- Em vez de obrigar o mundo, qualquer dia,
A ser como deveria.
As coisas são como são
Apenas porque eu sou em vão.
Estou aqui, de facto estou…
- O problema é que não sou!
267 – Herói
Um herói, antes de mais,
É quem vence o próprio medo.
Os sinais
Não são dum credo:
É que ele é um só com a vida
E consigo, uma unidade,
- Da vida encarna a corrida.
E é o cobarde que, em verdade,
Nos entrava a lida.
268 – Estação
Ninguém avança vida fora
Em linha recta,
Muitas vezes a demora
Não é na estação correcta.
Por vezes tropeçamos, senis,
E saltamos dos carris.
Quantas vezes nos perdemos,
Ou levantamos voo e desaparecemos
Em pó,
Confundindo solidão com ficar só.
As viagens mais incríveis,
Ocorrem, se calhar,
Pelas vias mais credíveis
De quem não sai do lugar.
Vivem alguns em minutos
O que o vulgo levaria
Uma vida, em seus produtos,
A viver dia por dia.
Um sem número alguns gastam
De vidas na decorrência
De estados em que se afastam
Da dependência.
A vida é mesmo insondável,
Em todos ou num apenas,
E mostra-se inesgotável
Até nas coisas pequenas.
269 – Versões